GRUPO TERAPÊUTICO NA REABILITAÇÃO SOCIAL DE MULHERES MASTECTOMIZADAS

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1 GRUPO TERAPÊUTICO NA REABILITAÇÃO SOCIAL DE MULHERES MASTECTOMIZADAS Gilmara Saraiva Bezerra 1 Irma Caroline Lima Verde da Silva 2 Nydia Cavalcante de Carvalho Pinheiro 3 Maria Zélia de Araújo Madeira 4 INTRODUÇÃO O câncer é a segunda causa de morte dentre os humanos, e a primeira entre as mulheres. Considerado como um dos maiores problemas de saúde pública em todo mundo, é temido entre as mulheres devido à sua alta freqüência e seus efeitos psicológicos. Em termos epidemiológicos, o câncer de mama é o tumor de maior incidência entre os países. Percebe-se que o número de novos casos aumenta cada vez mais e que a projeção dessa incidência é ainda maior nos países em desenvolvimento, dentre eles o Brasil. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA, 2005), no Brasil, em 2002, foram registradas mortes decorrentes do câncer de mama e mais da metade dos óbitos (5.834) ocorreram em mulheres na faixa etária dos 40 aos 69 anos de idade. Dos novos casos de câncer diagnosticados em 2003, o câncer de mama foi o segundo mais incidente entre a população feminina, e responsável por novos casos e óbitos. Para este ano de 2006, está estimado no Piauí que de cada casos diagnósticos de câncer 240 serão de mulheres com a mama afetada pela doença o que corresponde a 15,85% de todos os casos no estado. Especificamente em Teresina, a estimativa será que de cada 780 casos diagnosticados, 130 serão de câncer de mama equivalendo a 33,7% dos casos diagnosticados na capital. O câncer de mama expõe as mulheres a uma série de dificuldades, especialmente quando as colocam frente à mastectomia (retirada da mama), levando-as a um desajuste psicológico em decorrência dessa doença crônica e mutilante. Essas dificuldades contribuíram para o surgimento de grupos de apoio também chamados de grupos de auto-ajuda ou de grupos terapêuticos, com a finalidade de auxiliar mulheres mastectomizadas a resolver ou minimizar os problemas decorrentes do câncer e da mastectomia. Neste estudo utilizamos à denominação de grupo terapêutico. Para Barros, Zimerman e Ozório (1997), o grupo terapêutico é aquele que se presta para auxiliar as pessoas a resolverem seus problemas, relacionados a eventos traumáticos decorrentes do acometimento de doenças de natureza aguda e em especial crônica bem como aos transtornos aditivos, as incapacitações, a situações de causas existenciais e traumas. Como exemplo de grupo terapêutico, existe em Teresina desde 1998, a Fundação Maria Carvalho Santos (FMCS) - a fonte da solidariedade pessoa jurídica de direito privado, que é uma entidade de caráter filantrópico, assistencial, educacional e cultural de defesa e promoção da saúde, com área de jurisdição em todo território nacional. Vem realizando, através de uma equipe multiprofissional, formada por médicos, fisioterapeutas, psicólogos, 1 Enfermeira. 2 Enfermeira 3 Enfermeira 4 Mestre em Educação UFPI, docente do curso de graduação em enfermagem na Faculdade de Saúde, Ciências Humanas e Tecnológicas do Piauí (NOVAFAPI) e da UFPI.

2 nutricionistas, assistentes sociais e pessoas que já passaram por experiências semelhantes, diversos projetos com a finalidade de proporcionar, dentre outras coisas, a assistência, o apoio e a orientação social às mulheres com câncer de mama, especialmente as mastectomizadas. Os processos de auxílio às necessidades de uma pessoa com câncer dependem da perda anatômica verificada, dos locais acometidos pelas metástases, dos tratamentos utilizados, da idade da paciente e do prognóstico do caso. Os fatores psicológicos e sócioeconômicos devem ser considerados, para que se programe a reabilitação do paciente de forma realista e compatível com as suas limitações fisiológicas e ambientais (INCA, 2005). Conforme Taylor (1992), todas as pessoas têm uma imagem mental do próprio corpo, chamada de imagem corporal e a remoção cirúrgica de um seio estão entre os procedimentos cirúrgicos mais perturbadores em termos emocionais, vividos por uma mulher. Embora as pessoas respondam de modos altamente individuais e únicos ao mesmo procedimento cirúrgico, quase todas as mulheres inconscientemente sentem que foram mutiladas, quando de uma amputação do seio. Após a cirurgia, muitas dessas mulheres podem expressar sentimentos de não ser plenamente mulher ou de ter menos valor no mundo do que antes da operação ou ainda expressar temor de perda da aceitação de seus parceiros sexuais. Uma outra resposta freqüente a essa perda cirúrgica é um sentimento inconsciente, por parte da mulher, de que está sendo punida por alguma transgressão real ou imaginada, que pode ter ocorrido anos antes. Esse sentimento pode levar a mulher a responder como se fosse indignas da atenção dos amigos ou parentes. As possíveis razões para as muitas reações emocionais à amputação de um seio são tão variadas quanto às mulheres que precisam desse procedimento. O diagnóstico do câncer de mama e a possibilidade de uma intervenção cirúrgica podem acarretar uma série de transtornos físicos e emocionais na vida e saúde da mulher destacando-se aqueles que se relacionam ao desempenho de suas atividades diárias e de seus papéis sociais; isto porque o esquema corporal da mulher mastectomizada modifica-se profundamente alterando-se a maneira de se sentir e vivenciar o corpo (MAMEDE, 2000). Para o INCA (2005), a identificação precoce e o tratamento da doença e outros sintomas de ordem física, psicossocial e espiritual devem incluir todo um conjunto de cuidados que permitam ao paciente situar-se em sua nova condição e adaptar-se física, psicológica e socialmente a ela. É sob esta ótica que a identificação de suas necessidades, deve ser considerada. Seguindo estes pensamentos, os cuidados realizados a uma paciente são importantes, pois consiste na abordagem para melhorar a qualidade de vida desta paciente e seus familiares, no enfrentamento de doenças, como o câncer que oferecem risco de vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. O tratamento atual do câncer de mama fundamenta-se em tratamento local ou sistêmico do câncer e nas características individuais da paciente e da doença, que tem como procedimento mais freqüentemente utilizado a mastectomia uni ou bilateral. Quando nos deparamos com qualquer doença com risco de vida, as preocupações espirituais e existenciais geralmente afloram. As seqüelas psicológicas podem incluir uma imagem corporal ou autoconceito alterado em conseqüência da alteração ou perda da mama. Outras importantes preocupações psicossociais incluem a incerteza sobre o futuro, medo da recidiva e os efeitos do câncer de mama e seu tratamento sobre as funções de família e trabalho. O câncer de mama é uma das doenças que mais induz sentimentos negativos em qualquer um de seus estágios, especialmente quando o tratamento é a mastectomia. Para Stuart e Laraia (2001), um grupo é uma reunião de pessoas que têm um relacionamento umas com as outras, são interdependentes e capazes de compartilhar normas. Os grupos têm uma finalidade comum e possibilita aos seus membros uma variedade de relacionamentos, enquanto interagem uns com os outros, e suas funções de conteúdo são satisfeitas quando os membros compartilham suas experiências para ajudar um outro membro.

3 A terapia de grupo permite que os clientes resolvam seus problemas na presença de outros, observem como as outras pessoas reagem a seu comportamento, e experimentem novos modos de responder quando os anteriores se mostram insatisfatórios. Considerando o exposto, o objeto deste estudo é visão da mulher mastectomizada sobre o grupo terapêutico. De acordo com o objeto da nossa investigação e, para construir o estudo, buscamos responder as seguintes questões norteadoras: O que levou a mulher mastectomizada a procurar o grupo terapêutico?qual a visão da mulher mastectomizada sobre o grupo terapêutico na sua reabilitação social? Que mudanças ocorreram na reabilitação social da mulher mastectomizada após freqüentar o grupo terapêutico? OBJETIVO Descrever a visão da mulher mastectomizada sobre o grupo terapêutico na sua reabilitação social, discutir as mudanças que ocorreram no cotidiano da mulher mastectomizada após freqüentar o grupo terapêutico e analisar como o grupo terapêutico interfere na reabilitação social da mulher mastectomizada. MÉTODO O estudo é uma pesquisa de caráter exploratório, descritivo e de campo, com uma abordagem qualitativa. Conforme Lüdke e André (1986), a pesquisa qualitativa é caracterizada pela obtenção de dados descritivos no contato direto entre o pesquisador e a situação pesquisada, valorizando mais o processo que o produto e preocupando-se em demonstrar as perspectivas dos participantes. Tivemos como cenário da pesquisa a Fundação Maria Carvalho Santos (FMCS), entidade filantrópica localizada nesta cidade, que, através de uma equipe multiprofissional, presta assistência e apoio fora do ambiente hospitalar a mulheres atingidas pelo câncer de mama. Foi fundada em 25 de novembro de l998 na cidade de Teresina-Piauí, é a única entidade filantrópica e benevolente que desenvolve um trabalho de ação quaternária no combate ao câncer de mama (adaptação social) no meio norte do Brasil (MA/CE/PI e TO). Está sob a coordenação da assistente social Francisca Andrade Aragão (FMCS, 2000). O atendimento na fundação é feito através de uma equipe multiprofissional que desenvolve, em conjunto, projetos em prol da mulher com câncer de mama e suas seqüelas. Preocupa-se com a educação em saúde da mama e busca encontrar meios para amenizar os estigmas e os tabus relacionados com o câncer de mama junto aos portadores da doença, fornecendo recursos para o retorno a sua vida profissional, social e familiar sem traumas. A produção de dados foi feita através de entrevista semi-estruturada, por ser uma técnica que oferece uma maior flexibilidade na obtenção das informações. Os sujeitos do estudo foram nove (09) mulheres mastectomizadas que participam do grupo terapêutico da FMCS. A coleta de dados foi realizada nos meses de agosto e setembro de 2005, através de uma entrevista semi-estruturada. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas na íntegra e, para resguardar a identidade dos sujeitos, utilizamos nome de flores como códigos, em suas identificações. Durante as entrevistas o termo grupo terapêutico foi modificado para fundação, por ser este mais identificável como grupo terapêutico para os sujeitos. A análise de conteúdo constituiu-se na estratégia para o tratamento das entrevistas com referencial em Minayo (1994) organizando-se os dados da seguinte forma: ordenação dos dados a partir da transcrição imediata das gravações, e em seguida a leitura exaustiva e repetitiva de todo o material para apreensão das idéias centrais e da identificação de categorias, que emergiram de aspectos importantes das falas dos sujeitos. Foi solicitado um

4 termo de consentimento junto aos sujeitos participantes do estudo, levando em consideração os aspectos éticos propostos pela Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido), sobre pesquisa envolvendo seres humanos e a prévia autorização dos responsáveis pela instituição pesquisada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao fazermos à análise dos dados obtidos através das mulheres mastectomizadas, no que se refere à sua visão sobre o grupo terapêutico, identificamos, as seguintes categorias: O porquê da procura pelo grupo terapêutico; Apoio da equipe multiprofissional; e Ajuda mútua através de experiências semelhantes vividas por outras mulheres no grupo. Estas categorias foram identificadas conforme os depoimentos das mulheres mastectomizadas que participam do grupo terapêutico da FMCS. Após a interpretação e analise dos discursos dos sujeitos, que se contemplavam de forma verbal e não verbal compreendemos, a necessidade das mulheres mastectomizadas em serem tratadas de forma que transceda os aspectos biológicos, fazendo com que essas mulheres sintam-se de fato assistidas em sua integralidade, tendo como meta um cuidado que não seja de forma isolada, mas por uma equipe multiprofissional, presente no grupo terapêutico, que não leve em consideração apenas a perda física, mas também as conseqüências acarretadas pela mastectomia. Palavras-chave: Mulheres mastectomizadas. Reabilitação social. Grupo terapêutico REFERÊNCIAS ATKINSON. R. L. Introdução à Psicologia. 13ª ed. Porto Alegre: Artmed, BARROS, C. A. S. M.; ZIMERMAN, D. E.; e OZÓRIO, L. C. Como trabalhamos com grupos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, p INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (INCA) - Ministério da Saúde. Câncer de Mama. Disponível em: <http://www.inca.org.br>. Acesso em Fundação Maria de Carvalho Santos (F.M.C.S.) a fonte da solidariedade. Conheça a Fundação. Disponível em: <http://www.fontedasolidariedade.com.br>. Acesso em: LUDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A.: Pesquisa em educação: abordagem qualitativa. São Paulo. Editora EPU. 1986, p MAMEDE, M.V. Orientações Pós-Mastectomia: o Papel da Enfermagem. Revista Brasileira de Cancerologia. Rio de Janeiro, V.46, n.1, Jan/Mar, 2000, p MINAYO, M. C. S. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 21ª ed. Petrópolis RJ: Editora Vozes LTDA, 1994, p STUART, G. W.; LARAIA, M. T. Enfermagem Psiquiátrica: princípios e práticas. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2001, p

5 TAYLOR, C. M. Fundamentos de Enfermagem Psiquiátrica. 13ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas,

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