Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça

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1 Acórdãos STJ Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça Processo: 200/06.0JAAVR.C1.S1 Nº Convencional: 3ª SECÇÃO Relator: SANTOS CABRAL Descritores: ADMISSIBILIDADE DE RECURSO DECISÃO QUE NÃO PÕE TERMO À CAUSA QUESTÃO INTERLOCUTÓRIA DUPLA CONFORME DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO DOCUMENTAÇÃO DA PROVA NULIDADE INAUDIBILIDADE DA PROVA COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA MATÉRIA DE DIREITO VÍCIOS DO ART. 410º Nº 2 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL CONHECIMENTO OFICIOSO FUNDAMENTAÇÃO HOMICÍDIO PRIVILEGIADO COMPAIXÃO DIMINUIÇÃO SENSÍVEL DA CULPA COMPREENSÍVEL EMOÇÃO VIOLENTA DESESPERO CO-ARGUIDO GRAVIDEZ MORTE FETO ATENUAÇÃO ESPECIAL DA PENA ILICITUDE CULPA IMAGEM GLOBAL DO FACTO DIREITO À VIDA MEDIDA CONCRETA DA PENA PREVENÇÃO GERAL PREVENÇÃO ESPECIAL PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE BEM JURÍDICO PROTEGIDO DOLO DIRECTO Nº do Documento: SJ Data do Acordão: Votação: UNANIMIDADE Texto Integral: S Privacidade: 1 Meio Processual: RECURSO PENAL Decisão: NEGADO PROVOIMENTO Sumário : I - Havendo uma decisão que não pôs termo à causa está abrangida pela regra da irrecorribilidade imposta pela al. c) do n.º 1 do art. 400., por referência da al. b) do art. 432., ambos do CPP. É evidente que o acórdão recorrido contém outras decisões que puseram termo à causa e susceptíveis de recurso para o STJ. Todavia, tratando-se, sem dúvida, de uma questão interlocutória, a circunstância de não ter sido objecto de recurso autónomo não lhe confere recorribilidade fundamentada na circunstância de as restantes poderem ser objecto de recurso para o STJ. Como se considerou, por exemplo, no Ac. de , Proc. n.º 1752/05-5.ª, embora a questão interlocutória acompanhe a decisão final, pode e deve ser dela cindida, sendo que sobre ela até já se formou dupla conforme. II - Este entendimento, respeitando a garantia constitucional do duplo grau de jurisdição, está em perfeita consonância com o regime dos recursos traçados pela Reforma de 98 para o STJ que obstou, de forma clara, ao segundo grau de recurso, terceiro grau de jurisdição, relativo a questões processuais ou que não tenham posto termo à causa. A excepção é a prevista na al. c) do art do CPP, à qual não é subsumível a hipótese em apreço. III - Por igual forma, a reforma introduzida pela Lei 48/87 consagra no art. 432.º, n.º 1, al. d), a 1/38

2 regra de que as decisões interlocutórias que devem ser apreciadas pelo STJ são unicamente as que devam subir com as als. b) e c). IV - Nos termos do art. 363.º do CPP, as declarações prestadas oralmente na audiência são sempre documentadas na acta sob pena de nulidade art. 363.º do CPP. No caso vertente, as declarações prestadas encontram-se devidamente documentadas e a patologia situa-se a um outro nível, resultando da circunstância de não poderem ser percebidos, ou entendíveis, os registos relativos às perguntas formuladas pelo mandatário da recorrente. O que se passa não é uma deficiência, ou irregularidade de funcionamento do equipamento utilizado, com consequência a nível do produto final a documentação mas algo que lhe é exógeno, ou seja, as próprias características do som emitido e que deve ser documentado. V - A questão não é a existência de qualquer vicio na documentação da prova mas sim, e a montante, o facto de não terem sido criadas as condições para a melhor gravação de um segmento especifico prova, devido às características próprias de voz de quem declarava, do emitente, e isto por circunstâncias alheias ao acto material em que a mesma se consubstancia. A deficiente audição da prova que se encontra gravada só poderá constituir um vicio processual desde que a mesma seja substancial ao mesmo acto, e não a seu montante ou jusante, e, ainda, que se concretize na impossibilidade técnica do seu reaproveitamento pelos meios técnicos existentes. Aliás, a partir do momento, em que as declarações estejam documentadas a sua percepção é tão-somente uma questão de tecnologia empregue, nomeadamente da maior ou menor sofisticação que a mesma encerra. VI - O recurso para o STJ visa exclusivamente o reexame das questões de direito, sem prejuízo do conhecimento oficioso dos vícios referidos no art. 410.º, n.º 2, do CPP. Assim, precisando conceitos sedimentados em relação ao invocado vício da sentença importa precisar que o CPP 87 trata os vícios previstos no art. 410.º, n.º 2, do CPP como vícios da decisão, e não de julgamento. Nesta disposição estamos em face de vícios da decisão recorrida, umbilicalmente ligado aos requisitos da sentença previstos no art. 374.º, n.º 2, do CPP, concretamente à exigência de fundamentação que consta da enumeração dos factos provados e não provados, bem como uma exposição tanto quanto possível completa, ainda que concisa, dos motivos de facto e de direito que fundamentam a decisão, com indicação das provas que serviram para fundamentar a convicção do Tribunal. VII - Consubstancia-se, assim, o mesmo recurso num recurso de revista ampliada configurando a possibilidade que é dada ao tribunal de recurso de conhecer a insuficiência para a decisão da matéria de facto provada quando a decisão de direito não encontre na matéria de facto provada uma base tal que suporte um raciocínio lógico subsuntivo; de verificar uma contradição insanável da fundamentação sempre que através de um raciocínio lógico conclua que da fundamentação resulta precisamente a decisão contrária ou que a decisão não fica suficientemente esclarecida dada a contradição entre os fundamentos aduzidos; de concluir por um erro notório na apreciação da prova sempre que para a generalidade das pessoas seja evidente uma conclusão contrária à exposta pelo tribunal. VIII - Questão distinta, a abordar em sede própria, é a da discordância da recorrente em relação à valoração da prova. Porém, o juízo sobre tal valoração exorbita o âmbito do presente recurso. IX - A recorrente invoca a compaixão como fundamentador de um privilegiamento resultante da aplicação do tipo legal de crime previsto no art. 133.º do CP. Numa primeira abordagem sobre a matéria do referido normativo importa desde logo traçar a fronteira entre os diversos fundamentos do homicídio privilegiado. É certo que todos os elementos elencados no referido normativo estão sujeitos a um critério fundamental de afirmação de uma diminuição sensível da culpa o que, sob a aparência de uma linear limpidez, tem dado origem a divergência em termos doutrinais. X - Em nosso entender a actual redacção do art. 133.º retira qualquer margem de dúvida na afirmação de que estamos perante uma diminuição do grau de culpa e, consequentemente, do nível de exigibilidade. Como refere o Professor Figueiredo Dias, o referido art consagra hipóteses de homicídio privilegiado em função, em último termo, de uma cláusula de exigibilidade diminuída legalmente concretizada. A emoção violenta compreensível, a compaixão, o desespero ou um motivo de relevante valor social ou moral privilegiam o homicídio como se tomou definitivamente claro na redacção de 95: "que diminuam" e não, como anteriormente, "que diminua" quando e apenas quando "diminuam sensivelmente" a culpa do agente. Esta diminuição não pode ficar a dever-se nem a uma imputabilidade diminuída, nem a uma diminuída consciência do ilícito, mas unicamente a uma exigibilidade diminuída de comportamento diferente. XI - Do que se trata, em último termo, é, ainda na opinião de Figueiredo Dias, que 2/38

3 subscrevemos, da verificação no agente de um hoje dogmaticamente chamado, em geral, estado de afecto. Estado que pode, naturalmente, ligar-se a uma diminuição da imputabilidade ou da consciência do ilícito, mas que, independentemente de uma tal ligação, opera sobre a culpa ao nível da exigibilidade. XII - Não há, por isso, na opinião do mesmo Mestre, que se subscreve, razão bastante para distinguir no preceito dois grupos de hipóteses um que englobaria a compreensível emoção violenta, a compaixão e o desespero, outro que abarcaria os motivos de relevante valor social ou moral. Porventura para considerar que este último grupo, diversamente do primeiro, ganharia ainda um qualquer relevo ao nível do tipo de ilícito. Ou, de um outro ponto de vista, para considerar que seriam diferentes, num caso e noutro, os fundamentos do privilegiamento: no primeiro a diminuição da capacidade psicológica do agente, no segundo o princípio da exigibilidade. XIII - Na verdade, também a compreensível emoção violenta, a compaixão e o desespero privilegiam, não quando afectam o poder de resistência do agente à pulsão interior (o indiferenciado "poder de agir de outra maneira"), mas apenas quando diminuem de forma sensível a exigibilidade de outro comportamento e são por conseguinte, tal como o motivo de relevante valor social ou moral, elementos exclusivamente atinentes à culpa (ou, se se quiser, ao tipo de culpa) do agente. XIV - Tal qual como sucede com a ideia da exigibilidade como componente da culpa jurídico-penal, o efeito diminuidor da culpa ficar-se-á a dever ao reconhecimento de que, naquela situação (endógena e exógena), também o agente normalmente "fiel ao direito" ("conformado com a ordem jurídico-penal ") teria sido sensível ao conflito espiritual que lhe foi criado e por ele afectado na sua decisão, no sentido de lhe ter sido estorvado o normal cumprimento das suas intenções. XV - Assumido que, em qualquer um dos fundamentos do referido artigo, a diminuição do grau de culpa é o critério essencial importa agora precisar que os estados, ou motivos, assinalados pela lei não funcionam por si e em si mesmos (no sentido de automaticamente), mas só quando conexionados com uma concreta situação de exigibilidade diminuída por eles determinada; neste sentido é expressa a lei ao exigir que o agente actue "dominado" por aqueles estados ou motivos. Estamos em crer que em função da actual redacção do normativo é liminar a conclusão de que o fundamento do tratamento privilegiado resulta da circunstância de o agente matar em função de um estado de coisas que permite concluir que a sua capacidade de determinação de acordo com a lei está sensivelmente afectada, uma vez que a sua vontade está condicionada por qualquer um daqueles estados. XVI - A partir desta convergência de denominador comum irradiam, num segundo momento, as diferenças sobre a forma como se projectam os diversos pressupostos do privilegiamento o que, aliás, é evidente na equação do requisito da compreensibilidade. Na verdade, este requisito representa uma exigência adicional relativamente ao puro critério de menor exigibilidade subjacente a todo o preceito. Sem deverem ser omitidas as dificuldades desta concepção deve considerar-se que a compreensibilidade assume ainda um qualquer cunho objectivo de "participação" do julgador nas conexões objectivas de sentido que moveram o agente. Fica deste modo ainda espaço autónomo de funcionamento do critério de menor exigibilidade ("sensível diminuição da culpa"). Que se exija da emoção violenta que seja compreensível, mas já não se exija o mesmo da compaixão ou do desespero, é coisa que se aceita quando se considere que aquela exigência adicional vale para estados de afecto esténicos, mas já não para estados de afecto asténicos. XVII - A compaixão está prevista como forma de privilegiamento por ser reveladora de um certo altruísmo do agente em relação à vítima, o que torna o seu facto menos censurável. Este sentimento traduz uma atitude de piedade para com a vítima o agente actua como que por um acto de misericórdia, mostrando-se solidário com a situação da vítima. Esta ideia pressupõe que o agente interiorize o sofrimento daquela, e se deixe motivar com pena dela, ao matar está a fazê-lo num intuito de aliviar a vítima da pressão do sofrimento em que esta se encontre. Está subjacente a esta causa de privilegiamento o interiorizar da situação de outra pessoa, a actuação envolve um certo aliviar de sofrimento em que a vítima se encontra, mas também para o agente, pelo que representa para si aquele sofrimento. Ele deixa-se influenciar por esse facto, e é levado a matar como forma de aliviar toda a situação. Ao contrário da primeira circunstância, a compaixão não surge como uma emoção, não advém de um estado de perturbação, mas como uma razão. Todo este contexto pressupõe uma certa proximidade e mesmo intimidade entre o agente e a vítima. XVIII - Para que se possa aceitar a menor exigibilidade causada pela compaixão, o comportamento em que o agente se encontra tem de ser dominado por essa atitude de 3/38

4 compaixão, e tem de afectar o seu estado normal de compreensão de forma a motivar a diminuição da culpa. Não estamos em presença de um simples acto de dó para com a vítima, é necessário, para que possamos falar de menor exigibilidade, que a situação seja para o agente suficientemente forte para se tornar para ele intolerável, por sofrer ele próprio com a situação do outro. O sentimento de compaixão é sempre manifestado para com a própria vítima, e pretende constituir solução para fazer cessar o estado de sofrimento em que aquela se encontra. Não basta, portanto, um simples acto de pena, é necessário que o seu sentimento tenha força suficiente para tornar o facto menos exigível. Em última análise falamos da profunda pena; do imenso desgosto com a dor do outro, o qual é por tal forma intenso que impele a vontade no sentido de que a morte da vítima é o único caminho para terminar com o seu sofrimento. XIX - No caso vertente não se provou que a actuação da arguida fosse pautada por qualquer um dos motivos invocados. À indeterminação da génese da sua vontade não pode equivaler uma especulação infundamentada, e sem consistência, sublinhando uma diminuição de culpa que não se demonstra. Na verdade, no ponto fundamental dos factos provados, considerou-se que em circunstâncias não apuradas, as arguidas acordaram entre si pôr fim a uma gravidez, o que a arguida A já pretendia desde que tomara conhecimento da concepção, mas que não concretizara por falta de meios económicos. Assim, após prévio e comum acordo, as arguidas decidiram esperar pelo final de um dia de trabalho da arguida A, em que ela ali ficasse sozinha para, no estabelecimento, provocarem o parto e matarem o feto. Aonde, perguntamos nós, se vislumbra o estado de alma afectivo da recorrente em relação à situação da co-arguida? Manifestamente que inexiste qualquer fundamento que permita integrar a conduta da recorrente no privilegiamento do normativo citado. XX - O facto de se afastar a integração nos elementos constitutivos do crime de homicídio privilegiado não afasta a consideração sobre uma eventual aplicação do regime de atenuação especial. Como refere Figueiredo Dias a questão é ainda saber se, sempre que o juiz considere verificados os pressupostos de que depende o privilegiamento, deve necessariamente renunciar a uma atenuação especial da pena. O princípio geral de proibição de dupla valoração de que o disposto no proémio do art. 71, n.º 2, constitui apenas uma manifestação, proíbe que o mesmo substrato considerado para integração do art seja de novo valorado para efeito de atenuação especial da pena. Mas é evidente que, para além dos elementos descritos no art. 133., podem no caso convergir outros e diferentes elementos relevantes para efeito dos arts. 71. e 72. (v.g., o do art. 72.º, n.º 2). Nada impede nestes casos que, determinada a medida da pena face ao art. 133., aquela seja depois especialmente atenuada face às regras especiais de determinação da pena contidas nos arts. 72. e 73.. XXI - Acrescentaremos nós que, por igual forma, o facto de inexistirem factos configuradores do privilegiamento não impede que os factos provados apontem no sentido da atenuação especial. Importa, porém, acentuar que o instituto em causa tem por fundamento o facto de que o legislador, ao dispor sobre a moldura penal para certo tipo de crime, ter de prever as mais diversas formas e graus de realização do facto, desde os de menor até casos de maior gravidade. Porém, para ter em conta situações pessoais do agente em que a prevenção geral não imponha, e a prevenção especial não exija, uma pena a encontrar nos limites da moldura penal do tipo e em que se verifique um afastamento crítico entre o modelo formal de integração de uma conduta em determinado tipo legal e as circunstâncias específicas que façam situar a ilicitude ou a culpa aquém desse modelo, a lei dispõe de um instituto que funciona como instrumento de segurança do sistema: a atenuação especial da pena com os pressupostos do art. 72.º do CP. XXII - Pressuposto material da atenuação da pena, autónomo ou integrado pela intervenção valorativa das situações exemplificativamente enunciadas, é a acentuada diminuição da culpa ou das exigências de prevenção. Mas, acentuada diminuição significa casos extraordinários ou excepcionais, em que a imagem global do facto se apresenta com uma gravidade tão específica ou diminuída em relação aos casos para os quais está prevista a fórmula de punição, que possa razoavelmente supor-se que o legislador não pensou em tais hipóteses quando estatuiu os limites normais da moldura do tipo respectivo. XXIII - A atenuação especial da pena só pode, pois, ser decretada (mas se puder deve sêlo) quando a imagem global do facto revele que a dimensão da moldura da pena prevista para o tipo de crime não poderá realizar adequadamente a justiça do caso concreto, quer pela menor dimensão e expressão da ilicitude ou pela diminuição da culpa, com a consequente atenuação da necessidade da pena vista a necessidade no contexto e na realização dos fins das penas. No caso vertente não vislumbramos onde se possa alcançar 4/38

5 uma conclusão sobre aquela diminuição. Na verdade, não existem factos que a suportem. XXIV - Não se ignora uma profunda transformação de valores que informaram a sociedade nos últimos anos, na qual a defesa de direitos absolutos, como é o direito à vida, começou a fazer-se em fronteiras cada vez mais recuadas, admitindo-se mesmo, em certas circunstâncias, um balanceamento de direitos que é inadmissível para quem considere o respeito pela vida humana como valor absoluto e inquestionável. Porém, o pairar desta nova ambiência, portadora de uma ideia de relatividade de valores que, em alguns casos, não é mais que a anomia, não pode ignorar o facto de que, no caso vertente, nasceu um ser humano. XXV - Se o mesmo sobreviveu um segundo, ou horas, é perfeitamente indiferente para a afirmação da existência de um bem intocável a vida sobre o qual nenhuma das arguidas podia ter outra a atitude que não ajudar a viver. Não foi essa a opção e se, no caso da recorrente, é uma atitude sem sentido de violação do Direito, no caso da co-arguida acresce, ainda, a sua posição de mãe. Não existe motivo para qualquer atenuação especial da pena. XXVI - Relativamente à agora convocada dissensão em matéria de medida de pena importa precisar em primeiro lugar que a fixação da pena dento dos limites do marco punitivo é uma acto de discricionariedade judicial. Sem embargo, esta discricionariedade não é livre, mas sim vinculada aos princípios individualizadores que, em parte, não estão escritos, mas que radicam na própria finalidade da pena. XXVII - Nunca é demais acentuar o papel da culpa como critério fundamentador da medida da pena, ao invés da preponderância que alguns, outorgam à prevenção geral, colocando-a acima da retribuição da culpa pelo delito quando é esta, na realidade, que justifica a intervenção penal. Na verdade, as normas deveriam ser reafirmadas na sua própria existência como um fim em si mesmas enquanto o agente, pelo contrário, tem direito a esperar, e espera, sobretudo uma resposta ao facto injusto e culposo que cometeu. Realçando-se a prevenção como critério fundamental desvanece-se, com prejuízo da justiça individual, a orientação que o Direito penal faz da responsabilidade do agente pela sua acção. XXVIII - Sem embargo, a culpa e a prevenção residem em planos distintos. A culpa responde à pergunta de saber de se, e em que medida, o facto deve ser reprovado pessoalmente ao agente, assim como qual é a pena que merece. Só então se coloca a questão, totalmente distinta da prevenção. Aqui há que decidir qual a sanção que parece apropriada para introduzir de novo o agente na comunidade e para influir nesta num sentido social-pedagógico. A culpa é a razão de ser da pena e, também, o fundamento para estabelecer a sua dimensão. A prevenção é unicamente a finalidade da mesma. XIX - Torna-se fundamental a necessidade de ponderação entre a gravidade da culpa expressa no facto e a gravidade da pena. Ao cometer um crime, o agente incorre na sanção do Estado, no exercício do seu direito de punir e esta sanção poderá importar uma limitação de sua liberdade. Uma das principais ideias presentes no princípio da proporcionalidade é justamente, invadir o menos possível a esfera de liberdade do indivíduo, isto é, invadir na medida do estritamente necessário à finalidade da pena que se aplica porquanto se trata de um direito fundamental que será atingido. XXX - É certo que a determinação da concreta medida definitiva da pena tem sempre presente pontos de vista preventivos. Dado que o parâmetro da culpa representa um estádio na determinação da medida definitiva da pena, a sua dimensão final fixa-se, também, de acordo com critérios preventivos dentro dos limites impostos pela culpa. Também neste contexto a proibição de excesso tem uma importância determinante. Segundo o mesmo, importa eleger a forma de intervenção menos gravosa que ofereça perspectivas de êxito e, assim, é possível que a dimensão concreta da pena varie dentro dos limites da culpa segundo a forma como se apresenta a concreta imagem de prevenção do autor. XXXI - Na verdade, as penas têm de ser proporcionadas à transcendência social mais que ao dano social que assume a violação do bem jurídico cuja tutela interessa prever. O critério principal para valorar a proporção da intervenção penal é o da importância do bem jurídico protegido porquanto a sua garantia é o principal fundamento da referida intervenção. A necessidade de proporcionalidade constitui também uma exigência do Estado democrático: um direito penal democrático deve ajustar a gravidade das penas à transcendência que para a sociedade têm os factos a que se ligam. Exigir uma proporção entre delitos e penas não é, com efeito, mais que pedir que a dureza da pena não exceda a gravidade que para a sociedade possui o facto punido. XXXII - Em termos redutores dir-se-á que a proporcionalidade entre a medida da pena e o 5/38

6 Decisão Texto Integral: crime que implica uma retribuição pelo mal praticado pelo arguido é uma exigência da comunidade que só assim pode, e deve, aceitar a justiça encontrada no caso concreto. XXXIII - Voltando ao caso dos autos, e ponderando esta lógica, a pena aplicada à co arguida B não é exemplo e muito menos o será quando pensamos numa culpa intensa desenhada pela sua condição de mãe. Aliás, em termos de prevenção geral, a sobrevalorização de razões menores com factor de menorização da culpa é um poderoso incentivo para que obstáculos menores sejam vistos quase como justificantes da conduta e exclusão da culpa do crime de homicídio. XXXIV - Considerando a culpa como sendo critério fundamental na determinação da medida da pena, e no que concerne aos factores de medida da pena no caso concreto, estão os mesmos devidamente inscritos na pena aplicada. Estas equacionam devidamente a determinação do fim das penas no caso vertente e na sua tríplice dimensão de justa retribuição da culpa, de contribuição para a reinserção social do arguido em sede de prevenção especial, e neutralização dos efeitos negativos da prática do crime em sede de prevenção. Para todos os efeitos a arguida cometeu o crime mais grave do ordenamento jurídico e ofendeu o mais precioso dos bens: a própria vida. O desmerecimento e a relatividade de valores que atravessam a sociedade não atingiram ainda a consideração que a vida do ser humano merece por parte da sociedade (pelo menos após o nascimento). XXXV - Tal ofensa processou-se em relação ao mais desprotegido dos seres o recémnascido, incapaz de qualquer gesto de defesa e lutando pela sobrevivência. E se em relação à mãe se poderá colocar, em abstracto, a questão da patologia da formação da personalidade que leva a valorizar a sua consideração social e familiar perante o instinto materno, o certo é que em relação à recorrente tal questão não se coloca. À mesma nem sequer se exige que colocasse o seu conhecimento de vida ao serviço de uma tentativa de desviar a co-arguida do seu impulso homicida, mas tão só que não actuasse em conjunção de esforços, matando um ser em relação ao qual nenhuma relação existia. XXXVI - Ao actuar por tal forma as duas arguidas trataram um ser humano, pois que é disso que falamos, como um objecto sem valor e descartável. Quer na forma de execução do crime quer no comportamento exterior negando a prática do crime não vislumbramos qualquer razão para uma compressão ou atenuação da pena aplicada. XXXVII - Em sede de tipo de culpa salientou-se a forma acabada de dolo directo. A intensidade da culpa na relevância para a medida da pena é, por alguma forma indicada na forma como a arguida coadjuvou e integrou o processo executivo, assumindo um papel essencial. No processo de formação da vontade que conduziu à tentativa de homicídio nenhum elemento existiu que pudesse provocar uma perturbação intelectual ou volitiva nas faculdades mentais da arguida. É grande a intensidade da ilicitude evidenciada pelos actos praticados e a mais grave possível a sua consequência. A pena aplicada à arguida de 9 anos de prisão não merece qualquer crítica. Acordam no Supremo Tribunal de Justiça AA veio interpor recurso da decisão do Tribunal da Relação de Coimbra que manteve a sua condenação, como co-autora material, pela prática de um crime de homicídio simples, p.e p. pelo artigo 131. do C. Penal, na pena de 9 (nove) anos de prisão. São as seguintes as razões de discordância expressas nas conclusões da respectiva motivação de recurso: Da nulidade decorrente da deficiente documentação da prova Da inconstitucionalidade do art. 363 do CPP( interpretado e aplicado como o faz o Douto Tribunal da Relação de Coimbra) Da nulidade do Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra por omissão de pronúncia 1ª) Nos termos do disposto no art. 363 do Código de Processo Penal, as declarações prestadas oralmente na audiência são 6/38

7 sempre documentadas na acta, sob pena de nulidade. 2ª ) Esta nulidade verifica-se não apenas quando tal documentação tenha sido omitida, mas também nos casos em que essa documentação de mostra deficiente, ao menos quando essa deficiência comprometa seriamente o sentido e a compreensão do teor daquelas declarações. 3ª) No caso dos autos, por dificuldades técnicas na gravação, encontra-se seriamente comprometida a documentação do depoimento do Exmo. Sr. perito-médico, Dr. BB, inquirido em sessão de audiência do dia 14 de Janeiro de ª ) Esta deficiência na gravação põe em causa, no entender da arguida, ora Recorrente, um seu direito fundamental - o direito ao recurso em matéria de facto - e constitui uma nulidade ( cfr. art do Código de Processo Penal) que expressamente e para todos os efeitos legais, deixou arguida junto do Tribunal da Relação de Coimbra. Sucede. no entanto que 5ª ) Reconhecendo não ser possível perceber, em toda a sua extensão, o que foi dito, aquando da inquirição em causa, particularmente as intervenções do Ilustre Mandatário da arguida, ora Recorrente, o entretanto infelizmente falecido, Dr. CC, não admite, porém, o Douto Tribunal a quo a existência da invocada nulidade- decisão esta, tomada em 1a Instância pelo Tribunal da Relação, com a qual não se conforma a Recorrente Na verdade 6ª ) Ouvidos os suportes digitais da gravação da audiência de julgamento, verifica-se que resultam imperceptíveis praticamente todas as questões colocadas a tal perito-médico pela defesa da arguida, ora Recorrente 7ª ) Esta deficiência da gravação coloca em causa, salvo devido respeito por diferente opinião, o direito de defesa da arguida, limitando-a no que diz respeito, designadamente, ao recurso em matéria de facto, verificando-se, sem dúvida, a suscitada nulidade. 8ª ) Decidindo de forma diversa violou o Douto Tribunal da Relação de Coimbra a disposto no art. 363 do Código de Processo Penal. 9ª ) Tratando-se aquela de uma nulidade parcial, deverá ser repetida a produção da prova no que diz respeito ao mencionado depoimento, deficientemente documentado (cfr. art. 122, nº1 do Código de Processo Penal). 10ª ) Termos em que deverão os autos baixar ao Tribunal de Primeira Instância - devendo ser ordenada a repetição da inquirição do identificado perito- médico - o que desde já se requer. 11ª ) A norma do art. 363 do Código de Processo Penal, 7/38

8 interpretada e aplicada no sentido em que o faz o douto Tribunal da Relação de Coimbra, isto é, de que não é nula a documentação das declarações prestadas oralmente em audiência de julgamento. mesmo quando de tal documentação, resulta não ser possível perceber. em toda a sua extensão o que foi dito, sempre seria materialmente inconstitucional, por violação do disposto no art. 32, nº 1 da Constituição da República Portuguesa, isto é, por violação do direito constitucionalmente consagrado ao recurso, mormente em matéria de facto - inconstitucionalidade esta que aqui expressamente, e para todos os efeitos legais, se deixa arguida. Acontece Que 12ª ) No ponto 19 da sua fundamentação de recurso suscitava a Recorrente, junto do Tribunal da Relação de Coimbra, a questão inconstitucionalidade material- questão essa replicada e invocada novamente na conclusão 48 das reformuladas conclusões de fls. 13ª ) Sobre esta questão não se pronunciou, em momento algum, ou Douto Tribunal a quo. 14ª ) É, pois, nulo o douto acórdão recorrido, por omissão de pronúncia, nos termos do disposto no art. 379, nº 1, alínea c) do Código de Processo Penal - nulidade que expressamente e para todos os efeitos legais aqui se deixa arguida. Do erro notório na apreciação da prova (art. 410, nº 2, alínea c) do CPP) 15ª ) Por acórdão proferido em 18 de Maio de com um voto de vencido, diga-se- pelo Tribunal de 1ª Instância, foi a arguida, ora Recorrente, condenada como co-autora material, pela prática de um crime de homicídio simples, p. e p. pelo art. 131 do Código Penal, na pena de 9 ( nove),anos de prisão, decisão esta confirmada, em recurso, pelo Tribunal da Relação de Coimbra. 16ª ) Com esta decisão não se conforma a arguida - de onde o presente recurso. De facto 17ª) Do próprio texto do douto acórdão de 1ªinstância,conjugado com as regras da experiência comum e critérios de normalidade, decorre que os factos considerados provados nunca poderiam ter acontecido como descritos naquele mesmo texto. Com efeito 18ª ) Conjugando os factos dos pontos 8, 9, 10, 11, 12 e 15 - dados como provados - e o próprio texto da motivação daquele acórdão ( cfr. fls. 8, 10 e 13 ), verifica-se que deu Tribunal de 1a Instância por assente que todo o processo de desencadeamento do trabalho de parto, o próprio parto, e todos os actos subsequentes, destinados à ocultação do mesmo ocorreram num período de 8/38

9 1h30 minutos (entre as 17h30 e as 19 horas do dia 9/9/2006- o que, segundo as regras da experiência comum e critérios e normalidade, não é possível. 19ª ) Ao decidir desta forma, incorreu tal Douto Tribunal num erro notório na apreciação da prova (cfr. art. 410, nº 2, alínea c) do Código de Processo Penal), erro este que é do conhecimento do Supremo Tribunal de Justiça ( cfr. art. 434 do mesmo diploma legal). 20ª ) Termos em que, verificado tal erro, deverão os presentes autos ser reenviados para novo julgamento - o que desde já se requer, ao abrigo do disposto no art. 426, nº 1 e 2 do Código de Processo Penal. Da determinação da medida concreta da pena Da ( in ) iustiça relativa das penas aplicadas às arguidas Da atenuação especial da pena aplicada à Recorrente 21ª ) Por acórdão proferido pelo Douto Tribunal Colectivo de 1a Instância foram ambas as arguidas condenadas como co-autoras materiais de um crime de homicídio simples, p. e p. pelo art. 131 do Código Penal. Sucede que 22ª ) Tendo a pena da arguida DD sido especialmente atenuada, ao abrigo do disposto nos arts. 72, nº 1 e 73, nº 1, alíneas a) e b) do mesmo diploma legal, foi a mesma condenada na pena de Quatro anos de prisão, suspensa por igual período de tempo. 23ª ) Já a arguida AA, ora Recorrente, não beneficiando da mesma atenuação especial, foi condenada na pena de nove anos de prisão. 24a ) Em mais do dobro da pena aplicada á arguida DD, portanto 25ª ) Ancorou-se tal decisão, designadamente, no facto de a DD ser uma jovem de 27 anos, algo perdida, solteira, que escondeu a gravidez a familiares e amigos, que se sentia desamparada e sem apoio, designadamente do pai da criança, e sem capacidade para assumir sozinha a gravidez perante os seus familiares, designadamente o seu pai, que não aprovava a relação da arguida com o pai da criança. 26ª ) Valorou ainda o Tribunal Colectivo o facto de esta arguida ter confessado os factos praticados e ter mostrado arrependimento. 27ª ) Já quanto à arguida AA, resultou provado da audiência de / julgamento tratar-se de uma senhora com 60 anos de idade, primária, não lhe sendo conhecido qualquer comportamento criminoso ou sequer desviante. Na verdade 28ª ) Apurou tratar-se de uma senhora doméstica, mãe de duas filhas e avó de três netos, de modesta condição económico-social, 9/38

10 mas perfeitamente inserida no seu meio de residência, local onde todos a conhecem e onde todos a estimam, vivendo com o marido, reformado por invalidez, do qual é a exclusiva prestadora de cuidados, tendo ela própria uma saúde fragilizada, padecendo de problemas ósseos e neurológicos, com alguma tendência para a depressão, motivo pelo qual leva uma vida caseira, raras vezes saindo à rua ( cfr. designadamente, o relatório social de tis. 633 e seguintes ). Acontece Que 29ª ) Se se pode, de alguma forma, atender às razões subjacentes ao comportamento da arguida DD, o certo é que era ela, e não a AA, ora Recorrente, a mãe da criança morta. 30ª ) Significa isto que recaía sobre a DD um dever jurídico de garante relativamente à pessoa da sua filha que não recaía (que não recai) sobre a arguida AA. 31ª ) Daí que o desvalor da conduta daquela seja muitíssimo mais elevado, por comparação com o desvalor da conduta imputada à arguida AA. 32ª ) Razão desde logo para condenar a DD em pena mais grave que a pena aplicada à AA, ou, no mínimo, para não condenar esta última em pena mais gravosa do que a aplicada à primeira. 33ª ) Condenando-as, respectivamente, a quatro e nove anos de prisão, violou assim o Tribunal ad quem, designadamente, o disposto no art. 71 e 72 do Código Penal. Por outro lado 34ª) Decorre, no entanto, do ponto 6 de tal fundamentação que a AA não terá agido por motivações económicas. 35ª ) Segundo o Ilustre Procurador da República junto do Tribunal de 1a Instância, na sua resposta ao recurso interposto pela arguida, a fls. 885 dos autos, parece, aliás, manifesto que a sua motivação não era o dinheiro que pediu mas de que prescindiu quando a arguida DD lhe disse que não tinha possibilidades de pagar, mas sim a missão de ajudar/salvar a arguida DD, o que explica que lhe tenha dado o crucifixo que recebera da avó com o fim específico de a proteger e salvar (negrito e sublinhado nossos). 36ª ) Afigura-se, pois, evidente que a arguida AA, ora Recorrente terá agido por compaixão, a pedido e por solicitação da DD. 37ª ) Se é certo que, no caso dos autos, a ilicitude do seu comportamento é elevada, também é certo que, pelas razões apontadas, se deve reconhecer uma acentuada diminuição de culpa da arguida AA, que justificaria, por si só, a atenuação especial da pena aplicável (cfr. art. 72, nº 1 e nº 2, alínea b) do Código Penal). Acresce ainda que 38ª ) Atento tudo quanto acima fica exposto e que resultou 10/38

11 provado em audiência de julgamento, afigura-se manifestamente REDUZIDA A NECESSIDADE DA PENA. 39ª ) Face a um caso como os dos autos, há, evidentemente, que restabelecer a confiança da comunidade na vigência e validade das normas jurídicas violadas, restaurando, dessa forma, a paz jurídica. 40ª ) E se entendemos que o ponto óptimo da medida da pena, atentas as necessidades de prevenção geral que, no caso, se fazem sentir, se deva fixar nos nove anos de prisão em que a arguida AA foi condenada, também não esquecemos que a pena concreta deve ser determinada dentro de uma moldura da prevenção, moldura que, no seu limite máximo, será determinada por aquele ponto óptimo mas que, no seu limite mínimo, será determinada por aquela pena ainda capaz de satisfazer aquelas necessidades de prevenção geral que julgamos dever ser fixada nos quatro anos de prisão ( pena concreta aplicada à arguida DD ). 41ª ) Será então, no interior desta moldura da prevenção, com o limite mínimo de quatro anos e com o limite máximo de 9 anos, que será fixada a pena concreta a aplicar à arguida, atentas agora as necessidades de prevenção ESPECIAL do caso em apreço. Ora 42ª ) Atento tudo quanto resultou provado relativamente à arguida AA, ora Recorrente, tais necessidades de prevenção especial serão poucas ou nenhumas. Com efeito 43ª ) A arguida viveu, até à data da prática dos factos a que se reportam os presentes autos, 60 anos de uma vida impoluta, encontrando-se perfeitamente integrada familiar e socialmente. 44ª ) Só circunstâncias absolutamente extraordinárias e fora do vulgar a levaram a praticar os factos dos autos. 45ª ) É de acreditar, com razoável grau de previsibilidade que, até ao fim dos seus dias, não voltará a cometer qualquer crime. 46ª ) De onde, dentro da mencionada moldura penal, a pena concreta deva ser fixada muito próximo do seu ponto mínimo, justificando-se, também quanto a esta arguida, uma ATENUACÃO ESPECIAL DA PENA, a qual deverá ser fixada, em concreto, em montante idêntico ao da pena aplicada à DD, e, à semelhança do decidido quanto a esta arguida, SUSPENSA NA SUA EXECUCÃO. Com efeito 47ª ) Face aos 60 anos de vida impoluta da arguida AA - uma vida devotada à família, ao marido, às filhas, aos netos - não será difícil formular, quanto à mesma, um JUIZO DE PROGNOSE FAVORÁVEL,ou concluir que a simples censura do 11/38

12 facto e ameaça da prisão realizariam. neste caso concreto. de forma adequada. as finalidades da punição. 60ª ) Não o tendo feito, violou o Tribunal a quo o disposto nos arts. 40, Nº 1 e 2, 71, nº 1 e 2, 72, nº 1 e 2 e, bem assim, nos arts. 50 e seguintes e 40, nº 1 e 2, todos do Código Penal. Respondeu o Ministério Público advogando a manutenção da decisão recorrida. Nesta instância o ExºMº Sr. Procurador-geral adjunto emitiu proficiente parecer constante de fls 1074 e seguintes advogando a improcedência do recurso. Os autos tiveram os vistos legais Cumpre decidir Em sede de decisão recorrida encontra-se provada a seguinte factualidade: 1. No período compreendido entre Dezembro de 2005 e finais de Fevereiro de 2006, a arguida DD e EE mantiveram relações sexuais de cópula completa, em número de vezes não apurado. 2. Em consequência das relações de sexo mantidas com o EE, aquela arguida veio a engravidar, tendo tomado conhecimento dessa gravidez durante o mês de Abril de A arguida DD escondeu a sua gravidez de familiares e amigos e, quando a barriga começou a crescer, passou a dizer a quem a questionava acerca de uma possível gravidez que tinha uma doença do foro oncológico que lhe provocava aquele crescimento. 4. Em finais de Julho ou inícios do mês de Agosto de 2006, a DD começou a trabalhar num estabelecimento comercial denominado Loja dos.../..., situado na Av..., n...., na Gafanha da Nazaré, pertencente a FF, à qual também escondeu a sua gravidez. 5. Por sua vez, a arguida AA era cliente habitual daquele estabelecimento, onde passou a contactar com a DD tendo-lhe, também perguntado se ela estava grávida, ao que esta terá respondido afirmativamente. 6. Então, em circunstâncias não apuradas, as arguidas acordaram entre si pôr fim àquela gravidez o que a arguida DD já pretendia desde que tomara conhecimento da concepção, mas que não concretizara por falta de meios económicos. 7. Assim, após prévio e comum acordo, as arguidas decidiram esperar pelo final de um dia de trabalho da arguida DD, em que ela ali ficasse sozinha para, no estabelecimento, provocarem o parto e matarem o feto. E, sabendo que a proprietária da loja estaria ausente, para um casamento, no dia , e sabendo ainda que o termo normal de gestação estava próximo, as arguidas combinaram que provocariam o parto naquele dia, como veio a acontecer. 12/38

13 8. Então, cerca das 17:30 horas, do dia , a arguida AA dirigiu-se ao estabelecimento comercial, Loja dos.../... na Av..., na Gafanha da Nazaré, área desta comarca, onde aguardou que os clientes que ali estavam saíssem. 9. Posto isto, quando estavam as duas arguidas sozinhas no estabelecimento, fecharam a porta e a AA deu um comprimido à DD, que esta tomou, e aplicou-lhe uma injecção no braço esquerdo, ambos os medicamentos não identificados e que provocaram sangramento vaginal à arguida DD, ficando ela com as cuecas e as calças que vestia sujas de sangue. 10. De seguida foram as duas para a casa de banho do estabelecimento e, por meios não concretamente apurados, a AA provocou o parto à DD, que ali mesmo deu à luz uma criança, de termo, do sexo feminino, com 2250 Kg; 38 cm de comprimento; 29 cm de perímetro torácico, 30 cm de comprimento céfalo caudal, 32 cm de perímetro cefálico, cabelos escuros e íris cinzenta. 11. A recém-nascida nasceu com vida, tendo respirado após o parto e, com o consentimento e conforme o acordado com a DD, a AA por forma não concretamente apurada comprimiu as vias respiratórias da menina, asfixiando-a e provocando-lhe a morte, como era propósito de ambas as arguidas. 12. Após isto, a arguida AA reuniu todas as peças de vestuário que a DD tinha usado e que estavam sujas, e demais objectos que se sujaram com sangue daquela intervenção, bem como a criança e a placenta e colocou tudo dentro de 3 sacos de plástico, de lixo, de cor preta, colocando um deles dentro de um balde de plástico, de cor vermelha com asa branca, posto o que foi atirar tudo para dentro de um contentor do lixo situado na Av..., próximo da Loja dos.../ Aqueles sacos continham o seguinte: Um deles continha o cadáver do recém-nascido, do sexo feminino; um saco/embalagem de seis sacos plásticos de 100 L de capacidade, vazio, da marca Sibina; uma calça de criança, tamanho 4, nas cores branco e rosa, com debruado azul e motivo na perna direita em bordado azul com lantejoulas; duas flores artificiais; e diversos toalhetes; Outro saco continha, um saco da Loja dos.../... contendo uma cruzeta plástica branca; urna espiga seca (flor decorativa); uma embalagem plástica com conjunto de roupa de criança AeBAI fashion, tamanho XL, com nota manuscrita colada com os dizeres "guardado até 1 de Junho, juntar chinelos n. 29, menino"; uma embalagem aberta de toalhetes da marca Salustar Baby Clean; um cartão interior de rolo de papel higiénico; um calção em malha de algodão com motivos florais em tons verdes ou azuis; uma pantufa infantil, tamanho 20/21, da marca Velero, de cor branca com cabeça de rato em peluche; 13/38

14 O terceiro saco continha, um tapete de casa de banho em cruzeta plástica, de fibra 100%, polipropilene, de cor rosa, ref." com as letras 'Gran..."; uma camisa de noite, tamanho M "Peng Di", n. U45B, em cor branca, com dizeres, decote e cavas, cor-de-rosa; diversos toalhetes; papel higiénico; penso diário; papel de cozinha; umas calças de ganga azul, marca Salsa, tamanho 30, sujas de sangue entiepemas; uma blusa de alças, marca Gruppo Lu -, tamanho L, com bordados de motivos infantis na frente; duas toalhas de bidé, cor salmão, com etiqueta "100% coton/ Made in U.E."; uma blusa de manga comprida, carcela no peito com três botões, com bordados de motivos florais à frente e atrás, cor branca, marca Blue Fashion, tamanho L, com etiqueta de preço (3,50 ) colada no interior na aba direita; uma t-shirt de cor amarela, marca Líber Fashion com dizeres a preto; uma cueca em xadrez preto/branco, marca Poko Pano, com pedaços de papel higiénico na zona vulvar. 14. Todos aqueles objectos apresentavam vestígios de origem hemática e/ou biológica. 15. A AA lavou a maior parte do sangue que se encontrava no local onde procedeu ao parto e aguardou juntamente com a DD que os pais desta a fossem buscar de carro ao local de trabalho, dizendo ao pai dela que a levasse ao hospital pois a DD estava a sentir-se mal e tinha perdido sangue, o que esta recusou. 16. Antes dos pais da DD chegarem ao estabelecimento, a AA deu àquela um crucifixo metálico, com 4 cm de altura, com figura e argola fixa no topo e disse-lhe para o trazer com ela junto ao peito, -conforme viria a ser encontrado na posse desta. 17. Em exame efectuado ao estabelecimento comercial Loja dos ".../...", pela Polícia Judiciária ali viriam a ser recolhidos os vestígios biológicos descritos no relatório de fls. 47, que aqui se dá por reproduzido para os efeitos legais, e foi verificada a existência de artigos de igual natureza aos encontrados dentro do contentor do lixo. 18. Nos vestígios hemáticos, e tecido biológico, recolhidos nos objectos encontrados no contentor do lixo e na casa de banho, que foram submetidos a exame pericial, melhor descritos e examinados no relatório de fls. 217 a 224, que aqui damos por reproduzido para os efeitos legais; foi detectada a presença de perfil genético da arguida DD e do recém-nascido encontrado morto no contentor do lixo. 19. As arguidas agiram ambas após prévio acordo, de forma livre, deliberada e consciente, sabedoras que as suas condutas eram proibidas e punidas por lei. 20. As arguidas pensaram cuidadosa e ponderadamente no modo de execução daquele plano, aguardando o momento próprio para concretização do mesmo por cerca de quinze dias. 14/38

15 21. A arguida DD sentiu-se durante a gravidez desamparada e sem apoio, designadamente do pai da criança, e sem capacidade para assumir sozinha a gravidez perante os seus familiares, designadamente o seu pai, que não aprovava a relação da arguida com o pai da criança. 22. A arguida DD mostra-se arrependida dos factos praticados e sofrida pela sua vivência, revelando-se hoje uma pessoa mais "madura". 23 A arguida DD é bem considerada por aqueles que com ela privam. 24. As arguidas não têm antecedentes criminais. 25. As arguidas são de modesta condição económica e social. 26. A arguida DD Carol tem o 12 ano incompleto, vive com os pais e trabalha no apoio domiciliário a uma idosa, auferindo mensalmente 430, A arguida DD tem o apoio dos pais e encontra-se inserida socialmente. 28. A arguida AA tem a 4" classe, é doméstica, vive com o marido da reforma deste no montante de cerca de 650,006 mensais, tem duas filhas maiores, ambas com família constituída. 29. A arguida AA é bem considerada, por aqueles que com ela privam, tida como boa mãe e avó. Foram estes os factos provados e mais nenhum outro se provou, com relevância para a decisão da causa, designadamente não se provou: a)- que a AA agiu daquela forma, de modo frio e apenas pelo prazer de matar. I A primeira questão suscitada pela recorrente prende-se com a nulidade decorrente da deficiente documentação da prova Fundamentando tal invocação refere a recorrente na motivação de recurso que:18 - Reconhecendo não ser possível perceber, em toda a sua extensão, o que foi dito, aquando da inquirição em causa, particularmente as intervenções do Ilustre Mandatário da arguida, ora Recorrente, o entretanto infelizmente falecido, Dr. CC, não admite, porém, o Douto Tribunal a quo a existência da invocada nulidade, por no seu entender, as partes que não são perceptíveis respeitarem a algumas intervenções sobrepostas comuns a qualquer gravação de audiência e sem significado no conjunto de depoimento do perito médico, que é, sem margem para dúvidas, bem explícito Com esta decisão não se conforma a Recorrente. Na verdade 20 - Ouvidos os suportes digitais da gravação da audiência de julgamento, verifica-se que resultam imperceptíveis praticamente todas as questões colocadas a tal perito-médico pela defesa da arguida, ora Recorrente, consequência, quiçá, do reconhecido" 15/38

16 vozeirão" do seu malogrado defensor, Ilustre Causídico que foi o Dr. CC Esta deficiência da gravação coloca em causa, salvo devido respeito por diferente opinião, o direito de defesa da arguida, Limitando-a no que diz respeito, designadamente, ao recurso em matéria de facto, 22 - Não podendo, de forma alguma, o tribunal de recurso conformar-se, como faz, com o facto de não ser completamente impossível entender aquilo que aí foi dito pela pessoa em causa. Com efeito, 23 - A prova só se encontra suficientemente documentada quando, da documentação da mesma, seja possível entender completamente tudo aquilo que é dito por qualquer pessoa ouvida em audiência de julgamento 24 - Não já quando, da mesma documentação, não seja completamente impossível de entender o teor do seu depoimento. Entendemos que, na parte que recaiu sobre esta matéria, o acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra é insusceptível de recurso. Com efeito, trata-se de decisão que não pôs termo à causa e, como tal, abrangida pela regra da irrecorribilidade imposta pela alínea c) do nº 1 do art 400, por referência da alínea b) do art 432, ambos do CPP. É evidente que o acórdão recorrido contém outras decisões que puseram termo à causa e susceptíveis de recurso para o Supremo Tribunal de Justiça. Todavia, tratando-se, sem dúvida, de uma questão interlocutória, a circunstância de não ter sido objecto de recurso autónomo não lhe confere recorribilidade fundamentada na circunstância de as restantes poderem ser objecto de recurso para este Tribunal. Como se considerou, por exemplo, no Ac. de 22.09,05, p. nº 1752/05-5, embora a questão interlocutória acompanhe a decisão final, pode e deve ser dela cindida, sendo que sobre ela até já se formou dupla conforme. Este entendimento, respeitando a garantia constitucional do duplo grau de jurisdição, está em perfeita consonância com o regime dos recursos traçados pela Reforma de 1998 para o Supremo Tribunal de Justiça que obstou, de forma clara, ao segundo grau de recurso, terceiro grau de jurisdição, relativo a questões processuais ou que não tenham posto termo à causa. A excepção é a prevista na alínea c) do art 432 do Código de Processo Penal, á qual não é subsumível a hipótese em apreço. Por igual forma a reforma introduzida pela Lei 48/87 consagra no artigo 432 nº1 alínea d) a regra de que as decisões interlocutórias que devem ser apreciadas pelo Supremo Tribunal de Justiça são unicamente as que devam subir com as alíneas b) e c). Lateralmente importa, ainda salientar que, nos termos do artigo 363 do Código de Processo Penal, as declarações prestadas oralmente 16/38

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