VARIAÇÕES NO DOMÍNIO DA LÍNGUA PORTUGUESA Ânderson Rodrigues Marins (UFF) e

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1 VARIAÇÕES NO DOMÍNIO DA LÍNGUA PORTUGUESA Ânderson Rodrigues Marins (UFF) e INTRODUÇÃO Os que se detêm na análise mais acurada dos fenômenos lingüísticos percebem que o vínculo entre língua/usuário/sociedade é essencial para se refletir sobre a língua, seus usos e variações. Todas as variedades de uma língua possuem o mesmo valor lingüístico, mas adquirem valores sociais distintos. Podemos dizer que a variante lingüística dos indivíduos com prestígio social e econômico possui grande prestígio e é utilizada como alicerce para definição da variante padrão da língua. Igualmente, dissemina-se pela televisão, rádio e colunas em jornais uma transmissão lingüística que está a direcionarnos para um julgamento de linguagem certa, isenta de lapsus loquendi e lapsus scribendi. Consideremos, no entanto, que sem as devidas investigações e métodos descritivos, torna-se difícil definir o que no domínio da nossa língua portuguesa é de emprego obrigatório ou facultativo, ou o que é ou deixa de ser correto. De fato existe oposição entre certo e errado que se pode dar, entre outros casos, à oposição entre língua falada e língua escrita, porque esta se organiza mediante regras distintas daquela. É certo que não se escreve da mesma maneira como se fala. Empregamos, com toda segurança, a variedade adequada à situação do momento porque cada variedade da língua é a- propriada em seu devido contexto próprio. Daí, portanto, o valor de um conceito preciso de correção e de uma descrição detalhada das variedades cultas, seja na forma escrita ou falada, que leve em conta as naturais variedades que compõem a heterogeneidade lingüística. LÍNGUA, USUÁRIO, SOCIEDADE E VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA Sabemos que os usuários de uma língua possuem um repertório lingüístico passível a variações. Esses usuários quando entre pessoas desconhecidas e em ambientes de maior formalidade, por e-

2 xemplo, são capazes de adotar uma determinada maneira de falar e usar com realce as variantes de prestígio, de acordo com as normas. Diferenças de contextos formal e informal conduzem os falantes a empregar os estilos também formais e informais, uma vez que a competência lingüística que possuímos, permite-nos compreender e utilizar a língua mesmo sem freqüentar aulas de gramática de língua portuguesa. Nesse caso, entende-se que o objetivo da escola não é moldar os alunos para que utilizem sempre variedade culta da língua, mas sim desenvolver neles a competência textual para que se adequem às necessidades de comunicação e de expressão lingüística em um contexto sociocultural tão heterogêneo quanto o brasileiro. No ato de comunicar-se, o falante demonstra através da variação, mais informações do que aquela que é pretendida, pois as línguas são entidades sociais e se modificam. Essas modificações ocorrem mediante fatores sociais (idade, sexo, classe social, localização regional), fatores históricos (modificação da língua, causada pelo tempo), fatores geográficos (região em que o falante nasceu ou vive) e outros mais. Tais variações são naturais ao ato da fala, não sendo conteúdos a serem aprendidos na escola. Com efeito, os métodos utilizados para se ministrar o ensino da língua são pautados, quase que exclusivamente, na gramática normativa ou prescritiva, que dita ou prescreve regras em vez de cultuar a prática reflexiva da língua. Essa idéia resgata a herança do mundo greco-romano que se pautou mediante estudo da escrita literária de autores do passado e que não considerou as mudanças lingüísticas e as variedades dialetais. E semelhante premissa acaba por difundir entre nós concepções de língua bela ou feia, boa ou má e de língua correta ou incorreta. Basicamente entende-se a variação como um fenômeno pelo qual uma língua se concretiza diversamente em função da época e local em que é empregada, da condição social do falante e da situação em que este se encontre. E que, a entoação, a pronúncia, a seleção vocabular, certas construções frasais, além dos mecanismos morfológicos empregados, permitem adequar os usuários em determinados grupos. A título de exemplo, temos nos eixos sociais os falantes mais velhos que têm por costume preservar mais as formas antigas e o mesmo pode ocorrer com pessoas mais escolarizadas. Também po-

3 de-se dar com as camadas da população que gozam de maior prestígio social, ou as pessoas que exercem atividades socioeconômicas que exigem uma boa apresentação ante ao público. A rigor, defrontamo-nos, hoje, com intensa reação purista que conta não só com nomenclatura e ortografia oficiais, mas ainda com senso geral de que o registro da escola é a língua culta. Todo o nosso comportamento social, via de regra, está vinculado a princípios a que devemos seguir se desejarmos ser corretos. O mesmo ocorre com a linguagem, ao passo que as suas normas, em geral, são mais complexas e mais coercitivas. Por isso, falar correto implica falar da forma como a comunidade lingüística exige, e erro em linguagem e- quivale a desvios desta norma (cf. Cunha e Cintra, 2001). Compartilhamos dos valores de nossas normas. Podemos, em vista disso, ter um informante culto em atitude informal, formalidade e norma culta, bem como informalidade e norma não culta. Assim, todas as variedades são ainda eficazes em termos comunicacionais nas situações em que são de uso esperado e apropriado. A propósito, diz com fundamento a Profa. Dra. Rosa Virgínia Mattos e Silva (1997, p. 29): A regulação lingüística busca então a compatibilidade entre os grupos sociais que possuem as suas próprias especificidades, isto é, as suas próprias normas sociais, para atingir a intercompreensão entre eles, ou seja, a aceitação de suas próprias diferenças. Se o comportamento do indivíduo fosse livre de toda restrição, do mesmo modo o comportamento lingüístico, as variações pessoais poderiam vir a romper a possibilidade de comunicação com os outros membros da comunidade. Assim convivem nos grupos sociais variação e regulação da variação, que aponta para a unificação. São duas as forças que agem conjugadamente, com maior ou menor peso, a depender de condicionamentos de várias naturezas. Dentre algumas das variáveis lingüísticas compartilhadas entre grupos sociais temos a variação na concordância de número entre elementos do SN. Encontra-se claramente ausência da marca de plural, sobretudo em contextos lingüísticos favoráveis a tal fato, tanto na fala de não-escolarizados ou de baixo nível de escolarização quanto na dos de nível universitário. Admite-se que certas atitudes lingüísticas não estão demarcadas apenas por fronteiras geográficas, senão também por fronteiras sociais. Temos conhecimento, ainda que intuitivo, de que no PB a

4 falta de concordância de número entre elementos do SN pode ser indicação de baixo grau de escolaridade. Indivíduos de maior nível de instrução e de melhor situação econômica têm certo cuidado, na maior parte das vezes, em evitar, coram populo, combinações do tipo: as menina e os amigo, em vez de as meninas e os amigos. No nível fonético, vários estudiosos já constataram que a vibrante em coda silábica ca(r)ta, unive(r)sidade, u(r)gência, ama(r) admite distintas realizações, ou variantes, tais como vibrante múltipla, vibrante simples, fricativa velar, uvular, aspirada, um som retroflexo, ou pode ser suprimida. O fenômeno tem considerável extensão no Português do Brasil, atingindo várias regiões, embora em cada uma delas se manifeste a predominância de uma ou outra variante (cf. Paiva e Duarte, 2006). No nível morfológico temos freqüente uso da forma a gente no quadro pronominal do português para referência à primeira pessoa do plural em detrimento de nós. Temos A gente estuda muito em vez de Nós estudamos muito. Quando, pois, há combinação da desinência - mos com o pronome a gente ela envolve uma oposição entre forma prestigiada e forma não prestigiada, dado que, quando isenta da combinação, trata-se de uma alternância presente em diferentes variedades do PB, livre de avaliação social (ibidem). Quanto ao nível fonético, agora sob ponto de vista histórico e diatópico, podemos citar o magnífico estudo intitulado Pressupostos para o Estudo Histórico da Pronúncia Brasileira do Professor Doutor Ricardo Cavaliere. Nele o eminente filólogo (2005, p. 67) nos ensina que a descrição segura das variantes diatópicas no Brasil deve levar em conta que, por pelo menos dois séculos e meio, o Brasil era um arquipélago etnolingüístico-cultural com variada manifestação de línguas em contato. A verificação dos graus de contato lingüístico nas distintas regiões brasileiras parte da tese de que, até a definitiva unificação política implementada pela Corte portuguesa, a partir das últimas décadas do século XVIII, o Brasil era um arquipélago composto de ilhas históricas, a saber: Maranhão e Pará (Grão-Pará), Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. As precárias condições de comunicação (por mar) entre as denominadas capitanias hereditárias

5 constituíram séria limitação para unificação lingüística do território. Isto significa dizer que as três bases lingüísticas que estão em sua o- rigem (a língua geral, as línguas africanas e o português) apresentavam profundas variantes fonológicas e gramaticais diatópicas, além de manterem diversificado contato entre si em cada uma das ilhas (cf. Cavaliere, 2005). Conclui-se assim, que a profícua comunicação entre membros de uma comunidade contribui para manutenção de suas características lingüísticas, ao passo que a falta de contato lingüístico entre comunidades favorece o aumento de diferenças lingüísticas. Certo é que ao transcorrer do tempo as ilhas distanciaram-se lingüística e culturalmente criando uma feição própria que atuaria mais tarde à feição de substratos no português oficial, adjudicando a esta língua, sobretudo no léxico e na fonologia, a natureza diversificada que hoje manifesta. O estudo da variada manifestação diatópica no Brasil reconhecerá que a mudança lingüística é um processo contínuo e subproduto fatal da interação lingüística. Surge, pois, a importância de se esclarecer a transição geográfica de dialetos através de um território, bem como de dialetos através do tempo numa comunidade. Há que se considerar, em todo caso, o contato entre falantes com sistemas lingüísticos distintos e as mudanças na estrutura social. Enfim, a importância do vínculo entre língua/usuário/sociedade se deve às naturais variedades que compõem o aspecto heterogêneo da língua. Qualquer variedade no domínio da língua tem o seu devido valor, desde que verdadeiramente exista e seja usada, ou tenha sido usada, por uma comunidade. Distante, é claro, da impressão de que certas formas da língua são feias, erradas ou de algum modo desagradáveis, a pesquisa lingüística se ocupa de muitos aspectos da linguagem e de seu uso. Segue princípios e postulados voltados ao estudo, descrição e compreensão do funcionamento da língua, conditio sine qua non se interessaria pela língua como ela é e sim como ela deveria ser.

6 BIBLIOGRAFIA CAVALIERE, Ricardo S. Pressupostos para o Estudo Histórico da Pronúncia Brasileira. Confluência (Revista do Instituto de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Liceu Literário Português, n os 29 e 30), CUNHA, Celso, CINTRA Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, FIORIN, J. Luiz (org.). Introdução à lingüística. São Paulo: Contexto, LOPES, Célia Regina dos Santos (org.). A norma Brasileira em Construção: fatos lingüísticos em cartas pessoais do século XIX. Rio de Janeiro: UFRJ, Pós-Graduação em Letras Vernáculas: Faperj, MATTOS e SILVA, Rosa Virgínia. Contradições no ensino de Português. São Paulo: Contexto; Salvador, BA: Ed. da UFBA, MOLLICA, Maria Cecília & BRAGA, Maria Luiza (org.). Introdução à Sociolingüística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, PAIVA, Maria da Conceição A. de & DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia. Quarenta anos depois: a herança de um programa na Sociolingüística brasileira. In: WEINREICH, U. & LABOV, W. & HERZOG, M. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística. São Paulo: Parábola, PERINI, Mário A. Princípios de lingüística descritiva: introdução ao pensamento gramatical. São Paulo: Parábola, 2006.

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