ESPAÇOS RESIDUAIS: ANÁLISE DOS DEJETOS COMO ELEMENTOS COMUNICACIONAIS

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP RAQUEL RENNÓ ESPAÇOS RESIDUAIS: ANÁLISE DOS DEJETOS COMO ELEMENTOS COMUNICACIONAIS Doutorado em Comunicaçao e Semiótica SÃO PAULO 2007

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3 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP RAQUEL RENNÓ ESPAÇOS RESIDUAIS: ANÁLISE DOS DEJETOS COMO ELEMENTOS COMUNICACIONAIS Tese apresentada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo como requisito parcial para a obtenção de título de doutor em Comunicação e Semiótica, sob orientação do Prof. Dr. Amálio Pinheiro. Doutorado em Comunicação e Semiótica SÃO PAULO 2007

4 Banca Examinadora

5 Agradecimentos Ao professor Amálio, sempre um grande companheiro no meu percurso de pesquisa. Ao professor Louis Bec, pela possibilidade de pesquisa em seu laboratório científico e individual. Ao CNPQ por permitir o desenvolvimento do projeto. A todos os moradores das comunidades e associações comunitárias em São Paulo e Madri, que me abriram as portas para os movimentos da residualidade.

6 Resumo Os conceitos de espaço residual e terrain vague são apontados por estudos sociológicos, urbanísticos e antropológicos como elementos importantes no cenário urbano, necessários para um fazer criativo, um intervalo no sistema oficial da cidade. Esta conformação residual é tanto material quanto semiótica (ou informacional) e existe em relação direta com o sistema codificado que busca seu controle; quanto maior a racionalização ou quanto mais impositiva for esta ação, maior o número de resíduos criados, maior a entropia. Desta forma, a noção de resíduo pode ser utilizada não apenas como adjetivo da constituição do lugar geográfico, mas também como conceito de comunicação, que contempla a possibilidade de novas configurações a partir de fragmentos de textos aparentemente distantes. O presente estudo tem como objetivo compreender os modos de geração e apropriação dos resíduos nos espaços urbanos por meio das relações entre sistemas de linguagens, isto é, entendidos como elementos comunicacionais. O estudo tem como base a abordagem da Semiótica da Cultura, mais especificamente o conceito de Semiosfera proposto por Iuri Lotman, por meio do qual se pode perceber que quanto maior a capacidade de um sistema de gerar e se apropriar dos resíduos comunicacionais, maior riqueza e complexidade se obtém. A partir deste conceito inicial foi estabelecida uma proposta metodológica comparativa com estudos de autores que analisam as relações comunicacionais no espaço urbano em um contexto brasileiro, como Lucrécia Ferrara, Amálio Pinheiro e Nelson Brissac. Para o principal corpus de análise foi escolhida a cidade de São Paulo, por sua relevância como metrópole latino-americana e ao mesmo tempo por possuir elementos que permitem que se ampliem as conclusões obtidas para a compreensão dos espaços residuais em outras grandes cidades. Para o estudo de como opera a construção semiótica do espaço físico de controle foram analisados 100 anúncios de publicidade imobiliária da cidade de São Paulo durante o ano de Para o estudo específico dos espaços residuais foi realizado um estudo de campo em comunidades presentes em duas áreas da cidade de São Paulo e analisadas as alterações que sofreram durante os anos de 2004 a A partir das análises realizadas foi possível compreender que os resíduos, por não pertencerem mais a nenhum sistema organizado, são elementos instáveis, movediços. Oferecem uma situação de potencialidade e instabilidade, mas também de disponibilidade. Os distintos modos de se apropriar da informação, dos espaços e objetos residuais na cidade demandam uma intensa capacidade de adaptação e de criação de novos sistemas de linguagem que são muitas vezes ignorados em estudos que priorizam o contexto de fragilidade econômica e exclusão social onde estão inseridos.

7 Abstract The concepts of residual space and terrain vague are appointed by sociological, urban and anthropological studies as important elements in the urban scenario, necessary to make a creative, a break in the official system of the city. Such residual conformation is both material and semiotical (or informational) and is directly linked to the codified systems trying to control it. The higher the rationalization, or the more imposing this action is, the higher is the number of residues created, the higher is entropy. Hence, the notion of residue may be used not only as an adjective to the constitution of the geographical site, but also as a concept of communication, contemplating the possibility of new configurations from fragments of apparently distant texts. This study aims to comprehend the generation and appropriation modes of residues in urban spaces through the relations among language systems, understood as communicational elements. The study is based on the approach of Cultural Semiotics, specifically as regarded in the concepts of semiosphere proposed by Iuri Lotman and of baroque, understood as a means of cultural organization deriving from the proposition established by Severo Sarduy, Alejo Carpentier and Amálio Pinheiro, among others. Based on such concept, we may notice that higher richness and complexity are achieved the higher a system s capability to generate and appropriate communicational residues is. A comparative methodological proposal was established based on this concept, including studies by authors who analyze the communicational relations in urban spaces of Europe and the USA, such as Manuel Delgado, Kevin Lynch, Ignasi de Solà-Morales, Denise Scott-Brown and Brazilian authors like Ermínia Maricato, Lucrécia D Alessio Ferrara e Nelson Brissac. São Paulo was chosen as the main corpus of our analysis due to its relevance as a Latin-American metropolis and, at the same time, because it possesses elements that allow us to expand the conclusions reached for the comprehension of residual spaces in other big cities. We analyzed over 100 real state advertisements in the city of São Paulo, placed in 2004, to study how the semiotical construction of the physical space of control operates. For the specific study of residual spaces, a field research was carried out in communities belonging to two areas of the city of São Paulo, encompassing the changes suffered during the years 2004 to Based on the analyses undertaken, it was possible to understand that residues, since they no longer belong to any organized system, are unstable, volatile elements that provide a situation of potentiality and instability, but of availability as well. The distinct ways of appropriating information, spaces and residual objects in the city require an intense capability to adapt and create new language systems which are often ignored in studies that prioritize the context of economic fragility and social exclusion where such systems are inserted.

8 Sumário Introdução: para um método residual Capítulo I Resíduos como elementos da cultura Resíduos e a fragmentaçao da identidade Culturas do residual Resíduos recombinados, dando forma ao informe Capítulo II Metrópole entre fixos e fluxos Arquitetura e trânsito, arquitetura em trânsito Cidade à venda: o mecanismo econômico da construção do lixo Capítulo III Espaço e resíduo Espaços residuais, espaços intersticiais, terrain vague Espaços residuais como possibilidade de uma outra cidade Capítulo IV Conclusões Referências Bibliográficas Anexos

9 Exu não era associado ao capeta nos rituais africanos. Quando os exploradores europeus conheceram o culto ao Exu na África, ao verem essa entidade de sexualidade indefinida, o intermediador, o mensageiro, o que não se encontra em nenhum lugar definido, a entidade da comunicação, do móvel, do instável, logo pensaram: esse só pode ser o diabo. Muniz Sodré

10 Introdução: para um método residual Falar resíduos nos obriga a combinar diversos níveis de sistemas que vão do espaço físico propriamente dito, grupos sociais excluídos pelo poder público e privado, os resíduos deixados pelas ruas (dentro e fora das lixeiras) e que vão sendo reorganizados pelos moradores dos espaços residuais e utilizados na construção de casas, no comércio de material reciclado, até níveis que envolvem resíduos comunicacionais, fonte dos moradores de favela que fazem o gato, a gambiarra 1, desviando o curso previsto dos fluxos operantes na cidade. O próprio trabalho de pesquisa para analisar estes fenômenos envolve a coleta e a combinação de elementos aparentemente distantes, fazendo uso de teorias que devem combinar o novo, revisando o que já foi estabelecido, sem poder pertencer a nenhuma estrutura rígida ou previamente estabelecida em sua completude. Como observa Santos (2004:15), Para apreender o presente, é imprescindível um esforço no sentido de voltar as costas, não ao passado, mas às categorias que ele nos legou. Conservar categorias envelhecidas equivale a erigir um dogma, um conceito. E, sendo histórico, todo conceito se esgota no tempo. Pinheiro 2 menciona a importância de se relacionar elementos de modo síncronodiacrônico evitando estar restrito a linhas históricas ou teorias excludentes que podem perder de vista as relações que se estabelecem entre sistemas mais distantes que no entanto influem de modo recíproco: Não podemos, portanto, perder de vista, ao analisarmos os textos e os ambientes midiático-culturais, essa necessária vinculação síncronodiacrônica entre o ideário contemporâneo das cidades e uma propensão para a assimilação do heterogêneo inscrita de modo germinativo nos processos micro e macroestruturais. Desdobram-se, aquém das obras individuais, situações multi-informacionais de bairro a bairro, com as mais complexas permutas entre códigos, linguagens e séries, a partir de uma habilidade e oportunidade sintáticas dadas pelo caráter mestiço, migrante e externo-solar destas sociedades, muito difíceis de serem descritas. Assim como num poema é desejável que se teçam nexos recíprocos da letra ao verso e às estrofes, do mesmo modo, guardadas as diferenças e proporções, podem-se verificar os encaixes das séries da cultura (arquiteturas, festas, vestuário, culinária) com os processos criativo-midiáticos, do jornal impresso aos meios digitais. Lootsma (in: KOOLHAAS, 2001:471) afirma a importância de uma abordagem transdisciplinar para o estudo das relações sociais que ocorrem no espaço urbano, dizendo que as disciplinas clássicas da arquitetura e do urbanismo já não são suficientes para entender, planejar e controlar esta paisagem urbana, nem a conduta de seus 1 Termo que deixa de designar apenas a rampa de luzes no palco e passa a significar no Brasil serviço elétrico malfeito, especialmente com a finalidade de obter energia elétrica de maneira ilegal (Dicionário Eletrônico Michaelis, 2005). 2 Por entre mídias e artes, cultura. In: Húmus 2, publicação do projeto Rumos Itaú Cultural. Caxias do Sul: Itaú Cultural,

11 habitantes. 3 David Tomas analisa as relações entre sistemas de comunicação e transporte, algo que segundo ele foi proposto por Vertov em Um homem e uma câmera, mas que atualmente com a segmentação das tecnologias e sua reorganização sob linhas históricas paralelas tende a se perder. Como exemplo ele cita a visão inédita que o viajante começou a ter quando se construiu a primeira locomotiva, ao ver a paisagem em velocidade enquadrada pela janela, a vibração do vagão (que causava distintas impressões tanto para quem viaja dentro do trem quanto para quem o via de fora), algo que se conecta diretamente com uma invenção da mesma época: a fotografia (e, logo depois, o cinema). Bruce Jenkins 4 menciona a freqüência com que os filmes realizados pelos irmãos Lumière mostravam o funcionamento de máquinas (como a locomotiva, a caldeira de um barco a vapor, o trajeto de um pedreiro à obra ou mesmo a destruição de um muro). Para ele era como se a inovadora máquina do cinematógrafo possuísse não somente a vocação do visível, mas uma profunda afinidade com o mundo dos artefatos mecânicos e o entorno edificado. Se poderia dizer que uma boa parte do século XX tomou forma material sob o vigilante olhar da câmera de filmar. 5 Bakhtin (1997:376) aponta que não há uma orientação científica que se preserve em sua forma primitiva, inalterada. Nas ciências, não houve uma época em que existisse uma mesma e única orientação. Segundo o autor, a fusão de todas as visões numa única e mesma orientação seria fatal à ciência. Não há mal algum em que as delimitações sejam muito marcadas, mas devem ser conciliadoras. O reconhecimento das zonas fronteiriças (é nelas que costumam aparecer as novas orientações e disciplinas). Essa visão é compartilhada por Lotman em sua análise da relação entre arte, técnica e ciência (1981:28). Segundo ele, o desenvolvimento atual da teoria da comunicação mostra que a interação é o contrário do nivelamento. A comunicação entre dispositivos idênticos é inútil, por ser desprovida de complexidade. Para ele, a especialização das diversas esferas da cultura, fazendo da comunicação um problema semiótico complexo, determina simultaneamente a sua necessidade recíproca. Não se trata de transformar a ciência em cultura, ou vice-versa. Quanto mais a arte for arte e a ciência ciência, tanto mais específicas serão suas funções culturais e tanto mais o diálogo entre elas será possível e fecundo, ou como menciona Spengler (1998: ), o matemático que não tiver algo de poeta nunca será um matemático completo. Para o autor é importante ter claro que o caráter fragmentário e provisório do conhecimento não deve ser considerado como um sinal de imperfeição, mas como uma necessidade histórica. Não há grande complexidade no estudo das constâncias, mas sim nas variedades e nas lógicas orgânicas das variedades de conhecimento no tempo e no espaço. Os processos culturais compreendidos a partir de sua incompletude, suas dinâmicas de fluxos contínuos, suas tensões não resolvidas é o que amplia os limites e permite intercâmbios entre sistemas distintos. 3 Las disciplinas clásicas de la arquitectura y del urbanismo ya no son suficientes para entender, planificar y controlar este paisaje urbano, ni la conducta de sus habitantes. 4 Em MOURE, Gloria. Gordon Matta-Clark. Barcelona: Ediciones Polígrafa, 2006, p era como si la innovadora máquina del cinematógrafo poseyera no solamente la vocación de lo visible, sino una profunda afinidad con el mundo de los artilugios mecánicos y el entorno edificado. Se podría decir que una buena parte del siglo XX cobró forma material bajo la vigilante mirada de la cámara de filmar. 2

12 A cultura deve ser apreciada como um meio pelo qual a relação entre os grupos se efetua, um conjunto de informações não-hereditárias que são armazenadas e transmitidas por grupos em domínios diferenciados de manifestação da vida. A compreensão da produção simbólica de uma sociedade se dá pela análise das trocas informacionais que ocorrem tanto no interior de dada organização, como entre diferentes estruturas. (MACHADO, 2003:157) Essa concepção de cultura de influência cibernética foi ampliada por alguns autores, dentre eles Maturana, e Varela 6, que notam a importância do ruído como fator transformador dos elementos biológicos e da mente coletiva humana. Wiener 7 pautou a teoria cibernética na idéia de controle; o próprio nome cibernética vem da palavra grega kubernetes, que significa piloto. Nesse sentido, tanto seres vivos quanto máquinas lutavam constantemente contra a tendência à entropia. Para ele a informação deveria ser medida pela capacidade que havia na transmissão de vencer a tendência natural à entropia, isto é, à dispersão da energia (e de informação). Wiener sabia do paradoxo que isso impunha, já que a informação de maior rapidez de compreensão (de menor dispersão) e de menor complexidade carrega menor taxa informativa. Mesmo pontuando que a entropia não pode ser considerada a priori como algo negativo, citando o exemplo da dispersão da energia solar como possibilitadora da existência da vida na Terra, a visão ainda era de um sistema de input e output (e conseqüente feedback) onde o dentro e fora do sistema estavam bem definidos. Ele apontava que a informação era o modo de permutar com o mundo exterior e se adaptar a ele, mas foi apenas a partir do trabalho de Maturana e Varela que se propõe a idéia de mundo exterior como algo não homogêneo e dependente das possibilidades de compreensão e percepção de cada ser vivo, assim como as trocas entre organismo e sistema alteram ambos. A dispersão da informação é parte da troca, e elementos que antes poderiam ser considerados não-partícipes de um sistema são apropriados por outros, reconstruindo estruturas, assumindo novas funções e em muitos casos alimentando posteriormente o próprio sistema de onde foram excluídos. Wiener sabia que a flexibilidade em adaptar-se às alterações no ambiente permite a expansão de organismos vivos e, conseqüentemente deveria servir de modelo para as máquinas a serem desenvolvidas. Para Bateson, é o ruído, mais que a redundância e o controle, que possibilita o desenvolvimento de novos padrões. A flexibilidade (ou potencial de mudança) torna-se um fator importantíssimo nos sistemas (e Bateson 2000: faz uma referência direta a este conceito aplicado ao contexto urbano). Sendo assim, não se pode confundir a teoria do controle como mero fator de regulagem, mas sim um elemento que possibilitaria a aprendizagem ao alterar sistemas de desempenho. 6 Proposta desenvolvida no decorrer do livro de MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. Autopoiesis and cognition. Nova Iorque: Kluwer Print, Proposta desenvolvida no decorrer do livro Ciência e Sociedade. São Paulo: Cultrix,

13 A idéia de resíduo tem a ver com o ruído, algo que está fora de um sistema codificado. Quanto mais energia se produz, mais fragmentos são gerados. Deste modo, a medida da entropia é um modo de se mensurar também o nível de produção de energia. Mais que isso, como já observado por Prigogine 8, a maior capacidade de absorção do ruído é um fator que possibilita a complexificação de um sistema. Essa tarefa demanda ainda mais energia e conseqüentemente, maior a entropia. Lotman descreve que é precisamente a destruição desta totalidade (do sistema) que provoca um processo acelerado de recordação de reconstrução do todo semiótico por uma parte dele. Esta reconstrução de uma linguagem já perdida, em cujo sistema o texto dado adquiriria a condição de estar dotado de sentido, sempre resulta praticamente na criação de uma nova linguagem, e não a reconstrução de uma antiga, como parece a partir do ponto de vista da auto-consciência da cultura. 9 (1996: 31) Esta noção é importante para esclarecer que a idéia de ciclo não tem a ver com o retorno íntegro de algo que já passou, o que anularia a possibilidade do inesperado, um determinismo que não pode ser aplicado aos sistemas culturais. Há, na verdade, elementos fragmentados que não desaparecem ao estarem fora de um sistema, e por isso mesmo podem voltar a ser parte dele em novas conexões. Isso tem a ver com a noção de semiose, onde distintos sistemas que se relacionam nas bordas da semiosfera (espaço dos processos semióticos que é ao mesmo tempo resultado e condição para o desenvolvimento da cultura: fora da semiosfera não há comunicação nem linguagem 10 ) não operam nem em mesma velocidade nem em níveis semelhantes. Lotman (1996:35) aponta que a comunicação humana parte do pressuposto de que não há uma identidade (em termos de idênticos) entre quem fala e quem ouve. E quanto mais distintos são os sistemas que se combinam, mais complexa e rica é a informação gerada: O desenvolvimento dinâmico dos elementos da semiosfera (as subestruturas) está orientado à sua especificação e, por conseguinte, ao aumento da variedade interna da mesma Proposta desenvolvida no decorrer do livro de PRIGOGINE, I. e NICOLIS, G. Exploring Complexity. São Francisco: Freeman, precisamente la destrucción de esta totalidad provoca un proceso acelerado de recordación de reconstrucción del todo semiótico por una parte de él. Esta reconstrucción de un lenguaje ya perdido, en cuyo sistema el texto dado adquiriría la condición de estar dotado de sentido, siempre resulta prácticamente en la creación de un nuevo lenguaje, y no la recreación del viejo, como parece desde el punto de vista de la autoconciencia de la cultura. 10 Conceito proposto por Iuri Lotman (2000a, 2000b, 1999, 1998a, 1998b). 11 El desarrollo dinámico de los elementos de la semiosfera (las subestructuras) está orientado hacia la especificación de éstos y, por consiguiente, hacia el aumento de la variedad interna de la misma. 4

14 É sabido (e amplamente utilizado pela publicidade) que a comunicação mais eficiente é a mais codificada. A questão é que eficiência pode ser um valor bastante parcial para avaliar uma troca de informações, já que parte do ponto de vista do emissor e leva em conta um vetor unilateral, que prioriza a recepção. A mensagem eficiente seria a que chega com menos ruído para o receptor. É o paradoxo que se enfrenta na comunicação: a entropia (ou ruído) é mais freqüente que a ordem; a comunicação como troca de fluxos informacionais está sempre em busca de uma codificação que permita o mínimo de dispersão da energia. Por outro lado, deixar que a entropia seja de certa forma incorporada ao processo comunicativo é o que permite maior complexidade da informação. E sabe-se que uma mensagem com um código extremamente fechado tem uma taxa informativa tão pequena que passa a não comunicar. Esse fenômeno cria uma violência perceptiva, que não permite o descolamento entre o signo e o objeto, submetendo toda percepção a um só esquema. O código está sempre em expansão e trocando energia. As mídias (compreendidas de modo mais amplo, não restritas aos tradicionais meios de massa) operam em circuitos formados em ambientes, onde a entropia surge como elemento mais constante e os códigos como traços culturais. A idéia de ambiente aqui é tomada a partir de seu significado do grego, perivello, que significa golpear de todos os lados ao mesmo tempo. Tem a ver não com uma relação direta com o mundo natural, mas com simultaneidade, que inclui processamento constante. Recepção não é mera decodificação, mas recodificação segundo os parâmetros de quem recebe. Sabemos que nossa compreensão do objeto se dá por meio do signo. Ambos estão invariavelmente relacionados, mas o signo nunca esgota as possibilidades de observação de um objeto. Esta situação de incompletude é o que permite admitir que a análise (como conhecimento científico estruturado pela linguagem verbal) não poderá esgotar o conhecimento sobre o corpus, ao mesmo tempo em que deve evitar estruturas estabelecidas a priori que, ao propor uma verdade, um só vetor de pensamento, acabam por favorecer estruturas teóricas rígidas e excludentes ou certo etnocentrismo que termina por nos afastar da complexidade que se apresenta. 5

15 I. Resíduos como elementos da cultura 6

16 1.1 Resíduos e a fragmentação da identidade Os estudos sobre resíduos permeiam trabalhos das mais distintas áreas do conhecimento. Para tentarmos definir a idéia de resíduo optamos por primeiramente tentar identificar suas designações e usos na língua. Alguns termos são listados aqui, para que se possa compreender a dimensão de seu significado no uso corrente: Lixo (lat. lixiu ou lixu): Aquilo que se varre para tornar limpa uma casa, rua, jardim etc. 2 Varredura. Restos de cozinha e refugos de toda espécie, como latas vazias e embalagens de mantimentos, que ocorrem em uma casa. 3 Imundície, sujidade. 4 Escória, ralé. 5 Inform Interferência de canais adjacentes. 6 Inform Conjunto de dados ou informações desatualizadas ou erradas, e que não são mais necessárias. L. hospitalar: lixo formado por materiais usados em hospitais, como seringas descartáveis, ampolas de remédio vazias e outros objetos. Detrito (lat. detritu): Resto, resíduo de uma substância orgânica. 2 Geol Material solto, que resulta diretamente da desintegração e abrasão de rochas, especialmente quando composto de fragmentos destas. 3 Produto de qualquer desintegração ou desgaste. 4 Fragmento ou material fragmentário. Resíduo de uma substância que se desorganizou por atrito. (Mais usado no plural.) Dejeto (lat. dejectu): Ação de evacuar excrementos. 2 As próprias matérias fecais expelidas de uma vez. 3 Nome comum a todos os produtos de desassimilação eliminados pelo organismo, qualquer que seja a via de expulsão. Resíduo (lat. residuu): adj. Que resta; restante, remanescente. sm 1 Aquilo que resta, que subsiste de coisa desaparecida. 2 Quím Radical. 3 Parte insolúvel depois da filtração. 4 Cinzas após ignição. 5 Substância que resta depois de uma operação química ou de uma destilação; resto, sobra. 6 O que se acha no fundo. 7 Fezes, borra, lia, sedimento. 8 Sociol Elemento cultural que sobreviveu a mudanças com as quais está em contradição. R. halogênico, Quím: o que se obtém privando os ácidos oxigenados do seu hidrogênio básico. Nos termos acima 12, nota-se a recorrência do termo desnecessário, indesejado, o que resta. Objetos, lugares, pessoas, tempo desperdiçado, deteriorado, sem serventia. Essa noção de sobra indesejada e inútil revela o modo como nos relacionamos com o que é residual. Lynch (2005) descreve que ocorre algo similar em inglês com o termo waste, que tanto em português quanto em inglês derivam do latim vastus, semelhante a vanus (vazio ou inútil) e a palavra em sânscrito que se referia à falta, algo deteriorado ou deficiente. Originalmente waste significava enorme vazio, árido, inútil e hostil ao homem. Segundo Lynch, que optou pela palavra em seu livro Waste Away (lançado postumamente), dedicado inteiramente aos processos de deterioração, há apenas cem palavras na língua inglesa que tenham tantas definições no dicionário. Muitas acepções do termo waste, 12 Dicionário eletrônico Aurélio - versão

17 que vão desde as já citadas até natureza selvagem e inútil, doença e gasto insensato têm valor negativo. O termo em inglês americano junk, que antes servia para designar especificamente sucata, agora serve para designar coisas de má qualidade (junkfood ou mesmo junk-space como propõe Koolhaas 13 para definir os espaços descartáveis e massificados dos shoppings, aeroportos, parques de diversão). O verbo to trash, que antes se referia apenas à limpeza, como a poda de árvores, significa atualmente destroçar algo com violência para produzir lixo. Em português lixo torna-se um qualificativo depreciativo de um objeto, um lugar, uma obra de arte ou mesmo um indivíduo. De acordo com Douglas (1966), Lynch (2005) e Adams 14 (este último em uma abordagem mais especificamente semiótica), a primeira reação de um grupo social com relação ao lixo é tentar ignorá-lo. Se ignorar o lixo se torna impossível parte-se para a idéia de tabu que deve ser evitado ou eliminado. Os sacos de lixo são geralmente negros ou de tons escuros, que ocultam seu conteúdo e o fazem desaparecer. Quando se coloca o lixo em uma caçamba ou ele é recolhido das ruas, ele já não é mais visto e portanto não constitui mais um problema. Segundo Adams, o seguinte passo a ser tomado caso não se lograsse ignorar ou evitar os dejetos seria incorporá-los ao sistema (em termos semióticos), tornando-os parte dele. Naturalmente esses processos não se dão em uma seqüência linear e coexistem na cidade. Ao longo do trabalho serão analisados alguns processos presentes em centros urbanos que dizem respeito a essas práticas, entre a geração, exclusão e a apropriação dos resíduos. Sabe-se no entanto que o que se considera ou não resíduo depende de cada sistema cultural e seu entorno. Em algumas culturas encontram-se rituais nos quais se comem fezes ou se contempla um cadáver em decomposição a céu aberto, um modo de dominar esse elemento que nos rodeia e que tem forte poder simbólico. Bataille (1957:67-68), dentro de uma visão marxista, aponta para a idéia do gasto (dépense), como algo relacionado com a morte, com o excremento, os dejetos da sociedade (objetivos e subjetivos), algo que reafirma o baixo e o material negado pelo idealismo intelectual: Esta força eruptiva se acumula naqueles que estão necessariamente situados mais abaixo. A burguesia vê o trabalhador comunista como algo tão repugnante e sujo como os órgãos sexuais cobertos de pêlos ou partes baixas Revista Content, vol. 33. Colônia: Taschen, Shifting through the trash In: The American Journal of Semiotics. Vol. 11, número 1-2, Bloomington: Indiana University, 1994, pp Esta fuerza eruptiva se acumula en aquellos que están necesariamente situados más abajo. La burguesía ve a lo trabajador comunista como algo tan repugnante y sucio como los velludos órganos sexuales o partes bajas. 8

18 Um dos sinônimos de lixo ou resíduo também é a palavra sedimento 16, o que se deposita, o que fica. Na verdade essa referência pode estar mais relacionada ao que se acumula abaixo, que é associado às impurezas do que a algo estático. Não é casual o uso recorrente do termo ralé (um dos sinônimos já citados de lixo) como a camada mais baixa da sociedade, o zé-povinho, gentuça, gentalha, plebe, povão 17. Há claramente um conceito de alto vs. baixo que se relaciona com a idéia presente na filosofia ocidental de separação entre mente vs. corpo e conseqüentemente sagrado vs. profano, vida vs. morte, entre outras tipologias baseadas na dualidade onde a superação do baixo (do corpo) ou a transcendência da matéria levaria à pureza do espírito, a inteligência em seu maior nível de sofisticação. No entanto, em algumas culturas podemos encontrar festividades como se observa no Día de los Muertos (a maior festa mexicana realizada no dia de Finados) no México, onde a convivência com aqueles que já morreram é parte de uma festividade alegre, onde música e comida participam de um ritual de reencontro e descanso. Comem-se caveiras de açúcar, são feitas oferendas com objetos preferidos dos mortos, presentifica-se a pessoa que faleceu, seu espaço (o cemitério) é o espaço de reunião, de comemoração carnavalizada. Como propõe Bakhtin 18, a relativização da verdade e do poder dominantes constitui um dos sentidos profundos do riso carnavalesco nas suas variadas manifestações; ao ridicularizar tudo o que se arroga de uma condição imutável, transcendente, definitiva (como a própria morte), estas festividades celebram a mudança e a renovação do mundo. O espaço reflete e é palco das distintas relações que se estabelecem com o que é residual. Os países economicamente centrais pagam a países economicamente subdesenvolvidos para que recebam lixo tóxico. Este procedimento funciona como os sacos negros citados por O Donnel, fazem o lixo desaparecer da vista ou dos limites do país, além de representarem um modo mais barato de dar conta deles que os tratamentos requeridos para neutralizarem seus efeitos. O lixo orgânico é úmido, tem cheiro forte. A maior parte dos odores, no entanto, são inócuos, enquanto muitos que não se detectam são extremamente tóxicos. Os perigos de certos tipos de resíduos são apoiados por teorias científicas atuais sobre infecções, sobre agentes vivos, mas a aversão às fezes é algo muito mais antigo, profundo e extenso que a teoria microbiana. Na verdade, as velhas aversões é que tornam aceitável a nova teoria. Belcebu, nome bíblico para o diabo, vem do hebreu senhor das moscas. Sheol, o inferno, era o nome do depósito de lixo de Jerusalém. Desde Freud 19 já se sabe que o contato do bebê com suas fezes é imediatamente reprimido pela mãe. Não se deve estar 16 Sedimento (lat. sedimentu): depósito resultante da precipitação de substâncias dissolvidas ou suspensas num líquido; matéria depositada; lodo que as águas deixaram ao retirar-se; fezes. (Dicionário Eletrônico Michaelis, 2005) 17 Dicionário eletrônico Aurélio - versão 2005 (V ). 18 O conceito de carnavalização foi desenvolvido principalmente no livro Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Universidade de Brasília, Três ensaios sobre teoria da sexualidade. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago,

19 à vontade com o que é sujo. Rechaça-se mas ao mesmo tempo se teme a sujeira, exatamente porque nosso contato com ela é reprimido. Nossa relação com o que é considerado sujo é paradoxal porque busca evitar constantemente o que está ao nosso redor ou em nós mesmos (fezes, suor). O contato diário com o mundo contamina, nos impregna. Por isso o banho adquire em tantas culturas uma vocação simbólica de purificação onde, segundo Flusser 20, a distância entre eu e o mundo se restabelece. Como aponta o autor, é inútil querer objetivar a prática humana da higiene; Hygieia em grego (ou Salus, em latim) era a deusa da saúde e da prevenção de doenças (da salvação), isto é, o caráter mitológico da limpeza é claro na cultura ocidental. No entanto, se fosse possível eliminar toda e qualquer forma do que se considera sujeira dentro dos padrões humanos ocidentais atuais (as bactérias, as moscas, a poeira, etc.), seja no ar, na terra, entre os animais, terminaríamos por exterminar a própria raça humana. O exemplo da ecologia da natureza também encontra referente na ecologia social 21, já que o isolamento total de povos além de praticamente impossível, terminaria por eliminar o próprio grupo. No entanto, as tentativas de purificação, como bem apontam Laplantine e Nouss (2002:76), não escapam de um movimento de transformação, que questionaria a própria idéia de imutabilidade que buscam manter. O espaço externo, a rua, por um lado oferecem a possibilidade de descobertas, de intercâmbios com o outro, mas por isso mesmo podem ser vistos como um espaço a ser evitado. É o lugar onde estão a sujeira e os perigos (e Douglas 22 mostra que ambas as coisas costumam ser vistas como equivalentes). Freyre (2000:12) menciona que quando no Brasil a paisagem social começou a se alterar logo após a abolição da escravatura, o início da urbanização das cidades trouxe para mais perto o cortiço e o sobrado, dois elementos distantes socialmente que começavam a coabitar o mesmo ambiente de trânsito, que eram as ruas. Ela se torna então um espaço proibido às donas de casa, ( mulheres da rua eram as prostitutas) e aos meninos criados em casa, em oposição aos moleques ( menino de rua ainda é uma denominação comum para o infrator menor de idade). Falar de lixo, de resíduos em termos mais gerais, é abordar também a perda. Relaciona-se com o ciclo da natureza, ciclo da vida - nascimento, florescimento e morte -, uma idéia que em muitas sociedades é rejeitada ou evitada. A noção de degradação tem a ver com impureza, contaminação, algo que deve ser combatido para que as coisas sigam limpas e perenes. O que resulta em um paradoxo, já que se sabe que tanto em termos biológicos quanto semióticos há a necessidade de se intercambiar constantemente - sejam substâncias, ou informações - para que um sistema possa prosseguir em um ambiente (que não deve ser confundido com sua permanência em termos identitários). A matéria se recicla através do sistema da vida. Pouco a pouco a energia se degrada por entropia. A vida se alimenta desses passos. Cada usuário deixa seus resíduos ao seguinte usuário da cadeia Segundo Mckenzie (in: Grafmeyer e Joseph, 1979:150), dentro da Escola de Chicago a ecologia humana poderia ser definida em termos gerais como o estudo das relações espaciais e temporais dos seres humanos que são afetados pelos fatores de seleção, distribuição e adaptação ligados ao ambiente. 22 Purity and danger. An analysis of concept of pollution and taboo. Londres: Routledge Classics,

20 Foucault (1984: sem numeração de página) desenvolve o conceito de heterotopias para abordar espaços que sobram, contra-sítios, espécies de utopias realizadas nas quais todos os outros sítios reais dessa dada cultura podem ser encontrados, e nas quais são simultaneamente representados, contestados e invertidos. Sua exemplificação do que seria um heterótopo (os cemitérios) se assimila à função observada por Lynch (2005) sobre os depósitos de lixo, um lugar que está à parte (ou que se deseja que esteja fora, esquecido) mas que ao mesmo tempo mantém uma relação intrínseca com a cidade. Foucault usa o exemplo dos cemitérios, que até o século 18 estavam no centro das cidades, geminados com as igrejas e que a partir do início do século 19 (quando, segundo o autor, as descobertas científicas começam a trazer dúvidas sobre a ressurreição e a concepção cristã de vida e morte e a sociedade começa a dar importância aos restos mortais) começaram a ser construídos nas linhas exteriores das cidades. Quando o cemitério deixa de ter seu valor sublime de imortalidade inquestionável e começa a ser percebido como depósito do residual é que se começa a associá-los à transmissão de doenças. Estar próximo aos dejetos humanos era portanto estar próximo da própria morte. Como coloca Bateson (2000:471) dentro de uma perspectiva cibernética, quando se divide corpo e mente torna-se inevitável que a morte tente ser ignorada ou torne-se tabu, enquanto criam-se mitos sobre a transcendência da mente sobre o corpo. Mas no momento em que se percebe que a mente não está somente no indivíduo mas é parte de um coletivo em relação (não somente antropocêntrica), podemos perceber a morte sob outro aspecto. Da mesma forma, a importância do eu é relativizada e o outro já não é mais uma ameaça a ser destruída ou um elemento sem inteligência a ser subjugado. A noção de algo que resta, que sobra, ou pedaço dissociado de um organismo questiona também a noção de identidade, de todo único, que permanece forte e incorruptível. Como nos mostra Canclini, essa idéia também traz problemas para a compreensão de processos culturais: Sobre as identidades existem narrativas em conflito, mas poucas possibilidades de defini-las com rigor como objetos de estudo. (...) Devemos levar a sério os relatos sobre identidades porque muita gente os usa como guias de conduta, sendo capaz de até morrer por eles. Mas o que sabemos das identidades indica que estas não têm consistência fora das construções históricas em que foram inventadas e dos processos em que se decompõem ou se esgotam. Alguns elementos utilizados para delimitar cada identidade, por exemplo o uso da língua, são passíveis de estudos rigorosos, mas outros componentes que muitas vezes são dados como definições identitárias (cor da pele, gostos, hábitos) oscilam entre o determinismo biologicista e vagas convicções subjetivas. (CANCLINI, 2003:78) Segundo Blanquart, o próprio conceito de indivíduo deve ser evitado para a compreensão dos estudos urbanos: indivisum em latim ou atome em grego: partícula elementar de uma matéria, que pode ser sempre a mesma. A idéia de indivíduo é compatível com 1=1, todos iguais, como identidade (idem). Os indivíduos são passíveis 11

21 de serem massificados. Este é o engano, é a mesma coisa que serializar. 23 (revista Poïesis, 2003, p. 115). O conceito de serialização (sérialiser) vem da informática, e consiste em transformar dados de sistemas diferentes em bytes (tirando deles o que há de próprio) de modo a que possam ser transmitidos em sistemas ou redes informáticas distintas. O que aponta Blanquart é que a noção de idêntico, que pode servir a sistemas artificiais em alguns casos, é tomada como referência para o planejamento urbano, no qual previamente se estabelecem grupos idênticos para que se possa trabalhar com conceitos generalistas, que pouco têm a ver com redes sociais complexas. A idéia da estabilidade, seja do indivíduo, seja de um grupo é utópica mas ao mesmo tempo tranqüilizadora. Como propõe Kristeva 24, o incômodo gerado pelo outro é porque o estrangeiro está em nós mesmos, a instabilidade que ele provoca é inerente a todos. Mais que um elemento potencialmente contaminador e corrosivo, a figura do que nos é estranho oferece ameaça ao atuar como um espelho que nos deixa próximos do que Freud 25 já havia identificado como o eu perdido que se imagina independente e harmonioso. Os discursos das chamadas ciências duras estão repleto de alusões metafóricas que guardam valores que são assumidos como verdades irrefutáveis. Emmanuel Lizcano (2006) analisa as metáforas utilizadas em cada cultura para o discurso das matemáticas. Ele cita que no Egito antigo o mito de Osíris era construído a partir da fragmentação (sua mulher Isis recolhe pedaços de seu corpo morto por Seth para poder ter um filho com ele que lhe permitiria viver novamente reencarnado), e isso se refletia diretamente no modo de abstração dos matemáticos de então, que pensavam sempre a partir do uno (ou número 1) fragmentado. Por outro lado, os números quebrados ou a fragmentação do número 1 para os matemáticos gregos (que tanto influenciaram a Platão) consistiam na dissolução da identidade, da essência fundadora, o que era intolerável. Lizcano menciona que em A República, o próprio Platão mencionava o desprezo que tinham os matemáticos gregos com relação aos que trabalhavam com a matemática vulgar, voltada ao comércio (a logística), que tomou emprestado o conceito de número fragmentado dos egípcios: Os que têm conhecimento do número e de sua essência se burlam de quem trata de dividir a unidade em si, e não o permitem. 26 (apud Lizcano, 2006:198) O número 1 é o número real por excelência, o nascimento, está relacionado com o momento em que o homem toma consciência de sua independência no mundo, seu eu. Para os gregos simbolizava o início de todas as coisas e de todas as medidas. Os números fracionados ou racionais e posteriormente os irracionais destruíam a ordem corpóreo-orgânica estabelecida pelos deuses e prevista nos números naturais. 23 «indivisum en latin ou atome en grec: particule élémentaire d une matière, qui peut être toujours la même. L idee d individu est compatible avec: 1=1, tous pareils, comme identité (idem). Les individus peuvent être massifiés. C est ça l entubage, c est du même que est sérialisé.» 24 Étrangers à nous-mêmes, Paris, Fayard, O ego e o Id. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Vols. I a VII. Rio de Janeiro: Imago, Cuantos tienen financiamiento del número y de su esencia se burlan de quien trata de dividir la unidad en sí, y no lo permiten. 12

22 Spengler (1998: ) relaciona matemática e linguagem mostrando que dentro desta lógica na cultura ocidental há uma idéia de limitar extensões, criando assim uma estrutura estável que o homem percebe como necessária e parte da natureza. O pensamento a respeito dos números estaria segundo o autor relacionado com sistemas, leis do mundo, tomadas como algo limitado, rígido, sedimentado e vinculado com a idéia da morte. Essas delimitações se aplicam para a definição de indivíduo (eu vs. outro), para um grupo social e suas vivências no tempo e espaço. O espaço e o tempo se dividem, se mensuram e assim aparentemente se tornam submissos às leis compreensíveis pelo homem. Douglas (1966:41) observa que a noção de delineamento territorial especificamente sobrepassa a questão política, cria um desenho, uma forma que possui uma estrutura interna possuidora de energia para repelir ataques e atrair a conformidade, que poderíamos chamar de valorização da visão uniforme de cultura ou sociedade manifestada por meio dos discursos sobre a identidade. Dentro desta visão, o estrangeiro é um elemento que pertence ao grupo, mas como define Simmel 27, um inimigo do interior, alguém que desde dentro traz a exterioridade. Ao invés de ser visto como um elemento que acrescenta, torna-se o que deixa em evidência os paradoxos do indivíduo. Sua principal característica é a mobilidade no sentido de introduzir ao mesmo tempo proximidade e distância em um grupo que pensa estar estruturado de modo estável. Esta mobilidade é um elemento gerador de desestruturação mas ao mesmo tempo renovação, ainda que esta ocorra por meio de conflitos sociais. Bateson (2000:435) menciona que a organização do mundo a partir de dualidades no Ocidente também oferece certo equilíbrio, sendo por isso muito mais freqüente que uma estrutura triádica, por exemplo. O autor percebe que dentro desta visão desenvolvem-se opostos que na natureza não são possíveis, como jovens vs. velhos, mente vs. matéria. Essa busca constante do equilíbrio está ligada segundo ele à tendência autocorretiva dos indivíduos, à idéia de que ao primeiro sinal de perturbação a mente se fecha, isolando o problema como uma ostra transforma em pérola um agente invasor de seu corpo. Bateson, no entanto, tinha claro que o que se nota como agente invasor muda de acordo com o contexto. Para ele, a percepção de como se relacionar com o que vem de fora é perpetuada ou conservada de acordo com uma cultura. A partir deste ponto de vista fica claro que quanto maior forem os estímulos, o contato com as diferenças, mais porosa se torna esta percepção. 27 Digressions sur l étranger. In: GRAFMEYER e JOSEPH. L école de Chicago. Naissance de l écologie urbaine. Malesherbes: Flammarion, 2007, p

23 Abed Al-Jabiri (in: Autour de Averroès, 2003:33-48) diz que a freqüência com que o pensamento intelectual ocidental tratou do tema da alteridade no último século é sintoma de um sentimento de instabilidade, de insegurança e angústia quanto ao futuro. É necessária uma maior compreensão da herança e trocas culturais que existiram entre o mundo judaico, cristão e árabe, como modelo de integração não meramente transitório, muito menos relegado a guetos que coabitam um espaço, mas como elemento constitutivo do tecido social e urbano do mundo mediterrâneo por muitos séculos e que permitiriam compreender a riqueza de um sistema cultural extremamente heterogêneo 28. A análise das metáforas é elemento importante para se compreender o que se congela em um dado sistema cultural. Sabe-se que a influência que possuem nas sociedades gera uma confusão entre signo e objeto a um ponto que o signo perde, como definiu Tynianov (1966:65), sua vocação de camaleão dotado de distintas nuances e distintas colorações para se tornar transparente, o objeto em si. A metáfora acaba sendo tomada como verdade irrefutável. Como menciona Canclini (2003:48): Como já aconteceu tantas vezes na história, a metaforização do inapreensível, quando se refere a alterações muito rápidas e violentas das identidades habituais, às vezes constrói imagens conciliadoras. Em outros casos, pensa em monstros. Sontag nos livros A doença como metáfora e Aids e suas metáforas discorre sobre o tema das doenças e a metáfora militar que começou com os estudos das patologias celulares. Quando o microorganismo que causa as doenças é descoberto, as metáforas de guerra ganham força, gerando estratégias de defesa do corpo contra o agente invasor ou a medicina agressiva, usando o exemplo da própria autora sobre a linguagem da quimioterapia e das pestes que trazem os estrangeiros: A doença invariavelmente vem de outro lugar (...). A idéia de que as doenças que afligem a Europa vêm de fora faz parte da secular imagem da Europa como entidade cultural privilegiada e os europeus manifestam uma indiferença extraordinária em relação ao impacto devastador que eles próprios tiveram sobre o mundo exótico e primitivo, introduzindo doenças européias (...). Mas essa observação, que pode parecer uma simples anedota sobre a inevitabilidade do chauvinismo, revela uma verdade mais importante: a de que há uma ligação entre o imaginário da doença e o imaginário do estrangeiro. Suas raízes se encontram talvez no próprio conceito de errado, sempre identificado com o não-nós, o estranho. A pessoa poluente é sempre errada, observou Mary Douglas. O inverso também é verdadeiro: a pessoa considerada errada é vista, ao menos potencialmente, como uma fonte de poluição. (SONTAG, 1989:58-59) 28 A própria figura de Averroès (ou Ibn Ruchd, ) é um exemplo de um pensador europeu-árabe que discutiu as filosofias românicas, judaicas na Europa a partir de suas traduções latinas de Aristóteles (que são consideradas a introdução no resto da Europa das obras do filósofo grego) mas não nos países islâmicos, que em sua época o consideraram herege e determinaram que seus livros fossem queimados. 14

24 Um processo similar ocorre com os grupos sociais marginalizados atualmente ou com os imigrantes nos EUA e Europa. A imigração nos países economicamente centrais é sempre tratada pelos políticos e amplamente divulgada pela mídia local como uma questão preocupante, que deve ser resolvida por toda a nação, seja americana ou européia, por ser um fato ameaçador. É a desordem tentando invadir a ordem social, o lixo tentando invadir a cidade (como cita o jornal El País, usando uma expressão que já se tornou clichê nos meios de comunicação espanhóis: avalanche imigratória ). Como complementa Sontag: As ideologias políticas autoritárias têm interesse em promover o medo, a idéia de que alienígenas estão prestes a assumir o controle. (1989:74) Essa idéia não está restrita às autoridades. Na verdade, a noção do imigrante como invasor é usada sem maiores cerimônias pelos meios de comunicação nos chamados países de Primeiro Mundo porque tem respaldo em grande parte da opinião pública, encontra referência em crenças refletidas por metáforas antigas sobre a necessidade de proteção da integridade do indivíduo ou do grupo e sua identidade. Como declarou o então Ministro do Interior e atual presidente francês, Nicolas Sarkosy, a violência que eclodiu em várias cidades francesas em 2005 e que dava mostras da existência de uma França pobre, esquecida e insatisfeita, passa a ser não um problema dos franceses, mas dos imigrantes 29. A política migratória da Espanha cria os chamados imigrantes de primeira, que seriam os latino-americanos, que são convocados a repovoar cidades que perderam praticamente toda sua população nos últimos anos (Programa de Repoblación Comunitária) 30 e servir às forças armadas espanholas (desde 1997 o serviço militar na Espanha não é mais obrigatório, sendo suprido em grande parte por alistamento voluntário de imigrantes latino-americanos). Ao mesmo tempo há os imigrantes de segunda, os marroquinos e os subsaarianos, que chegam à Espanha em embarcações clandestinas e que são considerados um verdadeiro problema, tomando a primeira página em praticamente todos os dias dos meses de julho e agosto (quando a tentativa de travessia até o território espanhol é aumentada pelo bom tempo). Os subsaarianos na Espanha sofrem as medidas mais duras de extradição e falta de leis que regularizem sua situação. Situação mais difícil é enfrentada pelos marroquinos, que pelo acordo que mantêm com a Espanha são imediatamente extraditados se são identificados pela polícia, não têm direito ao trabalho no serviço militar espanhol (segundo o ex-ministro da 29 Le Figaro, 3/5/2006, Immigration : Sarkozy défend sa vision «ferme et juste» : «Les violences qui ont éclaté dans nos banlieues ne sont pas sans rapport avec l'échec consternant de la politique d'immigration» El Pais, 7/6/2006, Las puertas de Europa: España y nueve países europeos han acordado establecer un operativo para patrullar toda la zona del África atlántica "susceptible" de ser punto de origen de pateras y cayucos que viajan hacia Europa y, sobre todo, hacia Canarias, que acusa casi cada día la presión de esta avalancha migratoria. The New York Times, 6/6/2006, Bush Turns to House in Immigration Debate: President Bush tried on Tuesday to win back the trust of conservatives who have distanced themselves from him on immigration, promising to "get this border enforced" and warning those who enter the country illegally that "if you get caught, you get sent home." 30 Lynch (2005) analisa os processos de decadência de cidades e pequenos povoados nos EUA, que ocorrem a partir da grande mobilidade da população e do interesse dos jovens de irem às cidades grandes; segundo ele, na Europa essa mobilidade é menor devido aos constantes programas de intervenção do poder público, como é o caso do Programa de Repoblación Comunitária, que mesmo recente, já mostra problemas pela falta de integração entre os novos e os velhos moradores e a pouca oferta de emprego no local, que com freqüência transforma estes povoados em cidades-dormitório. 15

25 Defesa da Espanha, por óbvias razões de segurança, já que fazem parte da ameaça do sul, cujos planos estratégicos e a prática muçulmana poderiam alterar o cotidiano do quartel 31. ), são vistos com grande desconfiança por muitos espanhóis 32 e sofrem constante repressão policial por serem associados ao tráfico de drogas. Não se deve ignorar que por trás destes discursos há um grande interesse por parte do poder público e privado em manter na ilegalidade um grande contingente de pessoas que servirão às indústrias locais como operários sem direitos e empregados, da mesma forma que os imigrantes na cidade, ao serem associados ao crime e à desordem, podem ser livremente transladados a outros sítios sempre que haja interesse de supervalorização de um espaço pela especulação imobiliária. O importante é perceber como estas estratégias são colocadas em prática com o aval de grande parte da população a partir da construção de discursos que utilizam elementos presentes na cultura sobre a ameaça da imigração para a estabilidade da vida nos países economicamente centrais. Sousa Santos (2006:280) propõe a diferenciação entre desigualdade e exclusão. No caso da desigualdade há uma hierarquia estruturada, onde quem está abaixo está dentro do sistema, e é fundamental a ele. No caso da exclusão o grupo está fora do sistema, podendo ser expulso ou mesmo exterminado em casos extremos. Se tomarmos essa diferenciação para analisar o que ocorre nos países economicamente centrais, podemos ver que nos discursos midiáticos e políticos (mesmo nos discursos assistencialistas, que publicitam a ajuda que os países darão aos pobres imigrantes que ali estão) há a constatação de que estes imigrantes são passíveis de exclusão. Sua presença é fruto do espírito humanitário que lhes permite estar ali ou da falta de fiscalização e leis mais duras para evitar a imigração. Mas definitivamente não são parte do grupo e nada têm a trazer às sociedades que os recebe. No entanto, a realidade na economia é outra. Os imigrantes ilegais constituem uma força de trabalho importante e os que estão legalizados contribuem significativamente no aumento de impostos em países com taxa de natalidade próxima a zero com problemas de deficit social crônico. 33 Trata-se portanto de um discurso que os coloca como excluídos, em uma sociedade que os considera excluídos, mas que na verdade se constitui como um sistema desigual. Desta forma, a desigualdade pode ser mantida sem maiores questionamentos. 31 El Mundo, 18 de marzo del 2002, E. Montánchez, Madrid. 32 Los ocho siglos de domínio musulmán, Manuel Ferrer Regales, Universidad de Navarra. 33 Para uma análise da estratégia americana de supostamente fechar o cerco contra os imigrantes que acabou gerando um aumento no número de empregados ilegais no mercado americano ver Saskia Sassen: La Política migratoria. Del control a la regulación. In: Revista Minerva, Madrid: Circulo de Bellas Artes, número 05, LeerMinerva.php?art=

26 Os produtos culturais refletem exemplarmente a idéia do outro como invasor. A repercussão da transmissão radiofônica de Welles (1938) de A Guerra dos Mundos (baseada no livro de H.G. Wells, 1898) se tornou um dos principais eventos midiáticos da história da comunicação. Sem aprofundar a discussão sobre a reconhecida qualidade do trabalho realizado por Welles e da realização do filme de Spielberg (2005) poucos anos após o atentado às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001, esses exemplos mostram como o tema da destruição da paz por um grupo de alienígenas destruidores sobre os quais se sabe nada ou muito pouco é algo de forte apelo ao grande público. O medo que o agente estranho gera também inclui certa sedução e o questionamento pela simples existência de alguém que deixou para trás todos ou quase todos os elementos que constituem a tão defendida identidade como grupo. Como menciona Kristeva (1988:47): deixar sua família, sua língua, seu país, para vir a se colocar em outro lugar, é de uma audácia que acompanha um frenesi sexual: é o mais proibido, tudo é possível. 34 Este constante estado de exceção faz com que o imigrante careça do que Delgado (2007:194) chama de direito à indiferença, isto é, impede que eles se fundam na multidão, o que se revela tanto pelo olhar do racista agressor quanto pelo olhar tolerante dos defensores das minorias, que criam discursos que incentivam a visão do imigrante como avis rara. A noção de outro não está somente ligada ao imigrante ou migrante. Em muitos países, os menos favorecidos economicamente, ainda que em número tão significativo que seria um erro considerá-los como minoria, também costumam ser estrangeiros em sua própria terra. Em constantes projetos urbanísticos presentes em quase todo o mundo há a intervenção em um bairro pobre, decadente, com objetivo de recuperar o espaço; na maioria deles há uma higienização urbana (apoiada por fortes interesses econômicos) que invariavelmente resulta na transposição dos residentes para áreas cada vez mais afastadas do centro da cidade. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o Código de Obras vigente no começo do século XX dispensava de alvará de construção e taxas municipais as casas e vilas de operários construídas fora do perímetro urbano. Lynch (2005:119) menciona que após o grande terremoto de São Francisco e o incêndio de 1906 a cidade foi rapidamente reconstruída para as classes mais abastadas, enquanto muitas pessoas pobres foram sendo transferidas a distintos pontos da cidade por anos. Na Europa também não é diferente, como mostra o filme de Agnès Varda, Os catadores e eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, 2000), que registra a indignação de ciganos e desempregados na França que viviam em vans e acampamentos que eram sistematicamente retirados de seus lugares e transferidos a outros. 34 S arracher à sa famille, à sa langue, à son pays, pour venir se poser aillers, est une audace qu accompagne une frénésie sexuelle: plus d interdit, tout est possible. 17

27 Vigarello, por sua vez, aponta que a associação do mau cheiro com o perigo de doenças deu início ao controle dos lugares, principalmente onde estavam os mais pobres. Ele cita que ao redor de 1770 em Paris os lugares suspeitos eram aqueles onde se acumulavam os pobres, com os corpos nem sempre protegidos por roupa de baixo: Evocar a limpeza é opor-se às negligências populares, aos maus cheiros urbanos, às promiscuidades incontroladas. Na década de 1780, a crítica já não se restringe ao artificialismo dos aristocratas: logo as práticas do povo passam a ser reprovadas como jamais foram. Os espaços são os primeiros visados. Cemitérios, prisões, hospitais, matadouros de animais de repente salpicam a cidade de abscessos sinistros, até induzir o remodelamento do espaço urbano. Surgem reformas, no final do século, para aumentar a circulação e a renovação do ar, para eliminar as fontes mais perceptíveis de fetidez. É preciso evitar, acima de tudo, as atmosferas estagnadas: deslocamento dos cemitérios cujos bafios são preocupantes, proliferação de reformas para modificar arquitetura e localização dos hospitais, multiplicação de medidas contra a sedimentação dos dejetos. (VIGARELLO, 1996:163) Os mais pobres passam assim, de pessoas que vivem em um ambiente sujo e impuro, a simbolizar a própria sujeira, da mesma forma que os restos mortais do cemitério que citava Foucault. A idéia de atmosfera estagnada contra a qual se deve combater é um elemento retomado por propostas urbanísticas posteriores como o projeto da Paris de Haussmann, com grandes avenidas, ambientes abertos para a livre circulação, onde ao mesmo tempo os cidadãos possam ser mais facilmente controlados. 1.2 Culturas do residual Lizcano e Spengler deixam claro que mesmo nas já mencionadas estratégias discursivas das ciências exatas que buscam criar efeitos de sentido de precisão absoluta deve-se levar em conta que não há uma só matemática, uma só filosofia dos números, se considerarmos que, como todo pensamento humano, estão diretamente ligadas ao contexto e aos sistemas de distintas culturas. A percepção de limite onde terminaria o eu/nós e começam os outros difere de uma cultura a outra, assim como a noção de todo indivisível. Desta forma, sociedades como as da América Latina, de grande tradição oral e tradicionalmente menos submetidas à lógica da linguagem escrita se comparadas à Europa central, por exemplo, se relacionam de modo distinto com a noção de limite e estrutura fixa e equilibrada. Estas diferenças se fazem notar na construção das cidades Vale notar que para isso não se pode pensar em relações hierárquicas como se a cultura oral fosse mais primitiva que a escritura. De Zayas (in: Autour de Averroès, 2003:72) acredita que em culturas onde o oral é mais predominante, a escritura é quase uma letra morta que não pode exprimir em sua totalidade o êxtase criativo. 18

28 Spengler (1998:123) diz que a cidade européia quer ser outra coisa, quer ser mais que a natureza, daí os telhados agudos, as cúpulas barrocas que buscam ser um mundo em si, onde até mesmo a natureza é reconstruída por meio de parques, lagos, vasos de flores, fontes e as montanhas se transformam em lugares de vistas panorâmicas. Na América Latina, como descrito por Lezama Lima (1993), a paisagem altera o homem e não somente é alterada por ele; é onde mais claramente se percebe que a natureza é cultura. A arquitetura rural da região, feita de madeira, barro, bambu, chamada por Lina Bo Bardi (1995:7) de um ato malcriado do povo com os arquitetos que não sabem construir, é um exemplo. Mesmo em cidades de proporções gigantescas como São Paulo, ainda é possível ver no meio da cidade ocupações que misturam modos de vida rural e urbano, hortas e criação de galinhas à beira de marginais de rios e vias expressas (onde se localizam muitas favelas). Estes exemplos, mais do que uma anedota, representam uma alternativa real de subsistência que tem sido alvo nos últimos anos de propostas que combinam poder público, privado e universidades em projetos que visam fornecer possibilidades para uma agricultura urbana, incluindo o uso de espaços vazios 36. É importante assinalar que a apropriação do ambiente natural para a construção de moradia não é exclusividade da América Latina, muito menos está restrita aos setores menos favorecidos economicamente. Sabe-se que a cultura mediterrânea, em sua tradição mestiça, também oferece exemplos interessantes e que questionam a história oficial da arquitetura das cidades européias, que muitas vezes ignora o saber-fazer do homem comum. Na Espanha, um exemplo do uso do ambiente natural para moradias pode ser visto nas casas cueva nos arredores de Granada, que são tanto ocupadas informalmente quanto comercializadas. Casa cueva nos arredores de Granada (Espanha)

29 Preparação da terra para a agricultura em uma favela em Brasília (DF). Casa de pau-a-pique em Itaúnas (ES) Scott Brown mostra exemplos da apropriação de elementos estéticos da publicidade, dos outdoors, pelas tribos ou organizações sociais africanas que estariam à primeira vista fora da cidade urbanizada de acordo com parâmetros econômicos. Essas combinações que presenciou durante o tempo em que viveu na África do Sul (onde nasceu) foram, segundo ela, o que permitiu um olhar distinto que foi compartido com Venturi e professores da universidade Pennsylvania (EUA). Desse processo resultou seu livro mais conhecido, Aprendendo com Las Vegas (com Venturi), que mostra as relações que se estabelecem em uma cidade organizada a partir de todo tipo de anúncios publicitários distribuídos por uma grande avenida que corta toda a cidade, onde a própria arquitetura é publicidade. Segundo ela, só a partir de um olhar que já estava acostumado com as sobreposições entre antigo e novo, unido a uma formação transdisciplinar que obteve nos EUA, ela e Venturi poderiam propor uma análise que pudesse ser aplicada a uma arquitetura que levasse em conta a inteligência das manifestações cotidianas e que deveria contribuir no processo criativo do próprio arquiteto Conferência de Denise Scott-Brown no evento Basurama, realizado em março de 2006 no centro La Casa Encendida em Madrid. 20

30 Vila da tribo africana Mapoche, onde os habitantes reinterpretaram a idéia das vilas suburbanas ocidentais em desenhos decorativos 38. Bateson (2000), em seus estudos sobre ecologia e cibernética, menciona que a Revolução Industrial, a despeito das mudanças importantes que trouxe para a sociedade, impediu o homem de perceber que a criatura que ganha do meio ambiente na verdade está destruindo a si mesma. Muito antes da explosão urbana no Brasil, e antes que a devastação da natureza fosse uma preocupação em todo o mundo, José Martí, no final do século 19, publicou textos nos quais a natureza era tomada como categoria política, como agente ativo do processo de constituição de todo o continente americano. Para Martí, a percepção da cultura da natureza nos setores populares era um elemento crucial para a estruturação cultural e econômica de toda a América (incluindo a América do Norte): não há batalha entre civilização e barbárie, mas sim entre falsa erudição e natureza. 39 Embora admirador de Darwin, ele apontava falhas no estudo do pesquisador quando este admirava toda a fauna e flora encontradas na América, mas desprezava o homem que ali vivia, como se não fosse parte desta mesma natureza. Apontava que quando se estuda um ato histórico ou individual, nota-se que a intervenção humana na natureza a acelera, altera ou detém e que toda história trata somente da narração do trabalho de ajuste e dos combates entre a natureza extra-humana e a natureza humana, quando na verdade se deveria priorizar uma abordagem integradora entre o homem e seu entorno. 38 In: Venturi e Scott-Brown. Architecture as sign and systems - for a mannerist time. Cambridge: The Belknap Press (MIT Press), 2004, p In: Gillermo Castro, Para una cultura latinoamericana de la naturaleza, Revista online da Universidade Bolivariana, vol. 2, número 7, 2004 (sem numeração de página). 21

31 Essa noção permite que se compreendam sistemas da cultura sem cair em discursos dualistas entre dominadores e oprimidos, entre a globalização destruidora das identidades locais que devem ser preservadas e que têm mais eficiência como slogan publicitário turístico, parte da mesma máquina globalizante que combatem. Canclini (2003:77) observa que essa estrutura dualizada se reproduz em muitos estudos europeus e norte-americanos sobre os habitantes latino-americanos durante todo o século XX. A oposição cria enfrentamentos entre identidades inconciliáveis. Por isso, segundo o autor, não é possível desconstruir essas visões estereotipadas sem promover uma ruptura entre as noções de cultura e identidade, de modo a questioná-la como núcleo ou sinônimo de cultura. O autor pontua que: Estudos antropológicos e sociopolíticos sobre a integração européia têm mostrado que os programas destinados a construir projetos comuns não bastam para reduzir a brecha entre a Europa dos mercados ou dos governantes e a dos governantes e a dos cidadãos. (...) Uma explicação possível para o fenômeno é que nenhum programa voluntarista de integração pode conseguir grande coisa quando não se sabe o que fazer com a heterogeneidade, isto é, com as diferenças e os conflitos que não são redutíveis a uma identidade homogênea (2003:23) Simmel (1998: 34) havia dito que o ato de abrir a porta para sair de casa já representa uma possibilidade de estar receptivo ao que a princípio pode ser visto como algo negativo. A incerteza, o estranho, tornam-se elementos liberadores e de modificação. Na cidade não há as relações de parentesco e vizinhança do ambiente rural, o indivíduo tende a estar sem as tradicionais raízes. No entanto, sabemos que as cidades não são iguais, e os modos de interação são distintos em cada cultura. Autores como Morin (1997), Carpentier (1969), Freyre (2000) entre outros, mostram que alguns sistemas culturais têm maior facilidade de absorver o que é externo e incluí-lo como parte do sistema. Santos havia observado que perceber o entrópico, o que resta, é tarefa realizada pelos homens lentos, os excluídos do sistema racionalizante e da aceleração alienadora do capital, dizendo que durante séculos, acreditávamos que os homens mais velozes detinham a inteligência do mundo. Agora, estamos descobrindo que, nas cidades, o tempo que comanda, ou vai comandar, é o tempo dos homens lentos. (2002a:325). A possibilidade de transformação na cultura se dá pelo choque entre elementos de sistemas distantes e pela incorporação ou reincorporação do residual, gerando um mosaico, um conjunto complexo que evidencia novos usos de vários elementos. Esse processo é claramente mais complexo e possível em culturas do excesso, onde a combinação de elementos múltiplos e distintos é parte do mecanismo de construção de sistemas. Santos colabora com essa visão ao falar da flexibilidade tropical, onde quanto menos inserido é o homem mais facilmente o choque da novidade o atinge e a descoberta de um novo saber lhe é mais fácil. A surpresa exige uma reformulação da consciência (2002a:330). O autor acreditava que se estava saindo da era tecnológica para a era demográfica e popular. Segundo ele, o caminho da escassez permite que se perceba o seu próprio valor. O conforto traria uma certeza de uma permanência simbólica que os excluídos não possuem. Como definem Laplantine e Nouss (2002:64), 22

32 a dúvida está intrinsecamente ligada à mestiçagem, à suspeita que se levanta sobre qualquer totalidade homogênea, incluindo a personalidade individual. Segundo Sousa Santos (2007: ), a temporalidade barroca é a temporalidade da interrupção. Esta interrupção é o que causa a auto-reflexividade e surpresa, ambos elementos importantes para o fazer criativo. A auto-reflexividade é gerada pela falta de mapas, de estruturas predeterminadas a serem seguidas. A surpresa ocorre pelo suspense gerado pela suspensão. A interrupção, segundo o autor, provoca a admiração e a novidade e impede o fechamento e o acabamento. Para Dorfles (1984), o intervalo é o que impede a linearidade (seja nas chamadas artes plásticas, na música, na arquitetura, ou no próprio movimento da cidade), trazendo elementos de outros contextos e permitindo a fragmentação da narrativa. Em outra abordagem, Paulo Freire (2007) defende a idéia da percepção do outro e da incorporação de seus saberes como tarefa inerente à educação. Para ele, educação não poderia ser vista como mera transmissão de saberes, mas intercâmbio entre mundos. Para isso, os saberes populares não poderiam estar nem divididos nem abaixo do chamado saber intelectual, da mesma forma que o saber deveria conectar novos sistemas que incluiriam mente (e as emoções) e corpo para o desenvolvimento de novos modos de interpretação. Esse processo deveria ser dinâmico, o que levava o educador a dizer que suas propostas não deveriam ser tomadas como modelos, mas pressupostos que teriam de ser revistos e atualizados em tempos e contextos espaciais distintos. A incorporação do outro (outro sistema cultural, outro tempo, outro espaço) como forma de criação e pensamento foi denominada por Sarduy (s/d) como um procedimento barroco, seguido por Alejo Carpentier (1969), Lezama Lima (1993), Haroldo de Campos (1974, 1981) 40, entre outros. O barroco como definido por Sarduy não é uma escola, não possui regras a serem seguidas e não necessariamente se restringe à produção latino-americana, se levarmos em consideração a influência de autores europeus como Luís de Góngora (1986), Marcel Proust (2002), James Joyce ( ), Stéphane Mallarmé (1974) nas obras dos já citados escritores latino-americanos. Como elemento de análise, não se restringe à produção artística sendo, como define Glissant (1990:13) um modo de viver a unidade-diversidade do mundo, um pensamento em movimento do centro para fora, rompendo assim seus próprios limites e fazendo com que os centros se multipliquem como se fossem margens. Invariavelmente isso inclui a devida apropriação da linguagem (seja ela verbal, visual, musical, etc.) no que Carpentier denomina a combinação harmoniosa do que e como se fala, o significado alterando e sendo alterado pelo significante 41. Não se trata de uma proposta academicista, mas um modo de reestruturação da linguagem de modo aberto, em expansão, a partir dos objetos que se apresentam. 40 Fazemos referência a textos críticos sobre o chamado barroco ou neobarroco como procedimento criativo, embora o pensamento barroco estivesse presente nas obras poéticas e de prosa destes autores. 41 Alejo Carpentier, entrevista concedida à TVE em 1997, disponível em 23

33 Entre outros termos que de certa forma poderiam ser relacionados com a idéia de pensamento barroco, como a mestiçagem, o multiculturalismo e o sincretismo, podemos perceber algumas diferenças, que devem ser apontadas. Sincretismo vem de duas palavras do grego, que significam por um lado coalizão de dois adversários em um terceiro e falar como um cretense, isto é, ser um impostor. O caráter negativo da idéia de ser um outro que se encontra em sua etimologia, juntamente com a possibilidade de se confundir com a idéia de fusão em um todo amorfo (ou melting pot como usam alguns autores norte-americanos ao se referirem à cultura latino-americana), além de seu uso em termos folclóricos que os define como fenômenos exóticos faz com que o termo seja evitado por pesquisadores das culturas mestiças. Laplantine e Nouss (2002:9) relacionam o termo sincretismo com o patwchwork, a mera coexistência entre elementos distintos de modo morno, uniforme, onde não há agitamento e alteração recíproca entre eles. Seguindo o mesmo raciocínio, o multiculturalismo se apresentaria como o contrário do barroco. É a defesa das minorias, dos grupos étnicos, o politicamente correto, uma proposta ancorada em origens e identidades essenciais que, para serem preservadas, não podem contaminar-se mutuamente. Por outro lado, o próprio termo mestiçagem está relacionado ao barroco. Carpentier afirma que nascer mestiço obriga a se perceber desde o início como outra coisa, o que engendra por si só um barroquismo, uma ambigüidade fundamental. Campos (1981:11-14) afirma que a cultura latino-americana não teve infância (infans: o que não fala). Nunca foi afásica. Nasceu adulta como certos heróis mitológicos e falando um código universal extremamente elaborado: o código retórico barroco. Um exemplo citado pelo autor é o Manifesto antropofágico, que mostra a necessidade da relação entre o nacional e o universal, questionando a perspectiva do brasileiro como o bom selvagem e propondo a idéia do mal selvagem, o que devora o outro, o antropófago. Este pensamento não implica em uma submissão, mas sim uma transculturação ou melhor dito, uma transvalorização: uma visão crítica da história como função negativa (no sentido de Nietzche), capaz tanto de apropriação como de expropriação, desierarquização, desconstrução. A importância da vivência das cidades para os autores de pensamento barroco é clara. É caminhando pelas ruas, passando pelas aglomerações, pelos mercados, pelas praças, escutando os sons, odores e imagens em movimento da urbe que se pode ter uma maior percepção do entorno, como descreve Sarduy (s/d: 9), em um andar ao acaso, sem fixação, sem centro possível, numa superabundância de imagens e a criação de um contraponto rítmico para o movimento da realidade que se procura reconstruir. A partir dessa idéia, Carpentier (1969:23) analisa que as proporções do continente americano também eram um elemento importante para gerar esse choque da novidade que permite revelar o outro: A distância é dura e tantálica, por isso mesmo que cria imagens espelhismos que estão fora dos alcances musculares do contemplador. A desproporção é cruel porquanto se opõe ao módulo, à euritmia pitagórica, à beleza do número, ao corte do ouro 24

34 Essa desproporção espacial se reflete em um modo de pensar que sobrepassa o logocentrismo ocidental, ou como define Campos (1981:17): passa pelos interstícios da historiografia tradicional, se filtra por suas brechas, passa obliquamente pelas suas fissuras. É um modo de pensamento que faz uso da residualidade não apenas como caminhos de percurso, mas criando entremeios, vazios, contra o saturado do homogêneo (Laplantine e Nouss, 2002:79). O percurso residual não é direto, não busca o caminho mais rápido ou mais eficiente, não apresenta uma totalidade nem uma essência, faz uso da multiplicidade de leituras, prefere a ambigüidade, se apresenta, como descreve Sarduy (s/d:175) como uma rede de conexões de sucessivas filigranas, cuja expressão gráfica não seria linear, bidimensional, plana, mas em volume, espacial e dinâmico. Vale notar que não se quer definir aqui o pensamento barroco como pura residualidade, como um entre-pensamentos, o que traria a estabilidade que a própria noção de barroco questiona. É um modo de conectar o que é residual com sistemas centrais, tempos passados com presente, sistemas distantes que não obedecem a uma estrutura de áreas de conhecimento ou estruturas históricas rígidas. Mais do que circunscreve territórios, busca traçar linhas de contato (Laplantine e Nouss, 2002:89). Desta forma, a idéia de resíduo se relaciona com o excesso. Excesso na produção econômica, na apropriação especulativa do espaço da cidade, que revela ao mesmo tempo o descontrole, a exclusão. O desperdício de bens ou de espaço (como os enormes jardins em palácios europeus e mansões não utilizados pelos seus próprios donos) é uma forma de demonstração de poder. No entanto, existem outras formas de excesso, não o econômico, mas o cultural, como se observa na América Latina. Como menciona Chiampi (1998: 30): No cenário da produção simbólica de hoje pós borgiana o excesso, o surplus barroco expõem o esgotamento e uma saturação que contrariam, como quer Sarduy, a linguagem comunicativa econômica, austera que se presta à funcionalidade de conduzir uma informação conforme a regra da troca capitalista e da atividade do homo faber, o ser para o trabalho. O próprio fato de se viver o tempo fora da idéia de produtividade (ainda que esta exclusão do sistema produtivo seja compulsória) é um ato contestatório. Lynch, Lizcano e Semprini entre outros autores analisam que em muitos grupos sociais perder tempo é algo impensável. A máxima tempo é dinheiro descreve claramente essa crença. A indústria do turismo cria a possibilidade de se viver o tempo livre de um modo produtivo, com visitas e passeios obrigatórios, guias do que se deve ver, do que não se pode perder. Foucault (1984) menciona que em uma sociedade onde o lazer é a regra, o ócio é uma espécie de desvio. Daí a importância dos homens lentos descritos por Santos e sua ação na contra-racionalidade. Dentro de um sistema social muitas vezes o que se considera residual é associado a algo fora de lugar, fora da norma, algo que não pertence mais a uma estrutura e que está disponível para reutilização. Apropriar-se de informação, espaços e objetos que surgem aleatoriamente tem a ver com a capacidade de adaptação de um indivíduo ou grupo, ainda que essa adaptabilidade seja por vezes fruto de uma situação de emergência e carência extremas. É um trabalho subversivo ou da contra-racionalidade como propõe 25

35 Santos, porque está na contramão do processo homogêneo de consumo. Não segue as normas previstas de cima para baixo. Ao mesmo tempo, por não pertencer mais a nenhum sistema organizado é instável, móvel, um incômodo na cidade. Uma situação de potencialidade e instabilidade, mas também de disponibilidade. Para Gibson (1986), dentro de uma abordagem ecossemiótica (que busca estudar a relação e a conexão entre sistemas diversos que se alteram mutuamente em um ambiente) as disponibilidades são elementos informacionais que dependem não somente da natureza dos objetos, mas também das possibilidades de percepção do sujeito. Percepção neste caso tem a ver com ser ativado pela interação no ambiente, não necessariamente com uma idéia de sensação ou simples estímulo. Neste processo, tanto objeto quanto sujeito em seu ambiente são alterados e o espaço urbano é um cenário privilegiado para a compreensão destas relações. As cidades latino-americanas refletem essa idéia de excesso e combinatórias inesperadas. Carpentier (1969:16) aponta a necessidade de se passar dos escritos nativistas, baseados em uma natureza que exclui o fazer do homem, para as análises dos espaços urbanos como parte desta relação do homem com o entorno (que inclui a natureza): Começamos a descobrir agora que (as cidades latino-americanas) possuem o que poderíamos chamar um terceiro estilo: o estilo das coisas que não têm estilo... Com o tempo, esses desafios aos estilos existentes foram se tornando estilos. Não estilos serenos ou clássicos pelo alargamento de um classicismo anterior, mas sim por uma nova disposição de elementos, de texturas, de fealdades embelezadas por aproximações fortuitas, de encrespamentos e metáforas, de alusões a outras coisas que são, em suma, a fonte de todos os barroquismos conhecidos. O que sucede é que o terceiro estilo, mesmo porque desafia tudo aquilo que se teve, até determinado momento, por bom estilo ou mau estilo sinônimos de bom gosto e mau gosto costuma ser ignorado por aqueles que o contemplam diariamente, até que um escritor, um fotógrafo ardiloso, proceda à sua revelação. Confrontar estas cidades consideradas caóticas, sem estilo com noções que ultrapassam o julgamento do certo e errado arquitetônico, e permitir que o que se vê possa alterar os próprios limites do que se conhece como arquitetura e urbanismo, observando os vários mundos que ali se encerram, é o que permite que uma cidade seja um centro de reflexão sobre o fazer social, sem cair em provincianismos que recortam somente a parte ordenada de um centro urbano, eliminando as relações que colocam em dúvida saberes estruturados e cartilhas. 1.3 Resíduos recombinados, dando forma ao informe Todo lixo contém informação. Essa informação se reflete em uma memória coletiva (compreendida como mecanismo da cultura) que faz que com que objetos usados e jogados fora por alguns sejam recuperados por outros. Como mencionam Laplantine e Nouss (2002:116), a memória é em si mesma uma operação mestiça: a lembrança pertence ao presente de uma consciência que a manifesta mas que ao fazê-lo ressuscita algo que já não é. As grandes cidades mostram distintas formas de se 26

36 socializar a partir do comércio de materiais usados ou mesmo encontrados em lixos. Desde as vendas de garagem norte-americanas, os rastrillos espanhóis e os mercados estabelecidos ou improvisados de venda e troca de objetos como o Sahara no Rio de Janeiro e camelôs do bairro de Santa Ifigênia em São Paulo, entre tantos outros. São objetos com história, que contam um pouco de uma memória coletiva que vai sendo continuamente apagada por modas e ciclos de vida de produto mas que permanece nestes pequenos comércios paralelos ou revive pelo próprio sistema de modas e tendências, que se reapropria do que jogou fora. Lynch (2005) estabelece uma diferenciação entre objetos de segunda mão, desvalorizados, relegados aos pobres, e o que se considera antiguidade, objetos de alto valor simbólico e mercadológico. Para Lynch, as antiguidades nunca foram jogadas fora, são objetos constantemente mantidos que desafiam a decadência, por isso mesmo dotados de valor. No entanto, a relativamente recente tendência de se recuperar objetos mais prosaicos (muitos considerados lixo) e dotá-los de valor, a moda vintage, os mercados de rua com antiguidades de não mais de uma década, a busca por máquinas tecnológicas das décadas de 70 e 80 são apontados por Lynch como modos de se construir uma escala de valores e conseqüente diferenciação para um grupo de entendidos. Para isso, esses elementos devem ser associados a um uso prévio mas não tão próximo a ponto de serem confundidos com lixo. Essa idéia de proximidade apontada pelo autor é importante porque mostra a relação paradoxal que se tem com resíduos, pois produzimos a maior parte do lixo quando consumimos produtos de todas as ordens, expelimos resíduos corporais como parte de nosso processo de sobrevivência, tornamo-nos resíduos quando morremos e exatamente essa proximidade e impossibilidade real de estar desconectado do que é dejeto é que causa a repulsa. A apropriação dos dejetos por parte dos migrantes, imigrantes ou outros grupos sociais que não encontram seu espaço na cidade racional encobre questões que vão muito além das fragilidades econômicas e legais que enfrentam. Resíduos geográficos, materiais, possuem um valor simbólico que tem a ver com uma resistência à lógica de consumo e ordenação. A miséria, a falta de apoio, tornam mesmo os indivíduos que estão à margem do sistema tradicional de consumo produtores em potencial, que têm de apreender o espaço e seu entorno para daí tirar o que necessitam. Seu deslocamento constante torna essa capacidade de adaptação a contextos distintos ainda mais urgente e aguçada. Por não possuírem direito à cidade estão, como apontado anteriormente, à margem do tempo compartimentado, estruturado. Recolhem e recuperam pouco a pouco o lixo que vêem espalhados pelas ruas, nos depósitos de lixo ou mesmo nos sacos de lixo, que são abertos e separados por eles. Brissac (2002:s/n) analisa a cidade de São Paulo como palco de tensões entre forças do capital global e da apropriação local, mas também como Santos (2004, 2002a, 2002b, 1993), não compreende essas forças como criadoras de claras dualidades e destaca seu caráter movediço e de relação com as forças da exclusão que as geram, mostrando que a cidade pode ser dividida e estruturada pelo capital e pelo trabalho, mas estas divisões, por seu caráter rígido e excludente são reconfiguradas pelos sem-teto, pelos migrantes, pelos comerciantes informais. Como a máquina de guerra proposta por Deleuze e Guattary (1997), não procuram medir, mas deslocar. Dissolvem os limites 27

37 impostos construindo territórios moventes e dinâmicos ocupando margens e espaços residuais criados pelo poder público e pela especulação imobiliária, mudando a disposição do território urbano, densificando e intensificando pontos, distribuindo-se pelo espaço: Ocorre uma inversão da figura do excluído: ele não está mais no limite, mas no meio. São elementos que só se distinguem pelo movimento e o repouso, pela velocidade e a lentidão. O migrante estabelece uma micro-física, definida por passagens, por linhas de ruptura e conexão, que se opõe à macro-geometria do sedentário. (...) Subordinação do habitat ao percurso, conformação do dentro ao fora. Esses movimentos imperceptíveis, entre as coisas, configuram espaços de intervalo, sem recorrer a formas, à arquitetura. Tudo para ele é uma questão de logística: carregar, guardar, esconder, passar para frente. Daí a relação do camelô, do favelado, do sem-teto com os materiais improvisados e descartáveis. Arranjos inexatos contra estruturas arquitetônicas. O ambulante, o itinerante, como os catadores de papel, seguem o fluxo da matéria. Foto de 2004 Vila Madalena. Um aviso para que o lixo deixado ali pela vizinhança não fosse recolhido e pudesse ser reaproveitado pelos moradores do espaço residual. 28

38 Foto de 2004 Comércio de sucata na Comunidade Nassau. Foto de 2006 Mesmo com a remoção da Comunidade Nassau, alguns ex-moradores da favela ainda trabalham catando lixo na região, necessitando agora percorrer distâncias de no mínimo 3 quilômetros por trajeto a pé (distância da residência da CDHU mais próxima de onde estava a favela). 29

39 Foto de 2006 Na frente do Clube Casa de Nassau, o Sr. Moacir Pereira seleciona o lixo reaproveitável. Foto de 2004 de outra comunidade que ocupa parte da Avenida Raimundo, em Pirituba. 30

40 Para Blanquart (revista Poïesis, 2003:127) a idéia de reciclagem é fundamental para a compreensão da dinâmica da cidade. Para o autor, o ser vivo se recicla, seus restos são apropriados por outros e esse processo deveria ser adotado para a vida da cidade, que também é um tecido vivo. O processo de continuidade e descontinuidade constante, que é parte de uma urbe, pode e deve ser integrado por meio da reciclagem cultural e material. Nas últimas décadas, o conceito de reciclagem tem se tornado uma preocupação, ainda que as ações efetivas nesse sentido sejam menos efetivas do que se propõe. Por um lado, a cidade oficial continua gerando mais lixo, seja entre os habitantes ou nas indústrias, os maiores produtores de dejetos tóxicos. Enquanto países como Estados Unidos relutam em se comprometer ativamente em reduzir a poluição e o lixo (ainda que seja um dos maiores produtores mundiais nessa área), países da Europa central transferem suas indústrias consideradas de alto risco e muito poluidoras para países economicamente de Terceiro Mundo, que não somente as recebe como ainda disputam entre si o direito a possuí-las em seu território. 42 Em São Paulo o lixo que se coleta de modo seletivo e que pode ser reciclado não passa de 4% do total. Ainda assim, o trabalho de reciclagem (principalmente de alumínio) no Brasil é alto, devido à formação de cooperativas com boa gestão, ao alto valor do material como sucata, ao trabalho de catadores de lixo e ao comércio informal de reciclagem já que sua subsistência provém em grande parte da mesma fonte: o lixo. Um levantamento realizado pelo setor mostra que entre 2000 e 2005 a participação de condomínios e clubes na coleta de latas usadas passou de 10% para 24%. As latas de alumínio se tornaram o carro-chefe da reciclagem no país. O Brasil é há 5 anos o líder mundial em reciclagem de alumínio (96,2%, segundo a ABAL - Associação Brasileira do Alumínio). No momento em que a reciclagem de alguns materiais começa a adquirir valor comercial, representa uma possibilidade de renda para os moradores de favelas e espaços residuais na América Latina e África. Este processo, no entanto, não possui o status glorificado que se observa em documentários educativos sobre a importância de se diminuir e reaproveitar o lixo. Constitui um trabalho quase ilegal, sem nenhum tipo de direito trabalhista e de alto risco Uma das disputas atuais mais comentadas é a que se estabeleceu entre Argentina e Uruguai, que envolveu desde manifestações populares até conflitos diplomáticos, para decidir que país acolheria uma fábrica de celulose de capital espanhol em áreas próximas ao rio de La Plata, que divide os dois países Folha de S. Paulo, 22/9/2005: Catadores de lixo serão expulsos de Pinheiros : A Coopamare (Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis) será despejada da parte de baixo do viaduto Paulo 6º, em Pinheiros (zona oeste), local que ocupa desde Os catadores foram notificados neste mês, mas disseram que não irão sair. O despejo gerou polêmica e mobilizou alunos e professores da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), que realizam aulas no local e têm o trabalho da cooperativa como alvo de pesquisa. Para o professor da FAU e urbanista João Whitaker, o prefeito José Serra (PSDB) retomou uma política de "expulsão da população pobre das áreas mais ricas, do centro expandido". A cooperativa reúne 56 cooperados e beneficia uma média de 130 toneladas de material para reciclagem por mês. 31

41 Como exemplo podemos citar os 5 mil catadores de lixo do aterro sanitário de Gramacho, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Os catadores de lixo são a base de uma pirâmide de trabalho ameaçada por técnicas de reciclagem que começaram a ser incorporadas pelas grandes indústrias. Jardim Gramacho é o nome de um bairro de Duque de Caxias, cidade da região metropolitana a 20 quilômetros do Rio. O "Lixão", como é chamado, ocupa uma área de um milhão de metros quadrados nas margens da Baía de Guanabara, e recebe uma média diária de 10 mil toneladas de resíduos vindos do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nilópolis e São João de Meriti. Volume que equivale a 85% do lixo urbano gerado a cada dia no Rio de Janeiro. Múltiplos focos de gás produzidos pela decomposição de matéria orgânica fervem em fogo brando em montanhas de resíduos que, embora sejam compactadas por tratores, desmoronam como castelos de cartas e põem vidas em perigo. "Esse é o trabalho mais sacrificado do mundo. O trabalho sujo que ninguém quis fazer", disse o presidente da Associação de Catadores de Gramacho, Paulo Roberto Gesteira de Souza. As cooperativas formam o terceiro degrau da pirâmide do lixo. Estão acima dos galpões, que por sua vez superam os catadores de lixo. É nos "galpões" que, no final do dia, terminam os achados dos "catadores". Ao contrário dos "galpões", as dezoito cooperativas registradas na Prefeitura do Rio de Janeiro não revendem os resíduos, mas os reciclam. Para as cooperativas, entretanto, a reciclagem parece ter deixado de ser negócio. "Trabalhamos no meio do lixo, mas sem muito material para recuperar porque agora virou moda que as grandes fábricas reciclem seus resíduos", disse Gesteira de Souza. A "moda" foi percebida na associação de Gramacho desde maio com o abandono de 130 dos 270 filiados. "Preferiram tentar a sorte em outras coisas desde que caíram os ganhos", disse. Segundo a Comlurb, desempregados, ex-presidiários, ex-delinqüentes, jovens ou velhos, encontram no lixo uma alternativa para o que se pode chamar sobrevivência. 44 Além do exemplo citado podemos encontrar por todo o Brasil casos de discriminação contra os catadores de lixo. Mesmo quando há um plano de reciclagem de materiais, ele é muitas vezes imposto sem a inclusão das pessoas que já trabalhavam com o lixo. Em Goiânia 45 foi denunciado que catadores de lixo estavam sendo espancados pela polícia como modo de impedir seu trabalho e, principalmente, sua organização como cooperativa. A pressão sobre a importância ecológica da reciclagem e o crescimento sustentável faz com que haja preocupação com o lixo material, mas se exclua os que o vêm utilizando como modo de subsistência. Esta rede social passa a ser o resíduo do resíduo. 44 Folha de S. Paulo, 10/12/2005. A dura vida dos catadores de lixo do Rio de Janeiro, por Hernán Bahos Ruiz - Rio de Janeiro de dezembro de Acessado em agosto de

42 O trabalho com o lixo é algo tradicionalmente depreciado. Na Índia a casta mais baixa (os chamados intocáveis ) tinha de habitar a parte mais exterior da cidade. Como menciona Lynch, trata-se de um trabalho menosprezado onde gente menosprezada manipula material menosprezado, uma situação que parece estar fora de controle (2005:63). Delgado, em seus ensaios que analisam espaço urbano e cinema, fala da dificuldade de se abordar esse processo de coleta e combinação do que é rechaçado, do que está no chão, nos sacos de lixo, nos cantos escuros da cidade: (...) uma das reflexões mais profundas que já se fez sobre o trabalho de compilar o que está aí como descartado, para exaltar sua beleza, foi o filme Os catadores e eu, da diretora francesa Agnès Varda (1999), uma reflexão visual sobre a vigência do gesto de agachar-se para recolher coisas do chão que Millet soube retratar tão sublimemente em seu quadro La glaneuse. Homenagem às respigadoras do quadro e ao seu autor, mas também à própria cineasta ou adicionamos ao etnógrafo sobre o terreno, que como as protagonistas da obra de Millet com efeito, a respigadora do filme é a própria diretora não fazem outra coisa que colher coisas que os demais repudiaram por serem velhas, usadas ou humildes. (2003:35) 46 Nesse filme, a diretora aborda a respiga no meio rural, um processo coletivo que com o advento das novas máquinas colheitadeiras passa a ser uma ação residual em si mesma, um processo individual restrito àqueles que por limitações econômicas não podem comprar seus alimentos. A partir desse eixo ela passa ao espaço urbano, dos catadores do meio rural aos catadores de lixo, mostrando ao mesmo tempo a criatividade que há no estar desperto para o que a cidade e o campo aleatoriamente oferecem e a marginalização a que estas pessoas são submetidas. Ao mesmo tempo a diretora aborda os processos que geram o que é considerado resíduo nesses espaços, tanto a partir das imposições mercadológicas sobre comercialização, consumo e preservação dos produtos consumidos quanto à exclusão de certos indivíduos ou grupos sociais (os ciganos rejeitados pela sociedade francesa, os desempregados e alcoólatras rejeitados pelos ciganos) evidenciando o caráter arbitrário do processo. Fala também da mobilidade, algo característico dos respigadores, dos que não têm lugar na sociedade (sem-teto, mendigos expulsos de suas habitações ou mesmo aqueles que não querem ter um lugar fixo). A obra de Varda aborda essas questões diretamente relacionadas ao tema mas também fala do processo da construção do filme, que tem uma proposta claramente aberta e que vai sendo construído a partir das idéias que se colocam pelos entrevistados, os próprios catadores, elementos invisíveis da sociedade, ou pelo psicanalista (dono de um vinhedo e um dos entrevistados no filme) que vê em seu trabalho a necessidade de estar atento e recolher os fragmentos do que o sujeito não vê em si mesmo una de las reflexiones más profundas que nunca se han hecho sobre la labor de compilar lo que está ahí, como desechado, para ensalzar su belleza, ha sido la película Les glaneurs ei la glaneuse, de la directora francesa Agnès Varda (1999), una reflexión visual sobre la vigencia del gesto de agacharse para recoger cosas del suelo que Millet supo retratar tan sublimente en su cuadro Las espigadoras. Homenaje a las recogedoras de espigas del cuadro y a su autor, pero también a la propia cineasta o añadimos al etnógrafo sobre el terreno, que como las protagonistas de la obra de Millet en efecto la espigadora de la película es la propia directora no hacen otra cosa que cosechar cosas que los demás han repudiado por viejas, usadas o humildes. 33

43 Em Madri, por exemplo, a reciclagem espontânea de parte do lixo ocorre de modo freqüente, já que as próprias caçambas oferecem de tudo: computadores, impressoras, TVs, roupas usadas. Esses materiais são vendidos principalmente pelos imigrantes subsaarianos, em locais de fluxo ou próximos a mercados de rua mais estabelecidos como o de Tetuán ou o de Rastro, constituindo uma atividade marginal que se combina com outras realizadas principalmente por imigrantes chineses como o top manta (venda de CDs e DVDs piratas) e acessórios falsificados. Top manta (venda de produtos oriundos de pirataria) em Madri

44 Venda de produtos recuperados do lixo próximo ao mercado do Rastro, Madri (2007). Não somente os dejetos materiais disponíveis na cidade são apropriados pelos habitantes dos espaços residuais e de algumas favelas. Mesmo antes de se falar da tecnologia digital e suas propostas de recuperação e reapropriação nas mais diferentes escalas, já podemos observar que nos agrupamentos informais a gambiarra ou conexão de luz clandestina já seria uma forma de apropriação dos meios para usos não previstos. McLuhan usa o exemplo da luz elétrica para sinalar informação pura, um meio sem mensagem, a menos que seja usada para explicitar algum anúncio verbal ou algum nome. (...) Embora desligadas de seus usos, tanto a luz como a energia elétrica eliminam os fatores de tempo e espaço da associação humana, exatamente como o fazem o rádio, o telégrafo, o telefone e a televisão, criando a participação em profundidade. (1974:22-23). Umberto Eco discorda em certo ponto da afirmação de McLuhan, apontando que há um erro de interpretação ao designar toda a cadeia de comunicação como meio : Dizer que a luz é um mídia 47 significa não dar-se conta de que existem pelo menos três acepções de luz. A luz pode ser um sinal de informação (uso a eletricidade para transmitir impulsos que com base no código Morse significam mensagens particulares); a luz pode ser uma mensagem (se minha amante põe uma luz na janela, isso significa que o marido saiu); a luz pode ser um canal (se estou com a luz acesa no quarto posso ler a mensagemlivro). Em cada um desses casos o impacto de um fenômeno sobre o corpo social varia de acordo com o papel que desempenha na cadeia comunicativa. (1985:169) 47 O termo mídia se apresenta aqui respeitando a tradução para o português do texto de Eco, mas na acepção da Teoria da Comunicação deveria ser trazido no singular (meio) como no texto de McLuhan. 35

45 E complementa dizendo que o significado da mensagem muda de acordo com o código que se interpreta, o que para Eco contradiz que o meio seja a mensagem. No entanto, mesmo com a afirmação de Eco sobre a mídia de massa tradicional (o livro foi escrito antes do advento da Internet), deve-se ter em conta que o receptor em nenhum caso é passivo, pois interpreta as mensagens a partir de códigos próprios e distintos dependendo do contexto, sendo ao mesmo tempo capaz de alterar a mensagem. Bakhtin pontua que: A pessoa aproxima-se da obra com uma visão do mundo já formada, a partir de um dado ponto de vista. Esta situação em certa medida determina o juízo sobre a obra, mas nem por isso permanece alterada: ela é submetida à ação da obra que sempre introduz algo novo (...). Compreender não deve excluir a possibilidade de uma modificação, ou até uma renúncia, do ponto de vista pessoal. O ato de compreensão supõe um combate cujo móvel consiste numa modificação e num enriquecimento recíprocos. (1997:382) Trata-se de um processo de tradução constante que se intensifica com a necessidade de realizar combinações inusitadas com o que está disponível. Por um lado, o lixo é abundante, por outro, como fazer para que possa ser reinserido no sistema e em que sistema(s)? As possibilidades são inúmeras, já que não há lei que defina o uso destes materiais nem o modo de interação destas pessoas. Estar esquecido pela cidade oficial passa a ser vivenciado a partir de maiores possibilidades de escolha. As garrafas PET podem ser recicladas, usadas para a construção de moradias, levar água ou guardar moedas e objetos pequenos que se encontram pela rua. Uma caixa de papelão pode ser cobertor, casa ou armário. Misturar-se ao mercado de rua semanal pode ser a possibilidade de revender peças recuperadas do lixo, ou a manta por sobre onde se vende a mercadoria pirata pode transformar-se em trouxa de roupas quando a fiscalização policial se aproxima. 36

46 II. Metrópoles entre fixos e fluxos Edifício Prestes Maia (SP) 37

47 2.1 Arquitetura e trânsito, arquitetura em trânsito A idéia de habitação e de cidade está comumente relacionada à idéia de posse, de estabilidade, que estaria em contraposição à idéia de nomadismo, de trânsito, que apesar de estar em voga nos discursos sobre os chamados novos meios ainda é vista com resistência nos espaços urbanos. Deve-se pertencer a um lugar, possuir uma moradia. De acordo com Careri (2004:33-34), o nomadismo e o sedentarismo com a construção do espaço simbólico surgem de uma ambigüidade original. Após a divisão de gêneros entre Adão e Eva, segue a divisão do trabalho e, por conseqüência, do espaço, onde Caim era a alma sedentária (terra) e Abel a nômade (pastoreio). No entanto, os animais necessitam da terra para mover-se e alimentar-se, o que gerou uma disputa em que Caim finalmente termina por matar Abel, sendo condenado por Deus a ser um nômade, já que tudo o que plantaria não daria frutos. Segundo Careri, Caim era o Homo Faber, o homem que se apropria da natureza para construir um universo controlado e artificial, enquanto Abel seria o Homo Ludens, o homem que joga, brinca e constrói um sistema efêmero de relações entre vida e natureza. Caim tinha uma vida dedicada ao trabalho de plantar, um trabalho de valor útil-produtivo, enquanto Abel dispunha de tempo livre em suas caminhadas pastoreando para dedicar-se à especulação intelectual, à exploração do território, à aventura, um tempo não utilitário por excelência 48. Careri analisa a inversão de valores que termina por associar a idéia de errar no sentido nômade, com a de errar, a de haver cometido uma falta. O nomadismo de Abel deixa de ser um privilégio e se torna um castigo divino. Perde-se o lugar a que se pertence, o que torna Abel um homem sem raiz, condenado a andar por todos os lugares sem pertencer a nenhum. Na Grécia Antiga, um dos maiores castigos que se podia infligir a um condenado por algum crime era ser expulso de seu grupo, sendo impedido de utilizar como identificador o nome do povoado onde havia nascido. Representava uma morte simbólica, uma amputação, o indivíduo já não era mais parte de nenhum espaço. Povos como os judeus, que têm toda sua história marcada pelo trânsito, pelo movimento, são condenados pelo nomadismo. Careri (2002:30-38) menciona que nenhum outro povo sentiu de modo mais duro as ambigüidades morais inerentes à sua vida errante: Em sua origem, Yahvé era o Deus do caminho, seu santuário a Arca Móvel, sua morada uma tenda, seu altar um monte de pedras toscas. (...) Richard Sennet afirma que em realidade Yahvé foi um Deus do tempo mais que do lugar, um Deus que prometeu dar a seus seguidores um sentido divino a sua triste peregrinação. 49 É uma questão paradoxal: o nomadismo é condenado pelos povos sedentários e ao mesmo tempo é compreendido como uma condenação pelos que peregrinam, o que não é comum a todos os grupos nômades. 48 O nome de Abel vem do hebreu hebel, que significa hálito ou vapor, um termo que se refere a qualquer coisa animada e transitória. Caim por sua vez provém de kanah, que seria adquirir, obter, possuir e portanto governar ou subjugar. (CHATWIN apud Careri, 2002: 32) 49 En su origen, Yahvé es el Dios del Camino. Su sanctuario es el Arca Móvil, su morada es una tienda, su altar es un montón de piedras toscas. Y aunque promete a Sus Hijos una tierra bien irrigada (...) en su corazón desea para ellos el desierto. Richard Sennet afirma por su parte que en realidad Yahvé fue un Dios del Tiempo más que del Lugar, un Dios que prometió a sus seguidores dar un sentido divino a su triste peregrinación. 38

48 Segundo Delgado (2007:65-66), a construção dos Estados centralizados na Europa se deu a partir de um controle fóbico contra comunidades real ou miticamente errantes, como os ciganos, os judeus e posteriormente os vagabundos e todo tipo de agentes do fluxo migratório. Perambular é estar em constante estado de ambivalência, é contraproducente. De certo modo tem a ver com formas de liberdade como o sexo livre ou as experiências com entorpecentes. O vagabundo, o usuário de drogas, o errante não possuem um vetor de direção previsível, estão fora de controle. Para ser, é necessário estar; quem vaga não tem posição fixa, está como define Delgado, dis-posto. O processo da cultura exige, por outro lado, a mobilidade, a viagem. Laplantine e Nouss (2002:16-17) citam a figura arquetípica de Ulisses, o viajante e de Abraão, o que nunca regressou a seu ponto de partida. Os gregos, que desprezavam os bárbaros (os gagos, os que balbuciam, os estrangeiros), eram eles próprios viajantes, estrangeiros nas muitas terras em que chegavam. E invariavelmente, se barbarizavam e influenciavam a cultura local com sua própria cultura. O que segundo os autores também serve para mostrar que a busca da pureza européia não tem sentido antropológico por estar em contradição com a história mestiça da própria Europa, feita de migrações, conquistas, movimentos. Não uma raiz única, mas raízes que vão de encontro a outras raízes (Glissand, apud Laplantine e Nouss, 2002:39). No entanto, não é estranho perceber porque quanto mais fechada a noção de nós, mais diferente e perigosa se torna a idéia dos outros. Lotman (2000:142) diz que a função das fronteiras no espaço semiótico (ou semiosfera) é criar ao mesmo tempo uma organização e uma desorganização. A visão do selvagem ou do bárbaro é nada mais que a imagem invertida de uma sociedade que priorizava a racionalidade. Martí aponta para o preconceito bastante difundido que ignora o poder de errar como conhecimento do território e valoriza somente a alteração violenta do ambiente: Se um homem que ama os bosques caminha por eles durante a metade de cada dia, se arrisca a ser visto como um vagabundo, mas se dedica-se todo o dia para a especulação, destruindo estes bosques e deixando nua a terra antes que tenha chegado sua hora, é estimado como um cidadão empreendedor. Como se um povo não tivesse mais interesse em seus bosques que derrubá-los! In: Gillermo Castro, Para una cultura latinoamericana de la naturaleza, Revista online da Universidade Bolivariana, vol. 2, número 7, 2004 (sem numeração de página). 39

49 Careri critica o lugar-comum que assume a arquitetura e o nomadismo como opostos e mostra que na verdade trata-se de uma relação complementar, onde arquitetura e nomadismo se unem por meio da idéia de percurso. Segundo ele, de acordo com estudos sobre os primeiros povos da Humanidade, pode-se concluir que o nomadismo deu vida à arquitetura, no momento em que o conhecimento e o mapeamento dos territórios percorridos se davam pela construção simbólica da paisagem: marcar os territórios por onde se passa com pedras e posteriormente construções. A idéia do artista Gordon Matta-Clark de cortar edifícios (Splitting a casa de subúrbio cortada ao meio é sua obra mais conhecida) estava em primeiramente dissolver a construção arquitetônica como uma entidade fixa na mente das pessoas, devolver a idéia de espaço mutável, questionar não somente a prática arquitetônica como mero negócio como também romper com o que ele chamava de tabu, o muro e a rigidez da propriedade na mente das pessoas. Ele lidava com a idéia de proibição, de respeito à propriedade privada (ele mesmo esteve na Europa como foragido da polícia por intervir no galpão do porto de Nova Iorque que estava abandonado para realizar a obra Pier 52, que não chegou a ser aberta ao público por se tratar de uma propriedade - ainda que abandonada - privada). Para o artista, os edifícios encerram tanto uma evolução cultural em miniatura quanto um modelo das estruturas sociais dominantes. Ele tinha em seus trabalhos com edifícios um modo de se organizar e defender a necessidade de uma mudança do sistema vigilante, que impõe a utilização e o destino da propriedade como um fim em si mesmo (MOURE, 2006:22). Segundo Simmel (1979:53), se há um elemento que congrega a vida nômade compreendida como liberdade e a fixidez como semente geradora da civilização, é a figura do estrangeiro. Segundo o autor, toda a história econômica mostra que a figura do estrangeiro se confunde com a do comerciante. O trânsito realizado por mercadores desde o início dos tempos é responsável na história por intercâmbios importantíssimos que superam as dicotomias entre habitante local e o estrangeiro, criando novas possibilidades de ampliação da cultura. Tarrius (1992:1) cita que os comerciantes, atraídos à cidade pela facilidade de encontrar mais pessoas, mais riquezas, acabavam por gerar o que se conhece de primeiras sociedades urbanas. Braudel já apontava em seu estudo sobre o mundo mediterrâneo na época de Felipe II que os imigrantes não podem ser estigmatizados como homens dignos de pena, como o estereótipo do imigrante econômico que é retratado com freqüência nos meios de comunicação, mas sim como elementos indispensáveis para a introdução de novas técnicas e conhecimentos nas comunidades por onde passam ou se estabelecem. Alain Tarrius (1992:17) mostra em seus estudos sobre os imigrantes magrebinos no Mediterrâneo que existe uma sistemática ignorância por parte dos índices de crescimento e ações nas cidades da Europa das relações de efervescência e intercâmbio produzidas por estes grupos, limitando-se a divulgar apenas as intervenções de grandes conglomerados econômicos e políticos no cenário urbano, contribuindo para a idéia de que as cidades se modernizam e ativam economicamente apenas a partir de uma ação de cima para baixo da pirâmide social. Dentro dessa visão, os imigrantes são elementos que desorganizam o plano previsto, indivíduos parasitas das possibilidades providas pelo poder público e privado. Na verdade, os imigrantes criam uma relação entre nomadismo 40

50 e sedentarismo que desestabiliza a idéia de permanência de um modo de vida de um lugar e que agita e reativa um dado sistema cultural, gerando uma nova urbanidade. Os usos do espaço e os ritmos de mobilidade desenvolvidos por estes grupos se inscrevem em lógicas distintas das que se estruturam nos lugares de acolhida. Desta forma, o que pode parecer à primeira vista como obra de uma minoria limitada em interstícios ou enclaves, se revela portador de centralidades móveis, não sendo possível sua compreensão a partir da lógica interna do lugar aonde chegam. Não estão relacionados com a centralidade histórica compreendida como permanência. Esse processo gera por um lado possíveis conflitos, mas favorece que toda a estrutura urbana se reconstrua e se renove. Delgado (2003:18) também chama a atenção para o processo de movimentação e aquecimento gerado pelos imigrantes ou excluídos das cidades, mostrando que a desestabilização é exatamente o que permite criar a porosidade e a complexidade nos sistemas urbanos. A capacidade de interação destes grupos se dá pela adaptação e competência para a reprodução de esquemas de conduta para que possam ser compreendidos como possuidores de certa previsibilidade permitindo que sejam aceitos. Para o autor esse trabalho que se desenvolve em grande medida em vazios, em espaços sociais intersticiais e secundários, sem a proteção estruturadora das instituições primárias, está afetado por um desequilíbrio endêmico e se vê distorcido constantemente por todo tipo de perturbações. 51 O espaço nodal que representa por um lado uma ameaça ao controle totalitário e por outro possibilidades de encontro, pode estar constituído de uma estrutura arquitetônica que se adapta e se modifica ao longo do tempo ou ser completamente efêmero, como as manifestações populares nas ruas. O movimento dos Sem Teto do Centro (MTSC) (http://www.mstc.org.br) é uma organização que articula associações de moradores das ocupações e de projetos já ocupados. Tem como objetivo organizar lutas pelo direito à moradia em centros urbanos, tanto em termos de ocupação de edifícios vazios quanto mobilizando politicamente coletivos ligados a outros grupos como a Frente de Luta pela Moradia ou Movimento pela Moradia do Centro e outras causas sociais na defesa política dos interesses dos excluídos, seja incentivando a eleição de políticos que consideram ligados às causas populares ou mesmo solicitando recursos públicos para a construção de moradias aos sem-teto. A ocupação do edifício Prestes Maia no centro de São Paulo, a maior ocupação urbana da América Latina, entre disputas com a polícia e com o poder público há 5 anos, recebeu o apoio de intelectuais, políticos, artistas brasileiros e estrangeiros, em uma lista divulgada no site do movimento e em outros sites de grupos que apoiavam os sem-teto. Ainda assim, as famílias foram removidas em junho de 2007 para unidades habitacionais como os CDHU de Itaquera e outros apartamentos cujos locais ainda seriam definidos se trabajo que se desarrolla en gran medida en hueco, en espacios sociales intersticiales y secundarios, sin la protección estructuradora de las instituciones primarias a pleno funcionamiento, está afectado por un desequilibrio endémico y se ve distorsionado constantemente por todo tipo de perturbaciones. (Delgado, 2003: 18) 52 Para uma análise aprofundada do trabalho do MSTC, ver dissertação de mestrado intitulada Naufrágios Urbanos de Mila Goudet, defendida no curso de pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC de São Paulo e orientada por Suely Rolnik em

51 Zona de uso comum no edifício Prestes Maia Biblioteca do edifício Prestes Maia, estruturada pelos ocupantes O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, por outro lado, ocupava um espaço residual em Taboão da Serra (fora da área cêntrica da cidade). O modo de pressionar o grupo para que desocupasse o local se deu não pela força policial, mas pelo sistemático abandono por parte do poder público: o lixo produzido pelos moradores da área e pelo grupo que ocupava uma área da Estrada de São Francisco não foi recolhido por mais de quatro meses. Para serem ouvidos pela prefeitura construíram uma barricada fechando o acesso na estrada com o próprio lixo que se acumulava, até que a prefeitura viesse recolhê-lo. 53 Esse exemplo serve para mostrar como a invisibilidade a que o grupo estava condenado é momentaneamente interrompida no momento em que o lixo que ocupava as laterais da estrada passa a ser disposto no meio da estrada, impedindo a passagem de automóveis. No momento em que alteram o fluxo previsto, criando o que Delgado (2007:156) chama de coágulo societário, passam a ser, ainda que por um momento, visíveis para a cidade que os exclui. 53 O registro fotográfico completo da ação pode ser acessado em 42

52 Fotos da ação do MTST em Taboão da Serra 2006 A partir de uma visão aparentemente contrária, mas que poderia ser tomada como complementar, Santos (1993:20) aponta para a importância da permanência como fator de alteração das dinâmicas globalizantes que, fazendo uso da aceleração e da comunicação homogênea e de fácil assimilação, buscam criar um discurso propício às ações do capital. Segundo o autor, é pelo lugar que revemos o mundo e ajustamos nossa interpretação, pois nele o recôndito, o permanente, o real triunfam, afinal, sobre o movimento, o passageiro, o imposto de fora. Santos (2002a:319) refere-se ao movimento e velocidade do capital, que na verdade não são capazes de transformar todos os lugares como muitas vezes se pensa. É distinto da idéia dos fluxos e nomadismos dos imigrantes e migrantes, uma força fragmentada e fragmentária que ocorre por meio de grupos que estão fora do plano previsto pela aceleração imposta por um pequeno grupo econômico. As ações de controle, embora encontrem nas cidades um 43

53 palco para suas manifestações simbólicas (das quais as construções-monumentos são um exemplo mais visível), têm no próprio espaço urbano a resistência que permite que se constituam modos de vida de ritmos e estruturas distintas: A cidade é o lugar onde a racionalidade está mais contida, onde a anarquia assegura a biodiversidade (ou viceversa). (Santos, 2002a:319) Jacobs mostra a importância da rua como meio de circulação das informações para criar uma ordem complexa na cidade. Esta ordem, ou auto-organização, funciona porque permite interações locais para criar uma ordem global. Segundo Johnson (2003:70-71), as redes de informação das vidas nas calçadas têm uma granularidade tal que permitem o surgimento de um importante aprendizado. E diz que as cidades sem vida nas calçadas, que priorizam a circulação de automóveis, têm um potencial para interações tão limitado pelas altas velocidades e grandes distâncias que impedem o desenvolvimento de uma inteligência social. Estes autores concordam com Santos (2002a:235), que menciona que quem na cidade tem grande mobilidade acaba por ver pouco, da cidade e do mundo: sua comunhão com as imagens, freqüentemente préfabricadas, é sua perdição. Seu conforto, que não desejam perder, vem exatamente do convívio com essas imagens. Os homens lentos, para quem tais imagens são miragens, não podem, por muito tempo, estar em fase com esse imaginário perverso e ir descobrindo as fabulações. 2.2 Cidade à venda: o mecanismo econômico da construção do lixo A contra-racionalidade constitui uma força de resistência, mas não deve ser vista como independente da racionalidade ou forças de controle no espaço urbano. Sze Tsung Leong (in: KOOLHAAS, 2001:193) deixa claro que da mesma forma que a produção industrial excreta produtos de dejetos, o espaço de controle também gera seu próprio tipo de resíduo. O espaço é tratado cada vez mais como um recurso a ser explorado, processado e manipulado, e deve ir sendo descartado, abandonado, jogado fora. Em termos espaciais, uma boa parte da cidade se gera mais por omissão que por intenção, criando-se assim uma nova cartografia uma espécie de solo numérico composta por espaços de controle e espaços residuais. (...) Controle e resíduo não são separáveis; são simultâneos e intercambiáveis. Estas relações podem ser comparadas com os movimentos na semiosfera definida por Lotman (2000a, 2000b, 1999, 1998a, 1998b), onde o residual é periodicamente resgatado do estancamento, enquanto os espaços de controle por sua vez vão caindo na obsolescência. Mesmo antes de o capital se apropriar amplamente da cidade, ela já se havia tornado um instrumento político. Schoonbrodt (revista Poïesis, 2003:237) lembra que polis e civitas eram sinônimos em grego e latim. Com o tempo a palavra política tornou-se uma referência à ação de um grupo dominante, que dirigia a sociedade civil. Essa referência pode parecer elementar a princípio, mas mostra que a divisão entre o grupo civil do político indica que a cidade começa a ser um instrumento de poder, um modo de controle da própria sociedade que a constitui. Entre muitos exemplos podemos citar o grupo religioso conservador de origem espanhola Opus Dei, que em seu primeiro centro de encontros em 1933 (a Academia DYA) ministrava aulas na área de direito e arquitetura. Duas áreas cruciais para o gerenciamento do poder. Naredo (2005:1-2) cita o 44

54 exemplo do ditador espanhol Franco, que em seu regime percebia a importância de se controlar a sociedade civil a partir de seu núcleo base : a habitação. E mostra que a compra da casa própria foi algo incentivado no período franquista como modo de estabelecer uma ordem : A mudança da cultura do aluguel para a cultura da casa própria: em 1950 a situação era justamente a contrária: as casas ocupadas pelos seus proprietários supunham somente 46% do total e eram muito mais minoritárias nas grandes cidades. Em Barcelona somente 5% das casas estavam ocupadas pelos seus proprietários, em Madri, 6%, em Sevilha 10% e em Bilbao 12%. A criação franquista de um Ministério da Habitação objetivou, entre outras coisas, a promoção da casa própria como vacina frente à instabilidade social: com a retórica falangista do momento, se dizia que para criar gente de ordem haveria que facilitar o acesso da população à propriedade da habitação e atá-la às responsabilidades de pagamentos importantes. Somente um continuísmo digno da melhor causa no que concerne a esta política permitiu alterar a cultura do aluguel em favor da propriedade e outorgar à Espanha o recorde europeu neste campo. 54 Sze Tsung Leong (in: KOOLHAAS, 2001:189) diz que: o espaço de controle é automático. Sua operatividade alcança uma eficiência ótima quando o consumidor o perpetua inconscientemente, quando é visto como o curso natural da modernização. 55 Deleuze (1992:219) resume claramente essa idéia dizendo que o marketing é agora o instrumento de controle social. Este controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. De acordo com Santos (2002:a30), o espaços se tornaram mercadoria visando sua especulação econômica, ideológica, política, isoladas ou em conjunto, onde o marketing serve de complemento ou mesmo substituto à planificação urbana. Se antes havia uma deterioração dos objetos a curto prazo e dos lugares a longo prazo, agora existem espaços que se degradam rapidamente e são descartados como objetos. Um dos trabalhos de Matta-Clark (Fake-Estates ou estados falsos ) consistiu em comprar pequenas tiras de terra, algumas medindo 30 centímetros de largura, entre casas e edifícios em Nova Jersey, vendidas em um leilão público da prefeitura. Sua idéia, que não pôde ser cumprida em vida, era a de devolver essas parcelas de terra ao 54 El cambio de la cultura de alquiler a la cultura de la vivienda propia: En 1950 la situación era justo la contraria: las viviendas ocupadas por sus propietarios suponían solo el 46 % del total y eran mucho más minoritarias en las grandes ciudades. En Barcelona solo el 5 % de las viviendas estaba ocupado por sus propietarios, en Madrid el 6 %, en Sevilla el 10 %, en Bilbao 12 %. La creación franquista de un Ministerio de Vivienda apuntó, entre otras cosas, a promover la vivienda en propiedad como vacuna frente a la inestabilidad social: con la retórica falangista del momento se decía que para hacer gente de orden había que facilitar el acceso de la población a la propiedad de la vivienda y atarla a responsabilidades de pagos importantes. Solamente un continuismo digno de mejor causa en lo que concierne a esta política permitió cambiar la cultura del alquiler en favor de la propiedad y otorgar a España el récord europeo en este campo. 55 el espacio de control es automático. Su operatividad alcanza una eficiencia óptima cuando el consumidor lo perpetúa inconscientemente, cuando es visto como el curso natural de la modernización. 45

55 povo de Nova Iorque. Tratava-se de uma ação de extrema ironia, que denunciava a agressividade da privatização do solo que chegava a ponto de comercializar espaços que por sua extensão nunca poderiam ser realmente ocupados por pessoas. De acordo com a teoria marxista, o capitalismo busca tornar objetos obsoletos visando manter a escassez dos bens. A escassez unida à máquina publicitária aumenta a produção e mantém a taxa de lucros frente à sua tendência constante de queda. As modas e as tendências visam manter sistematicamente esse ciclo de consumo de bens e serviços. O modelo mais conhecido e utilizado em marketing é o da Matriz BCG, criada pelo Boston Consulting Group, pioneiro na análise estratégica da carteira de produtos. Para usar este modelo se traça uma matriz entre a participação dos produtos no mercado e o crescimento deste mercado. Formam-se então os quatro quadrantes onde os produtos podem estar e que são denominados de Oportunidade, Estrela, Vaca leiteira e Animal de estimação: Oportunidade: produtos com alta taxa de crescimento e baixa participação no mercado. A maioria dos negócios inicia-se como oportunidades. O ponto de interrogação reflete que a empresa precisa refletir muito antes de colocar dinheiro num negócio que pode dar certo ou errado. Estrela: são as oportunidades que deram lucro. Um produto ou serviço estrela é líder em um mercado de alto crescimento. Não necessariamente são geradoras de fluxo de caixa positivo, pois demandam recursos num mercado em crescimento e precisam defender-se da concorrência. Vaca leiteira: são os geradores de caixa que se formam usualmente quando a taxa de crescimento cai abaixo dos 10%. Não precisando mais financiar sua expansão, como no quadrante estrela e sendo líder de mercado, usualmente as vacas leiteiras são utilizadas para pagar as contas da empresa e manter seus outros negócios. Animal de estimação: são negócios de baixa participação em mercados de baixo crescimento. Geram pouco lucro ou dão prejuízo e consomem mais tempo da administração do que valem. Tendem a ser descartados. 46

56 Com o passar do tempo todo produto/serviço tende a mudar de posição na matriz, refletindo as mudanças em sua participação e crescimento do mercado. Começam como oportunidades, depois como estrelas, depois como vacas leiteiras e então como animais de estimação. Estes estados se traduzem em estágios conhecidos como introdução, crescimento, maturidade e declínio. O conceito de ciclo de vida pode ainda ser usado para analisar toda uma categoria de produtos, uma forma de produto ou mesmo uma marca. Essa idéia se vê claramente refletida na cidade com a construção de novas centralidades, na promoção de bairros como se fossem marcas. Introdução: é o período de crescimento lento das vendas, onde grandes despesas de lançamento são necessárias. Crescimento: neste estágio há uma rápida aceitação de mercado, e melhoria significativa no lucro. O mercado apresenta uma abertura à expansão que deve ser explorada. Maturidade: é o momento de redução no crescimento das vendas, porque o produto já foi aceito pela maioria dos consumidores potenciais. Este público deve ser mantido fiel. O lucro estabiliza-se até entrar em declínio graças ao aumento das despesas de marketing em defendê-lo da concorrência. Declínio: período de forte queda nas vendas e no lucro. É o momento de desaceleração, eliminação ou revitalização, com a introdução de um novo produto/serviço e seu próprio ciclo de vida. 47

57 Nas estratégias de marketing há também o ciclo de adoção de produtos, e a partir daí os próprios consumidores são classificados: Adotantes iniciais Maioria inicial Maioria tardia inovadores 34% 34% retardatários 3% 14% 16% Nessa proposta, os chamados retardatários são aqueles que relutam a adotar a tendência, normalmente identificados como consumidores mais velhos e que desconfiam das novidades. Os inovadores e os adotantes iniciais são os que constantemente buscam novidades no mercado, sendo em sua maioria jovens e dispostos a pagar mais pelo que crêem que lhes trará diferenciação e status. Existe então no mercado (que inclui não somente a publicidade mas também os meios de comunicação que buscam detectar o que é in e out o que está incluído ou excluído) o processo contínuo de classificar algo como novidade ou passível de ser descartado. Assim como os objetos, os bairros da cidade vão adquirindo valores de marca. Desta forma, dizer em São Paulo que alguém é morador do bairro do Morumbi ou dos Jardins, da mesma forma que dizer que outro é morador de Itaquera ou Cidade Ademar, por si só, já permite que se crie uma idéia da classe social à qual este indivíduo pertence. São imagens que refletem a cristalização de valores investidos nos espaços. Criam um mapeamento da cidade que pouco ou nada tem a ver com as divisões distritais estabelecidas pelos órgãos públicos. Assim, temos por exemplo, a região do Jardim Paulista dando nomes a empreendimentos imobiliários que estão localizados oficialmente em Pinheiros ou na Bela Vista. Além da iniciativa privada, com suas intensas ações de marketing, temos a mídia como agente que assume um papel importante nesta cristalização de valores. Flavio Villaça constatou que 70% das notícias da imprensa paulistana se concentravam no quadrante sudoeste da cidade. Quando se fazia referência a uma zona fora dessa área se dizia avenida da zona leste, acidente na zona norte, ou seja, a parcela que concentra a maior parte dos bairros ricos de São Paulo é tomada pelo todo da cidade. Isso se 48

58 confirma com os incidentes com o PCC (Primeiro Comando da Capital) durante o ano de Somente a partir do momento em que bairros de classe média alta foram alvo de ações explícitas de violência se vê revelada na voz dos formadores de opinião a indignação com uma situação que há muito domina outras áreas da cidade. Por outro lado, são publicadas reportagens específicas como a Superbairro, trazida pela Veja São Paulo em 19 de fevereiro de 2003, que mostrava todas as vantagens de se morar em Moema. Entre 1999 e 2000 a Rede Globo de Televisão produziu e emitiu uma telenovela intitulada Vila Madalena, que explorava a idéia do bairro paulistano como um reduto de hippies e esotéricos. Essa idéia é ampliada hoje em dia pelas intensas campanhas publicitárias que determinam onde é interessante morar. O reconhecimento de um bairro como uma marca pode ocorrer por meio de sua composição comercial (as lojas da rua Oscar Freire, os bares, restaurantes e danceterias da Vila Olímpia), que acompanha ou faz acompanhar os empreendimentos residenciais. Como dissemos anteriormente, os conteúdos veiculados pelas mídias de massa também ajudam a criar uma imagem de um bairro, assim como as construtoras, que fazem amplo uso da ferramenta publicitária para a divulgação de seus lançamentos. Apresentam-se aqui alguns materiais de divulgação destes empreendimentos, que permitem compreender como eles são construídos em termos de marca, mesmo antes de saírem da planta. São anúncios em mídia impressa, principal meio de divulgação destes produtos (seja material encartado ou impresso em jornais, seja distribuído nos faróis ou por meio de guias distribuídos em pontos comerciais). Fig. 1 Fig. 2 49

59 Fig. 3 Fig. 4 Os nomes dos edifícios já sintetizam a idéia geral de valor que se procura associar a eles. No exemplo 1 temos o Jardins de Monet, um edifício de 4 dormitórios no City Lapa, no exemplo 2, Réserve du Parc, um edifício de 4 suítes em Perdizes e no exemplo 3, Le Jardin a Giverny, 4 dormitórios no bairro do Brooklin; todos bairros reconhecidos como sendo de alto padrão. A utilização de palavras que têm ligação com a natureza ou área verde (Jardins, Parc) é bastante usual na publicidade de empreendimentos imobiliários em São Paulo, cidade que por sua vez tem uma imagem associada a poluição, trânsito e concreto. Em praticamente todos os mais de 100 anúncios levantados desde o início de janeiro de 2003 para o estudo do corpus, os imóveis são retratados por meio de ilustrações criadas por computador onde aparecem sem nenhum outro edifício próximo. Estabelece-se um mundo possível extremamente paradoxal: em um caderno de imóveis (Guia Qualimóvel), publicado mensalmente, há 120 ofertas de imóveis, muitos no mesmo bairro, mas nenhum deles está próximo de outros nas ilustrações. Os anúncios de imóveis oferecem quase todos, independentemente do projeto e da localização, as mesmas vantagens: boa localização, área verde, lazer total, segurança e bom espaço interno. Não é preciso uma análise aprofundada para perceber as incongruências nas promessas aí estabelecidas. E quando o desejo de exclusividade (outro adjetivo bastante comum em anúncios de imóveis) é comum a uma grande parcela de consumidores? Sempre há um lugar que lhe permitirá ser incluído em um grupo exclusivo. Como pontua Semprini (2003), os mundos possíveis criados pelas marcas permitem a concepção de uma elite simbolicamente aberta, em oposição a uma elite econômica, que é fechada. É evidente que estes empreendimentos imobiliários oferecem produtos distintos com preços que variam bastante. No entanto, a publicidade de imóveis não permite compreender esta segmentação, declarando o sonho possível a todos os que podem pagar, seja de R$ a R$

60 Podemos observar a crescente importância dos nomes dos novos edifícios, contrastando com os nomes de edifícios construídos na década de 70, por exemplo, que em muitos casos possuíam apenas um nome próprio feminino (Diana, Márcia, Stella) ou nomes de ruas. Os nomes dos edifícios atuais possuem logotipo, isto é, são mais do que uma mera identificação, passam a sintetizar os valores em jogo. Assim, o uso de nomes de edifícios em língua estrangeira (estratégia publicitária tradicional para dar mais peso e importância a um estabelecimento comercial) tornou-se quase uma regra nos novos empreendimentos; os edifícios residenciais tradicionais, principalmente os de alto padrão (mais de 100m 2 e de no mínimo 3 dormitórios) fazem uso da língua francesa; os menores, utilizam nomes em língua italiana (exemplo 4, edifício Allegro no bairro da Saúde), que acompanha os projetos em estilo neoclássico muito populares entre os novos prédios. Os flats e studios em sua maioria têm nome em língua inglesa, buscando a referência com os EUA, principalmente a cidade de Nova Iorque, onde os modelos (flat, loft e studio) tornaram-se conhecidos em bairros como o Soho, anteriormente ocupado por artistas que aí tinham a oportunidade de alugarem um amplo espaço a preço baixo e que posteriormente foi renovado e revalorizado. A estética clean (termo por si só revelador), utilizada com freqüência em lojas de luxo e na decoração de ambientes internos de edifícios e casas, serve para dar idéia de status a objetos que fazem parte da produção e consumo de massa, como os próprios imóveis à venda. Cria-se a noção de algo meticulosamente selecionado e exclusivo. A contenção e a higiene são elementos amplamente utilizados na publicidade (incluindo nesse conceito a construção de pontos de venda), principalmente de bens de luxo. Ao padronizar-se o tipo de oferta e valores oferecidos, estes projetos arquitetônicos vão padronizando também a aparência dos bairros. Esta tendência, primeiramente observada nos edifícios comerciais, que tem nos prédios da avenida Luiz Carlos Berrini e Nações Unidas um bom exemplo atual, vem sendo seguida pelos imóveis residenciais. Bairros que vêm passando por um processo de adensamento populacional recente (típicos de espaços que se tornam prioritariamente verticais), como Moema ou Vila Nova Conceição, já apresentam quadras inteiras com prédios de características arquitetônicas bastante similares. 51

61 Fig.5 Fig. 5A O anúncio do empreendimento Hype Jardins, entre a alameda Itú e a Campinas, no Jardim Paulista (imagem número 5), abre na parte superior com a frase Coloque seu estilo no centro das atenções. Ao lado, uma foto que personifica o consumidor, apenas um close dos olhos cobertos com óculos de sol da cor pink, cor que retoma a cor do logo do Hype Jardins. A pessoa passa a ser vista a partir do Hype Jardins, ou como é deixado claro na frase ao lado, por causa do Hype Jardins. A foto esclarece algo a mais: Hype Jardins não evidencia, mas confere estilo a quem o possui. As fotos da região, localizadas imediatamente abaixo, mostram imagens de restaurantes, vitrinas de lojas e fachadas de prédios de luxo encontrados na área dos Jardins. O texto abaixo esclarece: um grande quadrado maravilhoso, ladeado pela Faria Lima, Rebouças, Paulista e Brigadeiro Luís Antonio. É um lugar que agrupa os mais famosos restaurantes, bares e a alta moda, como a loja da Forum, projetada por Isay Weinfeld, e a Diesel. É um pedaço do planeta que sempre foi e será Hype. 52

62 Os bairros-marca concorrem entre si, assim como produtos em uma gôndola. Desta forma, a última frase busca dar destaque à localização, se comparada à de seus concorrentes (principalmente os novos bairros da moda, como Vila Nova Conceição e Moema): Hype está em uma região que sempre foi e sempre será hype, não está sujeito aos ciclos da moda. Em outro panfleto, temos a definição do que é Hype : pode ser da hora ou algo que está no auge (para quem prefere uma explicação menos arriscada, mais hype). Atributos opostos são unidos em uma só opção, em um só produto, assim o consumidor é dispensado de fazer uma escolha entre vantagens que prefere (morar próximo a uma área verde ou próximo de tudo? Fique com os dois!). Desta forma, os imóveis, como produtos, vão traduzindo valores de grupos sociais e de consumidores e construindo seu sistema onde se mesclam a idéia de um empreendedor com os desejos dos consumidores. A partir deste ponto de vista, o ciclo de vida de produto é fator que gera lucro e sua aceleração é o que permite a continuidade de novos lançamentos em quantidade e ritmo intensos. Este processo não se limita a bairros, mas inclui cidades inteiras como marcas a serem vendidas para atrair investimentos. Arantes (2001:201) aponta que no Brasil o discurso entusiasta sobre a globalização faz referência ao limiar de um verdadeiro renascimento urbano, com o surgimento das cidades que dão certo. E dão certo porque estão se transformando em verdadeiros atores políticos, graças sobretudo à generalizada e estimulante concorrência entre tudo e todos (...). Aí o novo milagre brasileiro : reestruturação produtiva com urbanidade. Esse anseio pela modernidade e progresso é um dos meios encontrados pelas ações de especulação imobiliária e projetos de alteração agressiva do espaço pelo poder público para encontrar o apoio da população. A própria competição entre metrópoles que menciona Arantes tem nos megaedifícios um elemento simbólico central; embora essa tendência tenha diminuído após o atentado de 11 de setembro, o movimento já foi retomado com grande força principalmente em Hong Kong, Singapura e algumas cidades da Arábia Saudita, os novos centros do poder econômico atual. A arquitetura de impacto torna-se então a logotipia da cidade-marca. O transporte também é um agente importante na constituição da cidade mercadológica. Cândido Malta Campos Filho menciona que a finalidade do sistema viário não é o transporte, ou seja, a lógica não é o viário mas, acima de tudo, o imobiliário. São construídas avenidas imobiliárias e não eixos viários. (apud Maricato, 2001:160) O processo ao mesmo tempo intenso e artificial de se construir estruturas espaciais de modo alheio às relações sociais que ocorrem neste espaço acaba gerando tanto o entrincheiramento do indivíduo em um ambiente protegido, quanto o isolamento dos grupos economicamente menos favorecidos em guetos ou zonas excluídas da cidade. Borja e Castells (1997:185) analisam que o processo de especulação imobiliária é de constante exclusão, muito diferente da idéia linear de progresso divulgada pelo poder público e privado para justificar suas ações: vende-se uma parte da cidade, enquanto o resto é abandonado e escondido. Uma situação onde por um lado anúncios imobiliários 53

63 comercializam uma cada vez menos possível privacidade e segurança da propriedade privada, que se traduz em isolamento e exclusão. Condomínios fechados e monitorados por sistemas de vigilância vêm tornando o uso do solo e a fragmentação das interações cada vez mais semelhantes ao modelo norte-americano. Não se trata somente de uma preocupação geral da classe dominante que quer se ver livre dos pobres, mas de um formato de urbanização altamente lucrativo, que permite a criação de bairros de luxo em áreas menos valorizadas da cidade (que são recuperadas expulsando-se os mais pobres para zonas cada vez mais distantes), muitas vezes propostos por empreiteiras que atuam em vários países e vendem um mesmo formato em distintos locais. Kwinter e Fabricus (in: KOOLHAAS, 2001:574) mencionam entre suas análises do avanço da iniciativa privada em solo americano, o uso das picapes (ou outros automóveis 4x4) nas ruas da cidade, tendência observada na cidade de São Paulo 56. Para os autores, este tipo de automóvel, adaptado dos veículos de infantaria da Segunda Guerra, e que nos EUA constituem mais de 60% das vendas de automóveis, é a extensão dos condomínios fechados, o veículo que por um lado promete segurança e por outro transforma seus motoristas em patrulheiros de uma cidade hostil, o que na opinião dos autores é um sinal de desdém e hostilidade por parte dos motoristas em relação à cidade. Johnsons (2003:27-30) cita a descrição de Manchester feita por Engels onde os bairros populares estariam separados da parte da cidade reservada à classe média. Nas grandes metrópoles atuais o que ocorre não é necessariamente que as zonas mais pobres estejam fisicamente distantes das partes mais nobres da cidade, mas sim que são criadas estratégias de visibilidade tanto coletivas (vias expressas, comunicação publicitária) quanto individuais (estar fechado no ambiente do automóvel, estar acostumado a não ver os moradores de rua, as favelas nos interstícios) que as tornam invisíveis. Mas a Engels não passava desapercebido que a cidade funciona como uma máquina de ampliar padrões. Para ele não há a necessidade de um barão Haussmann nesse mundo, apenas alguns poucos padrões repetitivos de movimentos, ampliados em formas maiores que duram por vidas inteiras: aglomerações, favelas, bairros. Em Houston, onde segundo o estudo publicado no livro Mutaciones 57 o livre comércio exerceu ações das mais agressivas, é mais fácil construir um novo edifício que recuperar um antigo, e isso já acaba sendo assimilado pela população, que na festa de Halloween queima, juntamente com os tradicionais bonecos de pano, casas desocupadas. O que se analisa sobre cidades nos EUA e Inglaterra pode ser observado cada vez mais em outros países, sejam economicamente de Primeiro ou de Terceiro Mundo: um crescimento descontrolado da ocupação do solo criando uma ocupação extensiva, condomínios de luxo com preços que sobem a cada dia; construção de condomínios de segunda morada por multinacionais como Polaris, de forte atuação nos países europeus - que não respeitam regulamentações de uso de solo e água ou se aproveitam 56 Vendas de 4x4 crescem 21% em relação a 2005; dez trilheiros dão dicas de como cair na lama. 57 KOOLHAAS, Rem; BOERI, Stefano; KWINTER, Sanford; FABRICIUS, Daniela; OBRIST, Hans Ulrich; TAZI, Nadia. Mutaciones. Tradução de Victor Tenéz, Lluís Rey, Ivan Alcázar, Alex Martínez, Anna Campeny, Glória Bohigas, Isabel Nuñez e Jordi Palou. Barcelona: Actar,

64 de lugares onde as leis sobre o uso sustentável do espaço sejam mais brandas ou quase inexistentes. As regras de comercialização das habitações construídas seguem as leis do mercado livre, e são inflacionadas artificialmente a partir da manipulação das regras de oferta e demanda. Segundo Delgado (2007:19), se planifica o urbano mas não a cidade, que é vendida ao comércio espacial, que estimula a propriedade (e a necessidade de se possuir uma moradia) mas restringe a sua apropriação. Segundo o autor, a renúncia da administração pública em planejar a cidade, deixando praticamente livre a apropriação pela especulação imobiliária para sua posterior transformação em produto, só pode ser realizada ao se desenvolverem modos de vigilância dos espaços para evitar problemas no desenvolvimento dos mecanismos de marketing urbano. Como exemplo podemos citar um estudo realizado para um concurso de intervenção em um bairro degradado de Murcia (La Paz), na região do Levante 58, onde foi detectado que a proposta inicial apoiada pela prefeitura visava o aumento em 300% da ocupação do solo, com a construção de edifícios de luxo. Isto obrigatoriamente expulsaria a praticamente todos os atuais habitantes do bairro que seriam incapazes de pagar o aluguel ou preço dos apartamentos no novo bairro supervalorizado. Essa proposta tinha apoio de grande parte da população da cidade que associava a zona a um foco de criminalidade por ser uma área ocupada por muitos ciganos e imigrantes (que foram alocados aí na década de 70 em uma outra ação de expulsar do centro os grupos menos favorecidos). Este dado, no entanto, não tinha respaldo nos dados oficiais sobre criminalidade na cidade. Essas propostas de renovação de bairros desfavorecidos estão presentes em quase todos os países (há inclusive o termo que vem do inglês, gentrification, que significa a substituição de moradores de baixa renda em uma região para dar lugar a outros de nível socioeconômico mais alto, com a conseqüente valorização do solo). Maricato diferencia renovação, a ação de arrasar para construir novos edifícios e equipamentos comerciais e de ócio, da reabilitação, que preserva ao máximo e tenta recuperar as estruturas existentes. Essa preocupação não tem a ver com idéias preservacionistas que enrijecem as estruturas urbanas, criando maquetes em escala real próprias ao consumo turístico. Na verdade, como já mencionava Scott-Brown, mesmo nos lugares mais degradados, há um sistema de relações que deve ser compreendido e em grande parte mantido. São as relações de vizinhança, o pequeno comércio, a dinâmica das ruas, que muitas vezes desaparecem do discurso padrão do poder privado e da mídia que identifica os bairros mais pobres à decadência, à ilegalidade, violência e tráfico de drogas. Na Espanha o processo de especulação imobiliária afeta diretamente as classes economicamente desfavorecidas, os imigrantes, ciganos e cada vez mais os jovens espanhóis. Há a presença de muitas casas vazias (12% em Madri segundo a estimativa do grupo Vivienda Digna), fenômeno que também é similar ao que observa Kwinter e Fabricus em cidades norte-americanas. As hipotecas de 30 a 50 anos tomam atualmente em torno de 42,5% do salário de uma família, segundo dados da Asociación de Usuarios de Bancos, Cajas de Ahorros y Seguros (ADICAE) e 60,8% entre pessoas com menos de 58 Ver anexo o projeto completo realizado pelo Estudio de arquitetos FAM e Raquel Rennó, ganhador de uma menção honrosa no concurso proposto pelo Colégio de Arquitetos de Murcia como alternativa à proposta de renovação apresentada pela empreiteira Lopez Rejas. 55

65 35 anos, segundo o Consejo de la Juventud. 59. Entre propostas como Barcelona 92, a reconstrução de Madri pela atual prefeitura e as constantes acusações de corrupção e abuso de poder público na área imobiliária, o que já levou um prefeito à prisão 60, há a proposta do atual governo federal de propor a habitação de 35m 2 para jovens com financiamento custeado pelo estado, o que é rejeitado pelo grupo que luta pela Vivienda Digna por considerar que investirão anos de trabalho em um apartamento que não servirá para uma futura família. Ao mesmo tempo se soma a isso a presença cada vez maior de imigrantes latino-americanos, que vão alterando a paisagem e a economia da cidade 61. Após décadas de deficit na contribuição ao serviço social, há pela primeira vez um aumento na contribuição devido aos imigrantes, principalmente os equatorianos, que foram responsáveis por 15% dos nascimentos na Espanha em 2006, gerando o maior nível na taxa geral de natalidade desde Esse grupo, a despeito das discussões sobre leis de imigração, torna-se um público-alvo para imobiliárias, que se especializam em vender propriedades para a cada vez maior comunidade latino-americana na Espanha 63. Do mesmo modo é possível realizar uma hipoteca para comprar propriedades no Equador e Colômbia, em uma rede de comércio global que atende a um grupo local. O exemplo de Madri é ilustrativo de um cenário que ocorre nas grandes cidades atuais. Como analisa Castells (1980:23), a contradição presente na crise urbana reside em que os serviços coletivos requeridos pelo modo de vida do desenvolvimento capitalista da cidade não são suficientemente rentáveis para serem produzidos pelo capital. Desta forma, os equipamentos coletivos e o sistema de urbanização são determinados pelo Estado, que ao invés de regular ou equilibrar as contradições geradas politiza e globaliza os materiais de organização da vida urbana. Neste sentido as mobilizações de vizinhos ou de outros grupos com interesses comuns como ocorreu nos anos 70 e 80 em Madri e Barcelona são fundamentais para buscar alterações e compensações na máquina de mercado que estrutura a cidade. 59 A corrida pela hipoteca já é algo que faz parte do dia-a-dia; como exemplo podemos citar que nos meses de agosto e setembro os cereais Kellog s na Espanha ofereceram o sorteio de hipoteca grátis na compra de cereais Corn Flakes. 60 O prefeito de Marbella foi o primeiro na Espanha a ser preso por diversos crimes relacionados à utilização de solo público e todos seus secretários puseram seus cargos à disposição em A principal acusação foi de ceder zonas públicas a empreiteiras, o que deixou a cidade com megahotéis e lojas de luxo, mas sem espaço suficiente em solo urbano para hospitais e escolas públicas. 61 Aumento da arrecadação de impostos e aumento da população em povoados muito pequenos. No momento a Espanha discute uma lei que possibilitaria ao estrangeiro de fora da UE votar. 62 El Universo, 16/07/2006. Natalidad sube em España por Ecuatorianos. La Vanguardia Digital, 25/07/2007. El boom demográfico supera todos los índices em Catalunya. 63 De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (censo de 2001), Madri possui quase 6 milhões de habitantes em sua área metropolitana, ainda não tem a presença massiva de imigrantes como Londres (40%) ou Paris (36%), contando com 11% de imigrantes não europeus entre seus cidadãos, mas possui 22,5% dos latino-americanos presentes na Espanha e um contínuo aumento de imigrantes de dentro e fora da UE a cada ano. Esta cifra só é equiparável a todo o território da Catalunha, com mais 22,4% dos imigrantes legais. De todos os imigrantes presentes na cidade, 75,6% provêm de países americanos, sendo que deste total 34,14% são equatorianos ( ). O segundo grupo latino-americano mais presente é o de colombianos, que sozinhos (77.071) superam o total de marroquinos na cidade (76.474). 56

66 Uma das organizações coletivas mais recentes geradas de modo espontâneo a partir da crise da habitação na Espanha e que foi organizada por meio de blogues e SMS (mensagens enviadas a celulares) foi pela Vivienda Digna, que se constitui em sua maioria de jovens de até 35 anos que, pelo aumento da especulação imobiliária na Espanha, são incapazes de pagar aluguel, de morar sozinhos ou de viver sem comprometer ao menos 60% de seu salário no pagamento do aluguel. A primeira manifestação que se viu pela cidade ocorreu a partir da subversão da campanha de lançamento do filme V de Vendetta, que tinha como logotipo a letra V, ao utilizar esse logo para o movimento, espalhando a letra por toda a cidade (como ocorreu no filme e em sua divulgação publicitária), mas com usos específicos às preocupações locais de Madri e Barcelona. Imagens de

67 Castro e Barreto da Silva (2001:156) mostram como se deu a passagem de um estado protetor, que proporcionava a possibilidade do acesso à moradia ao momento atual, do avanço do mercado na área imobiliária, explicando que nos países centrais, especialmente nas primeiras décadas do século XX, uma forte relação regulou salário e preço da moradia. A reforma urbana submeteu a terra à sua função social e articulou-a ao sistema financeiro. Investimentos significativos foram feitos na expansão da infraestrutura urbana criando uma situação de equalização de oportunidades frente a alguns indicadores de qualidade de vida urbana (transporte, saneamento, equipamentos sociais de saúde e educação, etc.). Mais recentemente, a reestruturação produtiva acarretou a diminuição dos subsídios fortalecendo o papel do mercado. Estas ações têm impacto direto na organização das cidades. Sze Tsung Leong (2001:195) menciona que: exacerbando as instabilidades para seu benefício próprio, em ciclos de declive e obsolescência acelerados artificialmente e alterando constantemente seus focos de um lugar a outro, o espaço de controle inevitavelmente produz interstícios, contradições, quiçá inclusos momentos de liberdade que se situam não tanto fora mas ao largo e no interior do espaço de controle. 64 A chamada bolha imobiliária vai aumentando o número de cidadãos pobres demais para possuírem dívidas de hipoteca, criando um grupo de excluídos do sistema mercantil que não se limita aos chamados países de Economia de Terceiro Mundo, e que se espalha e desenvolve em habitações irregulares ou em grandes favelas com um número de habitantes maior que muitas cidades, ainda que alguns critérios quantitativos sirvam mais para mascarar do que para evidenciar a questão. O que menciona um estudo da Harvard Project on the City (KOOLHAAS, 2001: 718) é que, a despeito da noção mais corriqueira de que as cidades de países em desenvolvimento com suas disparidades econômicas, presença massiva do comércio informal, tráfico intenso e aparente falta de planejamento urbano estariam em uma fase de evolução anterior às metrópoles do chamado Primeiro Mundo, na verdade poderiam oferecer uma visão do futuro de algumas cidades na Europa e nos EUA. Bairros como Villaverde, no norte de Madri, foram alvo de um movimento de construção de moradias populares de baixa qualidade no início da década de 50. Outras construções de uso temporário, que tinham como objetivo irem substituindo as favelas, foram se tornando definitivas. Atualmente o bairro segue o ritmo de aumento das construções privadas vendidas a um alto preço e que se encontram por praticamente toda a cidade, fazendo uso de uma arquitetura reiterativa que confere um aspecto homogêneo a toda região (e outros bairros). Estas construções são vendidas aos imigrantes e estratos da sociedade economicamente menos favorecidos, ao custo de um endividamento para toda vida. 64 Exacerbando las inestabilidades para su propio beneficio, en ciclos de declive y obsolescencia acelerados artificialmente y cambiando constantemente sus focos de un lugar al otro, el espacio del control inevitablemente produce intersticios, contradicciones, quizá incluso momentos de libertad que se sitúan no tanto fuera sino a lo largo y en el interior del espacio del control. 58

68 A paisagem que se vê em Villaverde exemplifica o que Castells (1980:55) descreve sobre a região periférica de Madri: uma ocupação extensiva em áreas virgens visando sua valorização e maior lucro possível, a construção de blocos densos sem espaço entre eles, com o mínimo de serviços disponível, que terminam em um meio de um campo devastado, como se tivessem sobrevivido a uma guerra. Se a partir da pressão popular se começa a melhorar a infra-estrutura destes bairros, sua conseqüente valorização faz com que camadas de moradores de maior nível socioeconômico comecem a ser atraídas ao local, gerando um aumento na densidade e criando as tensões que já se podem observar em bairros cêntricos como Lavapiés. Foto - Visão do bairro de Villaverde com várias gruas em áreas de construção Foto - Edifício na região

69 Foto - Vista geral do bairro a partir de sua entrada com edifícios recémconstruídos 2006 Se por um lado os bairros periféricos sofrem com a falta de serviços que está concentrada no centro da cidade, a infra-estrutura dos bairros cêntricos se torna moeda de troca. Seus moradores sofrem com a densificação populacional, o aumento desenfreado dos preços dos imóveis e as propostas de gentrificação que vão sendo colocadas em prática com o apoio de parte dos proprietários dos imóveis (individuais ou grandes companhias imobiliárias) que deixam seus edifícios degradados para que posteriormente possam ser renovados, com a ajuda do poder público, para obterem um maior lucro 65. Uma pesquisa realizada por Philip Zimbardo mostra que quanto mais nítidos os sinais de degradação, com maior velocidade ela se dá. Esse dado também foi confirmado pela rede de trens paulista, que percebeu que o descaso por parte dos usuários com o cuidado com trens e estações era devido ao fato de o espaço sugerir decadência pela falta de manutenção e limpeza em muitos pontos. Essa tendência foi percebida de modo inverso em pesquisas realizadas pela Cia. de metrô de São Paulo, nas quais se constatou que a limpeza do local era mantida pelos usuários que em muitos casos eram também usuários de trem. Scott-Brown denunciava as estratégias como a do município de Nova Iorque que deixava zonas como a do sul do Bronx se degradarem a um nível tal que pudesse intervir de modo agressivo implantando projetos que dessem lucro. A mesma estratégia é denunciada por associações de vizinhos em muitas partes da Espanha, onde a especulação imobiliária está entrando de modo cada vez mais ativo em projetos de construção de condomínios ou instalação de habitações para turismo. 65 Muitos dos inquilinos estão protegidos pela Lei de Arrendamentos urbanos, que impede seu despejo e congela os aluguéis. Demolir um edifício degradado devido ao iminente risco de desabamento é uma estratégia para driblar estas restrições e poder usufruir de um grande aumento de lucro com a especulação imobiliária. Somente em 2007, 26 edifícios no bairro de Lavapiés já tinham sua demolição declarada. 60

70 O bairro de Lavapiés está localizado no centro da cidade de Madri, próximo às principais estações de trem e metrô do país e tem acesso direto à maior parte das zonas turísticas da cidade; por estas razões é alvo de planos de intervenção e especulação imobiliária. O último deles transformará quase todo o bairro em zona de uso exclusivo para pedestres, o que, segundo comenta a associação de vizinhos local, é o primeiro passo para trazer o comércio de luxo ou de grandes redes que pouco a pouco expulsarão o pequeno comércio local como modo de ir alterando o perfil dos moradores do bairro. O aumento no preço do aluguel já é sentido há aproximadamente 5 anos; a zona vinha recebendo anteriormente artistas e moradores de casas okupas, o que gerou muitas atividades culturais na região e foi tornando a área (embora muitos a considerem perigosa) ponto de arte alternativa e centro boêmio da cidade. O comércio de produtos africanos, árabes, chineses e indianos se alterna com bares e restaurantes (nesse caso indianos e árabes principalmente) e transforma a zona em um ponto de encontro para jovens. No entanto, enquanto se recebe bem a presença de restaurantes e mercados exóticos, o imigrante em si, principalmente os de origem africana, sofre com o preconceito e a pressão policial diária. O centro da cidade de Madri, mesmo com o aumento constante de preços dos imóveis, ainda é a região que concentra imigrantes de vários países, enquanto os latino-americanos, por sua predominância em termos quantitativos, ocupam também de modo intenso outros bairros mais periféricos da cidade. 66 Imigrantes no bairro de Lavapiés, A Praça de Lavapiés é o ponto central do bairro, um ponto de encontro dos moradores e um local onde ocorrem diariamente blitz policiais que buscam imigrantes ilegais e possíveis traficantes de drogas, segundo declaração de policiais. A interferência policial na zona não foi possível de ser registrada pois não foi permitido tirar fotos das blitz (em um caso as fotos tiradas foram apagadas da câmera por um policial que dizia ser proibido por causa das ações de terroristas em Madri ). - Blog Malasaña, 6/6/ F. JAVIER BARROSO. Policía al asalto en Lavapiés - Agentes municipales desnudan en la calle a un presunto camello e irrumpen con gritos xenófobos en un bar de Centro. 61

71 A destruição de bulevares, a construção de vias expressas cortando a cidade (o modelo da cidade para os automóveis) e a falta de serviços nos bairros mais afastados são cada vez mais comuns às grandes cidades atuais, diminuindo festas e encontros populares, e as relações de vizinhança de modo geral. Como menciona Castells (1980:137), as festas, as conversas em praças e cafés são muito mais do que um elemento de animação urbana: constituem a defesa de um modo de vida mas também um meio de organização e mobilização, que além de ser pouco lucrativo, ainda pode representar uma ameaça aos projetos de especulação urbana. Tanto a praça de Lavapiés quanto a de Tirso de Molina, próxima a ela, foram alvo de uma reforma que as deixou limpas, vazias, abertas ao controle e hostis ao encontro casual, seguindo as estratégias encontradas na cidade para evitar que pessoas dormissem nos bancos de metrô e de parques (os bancos anti-mendigo, também presentes em São Paulo), bancos totalmente distantes uns dos outros ou que obrigavam as pessoas a estarem de costas a outras, deixando claro que aquele era um objeto para um eventual descanso, jamais para ser usado para passar tempo ou para encontros fortuitos.. Foto de edifício de imigrantes em Lavapiés

72 Foto reformas no bairro de Lavapiés Foto - Praça de Lavapiés, recém-reformada

73 III. Espaço e resíduo Agrupamento próximo à marginal Tietê. Foto de

74 3.1 Espaços residuais, espaços intersticiais, terrain vague O espaço urbano encerra espaços vazios, mas não existem espaços neutros. O conceito de espaço residual está presente tanto na arquitetura quanto nos estudos sobre urbanismo. Robert Venturi opõe espaço residual a espaço dominante em suas análises sobre construções arquitetônicas. Nos casos analisados pelo autor o desenho arquitetônico prevê um programa que inclui estes dois espaços em tensão na criação de um todo complexo. Dentro desta perspectiva claramente hierarquizada, os espaços residuais são controlados e seu uso previsto (embora passível de ser alterado). Já nas cidades a própria noção de todo é subjetiva. Os tempos distintos que operam concomitantemente no espaço urbano, os diferentes tipos de planejamento e usos que são justapostos ou mesmo sobrepostos criam espaços residuais não previstos. No entanto, por sua característica de espaço que sobra, tornam-se incômodos espaços vazios, desvios da norma. Venturi aponta para um problema da visão dos arquitetos: em vez de procedermos ao reconhecimento e à exploração dessas espécies características de espaços, convertemo-los em estacionamentos ou gramados raquíticos - uma terra de ninguém entre a escala regional e a local. (2004:111) Ferrara (2000:179) descreve os espaços residuais relacionando-os em uma perspectiva entrópica e informacional em que o espaço residual é uma sobra física e ao mesmo tempo corresponde a um pedaço desnecessário à cidade oficial. Segundo a autora o paradoxo está em ser uma conseqüência incontornável; quanto mais falta espaço, maior é a quantidade de pedaços residuais, ou seja, corresponde a um impasse entre funcionalidade e visibilidade urbana. São espaços que não se adaptam a usos funcionais ao mesmo tempo em que não são adequados à concentração comercial ou de serviços ou outras formas de consumo espacial. Ezra Park (in: Grafmeyer e Joseph, 1979:200), analisando a cidade de Chicago, menciona que as partes abandonadas da cidade tendem a se transformar em zonas de ocupação ocasionais e transitórias, atraindo imigrantes recém-chegados e artistas que buscam refúgio contra os fundamentalismos e o espírito rotariano 67 da cidade dita oficial. O autor utiliza o termo terrain vague para descrever os acampamentos temporários ao longo da via férrea de trabalhadores ou desempregados à espera de uma oportunidade, uma sociedade efêmera e com leis estritas que se assemelhariam aos agrupamentos dos pioneiros desbravadores dos Estados Unidos. De modo distinto mas de certo modo complementar, Halbwachs (in: Grafmeyer e Joseph, 1979:297) analisa a ocupação do espaço pelas gangues juvenis de Chicago que se reuniam para jogar, brincar, realizar pequenas depredações e delitos. Ruas de comércio, parques, mas também zonas abandonadas, docas, bordas de canais e de vias férreas, além de bairros mal freqüentados em geral, eram escolhidos pelas gangues pelo seu caráter pitoresco ou oportuno. Estes espaços considerados desorganizados, onde era possível a existência 67 O Rotary Club é uma instituição presente atualmente em todo o mundo. Nasceu em Chicago em 1905 e buscava reunir profissionais liberais e executivos para possibilitar intercâmbios profissionais em torno de projetos de ajuda social. O caráter predominantemente elitista e pró-capitalista do clube e o perfil WASP (sigla que designa a elite americana formada pelo branco, anglo-saxão e protestante) de seus membros fizeram com que fosse alvo de duras críticas por parte dos pesquisadores que formavam a Escola de Chicago, como Ezra Park. 65

75 de um modo de vida efêmero e pouco regulado, se localizava em interstícios da cidade mais rigidamente estruturada, eram fissuras, lacunas do organismo social oficializado. Não estavam, portanto, em uma relação de oposição entre centro e periferia, estavam entre, eram veios que percorriam a cidade, assim como os percursos dos trens na cidade. As vias férreas, consideradas pelos autores de grande importância nas estruturas sociais que se desenvolviam em Chicago, cortavam bairros, ruas, não respeitavam os limites e o percurso dos pedestres. Eram, como ilustra Halbwachs, um mapa industrial que se sobrepôs ao mapa urbano. Este desenho se combinava com os vastos muros que limitavam fábricas, as novas fortalezas da cidade, cuja proximidade era evitada pelos grupos mais abastados e conseqüentemente apropriadas por grupos excluídos da cidade por seu caráter intersticial, gerando novos modos de vida. O conceito de terrain vague oferece várias leituras: espaço vazio, obsoleto, abandonado, deteriorado, mas também indefinido, impreciso. Alguns autores o traduzem para terreno vago, terreno baldío (castelhano), wasteland (inglês), enquanto outros como Solà-Morales preferem o termo francês por sua amplitude de significados que permite reunir territórios e edifícios. Ele chama a atenção para o significado de terrain, que se refere a um território urbano ou de limites definidos, uma proporção de terra aproveitável. Vague por sua vez, além da relação com vanus do latim (ocioso, vazio), tem também relação com o termo germânico vagr-wogue, que se refere à onda das águas, movimento, instabilidade (de onde vem o termo wave em inglês). Também se refere ao termo vagus do latim, que significa indeterminado, incerto, fazendo de terrain vague um termo quase paradoxal. Quase porque sabemos que a cidade é o espaço onde o definido e o indefinido coexistem, e não são poucos os exemplos que ilustram esta relação. Em resumo, o termo vague traz a idéia de potencialidade e movimento, expectativa. São em si mesmos lugares da contra-racionalidade, fora das estruturas produtivas, como define Brissac ( Terreno Vago, 2002: sem numeração de página), remanescentes das diversas operações de reconfiguração de suas regiões em escalas mais amplas e complexas. Lugares de forças mais do que formas, onde a estruturação urbanística não consegue organizar, mesmo porque estes espaços são os resíduos criados direta ou indiretamente por esta mesma urbanização. Solà-Morales detalha a potencialidade inerente destes sítios: Aparecem como contra-imagem da cidade, tanto no sentido de sua crítica como no de um início de sua possível alternativa. (...) Esta ausência de limite, este sentimento quase oceânico, para dizê-lo com a expressão de Freud, contém expectativas de mobilidade, vagabundeio. (...) A presença do poder convida a escapar de sua presença totalizadora, o conforto sedentário chama ao nomadismo desprotegido; a ordem do urbano chama a indefinição do terrain vague. Se convertem deste modo em indícios territoriais dos problemas estéticos e éticos que propõem, envolvem a problemática da vida social contemporânea. 68 (1995:61) 68 Aparecen como contraimagen de la ciudad, tanto en el sentido de su crítica como en el de un inicio de su posible alternativa. (...) Esta ausencia de límite, este sentimiento casi oceánico, para decirlo con la expresión de Freud contiene expectativas de movilidad, vagabundeo. (...) La presencia del poder invita a escapar de su presencia totalizadora, el confort sedentario llama al nomadismo desprotegido; el orden 66

76 Dentro da definição do autor, terrain vague pode ser o espaço que sobra nas margens dos rios, canteiros, áreas mais inacessíveis ou de acesso restringido, áreas que ladeiam avenidas, espaços sob pontes. Lugares que também não respeitam a ordenação centro-periferia, que estão nos interstícios da cidade. Segundo Ferrara (2000:178), a degradação urbana é estrutural, faz parte do processo de metropolização. Segundo a autora, é preciso entendê-lo de modo a que a riqueza desta informação não se perca no caos e seja traduzida como crise. A idéia de caos ou crise, que no senso comum expressa insegurança, é, em termos informacionais, índice de grande abertura e riqueza do pensamento e da ação. Caos ou crise podem ser considerados equivalentes às transformações radicais, contínuas e imprevisíveis que atingem o cotidiano, aí incluídos os fenômenos urbanos. Lynch analisa o processo atual de abandono das cidades norte-americanas por razões principalmente econômicas, mas também climáticas, processo que ocorre desde Para o autor, esse fenômeno não deveria ser visto de modo negativo, porque ao contrário da idéia de fracasso, há a geração de um outro espaço, que pode ser vivenciado e aproveitado de modos distintos. Os espaços abandonados concentram modos de vida descartados e possibilidades de se recuperar e começar coisas novas. Para o autor, a obsessão com a pureza e permanência nos obriga a eliminar os resíduos. Admirar os dejetos, os espaços abandonados, no entanto, permite ver as continuidades em fluxo, as trajetórias e o desenvolvimento, um ponto de apoio entre passado e futuro. Zardini fala das possibilidades que encerram os espaços decadentes ou desordenados da cidade: O que até agora se considerou como elementos negativos na cidade contemporânea heterogeneidade, variedade excessiva, desordem, desarmonia, a coexistência incongruente de diferentes elementos agora constituem um recurso, uma qualidade com a qual se define uma nova paisagem. Mas aceitar a heterogeneidade da cidade contemporânea não é um feito simplesmente estético, mas também político, social, étnico. Não se trata de mascarar ou de exorcisar, mediante uma variedade fictícia, uma realidade concebida como cada vez mais uniforme, homogênea e controlada, ou de ocultar sob uma desordem aparente e uma anarquia visual uma ordem escondida sempre mais forte e persuasiva. Trata-se, pelo contrário, de reconhecer, aceitar e dar voz às distintas individualidades presentes na sociedade e na cidade contemporânea, fazendo que sua compreensão constitua uma paisagem política, social, física, mais rica e articulada, baseada no contraste e não na exclusão recíproca, reconferindo assim uma nova consistência à cidade do princípio do milênio. (in: KOOLHAAS, 2001: ) 69 urbano llama a la indefinición del terrain vague. Se convierten de este modo en indicios territoriales de los problemas estéticos y éticos que plantean, envuelven, la problemática de la vida social contemporánea. 69 Lo que hasta ahora se han considerado elementos negativos en la ciudad contemporánea heterogeneidad, excesiva variedad, desorden, desarmonía, la coexistencia incongruente de diferentes elementos ahora constituyen un recurso, una calidad con la que definir un nuevo paisaje. Pero aceptar la heterogeneidad de la ciudad contemporánea no es un hecho simplemente estético, sino político, social, étnico. No se trata de enmascarar o de exorcizar, mediante una variedad ficticia, una realidad concebida como cada vez más uniforme, homogénea y controlada, o de ocultar bajo un desorden aparente y una anarquía visual, un orden escondido siempre más fuerte y persuasivo. Se trata en cambio de reconocer, aceptar y dar voz a las distintas individualidades presentes en la sociedad y en la ciudad contemporánea, 67

77 Há numerosos casos de grupos que questionam a estruturação em grande parte autoritária das cidades. É sabido, por exemplo, que os situacionistas eram amantes do Mercado de Les Halles, em Paris, e organizaram muitas manifestações contra a sua demolição que deu lugar à atual estação de transportes Les Halles. Eles claramente apoiavam na cidade os mercados públicos, as ruas tortuosas, as pequenas lojas de bairro, as ruínas de construção, as fissuras da cidade, elementos que para eles eram alternativas ao espetáculo criado prioritariamente pelas forças do capital. Segundo Schoonbrodt, os mercados públicos, os pequenos comércios são adaptáveis, nos dando mostra de uma arquitetura de grande qualidade, mas que não vemos nunca nas revistas de arquitetura. É um tipo de construção que é chamada de banal, mas que torna a cidade habitável. (revista Poïesis, 2003: 235) Bakhtin (1997:396) afirma que O cotidiano do homem possui uma forma, e esta forma é sempre ritualizada (pelo menos esteticamente ). É justamente nessa ritualização que a imagem artística pode apoiar-se. A memória e o consciente no ritual do cotidiano e na imagem. Assim como muitos autores vêem nos terrain vague grandes possibilidades criativas, grupos artísticos como os dadaístas e situacionistas encontram nestes lugares fora da lógica oficial da cidade uma possibilidade de experimentá-la de outra forma (Sadler,1998:15). Os situacionistas perceberam que se pode tomar ação sobre a cidade depois que se retire o véu de refinamento que cai sobre ela por meio do planejamento e do capital. Se se desvela esta representação oficial da modernidade e do urbanismo o espetáculo pode-se descobrir a vida autêntica que aí fervilha. Matta-Clark, por outro lado, via nos edifícios abandonados, nos bairros decadentes e nos marginalizados, partes de resíduos da entropia física e social, os non-u-ments, como chamava, a alternativa aos monumentos que só criavam muros e exclusão: o anti-monumento, como uma descrição de tudo o que saiu mal desde Eiffel (uma torre que se eleva a qualquer altura leva o visitante a apartar-se). (in: MOURRE, 2006:377). Os situacionistas adaptaram o conceito de heteroglossia e carnavalização de Bakhtin (2005, 1997, 1987) para as cidades. Acreditavam no poder transformador da cultura cotidiana e viam beleza no que geralmente se considera feio. Debord afirmava: beleza aqui não tem o sentido de beleza plástica, mas de apresentação móvel, de soma de possibilidades simultâneas (apud Sadler, 1998:103). A cidade situacionista era da ordem do movimento e da ação. Antes mesmo das apropriações das novas tecnologias, já se podia notar a relação entre os estudos de mapas de Debord (mapas de cidades e redes de metrô), seus trabalhos com sons eletrônicos e néons e o trabalho de artistas como Smithson e Pollock. E Debord complementa: O graffiti é um sinal da energia primitiva do cotidiano, mostra que o indivíduo nasceu para se comunicar e é importante lutar contra as forças que tentam ordenar e calar essas vozes díspares da cidade (apud Sadler, 1998:97). haciendo que su comprensión constituya un paisaje político, social, físico, más rico y articulado, basado en el contraste y no en la exclusión recíproca, reconfiriendo así una nueva consistencia a la ciudad de principios de milenio. 68

78 Para Smithson, por sua vez, os espaços industriais abandonados e o lixo constituem uma paisagem entrópica, que resta do excesso de consumo e por isso mesmo são possuidores de grande valor estético. Para ele o artista tem de fazer uso deste material não para torná-los irreconhecíveis, mas para tornar visível sua beleza. A entropia intelectual, como ele denominava, fragmentava o pensamento e rompia com qualquer idéia unitária de visão de mundo e conseqüentemente, de objeto. Nesse aspecto estava interessado pela idéia da Biblioteca de Babel de Borges, que continha tudo o que já havia sido escrito e que na verdade (como apresenta Borges em seu conto) é o próprio universo. E complementa que a linguagem torna-se um museu infinito cujo centro está em qualquer lugar e cujos limites estão em lugar nenhum (apud FLAM, 1996:XV) 70. Em resumo, para estes artistas, os terrain vague e edifícios abandonados eram um micro-universo onde era possível perceber de modo concreto a totalidade e ao mesmo tempo, a impossibilidade de uma unidade sistêmica. Lynch aborda especificamente os terrain vague e os depósitos de lixo como lugares potenciais de ausência de controle, de estímulo da criatividade, não por coincidência preferido por jovens e crianças que descobrem elementos perdidos e geram novos usos para eles. Tanto o espaço quanto os objetos ali presentes não têm mais um papel predefinido, e por isso mesmo podem ser ressemantizados. Canclini (2003:188) analisa que as criações artísticas, lentas e divergentes, às vezes representam em seus procedimentos as contradições não-resolvidas das políticas globais, as peripécias da desigualdade e a necessidade dos marginalizados de interromper os fluxos totalizadores com afirmações do próprio, com invenções desglobalizantes. Estou insinuando em que sentido a interrupção artística se correlaciona com movimentos culturais e sociais mais amplos. Com movimentos indígenas e ecológicos que reafirmam a territorialidade e os usos locais de bens naturais e sociais irredutíveis à lógica global, com setores de desempregados ou excluídos da produtividade e do consumo mundializados que (...) organizam manifestações e movimentos. Lynch menciona que os lugares deteriorados são lugares sem tempo, não porque sejam eternos, mas porque aí não existe uma organização do tempo. Por isso, o que está deteriorado ou vazio pode ser uma forma de se escapar do tempo organizado. Coloca-se assim um problema de temporalidade, como explicitado por Santos: Temos, sem dúvida, um tempo universal, tempo despótico, instrumento de medida hegemônico que comanda o tempo dos outros. Esse tempo despótico é responsável por temporalidades hierárquicas, conflitantes, mas convergentes. Nesse sentido todos os tempos são globais, mas não há um tempo mundial. O espaço se globaliza, mas não é mundial como todo senão como metáfora. Todos os lugares são mundiais mas não há um espaço mundial. Quem se globaliza, mesmo, são as pessoas e os lugares. O que existe mesmo são temporalidades hegemônicas e temporalidades nãohegemônicas ou hegemonizadas. As primeiras são o vetor da ação dos 70 language becomes an infinite museum whose center is everywhere and whose limits are nowhere. 69

79 agentes hegemônicos da economia, da política e da cultura, da sociedade enfim. Os outros agentes sociais, hegemonizados pelos primeiros, devem se contentar de tempos mais lentos. (2002a:16) Após a criação da UE, que prevê planos macro de alteração da cidade mesclados com a manutenção de certas áreas com vistas à preservação de monumentos e bairros tradicionalmente importantes para o turismo, o que existe são construções em situação precária, muitas vezes desocupadas por dívidas de impostos com o governo e que são ocupadas por grupos de jovens e/ou imigrantes (os squats, em inglês, bezetze häuser em alemão ou casas okupa em castelhano). Não raro é nesses edifícios ocupados que trabalhos de encontro para mobilização das causas pró-moradia e contra a violência contra os imigrantes ocorrem e por isso mesmo são alvo constante de confrontos com a polícia. Ainda que seja possível encontrar no território mediterrâneo algumas habitações auto-construídas, elas aparecem de forma rara e em áreas rurais ou fora do conjunto urbano, dado o controle da ocupação do solo e a situação de modernização pela qual vêm passando todas as grandes cidades européias. Há atualmente a reorganização de apartamentos e casas para acomodar várias famílias de imigrantes, como um cortiço, mas que nem sempre envolve construções antigas. Muitos apartamentos (ou pisos patera em castelhano, uma referência ao tipo de embarcação ilegal em que chegam muitos dos imigrantes ilegais da África) são subdivididos e a sala se transforma em cozinha, não há janela nos quartos ou o corredor é adaptado para virar um quarto. Casa Okupa La Escalera Caracola, Lavapiés (2006). 70

80 Fotos de reportagem sobre pisos patera em Barcelona. ABC XL Semanal, n. 1008, de fevereiro de Espaços residuais como possibilidade de uma outra cidade Os espaços residuais aparecem e são ocupados também nas metrópoles brasileiras. A grande diferença em relação aos espaços que analisavam os autores e artistas nos Estados Unidos e na Europa é que o que é definido como espaço de ocupação efêmera passa a ser um lugar, um espaço de convivência, de constituição de uma comunidade (ainda que posteriormente ela possa ser removida pelo poder público ou constituir-se definitivamente em uma área habitável, por meio de uma proposta de urbanização). Há uma constante luta nesse espaço a partir do tempo de ocupação. Sabese que quanto mais tempo o grupo se estabelecer aí, mais indivíduos atrairá, mais organizada estará a comunidade e mais difícil ou lenta será a remoção. Há muitos casos em que comunidades que estão há décadas ocupando um espaço sejam posteriormente removidas, até de modo violento, mas as políticas públicas se alteram, os governantes mudam, e o espaço residual persiste, assim como os grupos que não têm acesso à moradia regular que o percebem como disponível. Enquanto o terrain vague dos Estados Unidos e Europa representam um intervalo como descreve Dorfles, elemento importante para a criação, um corte na rigidez do desenho da cidade, e por isso mesmo, redescoberto por artistas, jovens e crianças, o espaço residual no Brasil é apropriado pela necessidade, ainda que isso não signifique que nestas comunidades não exista um processo criativo e cultural intenso. O espaço residual é o que resta àqueles que não podem habitar outras zonas, ou que buscam estar mais próximos da cidade, do trabalho. Enquanto os imigrantes ilegais na Europa não podem habitar estes espaços por serem demasiado visíveis (e a luta do imigrante ilegal é ser invisível e integrar-se ao resto dos cidadãos da cidade), os excluídos das cidades brasileiras buscam ser visíveis por um 71

81 lado (quando se organizam em lutas pelo direito à moradia como nos movimentos dos Sem Teto do Centro ou no já citado exemplo do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e amalgamar-se ao resto da cidade por outro, para poderem seguir vivendo no local onde estão. Desta forma, o método de análise se altera, na medida em que alguns espaços residuais foram tão modificados com o tempo que à primeira vista parecem parte da cidade oficializada. Não se trata de redescobrir espaços vazios na cidade para serem posteriormente ocupados ou vividos dentro de uma experiência estética como poderia ocorrer na Europa ou EUA, mas redescobrir espaços já ocupados como espaços residuais, na medida em que não passaram por um planejamento urbanístico propriamente dito, mas foram reorganizados pelos que os ocuparam. A mensuração da presença da ocupação ilegal no Brasil constitui por si só um problema. Os dados sobre o número de favelas no Brasil não são confiáveis, pois segundo Maricato os governos teriam dificuldade em identificar a situação fundiária de alguns assentamentos para uma classificação rigorosa. Segundo a autora, o IBGE subdimenciona a presença de agrupamentos irregulares na cidade, mas ainda assim, o censo de mostra que o crescimento das favelas no Brasil foi de 22%, um dado que por si já é impressionante. O IBGE não considera os agrupamentos de menos de 50 residências, o que caracteriza grande parte das ocupações de espaços residuais, embora os agrupamentos deste tipo sejam numerosos na cidade (2018 ocupações e 1856 loteamentos ilegais, segundo fontes do estudo de 2007 realizado pela prefeitura). O que se sabe é que a maior parte da população em muitas das capitais brasileiras vive em ocupações irregulares (o que inclui ocupação ilegal do solo e loteamentos ilegais), tornando a cidade oficial algo acessível apenas a uma minoria. Segundo o estudo de Castro e Barreto da Silva em , nos últimos 15 anos a oferta de loteamentos ilegais foi maior que a soma de todas as unidades habitacionais oferecidas pelo mercado privado. Essas habitações constituem um mercado lucrativo, principalmente porque o terreno pode ser readquirido pelos proprietários por meio de ações violentas como expulsões ou mesmo incêndios criminosos. O exemplo de São Paulo Grande parte da população da cidade (2,07 milhões segundo o IBGE) vive em loteamentos ou habitações irregulares. De acordo com um estudo finalizado em 2007, realizado para a Prefeitura de São Paulo em parceria com a Organização Aliança das Cidades e com apoio do Banco Mundial, há atualmente 1,1 milhão em favelas, 1,6 milhões em loteamentos ilegais, aproximadamente 500 mil pessoas em cortiços e 10 mil moradores de rua, uma tendência que se apresenta crescente em todo o país 72. Os espaços residuais ainda são dificilmente analisados, dada a dificuldade de sua definição. A metodologia leva em consideração somente se as moradias são ilegais e não o tipo e tamanho do espaço que ocupam. 71 CASTRO, M. C. Pozzi; SILVA, H. M. Barreto da SILVA. Legislação e mercado residencial em São Paulo. São Paulo: LABHAB;FAUUSP, Na análise comparativa dos últimos 5 anos, notou-se que a área ocupada pelas habitações ilegais não aumentou significativamente, mas sim a densificação e o crescimento vegetativo da população nas áreas já ocupadas (Fonte: estudo Habit - Prefeitura de São Paulo, Aliança das Cidades e Banco Mundial). 72

82 A intervenção em zonas irregulares se dá de modo agressivo pelo poder público com o apoio das empresas. Fix (2001:32) cita o caso do processo de remodelação da Avenida Nova Faria Lima e Berrini, onde um pool de empresários organizados sob o nome de Associação de Promoção Habitacional e Social arrecadou 8 milhões de reais de 122 contribuintes para a compra de um terreno e a construção de um conjunto habitacional no Jardim Educandário, a 15 km do local, para receber as famílias removidas. Arantes (2001:204) cita o caso de Ermínia Maricato (Secretária de Habitação da prefeitura na gestão de Luíza Erundina), quando foi proposta uma lei que regularizaria a questão fundiária nas favelas. Maricato precisou enfrentar a resistência dos empresários imobiliários que exigiam a remoção das favelas alegando o uso público das áreas ocupadas (de propriedade da Prefeitura). Maricato afirma que o mercado imobiliário controla os investimentos públicos urbanos que são o fator mais importante de valorização imobiliária (2001:43). Os grandes programas das empresas imobiliárias juntamente com eventos internacionais de porte como eventos esportivos, encontros e congressos políticos, são momentos em que a limpeza da cidade ocorre de modo mais violento, e é temida pelos moradores de ocupações ilegais que sabem que, como o câncer da cidade, serão deslocados para áreas de acesso cada vez mais restrito. Daí a proteção contra o despejo que as áreas de risco (morros, encostas, rios poluídos ou a vizinhança de fábricas poluentes) oferecem. Para essa população o que resta são propostas insuficientes de urbanização, muitas vezes servindo apenas como publicidade para os políticos que a propõem, como no conhecido caso do projeto Cingapura, uma proposta de urbanização insuficiente (e com acusações de superfaturamento) em que os poucos edifícios construídos se colocavam de frente a avenidas, cobrindo o resto das ocupações informais que estavam por detrás. Edifícios do projeto Cingapura,

83 Fix cita Cândido Malta dizendo que o fato de transformar barracos em predinhos aparece como se as pessoas tivessem se transformado de ladrões em classe média. Dessa forma, segundo a autora, seria induzida uma integração social ao mesmo tempo em que os prédios se destacam na paisagem da via expressa, como verdadeiros outdoors (2001:24). Como conclui a autora: não foi por mera coincidência que a lei de extinção do tráfico (de escravos) foi promulgada uma semana antes da Lei das Terras. Afastando a possibilidade de trabalhadores sem recurso tornarem-se proprietários, garantia a sujeição do trabalhador livre aos postos de trabalho antes ocupados pelos escravos. Não surpreende então que o Estado não admita o direto formal deles à cidade. Porém custou mais compreender que por isso mesmo o próprio Estado recicle a antiga política senhorial da informalidade da vida de favor em chão alheio. (2001:203) A política de exclusão nas cidades brasileiras não é um fato novo. Freyre (2000:14) já menciona que no início do século XIX os jesuítas eram donos de sítios e chácaras, muitos compreendidos nas sesmarias 73 da cidade e explorados contra o interesse público e algumas vezes fazendo uso de meios ilícitos para suas ações, encarecendo o terreno, obrigando as casas menores a se concentrarem ao pé dos morros e nos mangues (antes de serem aterrados e ocupados pelos mais ricos). Até 1822, a terra por meio da concessão de sesmarias era de propriedade de nobres portugueses, jesuítas e bandeirantes que ajudassem a ocupar a terra onde antes viviam os indígenas. O resto da população tinha de se contentar em ocupar terras de modo ilegal. Entre 1822 e 1850 foi reconhecido o direito dos posseiros desde que as terras estivessem cultivadas. Após a criação da Lei de Terras em 1850 a aquisição de terras públicas só poderia ser realizada a partir da compra, gerando os latifúndios e concentração de terras improdutivas e obrigando os que não podiam comprar terras (a maioria dos escravos libertos, trabalhadores e imigrantes pobres) a serem mão-de-obra dos grandes fazendeiros ou posseiros ilegais. Os trabalhadores sem terra foram migrando aos centros urbanos, ocupando a cidade também de modo irregular. Maricato afirma que: as reformas urbanas, realizadas em diversas cidades brasileiras entre o final do século XIX e início do século XX, lançaram as bases de um urbanismo moderno à moda da periferia. Realizavam-se obras de saneamento básico para eliminação das epidemias, ao mesmo tempo em que se promovia o embelezamento paisagístico e eram implantadas as bases legais para um mercado imobiliário de corte capitalista. A população excluída desse processo era expulsa para os morros e franjas da cidade (2001:17). 73 Instituição jurídica portuguesa que foi adaptada ao Brasil na época da colônia e que normatizava a distribuição das terras a nobres ou membros da elite religiosa e que gerou a concentração de terras a poucos donos, originando um conflito que levou à extinção deste mecanismo entre 1822 e

84 O Brasil apresentou intenso processo de urbanização, especialmente na segunda metade do século XX. Em 1940, a população urbana era de 26,3% do total. Em 2000 ela é de 81,2%. A partir das décadas de 80 e 90, com a grave crise econômica que marcou o país, há o aumento do desemprego (e do trabalho informal), o crescimento da violência nos centros urbanos (concentrada, segundo estudos do Núcleo de Violência da USP, em zonas de favelas - moradores com mais baixa renda e nível de escolaridade), em um cenário que como vimos já apresentava um modelo antigo de exclusão econômica. Não se pode, portanto, esquecer que grande parte da população que trabalha formalmente em indústrias e comércio não tem acesso à moradia digna, sendo obrigada a viver em áreas irregulares ou invadidas. As periferias cresceram 14,7% entre 91 e 96, enquanto os núcleos centrais apresentaram um crescimento de 3,1% (dados do IBGE, 2000). Maricato (2001:21) menciona que as iniciativas de promoção pública, como os conjuntos habitacionais populares, também não enfrentaram a questão fundiária urbana. Os governos municipais e estaduais deixaram os vazios urbanos disponíveis para futuros investimentos públicos e privados, para realocar a população em áreas inadequadas ao desenvolvimento urbano racional, penalizando seus moradores e também os contribuintes que tiveram que arcar com a extensão da infra-estrutura. Cada espaço residual se organiza de modo distinto, já que é fruto de uma intervenção específica em um local com características particulares. Desse modo, foram escolhidos dois exemplos de agrupamentos informais em uma área mais próxima do centro da cidade de São Paulo e outro fora do centro expandido. O bairro de Pirituba por exemplo, por ser mais longe do centro, está se verticalizando mais lentamente que outros bairros da Zona Oeste/Norte como a Lapa, Santana, Barra Funda ou Pinheiros, mas ainda assim apresenta um movimento constante de mudança. As favelas e espaços residuais conviviam com casas de classe alta e média e atualmente vêm tendo seu espaço limitado pelos grandes edifícios que são construídos na região. O que muda constantemente é a noção de centro, que com o crescimento da cidade também vai tendo seus limites ampliados. A Vila Madalena, por outro lado, por ser um bairro mais central e ter passado por um processo de verticalização muito intenso nos últimos anos, possui poucos espaços residuais; desta forma analisaremos um dos únicos espaços ocupados de modo irregular presente na região até Não é casual que os exemplos de ocupação que foram selecionados em 2004 já não estejam mais presentes atualmente. É parte da configuração dos espaços residuais sua efemeridade, dada sua fragilidade por motivos expostos anteriormente. Pirituba Os tempos de urbanização distintos refletem-se na composição arquitetônica dos ambientes. O espaço residual analisado, a comunidade em Pirituba, é estruturado como uma tira, tendo a avenida Raimundo Pereira de Magalhães de um lado e a rodovia dos Bandeirantes de outro, criando um conjunto onde a comunidade toda se dá a ver como uma grande fachada, sempre de frente para a avenida. Naquela área o que separa a rodovia dos Bandeirantes da avenida Raimundo é um desnível de solo, ao qual as construções da comunidade se adaptaram. 75

85 A tira está localizada ao lado do clube da sociedade holandesa de São Paulo, chamado Casa de Nassau 74 e que emprestou o nome à própria comunidade, como um modo de contaminação. Sua constituição como fachada que se volta à avenida Raimundo Pereira de Magalhães cria uma narrativa que a conecta ao que está ao lado, como um eixo sintagmático. A própria entrada do clube é freqüentemente ocupada pelos moradores que a utilizam como espaço de encontro e lazer ou mesmo para pedir esmolas aos sócios do clube, isto é, mesmo sendo um espaço privado, o clube já tem parte dele apropriado pelo agrupamento móvel que ocupa os espaços sem levar em conta as regras que organizam o uso dos espaços públicos e privados. Tanto a parte não ocupada pela favela em 2004 quanto o espaço vazio que restou de sua remoção, como se pode ver nas fotos, foi preenchida por grama e algumas árvores, em um raquítico projeto paisagístico que só evidencia mais a potencialidade do espaço residual como lugar a ser ocupado. Como descreve Ferrara paisagismo, em uma versão limitada e empobrecedora, restringe-se a ocupar o espaço livre com o verde, a fim de orientar ou controlar os usos: por onde andar, onde permanecer, como cobrir, como mostrar ou valorizar, como impedir, como isolar; enfim, um código de comportamentos que utiliza o verde como instrumento, um verde utilitário e metafórico. (2000:182) Foto - Do lado esquerdo a rodovia dos Bandeirantes, do lado direito a avenida Raimundo. A área arborizada entre as duas pistas (iniciativa que ocorreu após a instalação da comunidade Nassau, como uma tentativa de frear o avanço dela) é o espaço residual ocupado mais à frente pela comunidade. Foto de Nem o próprio clube resistiu à verticalização da área e após 50 anos de funcionamento foi desfeito e desde o início de 2007 está em disputa entre sócios-proprietários que querem vender o terreno para a construção de um condomínio residencial e os que pretendem tombá-lo para preservar a área verde e as casas que constituíam o clube. 76

86 Por não ter mais de quinze anos, e pelas constantes tentativas de remoção, a utilização de madeira e zinco nas residências é predominante. A fragilidade da estrutura arquitetônica se reflete nas constantes intervenções da polícia e do poder público. Foto - Casas da comunidade Nassau, chamada Favela Nassau. Registro de

87 Foto - Casas da comunidade com o bairro de Pirituba ao fundo Foto - Vista da Favela Nassau a partir da avenida Raimundo. Foto de

88 Foto Moradores da Favela Nassau na entrada do clube da Sociedade Holandesa de São Paulo (Casa de Nassau) Foto - Vista a partir da avenida Raimundo: do lado direito está a comunidade Nassau

89 Foto de 2006 Vista após a remoção da favela de Nassau. Foto de 2006 Vista de alguns dos elementos que sinalizam a proibição da ocupação do solo após a remoção da favela. 80

90 Foto de área que era ocupada pela Favela Nassau. Foto de 2006 área ao lado do Clube Nassau antes ocupada pela Favela Nassau. 81

91 Foto de 2006 após a desocupação da Favela Nassau. Foto de 2006 Vista das casas que se localizavam em frente à comunidade. 82

92 Foto - Vista a partir da avenida Raimundo: casas geminadas que ficam em frente à comunidade Foto - Vista a partir do clube da comunidade holandesa Casa de Nassau : em primeiro plano vê-se o teto de zinco das construções da comunidade Nassau. Em segundo plano as residências de luxo da área do City América

93 Foto - Barbeiro/Pirituba. Registro de julho de A luz é um elemento que norteia a forma como se constrói; no espaço residual analisado isso não é diferente. A limitação da energia elétrica (que aparece em pequenas conexões clandestinas) faz com que se busque a luz do ambiente exterior. Durante o dia, as casas têm portas e janelas totalmente abertas, permitindo também a circulação de ar nos pequenos ambientes. Os estabelecimentos comerciais também são bastante abertos, consistindo de um balcão com cadeiras do lado de fora, que tanto marcam claramente sua presença como comércio na área quanto convidam para o convívio interpessoal. Em uma das fotos tiradas em Pirituba vemos que até mesmo o barbeiro trabalha ao ar livre. Os centros comerciais desempenham um papel importante também nos espaços residuais. Atentos às oportunidades mais variadas, o comércio sempre acompanha o morador, seja do condomínio de luxo ou das comunidades mais carentes, modificando e sendo modificado por ele. Na comunidade analisada, assim como em outras, os bares e as salas de cultos evangélicos dividem a função de centros de convívio. Daí a grande quantidade de estabelecimentos: em áreas de menos de uma quadra pode-se encontrar entre dois a quatro bares e pelo menos um centro religioso. Os bares, estrategicamente localizados, agem como pontos nodais que desempenham um papel que tradicionalmente as praças ocupavam nas cidades. É onde a comunidade se encontra, discute e se vê. Diferentemente das favelas, onde sua maior organização e tamanho permite a criação de um cotidiano mais independente do resto da cidade, os espaços residuais estão à mostra. Enquanto nas favelas os bares são alvo de 84

94 policiamento constante, por serem palco de cenas de mortes e até chacinas na madrugada, no espaço residual, em sua constituição que se dá a ver constantemente por quem está de fora, permitem congregar funções sociais de ócio como o dominó, o bilhar e o jogo de cartas, além do futebol transmitido pela TV ao longo das calçadas, servindo como ponto de encontro. A localização e as inscrições que transformam a fachada em um grande cartaz são fundamentais para gerar diferenciação, já que arquitetonicamente as construções criam um todo imagético homogêneo devido aos inúmeros patchworks de que são compostas. No excesso de informação, o contraste é dado pela maior limpeza visual, gerada pelo uso de tinta de uma ou duas cores no máximo ou pela predominância das linhas horizontais, como observamos no Bar do Primo, em Pirituba. Não há uma regra predefinida; como em todo espaço comercial, o planejamento de uma fachada/vitrina inicia-se pela busca do contraste com o entorno. Foto - Bar do Primo/Pirituba,

95 Foto - Assembléia de Deus/Pirituba, Vista da Comunidade Nassau da avenida Raimundo (os automóveis em frente aos estabelecimentos comerciais são de propriedade dos moradores) e casas do bairro de luxo City América ao fundo. Foto de

96 Foto de 2006, após a remoção da Favela Nassau. Todas as famílias que ocupavam a Comunidade Nassau há mais de 15 anos foram transferidas para habitações do CDHU (Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) em distintos pontos da cidade (Sítio Jaraguá, Jardim Ipanema e Canta Galo), desmembrando a comunidade ali formada durante 15 anos. O caso de Moacir Pereira é típico: perdeu o direito a uma habitação porque sua mãe, que era a titular do barraco onde vivia, morreu durante os trâmites e a ele não foi concedido o direito de uma casa. Não procurou seus direitos porque havia perdido seu RG e acreditava que não poderia ter direito a outro. Chegou a pagar R$200 a um advogado para que pudesse providenciar uma segunda via, mas segundo ele, era tarde demais porque a remoção já estava finalizada. Arantes (2001:205) analisa que esta situação de ilegalidade constante extrapola a questão da habitação, constituindo-se no epicentro de todas as exclusões, herdadas e vindouras. O habitante dessa cidade oculta, por medo atávico do despejo, nunca procura a justiça, muito menos a polícia, que a pretexto justamente de sua condição de infrator nato tem o hábito de invadir sua casa quando bem entende. A transferência dos habitantes para condomínios do CDHU não tem apenas o agravante de separar os habitantes ou mesmo de forçá-los a uma dívida de compra do novo imóvel (já que como foi mencionado antes, a habitação ilegal também é comercializada), mas também contraria a busca dos ocupantes dos espaços residuais em estar em um lugar ao lado de áreas urbanizadas que lhes possibilita usufruir da infraestrutura (escolas, transporte, comércio) que não encontram nos bairros mais afastados. A maior parte dos habitantes preferiria continuar onde estavam, o que foi confirmado em 87

97 conversa com os moradores que estavam sendo desocupados da Comunidade Nassau e pelos dados do estudo realizado para a Prefeitura de São Paulo em parceria com a Organização Aliança das Cidades e com apoio do Banco Mundial, citado anteriormente. As obras da prefeitura também estimulam de duas formas a ocupação dos espaços residuais. Por um lado porque os cria (em alças viárias e grandes avenidas que vão cortando a cidade) e por outro porque ao trazer grande fluxo de automóveis colabora para que o entorno seja urbanizado. Fix denuncia a diferença no tratamento dado para o que ela chama de cidadãos, aqueles que têm seu direito garantido à vida na cidade e os moradores das ocupações informais. Os cidadãos quando se organizam podem conseguir que sua voz seja ouvida. Já os moradores das favelas sofrem com a divisão e cooptação de suas lideranças, que recebem indenização diferenciada do resto da comunidade, além de sofrerem a pressão de tratores e policiais (FIX, 2001:8). Muitas são realocadas em áreas de proteção ambiental pela própria prefeitura aumentando o problema de contaminação em zonas verdes e mananciais. Outros espaços residuais ao longo da avenida Raimundo Pereira de Magalhães (além da Comunidade Nassau) mostram tempos distintos de uso. Na fotografia abaixo vemos casas de alvenaria sem pintura ou reboco ao fundo enquanto um comércio já bastante estruturado se distribui lado a lado de frente à avenida. Nota-se a mesma estruturação em forma de fachada que a Comunidade Nassau, com a diferença de que se trata agora de uma formação mais antiga, que se apropriou do espaço de modo praticamente definitivo. Isso pode ser observado tanto em termos de materiais utilizados na construção quanto na comunicação com o externo; este comércio não é mais um comércio local, voltado à comunidade que ocupava o espaço residual, mas uma formação em conexão com o espaço programado da avenida e da rodovia que está próxima: mecânicos, borracharias e pequenos bares trazem uma oferta especializada e adaptada à demanda das autopistas e rodovias. 88

98 Comércio com casas de alvenaria ao fundo. Foto de Freyre (2000) cita que na São Paulo do fim do século XIX, com o enriquecimento da cidade, o modo de se diferenciar dos mais pobres se dava por meio do uso de materiais mais perenes e nenhum tipo de vegetal, além da altura do edifício. O processo de passar das casas construídas com sucata para as de alvenaria constitui ainda hoje também um processo de importância simbólica. Da mesma forma pode-se perceber que com a criação da numeração para as casas, estabelecida pelos próprios moradores, se concretiza um meio de possuir um endereço, de deixar de ser um ocupante de um espaço sem lugar para ser parte do sistema da cidade. Algumas vezes, a integração do espaço ao entorno somada à presença de favelas e ocupações residuais por toda cidade causa confusão aos próprios moradores. No caso da Comunidade Ilha Verde no bairro do Jaguaré em São Paulo, em fase de desocupação, o fato de estarem lá há mais de três décadas fez com que os moradores mais jovens não soubessem que viviam em uma favela. Como o caso mostrado no jornal OESP da moradora Daniela Elídio, de 20 anos, que trabalha na Unilever, estuda em uma universidade particular e só descobriu que vivia em uma favela quando percebeu que suas amigas da escola não a visitavam pelo fato de o local ser considerado perigoso O Estado de São Paulo, 15 de julho de

99 Foto de 2006 da mesma área mostrada na foto anterior. Nota-se que ao contrário dos espaços residuais mais frágeis, este sofreu pouca alteração se comparado com As fotos a seguir mostram um lugar de uma temporalidade anterior, uma ocupação mais recente e por isso mesmo mais visivelmente informal. Trata-se de uma apropriação de um terreno baldio, um pouco afastado da avenida Raimundo, mas bastante próximo da conexão entre a marginal Tietê e a rodovia dos Bandeirantes, uma área que não chegou a ser explorada comercialmente antes da chegada da rodovia mas que já começa a receber a construção de prédios de condomínios. Essa comunidade constitui-se de modo mais fechado em si mesma (notem-se as cercas feitas de madeira e papelão), tendo suas construções voltadas à lateral ou de costas à avenida. Por estar localizada dentro de uma área verde, há a plantação de hortas e a criação de galinhas. Não há ali nenhuma construção de alvenaria e nenhum comércio de constituição visível ou marcada (exceto pelo comércio realizado entre os moradores sem a utilização de um ponto-de-venda ). As formas de interação e lazer ocorrem de modo ainda mais individualizado que na Comunidade Nassau, e têm pouca conexão com o entorno das avenidas, comércios e rodovias. O ambiente dessa comunidade é a natureza que o circunda, que provê algum alimento e que de certa forma garante uma vivência mais protegida, mais afastada da vista de quem está fora. Em 2006 se construiu um pequeno muro de modo a impedir o estabelecimento de mais pessoas no local. A Secretaria da Habitação do Estado de São Paulo já tem prevista a remoção desta comunidade. 90

100 Foto de 2004 de outra comunidade na avenida Raimundo Pereira (Pirituba). Foto de abril de 2006 onde se nota a construção de um muro de concreto impedindo o aumento de ocupantes da zona. 91

101 Foto de 2006 Vista de frente à comunidade mostrada nas duas fotos anteriores, evidenciando o avanço das construções verticais na área. Vila Madalena Essa comunidade, estabelecida desde o início dos anos 90 e removida em 2005, é a única da região de Alto de Pinheiros e Vila Madalena, uma área muito valorizada nos últimos anos. Marta Nehring realizou um documentário em 2004 sobre a comunidade chamado Vizinhos, que mostra a relação que havia entre os moradores da comunidade e os vizinhos moradores das casas e edifícios de alto padrão na região. Há um claro desconhecimento por parte dos dois grupos vizinhos, evidenciando a impossibilidade de um convívio mútuo. Mesmo sendo uma área residencial, fora das grandes vias para automóveis, o encontro entre os moradores do espaço residual se limitava aos bares da própria ocupação, enquanto o trânsito nos edifícios e residências ao redor era de automóveis que entravam e saíam das residências ou passavam pelas ruas. As duas praças próximas à área não eram utilizadas por nenhum dos moradores, constituindo mais um espaço residual que uma possibilidade de encontro. O lixo deixado pelos moradores das residências de luxo era aproveitado pela comunidade do espaço residual (daí a mensagem Sucata tem dono da página 28, que avisava aos lixeiros que o que estava ali seria usado pelas pessoas), embora o processo de recuperação e reciclagem não ficasse à vista como na Comunidade Nassau. Por não estarem protegidos por uma avenida de alta velocidade como em Pirituba (onde do ponto de vista do carro se vê pouco e praticamente não há pedestres), as atividades sociais que se davam na rua estavam relacionadas aos bares de alvenaria que visualmente pareciam ser oficiais. Os bares em barracos funcionavam à noite, mais 92

102 protegidos da vista dos passantes. Não há outro tipo de comércio visível como o barbeiro e mecânico que se observava em Pirituba. A ocupação intensa pela especulação imobiliária de luxo na região desde o início dos anos 90 foi cercando a comunidade, que sabia de sua situação de fragilidade, de não-pertença àquele local. Neste caso, dado o alto valor do solo aliado à sua escassez, em uma área que passa por uma intensa verticalização, nem mesmo as construções de alvenaria de algumas casas e bares foram poupadas da remoção. Um muro de concreto e arame farpado foi construído no local, buscando proteger a área de novas ocupações. As casas se estabeleceram na parte de trás dos bares, que se dispunham de frente para a calçada, criando um ambiente por um lado protegido, por outro permitindo visibilidade por parte dos moradores, por estarem acima das construções da calçada, aproveitando o desnível do solo da área. Foto de 2004 da comunidade na Vila Madalena. 93

103 Foto de 2006 após a remoção da comunidade. 94

104 Foto de 2004 Vista geral da comunidade (que, assim como a Comunidade Nassau, era denominada favela de modo geral). 95

105 Foto de Foto de 2006 após a remoção da comunidade. 96

106 Foto de 2006 muros protetores contra novas invasões na área. Foto de 2006 Criança brincando entre os muros e arames de proteção contra novas ocupações. 97

107 Foto de 2004 vista interna de um dos bares da comunidade. Foto de 2004 Vista de um sábado com o cotidiano dos bares e encontros nas calçadas. 98

108 Quando a ocupação estava presente, os bares eram totalmente de alvenaria e buscavam criar uma área interna maior, embora a maior concentração de freqüentadores permanecesse sempre do lado de fora, dominando a rua e fazendo dela uma calçada. A busca pela luz e pelos ambientes abertos criava um ambiente de convivência onde as atividades que tradicionalmente seriam desempenhadas de modo privado eram realizadas à vista de todos, tornando-se assim parte da vivência pública. A noção de exclusão econômica, bastante utilizada em estudos sobre comunidades carentes, não deve limitar as análises destes espaços. Nestes ambientes, onde os contrastes são sentidos lado a lado, a questão urbana se mostra de forma mais clara. Nos espaços residuais, a divisão entre o público e o privado passa a ser mais tênue, ambos passam a ser parte de um grande conjunto urbano. É o indivíduo que se coloca como elemento central e que confere sentidos a estes espaços. Por um lado, a noção de pertença a uma comunidade surge de modo mais intenso, mesmo que isso ocorra por uma necessidade frente à fragilidade que possuem com a constante possibilidade de serem desocupados pelo poder público. Por outro, estes lugares atuam como agentes catalizadores do entorno, reciclando, sobrepondo e proporcionando uma visão exemplar do que pode ser a comunidade auto-organizada. 99

109 IV. Conclusões Ocupação vertical em Hong Kong,

110 Se até o início do século XX a idéia de unidade era a que prevalecia, atualmente, com as descobertas na área da ecologia, biologia e psicanálise (que influenciaram o pensamento no campo da cultura e comunicação), há cada vez mais a consciência para um mundo fragmentado e heterogêneo. Estas descobertas não vieram sem um incômodo, sem questionar idéias antigas sobre a identidade, alteridade e estabilidade da essência fundamental do homem. No entanto, os processos chamados globalizantes e a economia de mercado voltam a trazer a idéia de hierarquia entre incluídos e excluídos, entre centro e periferia. Esta visão do mundo, embora não possa ser ignorada, é parcial e não pode ser tomada como referência para estudos culturais por estar vinculada a projetos econômicos cuja realização difere nos distintos contextos do plano homogeneizante que propõe. Se a crítica mais comum sobre o discurso da pluralidade está ligada à idéia de que ela ainda não possui uma forma ou expressão epistemológica adequada é talvez porque a tranqüilidade do discurso unificador ainda é atraente. Por outro lado, pode ser o indício de que múltiplas epistemologias estão surgindo, como fruto da pluralidade que se encontra, questionando os saberes bem delimitados e revelando a importância de fenômenos que se ignoravam até então por não poderem ser descritos pelos aparatos conceituais previamente estabelecidos. Como expõe Sousa Santos (2007:243), estamos por um lado lidando com epistemologias alternativas que são transformadas em resíduos ao serem silenciadas, demonizadas, trivializadas, marginalizadas. Por isso mesmo a alternativa reside nestes elos, nestes vazios, nestes fragmentos. Segundo o autor, a ciência moderna sofre de horror vacui, por onde se busca neutralizá-lo pelas idéias de permanência, duração, identificação, classificação. Se áreas como a psicanálise, a arqueologia e a própria semiótica se ocupam do estudo dos resíduos deve partir também das ciências sociais em geral uma proposta de analisar os processos de identificação do que não pertence a um sistema para rejeitá-los como lixo. Essa dimensão envolve um comprometimento que é também político, porque trata de grupos sociais, espaços, objetos que geram um modo de conhecimento que é deixado de lado como resíduo. Por isso a importância de se detectar os processos de geração residual mas também retomar a idéia de que não se referem a uma mera dicotomia entre o dentro e fora, mas de um ciclo no qual os resíduos são parte importante da efervescência dos processos culturais. Por outro lado, se como coloca Sousa Santos (2007: ), a perda da confiança epistemológica na ciência ocorre juntamente com o seu aumento de sua credibilidade por parte da crença popular, podemos estabelecer um paralelo que por um lado mostra a pluralidade das epistemologias ou o surgimento de epistemologias da pluralidade que ocorrem de modo concomitante com o aumento do discurso da defesa das identidades individuais e sociais, gerado tanto pelos medos das ameaças de ataques terroristas nos países economicamente centrais, quanto pela necessidade de se comercializar culturas e territórios e utilizar o discurso identitário para garantir a personalidade da marca de produtos. Desta forma, o discurso da pluralidade dentro da área da comunicação e cultura assume um lugar fundamental. É onde visões aparentemente contraditórias podem ser confrontadas e a crença nas identidades culturais possa ter seu mecanismo evidenciado. 101

111 É preciso compreender em que medida a residualidade gerada pela constante exclusão e ignorância em relação a saberes populares e organização dos grupos sociais periféricos é um processo que impede que se crie a necessária elasticidade cognitiva da qual se beneficiariam tanto excluídos quanto excludentes. Tampouco serviria cair em diferenciações das minorias ou de grupos menos favorecidos como um modo de conhecimento que não reconhece (Sousa Santos, 2006:313). O pensamento barroco, que prioriza as trocas na fronteira, que Lotman (2000: ) aponta ser o local onde os processos semiotizantes ocorrem de modo mais intenso, tem o centro como uma presença mais tênue, o que torna as próprias distinções entre centro e periferia mais difíceis de serem estabelecidas e assim a própria noção de identidade e alteridade também são mais difusas. O centro passa a ser um acoplamento entre margens. O conceito de residual pode permitir a compreensão da organização da cidade como modo de coexistência de sistemas distintos que se alteram mutuamente. É preciso, no entanto, não transformar esta análise em uma defesa da habilidade que os nãocidadãos da cidade possuem em resolverem problemas de modo a justificar a ausência de apoio por parte do Estado. Por isso a importância de não reduzir as análises dos processos comunicativos destes grupos a um slogan ou uma idéia única e simplista, mesmo porque, no caso das favelas e comunidades residuais no Brasil, sua incidência quantitativa é tão significativa que impede que se possa referir a esse fenômeno como um evento relegado a uma minoria à parte. Os espaços residuais são múltiplos, assim como seus moradores. Também não se pode criar uma simples oposição entre espaço oficial vs. espaço residual. Muitos dos moradores das favelas são trabalhadores formais, e as habitações ilegais não escapam à especulação imobiliária. Como menciona Verna (apud Davis, 2006:104), a causa básica da favelização urbana não é a pobreza, mas sim a riqueza urbana. Os movimentos na sociedade que buscam excluir os economicamente menos favorecidos, os imigrantes ou quaisquer grupos que não sejam considerados parte da sociedade chamada oficial, criam não somente um problema a estas pessoas que se vêem incapazes de se integrarem, mas implicam também na alienação do grupo que exclui. Não se trata de evitar a construção do lixo, o que seria impossível. Trata-se de tomar consciência do processo de criação do lixo para que ele possa ser recuperado de modo criativo e não seja somente fruto de um ciclo de consumo, mas da cultura. Flusser (2006:60-61) diz que a história humana não é uma linha linear que vai da natureza em direção à cultura, mas um círculo que gira da natureza à cultura, da cultura ao lixo, do lixo à natureza e assim por diante. Por isso falar do resíduo é retomar na análise um elemento que sempre foi parte dos processos culturais. O conceito de residual está em sintonia com o que Pinheiro já havia estabelecido como categorias para a compreensão dos processos culturais: o migrante, o mestiço e o aberto. Mais especificamente, os elementos residuais são resultantes dos processos culturais e de sistemas de maior aquecimento, onde os processos culturais se dão em maior velocidade, são gerados com maior freqüência, e possuem principalmente a capacidade de absorver o que há de residual em outros sistemas e neles próprios. Sem 102

112 essa possibilidade o que existe é um sistema ensimesmado, simétrico, com a tendência ao fechamento e ao subdesenvolvimento. Desta forma, há a coexistência da aceleração do capital, como mencionada por autores como Santos (2002a), mas que ao mesmo tempo encontra no espaço local tanto seu modo de concretude quanto sua resistência. O espaço torna-se um objeto de consumo descartável, mas ao mesmo tempo ele é apropriado e reconfigurado por aqueles que não podem participar de seu consumo. Os modos como os sem-teto, favelados, imigrantes ilegais, ciganos transitam pelo espaço são também possuidores de uma fragmentação e possibilidade de adaptação que põem em xeque as estratégias velozes de ocupação do capital. Se há o resíduo artificialmente criado pelo ciclo de vida do produto em Marketing, e os discursos lineares e eficientes da publicidade, há os resíduos culturais produzidos por sociedades onde o excesso e a grande quantidade de combinações possíveis nos processos culturais são responsáveis pelas apropriações tanto dos restos obsoletos do mercado quanto dos resíduos imateriais que o contato entre sistemas distantes oferece. Este processo cria possibilidades de vida emergentes com resultados estéticos que sobrepassam o âmbito artístico, combinando o uso do espaço com meios tecnológicos, comunidades residuais com grupos de mídia tática, a gambiarra de luz com os warchalkers 76. É importante propor estas possibilidades, que podem ser desenvolvidas em um próximo estudo, para que as tecnologias não sejam compreendidas logo de saída como um elemento elitista e invariavelmente conectado ao mercado que lança os melhores e mais potentes com cada vez maior rapidez. Seria contraditório imaginar o conceito de residual como estrutura analítica predeterminada de sistemas culturais que abrigam tantas culturas distintas (Europa Ibérica, América Latina), como um modo de organizar um sistema onde o próprio corpus se altera tão rapidamente. Trata-se de pensar em conceitos fluidos que questionem a idéia de identidade, que obriguem a pensar que o instável é uma constante e a estabilidade uma busca que tem elementos mais mitológicos que científicos. Como colocam Laplantine e Nouss (2002:86), estes conceitos por sua transitoriedade, mutabilidade e movimentação contínua são contraditórios, não podendo ser invocados como resposta, já que constituem a própria questão que perturba toda a cultura (incluindo a individual) quando se busca a estabilidade. A negação da diferença implica em questões éticas, estéticas e é uma busca utópica, que só pode ser colocada em prática a partir de ideologias totalitárias. Essa cegueira, embora não se trate de um fato recente, acaba sendo apropriada pela filosofia de mercado atual, onde a competição compreendida como algo natural gera uma hierarquia que justifica ações continuamente excludentes tanto em termos sociais quanto materiais. O exemplo dos espaços residuais em grandes cidades mostra como as forças de controle não são capazes de eliminar a participação coletiva na constituição da cidade. Sua presença nos interstícios da cidade questiona a idéia da oposição estável entre centro 76 Grupos que se organizam para detectar e informar locais onde há conexão de Internet sem senha para acesso que esteja disponível à apropriação. 103

113 vs. periferia não apenas em termos geográficos, mas também culturais. A metrópole latino-americana, atravessada por ações do global, é reorientada pelo local, criando um resultado que evidencia que os processos culturais não se limitam à superestrutura da rede social, mas participam dos modos de produção nos mais variados níveis. A gambiarra, as estratégias de fuga e fluidez do mercado pirata, as apropriações efêmeras do espaço pelos camelôs, pelos catadores de lixo e pelos moradores dos espaços residuais oferecerem uma visão mais ampla das apropriações informacionais dinâmicas que não estão restritas aos grupos de mídia tática ou coletivos de ativistas políticos nem aos meios digitais como a Internet e a telefonia celular. É importante mostrar que estas formas de organização residuais possuem uma mobilidade constante que encontra nos sem-teto e nos imigrantes ilegais agentes importantes cujos modos de ação nos territórios por onde transitam devem ser compreendidos para que sejam incorporados a uma análise comunicacional que não esteja restrita aos chamados novos meios sem uma percepção espacial. Não se trata de um otimismo em que não se percebe que nos produtos piratas e nas práticas de mercado informal se encontra um braço de um capitalismo voraz e não necessariamente sua alternativa, da mesma forma que, como apontado anteriormente, nas políticas anti-imigração o que se buscava na verdade não era impedir a entrada dos imigrantes aos países de Primeiro Mundo, mas manter em um estado de ilegalidade permanente grupos que servem de mão-de-obra barata às grandes indústrias (produtoras e de serviços). É exatamente por saber que nos discursos pró-identidade e anti-pirataria se ocultam interesses de contínua exploração dos grupos excluídos que é necessário compreender como estes discursos estão impregnados de incongruências e promessas de falsa estabilidade. Somente desconstruindo estes discursos é possível ver o que se esconde por detrás, perceber que o processo de exclusão vai se alimentando do sistema paralelo dos excluídos, que podem ter sua existência ignorada a qualquer momento. No entanto, a presença quantitativa destes grupos nas cidades e sua permanência no tempo não podem ser ignoradas. Esta presença e o contato com o território que por um lado busca excluí-los são geradores de resultados informacionais importantes, e o processo de apropriação e ocupação do território de modo fluido, sua percepção do ambiente e recodificação dos dejetos constitui uma forma de construção criativa fundamental para a constituição dos processos culturais emergentes. 104

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122 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Anexos Catador de lixo. Riacho Fundo, Distrito Federal, LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

123 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. RUTH TOLEDANO V de violencia RUTH TOLEDANO EL PAÍS La mejor manera, ya se sabe, de combatir el miedo es asustando "Todos los españoles tienen derecho a disfrutar de una vivienda digna y adecuada. Los poderes públicos promoverán las condiciones necesarias y establecerán las normas pertinentes para hacer efectivo este derecho, regulando la utilización del suelo de acuerdo con el interés general para impedir la especulación. La comunidad participará en las plusvalías que genere la acción urbanística de los entes públicos" (artículo 47, Constitución Española). El domingo pasado la consigna era: Por una vivienda digna. V de vivienda. El final fue: V de violencia. Tras la afluencia de gente de la semana anterior, se había repetido la convocatoria a través del correo electrónico, de los SMS y de algunos blogs, una llamada independiente que no lideraba ninguna asociación, partido político o sindicato: pura acción ciudadana. Se hizo el llamamiento a una sentada en la Puerta del Sol que concentró a más de personas y que intentó convertirse en una marcha hacia las inmediaciones del Congreso contra la que la policía cargó con la saña que caracteriza a las fuerzas antidisturbios, ya sea de forma espontánea o atendiendo a las órdenes oportunas. La del domingo era una protesta pacífica por el elevado precio y por las malas condiciones de la vivienda, la respuesta casi festiva a una especulación inmobiliaria que alcanza cotas de vergüenza, como todos los días podemos comprobar en las propias carnes contribuyentes o sencillamente abriendo el periódico para asistir al último escándalo financiero: el sector inmobiliario siempre anda implicado en los delitos de mayor trascendencia. La V de vivienda se convirtió en V de violencia cuando los concentrados en Sol intentaron moverse hacia la Carrera de San Jerónimo, Alcalá o Preciados y la policía les impidió el paso, encerrándolos en la plaza. Ahí empezaron los primeros empujones, que pronto se convirtieron en porrazos. He visto marcas de porras que al Defensor del Pueblo también le interesaría ver y que la delegada del Gobierno debería llevar reproducidas a sus flamantes reuniones. Es más que preocupante que una acción como la descrita sea sofocada a estas alturas democráticas con violencia policial. Tales cuerpos de seguridad justificarán su actuación con el viejo argumento de la provocación, pero llueve sobre mojado: en una de las manifestaciones pacíficas contra la guerra de Irak hubo casi doscientos heridos y convirtieron también la Puerta del Sol en una ratonera donde la gente permaneció aterrorizada. Los medios de comunicación apenas dieron cobertura al episodio y la policía aseguró que había habido provocación por parte de algunos manifestantes, pero doscientos heridos por golpes de quienes tienen que defendernos es algo inaceptable. En menor medida, la carga del otro día fue similar. Y aun concediendo que en este tipo de circunstancias pueda haber algún elemento descontrolado que pretenda reventar el desarrollo pacífico de los acontecimientos, lo lógico en un Estado realmente libre y democrático es que los cuerpos de seguridad defiendan al resto de los participantes de esos mismos elementos, en lugar de atacar indiscriminadamente y con una fuerza que de bruta pasa con facilidad a brutal. El otro día hubo también detenidos, que pasaron por calabozos que describen como repugnantes y en los LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

124 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. que recibieron un trato que si es como denuncian sería para abrir una investigación en todas las comisarías. Los sucesos de Fuenlabrada, en los que fueron también detenidos dos jóvenes hermanos por portar banderas y lanzar consignas republicanas al paso de Felipe de Borbón y su esposa Letizia, no es precisamente un buen índice sobre la libertad de expresión, sobre todo acerca de ciertos asuntos. La única explicación para que esto se produzca se encuentra en el miedo que haya podido provocar en el Gobierno el éxito de la primera sentada, celebrada el domingo anterior al de la carga y representativa, por ser secundada rápida y fluidamente, de la necesidad de exponer en la calle uno de los mayores problemas del sistema y de la operatividad de los nuevos canales de comunicación social y de convocatoria. Tienen un miedo a que la cosa crezca y se les vaya de las manos: siempre les quedará París para ilustrarlo. Y la mejor manera, ya se sabe, de combatir el miedo es asustando. Les damos un susto a la segunda y no se atreverán a salir una tercera. Se equivocan, porque la tercera será el próximo domingo, pero además se equivocan si piensan que pueden tapar a porrazos un problema, el de la vivienda, que existe y que volverá a manifestarse tarde o temprano. Pero además se equivocan desatendiendo la voz de muchos jóvenes, y no tan jóvenes, que están en su derecho a ocupar las calles para su expresión. Cerrarles la boca con violencia es encender una mecha que nadie quiere ver arder 1. 1 Em dezembro de 2006, segundo o jornal El País de 23/12, a manifestação pela Vivienda Digna já mobilizava 15 mil participantes em Madrid, 7 mil em Barcelona, 2 mil em Sevilha e algumas centenas em Valencia, Málaga, Alicante, Zamora, Murcia e Merida. No mesmo jornal no dia 30/11 foi publicado que o relator de assuntos de habitação da ONU, Miloon Kothari, declarou que a situação da especulação imobiliária na Espanha é muito grave e que não encontra paralelo em outros países economicamente desenvolvidos. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

125 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 10/02/ h10 Justiça determina remoção da única favela do Alto de Pinheiros Publicidade VICTOR RAMOS da Folha de S.Paulo Depois de cerca de 40 anos, a única favela do Alto de Pinheiros, bairro de classe média alta na zona oeste de São Paulo, está prestes a ser desocupada. A Justiça decidiu pela reintegração de posse aos proprietários da área e a saída dos atuais moradores deve ocorrer neste semestre. A favela, localizada na rua Djalma Coelho, é vizinha de casas e prédios de alto nível e fica próxima de áreas como a Vila Madalena e a praça do Pôr-do-Sol. A decisão pela reintegração foi tomada pelo Tribunal de Alçada Civil, em segunda instância, no final do ano passado, e tem poucas chances de ser modificada, conforme admitem os próprios advogados dos moradores. De acordo com a Associação em Defesa da Moradia, que representa os moradores na Justiça, aproximadamente 100 famílias vivem no lugar. Antonio de Arruda Sampaio, advogado dos proprietários do terreno, disse que a expectativa é conseguir uma solução negociada para a saída dos moradores. "A esperança é que haja um entendimento entre as partes." Os moradores da favela também esperam uma saída negociada, recomendada por seus próprios advogados. Representantes dos proprietários da área discutem valores com algumas famílias que vivem no local para que elas deixem a favela. Segundo a Folha apurou, esses valores variam em torno de R$ 4.500, dependendo do tamanho da casa. O prazo que vem sendo discutido para a saída, dentro desse acordo, vai até abril. Segundo os moradores da área, as famílias que vivem na favela estão cientes da situação e não pretendem resistir à decisão judicial. Eles disseram que a intenção da maioria é sair antes que haja uma ação de despejo com uso de força policial. A disputa judicial em torno da área já vem se arrastando por mais de 30 anos, com decisões favoráveis ora para os proprietários do terreno, ora para os moradores da favela. Com a decisão do Tribunal de Alçada Civil, no entanto, a disputa jurídica parece ter chegado ao fim, apesar do recurso interposto pela defesa. "Eles vão ter de sair", disse Edvaldo Falcão, um dos advogados dos favelados. Adenor Patrício de Almeida, 58, conhecido como "seu Dinha", está no local há mais de 40 anos. Dono de um bar na favela e um dos mais antigos ocupantes da área, reconhece que terá de se mudar. "Dessa vez não tem jeito. No final de março já devem estar derrubando tudo." Isso apesar de o local constar no Plano Diretor - lei municipal que orienta o crescimento e a ocupação da cidade - regional de Pinheiros como área de interesse social, o que autoriza a prefeitura a fazer parcerias com a iniciativa privada para a construção de habitações para os atuais ocupantes. No entanto, de acordo com a subprefeitura de Pinheiros, nenhum projeto habitacional está previsto para o local. A função social do local foi citada no recurso, mas Falcão afirmou não acreditar numa mudança. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

126 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Movimentos sociais protestam contra política higienista da Prefeitura de São Paulo (18/05/2006) CARTA ABERTA À POPULAÇÃO DA CIDADE DE SÃO PAULO Nós, integrantes das Pastorais Sociais da Arquidiocese de São Paulo, dos Catadores de Materiais Recicláveis e do Povo da Rua, denunciamos as diversas ações que vêm violando constantemente direitos do povo pobre de nossa cidade. DESTACAMOS ALGUMAS VIOLÊNCIAS: 1. O poder público municipal da cidade de São Paulo tem feito despejos violentos de ocupações do centro com o uso de violência policial, sem uma política de acolhimento ou políticas voltadas à moradia popular, além de interromper projetos de moradia em andamento. 2. Essa prefeitura tem realizado a expulsão da população pobre do centro de São Paulo usando, para isto, diversos mecanismos como: o custeamento com dinheiro, pressão psicológica ou violência policial. 3. Proíbe, ainda, o trabalho dos catadores de materiais recicláveis dificultando a organização de cooperativas solidárias e legítimas de catadores, impedindo esses trabalhadores de lutarem por seus direitos e inibindo as lideranças na organização dos grupos. 4. A administração pública está expulsando do centro, com violência policial, mulheres em situação de marginalização utilizando o falso argumento de que todas estão ligadas ao tráfico de drogas. 5. A população de rua continua sendo ameaçada e assassinatos acontecem com freqüência, além dos albergues estarem sendo transferidos para as periferias da cidade. 6. Com o argumento de um suposto embelezamento da cidade, a prefeitura de São Paulo pratica uma política higienista agredindo a dignidade humana de nossa população e criminalizando a pobreza. DIANTE DISTO, EXIGIMOS: o A participação na construção de políticas públicas com um diálogo franco, direto e constante com a prefeitura. o A atuação integrada das Secretarias Municipais para buscarmos juntos/as soluções eficazes para a inclusão de pessoas que foram excluídas da nossa cidade. o Livre acesso às ruas e ao centro da cidade. o Fim da opressão e repressão da população empobrecida do centro. Temos direito de trabalhar, morar e organizar nossa vida no centro da cidade de São Paulo, local onde sempre estivemos. A firmeza permanente na luta e conquista de nossos direitos vai prosseguir! Não se iludam os que pensam que abriremos mão do que é nosso! Assinam: Pastoral Operária, Pastoral da Mulher Marginalizada, Pastoral da Moradia, Pastoral do Povo de Rua, Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Movimento Povo da Rua, Pastoral Indigenista, Pastoral do Menor, Pastoral da Juventude, Movimento Fé e Política, CEBs, Conselho Indigenista Missionário (CIMI-SP), Serviço Franciscano de Apoio à Reciclagem (RECIFRAN), Cooperativa de Catadores do Glicério, Organização de Auxilio Fraterno (OAF), Casa da Solidariedade do Ipiranga, SPM - Pastoral dos Migrantes, CLASP (Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo), Pastoral da Criança, Cedeca, Pastoral Afro, Pastoral da Sobriedade, Pastoral Carcerária. Apóiam: Irmãs Catequistas Franciscanas, Grupo Justiça e Paz Irmã Dorothy - CRB - SP, Padres Oblatos de Maria Imaculada, Serviço de Paz, Justiça e Ecologia do Brasil (SERPAJE), Educação de Carentes e Afro-descendentes (EDUCAFRO), Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS). LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

127 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Documentários - Filme aborda a relação entre moradores de favela na Vila Madalena e seus vizinhos Divulgação A convivência entre moradores de uma favela da Vila Madalena com os moradores mais abastados das redondezas foi abordada no documentário Vizinhos, de Marta Nehring. Por meio dos depoimentos é possível observar como se dava a relação entre esses vizinhos tão diferentes e o que uns pensavam sobre os outros. Cena do filme Vizinhos O documentário, finalizado em 2004, retrata o início do bairro da Vila Madalena e seu desenvolvimento urbano, revelando que a cidade de São Paulo cresceu de forma desordenada, unindo pessoas de diferentes níveis sociais e econômicos em um espaço cada vez menor. A favela, que foi removida no final do primeiro semestre de 2005, também será o tema do próximo filme de Nehring. A documentarista filmou todo o processo de despejo, a derrubada dos barracos e o debate entre os ex-moradores sobre a situação, analisando os reais motivos que os levaram a serem expulsos do local. Divulgação O filme Vizinhos participou da 28ª Mostra de Cinema em São Paulo e da 17ª Mostra de Audiovisual Paulista. Atualmente está selecionado para o 12º Festival de Cinema de Cuiabá e o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba. Cena do filme Vizinhos LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

128 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Comunicado da Secretaria do Estado, responsável pela remoção da comunidade de Nassau: Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2004 Começa nesta terça-feira, dia 7, a remoção de 348 famílias que vivem na favela Nassau, localizada na avenida Raimundo Pereira Magalhães, n 4.001, em Pirituba, para apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Os imóveis estão localizados nas zonas leste, norte e sul da cidade. A desativação da favela será iniciada às 10 horas, com a derrubada dos primeiros barracos. Autoridades estaduais irão acompanhar a mudança das 14 primeiras famílias para o Conjunto Habitacional da CDHU, onde entregam as chaves dos apartamentos aos moradores. O empreendimento fica na avenida Raimundo Pereira de Magalhães, n 9.491, em Pirituba, distante três quilômetros da favela. Ao todo, os moradores da favela serão transferidos para quatro endereços e as mudanças serão feitas em etapas até o próximo dia 13. Durante a entrega das chaves, será assinado um convênio que formaliza a transferência de todas as famílias da favela Nassau para os empreendimentos da CDHU. Para evitar novas ocupações, o convênio prevê, além da demolição dos barracos, a retirada dos entulhos, execução de um projeto de paisagismo e a recuperação de um muro existente no local. Os novos apartamentos possuem 44,73 m² e 45,46 m² de área construída e contam com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. O investimento da CDHU nos quatros empreendimentos é da ordem de R$ 12,8 milhões. A favela Nassau existe há 15 anos e a erradicação que será realizada faz parte de um amplo programa do Governo do Estado: o Pró-Lar Atuação em Favelas e Áreas de Risco, desenvolvido pela CDHU para garantir melhores condições de vida às famílias que moram em situação precária, em barracos sem infra-estrutura e em condições totalmente insalubres. A comunidade de Nassau transferida para os empreendimentos da CDHU está inserida nesse programa. Durante os seis primeiros meses, nenhum morador pagará prestações dos imóveis. Após este período, quem tiver renda familiar mensal de um salário mínimo, pagará R$ 39,00 por mês à Companhia. Além disso, todos terão carência de dois meses nas contas de água e luz. A CDHU também fará o trabalho social e de convivência condominial com os moradores. A CDHU vem desenvolvendo há sete meses um trabalho social junto aos moradores da favela Nassau para identificar as condições socioeconômicas de cada família com o objetivo de realizar melhor inserção e adequação da população no programa. Permuta - Um dos empreendimentos para o qual as famílias serão transferidas foi construído pela Prefeitura de São Paulo. As famílias serão atendidas por causa de uma permuta de demanda realizada com a municipalidade. A parceria previa que a CDHU iria atender famílias da favela Jardim Primavera, zona leste da Capital, que estavam assentadas em faixa de obra do córrego Taboão. Ao todo, 200 famílias da favela foram transferidas para o empreendimento Iguatemi D construído pela CDHU e outras 72 serão atendidas até o fim deste ano, no conjunto Itaim Paulista C, também edificado pela CDHU. Em contrapartida, a Prefeitura de São Paulo disponibilizou 200 moradias do empreendimento City Jaraguá para atender famílias que viessem a ser definidas pela companhia. O atendimento será feito agora para 200 moradores da favela Nassau. Melhorias no bairro - Outra favela próxima a Nassau e que já foi desativada em março deste ano, é a Anástacio. Foram transferidas 145 famílias para o conjunto Pirituba B, na avenida Raimundo Pereira Magalhães, n 9.851, ao lado do conjunto Jaraguá I, para onde vão 140 famílias da Nassau a partir desta terça-feira. O investimento da CDHU no empreendimento Pirituba B foi de R$ 4 milhões. De 2003 até hoje, o Governo do Estado investiu R$ 1,2 bilhão em programas habitacionais da Região Metropolitana de São Paulo, sendo que desses R$ 188,6 milhões beneficiaram mais de 12 mil famílias com novas moradias e urbanização de áreas degradadas. Foram realizadas, por exemplo, na capital, a remoção das favelas Paraguai, Viaduto e Anastácio, Vila da Paz, entre outras. Da Superintendência de Comunicação Social da CDHU Por Victor Emanuel Lopes (LRK) LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

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130 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. O pior de Madrid proposta do ator e comediante Leo Bassi para denunciar as intervenções agressivas do poder público, privado (e religioso) na cidade. E S P A Ñ A, 6 de marzo del 2004 Última salida del BassiBus esta temporada: Una imagen impactante recordará la guerra de Irak Viaje a "lo peor de Madrid": Turismo lúdico-político Leo Bassi Con la presentación en Madrid de los servicios Bassibus, Leo Bassi inaugura una nueva era del turismo en la capital: el Turismo Político. Consciente de la importancia para la economía española de estar a la última en las nuevas tendencias turísticas, Leo Bassi ha decidido revolucionar la manera de gozar de Madrid. Sin menospreciar la importancia de sus monumentos, museos y parques históricos, el artista italiano quiere demostrar que el prodigioso crecimiento urbano de los últimos años ha creado nuevos y sorprendentes lugares de grandísimo impacto visual y emocional que los clásicos "Tour Operadores" ignoran. Con esta filosofía nace "Viaje a lo Peor de Madrid". Para llevar a la gente adonde nadie les ha llevado antes, visitando el Madrid de hoy, con sus horrores estéticos y sus desastres ecológicos y sociales. Recordando los atentados contra la memoria histórica, las burlas al código penal, las estafas astronómicas y el asalto planificado al sistema democrático... Una ciudad donde los ricos que viven en urbanizaciones-búnker defendidas por ejércitos privados. Una ciudad de sectas medievales que dominan el mundo de las finanzas, de niños que caminan sin zapatos en las aldeas de chabolas rumanas; de pistas de nieve artificial que pertenecen a dueños iraquíes y de tumbas faraónicas para viejos dictadores. Un Madrid lleno de grúas, invadido de asfalto y de hormigón. Con proyectos ambiciosos y que, al mismo tiempo, resulta profundamente paleta y provinciana en su deseo de ser "moderna". Una realidad patética que encanta al Bassi-Bufón y que hace de Madrid un espectáculo esperpéntico, felliniano, de una comicidad inmejorable... y que disfrutarán los pasajeros de los Bassibus. Una última consideración. La iniciativa es profundamente política teniendo en cuenta como telón de fondo las elecciones del 14-M. Constatando el estado de desánimo de la oposición en España, el Bassibus, en su humilde propuesta, pretende reavivar el espíritu rebelde y crítico sin el cual la democracia no puede desarrollarse. Los seis viajes anteriores del BassiBus 25 de enero- En el primer viaje a "Lo Peor de Madrid", el Bassibus viajó al Valle de los Caídos. Se proyectó una entrevista en vídeo con uno de los únicos presos todavía vivos que trabajaron en su construcción, el historiador Nicolás Sánchez Albornoz, y se presentó Francolandia, el parque temático sobre el franquismo. La guinda final la puso el irreverente bufón italiano afincado en LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

131 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. España, que colocó una foto de la reunión de Franco y Sadam Hussein en 1974 sobre la tumba del dictador español. 1 de febrero- En el segundo trayecto, se visitó la estación del AVE en Yebes, Guadalajara, a 10 km. de la ciudad para satisfacer los intereses inmobiliarios de la familia de la presidenta de la Comunidad de Madrid, Esperanza Aguirre, en concreto, de la tía de su marido, que es propietaria de las fincas colindantes y pretende construir allí toda una ciudad para habitantes. Previamente, el autobús pasó por la sede del Partido Popular, en la calle Génova, y sus alrededores, donde se encuentran la galería de arte Marlborough y el restaurante Jockey, del que es dueño el ex-consejero de Obras Públicas de la Comunidad de Madrid, Luis Eduardo Cortés, y en el que un filete cuesta 67. La carta de Jockey le fue mostrada más tarde al patriarca de un poblado gitano, quien no pudo emitir juicio alguno sobre la misma porque.. no sabía leer. 8 de febrero- En el tercer viaje del Bassibus, los pasajeros pudieron contemplar el parque de nieve Xanadú y sus tramas inmobiliarias, la sede de Euroholding, buque insignia de Francisco Vázquez y su sobrino Francisco Bravo, empresarios implicados en el escándalo de Tamayo y Sáez. El actor Gustavo Gonzalo, protagonista del cartel preelectoral del Partido Popular, confesó ante la sede de este que no vota por el PP. 15 de febrero- En el cuarto y último viaje, se fue al Parque temático de la Warner, donde se concedió el I Bassibus "Lo Peor de Madrid" a los directivos de AOL Time Warner y Six Flags por su inteligencia empresarial al controlar el establecimiento de ocio con la posesión únicamente de un 4 por ciento de las acciones, y se pudo contemplar las vastas extensiones de terreno circundantes en las que está previsto crear un amplio complejo residencial para personas con los concomitantes centro comercial y campo de golf. 22 de febrero- Leo Bassi regresa al Valle de los Caídos con una caravana de seis Bassibuses, con 340 personas y periodistas de Alemania, Francia, Portugal y España. Sorprendentemente, Patrimonio Nacional cerró el monumento nacional sin explicación alguna y no devolvió un céntimo de los euros que los pasajeros habían pagado por sus entradas. También se visitó la urbanización donde vivirá Aznar, el futuro cuartel general de la OTAN en España y se saltó la valla del campo de golf municipal de Majadahonda, para pasear por la vía pecuaria que invade. 29 de febrero- Esta vez "Lo peor de Madrid" estuvo dedicado a la organización ultracatólica de los Legionarios de Cristo, cuyo poder se acrecienta año tras año apoyado en personas cercanas al gobierno Popular, como Macarena Botella, hermana de Ana Botella. Visitamos su entorno socioeconómico en las urbanizaciones del noroeste de Madrid, la "catedral" de Pozuelo, la universidad Francisco de Vitoria, también en Pozuelo y, la Plataforma de Padres del Colegio Virgen del Bosque, adquirido por Legionarios de Cristo el septiembre pasado, nos puso al día de la difícil tarea de trabar el proceso de implantación de su reaccionario plan educativo. El viaje terminó en el polo opuesto, en el poblado gitano de "La Jungla", en Mejorada del Campo, bailando sevillanas y con Leo Bassi atravesando un tupido muro de cajas de cartón en una minimotocicleta. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

132 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Mundos Soñados boletín organizado por el colectivo Fiambrera Obrera Bienvenidos a esta edición de mundos Soñados. Esta es la revista de nuestra agencia de viajes especializada en turismos inversos. El turismo es un fenómeno universal. La humanidad nunca ha dejado de viajar y realizar intercambios: yo voy a tu playa, tu vienes a mi invernadero, yo saqueo tu país, tu trabajas por cuatro duros en el mío. Mundos Soñados nos acerca de nuevo a la experiencia de Viajar, la que nos hace sentir esa punzada que supone llegar a sitios desconocidos, encontrarse con otros climas, con otras costumbres, con la misma policía... sentir dulcemente que echamos algo de menos: los papeles, un trabajo digno, que nos consideren seres humanos. En "mundos Soñados" hemos pensado en todo. Deseamos que nuestra revista sea una revisión de todas aquellas posibilidades que Vd. sabe que existen pero que nunca ha conocido de cerca: de entrada disfrute de "Port SIVEntura" el parque temático especializado en sistemas de vigilancia costera. Conozca las últimas tecnologías en detección de cuerpos calientes. Los cuerpos fríos como el dinero siguen siendo indetectables. Entre en los más excitantes viajes a la naturaleza de plástico con invernaderos, mosquitos y mucho calor en nuestra sección de Turismo Verde, o las posibilidades de multiaventura que nuestras ofertas de Turismo Kaki. Si lo que desea es quedarse unas semanas interminables aquí le mostraremos una rigurosa selección de hoteles para todos los disgustos de la cadena "Paradores de Internamiento". Y para volver a su país con casi ninguna garantía, aquí encontrará las mejores ofertas de Deportation-Class, para su deportación en románticas bodegas de ferry o en sedantes vuelos regulares. Todo esto en un sector en plena expansión: no olvide que nuestro mercado natural, el de la gente más pobre del planeta, no ha dejado de crecer, como nuestros beneficios, en las últimas décadas. Será casualidad que los mismos destinos del turismo convencional sean los puntos de partida de este "turismo inverso" en que se especializa mundos Soñados? Qué aquellos países que alguna vez fueron colonias, sean ahora los principales proveedores de materias primas y mano de obra barata y dócil? Y si no es suficientemente barata y dócil, no hay más que ajustar las leyes de extranjería, estamos en ello, amenazar con deportar a cientos de miles de personas y seguir con el negocio. Pero sobre todo no olvide que la riqueza no ha dejado de crecer, tanto que los países más ricos ya ni siquiera van a las "cumbres contra el hambre", la riqueza ha crecido tanto que la gente tiene cada vez menos: menos derechos sociales, menos libertades, menos futuro y sobre todo menos presente... Quién nos quita eso que nos falta? Bienvenido pues a mundos Soñados, de donde quizá nunca haya salido por lo demás. * * Extraído de Mundos Soñados, versão digital da revista impressa distribuída em centros culturais e nas ruas de Madri. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

133 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Fragmento de texto publicado no site do Metareciclagem: Estranho como idéias e objetivos perdem seus valores tão rápidamente, em tão curto tempo. Estranho ver tantos prédios nos centros de grandes cidades abandonados, mais parecendo uma cidade fantasma - como São Paulo. Por outro lado milhares de famílias nas ruas, jogadas a própria sorte. As possibilidades vão se fechando por todos os lados: sem casa, já não conseguem emprego, nem estudar; e o olhar preconceituoso da cidade fecha todas as outras portas. Mas que sociedade estamos falando? Não estamos nela? Não somos essa sociedade? Essas pessoas têm seus sonhos, apesar de estarem na rua. Esses sonhos começam a se realizar ao se ter novamente uma casa, um endereço. Para isso se unem para ocupar, ocupar espaços mal utilizados, espaços que ficam desocupados enquanto se espera ter mais valor enquanto famílias estão nas ruas. "Todo espaço mal utilizado será ocupado". E cresce o Movimento Sem-teto Uma quantidade enorme de componentes eletrônicos jogados no lixo, produção desenfreada de bens; o que faremos com esse todo lixo uma vez que tudo se torna inútil tão rápido? Dá-me uma chave de fenda e meia-dúzia de idéias velhas e transformarei o mundo. Essa é a idéia do Metareciclagem. Metareciclagem ocupando espaços. Sem-tetos apropriando o conhecimento. Sem-tetos escrevendo a história, sua história. questionando a forma de escrita, quem escreve e para que escreve. Metareciclando espaços: escolas, o trabalho, as idéias, fazendo do lixo armas para construção de outra sociedade. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

134 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. LEMA: LA PAZ IDENTIDAD MEDITERRANEA LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

135 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. LEMA: LA PAZ IDENTIDAD MEDITERRANENEA A. ANTECEDENTES B. PROYECTO 1. AUMENTO DE DIVERSIDAD 2. EFICIENCIA ENERGÉTICA, SOSTENIBILIDAD, NORMATIVA AMBIENTAL 3. HIBRIDACIÓN PROGRAMÁTICA 4. COMPACIDAD: CIUDAD MEDITERRÁNEA 5. REGENERACIÓN DEL TEJIDO SOCIAL 6. REFUERZO Y DESARROLLO DE LA IDENTIDAD DEL BARRIO 7. INTEGRACIÓN MURCIA LA PAZ 8. GESTIÓN ECONÓMICA PARTICIPATIVA C. RESUMEN NUMÉRICO LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

136 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. A. ANTECEDENTES La difícil situación a la que se enfrenta el concurso nos hace pormenorizar en las antecedentes, causas e historia del barrio a tratar en este proyecto-estudio de La Paz e inevitablemente de la ciudad de Murcia. El barrio conflictivo debe solventar sus deficiencias desde la actuación en diferentes frentes, variados y heterogéneos a múltiples niveles. De esta forma, el proyecto presentado atiende a esos aspectos diferenciados, algunas veces fuera de la propia arquitectura, No se pretende hacer un extenso documento; más bien un escrito conciso que mira directamente a la problemática, la analiza y plantea soluciones. Desarrollamos a continuación los puntos detectados en el estudio sobre las carencias del barrio y las características de los habitantes del mismo y la situación de sus hogares. 1. PUNTOS DESFAVORABLES DE LA ZONA: - Deficiente desarrollo del planeamiento urbanístico interno de los barrios. - Alta densidad de la población. - Presencia de un núcleo de viviendas de renta baja y por consiguiente una concentración de población de bajo nivel económico y formativo. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

137 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. - Ausencia de equipamientos de servicios que atraigan al resto de la población del municipio a la zona. - Altas tasas de desempleo, mas altas que la media municipal, baja cualificación profesional y poca presencia de mujeres en el mercado de trabajo - Alta presencia de grupos de etnia gitana y la presencia incipiente de inmigrantes que se espera aumentar con el aumento del grupo en España y Murcia. - Debilidad de la actividad comercial y de servicios y, como consecuencia, de la capacidad de generar nuevos empleos, al que se añade a la percepción subjetiva de inseguridad en la zona que dificulta la atracción de inversiones en la zona. - Presencia de puntos conflictivos de venta de drogas y la irradiación de la inseguridad para el resto de la zona. - Altas tasas de abandono, absentismo y fracaso escolar asi como analfabetismo. - Envejecimiento de la población y paulatino despoblamiento. 2. PUNTOS FAVORABLES DE LA ZONA: - Fuerte desarrollo de las zonas circundantes. - Proximidad con el casco histórico y la zona comercial. - Presencia de 3 ejes de comunicación que conectan con el resto de la ciudad y del municipio. - Posibilidad del aumento de los equipamientos por la demolición y traslado del estadio La Condomina como motor de impulso del desarrollo económico. 3. CONTEXTO Los datos más relevantes para el conocimiento de la situación que nos ocupa, son los indicadores demográficos que nos permiten apreciar las singularidades de las personas que habitan el barrio. Según las fuentes proporcionados por los organizadores del concurso los datos de interés son los siguientes: Datos demográficos 2005 Sexo y edad LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

138 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 1. La distribución de la pirámide entre las mujeres de La Paz es la que menos sigue el diseño general de la distribución de la ciudad. 2. La distribución de población total de hombres (48.73%) y mujeres(51.24%) en el barrio no es tan distinta del total de Murcia (hombres 49.65% y 50.35% mujeres). 3. Menor presencia en La Paz de residentes entre 31 y 60 años. Sucede lo mismo con el porcentaje mayor de personas de en el barrio frente al total de la ciudad. Gráficos creados por los concursantes: Pirámide de población Piramide Murcia Hombres Mujeres % % o mas hasta LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

139 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Piramide La Paz Hombres Mujeres % % o mas hasta Piramide Murcia vs. La Paz Murcia La Paz % % o mas hasta Nacionalidad Nacionalidad La Paz % % % Hombres Mujeres Total Espana Ecuador Marruecos Bolivia Senegal Nigeria Ghana Ucrania Otros LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

140 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Crecimiento y densidad En cuanto el municipio, tiene un 9,2% de crecimiento, la Zona con todas sus áreas tiene un decrecimiento de 9,5% en su población, casi 3000 habitantes en 10 años. La tasa de natalidad es mas alta que la media municipal (1,7).En La Paz la media es de 1,9, crecimiento que concretamente queda anulado por el abandono continuo de residentes pero no mejora la situación para las familias. La densidad en la Zona es alta, casi el doble de la ciudad de Murcia: Ciudad de Murcia Zona Urban (no solo La Paz) hab por km hab por km2 Nivel formativo Instruccion La Paz Hombres % Mujeres % Total % menor de 5 anos analfabetos educacion primaria formacion profesional_ba titulo de posgrado LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

141 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Instruccion Murcia Hombres % Mujeres % Total % menor de 5 anos analfabetos educacion primaria formacion profesional_bac titulo de posgrado Instruccion Murcia vs.la Paz Murcia % La Paz % menor de 5 anos analfabetos educacion primaria formacion profesional_bac titulo de posgrado Tasas de paro La no incorporación de la mujer en el mercado de trabajo es un problema de la ZAU pero también de toda la ciudad de Murcia, según dados de la memoria. La tasa general de paro en la Zona es 3 puntos más alta que la media de la ciudad. Distribución de la actividad económica La actividad económica está fragmentada y concentrada en el comercio minorista y de servicios a personas, con carácter familiar y de baja profesionalización. Notese la LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

142 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. muy baja presencia de licencias a empresas y comercio mayorista, lo que torna frágil el dinamismo económico en la zona. La percepción de inseguridad es un hecho que impide la entrada de empresas y personas de otras áreas de la ciudad en la zona con propuestas de activación económica, así como el perfil de los habitantes de la zona, que no atraen a empresarios locales. Situación actual de las viviendas Hay en el barrio 2300 viviendas construidas en los años 70 inferiores a 40m2 de superficie útil, con baja calidad de construcción y en mala conservación. Muchas de ellas en estado insalubre y sin los requisitos mínimos que exige la normativa actual de construcción y habitabilidad. Hay muchos relatos de habitantes que se quejan de suciedad, malos olores, poca aireación y falta de iluminación natural en los edificios. Se añade a eso el problema de viviendas ilegales y hacinamiento (hasta 3 familias por vivienda). Es destacable que el 35% de las viviendas sociales o gratuitas de la ciudad están concentradas en la zona. Los edificios tampoco disponen de bajos comerciales, lo que impide una actividad diurna de diversidad barrial. No hay índices generales de Murcia para comparaciones en términos de precio de la vivienda, pero se sabe que las viviendas de la Zona están entre las mas baratas de la ciudad. B. PROYECTO Bajo la nueva realidad que poco a poco se va planteando en los proyectos de urbanismo, y en la época que vivimos, definimos y defendemos nuestro proyecto como una propuesta que surge de la evolución de las necesidades, de las formas de pensar y actuar, de los nuevos vínculos sociales y familiares, el desarrollo de las nuevas tecnologías y los cambios naturales que nos deben hacer pensar en proyectos sostenibles a lo largo del tiempo. Damos el paso de no definir una planificación urbana, sino algo mucho más completo y que debe definirse con conceptos exteriores a la propia arquitectura, LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

143 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. como he dicho antes. La Paz necesita una Gestión Estratégica urbana participativa. Proponemos, a través de una estrategia común a muchos aspectos, una serie de puntos que definen todos los niveles de actuación y participación de los diversos agentes que deben intervenir en este proceso. Enumeramos y desarrollamos los puntos clave de nuestra propuesta: 1. AUMENTO DE DIVERSIDAD Actualmente el barrio de la paz adolece de una excesiva homogeneidad de usos y funciones. El nuevo barrio, debe huir de la planificación funcionalista (zonificación aislada de programas). Se dota al barrio de un aumento de complejidad de usos aumentar las posibilidades de ocio, comercio, viviendas, etc. Se trata de generar un barrio vivo, donde el resto de los murcianos puedan disfrutar de el también. El barrio de la paz como lugar vivo y vital. Referente dentro de la ciudad de Murcia. Con el aumento de diversidad se incrementa el grado de organización de un territorio y su potencial intercambio de información con los demás barrios. En todo momento se huye de crear espacios "exclusivos" según niveles de renta o niveles de programa. La ciudad actual produce un urbanismo complejo y diverso, dando respuesta a la cantidad de realidades sociales y a sus diferentes situaciones A partir de los datos socioeconómicos actuales, sabemos que hay un problema crónico de desnivel en términos de franjas sectarias y de formación al nivel de los residentes actuales, y una baja diversidad en la conformación actual del barrio, que genera un aislamiento del área y una des-continuidad con el entorno. El objetivo es la utilización mixta y reurbanización de terrenos abandonados de modo compatible con el medio ambiente. La diversidad está reflejada en la propuesta general del barrio, de alta mezcla, permeable, donde no hay un plan homogéneo, que privilegie apenas a un tipo de LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

144 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. público, ni impositivo en términos de diseño. Se toma en cuenta las personas que viven actualmente en La Paz, pero también el aumento deseado de la ocupación, más aún a partir de la presencia de públicos con otros niveles formativos y edad económicamente activa que han dejado el barrio en los últimos años. La percepción de inseguridad es más importante que la inseguridad en si misma, no confirmada en los datos oficiales. De esto se deduce que el cambio externo de la zona debe dar la impresión de un área segura, con iluminación artificial, cámaras, o otras estrategias, como parte de una acción que no segregue ni excluya la zona del resto de la ciudad. No hay marquesinas para la espera en paradas de autobús, así como de señalización vertical y horizontal tanto direccional como informativa. Comercio El comercio es un punto importante del proyecto; la situación marginal de esta zona frente al centro comercial (mismo con su proximidad al centro histórico) es uno de los problemas que traen la poca circulación de personas de fuera del barrio y no crean una dinámica con los barrios vecinos, aumentando la sensación de gueto de pobreza y estimulando la práctica de actividades marginales. El proyecto busca atraer inversiones de la iniciativa privada, principalmente por medio del estímulo del aumento de la densidad poblacional así como su diversificación en términos de renta y edad. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

145 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. El proyecto afirma que si es posible cubrir,a la población más pobre el acceso a la vivienda en el barrio por medio de políticas públicas o privadas, muy difícilmente se podrá mantener sus casas si no hay una ampliación del estoque general de viviendas, caso contrario, la transferencia de la residencia a los sectores de población de mayor poder adquisitivo será inevitable. Otra cuestión que se plantea es el crecimiento de la ciudad de Murcia, lo que amplia poco a poco la idea de centro y transfiere el problema de donde localizar las áreas de habitantes de baja renta hasta su confrontación con la especulación inmobiliaria. La idea es trabajar con conceptos mixtos de clases y usos locales, mismos en áreas urbanas de tamaño reducido. La tipología del comercio prevé la atracción susceptible (compra por impulso), a partir de pequeños comercios con venta de productos de oportunidad y la atracción de barrio, como talleres y oficinas de interés general para la ciudad y negocios en colaboración, combinados con las ofertas de equipamientos. Los comercios de la región deben aprovechar el ambiente urbano, ser una compra por paseo, al azar. El centro cultural y las residencias de estudiantes serán participes de la generación del flujo y convivencia social que es propuesta y al mismo tiempo aprovechada por los comercios y hostelería. La arquitectura de los comercios que se propone está en íntima relación con el proyecto general urbano del barrio. El comercio informal, los rastrillos, son buenas oportunidades de generar atracción de flujo y al mismo tiempo promover modos de subsistencia a grupos todavía menos profesionalizados y con menores condiciones financieras. 2. EFICIENCIA ENERGÉTICA, SOSTENIBILIDAD, NORMATIVA AMBIENTAL Entre los parámetros de situación ambiental más determinantes destacamos lo que a continuación siguen: LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

146 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. - Alta contaminación atmosférica debido al tráfico en la región, la temperatura, ausencia de vento y precipitaciones, etc, que no es un problema específico de la zona, sino de toda la ciudad. - Presencia de zonas verdes en deterioro. - Residuos presentes fuera de contenedores y en algunos puntos tirados por la calle. - Zona de aparcamiento que no pertenece a los residentes y ausencia de ciclovía y en algunos puntos, zona peatonal. A partir de estos datos evidentes tras la inspección visual de la zona, determinamos las siguientes condiciones a tener el cuenta en el proyecto respecto a la localización y particularización del barrio de La Paz en Murcia. La reflexión sobre la adecuación entre recursos y eficiencia energética en la ciudad debe estar ligada con las densidades, las tipologías edificatorias y los grados de habitabilidad del parque edificado existente, integrados convenientemente en todos los documentos de planeamiento urbano. Se propone la adecuación de una normativa ambiental específica para Murcia. Se propone como estrategia las siguientes actuaciones: Se estudian las cartas bioclimáticas de olgyay y de givoni para Murcia. A partir de ellas se determinaron las necesidades específicas para alcanzar las condiciones de confort, tanto a escala urbana como a escala del edificio, especificándose las estrategias generales para las necesidades de captación o protección solar, las relativas al viento y por último las del aporte de humedad al ambiente. El proyecto prevé la reducción y tratamiento de residuos, gestión eficiente del agua y reducción del ruido, reducción del consumo de energía a base de hidrocarduros. 3. HIBRIDACIÓN PROGRAMÁTICA LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

147 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. El plano de trabajo propuesto esta dividido en tres niveles. El primero privilegia el uso público, con comercio mixto de pequeñas y medianas proporciones, aparcamiento, equipamientos, áreas verdes y viviendas. El nivel 1 tiene un uso mas concentrado en equipamientos, menor presencia de comercio y mayor presencia de viviendas. El nivel 2 prioriza las viviendas y tiene uso más privado. Los problemas principales que tiene el barrio en términos urbanísticos son: - Alta densidad - Alta homogeneidad - Desconexión con el entorno El mal estado de las viviendas actuales y el concepto de la mezcla como fundamento para regenerar el tejido social nos llevan a reconstruir el barrio creando nuevas viviendas de mejor calidad y al mismo tiempo insertando actividades económicas y sociales distintas que sirvan de generadores de diversidad. La distribución por el barrio en los 3 niveles propuestos crea un tejido de viviendas y usos comerciales que generan movimiento y actividad, regenerando el barrio en puntos distribuidos por toda la zona y al mismo tiempo permitiendo una apertura para nuevos usos y crecimiento interno y conexión con el exterior. No se piensa en una actuación planimétrica. No tiene sentido hablar de la mezcla si no podemos desarrollarla en todas las direcciones. De esta manera la propuesta se convierte en volumen planificado de manera inmediata. Tipos de actividades previstas: - Pequeños y medios comercios que visan crear una red de conexión externa y flujo interno. - Espacios de uso social interno y externo - Oficinas y talleres que mezclen lo público y lo privado - Viviendas que atiendan a la población actual y la nueva y las conecten a la vida social de la calle. Descripción de las capas o niveles propuestos: LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

148 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 4. COMPACIDAD: CIUDAD MEDITERRÁNEA Rescate de los valores de la ciudad mediterránea. Se pretende una ciudad compacta, densa y heterogénea, con gran continuidad formal, multifuncional, heterogénea y diversa en toda su extensión. Es un modelo que permite concebir un aumento de complejidad en sus parte internas que es la base para obtener una vida social cohesionada y una plataforma económica competitiva, al mismo tiempo que se ahorra suelo, energía y recursos materiales, y se preservan los recursos agrícolas y naturales. Se aumentan el número de viajes a pie, lo cual produce una mejora de la calidad urbana. Se mejoran y amplían los itinerarios peatonales y el mosaico de plazas y zonas verdes. La compacidad como primera medida para un desarrollo sostenible. Lejos de crear inmensas redes de infraestructuras para una baja densidad, la compacidad de la ciudad que proponemos permite una mayor economía de medias a todos los niveles. En otro sentido, la estrategia compacta nos ayuda a poder crear una densidad y variedad cercana del tejido social. La mezcla reacciona mejor cuanto más cerca esté una de otra. La intensidad de relaciones que permite la cercanía y la densidad al mismo tiempo, no tiene reflexión en ningún otro sistema de habitabilidad. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

149 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. El transporte público puede ser racionalizado y conseguir, con voluntad de hacer un servicio eficiente que atienda a la práctica totalidad del barrio. Todo esto a un coste entrópico menor que el derivado de una movilidad equivalente en transporte privado. Las alternativas de transporte en la ciudad compacta son el medio que permite obtener una mayor complejidad del sistema que, en términos de información, implica hacer más próximos los entes del sistema urbano con relación potencial y poder acceder a los intercambios con medios de menor consumo energético y un menor impacto sobre los sistemas naturales. 5. REGENERACIÓN DEL TEJIDO SOCIAL La propuesta trata de integrar desde el sindicalismo la experiencia del trabajo en el entorno, a incorporar desde el movimiento vecinal nuevas dimensiones al concepto de calidad de vida. Se trata de superar la tendencia de algunos movimientos a actuar como grupos de presión de un solo tema, pues esto permite tomas de decisión más opacas y convierte a los gobiernos en árbitros de una resultante de fuerzas contrapuestas. Debido a las situaciones extremas que ya tenemos en el barrio actualmente, utilizaremos la vivienda como entronque para un mayor enraizamiento social. La combinación de diferentes rentas, etnias y situación social dentro de los límites razonables pude crear, como en experiencias anteriores positivas, un nuevo orden social más igualitario para todos y de mayor enriquecimiento. Paralelo a esto, se debe incrementar la asistencia social que ya existe a los grupos más desfavorecido, por diferentes causas. Los principales usuarios de los servicios sociales son actualmente personas con problemas de minusvalía, baja formación o formación nula e ingresos económicos que no cubren las necesidades básicas. La idea es mantener las ayudas que ya se ofrecen y ampliarlas a grupos y enfoques todavía no atendidos (inserción laboral, entrenamiento de comerciantes, proyectos de colaboración entre poder público y privado). Plan de asociaciones LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

150 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Los principales usuarios de los servicios sociales que actualmente se ofrecen en la zona son mujeres, que en el caso de la zona constituyen el centro de la familia. Son personas con problemas de minusvalía, baja formación o formación nula y ingresos económicos que no cubren las necesidades básicas. La idea es mantener las ayudas que ya se ofrecen y ampliarlas a grupos y enfoques todavía no atendidos, crear organizaciones de vecinos con distintas aportaciones, que trabajen en el ámbito de la ayuda a los propios vecinos y sirvan como forum de discusión de las ideas que se van implementando, al mismo tiempo que crean un grupo de interlocución con el poder público, privado y la población de otras áreas de Murcia: Las asistencias deben encaminarse en los siguientes sentidos: - Acompañamiento de la gestión urbana por los vecinos. - Asesoramiento para la inserción laboral a partir de planes españoles y europeos de ayuda; pacto a favor del empleo por parte del empresariado. - Ayuda a la administración del hogar. - Integración de marginados y acceso a los servicios básicos - Educación de adultos. - Asesoramiento a los niños por profesores, educadores, equipo psicopedagógico - Entrenamiento para pequeños comerciantes, mejorar procedimientos de gestión, identificar nuevos canales de comercialización, establecer proyectos de colaboración con otras empresas, etc. - Incentivar la creación de nuevas actividades económicas, apoyar la gestión empresarial con ayuda profesional, jurídica y económico-financiera. - Incentivar las cooperativas comerciales vecinales. - Crear una estructura de colaboración entre ciudades Europeas y asociaciones con experiencias y cuestiones similares - observatorio 6. REFUERZO Y DESARROLLO DE LA IDENTIDAD DEL BARRIO LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

151 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Dentro de la estrategia global se entronca como cuerpo de todo el desarrollo la creación de actividades coordinadas con la formación, estimulando la producción y divulgación de procesos y productos culturales de los residentes y sus relaciones con la vida cultural de la ciudad de Murcia. El objetivo es desarrollar actividades y talleres que supongan el desarrollo de destrezas y habilidades de los distintos miembros de la unidad familiar y fomentar la convivencia y las relaciones grupales que provoquen percepciones positivas de las relaciones sociales y promueven la readaptación social. Combinar proyectos de educación con proyectos culturales (ya que la propia separación entre los dos conceptos es bastante discutible) es importante para construir el sentido de auto estima, juntamente con permitir modos de expresión y estructuración simbólica de su entorno por estas personas. Crear un espacio de convivencia e intercambio entre los vecinos estimulando el conocimiento y aceptación mutua. Divulgar las acciones, aclarar sobre los reales problemas del barrio y crear y mantener la fuerza de la identidad local. La idea general es tornar la actuación de las asociaciones más dinámicas en el sentido de traer soluciones a una minoría, y así mismo permitir modos de expresión en distintos niveles de este mismo grupo. También en la propuesta de programas de formación y culturales puedes desarrollarse el potencial de las tecnologías de la información en el barrio; proyectos relacionados con la capacitación de jóvenes pero también el uso crítico de los medios, involucrando colectivos y proyectos de artistas y investigadores para la creación de contenidos de interese local generado y divulgado por los propios vecinos; divulgación de proyectos de recuperación de basura tecnológica y uso de softwares de código libre. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

152 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Centro Cultural y deportivo La asociación de vecinos se queja de que no hay ningún centro de ocio-formacióndiversión para jóvenes en el barrio. El proyecto prevé la creación de actividades coordinadas con la formación, estimulando la producción y divulgación de procesos y productos culturales de los residentes y sus relaciones con la vida cultural de la ciudad de Murcia. El objetivo es desarrollar actividades y talleres que supongan el desarrollo de destrezas y habilidades de los distintos miembros de la unidad familiar y fomentar la convivencia y las relaciones grupales que provoquen percepciones positivas de las relaciones sociales y promueven la readaptación social También está previsto la creación de sistemas de divulgación en la región y para la ciudad de Murcia con oficinas de información, cartelerías y folletos, pagina web, revista de información, reportajes, etc para la creación de una memoria del proceso del cambio del barrio. 7. INTEGRACIÓN MURCIA LA PAZ Eliminación de bordes y fronteras. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

153 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Actualmente el barrio de la paz se encuentra completamente aislado del funcionamiento de la ciudad de Murcia. La Avenida de la Fama y la Ronda de Levante, constituían un límite poco permeable. Una isla en centro de la ciudad. No solo los problemas sociales hacen de este barrio un lugar poco penetrable. Las condiciones físicas del lugar y el planeamiento de los años 50, hacían de este lugar un espacio impenetrable. En el nuevo barrio de la Paz, se conecta la trama con la de la ciudad, permitiendo una mayor accesibilidad y por lo tanto una libre circulación por su interior. Estrategia: Se propone polarizar todo el tráfico en una de las vías de borde (Av. Levante), transformándose en una vía rápida y de acceso a grandes equipamientos. La Avenida de la Fama se hace mucho más lenta y con menos flujo de tráfico para que la conexión con la ciudad sea completa. Transporte público. Se propone como caso concreto la modificación de la ruta de la línea 8 de autobuses, para que recorra de norte a sur el nuevo barrio de la Paz. Este hecho, genera una conexión con el transporte público a 250m de cualquier punto del barrio. 8. GESTIÓN ECONÓMICA PARTICIPATIVA LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

154 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. El proceso de gestión participativa El complicado proceso que afectará a cualquier reforma del barrio de la paz, deberá llevar condigo una propuesta de participación ciudadana si se quieres que todos los esfuerzos lleguen a buen puerto. Esto permitirá establecer criterios de transparencia política y relacional, y a la larga hacia una propuesta muy concretizada con el lugar y sostenible a más largo plazo. La participación y la concertación, al interior de procesos transparentes y democráticos, son elementos clave para avanzar hacia el desarrollo integral y sostenible de los pobladores y sus distritos. La estrategia central de la iniciativa es la participación ciudadana como elemento fundamental de las decisiones de desarrollo local. Este es un claro condicionante para que las acciones dirigidas a mejorar la seguridad humana y calidad de vida sean efectivas. El nivel organizativo establecido es clave en esta iniciativa. La gestión participativa se concentra en los siguientes mecanismos de actuación: -Planificación estrategia integral -Presupuesto participativo -Cogestión del plan integral de desarrollo -Programas proyectos y acciones Un proceso participativo de planificación urbana y de presupuesto Una mayor transparencia y eficiencia en la gestión y administración local con la impulsión de conceptos, mecanismos y herramientas como la co-gestión municipiopoblación, la planificación participativa y el presupuesto participativo. La estructura orgánica de el proceso participativo es el siguiente: LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

155 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

156 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Metodología La metodología a disponer en estos procesos es fundamental a la hora de ser transparentes y tener como vocación el conseguir la mayor satisfacción para todos los habitantes del barrio, tanto los que habitan ahora como los futuros habitantes. Los pasos a seguir son los siguientes: 1.Lanzamiento Público. Comunicación 2. Talleres preparatorios 3. Talleres temáticos 4. Consejo Barrial 5. Consulta ciudadana 6. Consejo Barrial 7. Presupuesto participativa 8. Seguimiento de las acciones Detallamos a continuación los beneficios y las actuaciones a elaborar una estructura orgánica de gestión participativa. - Estímulo a colaboraciones entre la iniciativa privada y el poder público: Reconociendo la imposibilidad de implementación de todos los proyectos con recursos unicamente públicos, las inversiones públicas deberán tener el carácter de estimuladores de la inversión privada. O sea, las acciones del poder público, previamente discutidas con la población, deberán hacer posibles la inversión privada orientada para la LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

157 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. valoración de la área como espacio integrador de una identidad local e del desarollo del barrio. - Creación de un forum permanente de vecinos El grupo (sea por medio de comisiones, centros o asociaciones) debe discutir las acciones presentes y futuras del barrio y servir de puente para el dialogo permanente con el poder público y privado Es importante que las asociaciones y el forum de vecinos estén en constante conexión, para que no se desarrolle la idea de grupos opuestos, segregando la gente más necesitada y poniéndolos en situación contraria a los propietarios de inmuebles en el barrio. Es importante integrar desde el sindicalismo la experiencia del trabajo en el entorno, a incorporar desde el movimiento vecinal nuevas dimensiones al concepto de calidad de vida. Se trata de superar la tendencia de algunos movimientos a actuar como grupos de presión de un solo tema, pues esto permite tomas de decisión más opacas y convierte a los gobiernos en árbitros de una resultante de fuerzas contrapuestas. Al trabajo con el poder público y los vecinos sumase las discusiones con universidades y el propio colegio de arquitectos, mismo después del término de las actividades de recuperación urbanística. Para la participación ciudadana es muy importante elementos visibles que hacen creíbles las voluntades públicas. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

158 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. La gestión del realojo. Debido al mal estado de las viviendas actuales del barrio de la paz. La mal conservación que han tenido, la falta de cumplimiento de la normativa vigente y al hacinamiento de las familias en pisos de 45 m2. La verdadera solución al problema parte por enfrentarse al problema real y no hacer grandes edificios que expulsan a los habitantes a barrios más periféricos sino tratar de crear un nuevo barrio con la identidad de la mezcla. Se plantea una plan estratégico de realojo con los sitemas asociados de movilidad intra barrio y un sistema de demolición selectiva. No se derribará ninguna casa que no haya sido previamente construida en un lugar cercano. Los espacios libres de nuestra propuesta, respecto a lo existente son los primeros en ser construidos. Eso liberará las vías principales para generar el nuvo barrio propuesto. Esta primera fase conlleva que una vez construidos los primerops edificios de realojo se demolerán los antiguos bloques para poder construir sobre ellos de nuevo y volver a desalojar después. Este proceso tiene 3 fases en tiempo que llevarán a construir las viviendas para los nuevos habitantes del barrio de la paz en último término. Todo esto se ve reflejado en la documentación técnica correspondiente. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

159 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. Viabilidad económica de la propuesta En último término de la gestión, el principio de una viabilidad económica clara, está en los planteamientos del proyecto. La alta densidad que ya tenía el barrio de la paz, aunque la ocupación no fuera alta ( hasta tres familias en pisos de 45m2), obliga a que el número de viviendas debe duplicarse para conseguir una armonía en el nuevo orden del tejido social, de la variedad tipológica de viviendas y de cara a conseguir una densidad fuerte y una compactación sobre el barrio para generar la diversidad de usos y la hibridación programática. Sabiendo según las fuentes del concurso, el suelo será cedido por el Ministerio de la Vivienda y el Ayuntamiento de Madrid. Los precios de las viviendas, tanto de construcción (en metros cuadrados construidos) como los precios de venta (sobre m2 construido), están comprobados con la Federación regional de Empresarios de construcción de Murcia FRECOM, sobre precios oficiales en vivienda protegida. Los resultados de los cálculos aproximados de inversión, ventas nos dan un beneficio que permite la viabilidad económica del proyecto sobre la inversión privada. Esto se detalla en el esquema que aparece a continuación y en las tablas numéricas del punto C. LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

160 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. C. RESUMEN NUMÉRICO 1. DIVERSIDAD DE PROGRAMA LEMA: LA PAZ. IDENTIDAD MEDITERRANEA

161 2. INDICADORES URBANÍSTICOS CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD.

162 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 3. PORCENTAJES Y SUPERFICIES PROGRAMÁTICAS 4. TEJIDO SOCIAL Y VIVIENDA

163 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 5. TIPOLOGÍA, PORCENTAJE Y GRADO DE PROTECCIÓN DE LAS VIVIENDAS

164 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 6. ESTUDIO DE LOS GRADOS DE CONFORT PARA LA CIUDAD DE MURCIA.

165 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. 7. ESTUDIO DE LA VIABILIDAD ECONÓMICA

166 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD.

167 CONCURSO DE IDEAS LA PAZ ES POSIBLE. EL BARRIO QUE TODAVÍA PUEDE SER CIUDAD. LEMA: LA PAZ IDENTIDAD MEDITERRANEA

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