3 Aun (2005) adota a definição de contexto como regras de relação que são estabelecidas pelo(s)

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1 Resenha AUN, J.G.; ESTEVES DE VASCONCELLOS, M. J.; COELHO, S.V. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais. Volume I - Fundamentos teóricos e epistemológicos (2005); Volume II - O processo de atendimento sistêmico (2007); Volume III - Desenvolvendo práticas com a Metodologia de Atendimento Sistêmico (2010). Maria Otaviana Mindêllo Muschioni 1 Soraya Corgosinho Soares Amaral 2 Vivemos num mundo globalizado que nos proporciona mudanças fortemente aceleradas e nossa forma de pensar e atuar não tem correspondido às novas exigências de um mundo complexo. Precisamos de uma nova visão de mundo, uma nova linguagem ou um novo paradigma que nos possibilite ver e pensar a complexidade deste mundo, percebendo as relações existentes em todos os níveis da natureza, tentando buscar a compreensão dos acontecimentos sejam físicos, biológicos ou sociais em relação aos contextos em que ocorrem. Neste meio globalizado, profissionais que lidam com relações humanas (Aun, 2007/1998) médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, consultores empresariais, assistentes sociais, educadores e tantos outros, estão sendo convocados para trabalhar com situações-problema, tais como educação ambiental, sustentabilidade, participação popular na resolução e construção de políticas públicas, criação de contexto cooperativo dentro de empresa, gravidez na adolescência, adolescentes em conflito com a lei, abrigamento, inclusão social de pessoas com deficiência, violências, penas alternativas, mediação de conflitos, uso e abuso de drogas, situações de vulnerabilidade, entre outras. Esses profissionais, em suas especialidades, são chamados para dar soluções para estas situações, pois são tidos como experts em soluções e espera-se deles que produzam mudanças no sistema. Contudo, com o dinamismo do mundo em que estamos vivendo, há uma crescente demanda a esses profissionais por soluções imediatas, duradoras e eficazes, o que muitas vezes não ocorre. Então, o que acontece nos dias atuais é uma busca por trabalhar essas situações-problema por meio de uma mobilização efetiva das redes de serviços e, ainda, de uma construção coletiva, com mais participação da sociedade na construção de soluções. Porém, como fazer isto? A obra Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes Sociais aponta princípios epistemológicos que nos possibilitam ver e reconhecer os fenômenos do mundo em sua complexidade e em seu processo contínuo de transformação e de incontrolabilidade. Também aponta o pressuposto da intersubjetividade, ou seja, o reconhecimento de que estamos sempre coconstruindo as afirmações sobre o mundo. Esses pressupostos são apresentados na obra, de modo interligado e articulado entre si, correspondendo ao que Esteves de Vasconcellos (2002/2005) denomina o novo paradigma da ciência. A obra, conjuntamente com a distinção do que vem a ser um Atendimento Sistêmico, oferece 1 Psicóloga, especialista em Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes Sociais, profissional liberal, coordenadora de Assembleias de Redes, sócia fundadora da Equipe Práticas Sistêmicas. 2 Pedagoga, psicóloga, especialista em Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes Sociais, especialista em Metodologia do Ensino Superior, especialista em Psicopedagogia, profissional liberal, professora autônoma de cursos de pós-graduação lato-sensu e coordenadora de Assembleias de Redes, sócia fundadora da Equipe Práticas Sistêmicas.

2 subsídios para os profissionais lidarem com as dificuldades que vêm enfrentando em seus contextos de trabalho, possibilitando que esses recursos sejam usados para desenvolver a autonomia dos sistemas com os quais trabalham. Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes constitui-se como resultado da preparação e organização de textos para o curso de pós-graduação em Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes Sociais desenvolvido pelas autoras, as quais propuseram disponibilizar essa produção em uma coletânea composta em três volumes. Iniciada no ano de 2005 e concluída em 2010, a obra é a sistematização teórico-prática, fundamentada no novo paradigma da ciência, do que vem a ser um Atendimento Sistêmico. É composta por vários textos com linguagem clara, didática e articulada. As autoras são coerentes quanto ao uso de conceitos, procuram sempre exemplificar suas colocações e, quando necessário, remetem o leitor, por meio de notas de rodapé, a aspectos correlatos ou complementares ao tema e que se encontram em outros textos da obra. No volume I, que recebeu o título de Fundamentos teóricos e epistemológicos, o leitor encontrará aspectos da evolução do movimento de terapia de família, a concepção de Atendimento Sistêmico, a compreensão do pensamento sistêmico como conjunto de três pressupostos novo-paradigmáticos - complexidade, instabilidade, intersubjetividade, a implicação desse pensamento em diferentes contextos de prática e, por último, aspectos psicossociais da família. Entre os textos expostos nesse volume, o texto Psicoterapia/ Terapia de Família/Atendimento à Família: propondo uma diferenciação traz a distinção entre contexto 3 de terapia e contexto de atendimento, definindo o que cabe ao profissional sistêmico em cada um desses contextos. Esse volume deixa clara a distinção de Atendimento Sistêmico e provoca no leitor reflexões e implicações acerca do novo-paradigma da ciência, convidando-o a uma revisão de suas crenças. O volume II, intitulado O processo de atendimento sistêmico, é constituído por dois tomos. No tomo I as autoras distinguem os conceitos de sistema familiar, sistema mais amplo que a família e sistema determinado pelo problema (SDP), possibilitando a compreensão da definição do sistema que o Atendimento Sistêmico aborda, ou seja, um sistema linguístico ou sistema determinado pelo problema (SDP). Avançando na leitura desse tomo, o leitor deparará com recursos para compreender a identidade e a ética do profissional sistêmico novo-paradigmático e, ainda, poderá conhecer a forma de atuação do profissional em equipe transdisciplinar, questão de fundamental importância para o trabalho de uma equipe de Atendimento Sistêmico. Por último, ainda nesse primeiro tomo do segundo volume, o leitor encontrará dois textos que destacamos aqui, por considerá-los fundamentais para a distinção de um Atendimento Sistêmico. O primeiro desses textos, cujo título é O processo de atendimento sistêmico: passos 4 para sua realização, aborda conceitos fundantes como expert em processo, relação colaborativa, contexto de autonomia do processo de Atendimento Sistêmico, além de uma distinção do Atendimento Sistêmico em relação a 3 Aun (2005) adota a definição de contexto como regras de relação que são estabelecidas pelo(s) profissional (ais) e pelo(s) cliente(s), de formas implícitas e explícitas. 4 Aun (2007) utiliza a palavra passo para ressaltar a idéia de que o processo de Atendimento Sistêmico pode ser representado pela imagem de passos que avançam, retrocedem, andam em círculo, como num passo de dança, ou seja, como um conjunto de ações que evoluem em um movimento de ir e vir constantes, em uma relação recursiva. Por esse motivo utilizaremos a palavra passos entre aspas.

3 outros atendimentos, deixando claro como a equipe se constitui e a forma de atuação de cada um de seus membros. Outro texto que também aborda a aplicação dos passos propostos no livro é Pondo em prática a metodologia de Atendimento Sistêmico: orientações / propostas para o desenvolvimento de uma prática de Atendimento Sistêmico de famílias e redes sociais, que se encontra no volume III. Nesse texto o leitor encontrará detalhamento dos passos do Atendimento Sistêmico nas orientações / propostas 5 para a realização desse atendimento. Contudo, deve-se atentar para o fato de esse texto ter sido escrito para um contexto acadêmico, o que é ressaltado inclusive pela própria autora, Maria José Esteves de Vasconcellos. Também no tomo I do volume II da obra, o segundo texto que destacamos, A distinção do problema, no lugar do diagnóstico, busca esclarecer a distinção do problema como alternativa ao diagnóstico, aponta a incoerência de se diagnosticar dentro de uma posição sistêmica de segunda ordem e expõe as razões teóricas e epistemológicas que justificam dispensar o diagnóstico. Alerta o profissional para não cair na armadilha de ignorar a implicação de si próprio, como observador, nesse processo, atribuindo suas descrições a uma realidade objetiva, independente de si. E ainda, desenvolve a proposta de definição de uma situação-problema para o contexto de Atendimento Sistêmico. O tomo II é composto por textos que apresentam teorias desenvolvidas para contexto clínico da terapia de família, nas abordagens transgeracional, estrutural e comunicacional, trazendo como contribuição a compreensão sistêmica das interações. Nessa parte da obra, o leitor encontrará as principais noções teóricas de cada abordagem, bem como técnicas de intervenção no sistema familiar, levando-o ao reconhecimento dos padrões relacionais vivenciados na transgeracionalidade, no ciclo de vida familiar, proporcionando a compreensão das formas de constituição de situações-problema. Entre as três abordagens apresentadas destacamos a abordagem comunicacional, pois é um tema central na abordagem sistêmica. E como Esteves de Vasconcellos (2007) expõe, nos sistemas humanos, relacionar-se é comunicar-se. Focalizar as relações é interessar-se pelo modo como se comunicam os elementos que constituem o sistema destacado pelo observador. Neste sentido, a compreensão do modo pelo qual as pessoas estão se comunicando possibilita a distinção das regras de relação do sistema observado. Os textos A presença e os efeitos da comunicação paradoxal nas interações humanas ; Permanência e Mudança Formação e Resolução de Problemas ; Compreendendo a dificuldade da mudança: jogo sem fim e Paradoxo e intervenções para a mudança trazem uma grande contribuição para a compreensão e distinção da formação de situações-problema, bem como as noções de mudança de primeira e segunda ordem que nos auxiliam na compreensão de possíveis soluções para essas situações. Esses são textos muito importantes na distinção do Atendimento Sistêmico, pois proporcionam aos profissionais a redefinição de situações-problema, ou seja, algo que está nas relações, no modo pelo qual as pessoas estão conversando e definindo para si aquela situação como problema. Outro aspecto importante é o de viabilizar a distinção do que vem a ser mudança de segunda ordem, possibilitando 5 Esteves de Vasconcellos (2010) ressalta que anexou a palavra proposta à palavra orientação para ressaltar que não está utilizando a palavra orientação como guia para o fazer ou o pensar, ou ainda como um roteiro a ser seguido ao pé da letra. Por este motivo utilizamos as palavras orientações/propostas entre aspas.

4 identificar as premissas do sistema em atendimento, como criar um contexto colaborativo favorável à mudança almejada pelo sistema. Por fim, o último texto desse tomo, Roteiros para entrevistas com a família, traz orientação prática para entrevistas no contexto terapêutico, que o profissional novo-paradigmático pode utilizar também no atendimento de famílias e rede sociais. O volume III, denominado Desenvolvendo práticas com a metodologia de atendimento sistêmico, é estruturado em quatro partes. A Parte I desse volume traz o relato do desenvolvimento e concepção da Metodologia de Atendimento Sistêmico como uma prática novo-paradigmática desenvolvida com um Sistema Determinado pelo Problema (SDP). Essa parte contém: a distinção de sistemas sociais humanos sistemas esses com que a Metodologia se propõe a trabalhar; a narrativa do desenvolvimento dessa Metodologia; a distinção da Metodologia de Atendimento Sistêmico enquanto uma prática sistêmica novo-paradigmática; e a diferenciação dessa Metodologia quanto a objetivos, forma de constituição do grupo, forma de coordenação da conversação e os próprios efeitos dela, em relação a outras metodologias que são apresentadas como sistêmicas. Nos textos da Parte II, encontramos os conceitos teóricos sistêmicos novoparadigmáticos que fundamentam a Metodologia de Atendimento Sistêmico em sistemas amplos, como o processo de coconstrução em um contexto de autonomia, Sistema Determinado pelo Problema (SDP), conceitos teóricos sobre redes sociais, concepção teórica de processo da rede para coordenação dos Encontros Conversacionais do SDP. Apresenta ainda duas técnicas que poderão ser utilizadas na aplicação da Metodologia, que são: a dinâmica de grupo, útil na compreensão do desenvolvimento do processo grupal nos Encontros Conversacionais, nutrindo o profissional de Atendimento Sistêmico de recursos para a operacionalização do atendimento; e as perguntas reflexivas que proporcionam a esse profissional um recurso riquíssimo no desencadeamento de mudanças sistêmicas. Na Parte III, os dois primeiros textos Políticas públicas / programas sociais: a participação da sociedade e Uma alternativa para as políticas de assistência às pessoas portadoras de deficiências: usando o processo de co-construção em um contexto de autonomia trazem não só o relato do desenvolvimento de práticas ligadas a Política Pública e Programa Social, mas contextualizam as práticas com conceitos e reflexões que podem gerar mudanças transformadoras nas práticas de profissionais sistêmicos que atuam nessas áreas. O texto Família em situação de pobreza e práticas sistêmicas visando à promoção das famílias nos apresenta as condições e dinâmicas da vida de famílias no contexto de pobreza, possibilitando-nos distinguir situações-problema desse contexto, e ainda demonstra como profissionais vêm atuando nos atendimentos a essas famílias, levando o leitor, ao final do texto, a uma reflexão sobre a aplicação da Metodologia de Atendimento Sistêmico em sistemas com famílias em situação de pobreza. Por último, dois textos, Uso da Metodologia de Atendimento Sistêmico em diferentes contextos de práticas profissional e Uso de Metodologia de Atendimento Sistêmico: medidas de proteção a crianças e adolescentes ou violência institucional legal contra elas?, que relatam experiências de uso dessa metodologia em diferentes contextos. No primeiro deles, Coelho apresenta uma construção reflexiva sobre as diversas situações-problema abordadas pelos alunos na conclusão do curso de Atendimentos Sistêmico de Famílias e Redes Sociais no que diz respeito à situaçãoproblema identificada, à definição de forma positiva dessa situação-problema, à

5 distinção e constituição do SDP e aos efeitos positivos das conversações nos Encontros Conversacionais. No segundo texto, Aun e Esteves de Vasconcellos, com base em dois relatos de intervenção de abrigamento de crianças e adolescentes, através da aplicação da Metodologia de Atendimento Sistêmico, propõem discutir os efeitos recursivos dessa medida de proteção. A Parte IV, como já dissemos, constitui-se de um conjunto de orientações / propostas para o desenvolvimento de uma prática de Atendimento Sistêmico, em que profissionais de relações humanas, imbuídos de uma epistemologia sistêmica novo-paradigmática, podem se basear para a construção de contextos de autonomia para o encaminhamento de soluções para situações-problema vivenciadas em seu contexto de trabalho. O estudo dessa obra e a prática que estamos desenvolvendo desde o ano de 2004 nos possibilitaram transformações significativas em nossa vida pessoal e profissional. Portanto, se você está em busca de mudança em seu viver, esta é uma obra indicada!

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