CAPITALIZAÇÃO DA PETROBRAS E DÚVIDAS SOBRE A ECONOMIA GLOBAL

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1 Julio Hegedus Assunto: Balanço Semanal InterBolsa BALANÇO SEMANAL 24 DE SETEMBRO DE 2010 BALANÇO SEMANAL 20 A 24/09 CAPITALIZAÇÃO DA PETROBRAS E DÚVIDAS SOBRE A ECONOMIA GLOBAL Capitalização da Petrobras A capitalização da Petrobras acabou um sucesso, principalmente, para o governo. Foram arrecadados R$ 120 bilhões (US$ 70 bilhões) para o caixa da empresa, salvando-a, por ora, do risco de rebaixamento de rating e insuficiência de recursos para viabilizar parte do seu ambicioso projeto de investimentos. Lembremos que a empresa se encontra bem endividada e sem recursos para arcar com um programa de investimentos para , orçado em R$ 200 bilhões. Além disto, para se manter no patamar grau de investimento, o endividamento líquido da empresa não poderia passar dos 35% do capital. Já estava em torno de 32%. A empresa precisava, também, apresentar uma relação baixa - de até 2,5 vezes - entre a dívida líquida e os lucros menos impostos, juros, depreciações e amortizações (Ebtida). Ou seja, esta captação da empresa, no mercado de capitais, acabou servindo como uma ponte para o seu ambicioso planejamento de longo prazo, incluindo aqui o pré-sal. Como corolário, acabou aumentando a participação do governo na empresa de petróleo, em função da compra de excedentes das ações ofertadas (ações não compradas pelos acionistas). Esta participação passou de 39% para 48%, incluindo aqui as fatias do BNDES, CEF, União e FSB. 1

2 Este processo de capitalização, no entanto, não foi isento de riscos e desgastes. Com as incertezas da operação, indefinições do governo, atrasos e adiamentos na definição das regras, o valor da empresa, no mercado de capitais, acabou sofrendo consideravelmente. Suas ações recuaram mais de 26% neste ano. Comentários: Esta operação acabou bem engenhosa, visto que o setor público não possuía capital suficiente para injetar num projeto como o pré-sal. Ainda não tem, mas cabamos seguindo a lógica do nosso capitalismo tupiniquim. Numa estranha engenharia financeira, o mercado entrou com o capital salvador e o setor público, com seus tentáculos, aumentando seu controle sobre a empresa. Difícil de entender, ou de engolir... Desemprego recuando No mercado de trabalho, a taxa de desemprego continuou em queda, atingindo em agosto o patamar mais baixo de toda a série histórica, iniciada em março de De acordo com a PME do IBGE, passou de 6,9% em julho para 6,7% em agosto, abaixo das expectativas de mercado, que oscilavam de 6,7% a 7,3%. Já o rendimento avançou 5,5% contra agosto do ano passado e 1,8% contra julho. Comentários: Um fato interessante neste processo de recuperação do mercado de trabalho veio da formalização dos empregos, em agosto passando a 46,2% contra 44,5% no mesmo mês do ano passado. É considerado baixo, mas reflete a firme expansão da economia. Seria bem maior, no entanto, se a tão sonhada Reforma Trabalhista fosse aprovada. Lembremos que nos salários dos trabalhadores com carteira assinada, os encargos passam de 102%. Sendo assim, a reforma trabalhista seria a melhor saída, tornando o nosso mercado mais flexível e ágil para responder às demandas da economia. Resta saber se o próximo governo eleito estará disposto a fazer uma reforma deste custo político. Dívida Pública crescente. A dívida mobiliária de agosto avançou 1,3%, totalizando R$ 1,52 trilhão. Um fato interessante foi o aumento da demanda por títulos prefixados, dado o fim do ciclo de alta da taxa de juros. No caso das NTN-Fs, com vencimento em 2021, no dia 29/07, a taxa de negociação era de 12,2% e no dia 2

3 26/08 recuando a 11,28%. Com isto, estes prefixados, entre julho e agosto, passaram de 34,1% para 36,0% do total. Comentários: Estejamos atentos também a dívida bruta do setor público, em torno de 61% do PIB, fruto das operações de crédito entre Tesouro, bancos públicos e algumas empresas eleitas. Este indicador é usado pelas agências de rating, assim como o resultado nominal, para se medir o grau de solvência dos países. Crédito em alta. No cenário doméstico, o volume de crédito na economia cresceu 2,2% em agosto contra julho, totalizando R$ 1,58 trilhão. Os empréstimos para pessoa física se expandiram 2,9%, após avançar 2,3% em julho e 2% em junho, e os para pessoa jurídica subiram 3% contra julho, melhor do que em julho (queda de 6,3%). Em relação ao PIB, este volume foi a 46,2%, não sendo surpresa se passar de 47,6% ao fim deste ano. No mercado, as expectativas indicam uma expansão de 13% nos financiamentos para pessoa física e de 9% para pessoa jurídica. O BACEN está prevendo para 2010 uma alta de 18% na concessão de crédito, tanto para PF como PJ, o que inclui a categoria de empréstimos direcionados. Comentários: A justificar esta farra de crédito no País, destacamos o avanço do crédito consignado, o incremento da renda das famílias e o aumento da contratação de pessoas com carteira registrada. Somado a isto, o crédito para bens duráveis cresceu bastante, mas preocupa a hipótese de uma quebra de contrato, dados os prazos muito alongados. O crescimento de 3,9% do crédito para habitação em agosto contra julho, que atingiu estoque de R$ 120,6 bilhões, indica uma grande demanda por imóveis no País. Isto não configura uma bolha imobiliário, visto que o volume de crédito para habitação é ainda muito baixo no País. Não passa de 3,5% do PIB, bem abaixo de outros países, como Chile (20%), França (28%), Alemanha (45%) e EUA (68%). Debate em torno de Política Monetária. Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica, disse que dá para chegar à taxa de juros real de 2% até É a tal taxa neutra que o BACEN e o mercado andam discutindo e tentando encontrar... 3

4 Comentários. Será mesmo? Todos nós sabemos que as taxas de juros globais descendentes estão entre as mais baixas da história. Mas será isto uma tendência de longo prazo? No Brasil, com a gestão fiscal frouxa como a atual, haveria espaço para tal intento? Corremos o risco, isto sim, de uma demanda agregada excessiva acabar por forçar o BACEN a ser mais conservador na política de juros para o setor privado. Será que teremos uma gestão fiscal de qualidade no governo Dilma, caso eleita? Os movimentos mais recentes indicam o contrário. Gestão fiscal em pauta. Para Dilma Roussef não faz sentindo falar de austeridade fiscal com a economia crescendo 7% e a arrecadação federal jorrando na economia...vivemos uma arrecadação (carga fiscal) de social democracia do Norte da Europa (Suécia, Noruega, etc), com os serviços de quarto mundo, nos piores rincões do globo. Comentários. Dilma, como boa economista, deveria saber que boas políticas fiscais devem ser reforçadas nos momentos de bonança, para que haja poupança suficiente, a ser usada nos momentos de escassez. Gestão fiscal austera e responsável, aliás, é uma obrigação de todos os governos democráticos. Será que os segmentos da sociedade organizada ainda sabem o que é gestão fiscal eficiente? Estou procurando uma resposta para esta pergunta... Uso do FSB na política cambial. Outra colocação de Barbosa é a de que o FSB seria usado para neutralizar a apreciação cambial em curso. Seria mais um player a atuar no mercado de câmbio. Comentários. Apenas uma ressalva, com o ingresso brutal de recursos neste momento, o FSB não teria munição para amortecer o câmbio nem por uma semana. Dados divulgados pelo BACEN informam que no FSB estão depositados cerca de R$ 16/18 bilhões. Sabendo-se que na semana retrasada ingressaram no País cerca de US$ 9 bilhões com a Capitalização da PETROBRAS, já daria para termos noção sobre a insuficiência destes recursos. Saldo em conta corrente. Por fim, o saldo em conta corrente voltou a sangrar em agosto, registrando déficit de US$ 2,86 bilhões, 4

5 acumulando em 12 meses rombo de US$ 45,81 bilhões, 2,32% do PIB, e US$ 31,12 bilhões no ano (2,39% do PIB). O ingresso de investimentos externos diretos foi a US$ 2,42 bilhões, em renda fixa chegando a US$ 3,83 bilhões e em ações, a US$ 1,79 bilhão. Já as remessas de lucros foram a US$ 2,51 bilhões. Comentários. Sem comentários. Apenas um lembrete, se passar de 3,5% do PIB, a coisa pode ficar preta, caso os investimentos externos diretos não acompanhem... Elaborado Julio Hegedus Netto, Economista-chefe 5

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