A Análise do Jogo e a Planificação do Treinamento Como a Análise do Jogo pode ser útil para a Planificação do Treinamento de uma equipe de futebol?

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1 A Análise do Jogo e a Planificação do Como a Análise do Jogo pode ser útil para a Planificação do de uma equipe de futebol? Autor: Felipe D. Bressan* O estudo do jogo a partir da observação dos comportamentos coletivos e individuais não é recente, tendo surgido em meio à especialização na área esportiva. Na literatura há uma série de referências relativas a esse processo, porém com variadas denominações, as quais se podem destacar: observação do jogo (game observation), análise do jogo (match analysis), análise notacional (notational analysis) e scouting. Todavia, a expressão mais utilizada na literatura é análise do jogo. (GARGANTA,1997) A etimologia da palavra análise remete ao grego análysis (derivado de analýein) em que aná significa para cima e lýein significa decompor. Análise pode ser definida como a decomposição ou a separação de um todo, quer seja um produto do pensamento quer seja uma substância material, em seus elementos constituintes. Ou seja, é realizar o estudo pormenorizado de cada parte de um todo complexo para conhecer melhor sua natureza, suas funções, relações e causas. Posto isto, podemos descrever o estudo do jogo ou a análise do jogo, como foi convencionado, como uma ferramenta que se baseia na divisão do jogo em fractais a fim de observa-los e estuda-los de forma a compreender a complexidade de suas inter-relações na busca pelo aumento de desempenho e evolução das técnicas de ensino-aprendizagem. A análise do jogo sempre se fez presente e passou a representar um dos principais fatores de desempenho em diversas modalidades esportivas coletivas como basquete, vôlei e beisebol, porém somente nos últimos anos tem recebido maior importância no âmbito futebolístico. Na atualidade o processo de análise de jogo no futebol é praticamente indispensável a quase todas as equipes, desde as categorias de base ao profissional. Entretanto, o que faz essa ferramenta ter papel fundamental no desempenho, seja ele individual ou coletivo? 1

2 O fornecimento de instruções e a demonstração com a finalidade de se adquirir ou executar determinados padrões e ações do jogo são imprescindíveis para a evolução das equipes e dos atletas. Padrões de jogo são aquelas ações pertencentes ao modelo de jogo que se repetem com frequência nas respectivas fases do jogo frente a determinados problemas impostos pela relação de oposição característica da modalidade. Isso implica em prover informações (feedback) em relação a padrões de movimentos ótimos e correções para erros a determinados objetivos inerentes a uma partida. Durante sessões de treinamento o fornecimento de um feedback relevante é essencial na busca por um alto desempenho esportivo e quanto mais específica e eficaz forem as instruções fornecidas pela comissão técnica, maior será seu papel para o jogo. O feedback é considerado como a mais importante variável para a aprendizagem e o desempenho no futebol, em seguida vem a prática. A falta de feedback ou uma análise inapropriada da performance pode não ser benéfico. (MURTOUGH E WILLIAMS, 1999 e WILLIAMS, 1999). Isto significa que a qualidade com que a informação é fornecida pelo treinador ou por outros membros da comissão técnica aos atletas é primordial. Para isso utiliza-se a análise de jogo como a principal ferramenta para se coletar dados táticos e técnicos inerentes ao jogo da forma mais eficiente possível a fim de atingir a excelência das equipes e dos jogadores. De igual forma, desconsiderando nesse caso o desempenho a curto prazo, essas informações podem fundamentar uma base concreta no processo de formação dos atletas conferindo-lhes uma maior capacidade de compreensão do jogo. Quanto mais eficazes forem as ferramentas de análise, mais precisas as informações disponíveis ao treinador para a elaboração do processo de treinamento e o consequente crescimento da equipe. Entende-se por melhores ferramentas de análise não aquelas mais desenvolvidas tecnologicamente ou mais complexas, mas sim aquelas que melhores representam o jogo, fornecendo informações contextualizadas e em conformidade com o modelo de jogo utilizado pelo treinador. Portanto para se realizar a análise de maneira a adquirir informações relevantes ao desempenho da própria equipe e de como atua um adversário é fundamental compreender a fundo o jogo de futebol, sua dinâmica e sobre o modelo de jogo das equipes. 2

3 Porém, como a Análise do Jogo está ligada a Planificação do de uma equipe de futebol? O nível de informações que o treinador pode retirar da Análise do Jogo é elevado. Essa análise pode fornecer conclusões válidas sobre o comportamento técnicotáctico de um jogador individualmente ou de toda a equipe, em um contexto competitivo (CALLIGARIS, MARELLA & INNOCENTI, 1990). Com base nesses informes é possível aumentar os conhecimentos acerca do jogo e definir a forma como se pode alterar ou potencializar determinados comportamentos ou que tipos de estratégias o treinador pode utilizar para tentar alcançar o melhor resultado possível dentro de um contexto coletivo, a partir da modelação das sessões e a da planificação do treinamento (CALLIGARIS, MARELLA & INNOCENTI, 1990; GARGANTA, 1998, 2000 e 2001; JÚNIOR, GASPAR & SINISCALCHI, 2002). Levando-se em consideração o alto rendimento, resumidamente, o profissional responsável por esse tipo de análise deverá saber identificar os princípios norteadores da equipe que está sendo analisada em cada uma das fases do jogo, seja ela a própria equipe ou o adversário, ou as características individuais dos jogadores necessárias para o bom cumprimento desses princípios. Dessa forma a informação que chegará às mãos do treinador será condizente com o modelo de jogo utilizado e fundamentarão processo de planificação do treinamento. Quando um treinador tem conhecimento de tudo que está à volta de sua equipe e de quais são suas pretensões, inicia-se um processo lógico de criação do modelo de jogo, análise do jogo e planificação do treinamento. Esse processo lógico consiste inicialmente em planificar os comportamentos coletivos e individuais desejáveis, baseados em um modelo de jogo pré-determinado, definindo os princípios, subprincípios e subprincípios dos subprincípios que serão os norteadores do jogar da equipe nos diferentes momentos referentes à dinâmica do jogo. Uma vez estabelecido o modelo de jogo, ou seja, a forma como se dará o jogar dessa equipe, tem início o processo de treinamento com a finalidade de transladar esses princípios para o momento da competição, que é o principal objetivo dentro do futebol. Ao finalizar uma partida, que é o primeiro objetivo dentro do planejamento, realiza-se o processo de análise do jogo, procurando detectar os padrões que foram 3

4 bem executados e que seguiram o modelo de jogo proposto e os problemas evidenciados durante o jogo. Através de uma análise minuciosa realiza-se uma investigação para descobrir quais as causas para o surgimento de tais problemas e o que não funcionou no modelo de jogo preconizado. A partir dessas informações fornecidas pela análise do jogo, é realizada uma intervenção no processo de treinamento em curto prazo, focando diretamente nos problemas ou em longo prazo, voltando a planificar e redefinindo alguns princípios do jogo. Esse processo é realizado durante toda uma temporada e ao final pode-se executar um balanço da mesma proporcionando ao treinador a alternativa de manter o modelo de jogo utilizado ou a construção de uma nova planificação para a temporada seguinte. PLANIFICAÇÃO TREINAMENTO INTERVENÇÃO COMPETIÇÃO MODELO DE JOGO DETECÇÃO DE PROBLEMAS ANÁLISE DO JOGO Felipe D. Bressan Treinador de Futebol Figura 1 Processo lógico de planificação do treinamento e análise do jogo. Utilizando-se de um exemplo prático é possível entender de forma mais concreta como se dá essa relação da análise do jogo da própria equipe com a planificação do treinamento. Visualize uma equipe que tem como um dos princípios em seu modelo de jogo a recuperação imediata da posse, logo após sua perda e a pressão constante ao possuidor da bola. 4

5 Durante as partidas esses princípios não estão sendo muito bem executados e a equipe demora em recuperar a posse da bola, fornecendo espaços para o adversário trocar passes e construir seu jogo. A partir da detecção desse problema, o treinador passa a realizar sessões de treinamento específicas para corrigi-los, dando maior ênfase a esses princípios do jogo, a fim de potencializá-los. Ao realizar a análise do adversário, parte-se dos mesmos pressupostos, porém a utilização dos dados obtidos influencia de uma forma um pouco distinta em relação a análise de jogo da própria equipe. Em função da detecção dos pontos fortes e fracos da equipe que se irá enfrentar pode-se inserir no processo de treinamento da equipe princípios circunstanciais que favoreçam o jogar nesse confronto. Em outras palavras, é realizar sessões de treinamento, sem alterar o modelo de jogo do planejamento inicial, todavia inserindo comportamentos circunstanciais ou enfatizando-os em caso de já existirem dentro desse modelo de jogo para que possam se sobressair às ações do adversário, aproveitando-se de suas debilidades. Um exemplo prático e simples para isso seria imaginar um adversário que possui um lateral esquerdo extremamente ofensivo e com muita qualidade para chegar ao ataque, porém defensivamente esse setor fica fragilizado uma vez que o balanço defensivo não é eficiente. Realizando a análise do jogo desse adversário detecta-se essa fragilidade e o treinador conclui que esse é um ponto fraco a ser explorado durante o confronto. Porém o treinador não possui em seu modelo de jogo princípios ofensivos que possam tirar vantagem dessa fragilidade do adversário. Com isso planifica-se a semana de treinamento para inserir alguns padrões de jogo ofensivos dentro do modelo de jogo inicial para poder tirar proveito dessa debilidade do adversário, porém sem alterar a forma do jogar da equipe. O conteúdo desse informe também pode variar de uma equipe profissional para equipes de categorias de base, uma vez que o objetivo principal nessa fase é a formação dos atletas e a competição é, ou deveria ser, colocada em segundo plano Nas categorias de base esse tipo de ferramenta deve ter o intuito de potencializar as habilidades futuras. Implica na correção de erros técnico-táticos de forma individual, coletiva e funciona como reforço na aprendizagem, buscando um máximo rendimento a médio e longo prazo. Isso fornecerá ao jogador uma base mais sólida e concreta para tentar resolver de forma mais rápida e efetiva os problemas apresentados pelo jogo. 5

6 Também evita que o mesmo queime etapas em seu processo de aprendizagem pela busca do rendimento imediato. Portanto, pôde-se observar que o processo de análise do jogo está intimamente ligado a planificação e ao processo de treinamento, principalmente no que diz respeito ao fornecimento de feedback positivo por parte do treinador e da comissão técnica aos atletas de maneira individual ou a equipe como um todo. Essa ferramenta é fundamental para a avalição e a evolução do modelo de jogo de uma equipe visando o alto rendimento e para o processo de ensinoaprendizagem quando o assunto são as categorias de base. Há muito a ser explorado e descrito sobre a análise do jogo e sua importância no futebol. Apesar de sua popularidade ter crescido muito nos últimos anos, ainda é um instrumento que em muitos casos é utilizado de forma equivocada e descontextualizada, fornecendo informações inválidas que podem influir negativamente no rendimento ou na formação de equipes e atletas. Cada vez mais é necessário estudar o fenômeno futebol e suas ferramentas se baseando em novas metodologias apoiadas na ciência, não havendo mais espaço para ideias empíricas. Conhecida a importância da Análise do Jogo para o processo e a planificação do treinamento, quais os tipos existentes e como se realizar uma análise da própria equipe, do adversário ou específica a categorias de base? A resposta para essa pergunta seria tema para uma próxima dissertação e servirá como forma de reflexão com base no que foi explanado. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS CALLIGARIS, A., MARELLA, M. & INNOCENTI, A. Il calico al computer. Da Mexico 86 verso Italia 90. Roma: Società Stampa Sportiva, GARGANTA, J. Modelação táctica do jogo de futebol. Estudo da organização da fase ofensiva em equipas de alto rendimento. Tese de Doutoramento não publicada. Porto: FCDEF-UP,

7 , J. Analisar o jogo nos jogos desportivos colectivos. Uma preocupação comum ao treinador e ao investigador. Horizonte, vol. XIV (83), 7 14, 1998., J. (2000a). Análisis del juego en el fútbol. El recorrido evolutivo de las concepciones, métodos e instrumentos. Entrenamiento Deportivo, XIV (2), 5 14, 2000ª., J. O treino da táctica e da estratégia nos jogos desportivos. In J. Garganta (Ed.), Horizontes e órbitas no treino dos jogos desportivos (pp ), Porto: CEJD, 2000b., J. A análise da performance nos jogos desportivos. Revisão acerca da análise do jogo. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 1 (1), 57 64, 2001., J. Competências no ensino e treino de jovens futebolistas. Lecturas Educación Física y Deportes, Revista digital, 45 (8), Disponível em: Acesso em: 12 mai JÚNIOR, D., GASPAR, A. & SINISCALCHI, M. Análise estatística do desempenho técnico colectivo no basquetebol. Lecturas Educación Física y Deportes, Revista digital, 49, Disponível em: Acesso em: 12 mai MURTOUGH, J. & WILLIAMS, M. Using video in coaching. Insight, 4 (2), 38 39, WILLIAMS, M. Providing feedback during skill learning: the ten commandments. Insight, 3 (2), 12 13, *Bacharel em Esporte pela Universidade de São Paulo (USP) *Treinador de Futebol. 7

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