John Locke e o fim da autoridade absoluta do governante

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1 John Locke e o fim da autoridade absoluta do governante Sérgio Praça pracaerp.wordpress.com Temas da Aula 2) Como estabelecer um governo? Constituintes e Constituição 3) Características do governo civil 1

2 i) Estado de Natureza é social ii) Estado de Natureza é governado por leis naturais iii) Estado de Natureza: adquirimos direitos individuais de propriedade sem consentimento alheio e sem ser por doação de entidade divina Pessoas têm direito de propriedade dado de acordo com critérios de necessidade. Um rico não poderia reclamar do Bolsa Família a não ser que este rico, com a existência do Bolsa Família, veja sua renda diminuir a ponto de colocar seu bem-estar em risco. 2

3 O estado de natureza, relativamente pacífico, não está isento de inconvenientes, como a violação da propriedade (vida, liberdade e bens) que, na falta de lei estabelecida, de juiz imparcial e de força coercitiva para impor a execução das sentenças, coloca os indivíduos singulares em estado de guerra uns contra os outros Inconvenientes do Estado de Natureza A) Propriedade é escassa. Se cheguei tarde para ter direito a um pedaço de terra, devo ser empregado pelo dono da terra. Nasce a desigualdade. Leis morais não são suficientes para governar a desigualdade É a necessidade de superar esses inconvenientes que, segundo Locke, leva os homens a se unirem e estabelecerem livremente entre si o contrato social, que realiza a passagem do estado de natureza para a sociedade política/civil. Esta é formado por um corpo político único, dotado de legislação, de judicatura e da força concentrada da comunidade. Seu objetivo precípuo é a preservação da propriedade e a proteção da comunidade tanto dos perigos internos quanto das invasões estrangeiras 3

4 O contrato social de Locke em nada se assemelha ao contrato hobbesiano. Em Hobbes, os homens firmam entre si um pacto de submissão pelo qual, visando a preservação de suas vidas, transferem a um terceiro (homem ou assembleia) a força da comunidade, trocando voluntariamente sua liberdade pela segurança do Estado-Leviatã Em Locke, o contrato social é um pacto de consentimento em que os homens concordam livremente em formar a sociedade civil para preservar e consolidar ainda mais os direitos que possuíam originalmente no estado de natureza. No estado civil os direitos naturais inalienáveis do ser humano à vida, à liberdade e aos bens estão melhor protegidos sob o amparo da lei, do árbitro e da força comum de um corpo político unitário 1) Para reduzir a abrangência de interesses institucionais, as constituições devem ser escritas por assembléias convocadas especialmente para esse fim, e não por corpos de representantes que trabalham como legisladores normais. As legislaturas que não são eleitas para esse fim não devem ocupar lugar central no processo de ratificação do texto constitucional. (No caso brasileiro, os deputados e senadores foram eleitos para uma legislatura ordinária. Caso tivessem sido eleitos apenas para esse fim, a assembléia deveria ter sido dissolvida após a promulgação da Constituição o que não ocorreu.) 4

5 2) De modo geral, instituições ou atores cujos comportamentos serão regulados pela Constituição não devem participar do processo constitucional. É o caso, por exemplo, do Executivo, do Judiciário e das Forças Armadas. (O lobby dentro do processo constituinte brasileiro foi notório, como no caso de alguns profissionais liberais, sindicalistas, ruralistas, além da atuação do próprio presidente da República nas questões como o mandato presidencial e o sistema de governo.) 3) O processo constitucional deve conter elementos tanto de segredo (discussão em comissões) quanto de publicidade (discussões no plenário da assembléia). Quando há segredo total, interesses partidários e conchavos dão o tom das discussões, enquanto a publicidade total encoraja exageros retóricos. Em contraste, o segredo permite discussões sérias, enquanto a publicidade assegura que qualquer acordo proposto é capaz de ser firmado de fato. (A Assembléia Nacional Constituinte de não se reuniu em segredo nem mesmo a Comissão Afonso Arinos, iniciada em julho de 1985, foi fechada para a imprensa. Mas não é arriscado afirmar que houve negociações e acordos entre líderes constituintes longe dos olhos públicos.) 5

6 4) As eleições para a assembléia constituinte devem ser realizadas por meio do sistema proporcional e não o majoritário. Mesmo que o sistema majoritário possa ter diversas vantagens quando se trata da governabilidade de legislaturas ordinárias, uma assembléia constituinte deve ser amplamente representativa. (As eleições para a ANC foram realizadas por meio do sistema proporcional no caso dos 487 deputados constituintes, enquanto os 72 senadores constituintes foram eleitos pelo sistema majoritário.) 5) A fim de reduzir a possibilidade de ameaças e tentativas de influenciar o processo deliberativo por meio de manifestações de massa, a assembléia constituinte não deve se reunir na capital do país ou em uma cidade grande. Tampouco deve-se permitir que as Forças Armadas se reúnam nas proximidades da assembléia. (Nossa Assembléia Nacional Constituinte reuniu-se em Brasília, capital do país.) 6

7 6) A Constituição deverá se sujeitar à ratificação popular por meio de referendo. (O procedimento do referendo introduzido na Constituição juntamente com o plebiscito e a lei de iniciativa popular, compondo três mecanismos de participação popular não foi utilizado para ratificar o texto constitucional brasileiro.) 7) Para eliminar interesses de curto prazo ou interesses partidários, a assembléia constitucional poderia impor a regra de que a Constituição não deve entrar em vigor até, digamos, vinte anos depois de ser votada pelos constituintes. Esse procedimento criaria um véu de ignorância artificial, forçando cada representante a se colocar no lugar de todos os cidadãos. (Os artigos constitucionais teriam vigência imediata, salvo alguns casos em que se exigiu legislação complementar para a medida entrar em vigor.) 7

8 3) Características do Governo Civil Função do governo: fornecer leis conhecidas e estáveis, administradas por juízes imparciais Não há autoridade absoluta. Cidadãos delegam autoridade para governantes e podem retirá-los do poder caso esses não façam um bom trabalho. Poder Legislativo tem primazia sobre os outros poderes: Executivo e Federativo (relações exteriores, guerra e paz) 3) Características do Governo Civil Livre consentimento dos indivíduos para o estabelecimento da sociedade Livre consentimento da comunidade para a formação do governo Proteção dos direitos de propriedade pelo governo Controle do Executivo pelo Legislativo Controle do Governo pela sociedade 8

9 . Referências Elster, Jon. "Deliberation and Constitution Making, in Elster, Jon (ed.) Deliberative Democracy. Cambridge, Cambridge University Press, 1998 Locke, John. Dois tratados sobre o governo. São Paulo, Ed. Martins Fontes, Mello, Leonel Itaussu Almeida. John Locke e o individualismo liberal, in Weffort, Francisco. (org.) Os clássicos da política, v. 1. São Paulo, Ed. Ática, 2002, p

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