A PRODUÇÃO DESIGUAL DO ESPAÇO URBANO: UMA ANÁLISE DO BAIRRO BUGIO EM ARACAJU- SE

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1 A PRODUÇÃO DESIGUAL DO ESPAÇO URBANO: UMA ANÁLISE DO BAIRRO BUGIO EM ARACAJU- SE Lucas de Andrade Lira Miranda Cavalcante Universidade Federal de Sergipe Palavras-chave: Segregação; Espaço Urbano; Bugio; INTRODUÇÃO: O espaço urbano caracteriza-se como um reflexo das relações socioeconômicas, com seus processos, poderes,e suas respectivas contradições. Na cidade de Aracaju, capital sergipana, não é diferente, uma vez que está inserida no capitalismo. Consonante a isso CARLOS (2008) afirma que a produção espacial se subordinará e será determinada em função do modo pelo qual a sociedade produz sua existência (p.101). Sendo assim, em Aracaju há desigualdadeespacial no fornecimento de serviços públicos urbanos, seja em qualidade, seja em quantidade. Esse processo de segregação é proveniente de uma urbanização altamente excludente, proveniente da projeção do Quadrado de Pirro em Aracaju.Ele foi o projeto de urbanização da cidade de Aracaju, realizado pelo engenheiro Sebastião José Basílio Pirro, possui esse nome por conta do seu formato semelhante a um tabuleiro de xadrez. Nele viviam a elite canavieira e os funcionários públicos da recém construída capital sergipana. Após a transferência da capital, em 1855, segundo (CAMPOS, 2005) com muitos interesses em jogo, como a proximidade do mar para a exportação de açúcar. Aracaju foi construída, com o aterramento de muitos riachos, manguezal, canalização dos rios, principalmente para e em prol da classe economicamente dominante. Esse processo de segregação social fica evidenciado pela afirmação de LOUREIRO (1983): Por motivos econômicos, a população pobre de Aracaju não poderia construir suas casas dentro do

2 Quadrado de Pirro, onde as exigências construtivas estavam além das suas posses; exigia-se entre outras coisas, cobertura de telha (p.50). Por isso Aracaju já é fundada, baseando-se num urbanismo excludente, sendo a cidade projetada para os proprietários dos meios de produção da época. Enquanto isso, a população pobre que morava nos arrabaldes não podia utilizar das benfeitorias realizadas pelo Estado em Aracaju. Somente em 1966, com a Companhia de Habitação de Sergipe que é que começa a ser construído o maior conjunto habitacional da época, Aracaju vê em ação os grandes programas habitacionais gerenciados pela Companhia de Habitação de Sergipe COHAB/SE. Podemos afirmar aqui que, apesar do Estado de Sergipe ter promovido novos conjuntos habitacionais, e ter contribuído para o aumento da população da cidade, isso não significa que esta foi construída para todos. Sendo, a partir dessas politicas publicas de habitação, construídosos maiores conjuntos habitacionais de Aracaju, tais como: Castelo Branco (1968), Bugio (1978), Orlando Dantas (1987). O conjunto Assis Chateaubriand, conhecido como Bugio, foi o primeiro grande conjunto habitacional da capital sergipana com o total de casas, tendo sua construção concluída em Nesse processo, o Estado desempenhou um papel fundamental, pois destinou a construção do conjunto para uma área fora do tecido urbano da época, o que propiciou a especulação da área compreendida entre o conjunto e a cidade. O Bugio está localizo na zona norte da cidade, área que compreende as camadas mais populares, tendo em comum menor presença de equipamentos urbanos e carência de infraestrutura, ao contrário do que se observa nos bairros da porção central e sul da cidade. Com o gradativo crescimento populacional da cidade de Aracaju, observou-se uma situação diferente no bairro, as localidades à margem do conjunto foram ocupadas de forma irregular, o que ocasionou o surgimento de loteamento clandestino e aglomerados subnormais. OBJETIVOS:

3 Nesse contexto, buscamos compreender o processo de (re)produção do espaço urbano de forma desigual e combinada e fazer uma análise do bairro Bugio e os agentes produtores do espaço urbano. Além disso, analisar o processo de atuação do Estado e do Capital na (re)produção do espaço no bairro Bugio. METODOLOGIA: Com o intuito de alvejar estes objetivos, inicialmente foi realizada revisão bibliográfica com base em livros, teses, dissertações e artigos que abordam a temática pertinente à pesquisa. Este trabalho teve também como procedimento metodológico o levantamento cartográfico da área em questão, com o intuito de observar, analisar e compreender as transformações espaciais. Posteriormente foi realizado trabalho de campo, com a finalidade de apreender a realidade local, momento em que foi crucial a efetivação de entrevistas e conversas informais com moradores. Por fim, fizemos o cruzamento das informações obtidas na visita in loco com a teoria e o levantamento cartográfico. Apesar de a pesquisa estar em fase inicial, podemos inferir alguns resultados, como o papel do Estado, ora se fazendo presente, construindo o megaconjunto, ora sendo omisso, quando não oferece imediata assistência para as famílias que ocuparam o entorno do conjunto. RESULTADOS PRELIMINARES: Em primeiro lugar, para compreender o processo de produção desigual do espaço, considero importante analisá-la por meio do desenvolvimento desigual. De acordo com Smith (1988,p.221) O desenvolvimento desigual é tanto o produto quanto

4 a premissa geográfica do desenvolvimento capitalista. Dessa forma o desenvolvimento desigual é a materialização do desenvolvimento capitalista, refletindo a desigualdade do sistema econômico até então vigente. Ao analisar o espaço como produto histórico e social, podemos identificar o processo de produção do espaço, sendo este, um processo específico, enquanto que a reprodução considera a acumulação do capital através da sua reprodução (CARLOS, 2008). Como afirmado na introdução deste trabalho, é preciso considerar o espaço urbano produto social e base para a reprodução da vida dos trabalhadores. Para compreendermos melhor a produção do espaço urbano no Bugio é necessário trazer para a discussão o conceito de segregação.villaça (2003) caracteriza segregação urbanacomo: um mecanismo de dominação e exclusão, sempre impede ou dificulta o acesso dos segregados a algum serviço, benefício, direito ou vantagem, seja público, seja privado. (p.3). Temos, então, várias formas de morfologia urbana no Bugio. Uma parte do espaço urbano projetado pelo Estado (Conj. Hab. Assis Chateaubriand - Bugio) fazendo parte da cidade e tendo maior facilidade de acesso com o restante da cidade e a porção desorganizada que surge da necessidade de um contingente da população que não possui condição econômica de pagar outro tipo de residência (fazendo parte da cidade informal, tendo comércio informal de lotes e possuindo difícil acesso ao restante da cidade). Podemos identificar dois níveis de segregação nobugio: Segregação interna e Segregação intraurbana.

5 O Bugiocaracteriza-se como área com melhor infraestrutura e melhor localização (longe da influência das marés, na porção central do Bugio) enquanto as ocupações irregulares localizam-se em áreas antes ocupadas por mangue e sob influência das marés, como pode ser visto na figura 01. Assim, observa-se dentro do bairro Bugio segregação interna entre as áreas regularizadas e não legais do bairro. Entretanto, como o Bugio está inserido na chamada periferia noroeste (VILLAR, 2006), este se localiza segregado espacialmente das áreas centrais e das terras mais valorizadas da capital sergipana. Figura 01: Evolução urbana do Bairro Bugio. Elaboração: LIMA, 2011 Historicamente construída a partir de um plano urbanístico excludente a cidade de Aracaju, concentra a população com maior rendimento, primeiramente no centro e atualmente na zona sul. Enquanto isso nos arrabaldes da cidade, após a construção da atual capital sergipana, no alto das dunas e restingas a população pobre foi se instalando, por não ter condições financeiras para cumprir as exigências técnicas das

6 construções do quadrado de pirro. Posteriormente, após a promulgação da Lei Áurea em 1888, há um crescimento no processo de urbanização de Aracaju por conta dos negros recém-libertos, levando assim a formação de vários núcleos de povoamento (LOUREIRO, 1983). O trabalho ainda está em andamento por isso, ainda serão necessários maior aprofundamento bibliográfico e na análise do processo histórico da urbanização de Aracaju. BIBLIOGRAFIA: CAMPOS, A. C. A construção da Cidade Segregada: O Papel do Estado na Urbanização de Aracaju In: ARAUJO, H. M. deet al. O Ambiente urbano: visões geográficas de Aracaju. São Cristóvão: Editora UFS, p. CARLOS, Ana Fani A. A (re)produção do espaço urbano. São Paulo: EDUSP, p. FRANÇA, Vera Lúcia Alves. Aracaju: estado e metropolização. São Cristóvão, SE: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, p.; LIMA, R. S. de. Atitudes e Percepções na construção de territórios identitários: O bairro Bugio em Aracaju/SE. Dissertação de Mestrado, Núcleo de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2011; LOUREIRO, Kátia Afonso Silva. A trajetória urbana de Aracaju, em tempo de interferir. Aracaju: INEP, p. SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: natureza, capital e a produção de espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. VASCONCELOS, Pedro de Almeida; CORRÊA, Roberto Lobato; PINTUANDI, Silvana Maria. (Orgs.) A cidade contemporânea: segregação espacial. São Paulo: Editora Contexto,2013. p.

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