Educação fiscal, telecentros e redes sociais: saberes e lugares da cidadania.

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1 Educação fiscal, telecentros e redes sociais: saberes e lugares da cidadania. Patricia Mollo 1 RESUMO: O estudo apresenta a proposta de automação do curso de disseminadores em educação fiscal, em tecnologia de código aberto, com a utilização dos telecentros brasileiros para sua disseminação. As TIC s serão apresentadas como instrumento de inclusão digital e emancipação social, indutoras de redes sociais locais, espaço de produção do conhecimento coletivo. Para subsidiar o estudo, serão utilizados os conceitos de globalização e poder local de Milton Santos e o de redes de Manuel Castells. PALAVRAS CHAVE: políticas públicas; educação fiscal; redes sociais; tecnologia de informação e comunicação; software livre; poder local. Introdução A educação fiscal é uma política pública institucionalizada no Programa Nacional de Educação Fiscal - PNEF, descentralizada nas três esferas de Governo, com gestores nas áreas de educação, fazendária, orçamentária e de controle, sob a coordenação da Escola de Administração Fazendária, órgão específico singular do Ministério da Fazenda. Além do Grupo Nacional de Educação Fiscal - GEF, há grupos de 1 Especialista em Política Pública e Gestão Governamental, em exercício na Escola de Administração Fazendária/MF, na Coordenação do Programa Nacional de Educação Fiscal. trabalho na totalidade dos Estados GEFE s e em vários Municípios. E para além dos grupos institucionalizados, já ocorrem experiências pontuais de participação da sociedade civil. 2 Um dos objetivos da educação fiscal é estimular o controle social dos recursos públicos, explicitando o modo como são arrecadados e como retornam à sociedade, em forma de bens e prestação de serviços. Para isso, pretende compartilhar com o cidadão os significados inerentes à arrecadação tributária, ao planejamento, ao orçamento, à execução financeira das políticas públicas, com foco na instrumentalidade das leis orçamentárias. São objetivos direcionados a uma gestão compartilhada entre Estado e sociedade civil, consoante à transformação institucional que sugere Ladislau Dowbor: (...) o exercício de poder deve aproximar-se do cidadão, trazendo transformações profundas à pirâmide que hoje constitui a hierarquia das decisões na área pública. (...) num mundo urbanizado, em que tudo está conectado, não há razão para que o essencial dos problemas do nosso cotidiano, a escola, a saúde, a pequena 2

2 produção, etc, não sejam regulados diretamente pelos interessados, a população, através das instâncias locais. (DOWBOR, 1997, p.12). Contudo, sua eficácia está condicionada a fatores estruturantes. Não é por acaso que os sistemas com os quais a máquina administrativa do Estado gere os recursos públicos são alheios ao cidadão comum. Da história política brasileira, resultou um Estado forte, com características neopatrimonialistas, que impõe sua vontade e seu ordenamento à sociedade civil por meio de sistemas de cooptação que, quando efetivos: (...) tendem a reduzir o conflito político pela limitação de seu escopo, ao estabelecer monopólios irredutíveis de privilégios. Eles criam, ao mesmo tempo, estruturas de participação débeis, sem consistência interna e capacidade organizacional própria. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 52). A intensificação da participação social nos processos de geração, aplicação e fiscalização dos recursos públicos é um dos objetivos do Programa, a partir da disseminação de informações e conceitos sobre gestão fiscal. Para esse fim, tem como um dos produtos principais o curso de disseminadores em educação fiscal, composto por quatro cadernos temáticos: i) educação fiscal no contexto social; ii) relação Estado e sociedade; iii) função social dos tributos; e iv) gestão democrática dos recursos públicos. O projeto contempla a migração dos conteúdos dos cadernos para a plataforma de software livre, com a utilização dos telecentros 3 brasileiros para sua disseminação. Por software livre, entende-se todo programa de computador que pode ser usado e redistribuído sem nenhuma restrição. Seu modelo de desenvolvimento baseiase no compartilhamento, de maneira que a comunidade que o utiliza pode estudálo e aprimorá-lo, o que cria um ciclo virtuoso de desenvolvimento. A opção pelo uso da tecnologia aberta fundamenta-se no posicionamento de que as TIC s devem ser utilizadas como instrumentos de inclusão digital e emancipação social, por permitir que o conhecimento seja construído de forma coletiva e solidária, e não gerido pelo mercado. Para sustentar a hipótese de que a utilização das TIC s depende do direcionamento dado pela ideologia dominante, serão apresentados os elementos estruturantes da globalização atual a partir do pensamento de Milton 3 Locais de livre acesso da população com equipamentos conectados à internet.

3 Santos. Para ressaltar a importância das TIC s para a disseminação da educação fiscal será utilizado o conceito de redes como definidoras da organização da sociedade atual, de Manuel Castells. Os telecentros são elementos de determinação dos arranjos institucionais possíveis e índices - signos de tempo e espaço, das redes locais de controle social. Desenvolvimento Milton Santos (2000) afirma que para compreender uma época, faz-se necessário identificar o estado das técnicas e o estado da política. Para o mundo globalizado atual, a técnica dominante é a da informação, materializada por meio da cibernética, da informática e da eletrônica. A tecnologia da informação, além de permitir a unicidade das outras técnicas existentes, que passam a se comunicar por ela, possibilita também a convergência dos momentos e a simultaneidade de ações, onde uma pessoa tem conhecimento em tempo real do acontecer de outra. As demais técnicas não hegemônicas continuam existindo, mas agora mantêm uma relação hierarquizada com as TIC s: são hegemonizadas. Os lugares têm como referência serem ou não dotados das técnicas da informação e assim serão avaliados. A hierarquização revela que todas as técnicas são relativizadas e não podem ser consideradas enquanto dado absoluto. Assim, o estado da política é o outro elemento identificador da realidade, porque as técnicas apenas se realizam, tornando-se história, com a intermediação da política, isto é, da política das empresas e das políticas dos Estados, conjunta ou separadamente. (SANTOS, 2000, p. 26). Hoje, o que caracteriza a realidade, é a forma como os atores hegemônicos do neocapitalismo manipulam as técnicas a serviço da mais valia em escala mundial, base do que Santos denominou de globalitalismo - discurso único de como a informação é dada à humanidade, onde o dinheiro emerge em estado puro, como motor da vida econômica e social. A manipulação das TIC s pelo capital global, por sua vez, ocorre a partir de uma rede integrada de fluxos financeiros, cujo movimento determina a economia e influencia a sociedade. Segundo Castells (1999), a forma de organização em redes é o que caracteriza a nova base material das atividades humanas na estrutura social da era da informação. São sistemas abertos, plásticos, compostos por um

4 conjunto de nós interconectados que reorganizam as relações de poder. As redes, contudo, não são homogêneas e é variável o papel dos atores na sua regulação e funcionamento. Para Santos (2004, p. 270) as redes são um veículo de um movimento dialético que, de uma parte, ao Mundo opõe o território e o lugar; e, de outra parte, confronta o lugar ao território tomado como um todo. Nessa perspectiva, a rede não pode ser dissociada do lugar e - por ser o espaço diferenciado, conduzirá a instalações de redes elas próprias distintas. A perspectiva que distancia o conceito de redes da indiferença espacial é muito importante para a compreensão do projeto proposto, uma vez que cada telecentro 4 será potencialmente um nó da rede situado no espaço, indutor do exercício do poder local. O projeto tem como objetivo o incremento do controle social e da autonomia local. Para isso prevê como resultado, a capacitação de pessoas no curso de disseminadores em educação fiscal, a partir das TIC s de 4 Locais de livre acesso da população com equipamentos conectados à internet. 5 Esse número corresponde ao percentual de 25% da meta estabelecida pela Coordenação do PNEF, para o ano de código aberto, veiculado pelos telecentros situados no Distrito Federal. Ainda que a tecnologia aberta permita acesso ilimitado, as ações iniciais do projeto terão como público-alvo a população que circunda os telecentros a serem selecionados no Distrito Federal, a partir de sensibilizações junto à sociedade civil, quanto à importância do tema da educação fiscal para a prática da cidadania. O escopo do projeto abrange as seguintes ações: i) migração do conteúdo dos quatro cadernos do curso - educação fiscal no contexto social; relação Estado e sociedade; função social dos tributos; e gestão democrática dos recursos públicos, para a plataforma do software livre; ii) estabelecimento de parceria com o grupo de educação fiscal do Distrito Federal; iii) mapeamento dos telecentros no Distrito Federal; iv) estabelecimento de parcerias com as instituições gestoras dos telecentros mapeados; v) veiculação do curso em tecnologia aberta pelos telecentros; vi) sensibilização dos freqüentadores do telecentros para o tema de educação fiscal; vii) estímulo aos concludentes do curso para a criação de tutorias e grupos de discussão formados pela sociedade local; viii) ampliação das ações de disseminação, para além dos

5 telecentros, a partir da indução de redes sociais locais, articuladas pelos disseminadores formados nos telecentros locais. Para avaliação sugerem-se, como indicadores quantitativos, tanto o número de pessoas capacitadas, quanto o número de telecentros acionados para a veiculação do curso. A possibilidade de indicadores qualitativos é ampla e depende do software livre utilizado. Por meio dele, é possível a aplicação de enquetes e pesquisas on line, para a avaliação da satisfação quanto ao conteúdo e multimídia educativa utilizados. O modelo desenvolvido pela SLTI/MP 6 sugere vários indicadores para avaliação dos e-serviços, que podem ser adequados à avaliação do curso de disseminadores em educação fiscal a partir das TIC s de código aberto, como por exemplo: a comucabilidade, que busca valorizar a receptividade e abertura do Estado à influência e participação dos cidadãos, assim como a capacidade de oferecer ajuda para facilitar o acesso às informações prestadas; e a facilidade de uso ou usabilidade, que trata da qualidade de 6 Indicadores e métricas para avaliação de e- serviços. interação e navegação da interface para acesso ao serviço. Quanto aos recursos necessários à execução do projeto, estes poderão correr à conta da ação 6268, prevista no PPA : Programa (Cod/Desc) EDUCAÇÃO FISCAL R$ 1,00 Para estabelecer os possíveis arranjos institucionais será necessário o levantamento dos inputs de apoio e a identificação dos atores públicos e privados, arranjos orientados para uma maior eficácia, a partir da descentralização e da intensificação da importância do governo e entidades locais. Ação (Cod/Desc) formação de disseminadores da educação fiscal 2008 O telecentro será a unidade básica de identificação de atores e programas afins ao PNEF. A partir da identificação de quem o gere e quais programas contempla, será possível o estabelecimento de parcerias para a realização de ações de maneira integrada. Segundo o Observatório Nacional de Inclusão Digital (ONID), no Distrito Federal, existem 114 telecentros, geridos pelos Governos Federal e Distrital, associações, empresa privadas, entre outros

6 Entre os programas identificados citamse: i) o Casa Brasil, gestão dos Ministérios da Ciência e Tecnologia, do Planejamento, das Comunicações, da Cultura, da Educação, do Instituto Nacional de TI, da Petrobras, da Eletrobrás/Eletronorte, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, com o objetivo de implantar espaços multifuncionais de conhecimento e cidadania em comunidades de baixo IDH, por meio de parcerias com instituições locais; ii) os Centros de Inclusão Digital - CID, geridos pela Fundação Bradesco, consistem em laboratórios de tecnologia da informação criados especialmente para atender comunidades onde o acesso à tecnologia é limitado, com o objetivo de promover a inclusão digital e estimular a responsabilidade social; iii) Comitê para a Democratização da Informática CDI, gerido pela sociedade civil, tem o objetivo de mobilizar os segmentos excluídos da sociedade para a transformação da realidade utilizando a tecnologia da informação como um meio para a construção e o exercício da cidadania. A lista é apenas exemplificativa, existem inúmeros atores e programas envolvidos na rede de telecentros, parceiros potenciais para a implementação do projeto. Conclusão A política de educação fiscal, a partir de seu referencial teórico e metodológico, representado, em grande parte, pelos cadernos que compõem o curso de disseminadores em educação fiscal, tem o potencial de amálgama para os vários programas de políticas sociais. Isso porque, ao dar conhecimento ao cidadão de como os recursos públicos são arrecadados e aplicados em forma de bens e prestação de serviços, descortina a própria política pública enquanto materialização de decisões políticas tomadas para uma dada sociedade. Nesse sentido, o conhecimento da fiscalidade pode estimular a participação popular na formulação e implementação das políticas públicas, que por sua vez, é condição para que as políticas sociais percam seu caráter paternalista e para o estabelecimento de uma nova relação entre Estado e sociedade. Nessa direção, as redes, que definem os processos sociais, assumem um papel importante para a prática da cidadania, porque detêm uma natureza ao mesmo tempo global e local, sendo que: (...) o lugar é a terceira totalidade, onde fragmentos da rede ganham uma dimensão única e socialmente concreta,

7 graças à ocorrência, na contigüidade, de fenômenos sociais agregados, baseados num acontecer solidário, que é fruto da diversidade e num acontecer repetitivo, que não exclui a surpresa. (SANTOS, 2004, p. 270). As redes locais tendo acesso às tecnologias de informação e comunicação, por meio dos telecentros, poderão, a partir da apropriação do conteúdo do curso de educação fiscal, produzir novos conhecimentos, de forma coletiva e solidária que subsidiarão novas formas de ação local. É nesse sentido que o projeto de automação do curso de disseminadores em educação fiscal, em linguagem de tecnologia aberta, é uma proposta de fortalecimento das redes sociais locais: um projeto que pretende contribuir com um movimento ascendente e gradual de inclusão da sociedade civil na formação de agenda, formulação e implementação de políticas públicas. Referências CASTELLS, M. A Sociedade em rede. 6. Ed. São Paulo: Paz e Terra, ESAF Escola de Administração Fazendária. Planejamento Estratégico do PNEF para o período de 2008 a Brasília: ESAF, FARAH, M. Parcerias, novos arranjos institucionais e políticas públicas no nível local de governo. In: SARAIVA, E.; FERRAREZI, E. Políticas Públicas, Coletânea, Volume 2. Brasília: Enap, 2006, p MASSARDIER, G. Redes de Política Pública. In: SARAIVA, E.; FERRAREZI, E. Políticas Públicas, Coletânea, Volume 2. Brasília: Enap, 2006, p MP Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Plano Plurianual de 2008 a Disponível em: 0. Acesso em: 14 mar MP Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Plano Indicadores e Métricas para Avaliação de e-serviços. Disponível em: oes-e-projetos/indicadores-e-metricaspara-avaliacao-de-e-servicos. Acesso em: 14 mar ONID Observatório Nacional de Inclusão Digital. Mapa dos Telecentros do Brasil. Disponível em: Acesso em 6 de mar SANTOS, M. A natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 4. ed. São Paulo: Editora Record, 2000.

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