MAPEAMENTO DO USO DO SOLO NA REGIÃO SUL DE ANÁPOLIS: AVALIAÇÃO DO ESTADO DA COBERTURA VEGETAL ORIGINAL Ludiana Ribeiro da Silva 1, Homero Lacerda 2

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1 MAPEAMENTO DO USO DO SOLO NA REGIÃO SUL DE ANÁPOLIS: AVALIAÇÃO DO ESTADO DA COBERTURA VEGETAL ORIGINAL Ludiana Ribeiro da Silva 1, Homero Lacerda 2 1 Voluntária de Pesquisa (PVIC/UEG), graduanda em Ciências Biológicas, UnUCET- UEG. 2 Orientador, docente do curso de Geografia, UnUCSEH UEG. Resumo A avaliação do estado da cobertura vegetal original foi feita comparando-se a situação original, reconstituída graficamente, com a situação atual. Originalmente a região tinha 75% da área coberta por Cerrado Ralo e 25% recoberta por Formações Florestais incluindo Mata de Galeria e Mata Seca. Atualmente a região contém apenas 7% da área recoberta por Formações Florestais e 15% recoberta por Cerrado Ralo. O restante da área (78%) tem cobertura antrópica, relacionada à urbanização e atividade agropecuária. Os resultados demonstraram a retirada da vegetação original e a fragmentação dos habitats. Palavras-chaves: Uso do solo, Cartografia, Cerrado. Introdução Neste trabalho o mapeamento do uso e cobertura da terra teve por objetivo inicial avaliar o estado da cobertura vegetal original na região sul de Anápolis (Figura 1), por intermédio da reconstituição gráfica da cobertura vegetal original e comparação com a situação atual. Figura 1: Localização da área de estudo. A área de estudo é delimitada pelos vértices de coordenadas planas UTM (Zona 22S) mE/ mN e mE/ mN. Compreende a alta bacia do Rio da 1

2 Extrema, abrangendo parte da malha urbana residencial e do Distrito Agro Industrial de Anápolis, bem como o Campus da UEG (Figura 1). Com relação aos trabalhos anteriores, Barreto Júnior & Angelini (2003) mapearam as fitofisionomias na área do Campus da UEG, onde observaram e delimitaram Cerrado Ralo, Mata Seca e Mata de Galeria. Neste artigo, resultado de um trabalho de Cartografia Temática aplicada à Biologia, pretende-se avançar no conhecimento das fitofisionomias da região, analisando uma área maior do que aquela trabalhada por Barreto Júnior & Angelini (2003) e comparando a situação original, reconstituída graficamente, com a situação atual. Materiais e Métodos O presente trabalho foi elaborado no método empírico, pois é baseado na observação e descrição sistemática dos elementos da paisagem. As bases cartográficas utilizadas para a realização do trabalho foram: Imagem de satélite Ikonos de 2001 e mapa topográfico 1/ com curvas de nível com eqüidistância de 20m em arquivos dos programas CorelDRAW 9 e AutoCAD 2004 (Lacerda, 2008). A pesquisa compreendeu o mapeamento do uso e cobertura do solo utilizando as fitofisionomias propostas por Ribeiro e Walter (1998) para caracterizar os remanescentes de vegetação original. A partir deste mapa foi analisada a situação da cobertura vegetal original por intermédio de: medição das áreas de cobertura vegetal original remanescentes; observação das relações entre fitofisionomias e relevo; reconstituição gráfica da cobertura vegetal original; comparação entre a situação original e atual da vegetação. O mapa de uso e cobertura da terra foi elaborado por interpretação de imagem Ikonos de 2001 feita na tela utilizando o programa CorelDRAW 9. A medição das áreas de vegetação original foi feita utilizando planímetro de pontos e as relações entre fitofisionomias e relevo foram observadas em modelo digital do terreno gerado a partir do mapa topográfico, utilizando os programas dxf2xyz e Surfer 8. Resultado e Discussão O mapa de uso e cobertura do solo (Figura 2) mostra áreas urbanas residenciais com média e baixa densidade de ocupação no quadrante noroeste e área urbana industrial (Distrito Agro Industrial de Anápolis D.A.I.A.) nas porções oeste e sul da área. Nas partes central e leste da área destaca-se o Campus da UEG em meio às áreas de campo antrópico e de cultivo, com remanescentes de vegetação original. Estes últimos compreendem Formações Florestais 2

3 (Mata de Galeria, Mata Seca e Formações Florestais Secundárias) e Formações Savânicas (Cerrado Ralo e Cerrado Alterado). Ribeiro e Walter (1998) definem Mata Galeria como a vegetação florestal que acompanha os rios de pequeno porte e córregos, formando corredores fechados (galerias) sobre o curso de água. Segundo estes autores as faixas de Mata Galeria quase sempre são circundadas por faixas de vegetação não florestal em ambas as margens e em geral ocorre transição brusca com formações savânicas e campestres. No entanto, Eiten (1993) assinala a existência da associação Florestas de Galeria e Florestas de Encostas Associadas e, neste caso, as matas galerias estão em contato com outras formações florestais denominadas por ele Florestas de Encostas. Este parece ser o caso da área de estudo de acordo com os trabalhos anteriores (Barreto Júnior & Angelini, 2003) e os resultados obtidos nesta pesquisa. Com efeito, na região sul de Anápolis observa-se que as faixas de Mata de Galeria apresentam-se como fragmentos dispostos ao longo das drenagens e são ladeadas ora por Formações Florestais do tipo Mata Seca ora por Formações Savânicas (Cerrado Ralo). Figura 2: Mapa de uso e cobertura da terra. Fonte: Elaborado por Ludiana Ribeiro da Silva a partir de interpretação de imagem Ikonos. As ocorrências de Mata Seca são poucas, restringindo-se a dois fragmentos situados na parte central da área, dentro e nas vizinhanças do Campus da UEG (Figura 2). As Matas Secas possuem diversos níveis de caducifólia durante a estação seca, dependentes das condições físicas e químicas do solo. Esta formação florestal não possui associação com cursos de água, ocorrendo nos interflúvios (Ribeiro & Walter, 1998). A Mata Seca possui fitofisionomia de flora com elementos de cerrado e de mata, com cobertura arbórea que pode oscilar de 50 a 3

4 90% com árvores que variam de oito a quinze metros (Ribeiro & Walter, 1998). Também foram identificadas Formações Florestais Secundárias caracterizadas pela presença de vegetação arbórea com dossel descontínuo. Sua composição afasta-se daquela da floresta primitiva, formando uma espécie de capoeira, em diversos graus de degradação ou de reconstituição (Rizzini, 1997). Formações savânicas designam áreas com árvores e arbustos espalhados sobre um estrato graminoso, sem a formação de dossel contínuo. As savanas do cerrado ocorrem sobre terreno plano ou levemente inclinado e com solos profundos e muitos estéreis, ou sobre solos muitos rasos (Eiten, 1993). Na área de estudo as Formações Savânicas estão representadas por Cerrado Ralo, em duas manchas situadas na porção centro-norte da área. Na parte centro-sul da região estudada existe uma grande área caracterizada como cerrado alterado, que está próximo as áreas de expansão industrial e áreas de campos antrópicos, possui a extensão territorial de 2,5 km 2 e a vegetação se apresenta com árvores em diferentes estados sucessionais em meio a formações naturais de cerrado. Analisando as relações entre distribuição dos fragmentos de Formações Florestais e relevo observou-se que estas fitofisionomias ocorrem, preferencialmente, nos fundos de vales (Figura 3A). Isto está em acordo com a bibliografia onde é ressaltada esta associação (Eiten, 1993), explicada pela disponibilidade hídrica e fertilidade do solo, que seriam maiores nas partes inferiores das encostas. A partir desta constatação é possível propor uma reconstituição gráfica da cobertura vegetal original, que servirá para avaliar o estado de degradação da vegetação na região estudada (Figura 3B). Antes da intervenção antrópica a região tinha cerca de 25% da sua área recoberta por Formações Florestais englobando Mata de Galeria e Mata Seca, em faixas contínuas acompanhando as drenagens (Figura 3B). As Formações Savânicas, representadas por Cerrado Ralo, recobriam originalmente 75% da área. Atualmente esta mesma região possui apenas 7% da área coberta por Formações Florestais e 15% de Formações Savânicas. O restante da área, perfazendo 78%, tem cobertura relacionada com as atividades antrópicas. Além da redução em área, houve fragmentação da cobertura vegetal original e hoje existem manchas de Formações Florestais em pequenos fragmentos, separados por extensas áreas de cobertura antrópica (Figura 3A). A fragmentação de habitats pode ter causas naturais, como flutuações climáticas, processos geológicos e alagamentos, mas atualmente tem sido um processo intimamente relacionado à expansão das atividades humanas, tais como agricultura, pecuária, urbanização 4

5 e construção de estradas (Cunha, 2007). Quando as florestas são fragmentadas, suas populações também são divididas e, assim, a genética e a demografia das populações remanescentes se alteram e, em geral, as conseqüências demográficas da fragmentação são mais críticas que as genéticas (Venticinque, 1999 apud Cunha, 2007). Em muitos casos os fragmentos são tão pequenos que não conseguem manter populações mínimas viáveis, levando rapidamente à extinção das espécies (Goiás, 2002 apud Cunha, 2007). Figura 3: Comparação entre a situação atual da vegetação. Na Figura 3A (à esquerda) observa-se que os fragmentos de Formações Florestais estão, na sua maioria, nos fundos dos vales. A Figura 3B (à direita) representa a cobertura vegetal original reconstituída graficamente. Fonte: Elaborado pelos autores. Devido à rapidez com que as mudanças ambientais provenientes de ações humanas ocorrem, não há tempo para adaptação e muito menos para qualquer processo de evolução que gere características melhor adaptadas ao ambiente gerado. Os animais podem apenas refugiarse em outras manchas de vegetação remanescentes, disputando com competidores da mesma ou de outra espécie (Linhares, 2003). Considerações Finais Os resultados ilustram, em escala local, a destruição do bioma Cerrado, que segundo Goiás (2002, apud Cunha, 2007) teria perdido a vegetação original em 80% de sua área. Ressalta-se que o Cerrado brasileiro esta incluído entre os 25 hotspots mundiais, áreas com grande endemismo e menos de 30% da vegetação original remanescente (Myters, 2000 apud. Cunha, 2007). 5

6 Desta forma, devem ser tomadas medidas para deter o desmatamento e para minimizar o efeito da fragmentação dos habitats sobre a biodiversidade. Na região estudada, está prevista a preservação de parte do terreno do Campus (UEG, 2008) onde ocorrem manchas expressivas de Cerrado Ralo, além de pequenas áreas de Formações Florestais. Outra medida viável e de baixo custo é a criação de faixas de Formações Florestais na forma de corredores, ligando as manchas de Matas de Galeria remanescentes. Referências Bibliográficas BARRETO JUNIOR, N. M.; ANGELINI, R. Mapeamento topográfico e delimitação fitofisionômica da área natural do Campus da UEG (Anápolis). Mostra de iniciação Científica da Universidade Estadual de Goiás, 1 a, Anais... Anápolis, UEG, 2003, 5p. CUNHA, H. F.; FERREIRA, A. A.; BRANDÃO, D. Composição e fragmentação do Cerrado em Goiás usando Sistema de Informação Geográfica (SIG). Boletim Goiano de Geografia, Goiânia, v. 27, n. 2, p , EITEN, G. Vegetação. In: PINTO, M. N. (Org.). Cerrado: Caracterização e perspectivas. Brasília: Ed. UnB, p LACERDA, H. Atividade da disciplina Impactos Ambientais em Áreas de Cerrado. Anápolis: Curso de Geografia/UnUCSEH/UEG, 2008 (inédito). LINHARES, C. A. As unidades de conservação são adequadas à preservação das espécies animais? In: SIMP. BRAS. SENSOREAMENTO REMOTO, XI, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: INPE, p RIBEIRO, J. F.; WALTER, B. M. T. Fitofisionomias do bioma Cerrado. In: SANO, S. M.; ALMEIDA, S. P. (Org.) Cerrado: Ambiente e flora. Planaltina: EMBRAPA, 1998, p RIZZINI, C. T. Tratado de fitogeografia do Brasil. São Paulo: Ed. HUCITEC, p. VALENTE, C. R. Caracterização geral e composição florística do cerrado. In: GUIMARÃES, L. D.; SILVA, M. A. D.; ANACLETO, T.C.(Orgs.). Natureza Viva Cerrado, Caracterização e Conservação. Goiânia: UCG, p UEG. Reitor recebe documento preliminar do Plano Diretor da UEG. Disponível em <http://www.planodiretor.ueg.br/noticia/1.html> acesso em 20/10/

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