CAPÍTULO 1. COnDUTAS EM MASTOLOGIA PARA O RESIDEnTE

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1 CAPÍTULO 1 COnDUTAS EM MASTOLOGIA PARA O RESIDEnTE É boa norma de serviços de mastologia estabelecerem condutas padronizadas para o tratamento das pacientes que os procuram. Estas normas, embora seguindo o modelo de centros de referência, baseiam-se também nas condições técnicas locais e na experiência de seus especialistas. O Serviço de mastologia da MEAC, a partir da metodologia de trabalho de sua equipe interdisciplinar, coloca aqui a disposição dos Residentes de Mastologia e Ginecologia, suas condutas básicas apresentadas sobre a forma de textos e Algoritmos que permitem uma leitura rápida e assimilação dos conceitos básicos do tratamento do câncer de mama. A abordagem da paciente segue o roteiro da sua chegada ao serviço, quase sempre procedente dos postos de saúde da SSM- FORTALEZA e mais raramente de ambulatórios do Hospital das Clínicas (HC), principalmente dos Serviços de Climatério ou ambulatórios de Ginecologia da MEAC. Começa com o preenchimento da Ficha padrão do Serviço onde é feito um diagnóstico inicial; se detectado uma patologia benigna a paciente recebe a orientação ou tratamento adequado; se é uma patologia de características malignas é feito o estadiamento pelo sistema TNM conirma-se o diagnóstico pela biópsia; complementa-se a avaliação por exames de laboratório, imagens adequadas e planeja-se a conduta terapêutica. As pacientes tratadas são mantidas em seguimento pelo risco de desenvolverem recidivas ou mesmo uma segunda neoplasia. DIAGNóSTICO O diagnóstico das patologias da mama se estabelece pela história clínica, pelo exame físico, testes de imagem e achados anatomopatológicos. O INCa publicou monograia sobre o diagnóstico do câncer de mama, salientando a detecção precoce (a seguir) Detecção precoce do câncer de mama As formas mais eicazes para detecção precoce do câncer de mama são o 279

2 Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas Maternidade Escola Assis Chateaubriand exame clínico da mama e a mamograia. O Exame Clínico das Mamas (ECM). Quando realizado por um médico ou enfermeira treinados, pode detectar tumor de até 1 (um) centímetro, se supericial. O Exame Clínico das Mamas deve ser realizado conforme as recomendações técnicas do Consenso para o Controle do Câncer de Mama. A sensibilidade do ECM varia de 57% a 83% em mulheres com idade entre 50 e 59 anos, e em torno de 71% nas que estão entre 40 e 49 anos. A especiicidade varia de 88% a 96% em mulheres com idade entre 50 e 59 e entre 71% a 84% nas que estão entre 40 e 49 anos. A mamograia A mamograia é a radiograia da mama que permite a detecção precoce do câncer, por ser capaz de mostrar lesões em fase inicial, muito pequenas (de milímetros). É realizada em um aparelho de raio X apropriado, chamado mamógrafo. Nele, a mama é comprimida de forma a fornecer melhores imagens, e, portanto, melhor capacidade de diagnóstico. O desconforto provocado é discreto e suportável. Estudos sobre a efetividade da mamograia sempre utilizam o exame clínico como exame adicional, o que torna difícil distinguir a sensibilidade do método como estratégia isolada de rastreamento. A sensibilidade varia de 46% a 88% e depende de fatores tais como: tamanho e localização da lesão, densidade do tecido mamário (mulheres mais jovens apresentam mamas mais densas), qualidade dos recursos técnicos e habilidade de interpretação do radiologista. A especiicidade varia entre 82%, e 99% e é igualmente dependente da qualidade do exame. Os resultados de ensaios clínicos randomizados que comparam a mortalidade em mulheres convidadas para rastreamento mamográico com mulheres não submetidas a nenhuma intervenção são favoráveis ao uso da mamograia como método de detecção precoce capaz de reduzir a mortalidade por câncer de mama. As conclusões de estudos de meta-análise demonstram que os benefícios do uso da mamograia se referem, principalmente, a cerca de 30% de diminuição da mortalidade em mulheres acima dos 50 anos, depois de sete a nove anos de implementação de ações organizadas de rastreamento. O autoexame das mamas. O INCA não estimula o autoexame das mamas como estratégia isolada de detecção precoce do câncer de mama. A recomendação é que o exame das mamas pela própria mulher faça parte das ações de educação para a saúde que 280

3 contemplem o conhecimento do próprio corpo. As evidências cientíicas sugerem que o autoexame das mamas não é eiciente para o rastreamento e não contribui para a redução da mortalidade por câncer de mama. Além disso, o autoexame das mamas traz consigo consequências negativas, como aumento do número de biópsias de lesões benignas, falsa sensação de segurança nos exames falsamente negativos e impacto psicológico negativo nos exames falsamente positivos. Portanto, o exame das mamas realizado pela própria mulher não substitui o exame físico realizado por proissional de saúde (médico ou enfermeiro) qualiicado para essa atividade. As recomendações do Instituto nacional de Câncer Em novembro de 2003, foi realizada a Oicina de Trabalho para Elaboração de Recomendações ao Programa Nacional de Controle do Câncer de Mama, organizada pelo Ministério da Saúde, através do Instituto Nacional de Câncer e da Área Técnica da Saúde da Mulher, com os apoios das sociedades cientíicas ains e participação de gestores estaduais, ONG s e OG s. A partir dessa Oicina foi desenvolvido um Documento de Consenso para Controle do Câncer de Mama, publicado em 2004, que contém as principais recomendações técnicas referentes à detecção precoce, ao tratamento e aos cuidados paliativos em câncer de mama. O câncer de mama é provavelmente o mais temido pelas mulheres, devido à sua alta frequência e sobretudo pelos seus efeitos psicológicos, que afetam a percepção da sexualidade e a própria imagem pessoal. Ele é relativamente raro antes dos 35 anos de idade, mas acima desta faixa etária sua incidência cresce rápida e progressivamente. Este tipo de câncer representa nos países ocidentais uma das principais causas de morte em mulheres. As estatísticas indicam o aumento de sua frequência tantos nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nas décadas de 60 e 70 registrou-se um aumento de 10 vezes nas taxas de incidência ajustadas por idade nos Registros de Câncer de Base Populacional de diversos continentes. No Brasil, o câncer de mama é o que mais causa mortes entre as mulheres. De acordo com as Estimativas de Incidência de Câncer no Brasil para 2006, o câncer de mama será o segundo mais incidente, com casos. Sintomas Os sintomas do câncer de mama palpável são o nódulo ou tumor no seio, acompanhado ou não de dor mamária. Podem surgir alterações na pele que recobre a mama, como abaulamentos ou retrações ou um aspecto semelhante a casca de 281

4 Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas Maternidade Escola Assis Chateaubriand uma laranja. Podem também surgir nódulos palpáveis na axila. HISTÓRIA CLÍNICA Neste item são valorizados principalmente a queixa principal, os sinais e sintomas em ordem cronológica e o exame físico das mamas que em conjunto permitem o diagnóstico clínico e o estadiamento inicial do câncer, quando presente. Consideram-se ainda os fatores de risco de câncer mamário constantes na Tabela 01. Na icha de admissão faz-se o registro sumário da queixa principal e relato da doença atual, com ênfase no ordenamento dos sintomas principalmente na descrição do ritmo de crescimento das lesões mamárias e axilares quando presentes. A icha padrão do serviço orienta o interrogatório no sentido de captaremse os dados para caracterização dos riscos da paciente ser portadora de câncer de mama, inclusive aspectos antropomóricos como obesidade e relação cintura\ quadril; a partir dos dados coletados é possível usar o aplicativo (BCRA Breast Câncer Risk Assesment), disponível para smartfones para quantiicar este risco. TABELA 01 Fatores de risco para o câncer de Mama Idade risco signiicativamente aumentado apos os cinquenta anos História familiar ou pessoal de câncer de mama ou ovário em parentes do primeiro grau 11 Paridade nuliparidade ou oligoparidade (2 ilhos ou menos) Menarca precoce (menarca precoce, antes dos 15 anos) Idade de nascimento do primeiro ilho após 25 anos Menopausa tardia (tardia, após 50 anos) Amamentação (pouco tempo de lactação) Dieta hipercalórica, rica em gordura animal 17 Hormônios exógenos abuso de anovulatórios ou reposição estrogênica (TRH) Consumo de álcool- A ingestão regular de álcool, mesmo que em quantidade moderada, é identiicada como fator de risco para o câncer de mama, assim como a exposição a radiações ionizantes em idade inferior a 35 anos. Doença mamária benigna proliferativa, principalmente com atipias e biópsias mamárias prévias ou mesmo sem relato do achado Obesidade Relação cintura/quadril > 0,

5 EXAME FÍSICO O exame físico é um item importante no diagnóstico do câncer de mama, feito adequadamente tem acurácia próxima a mamograia; deve ser feito em local adequado, confortável, respeitando-se o pudor das pacientes que muitas vezes sentem-se constrangidas ao expor o seu corpo, sempre com a presença de proissional do sexo feminino acompanhando o exame. Exige-se a permissão da paciente para ser observada em sessões de ensino. O exame se inicia com a inspeção estática das mamas, o examinador em pé, a paciente sentada; o eixo da visão a altura dos mamilos. Neste momento, o tamanho, a forma, o contorno, a simetria, a cor da pele, da aréola e a projeção dos mamilos são observados. Alterações discretas, como assimetria, podem ser normais (na maioria das pacientes a mama E é discretamente maior que a D). A forma varia com a idade e a paridade as mulheres jovens e nulíparas tem mamas cônicas e as idosas e multíparas tem mamas pendulares. Alterações da coloração hiperemias localizadas ou globais também são sinais importantes para a deinição do diagnóstico; a aréola e a papila das nuligestas geralmente é mais clara que nas pacientes que já engravidaram. O tamanho também varia com a idade, com a paridade, com fatores hereditários e hormonais. Alterações do contorno podem ser resultantes de patologias benignas e malignas, abaulamentos e retrações cutâneas devem ser registrados; no posicionamento dos mamilos deve ser observado a altura, desvio do eixo e possíveis retrações principalmente as surgidas recentemente; a descarga papilar espontânea ou induzida pela expressão deve ser registrada; é importante também registrar as características da secreção, como: cor consistência lateralidade, número de ductos produtivos e ponto de gatilho. Inspeção dinâmica Complementando a inspeção estática o examinador deve orientar a paciente para fazer movimentos com os braços na lateral do corpo até as maos se encontrarem no alto da cabeça, observando-se a mama e suas relações com o músculo peitoral maior, com a pele, bem como a simetria do eixo da papila; deve também orientála para com as mãos na cintura manter compressão para contrair os peitorais e observando as estruturas descritas na manobra anterior; as mamas devem também ser observadas com o tronco letido para a frente (pendentes), avaliando-se as relações antes descritas. Palpação da mama deve ser realizada com a paciente em decúbito dorsal, a mama apoiada no gradil costal, a região palmar, percorrendo concentricamente o parênquima mamário sentindo a superfície e a profundidade da glândula por todos os quadrantes (superior-externo, superior-interno, inferior-externo, inferiorinterno e região periaureolar). Os espessamentos, nódulos ou lutuações devem ser registrados, principalmente sua localização e suas relações com o parênquima normal, com a pele e com os músculos peitorais e o gradil costal. Os nódulos devem 283

6 Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas Maternidade Escola Assis Chateaubriand ser medidos com tumorímetros e as dimensões utilizadas no estadiamento da lesão. Palpação das axilas e fossas claviculares devem ser examinadas com a paciente sentada as polpas digitais percorrendo as axilas em sentido descendente identiicando-se os linfonodos axilares, estimando suas medidas, consistência fusão ou ixação dos mesmos entre si. As fossas claviculares são examinadas com a paciente sentada procurando nódulos, suas consistências e relações com as estruturas vizinhas. EXAMES COMPLEMENTARES IMAGENS A mamograia (Mx) é considerada o padrão ouro para a detecção precoce do câncer de mama sendo indicado para o rastreamento de mulheres assintomáticas. No Brasil o Ministério da Saúde segue o programa canadense de rastreamento, com oferta de mamograia a mulheres assintomáticas com mais de 50 anos. Há uma lei federal que admite rastreamento voluntário a mulheres com mais de 40 anos; mulheres mais jovens podem também se submeter a exames mamográicos quando tem fatores de risco aumentados, ou achados suspeitos ao exame clínico. Os achados radiológicos que mais sugerem malignidade são nódulos espiculados e densidades assimétricas, principalmente associadas à microcalciicações (MC), alterações cutâneas, MC ajuntadas e pleomóricas. A conirmação diagnostica é necessária pelo exame anatomopatológico. Em algumas situações, neoplasias in situ, isto é, sem invasão da membrana basal são detectadas pela mamograia pela presença de MC que são moldadas pela rede ductal, elas surgem quase sempre agrupadas numa região da mama com formas frequentemente diferentes, (pleomóricas), em função do angulo de corte da imagem do ducto. Surgem em forma de pontos, de letras (Y, X, L, Vírgula) de densidades diferentes, melhor avaliadas quando se magniica a região onde elas se encontram. A detecção de nódulos pela Mx justiica a realização de ultrassonograia para deinir se a lesão é solida ou cística ou compressão seletiva para avaliar melhor o seu contorno deinindo-se daí o tipo de exploração complementar; as lesões sólidas, principalmente de características sugestivas de malignidade exigem biópsia para deinição anatomopatológica, enquanto as lesões císticas devem ser submetidas a punção aspirativa com agulha ina (PAAF), resolutiva do problema quando se trata de cistos simples. Os tumores palpáveis devem ser estagiados clinicamente e submetidos à biópsia mais precocemente possível. (ver algoritmo) Esta abordagem pode realizada no ambulatório quando se dispõe de pistolas de biópsias que permitem retiradas de amostragem para diagnóstico anatomopatológico com o mínimo de trauma e segurança adequada; os nódulos impalpáveis necessitam de artifícios colaborando os cirurgiões e imaginologistas 284

7 para retirada de amostra tumoral. O ideal é que esta amostragem seja realizada com o mínimo de trauma, pois muitas vezes os nódulos são benignos; dispõe-se hoje de equipamentos que permitem biópsia ambulatorial guiada por ultrassonograia ou mamograia (à vácuo), com excelente acurácia; os casos inconclusivos necessitam de biópsia excisional algumas vezes guiadas por estes métodos; em algumas situações esta indicado o estudo das mamas pela ressonância nuclear magnética (RNM), com excelentes resultados em mamas densas. Os achados de imagem (mamograia, ultrassonograia e RNM), são classiicados pelo sistema BIRADS, descrito ao inal do tópico. BI-RADS de Mamograia 5ª edição (Palestra conferida pela doutora Stephen A. Feig, do departamento de ciências radiológicas da universidade da Califórnia.) A probabilidade de câncer esperado para cada categoria BI-RADS, corretamente classiicada se mantém em: Birads (1 e 2 ) 0,0% de chances demalignidade <2% para categoria 3, >2% e <10% para a categoria 4 A (baixo grau de suspeição), >10% e <50% para a categoria 4B ( moderado grau de suspeição), >50% e <95% para a categoria 4C, (alto grau de suspeição) >95% para a categoria 5 ( grau de suspeição extremamente alto) 100% para categoria 6 (diagnóstico de câncer já conirmado) Tratamento do Câncer de Mama O tratamento do câncer de mama sofreu profundas transformações nos últimos vinte e cinco anos. Após um século da era Halstediana, centrada no tratamento cirúrgico radical, passamos a abordagem interdisciplinar, com o tratamento sistêmico preconizado por Bernard Fischer. A cirurgia conservadora, cada vez mais empregada, associada à quimioterapia e a radioterapia, assumiram lugar de destaque após os famosos protocolos de Milão, encabeçados por Humberto Veronese. O emprego da mamograia como método diagnóstico e seu emprego no rastreamento inverteram a distribuição dos tumores diagnosticados, quanto ao seu estadiamento. Nos EEUU só cerca de 5% dos cânceres tem estadiamento III e IV. A maioria os casos é encontrada em estádios I e II, cerca de 25% ainda como neoplasia intraepitelial. No Ceará a situação é preocupant, a incidência aumenta proporcionalmente ao au 285

8 Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas Maternidade Escola Assis Chateaubriand 286

9 287 * Paciente de alto risco, na vigência ou em avaliação para TRH. ** Exceto cisto com conteúdo hemático Marcação e exérese. *** As lesões com anátomo-patológico por Core-biopsy de hiperplasia com atipia ou Ca in situ serão marcadas e excisadas. Obs: As microcalciicações e os nódulos sem expressão ecográica deverão ser submetidos à core-biopsy por estereotaxia ou marcação pré-operatória orientada por estereotaxia e excisão. As peças de microcalciicações serão radiografadas para conirmar a excisão e devidamente marcadas para orientar o exame histológico.

10 Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas Maternidade Escola Assis Chateaubriand 288

11 *A HT e QT são usadas de modo seqüenciado. 289

12 Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas Maternidade Escola Assis Chateaubriand 290

13 291 *Taxol em pacientes com QT anterior contendo doxorrubicina (240mg/m2 cloxorrubicina ou desenvolvimento de metastases<1 ano após terapia contendo doxorrubicina). ** Máximo 2 esquemas p/ doença metastática, depois apenas suporte. *** Durante manipulação hormonal: se ocorrer progeressão da doença<6 meses realizar QT; 6-12 meses opção de hormônio de 2 linha ou QT; >12 meses, manipulação hormonal 2 linha. **** Carcinoma Ductal Invasivo

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