Falta integrar as leis do Mercosul

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1 Publicado em: Gazeta Mercantil, no dia , pág. 1 e A8 Autores: Marta Watanabe, Juiiano Basile e Adriana Aguilar Falta integrar as leis do Mercosul Apesar do crescimento de 300% em quatro anos do intercâmbio no Mercosul, as legislações de importância crucial para a economia da região - como as leis tributária e societária - ainda apresentam imensas diferenças entre os países-membros, interferindo com o fluxo normal de negócios. As divergências no direito comercial entre o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai dificultam a formação de empresas com sócios estrangeiros, o que torna muito difícil a formação de "joint ventures" entre os países do bloco, como seria desejável. A lei brasileira, por exemplo, impede que um argentino administre companhia brasileira se não tiver residência no País. No Uruguai a formação de qualquer empresa demora de um ano e meio a dois anos, em razão dos trâmites burocráticos. A saída encontrada para empresários que não querem perder oportunidades de negócios tem sido a compra de empresas prontas, um mercado paralelo criado pela burocracia. Na área tributária, as dificuldades não são menores. A complexidade da legislação brasileira confunde qualquer investidor. Ao contrário dos outros países do bloco, o Brasil tem três impostos indiretos -ICMS, IPI e ISS -, mais duas contribuições -Cofins e PIS - que complicam o entendimento do sistema tributário. Uma empresa de software que queira atuar no Brasil, por exemplo, poderá se deparar com uma disputa jurídica entre c~ e- ~cípios, qxie já dura oit o anos. Os dois acreditam ter direito sobre a tributação dos programas de computados Nos outros países não existe esse tipo de disputa, já que um único imposto -o IVA - reúne nossos três tributos indiretos. Uma das soluções para diminuir as divergências legais é a criação de um tribunal comunitário no Mercosul, semelhante ao da União Européia (UE). A proposta é defendida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello. A proposta só seria exeqüível com a adequação da legislação nos quatro países. Contudo, sete anos decorridos desde o Tratado de Assunção, não se cogitou ainda de harmonizar o tratamento tributário entre os quatro países-membros do Mercosul, que deverão ser seis, com o ingresso previsto do Chile e da Bolívia, associados ao bloco. Esse descompasso torna-se mais sensível em um momento em que a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que só deverá

2 tornar-se realidade em 2005, começa a negociar seu arcabouço legal entre os 34 países que a compõem. ******* Ao dar uma passada de olhos M E R C O S U L no sistema de tributação indireta do Brasil, o investidor estrangeiro tem. a impressão de que a harmonização da legislação tributária no Mercosul ainda está longe de ser alcançada. A situação enfrentada pelo setor de software no Brasil é um bom exemplo. Ainda não se sabe a venda de programas de computador deve ser tributada pelas prefeituras ou pel,os estados. As duas esferas disputam a arrecadação do mercado. Alguns estados entendem que a venda envolve mercadoria e por isso cobram o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Enquanto isso as prefeituras acreditam que a operação é uma venda de serviço e, por isso, cobram o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). "É difícil explicar esse cenário para empresários de outros países que pensam que a integração entre os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) já está completa", afirma o consultor Nélio Weiss, sócio da Coopers & Lybrand. Exceto o Brasil, todos os membros do mercado comum possuem sistemas tributários que unificam o ICMS estadual, o ISS municipal e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) federal em um único tributo: o Imposto sobre Valor Agregado (IVA). "Esse sistema evita disputas por arrecadação entre municípios, estados e União federal", diz o advogado Antônio Carlos Rodrigues do Amaral. Mais do que reunir três impostos em um só, o IVA ainda tem a vantagem de ser regulado pelo governo central na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. Isso signi fica que o brasileiro que passear por qualquer um desses três países encontrará cada produto tributado pelo IVA com uma só alíquota e um só procedimento, seja qual for a província argentina ou o departamento paraguaio ou uruguaio. Responsável por um terço do total da arrecadação tributária do País, o ICMS representa, senão o maior, um dos grandes entraves brasileiros em relação à uniformização de tratamento tributário no Mercosul. Os grandes problemas apontados e discutidos na reforma tributária brasileira centram-se justamente na variação de alíquotas e na briga de oportunidades de arrecadação entre estados e municípios.

3 Para empresários de outros países, o intrincado sistema de cobrança e arrecadação do ICMS brasileiro abre um leque de disputas jamais imaginado num ambiente em que a tributação sobre mercadorias e serviços é feita por meio do IVA. A diferenciação nas alíquotas de cada estado também provocain'confiitos intermináveis no Judiciário. Para os tributaristas, o Brasil perde poder de barganha ao apresentar um sistema de tributação com tantas variáveis. "0 negócio pode não deixar de ser fechado, mas o País passa a ter a obrigação de oferecer outras vantagens compensatórias", diz o advogado Nélio Weiss. O problema da diferenciação de alíquotas não se resume na guerra fiscal por investimentos entre os estados. A diversidade de tributações, faz com que os contribuintes migrem aos tribunais na defesa de créditos originados com a diferenciação de alíquotas. Embora seja o primeiro da lista de problemas tributários anotados por consultores, o ICMS brasileiro não é o único imposto que precisaria ser modificado para garantir uniformização de regras no Mercosul. Especialistas oferecem a alguns tributos uma solução mais do que a revolucionária modifie,âção proposta para o ICMS. Conâiderados como tributos sem equivalência nos demais países do Mercosul, a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o Programa de lntegração Social (PIS) têm sua morte decretada por consultores e advogados. Calculados, respectivamente, em 2% e 0,65% sobre o faturamento, a Coflns e a contribuição ao PIS são vistas como grandes vilões do sistema tributário brasileiro. Um dos principais obstáculos à sua aceitação é de que, ao contrário do ICMS, por exemplo, a Cofins e o PIS não seguem a chamada regra da "não-cumulatividade" prevista na Constituição Federal. A Não-cumulatividade adotada em relação ao ICMS e ao próprio IVA nos demais países membros do Mercosul é um princípio que tenta evitar a incidência de imposto sobre imposto. O princípio básico é simples: o que foi pago na operação anterior pode ser descontado do imposto a ser pago na operação posterior. Assim, um fabricante que tenha pago ICMS na compra dos insumos poderá descontar o valor já recolhido com o tributo devido no momento em que vender o seu produto final ao cliente. Diferenciados, a Cofins e o PIS não seguem o mesmo sistema de "descontos" do ICMS, o que influi diretamente nos custos da

4 produção, diz o advogado Ronaldo Martins, do escritório Martins e Sálvia, puxando um coro de tributaristas que compartilham da mesma opinião. "Sem possibilidade de compensação, a Cofins e o PIS acabam abocanhando uma parte do faturamento de praticamente todas as empresas nas diversas fases da cadeia de produção e comércio de mercadorias." Problemas na harmonização tributária são detectados também na tributação sobre a renda. A Argentina, por exemplo, utiliza o sistema universal para cobrança do Imposto de Renda (IR) das pessoas jurídicas. Isso quer dizer que são tributados não só os lucros obtidos em territórrio argentino mas também os ganhos auferidos por empresas localizadas no exterior. O sistema brasileiro também adota a a tributação universal sobre os lucros de empresas. Apesar de utilizarem aparentemente a mesma sistemática, diz Martins, há diferenças significativas. " Argentina, por exemplo, permite compensação de prejuízos auferidos no exterior enquanto o Brasil, não." Apesar da existência de outras divergências, é na tributação indireta que reside o maior problema do Brasil em relação à uniformização tributária, defende o advogado Rodrigues do Amaral. Ele acredita que, solucionadas as diferenças básicas, as demais formas de cobrança de tributos locais, seja no Brasil ou nos demais países, acabarão se adequando ao que acontece em outras regiões. "Isso deverá acontecer, sob pena de se perder investimentos." Imposto de Renda Pessoa Jurídica ARGENTINA BRASIL PARAGUAI URUGUAI Base de cálculo Lucro contábil Lucro contábil Lucro contábil Lucro Alíquota 30% empresas locais 15% mais adicional de 30% empresas locais inclusive filiais e IR de 10% (para o que 35% empresas estrangeiras subsidiárias de exceder a R$ empresas (30% ,00/ano) bancos) 8% Contribuição social para empresas locais,filiais e subsidiárias deempresas estrangeiras 18% Contribuição social para instituições financeiras 10% reinvestimentos, forestación, ereforestación contábil 30% empresas locais, inclusive filiais e subsi-diárias de empresas Estrangeiras Critério Universal, sistema "tax credit" disponível Universal, sistema "tax credit" com restrições Renda obtida no Paraguai Renda obtida no Uruguai Ajuste inflacionário não sim não sim, parcialmente

5 Retenção na Fonte, lucros e Dividendos Juros a não Residentes Royalities a não Residentes Assistência Técnica paga a Não residentes isento atualmente 0% quando pagos a acionistas estrangeiros e residentes 5% quando pagos aacionistas estrangeiros 12% 15% 17,5% isento 24% 15% 17,5% 30% isento quando pagos a residente e 30% quan-do tributado no país do acionista estrangeiro equando a retenção nouruguai gere crédito fiscal naquele país. 18%, 24% ou 27% 15% 17,5% 30% quando tributado no país do beneficiário e a retenção no Uruguai gere crédito fiscal naquele país. 30% quando não tributado no país do beneficiário. Comparação entre os impostos indiretos ARGENTINA BRASIL PARAGUAI URUGUAI Tributos IVA ICMS IVA IVA Incidência venda ou importação saida de produtos do venda ou importação venda ou importação de produtos e estabelecimento de produtos e prestação de produtos e prestação de comercial e de serviços, ex- prestação de serviços serviços importações. cluídos os de caráter (exceto serviços Prestação de serviços pessoal prestados bancários). de transportes, telefonia e energia. emrelação de dependência. Importações tributadas tributadas tributadas tributadas Exportações alíquota "0" não tributadas, não tributadas alíquota "0", excetoprodutos excetodeterminados agrícolas e semielaborados. servi-ços. Alíquotas 21% 12% a 18% 10% alíquota básica: 22% Base de cálculo preço líquido dos sobre o preço do produto sobre o preço do pro- produtos e serviços, ou do serviço, induto ou do serviço. inclusive reajustes, cluindo encargos financeiros juros e encargos em pagamentosa financeiros em pagamentos prazo. a prazo; valor CIF da importação, mais imposto de importação. Tributo imposto sobre imposto sobre imposto seletivo consumo produtos ao consumo específico industrializados (IPI) Fato gerador saída do estabelecimento saída do estabeleci- importação de certas industrial; no mento industrial, no ca- mercadorias; no caso caso de importação, so de importação, ingresso de produtos nacionais ingresso no país. no país. na primeira venda. Alíquotas de 2,5% a 66% de 0% a 365,63% petróleo: 50% outros: 5% a 10% Base de cálculo preço da venda; no caso de importação,130% do preço,mais imposto de importação. preço da venda; no caso de importação, preço mais tributos e encargos. preço da venda, excluindo o IVA. Preço mais tributos e custos de importação, de acordo com o produto Alíquota reduzida:12% sobre o preço do produto ou do serviço. imposto sobre o consumo de certas mercadorias. primeira venda ou importação de 0% a 102% preço real ou pauta mínima.

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