PROJETO DE PESQUISA GEOGRAFIA E SURDEZ: DA ESCOLA REGULAR À ESCOLA BILÍNGUE

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1 PROJETO DE PESQUISA GEOGRAFIA E SURDEZ: DA ESCOLA REGULAR À ESCOLA BILÍNGUE PENA, Fernanda Santos, UFU 1 SAMPAIO, Adriany de Ávila Melo, UFU 2 Resumo: O presente trabalho apresenta o projeto de pesquisa Geografia e Surdez: da Escola Regular à Escola Bilíngue, o qual está sendo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (PPGEO-UFU). O projeto surgiu da necessidade de se conhecer as práticas pedagógicas mais eficientes para ensinar Geografia aos estudantes surdos, comparando-se a escola regular com a escola bilíngue, em tempos de inclusão escolar. O objetivo geral do projeto é analisar e comparar o ensino e a aprendizagem de Geografia para estudantes surdos, do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, em uma Escola Municipal de Uberlândia-MG, onde são atendidos alunos surdos, e na Escola para Surdos Dulce de Oliveira, escola bilíngue localizada no município de Uberaba-MG. Para a realização da pesquisa estão sendo utilizadas três técnicas de coleta de dados, pertencentes à abordagem qualitativa: a observação participante, a qual articula o pesquisador com a realidade estudada; a entrevista, que permite um maior aprofundamento das informações obtidas; e a avaliação do conteúdo, que mostra se a aprendizagem está de fato ocorrendo. Em pesquisa anterior, as autoras afirmaram que as demandas atuais mais urgentes para a inclusão escolar dos estudantes surdos nas escolas regulares, com relação ao ensino de Geografia, são: a capacitação dos professores, incluindo o aprendizado da Libras; a aproximação entre o AEE e os professores da sala de aula regular; a presença constante do intérprete de Libras, bem habilitado, na sala de aula; assim como a pesquisa e a utilização de metodologias e materiais didáticos de Geografia significativos para esses estudantes. Sendo assim, a partir dos resultados do projeto de pesquisa desenvolvido, os professores de Geografia poderão saber a eficácia das metodologias utilizadas na escola regular e na escola bilíngue, por meio de instrumental elaborado ao término da mesma. Palavras-chave: educação especial; estudantes surdos; ensino de Geografia. 1 Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e professora de Geografia da Rede Municipal de Uberlândia. Por quatro anos trabalhou como professora do AEE de uma escola estadual. Atua como pesquisadora nas áreas de Ensino de Geografia e Educação Especial e Inclusiva. E- mail: 2 Doutora em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ e professora da Universidade Federal de Uberlândia.

2 Introdução Para que os estudantes surdos sejam participantes de uma escolarização adequada e significativa, é necessário um atendimento diferenciado, com a utilização de metodologias pedagógicas baseadas na visualização e o uso constante da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Atualmente, os estudantes surdos podem frequentar as escolas regulares, presentes em grande número em todas as cidades, ou as escolas bilíngues, praticamente extintas por falta de investimentos e incentivos governamentais. Na escola regular, onde alunos surdos e ouvintes estudam juntos, utiliza-se primordialmente a Língua Portuguesa para o ensino e as avaliações. Esta escola deveria oferecer aos alunos surdos o apoio de professores com formação adequada, a presença de intérpretes de Libras capacitados, assim como o Atendimento Educacional Especializado bem estruturado, mas estas condições não estão sendo asseguradas, conforme constatou Pena (2012). Já a escola bilíngue atende exclusivamente estudantes surdos que utilizam a Libras como forma de comunicação e expressão. Todos os professores e funcionários dominam esta língua e as metodologias de ensino são baseadas na visualização. A Língua Portuguesa também é valorizada, sendo trabalhada como segunda língua. As políticas públicas defendem a inclusão das pessoas surdas nas escolas regulares e a consequente extinção das escolas especiais e bilíngues. Entretanto, tanto as pesquisas recentes como a experiência de três anos da pesquisadora em uma escola regular que atende estudantes surdos, mostram que estes estudantes não estão se desenvolvendo satisfatoriamente no ensino regular. Ao contrário das legislações, a comunidade surda luta pelo direito à escola bilíngue, onde a sua diferença linguística e cultural é respeitada. Todavia, os estudos da área ainda são incipientes e não garantem a superioridade desta modalidade escolar, com relação às práticas de ensino e aos resultados alcançados. Tendo em vista que os estudantes surdos também necessitam ser instrumentalizados para que exerçam, de fato, a sua cidadania, a Geografia é um conteúdo escolar capaz de fornecer suporte para uma análise e ação crítica

3 sobre o espaço geográfico. Isto possibilita ao aluno surdo, assim como a todos os alunos, descobrir e analisar sua realidade e os problemas de sua época e lugar, dando-lhes condições de autonomia, de criatividade e de criticidade. A partir do exposto, surge a indagação: em tempos de inclusão escolar, quais são as práticas pedagógicas mais eficientes para ensinar Geografia aos estudantes surdos, comparando-se a escola regular com a escola bilíngue? Objetivos Na busca por respostas, elaborou-se o projeto de pesquisa Geografia e Surdez: da Escola Regular à Escola Bilíngue, cujo objetivo geral é analisar e comparar o ensino e a aprendizagem de Geografia para estudantes surdos, do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, na Escola Regular e na Escola Bilíngue. O projeto está sendo desenvolvido no curso de doutorado em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia ( ). Para a realização do mesmo, delimitou-se como área de pesquisa e intervenção a Escola Municipal Professor Leôncio do Carmo Chaves, escola regular localizada no município de Uberlândia-MG, e a Escola para Surdos Dulce de Oliveira, escola bilíngue localizada no município de Uberaba-MG. Ambas as escolas atendem alunos surdos no ensino fundamental e são consideradas referências em suas cidades. Como objetivos específicos, destacam-se: Conhecer na prática as metodologias de ensino de Geografia para estudantes surdos realizadas na Escola Municipal Prof. Leôncio do Carmo Chaves e na Escola para Surdos Dulce de Oliveira, por meio de estágio de observação participante; Avaliar sistematicamente a aprendizagem destes estudantes, utilizando a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa; Entrevistar os estudantes surdos das escolas pesquisadas para identificar as suas ideias e demandas com relação ao ensino de Geografia e à inclusão escolar;

4 Elaborar um material informativo que oriente os professores de Geografia a ministrarem aulas mais significativas e inclusivas na escolarização dos surdos. Referencial Teórico Segundo Sá (2006), estudiosa dos Estudos Surdos, podemos definir uma pessoa surda como aquela que vivencia um déficit de audição que a impede de adquirir, de maneira natural, a língua oral/auditiva usada pela comunidade majoritária. Ela constrói sua identidade baseada, principalmente, na diferença linguística, e utiliza-se de manifestações comportamentais e culturais diferentes da maioria das pessoas ouvintes. A deficiência auditiva pode ser suprida pela Língua de Sinais, que no Brasil é nomeada de Língua Brasileira de Sinais (Libras), sendo a segunda língua oficializada do país, por meio da Lei de Libras, nº , de 24 de abril de Além de ser reconhecida como meio legal de comunicação e expressão, esta língua tem a potencialidade de expressar o conjunto de significados do mundo interior e exterior de seus usuários (SKLIAR, 2006). Nesse sentido, é importante entender a surdez por uma visão contempladora de vários aspectos, como uma diferença linguística e cultural que não impede as pessoas surdas de terem sua inserção social e educacional, assim como os seus direitos garantidos. Infelizmente, em nossa sociedade ainda está presente o ouvintismo, ou seja, um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte (SKLIAR, 1998). Na escola regular essas representações são marcantes. Sendo a escola uma instituição que reúne alunos diferentes nas suas individualidades sociais, econômicas, étnico-raciais, culturais, independentemente de suas diferenças, os alunos surdos também estão sendo inseridos nesse modelo de escolarização, contemplados pelos documentos oficiais que garantem, perante a legislação, a inclusão escolar. Entretanto, assim como afirma Silva (2009), é preciso se atentar para este embate: não se trata de incluir para garantir o direito constitucional de igualdade educacional; a questão principal é garantir aos alunos surdos o

5 acesso e a permanência na escola, com qualidade educacional, não necessariamente na escola regular. Percebe-se que o domínio da cultura ouvinte sobre a cultura surda ainda está muito presente, principalmente por meio da língua. A escola regular tem como primeira língua a Língua Portuguesa e disponibiliza metodologias de ensino direcionadas para os alunos ouvintes. Os alunos surdos necessitam de um atendimento mais específico, pois possuem como forma de comunicação o canal visual-gestual. É necessária a permanência integral de um intérprete de Libras, de professores capacitados e de um atendimento educacional especializado, mas isto não vem ocorrendo de modo adequado. Com relação ao ensino de Geografia, Pena (2012) constatou que a maioria dos professores não tem sido formada para lecionar aulas para estudantes surdos. De modo geral, estes professores não fazem uso da Libras, ou seja, não conseguem se comunicar com seus alunos surdos. O ensino de Geografia apresenta possibilidades de construção e respeito às identidades culturais de todos os alunos, inclusive dos alunos surdos. Sendo a escola um lugar de encontro de culturas, de saberes científicos e de saberes cotidianos, a Geografia escolar é uma das mediações por meio das quais o encontro e o confronto entre culturas se dão (CAVALCANTI, 2005). Apesar de, atualmente, as escolas privilegiarem práticas homogeneizadoras que ignoram a questão da diferença e das culturas diversas (CANDAU, 2008), o ensino de Geografia apresenta possibilidades de construção e respeito às identidades culturais de todos os alunos, inclusive dos alunos surdos. Os professores de Geografia precisam ser críticos e reflexivos, capazes de elaborar sua própria prática, e perceber a surdez como uma característica peculiar de uma pessoa, que não a impede de ser, de viver em sociedade, de estar envolvida com a comunidade em todas as suas atividades. A formação docente em Geografia, voltada para alunos surdos, deve ser alvo de críticas e transformações. Se apenas nos últimos anos tem-se enfatizado a inclusão de alunos com deficiência no ensino regular, em todos os âmbitos também se verifica uma necessidade urgente de instrumentalizar professores já atuantes na escola regular para a inclusão de alunos com deficiência e, especialmente, de alunos surdos.

6 Os estudantes surdos precisam ser percebidos como sujeitos que possuem o canal visual-gestual como forma de comunicação e a Libras como primeira língua. O ensino de Geografia deve ser recorrente às práticas pedagógicas baseadas na visualização, pois os recursos visuais facilitam o aprendizado dos alunos surdos e podem fazer a ponte entre os conhecimentos cotidianos e científicos. Sabendo-se das dificuldades enfrentadas na inclusão dos estudantes surdos em escolas regulares, outra opção para estes estudantes é a escola bilíngue, a qual possui o compromisso com o ensino da Libras como língua principal, seguido pela compreensão da Língua Portuguesa escrita. Na cidade de Uberaba-MG, destaca-se a Escola para Surdos Dulce de Oliveira, a qual realiza importantes trabalhos na perspectiva da inclusão dos surdos. Há mais de cinquenta anos, a escola atende crianças e adolescentes surdos, residentes em Uberaba-MG, em cidades vizinhas e até mesmo em outros estados do Brasil. São recebidos setenta alunos, sendo que trinta e cinco frequentam a escola em período integral. A escola é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que se mantém por meio de doações, entre as quais as do Estado de Minas Gerais e as do Rotary Clube da cidade. Proporciona aos alunos surdos atendimentos desde a educação infantil até o 9º ano do ensino fundamental, além de Estimulação Precoce (com bebês a partir de sete meses de idade). É realizada tanto a escolarização especial, quanto o Atendimento Educacional Especializado, no contraturno, aos alunos surdos que estudam em escolas regulares. Como prioridade, tem-se a aquisição e o ensino por meio da Libras e, posteriormente, da Língua Portuguesa. Para isso, é reforçada a função social da Língua Portuguesa para os alunos surdos, tendo em vista que essa língua é fundamental para a inclusão social das pessoas surdas. A Libras é utilizada por todos os seus profissionais e alunos, inclusive durante as avaliações. Com relação ao ensino de Geografia na escola bilíngue, os estudos são incipientes. Não se sabe as práticas pedagógicas realizadas e se estas estão alcançando um desenvolvimento significativo dos estudantes surdos. Por isto, a necessidade de pesquisar e avaliar quais são as metodologias de ensino mais eficazes para o ensino de Geografia.

7 Resultados parciais Para a realização da pesquisa estão sendo utilizadas três técnicas de coleta de dados, pertencentes à abordagem qualitativa (CHIZZOTTI, 2008): a observação participante, que articula o pesquisador com a realidade estudada; a entrevista, que permite um maior aprofundamento das informações obtidas; e a avaliação do conteúdo, que mostra se a aprendizagem está de fato ocorrendo. Todas elas são realizadas tanto na Escola Municipal Professor Leôncio do Carmo Chaves, escola regular que possui um número considerável de alunos surdos estudando com alunos ouvintes, como na Escola para Surdos Dulce de Oliveira, escola bilíngue que atende exclusivamente alunos surdos. A observação participante é realizada durante as aulas de Geografia ministradas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, sendo analisadas, principalmente, as metodologias de ensino de Geografia utilizadas, a forma como o professor de Geografia inclui o estudante surdo nas suas aulas, assim como o interesse deste estudante em participar das aulas e aprender o conteúdo. As entrevistas são feitas em Libras, com os alunos surdos matriculados nas escolas pesquisadas, por meio de um roteiro de entrevista pré-estruturado. São contempladas questões referentes às percepções sobre a Geografia, à participação nas aulas, ao atendimento do professor de Geografia e do intérprete de Libras, e às demandas para uma escolarização mais significativa. Com relação às avaliações de conteúdo, estas serão realizadas bimestralmente, com o intuito de verificar se os estudantes surdos estão de fato aprendendo os conteúdos de Geografia ministrados neste período. Para isto, foram elaborados roteiros de avaliação que contemplam as temáticas ministradas em cada bimestre. As avaliações serão aplicadas em duas modalidades: na Libras e na Língua Portuguesa escrita, respeitando tanto a língua natural dos surdos como a língua majoritária da nossa comunidade. Com o resultado final da pesquisa, será possível verificar e comparar a eficácia das metodologias utilizadas na escola regular e na escola bilíngue. Além disso,

8 será possibilitada a criação de um instrumental que oriente os professores de Geografia sobre as metodologias de ensino mais eficazes. Discussão Em 2012 foi apresentada a dissertação Ensino de Geografia para Estudantes Surdos: concepções e práticas pedagógicas (PENA, 2012), desenvolvida no mestrado em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia. Identificaramse concepções e práticas pedagógicas de professores de Geografia, professores do AEE e intérpretes de Libras da rede municipal de Uberlândia, acerca do ensino de Geografia para estudantes surdos. Dentre as conclusões da pesquisa, observou-se que a maioria dos professores de Geografia não tem sido formada para lecionar aulas para estudantes surdos. De modo geral, os professores não fazem uso da Libras, ou seja, não conseguem se comunicar com seus alunos surdos. A pesquisa afirma que as demandas atuais mais urgentes para a inclusão escolar dos estudantes surdos nas escolas regulares são: a capacitação dos professores, incluindo o aprendizado da Libras; a aproximação entre o AEE e os professores da sala de aula regular; a presença constante do intérprete de Libras, bem habilitado, na sala de aula, assim como a pesquisa e a utilização de metodologias e materiais didáticos de Geografia significativos para esses estudantes. Acredita-se que, a partir dos resultados do projeto de pesquisa Geografia e Surdez: da Escola Regular à Escola Bilíngue, os professores estarão mais aptos para ministrarem aulas inclusivas para os estudantes surdos. As práticas pedagógicas promissoras, tanto na escola regular como na escola bilíngue, serão divulgadas por meio de um instrumental que oriente os professores de Geografia.

9 Referências BRASIL. Presidência da República. Lei nº , de 24 de abril de 2002, Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências. Brasília, CANDAU, V. M. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica. In: MOREIRA, A.F.; CANDAU, V.M. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, p CAVALCANTI, L. S. Geografia e práticas de ensino. Goiânia: Alternativa, CHIZZOTTI, A. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. 9 ed. São Paulo: Cortez, PENA, F. S. Escolarização de pessoas surdas no contexto do ensino e aprendizagem de Geografia Monografia (Curso de Geografia). 51p. Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, PENA, F. S. Ensino de Geografia para estudantes surdos: concepções e práticas pedagógicas Dissertação (Curso de Geografia). 185p. Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, SÁ, N. R. L. Cultura, poder e educação de surdos. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, SILVA, L. C. da. Políticas públicas e formação de professores: vozes e vieses da educação inclusiva f. Tese (Doutorado em Educação) Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, SKLIAR, C. B. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação, SKLIAR, C. (Org.). Educação & Exclusão: abordagens sócio-antropológicas em educação especial. Porto Alegre: Mediação, 2006.

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