Universidade Federal do Rio de Janeiro. A construção TEM-SE no Português Brasileiro escrito: uma análise sociofuncionalista. Eneile Santos Saraiva

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1 I Universidade Federal do Rio de Janeiro A construção TEM-SE no Português Brasileiro escrito: uma análise sociofuncionalista Eneile Santos Saraiva 2013

2 II A CONSTRUÇÃO TEM-SE NO PORTUGUÊS BRASILEIRO ESCRITO: UMA ANÁLISE SOCIOFUNCIONALISTA Eneile Santos Saraiva Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do Título de Mestre em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa). Orientadora: Profª Doutora Marcia dos Santos Machado Vieira. Rio de Janeiro Fevereiro de 2013

3 III FICHA CATALOGRÁFICA SARAIVA, Eneile Santos. A construção TEM-SE no Português Brasileiro escrito: uma análise sociofuncionalista./ Eneile Santos Saraiva. Rio de Janeiro: UFRJ/FL, Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira Dissertação (Mestrado) UFRJ/ FL/ Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, Referências Bibliográficas: f Sociofuncionalismo. 2. Gramaticalidade. 3. Construções existenciais com tem-se/tem/há. 4. Equivalência semântica. I. Machado Vieira, Marcia dos Santos. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas. III. Título.

4 IV A construção TEM-SE no Português Brasileiro escrito: uma análise sociofuncionalista Eneile Santos Saraiva Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa). Examinada por: Presidente Professora Doutora Marcia dos Santos Machado Vieira Departamento de Letras Vernáculas (UFRJ) - Orientadora Professora Doutora Maria Eugênia Lamoglia Duarte Departamento de Letras Vernáculas (UFRJ) Ângela Marina Bravin dos Santos Departamento de Letras e Comunicação (UFRRJ) Professora Doutora Eliete Figueira Batista da Silveira Departamento de Letras Vernáculas (UFRJ) - Suplente Professora Doutora Maria Maura da Conceição Cezário Departamento de Linguística e Filologia (UFRJ) - Suplente Rio de Janeiro Fevereiro de 2013

5 V A Deus, autor da minha vida.

6 VI AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, agradeço a Deus não só por esta dissertação, mas por ter colocado em meu caminho pessoas tão maravilhosas que me ajudaram a realizar este sonho. Aos meus pais, Elenir e Daniel, por confiarem e acreditarem em mim e por me apoiarem incondicionalmente e me deixarem tão mais segura diante dos desafios. Às minhas tias-mães Eliene e Edméa, pelas constantes orações que me sustentaram e continuam me sustentando. Ao meu irmão Diego, à minha cunhada Vanessa e à minha princesinha Valentina, por todo o incentivo e por sempre entenderem as minhas ausências e, ainda, se fazerem presentes na minha vida. Ao meu esposo Rodrigo, por caminhar ao meu lado, me incentivar e por sempre me dizer que tudo daria certo. Obrigada por me acalmar nos momentos em que achei que não conseguiria, pelo seu amor e companheirismo. Sem você, a minha vida seria cinza e incompleta. Não posso deixar de lhe agradecer também por todos os chocolates e docinhos que me acalmaram ao longo deste último ano. À Professora Doutora Marcia Machado Viera, minha querida orientadora. Muito obrigada por ter acreditado em mim, por todos os ensinamentos, desde os tempos da graduação, da monitoria, da iniciação científica e por todo carinho e cuidado que sempre teve comigo. A sua acuidade sempre me emocionou. E foi durante as aulas de Português V, ministradas pela Senhora, que eu senti um imenso desejo de me aprimorar nos estudos de Língua Portuguesa. À Professora Doutora Maria Eugênia por ter aceitado compor a banca. Obrigada também pelo excelente curso ministrado, pelas indicações bibliográficas e por todas as observações feitas sobre a minha dissertação que tanto contribuíram para o desenvolvimento da mesma.

7 VII Às Professoras Doutoras Ângela Bravin, Eliete Figueira e Maria Maura por disponibilizarem-se tão gentilmente a compor a banca e por sempre se revelarem tão atentas, acessíveis e cuidadosas. À Professora Doutora Silvia Rodrigues, pelas valiosas indicações bibliográficas e pelo excelente curso ministrado que tanto contribuíram para a escrita desta dissertação. À Professora Doutora Mônica Nobre, pelo carinho com o qual me recebeu em sua sala e olhou com cuidado todos os meus dados, à época, e me fez acreditar na minha dissertação e encontrar caminhos para alguns questionamentos que me atormentavam. Obrigada pelos valiosos ensinamentos sobre a Teoria Funcionalista, pelo maravilhoso curso e pelas dicas sobre como se portar em um exame de arguição. Às minhas Anas, que me acompanham desde o tempo da graduação: Pollyanna, Adriana, Juliana e Luciana, obrigada por fazerem parte da minha vida, por serem minhas amigas de todas as horas, por todos os conselhos e por sempre acreditarem em mim. À minha amiga Patrícia, por ser minha psicóloga particular, por me apoiar e por me fazer ver que a vida vale a pena e que a nossa amizade é um bem muito valioso que temos. Ao pessoal da salinha F-310, Olívia, Alessandra, Tatiane, Bruna, Evelin, Thamires, Hugo, Vinícius por me ouvirem e sempre terem palavras doces, amigas, motivadoras e por fornecerem sacadas fantásticas não só para a minha dissertação, mas também para apresentações nas JICs, nos Congressos... Aos queridos amigos Francisco, Bruna, Fátima, Idayana Cristina e aos meus queridos sobrinhos Leandro e Kauan, por cuidarem de mim quando eu mais precisei, por todo o apoio e pelos momentos de conversas que me faziam renovar as forças e me serviam de combustível. Obrigada, também, por todos os ensinamentos que vocês me deram e por me chamarem para sair quando eu estava quase pirando em frente ao computador.

8 VIII Aos meus queridos alunos dos cursos de História, Pedagogia e Matemática (primeiro e segundo semestre de 2012) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (IM - Nova Iguaçu), por terem participado do teste de atitudes e por terem me ensinado tanto durante um longo período, não foi, pessoal do primeiro semestre? Gostaria de citar todos os nomes, mas, com certeza, cometeria injustiças... Aos alunos do curso de Morfossintaxe do Português da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que gentilmente e tão cuidadosamente também participaram do teste de atitudes.

9 IX Parte desta pesquisa foi desenvolvida com financiamento da CAPES (10/ /2013).

10 X SINOPSE Análise, a partir de orientações sociofuncionalistas, da construção tem-se(/têm-se) no Português Brasileiro acadêmico, no que tange a sua alternância e equivalência semântica com as formas tem e há. Averiguação do fenômeno de gramaticalidade pelo qual a construção perpassa com base no exame de usos e percepções.

11 XI RESUMO A construção TEM-SE no Português Brasileiro escrito: uma análise sociofuncionalista Eneile Santos Saraiva Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa). Esta dissertação centra-se (i) no estudo da gramaticalidade da construção formada pelo verbo ter na terceira pessoa ao qual se liga o clítico se (tem-se/têm-se) e, tendo em vista sua relação de equivalência funcional com a terceira pessoa do singular do verbo haver impessoal, (ii) na averiguação da alternância dessas formas a serviço do fenômeno da impessoalização no discurso acadêmico. Acredita-se que tem-se(têm-se) venha submetendo-se a um processo de gramaticalização em razão do qual a forma verbal em questão se cristaliza com o clítico e se assemelha a construções com se em estruturas de indeterminação do sujeito. Alguns estudos (cf. Callou & Duarte, 2005; Callou & Avelar, 2007) destacam que, na modalidade oral, na alternância entre os predicadores ter e haver, é alto o índice de uso do verbo ter; entretanto, na modalidade escrita, há uma forte resistência ao uso dessa forma verbal com valor impessoal. Desse modo, interessa observar em que medida a construção tem-se(/têm-se), nesta modalidade, passa a competir com a forma verbal há e se é possível considerar tais formas como variantes, principalmente na modalidade escrita acadêmica, domínio em que o uso de tem-se(/têmse) é mais produtivo. Tenciona-se, então, investigar aspectos que permitam mostrar a viabilidade de considerar que o complexo tem-se (/têm-se) estaria passando pelo fenômeno de gramaticalidade e, ainda, verificar se existem fatores linguísticos e/ou extralinguísticos que interferem no uso de uma destas formas: tem-se(/têm-se) ou há. O corpus de análise foi constituído a partir de dados recolhidos em textos escritos da modalidade acadêmica culta padrão do português brasileiro. Os dados foram submetidos

12 XII a uma análise estatística, utilizando-se, para tanto, o programa GoldVarb X. Além disso, elementos revelados nessa análise estatística dos dados escritos foram examinados a luz de registros obtidos com base em um teste de atitudes que se realizou com estudantes universitários, a fim de que se pudesse averiguar como a estrutura tem-se(/têm-se) é percebida pelos usuários da língua. Assim, procurou-se fundamentar a análise das construções aqui focalizadas com base em dados do comportamento observável no texto acadêmico e com base em percepções, interessando, para tanto, pressupostos da metodologia de pesquisa de atitudes linguísticas. Para o exame desse corpus, recorreuse aos pressupostos teórico-metodológicos da Teoria da Variação e Mudança consoante os quais se procurou enfrentar, nesta dissertação, os problemas de condicionamentos, avaliação e encaixamento e a conceitos funcionalistas, tais como os relativos ao fenômeno de gramaticalização, segundo os quais se enfocou a mudança linguística de que resultaria a construção tem-se(/têm-se) e a equivalência funcional dessa estratégia de impessoalização em relação a há e tem. Nessa pesquisa, obtiveramse resultados interessantes que não só consolidam a hipótese de gramaticalidade de temse(/têm-se) como estratégia de impessoalização no discurso acadêmico e a hipótese de equivalência funcional com a forma há, como também permitem detectar algumas influências relativas ao emprego dessas formas. Palavras-chave: Sociofuncionalismo, Gramaticalização, Variação linguística, Impessoalização, Construção tem-se(/têm-se).

13 XIII ABSTRACT A construção TEM-SE no Português Brasileiro escrito: uma análise sociofuncionalista Eneile Santos Saraiva Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa). This dissertation aims (i) to study the grammaticalization phenomena which affects a construction formed by the verb ter (to have) in third person + clitic se (tem-se/têm-se) and, in view of its functional equivalence in relation to the third person impersonal verb haver (which is similar to constructions "there is / there are"), (ii) it aims to investigate the alternation of such forms in order to indicate impersonal predications in academic discourse. It is believed that tem-se(/têm-se) goes through a process of grammaticalization, wherein the verb in question crystallizes with clitic se and it resembles indeterminacy of the subject structures. Some studies (cf. Callou& Duarte, 2005; Callou&Avelar, 2007) suggest that, in oral language, the switching between the verbs ter and haver which have impersonal value enrolls a high rate of use of the verb ter; however, in written language, there is resistance to the use of ter with impersonal value. Some studies (cf. Callou& Duarte, 2005; Callou&Avelar, 2007) suggest that, in oral language, switching between the verbs ter and haver with impersonal value, enrolls a high rate of use of the verb ter, however in written language, there is resistance to the use of ter. So let's see how the construction tem-se(/têm-se) competes in written language with the verb form and if it is possible to consider such forms as variants, especially in academic writing.we intend, therefore, to investigate aspects that allow show the feasibility of considering the construction tem-se(/têm-se) has would be passing by the phenomenon of grammaticality, and also check if there are factors linguistic and / or extralinguistic that interfere in the use of one: tem-se(/têm-se) or há. The corpus analysis was made from data collected in academic texts of Brazilian

14 XIV Portuguese. Data were subjected to statistical analysis, and we use the program GoldVarb X. Furthermore, the data were examined in attitudes tests which were perfomed with academic students, so that it could investigate how tem-se(têm-se) is perceived by users of language. So we try to substantiate the analysis of the constructions based on data from observable behavior in academic text and based on perceptions. We used research methodology of language attitudes. For the examination of this corpus, we used the theoretical and methodological assumptions of the Theory of Variation and Change focusing the problems of conditioning, evaluating and embedding. We use functionalist concepts, like the related to the phenomenon of grammaticalization, whereby it focused on linguistics change, that result has been the construction tem-se(/têm-se) and functional equivalence of this impersonal strategy over tem and há. In this research, interesting results were obtained that not only consolidates the assumption of grammaticality of tem-se(/têm-se) and your use like the impersonal strategy in academic texts, but also the hypothesis of functional equivalence of the construction with há. Keywords: Sociofunctionalism, Grammaticalization, Linguistic Change, Impersonalization, Construction "tem-se(/têm-se)"

15 XV SUMÁRIO 1. Introdução Construções com ter: impessoalização, polifuncionalidade e gramaticalização em estudo O percurso histórico do verbo ter A formação do padrão culto normativo no PB: resistência ao uso do verbo ter impessoal na modalidade escrita A impessoalização mediante o verbo ter e a teoria gramatical normativa O status polifuncional do verbo ter Alternância ter~haver e os estudos sociolinguísticos Questões da gramaticalidade de tem-se(/têm-se) em jogo O estatuto da partícula se Segundo o enfoque tradicional Segundo outros enfoques O predicador ter e as construções impessoais Quadro teórico O Funcionalismo A teoria da Gramática Funcional sob a perspectiva de Dik A Teoria da Variação e Mudança A abordagem sociofuncionalista Materiais e procedimentos de pesquisa Considerações sobre o tratamento estatístico de dados nos materiais considerados O tratamento variacionista de dados O teste de atitudes Constituição do corpus para estudo do comportamento observável na escrita acadêmica Primeira fase: exame preliminar de formas verbais para a delimitação do corpus desta pesquisa...48

16 XVI A constituição do material de análise final: o texto acadêmico Estudo da gramaticalidade de tem-se(/têm-se) como recurso/construção de indeterminação e sua alternância com outras formas verbais A estrutura argumental da construção tem-se(/têm-se) O processo de gramaticalização da construção tem-se(/têm-se) A construção tem-se(/têm-se) e seus graus de impessoalização A correferência semântica entre tem-se(/têm-se), tem e há A alternância de tem-se(/têm-se) e há no discurso acadêmico: análise e intepretação de usos e percepções Distribuição geral da amostra de dados do comportamento observável em textos acadêmicos Os grupos de fatores examinados: descrição e hipóteses Fonte: gênero acadêmico e área Estrutura da predicação Presença e natureza de elemento antecedente proclisador Posição das variantes no período Tipo de sentença Localização do elemento contêiner e da construção especificadora no período Grau de envolvimento do autor na expressão do enunciado Grau de equivalência semântica entre as formas tem-se/têm-se e há Estruturação do elemento nominal Natureza semântica do argumento interno selecionado Análise estatística dos dados do comportamento observável em textos acadêmicos por grupo de fatores Análise da fonte, do gênero textual e da área de conhecimento Análise da estrutura da predicação Análise da posição do elemento contêiner no período e da posição da expressão especificadora no período...112

17 XVII As variáveis selecionadas nas análises da subamostra (com dados somente da estruturação elemento predicador + SN objeto) Presença e natureza de elemento antecedente proclisador Tipo de sentença Grau de envolvimento do autor do texto na expressão do enunciado Equivalência semântica entre as formas tem-se(/têm-se) e há Grupos de fatores não selecionados pelo GoldVarb X Posição da variante no período Estruturação do elemento nominal Natureza semântica do SN selecionado Análise de percepções obtidas em teste de atitudes Análise da primeira etapa do teste de atitudes Análise da segunda etapa do teste de atitudes Considerações finais Referências bibliográficas Anexo (teste de atitudes)...158

18 XVIII ÍNDICE DE TABELAS, QUADROS E GRÁFICOS Tabelas 1: Distribuição das variantes ter e haver em relação ao tempo verbal numa amostrateste de 194 dados : Distribuição dos dados com o acréscimo de novas fontes de consulta : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores fonte em 527 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores fonte em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função dos grupos de fatores área e gênero textual em 483 dados de escrita acadêmica : Distribuição das formas alternantes tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores estrutura da predicação em 527 dados de escrita acadêmica : Distribuição das formas alternantes tem-se(/têm-se) e há em função dos grupos de fatores localização do elemento contêiner ou da construção especificador no período em 527 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores presença e natureza de elemento antecedente proclisador : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores tipo de sentença em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores grau de envolvimento do autor na expressão do enunciado em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do cruzamento dos grupo de fatores grau de envolvimento do autor na expressão do enunciado e tipo de sentença em 483 dados de escrita acadêmica : A equivalência de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores equivalência entre essas formas em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do cruzamento dos grupos de fatores tipo de sentença e equivalência semântica entre as formas em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores posição das variantes no período em 483 dados de escrita acadêmica...126

19 XIX 15: A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do cruzamento dos grupos de fatores tipo de sentença e posição das variantes do período em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores estruturação do elemento nominal em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função dos grupo de fatores natureza semântica do SN selecionado em 483 dados de escrita acadêmica : A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do cruzamento dos grupos de fatores tipo de sentença e natureza semântica do SN em 483 dados de escrita acadêmica Resultado da análise sintática do SN argumentado por tem-se(/têm-se) ou há feita pelos participantes dos cursos de História, Pedagogia e Matemática : Resultado da análise sintática do SN argumentado por tem-se(/têm-se) ou há feita pelos participantes do curso de Letras : Resultado da análise da associação de tem-se(/têm-se) ou há à oralidade ou à escrita feita pelos participantes dos cursos de História, Pedagogia e Matemática : Resultado da análise da associação de tem-se(/têm-se) ou há à oralidade ou à escrita feita pelos participantes dos cursos de História, Pedagogia e Matemática Quadros 1: Estrutura subjacente para a cláusula : Tipos de sentenças em que ocorrem as estruturas tem(/têm-se) e há no corpus de análise : Os 11 grupos de fatores em exame nesta pesquisa sociofuncionalista...82 Gráficos 1: Modelo de interação verbal da Gramática Funcional de DIK (1997:8-9, v.1) : Distribuição percentual de ter e haver por gênero textual numa amostra-teste de 194 dados...51

20 XX 3: Grau de impessoalização expresso pelas formas tem, tem-se(/têm-se) e há : Construções para impessoalização ou expressão de existência no discurso acadêmico (Distribuição percentual das 527 ocorrências)...81

21 1 1. Introdução Esta dissertação ocupa-se do estudo do fenômeno da gramaticalidade 1 da estrutura formada por verbo ter na terceira pessoa (do singular ou plural) + partícula se e do fenômeno de alternância entre as formas de impessoalização tem-se(/têm-se) e há na escrita acadêmica. Acredita-se que a forma verbal em foco deixa de ser livre e cristaliza-se, com o clítico, em uma construção que se assemelha ao que, em obras da literatura linguística (cf. PINA, 2009), é classificado como estrutura de indeterminação do sujeito. E, assim, essa construção passa a ocorrer em contextos em que se podem empregar outros recursos linguísticos de impessoalização, entre os quais os verbos haver, mais recorrente na escrita, e ter, mais recorrente na oralidade, conforme pesquisas sobre o tema vêm revelando. A este estudo interessa, em linhas gerais, descrever e explicar o fenômeno de gramaticalidade em prol da marcação de impessoalidade a que, se supõe, se sujeitou a construção tem-se(/têm-se) e os aspectos sociolinguísticos e funcionais envolvidos em sua alternância com a forma verbal haver (na terceira pessoa do singular) em textos do domínio acadêmico levantados em trabalhos de conclusão de cursos de Pós-Graduação e em revistas científicas. É perceptível que o verbo ter está tomando o espaço do verbo haver na língua desde o português arcaico. Entre as hipóteses da pesquisa vinculadas a esse processo, destacam-se estas: (i) a de que a estrutura tem-se(/têm-se) estaria emergindo no Português Brasileiro (PB) como estratégia de impessoalização do discurso cada dia mais produtiva particularmente na língua escrita, em que ainda pouco se detecta a extensão de uso impessoal do verbo ter que se flexiona na terceira pessoa do singular; e (ii) a de que, em consequência desse processo, aquela se tornaria uma alternativa à extensão de uso existencial do verbo haver e, na condição de forma com comparabilidade funcional a esta, entraria em competição com há em certos contextos sociolinguísticos. 1 Nesta pesquisa, utiliza-se o rótulo gramaticalidade da construção tem-se/têm-se em lugar de gramaticalização para denominar o fenômeno resultante deste processo, em virtude de se realizar um estudo que foca uma sincronia específica, já que se trabalharam com dados recolhidos em textos acadêmicos ou jornalísticos publicados entre os anos de 2006 e 2012.

22 2 Em contextos discursivos em que se necessita manter características como a imparcialidade e o distanciamento do autor/pesquisador, passa-se a contar, então, com mais uma construção (tem-se(/têm-se)) com a função gramatical de marcar a impessoalização da predicação alternativa à que se constitui com o verbo haver, só que uma construção que, se supõe, tem maior aceitação do que a com o verbo ter (tem) sem a inserção do clítico se. Para investir nessa meta inicial, buscou-se, no levantamento de dados nas fontes acadêmicas, observar a possibilidade de ocorrência de ter existencial no comportamento linguístico observável nessas fontes e, ainda, no registrado segundo metodologia de pesquisa de atitudes. Com base na possibilidade de leitura que se cogita para tem-se(/têm-se) nesta investigação, levantam-se outras frentes de interesse que se revelam em questões a serem aqui tratadas, tais como: 01. Qual é a configuração semântica e sintática das predicações que contêm a construção tem-se(/têm-se) com a finalidade discursiva de impessoalização? Como esta é efetivamente usada no Português Brasileiro escrito no domínio discursivo acadêmico? Detectam-se construções com tem-se(/têm-se) sem essa finalidade? Em caso afirmativo, qual(is)? 02. Qual é a relação das construções tem-se(/têm-se) em foco nesta dissertação com estruturas de passiva pronominal e com estruturas de indeterminação? 03. Nos dados coletados, pode-se atribuir ao termo nominal que acompanha a estrutura tem-se(/têm-se) função sintática de objeto direto, já que temse(/têm-se) configuraria uma estrutura de impessoalização? 04. Como os usuários percebem e interpretam a estrutura tem-se(/têm-se)? 05. Trata-se realmente de uma estrutura resultante de um processo de gramaticalização? Em que medida? Como se apresenta e configura esse processo? Como se apresenta o fenômeno da gramaticalidade de temse(/têm-se) no Português Brasileiro escrito?

23 3 Importa, neste estudo, detectar, sincronicamente, os parâmetros da gramaticalização de tem-se(/têm-se). Para tanto, conta-se com dados do comportamento observável, em que se pauta a pesquisa, levantados em textos publicados no período de 2006 a E para lidar com essa questão em termos teórico-explicativos, recorre-se, principalmente, a Hopper (1991) e aos estudos elaborados por Hopper e Traugott (1993), nos quais o processo de gramaticalização é pensado mediante o pressuposto de que itens que já desenvolviam função lexical na língua passam a desenvolver função gramatical e, itens gramaticais, ao passarem pelo processo de gramaticalização, se tornariam, por assim dizer, mais gramaticais. Com base na relação de similaridade que se pode pressupor entre tem-se(/têmse) e estratégias de impessoalização com os predicadores haver e ter flexionados na terceira pessoa do singular, conjugam-se à orientação funcionalista deste estudo pressupostos da Teoria da Variação e Mudança (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968; Labov, 1994), no intuito de estudar a alternância entre tais formas de impessoalização na escrita acadêmica brasileira. Weinreich, Labov & Herzog (1968) apresentam cinco questionamentos, que devem nortear os estudos sociolinguísticos. Nesta pesquisa, pretende-se explorar esses cincos questionamentos, a saber: a questão dos fatores condicionantes, a questão da transição, a questão do encaixamento, a questão da avaliação e a questão da implementação. Tendo em vista essa meta, outras frentes de investigação, neste estudo sociofuncionalista, ganham especial interesse; eis algumas questões: 01. Quais são os condicionamentos envolvidos no fenômeno de alternância das formas tem-se(/têm-se) e há? 02. Há limite/restrição para a relação de comparabilidade funcional estabelecida para essas formas? 03. É pertinente a suposição de um processo de mudança linguística para a construção tem-se(/têm-se) com base no qual ganha, em alguma medida, o território de há? Até que ponto se pode refletir sobre isso nesta pesquisa?

24 4 04. Como se implementa essa mudança, ou seja, a gramaticalidade e a impessoalização de tem-se(/têm-se)? 05. Que relação tem com outros elementos e/ou mudanças linguísticas no Português? A variação é inerente às línguas. É um traço que está presente em toda e qualquer comunidade de fala de forma sistemática e estruturada. Sendo o fenômeno de variação organizado, existem condições que podem ou não favorecer o uso de uma dada forma em uma situação específica. Assim, ao longo deste estudo, interessa verificar também se existem fatores que corroboram o uso de uma variante em detrimento da outra, tendo-se em mente, nesta vertente de investigação, em uma primeira etapa, a alternância entre haver e ter. A pesquisa variacionista que aqui será relatada baseia-se em dois momentos de investigação distintos: em uma etapa preliminar, a partir de uma amostra-teste, investigaram-se textos jornalísticos e acadêmicos, a fim de (i) verificar se realmente a forma tem não é produtiva na modalidade escrita (especialmente, em contexto discursivo monitorado) e (ii) averiguar se a forma tem-se/têm-se, utilizada como estratégia de impessoalização, apareceria mais na modalidade acadêmica do que na jornalística. A partir dos resultados da primeira etapa, que indicam a fixação de temse/têm-se no discurso acadêmico, como suposto, previsto e o pouco índice de uso de tem, na segunda etapa esta pesquisa volta-se, então, para a alternância entre as formas tem-se(/têm-se) e há no discurso acadêmico escrito. Na modalidade escrita da língua portuguesa, há preferência pelo procedimento da impessoalização mediante o emprego do verbo haver, enquanto a forma verbal ter quase não é empregada (Cf. Callou e Duarte, 2005 e Callou e Avelar, 2007). Pretendese, assim, averiguar quais as razões que podem justificar o fato de tem-se(/têm-se) ganhar espaço somente na língua escrita. Busca-se investigar, assim, se a construção estaria emergindo na língua por força de pressões normativas, já que, como veremos mais adiante, o uso do verbo ter impessoal não é descrito nos principais compêndios gramaticais brasileiros. E os estudos sociolinguísticos confirmam o significativo uso da

25 5 estrutura de verbo na terceira pessoa do singular seguida pelo clítico se como forma de indeterminação do sujeito na língua escrita. Tendo em vista a preocupação de apreciar o fenômeno da variação a que está sujeita a construção em foco nesta dissertação o qual, se supõe, funciona como motivação para a mudança gramatical desta no sentido de mecanismo de impessoalização, na constituição do corpus que serviu à etapa inicial de investigação buscaram-se dados como os exemplificados a seguir: (01) Assim, há pouca deformação plástica e a elevada dureza persiste mesmo em altas temperaturas, ao contrário dos metais. [Artigo científico, Revista Matéria, v. 16, n. 1, 2011]. (02) Onde tem terra indígena há uma barreira, mas não quer dizer que seja um santuário, reconhece Pires. [Reportagem, Jornal O Globo, ]. (03) Tem-se, tão-somente, uma relação semântica: o locutor anuncia o tópico sobre o qual vai falar para depois fazer um comentário por meio de uma sentença completa. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 2, 2007]. Na proposta desta pesquisa, as três formas exemplificadas acima, grosso modo, seriam estruturas equivalentes na língua: são intercambiáveis; geralmente, expressam impessoalização ou existência de algo; não selecionam elemento argumental com função semântica de agente e projetam um argumento interno, geralmente localizado à direita. Como a inserção de tem-se(/têm-se) está ocorrendo significativamente na modalidade escrita da língua, principalmente em textos acadêmicos, na segunda etapa da investigação, que trabalha somente com textos do domínio acadêmico escrito, localizaram-se somente dados como os expostos em 01 e 03, já que a forma tem, como se verá adiante, na língua escrita, figura no domínio jornalístico e em número reduzido de enunciados: principalmente em contextos de discurso direto e outros contextos diretamente relacionados com a fala. Vale informar, ainda, que antes da seleção das fontes com base nas quais se compôs o corpus de análise fez-se um apanhado das

26 6 ocorrências de tem-se(/têm-se) no corpus do Projeto NURC-RJ 2, para verificar a consistência da afirmação de que a forma tem-se(/têm-se) estaria restrita à língua escrita, principalmente no domínio acadêmico. Na análise de aproximadamente 80 DIDs (diálogos entre informante e documentador) e 6 EFs (elocuções formais; gravação de aulas, conferências e palestras), foram registradas apenas 2 ocorrências dessa estrutura 3. Cabe, então, nesta pesquisa, avaliar os contextos de uso da construção temse(/têm-se), observar e descrever como ocorre a distribuição, na modalidade escrita acadêmica culta do PB, das formas em análise (tem-se(/têm-se), tem e há), entender e explicar como se dá a gramaticalidade de tem-se(/têm-se), tendo-se em vista parâmetros do processo de gramaticalização como equivalência, dessemantização, persistência e descategorização. Entende-se que este estudo tem contribuição a dar no que diz respeito tanto aos estudos variacionistas sobre a relação entre os verbos ter e haver, por lidar com um domínio discursivo, que, até onde se sabe, ainda não foi descrito, como aos estudos funcionalistas, por lidar com implicações sociofuncionais relativas ao uso da construção de impessoalização aqui em foco e com processos pressupostos no fenômeno da gramaticalidade. Ainda, a partir do estudo desse fenômeno, almeja-se, também, tecer uma reflexão sobre a constituição de padrões normativos do PB no que tange a diferenças que possam existir nas modalidades escrita e oral da língua. 2. Construções com ter: impessoalização, polifuncionalidade e gramaticalização em estudo 2 O acervo do Projeto NURC-RJ (Projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro), ora disponível on-line, constitui referência nacional para estudos da variante culta da língua portuguesa. Trata-se de entrevistas gravadas nas décadas de 70 e 90 do século XX, num total de 350 horas, com informantes com nível superior completo, nascidos no Rio de Janeiro e filhos de pais preferencialmente cariocas. Para garantir a permanência de um dos mais importantes bancos de dados de oralidade urbana culta, deu-se início à digitalização do material, no sentido de preservar a memória nacional. A relevância desta tarefa específica foi bem traduzida pelas palavras de Antenor Nascentes, no Prefácio da primeira edição (1922) de O Linguajar Carioca: "nosso trabalho não é para a geração atual; daqui a cem anos, os estudiosos encontrarão nele uma fotografia do estado da língua e neste ponto serão mais felizes que nós, que nada encontramos do falar de Essas informações foram extraídas do site do Projeto: 3 Eis os exemplos: Mas tem-se ali uma tranquilidade, uma vida assim muito diferente. [Inq. 233] / O carro entra pra, vai numa oficina e tem-se a impressão que quando ele vai com um defeito, depois ele volta mais tarde com outro. [Inq. 175]

27 7 Nesta seção, descrevem-se construções com o verbo ter no Português Brasileiro, processos de gramaticalização desta forma verbal e alguns aspectos relativos ao processo de gramaticalização da construção tem-se(/têm-se). Acredita-se que a polifuncionalidade de ter e o esvaziamento semântico a que se submete são condições que colaboram para o fenômeno de gramaticalização dessa forma verbal na construção impessoal tem-se(/têm-se). Pretende-se refletir sobre a expansão de uso/sentido do verbo ter ao longo dos séculos e o seu histórico de competição com a forma verbal haver. Com esse procedimento, tenciona-se reunir subsídios sobre o status polifuncional dessa forma verbal, seu funcionamento como predicador pleno, verbo (semi-)auxiliar e verbo suporte. E, assim, averiguando os processos de gramaticalização pelos quais o verbo ter já passou, analisar aspectos descritivos em prol da investigação a que aqui se procede. Nesta parte da dissertação, também se expõem estudos sociolinguísticos que versam sobre a alternância ter~haver com o intuito de sondar como esta ocorre nas modalidades oral e escrita e analisar, a partir dos dados, o pouco e restrito uso do verbo ter impessoal nesta última modalidade, o que, em nossa proposta, teoricamente, contribuiria para a generalização do uso impessoal de tem-se(/têm-se). 2.1 O percurso histórico do verbo ter O verbo ter, de acordo com o Dicionário eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa (2009), possui cerca de 50 acepções, sendo que algumas ainda contam com subdivisões. Entre as definições, encontram-se, entre outros, estes sentidos: posse alienável (Ele tem uma televisão nova) ou inalienável (Eu tenho um resfriado), posse inerente ou transitória (Você tem fósforos?). Assume também o sentido de exercer controle sobre algo ou si mesmo (Mal se tinha de tanta alegria), incluir ou conter como parte de um todo (Fevereiro nunca tem mais de 29 dias), equivaler, significar (Mas chegar aonde ele chegou tinha um preço) etc. Entretanto, em nenhum momento, o verbo ter é descrito pelo seu valor impessoal.

28 8 Em relação à estrutura de argumentação, nas construções impessoais com o verbo ter, assim como ocorre com o verbo haver, é selecionado um elemento interpretado sintaticamente com a função de objeto direto. Cabe ressaltar que algumas gramáticas tradicionais e pedagógicas consideram o verbo haver como impessoal e transitivo. Callou e Martins (2003, p, 820) afirmam que as estruturas existenciais com ter e haver ocorrem obrigatoriamente com um constituinte interpretado como objeto direto, mas, em princípio, não com um constituinte sujeito. Em Bechara (1987), a ausência de concordância entre argumento e o verbo ter impessoal sugere que o autor interpreta o SN exercendo função sintática de objeto direto. Sampaio (2000) destaca ainda que as construções impessoais com o verbo ter mantiveram a mesma estruturação sintática da construção com o verbo haver, ou seja, oração sem sujeito com predicador verbal projetando apenas argumento interno. É discutível a relação de concordância quando se trata do verbo ter na terceira pessoa, já que a diferença no PB é marcada apenas pelo sinal gráfico de acentuação circunflexo (^). No corpus de análise, foram computados alguns casos de marcação de plural na construção tem-se(/têm-se), fato que poderia sugerir a associação da sentença a uma construção passiva. Pretende-se, mais adiante, tratar, mais atenciosamente, dessas construções com a marcação de plural. De acordo com Sampaio (2000, p. 2) é praticamente impossível estudar o verbo ter separado de haver, pois desde o Latim clássico eram afins em muitos empregos. No Português arcaico (século XIII primeira metade do século XVI), já ocorria a lenta, mas progressiva substituição do verbo aver por teer (COSTA, 2010, p. 60). No Português arcaico, assim como acontecia no Latim, já se verificava que os verbos habere (habeo, -es, -ere, habui, habitum) e tenere (teneo, -es, -ere, tenui, tentum) tinham múltiplas realizações e apresentavam várias acepções. Assim, habere comportava os significados relativos a ter, possuir, guardar, dever etc., enquanto tenere podia ser utilizado com as significações listadas a seguir: segurar, obter, ser senhor de, ocupar, guardar, entre outros. Nota-se que já havia alguns pontos que aproximavam tenere de habere. De acordo com Costa:

29 9 Habere foi-se revelando um verbo mais fraco que tenere e, à medida que a debilitação semântica de habere se acentuava, tenere ia ganhando espaço e maior aceitação entre os falantes. Algumas das utilizações destes dois verbos manter-se-ão desde o latim até às línguas românicas, outras formar-se-ão em cada língua, conferindo a estes verbos o estatuto de permanente adaptabilidade face às necessidades de cada comunidade falante. (COSTA, 2010, p. 61) Foi a partir do século XV que a forma verbal teer superou, em número de ocorrências, aver. Nesse tempo, o verbo teer já expressava todos os sentidos de posse 4. A partir dos estudos de Costa, conclui-se que, desde o Português arcaico, as formas verbais aver e teer estavam em competição e que, a partir do século XV, assim como ocorre no Português moderno, há a supremacia da utilização do verbo ter sobre o haver em perífrases verbais e, mesmo em construções em que esses verbos funcionam como itens predicadores, a forma verbal ter, com valor impessoal, como destacado por Bechara, é bem produtiva no Português Brasileiro. Na história do Português, no século XVI, é atenuado o uso do verbo haver com sentido possessivo, e o ter passa a ser mais utilizado para indicar posse de objetos materiais. Ainda, de acordo com Sampaio (2000, p. 20), a língua preferiu o verbo ter para formar os tempos compostos. De acordo com a autora, o processo de esvaziamento do verbo haver foi consolidado no século XVI e possibilitou que o verbo ter invadisse a esfera da oração existencial, que era privativa de haver. (SAMPAIO, 2000, p.20). A esta época, ainda se destaca que a parcimônia com que o verbo ter era empregado na oração existencial nos faz supor que se tratava mais de um fenômeno da língua falada que da escrita. (Sampaio, 200, p. 20). Ainda no século XVIII e XIX, a autora destaca que o verbo haver prevalece sendo utilizado com preferência nas construções existenciais e o verbo ter aparece mais esporadicamente. Somente no século XX, a partir do movimento Modernista no Brasil, em que se passaram a considerar os elementos criativos da língua escrita (Sampaio, 2000, p. 28), a oração existencial com o verbo ter, criação analógica da língua falada, entra, então, na modalidade escrita da língua. 4 Mesmo habere e tenere possuindo acepções que os aproximavam; inicialmente o verbo aver era utilizado para designar qualquer tipo de posse enquanto teer era reservado para designar a posse temporária ou a posse de bens materiais adquiríveis. (Cf. Costa, 2010)

30 10 Mas, como veremos mais adiante, ainda é muito reduzido e restrito esse uso do verbo ter na escrita culta brasileira. De acordo com Callou e Duarte (2005), em contextos existenciais, no PB, o processo de substituição da forma verbal haver impessoal por ter encontra-se em um estágio mais ou menos avançado. As autoras ainda destacam que é possível observar, na história do PB, que a presença de uma expressão locativa adjacente e a não ocorrência de um sujeito contíguo, como será demonstrado nas sentenças abaixo, favorecem o uso do ter por gerarem certo grau de ambiguidade: a. Ali tem muitas pessoas. b. Aquela casa tem muitas pessoas. Tanto em a quanto em b, as orações podem ser analisadas como possessivas ou existenciais, a depender da interpretação dos sintagmas [Ali] e [Aquela casa] (ou adjunto ou sujeito do verbo ter). Sendo assim, de acordo com Callou e Duarte (2005, p. 149), parece ter sido esse o caminho para a inserção do verbo ter entre os existenciais. Assim, visa-se a verificar a estruturação das sentenças com tem-se(/têm-se), tem e há, os contextos de uso dessas formas, os seus valores semânticos e as motivações para a inserção de tem-se(/têm-se) na língua escrita A formação do padrão culto normativo no PB: resistência ao uso do verbo ter impessoal na modalidade escrita Esta seção tem como intuito traçar uma reflexão acerca da constituição do padrão culto idealizado no Brasil e, desse modo, verificar em que medida a pressão normativa pode influenciar para que uma forma muito utilizada na oralidade, no caso, o verbo ter na terceira pessoa com valor impessoal, seja pouco utilizada na escrita e, com isso, haja espaço para que surja uma nova forma: a construção tem-se(/têm-se), que parece ganhar força tão somente na modalidade escrita, principalmente em textos acadêmicos.

31 11 O padrão linguístico idealizado no Brasil constituiu-se a partir do modelo lusitano, ou seja, de acordo como a língua estava sendo utilizada, descrita e recomendada pelos portugueses. De acordo com Mattos e Silva (2004), é somente a partir da segunda metade do século XVIII que o Brasil pode começar a ser definido como um espaço de Língua Portuguesa, em virtude da política linguístico-cultural dilatada pelo Marquês de Pombal. Muito do que foi estipulado como norma padrão no Brasil, na verdade, não correspondia aos usos linguísticos da maioria dos falantes do Português neste território. Assim, no Brasil, é possível que se detecte uma profunda dissonância entre a norma culta (o que os falantes cultos realmente produzem) e a norma padrão (o modelo idealizado, que teve como base o Português Europeu). Em relação às construções existenciais no PE, não se verifica a alternância ter~haver com valor impessoal, já que, em Portugal, não é produtivo o uso do verbo ter com valor impessoal. No PB, porém, como já exposto, há a preferência na língua oral pela utilização da forma verbal ter. Entretanto, na modalidade escrita, observa-se a predominância de uso de haver existencial. Hipoteticamente, essa resistência pode ser explicada por força do padrão linguístico normativo e, consequentemente, pelas orientações dos compêndios gramaticais brasileiros, que, por basearem-se na norma lusitana, não validam o uso impessoal do verbo ter. Pagotto (2001) destaca que as diferenças existentes entre o Português Brasileiro (PB) e o Português europeu (PE) sempre foram evidentes, mas, o que se pode observar é que, na escrita, não houve espaço para a inserção das mudanças que a língua sofria no território brasileiro. E, na elaboração dos nossos compêndios gramaticais, foram mantidos os padrões lusitanos e hoje ainda encontramos materiais que reproduzem essa perspectiva linguística. Desse modo, ao abordar a alternância tem-se(/têm-se)~tem~há e as variáveis independentes que podem estar condicionando o uso de determinada variante, busca-se refletir sobre a língua portuguesa e seus usos. Assim, o ensino de Língua materna torna-se mais coerente e também há um estímulo para a construção do conhecimento científico da mesma, ao refletir na constituição do padrão linguístico brasileiro e, desse modo, entrar em contato com a realidade sociolinguística do PB. Ao perpassar pelos meandros da constituição do padrão normativo no Brasil, chega-se à conclusão de que, ao evitar o uso do verbo ter impessoal na língua escrita,

32 12 visa-se a uma busca pelo atendimento ao padrão normativo. Mas, ao mesmo tempo, abre-se espaço para que a estrutura tem-se(/têm-se) passe a competir com a forma verbal há. O verbo ter foi ganhando espaço, ao longo da história da língua portuguesa, ao estar em constante competição com o verbo haver. Sampaio destaca que, a partir século XVI, o verbo ter invade a esfera da oração existencial e acaba por usurpar todas as funções que eram privativas do verbo haver (SAMPAIO, 2000, p. 31). Na modalidade escrita do português brasileiro, a estrutura tem-se(/têm-se) parece ser a estratégia utilizada para em um espaço que, como demonstram os estudos variacionistas, domina a utilização do verbo haver, mais uma vez, disputar espaço com esta forma verbal A impessoalização mediante o verbo ter e a teoria gramatical normativa Procurou-se verificar como o verbo ter com valor impessoal é abordado em alguns compêndios gramaticais brasileiros para assim analisar se, empiricamente, esse uso não seria realmente recomendado ou descrito. Em Lições de gramática pela análise sintática, Bechara (1988, p. 32), em consonância com a visão tradicionalista, diz que constitui incorreção, na língua culta, o emprego do verbo ter em lugar de haver em orações como: Tem livros na mesa por Há livros na mesa. Ainda, de acordo com o autor, o uso do ter impessoal ter-se-ia originado a partir de duas ordens de fatores: (i) a mudança na formulação das orações (por exemplo, A biblioteca tem bons livros ao invés de Na biblioteca há bons livros); e (ii) pela progressiva vitória do verbo ter sobre o verbo haver em uma série de enunciados em que ambos lutaram pela sobrevivência (por exemplo, na auxiliaridade de tempos compostos, como em tenho estudado por hei de estudar; em expressões como tem nome em vez de há nome (= chama-se), entre outros usos). De acordo com Cunha e Cintra (2001, p.131), o verbo ter com valor impessoal é utilizado na linguagem coloquial. Os autores chegam a destacar trechos de Drummond e Manuel Bandeira que expõem tal uso: Hoje tem festa no brejo! (Carlos Drummond de Andrade) e Tem um processo seguro... (M. Bandeira). Entretanto, esses gramáticos, apesar de exemplificarem o uso do ter impessoal e considerarem o seu uso na

33 13 linguagem coloquial, ressaltam que construções impessoais com o referido verbo devem ser evitadas. Rocha Lima (2010, p. 487), em sua gramática, ao listar e descrever os verbos impessoais, não faz referência ao uso do ter impessoal. O gramático destaca estes como sinônimos de verbos impessoais do Português: os verbos que exprimem fenômenos da natureza (chover, nevar...); o verbo fazer, indicando fenômenos devidos a fatos astronômicos ou que expressem tempo decorrido; o verbo haver, significando a existência de uma pessoa ou coisa; e acontecer, suceder e sinônimos acompanhados de adjunto adverbial de modo. Com o mesmo objetivo, também foram consultados os seguintes livros didáticos: Português: contexto, interação e sentido (Maria Luiza M. Abaurre, Maria Bernadete M. Abaurre e Marcela Pontara), Português: literatura, gramática e produção de textos (Leila Lauar Sarmento e Douglas Tufano) e Gramática, Literatura e produção de textos para o ensino médio: curso completo (Ernani Terra e José de Nicola). Todos os livros citados possuem como público alvo alunos do ensino médio. Nos três, foram consultadas as seções que abordavam a classe gramatical Verbo e as Funções sintáticas. Em todas as obras, a abordagem dos verbos impessoais é feita de forma bem sucinta quando se discutem as orações sem sujeito. No primeiro, as autoras descrevem como verbos impessoais ser, estar, fazer e haver relacionados a fenômenos da natureza ou a expressões temporais e, especificamente, o verbo haver com o sentido de existir. É interessante ressaltar que, nesta obra, em vários momentos há um quadro explicativo intitulado De olho na fala e, mesmo nele, não há qualquer referência ao uso do verbo ter com valor impessoal. No segundo livro consultado, Sarmento e Tufano também não abordam o verbo ter com valor impessoal. Os autores, que também citaram os itens verbais descritos no primeiro livro, com exceção do verbo estar, acrescentam à lista o verbo ir e utilizam o seguinte exemplo: Ia o período da primeira safra de feijão. Também, no terceiro livro investigado, não se faz menção ao uso de ter impessoal. Terra e Nicola começam exemplificando as orações sem sujeito com verbos

34 14 que exprimem fenômeno da natureza e destacam como impessoais os mesmos verbos indicados no primeiro livro averiguado. Nesta breve visita a alguns dos principais compêndios gramaticais brasileiros e a alguns livros didáticos, apreende-se que, no que tange a construções de sentenças impessoais no PB, o uso do verbo ter com valor impessoal não é recomendado e, por vezes, é colocado como incorreção. Já nos livros didáticos, não foi encontrada qualquer referência ao ter com valor impessoal. De forma geral, a descrição da questão dos verbos impessoais foi abordada de maneira muito superficial. Até mesmo em um livro didático que dá ênfase à língua oral, não se fez nenhuma menção ao uso do verbo ter expressando impessoalidade. Assim, observa-se que, na constituição das gramáticas tradicionais brasileiras e no ensino de língua materna em sala, segue-se o padrão normativo lusitano no que diz respeito à construção de sentenças impessoais. Esse padrão, nas obras consultadas, parece ser único. Não é considerado o caráter variável da língua e, quando o verbo ter, com valor impessoal, foi considerado na Gramática de Cunha e Cintra, destacou-se que as construções com o esse verbo em seu uso impessoal devem ser evitadas 5. Ainda foi possível perceber que a forma tem-se(/têm-se) e os seus usos também não foram, em nenhum momento, abordados nos livros consultados, nem mesmo nas seções em que se descreveram as estratégias de indeterminação do sujeito e construções passivas sintéticas. Franchi, Negrão e Viotti (1998, p. 106) destacam que a distribuição dos verbos nas construções existenciais do PB mostra o privilégio às construções com ter sobre haver e existir. Como, então, explicar que, nos principais compêndios gramaticais e livros didáticos, não é abordada a impessoalização com o verbo ter? De acordo com Faraco, não há forças entre nós que quebre a norma curta [culta] como referência ideológica [grifo nosso] (1998, p. 128). Todavia, a Língua é um bem cultural. Expressamos-nos e reconhecemos-nos através dela. Tratar a língua como um organismo vivo, com caráter indubitavelmente variável, é, antes de tudo, respeitar a comunidade de fala. 5 Entretanto, como demonstram as pesquisas sociolinguísticas, o índice de uso do verbo ter, como veremos mais adiante, é superior ao índice de uso do verbo haver na modalidade oral.

35 15 Na Gramática do português culto falado no Brasil, no capítulo Predicação, Berlinck, Duarte e Oliveira (2009, p. 148) destacam que, em pesquisas realizadas com base no acervo NURC, apenas nas Elocuções Formais o uso do verbo haver (com 59%) supera o uso de ter. Nos inquéritos do tipo D2, esse índice cai para 34% e nos inquéritos DID, para 10 %. Verifica-se, assim, a força com a qual o verbo ter impessoal é utilizado na modalidade oral culta do PB. Ainda, de acordo com as autoras, a escrita, porém, consegue recuperar essa forma extinta na fala (DUARTE & OLIVEIRA, 2009, p. 151), o uso do haver impessoal, o que, em nossa proposta, como vimos, revela a tendência de se atender, na modalidade escrita, o padrão normativo culto idealizado. Na pesquisa realizada por Vitório (2011), que visa a analisar a alternância ter~haver na fala maceioense, a autora destaca a importância de levar em consideração o quesito escolaridade no tratamento dessa variação. Segundo a autora, no estudo em que analisou dados da escrita de alunos de nível fundamental e médio da cidade de Maceió, há uma interferência da escola quanto ao uso de haver, pois à medida que o nível de escolarização aumenta, o uso de haver existencial tende a aumentar nos textos escritos (VITÓRIO, 2010, p. 85). Desta maneira, busca-se verificar, na análise dos dados levantados, em que medida a escrita culta brasileira atende a esse padrão normativo e como as construções com o verbo ter impessoal ou com tem-se(/têm-se) são utilizadas pelos usuários da língua, já que, apesar de ser recorrente na língua oral, o uso do verbo ter impessoal, como visto, não costuma ser contemplado nos compêndios gramaticais tradicionais brasileiros e nem nos livros didáticos O status polifuncional do verbo ter Ao investigar a polifuncionaldiade do verbo ter no PB, será possível observar os processos de gramaticalização pelos quais a forma verbal já perpassou. O constante uso de um item lexical pode ocasionar seu enfraquecimento semântico e favorecer que o item passe por novo processo de gramaticalização, como no caso da construção tem-

36 16 se(/têm-se). Uma forma verbal gramaticaliza-se quando ela processa-se como item instrumental, ou seja, a sua função principal de predicar argumentos (comportamento do verbo enquanto item lexical) é enfraquecida e, assim, sem propriedade de seleção semântica, une-se a outra forma verbal (ou a um elemento não verbal 6 ), atuando como marcador de aspecto, modo, tempo etc. Observem-se os seguintes exemplos: (04) Mãe, quando você quiser um zorro; um zorro aquele com um palitinho assim; é dois cruzeiros, não é? Eu tenho dois cruzeiros, vou lá comprar pra mim. [PEUL, fala infantil, 103 Luc]. (05) Realmente eu tenho observado que as mulheres usam calça, usam vestido. [NURC, RJ, DID, Inq. 96]. Em quatro, o verbo ter comporta-se como predicador (item lexical) e projeta um argumento externo eu e um argumento interno dois cruzeiros. Já em cinco, o verbo ter está esvaziado semanticamente e atua sobre o verbo observar, em um só domínio de predicação, constituindo uma perífrase verbal. Em cinco, o verbo ter (auxiliar) marca o aspecto imperfectivo e não-acabado do evento; o emissor, então, nesta construção com tempo composto no presente do indicativo, demonstra a continuidade do processo verbal desde um momento no passado até o presente, seu caráter iterativo. O verbo ter, em estudos que visam à categorização das formas verbais que atuam como auxiliares, a partir de um continuum traçado através de parâmetros de auxiliaridade, em que um verbo pode ter um comportamento mais ou menos auxiliar, a depender do número de parâmetros que atenda, é categorizado como + auxiliar, ou seja, como auxiliar pleno 7. Além de unir-se a um elemento verbal, o verbo ter também atua sobre um elemento não verbal, formando um só domínio de predicação. No seguinte exemplo, 6 Quando o verbo gramaticalizado forma uma perífrase com um elemento não verbal, fornece propriedades para que este funcione como predicador. 7 Cf. Machado Vieira, 2004.

37 17 (06) O Dom Quixote, eu não ia fazer porque estava na época fazendo um espetáculo chamado Cuida bem de mim, fora do meu grupo de teatro, espetáculo que tinha o objetivo de educar os estudantes com relação à preservação do patrimônio escolar e das relações [Carta de leitor, Revista Caros Amigos]. O verbo une-se a um elemento não verbal em um só domínio de predicação. Ele, então, funciona como um verbo suporte, ou seja, atua sobre um elemento não verbal no qual está o centro semântico-sintático da predicação e é responsável pela atribuição de função predicante a um elemento não verbal. Uma das manifestações do caráter perifrásico da construção verbo + nome é a existência, na maioria dos casos, de um verbo predicador que possui um significado equivalente ao do complexo. No exemplo 6, pode-se substituir a perífrase tinha o objetivo pela forma verbal objetivar:...objetivava educar os estudantes com relação à preservação do patrimônio escolar e das relações. Desse modo, observa-se que o elemento verbal partilha com o elemento não verbal a função de atribuir papel temático ao (s) argumento (s). Barros (2012), em sua tese de doutorado, propõe a gramaticalização das construções perifrásticas modais ter de + infinitivo e ter que + infinitivo. Em um primeiro momento, a autora aborda a estrutura ter que + infinitivo que, soberana na fala, estaria gramaticalizada com valores no domínio deôntico e, em um segundo momento, é proposto um estudo variacionista entre as duas construções na modalidade escrita que busca verificar os contextos de resistência de ter de + infinitivo. A seguir, exemplos de uso das construções: (07) O Rio de Janeiro, informa a reportagem, é, em tese, o mais avançado nessa área. Comprou um sistema sofisticado, mas ainda não e... OK stá testado, E mesmo que funcione, a polícia de São Paulo, por exemplo, se precisar consultar os dados do arquivo, terá de usar a ponte aérea em vez de um terminal de computador [Editorial, Jornal O Globo, 22/10/2012]

38 18 (08) E o posto policial da cidade de Maricá tem que usar um orelhão para seus telefonemas. [Carta de leitor, Jornal O Globo, 25/02/2004]. De acordo com Barros (2012, p. 13) nessas construções, o verbo ter (V1), ligado pela preposição de ou pelo elemento que a uma forma verbal no infinitivo (V2), atua apenas como um mero instrumento gramatical, assumindo o papel de auxiliar modal. Assim como ocorre com outros verbos da Língua Portuguesa, o verbo ter caracteriza-se por estatuto polifuncional. Em sentenças como a exemplificada em quatro, muito produtivas na língua, o verbo ter aparece como pleno (predicador); em cinco, figura como auxiliar (esvaziado semanticamente) atuando juntamente com um elemento verbal na predicação; em seis, aparece como verbo suporte atuando sobre um elemento não verbal em um único domínio de predicação; e, por fim, em sete e oito, o verbo ter aparece gramaticalizado em construções perifrásticas modais. E, em nossa proposta, como veremos mais adiante, o verbo ter revelaria comportamento gramatical resultante de um novo processo de gramaticalização que origina a construção impessoal verbo ter na terceira pessoa + partícula se. 2.2 Alternância ter~haver e os estudos sociolinguísticos Pretende-se expor alguns resultados de pesquisas sociofuncionalistas sobre a variação ter~haver no PB. De antemão, destaca-se que não são numerosos os estudos que versam sobre esse tema. Callou e Duarte (2005), ao analisarem um corpus formado por dados de cinco capitais brasileiras (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador e Recife) contemplando a modalidade oral do PB, observaram que a tendência ao uso do verbo ter existencial na fala culta é geral no Brasil. No Rio de Janeiro, tomando como base o acervo do NURC, nos anos 70, havia 65% de uso do verbo ter impessoal e, nos anos 90, o percentual é de 76%. Já no acervo do PEUL (norma popular carioca), os índices de uso do verbo ter impessoal são mais altos: 92% nos anos 80 e 94% nos anos Em relação aos dados do Rio de Janeiro, na fala dos mais jovens,

39 19 na amostra dos anos 90, praticamente não se encontra a ocorrência do verbo haver. Entretanto, ainda há um expressivo percentual de uso do verbo haver na fala dos usuários com mais de 55 anos (33%). Mattos e Silva e Machado Filho (2002), ao analisarem escritos oriundos de membros da Sociedade Protetora dos Desviados (SPD), que acolhia negros (entre eles africanos, prováveis africanos, brasileiros e prováveis brasileiros), libertos ou não no século XIX, constataram que tanto africanos como brasileiros apresentavam um comportamento bastante similar de uso, nomeadamente na exclusividade de emprego de haver em estruturas existenciais e de ter em estruturas de tempo composto (2003/2004 p.171). Ao se colocarem lado a lado dados da escrita e da oralidade, em um estudo sincrônico, Callou e Avelar (2007) notaram que as frequências de uso de ter e haver são opostas nas modalidades oral e escrita. Assim, na modalidade falada, o verbo ter é utilizado em 87% das construções existenciais; já na escrita, a frequência desse mesmo verbo não passa de 14%. Na modalidade escrita, foram analisados textos produzidos entre 2003 e 2005 das seguintes fontes: Jornais O Globo e Extra, anúncios da Revista Veja, Isto É e Super Interessante e dos livros Sobre os ombros dos gigantes de Alexandre Cherman, Amor é prosa. Sexo e poesia, de Arnaldo Jabor, Budapeste, de Chico Buarque, O zahir de Paulo Coelho, As melhores piadas do planeta... e da casseta também, do grupo humorístico Casseta & Planeta e Nunca desista de seus sonhos, de Augusto Cury. Tomando como base essas fontes, foram encontrados dados com o verbo ter impessoal somente nos textos de anúncios (47%), no livro Budapeste (15%), no Jornal Extra (14%) e no livro As melhores piadas do planeta... e da casseta também (60%) De acordo com os autores, o uso do ter impessoal nos livros é condicionado pela necessidade de se reproduzirem elementos comuns da oralidade. No livro de piadas, é comum o uso do ter na reprodução de diálogos. Em Budapeste, os dois casos em que ter foi utilizado por haver encontram-se na fala de um personagem. No Jornal Extra, dos 4 casos com ter, 2 aparecem no discurso direto e 1 em uma carta de leitor. Ainda, os autores destacam que a frequência de uso do verbo ter nos anúncios foi alta em virtude

40 20 de uma maior necessidade de aproximação com o leitor, ou seja, seria uma estratégia de persuasão o uso de estruturas comuns da oralidade. Foi possível observar que a escrita ainda se revela mais resistente ao uso do verbo ter com valor impessoal, já que esse aparece em contextos específicos. Callou e Duarte (2005) apontam, como uma possível hipótese para a diminuição do verbo haver, na modalidade oral, o fato de essa forma não dispor de um locus para que haja a inserção de um sujeito fonético, como ocorre com o verbo ter, que, como um verbo possessivo, dispõe dessa propriedade. Assim, como no PB há preferência por sujeitos referenciais expressos, as estruturas com ter são as que mais facilmente permitem a transformação de sentenças impessoais em pessoais, como em: A vizinhança é ótima. Nós temos vários comércios, temos mercado, temos feira, temos feirinha (fala popular RJ). Sobre essa diferença entre o comportamento da alternância ter~haver nas modalidades oral e escrita, cabe ressaltar que, durante o Romantismo brasileiro, procurou-se implementar traços do PB na escrita, ou seja, numa busca pela valorização do nacional, passou-se a admitir inovações nessa modalidade somente relativas a questões referentes ao léxico. Neste período histórico, o que pôde ser observado, na verdade, foi o processo de europeização da língua. Difundiu-se a ideia de que as estruturas próprias do PB poderiam ser faladas, mas não poderiam ser escritas, já que apenas inovações lexicais eram consideradas plausíveis de adentrarem na língua escrita. Desse modo, no PB, ficou-se com uma norma para a escrita distante do que realmente produz-se na língua oral, mesmo de falantes cultos. Esse processo de europeização da língua corresponderia linguisticamente a outros processos de europeização da vida nacional,...que atenderia ao intento das elites de cunhar uma certa imagem de nação, em que fosse possível a manutenção das relações de poder, anulando a maioria da população excluída assim do processo de identidade pela língua. (PAGOTTO, 2001, p. 41).

41 21 De acordo com Kato (2006), a aquisição da linguagem é um processo natural e, nesse momento, construímos a nossa gramática nuclear, formada a partir do input, ou seja, das estruturas linguísticas com as quais entramos em contato. Entretanto, o letrado adquire outra gramática via escolarização. Sendo, assim, haveria uma gramática periférica a ser preenchida ao longo do ensino formal de Língua Portuguesa. Desse modo, a impessoalização com o verbo ter faria parte da gramática nuclear do usuário do PB, enquanto a impessoalização com haver, abundante na modalidade escrita da língua faria parta da gramática periférica. 2.3 Questões da gramaticalidade de tem-se(/têm-se) em jogo Nestas próximas sessões, pretende-se verificar em que medida se pode considerar que a construção tem-se(/têm-se) estaria passando por um processo de gramaticalidade. Sendo assim, tenciona-se averiguar os meandros históricos do desenvolvimento da partícula se sob o enfoque tradicional (pronome reflexivo, pronome apassivador, indeterminador do sujeito) e também se busca investigar como as construções com verbo + clítico se são abordadas em um enfoque mais descritivo O estatuto da partícula se Segundo o enfoque tradicional Em relação ao estudo evolutivo da partícula se, proposto pelo Prof. Martinez de Aguiar (1942), pode-se observar o trajeto do se, desde o seu ponto inicial de partícula reflexiva até o seu estágio como indeterminador do sujeito. Como ocorria no Latim, a função primitiva da partícula se no PB era reflexiva, em que tínhamos ao mesmo tempo atividade e passividade, como na seguinte frase: O homem cortou-se. Cabe, ainda, ressaltar que Melo (2012) destaca outra categoria, o se recíproco (... elles lá se entendem uns com os outros. - Carta de Leitor, O Despertador Municipal, 28 de

42 22 Fevereiro de 1850). De acordo com a autora, os clíticos se recíproco e reflexivo apresentam conteúdo argumental, pois ocupam a posição de objeto direto dos verbos transitivos, sendo tratados como clíticos de referência anafórica. (MELO, 2012, p. 22) No segundo caso, o pronome se é descrito como apassivador. De acordo com Martinez (apud BECHARA, 1988, p. 108), se penetrarmos bem na inteligência das diversas frases reflexivas, veremos que a passividade chama mais a nossa atenção e, impressiona mais a nossa sensibilidade do que a atividade. No terceiro caso, o se passa a funcionar como indeterminador do agente de verbos transitivos indiretos (Necessito de ajuda). Assim, como no segundo caso, ressalta-se que o agente nunca foi expresso na linguagem comum, tendo-se tornado obsoleto o seu emprego até na linguagem literária (MARTINEZ apud BECHARA, 1988, p. 109). No quarto caso, a partícula se passa a ocorrer como indeterminadora do sujeito de verbos intransitivos (Ex. Dorme-se) 8. Por fim, no quinto caso desta escala evolutiva, destaca o autor que é possível pensar no se funcionando como pronome indeterminador do sujeito de qualquer verbo, ou seja, é cabível indeterminar o sujeito com verbos transitivos, intransitivos ou atributivos. De acordo com a tradição gramatical, a partícula se funciona como indeterminadora do sujeito ao estar ligada a verbos intransitivos ou transitivos indiretos, como nos exemplos abaixo: (09) Vive-se bem nas grandes cidades. (10) Precisa-se de funcionários. Tanto em 09, construção com verbo intransitivo, quanto em 10, construção com verbo transitivo indireto, ter-se-ia sujeito/agente indeterminado (quem vive bem nas grandes cidades? Quem precisa de funcionários?). Ainda, nesta perspectiva, o se funciona como pronome apassivador quando conectado a um verbo com transitividade direto, como será demonstrado a seguir: 8 O autor destaca que, aparentemente, o terceiro e o quarto caso são idênticos na prática, mas faz-se necessário, no discurso científico, separá-los, já que esses casos demonstram, à luz da linguística psicológica, a contagião sucessiva do uso do pronome.

43 23 (11) Vende(m)-se casas. (12) Compra(m)-se roupas. Em 11 e 12, os SNs selecionados casas e roupas exercem a função sintática de sujeito. Todavia, como em 07 e 08, o agente está indeterminado (quem vende casas? / quem compra roupas?). Há uma tendência 9, principalmente no PB oral a não flexionar o verbo nessas construções passivas com SN plural. De acordo com estudos relativos ao tema, a construção impessoal (com a não concordância entre SN plural e predicador) passou a superar a construção passiva (com concordância entre predicador e SN plural) a partir do século XIX (cf. NUNES, 1990), o que, teoricamente, reforça a hipótese de que o falante interpreta o SN selecionado (argumento interno) funcionando como objeto direto, já que o agente, papel temático mais prototípico do sujeito, está indeterminado Segundo outros enfoques Como demonstra a evolução do clítico, acima apresentada, e ilustram os exemplos 07, 08, 09, 10, pode-se pensar que tanto em construções ativas (verbo intransitivo ou transitivo indireto + clítico se) como em construções passivas (verbo transitivo direto + clítico se), o argumento externo estará sempre indeterminado. De acordo com Duarte,...o pronome se é sempre utilizado para indeterminar o argumento externo, seja numa construção ativa (em que o sujeito indeterminado é o próprio argumento externo), seja numa construção passiva (em que o argumento interno funciona como sujeito gramatical). (DUARTE, 2008 a, p. 197) Ainda, segundo a autora, a interpretação que se dá ao argumento interno, como sujeito (em construção passivas) ou como objeto direto (construções com indeterminação), diz respeito ao usuário da língua, que, com verbos transitivos diretos, 9 Cf. Machado Vieira e Saraiva (2011).

44 24 ao não fazer a concordância nas construções passivas sintéticas, demonstra que interpretou o argumento interno como objeto direto. Esse quesito é apontado pelos que defendem a não existência das construções passivas sintéticas. Principalmente na modalidade oral da língua, como já dito, é produtiva a não relação de concordância entre verbo transitivo direto (que permanece no singular) e SN plural, que funciona como argumento interno. Pina (2009) defende que construções consideradas pela abordagem tradicional como passivas sintéticas, como Aluga-se casas, em termos cognitivos e construcionais, na verdade, não são construções passivas, mas, sim, de indeterminação do sujeito. De acordo com ela, a categoria do sujeito é radial, sendo o sujeito indeterminado nãoprototípico, cuja característica principal é ser fundo em relação ao seu predicado. Há mais de uma construção de indeterminação e, todas codificam um construto não canônico, em que o participante principal é perceptual e cognitivamente menos saliente. Não existe passiva sintética no português. A construção genérica V-se Suj, Indet. Compl. Verbal permite a integração de diferentes verbos e não equivale à passiva analítica, nem à construção com sujeito alguém. (PINA, 2009, p. 6) Bagno (2001), assim como Pina, também afirma que, no Português Brasileiro, não há passiva sintética. O autor considera essas construções como orações pseudopassivas, já que, segundo ele, são passivas no Português Brasileiro somente orações formadas pelo verbo ser e mais raramente pelos verbos estar, ficar, vir etc. seguidos por um particípio passado (construções passivas analíticas). O autor, ao analisar enunciados como a. Lá em casa se lê muito e b. Lá em casa se lê muito jornal, aponta que tanto em a., sentença com verbo intransitivo, quanto em b., sentença com verbo transitivo, o se funciona como sujeito indeterminado. Assim, segundo o autor, todos os estudos científicos empreendidos em torno desse tema, de Said Ali até hoje têm se empenhado em demonstrar a urgente necessidade de se interpretar o se nestas orações como um recurso de que a língua dispõe para indicar a indeterminação do sujeito. A nomenclatura que ainda usa conceitos como se apassivador, passiva sintética e passiva pronominal é inteiramente descabida (BAGNO, 2001, p. 126)

45 25 Dessa forma, pode-se observar que, mesmo em construções com VTD + SE, é possível que se identifique a indeterminação do agente e, sendo assim, tanto em sentenças passivas pronominais (com verbos transitivos) ou de indeterminação (com verbos intransitivos ou transitivos indiretos) mais clítico, o que fica evidente é que o pronome se promove a interpretação dessas sentenças como indeterminadoras, já que o agente das ações fica implícito O predicador ter e as construções impessoais A tradição gramatical ressalta apenas duas estratégias de indeterminação do sujeito: o verbo na terceira pessoa do plural (Roubaram o meu carro) e o uso da partícula se + verbo transitivo indireto ou verbo intransitivo (Precisa-se de funcionários para o turno da noite/vive-se bem em Salvador). Entretanto, há outras estratégias de indeterminação do sujeito e/ou, ainda, do agente no Português Brasileiro que não são destacadas nos compêndios gramaticais tradicionais como tais. Podem-se mencionar por exemplo, as passivas pronominais, já citadas, e as listadas a seguir: as passivas analíticas (O carro foi roubado); o uso de algumas formas pronominais com valor indeterminado como a gente, nós, você (Você vai na loja e não sabe o que comprar); uso de expressões nominais, tais como Neginho, Geral, Maluco (Geral vai na festa hoje), uso do verbo na terceira pessoa do singular (Diz (=dizem) que era uma vez quatro ladrões muito sabidos e finos Câmara Cascudo, Contos Tradicionais do Brasil 10 ), entre outras estratégias. Sendo assim, nota-se que as estruturas passivas analíticas também veiculam a indeterminação do agente. No PB, nessas construções, é raro o preenchimento do agente da passiva e, assim, tanto passivas sintéticas como analíticas são utilizadas como recurso discursivo de indeterminação. E como devemos analisar a estrutura com o verbo ter na terceira pessoa + partícula se? Podemos a considerar uma construção passiva sintética? De acordo com Bechara (1987, p. 222) nas construções em que o 10 Exemplo, extraído de Bechara (1988, p. 30), em que o gramático veicula a ideia de indeterminação também ligada a verbos na terceira pessoa do singular.

46 26 verbo aparece na voz passiva, a forma verbal indica que a pessoa é o objeto da ação verbal. A pessoa, neste caso, diz-se paciente da ação verbal. Já a voz ativa, caracteriza a forma como o verbo se apresenta para normalmente indicar que a pessoa a que se refere é o agente da ação. Sendo assim, pelo fato de o verbo ter possuir um valor estativo e, desse modo, o sujeito selecionado por esta forma verbal não receber o papel temático de agente, pressupõe-se que não seriam viáveis construções com essa forma verbal na chamada voz passiva. Então, como analisar sentenças como a seguinte: (13) Também, semelhantemente ao sistema de trincas medianas, com o incremento da carga de endentação aplicada tem-se o crescimento estável da trinca. [Artigo científico, Revista Matéria, v. 15, n. 1, 2010]. Perini (2011, p. 218) assegura que o verbo ter não pode entrar em construções passivas (se excluirmos seu emprego especial no sentido de considerar : Ele é tido como louco ). Destaca-se que, assim como prevê o autor, em pesquisa feita no site de buscas Google, observou-se o uso do verbo ter em estruturas passivas analíticas com o sentido mencionado, como demonstram os seguintes exemplos: Até o tolo, estando calado, é tido por sábio; e o que cerra os seus lábios, por entendido 11 e O jornal britânico The Guardian coloca que "o PMDB foi tido como o grande vencedor" das eleições 12, mas também, o verbo pode aparecer nessas construções com um sentido diferente do de considerar, como no seguinte exemplo: Um brilhante tempo era tido por todos 13. Busca-se verificar se há uma tendência do usuário da língua em estabelecer a relação de concordância entre argumento interno plural e a referida construção. Notase, no exemplo 13, a ocorrência do verbo ter em uma construção resultativa: o crescimento estável da trinca, que funciona como argumento interno, não é possuído 11 Provérbios 17:28 Acesso em 09/10/ Acesso em 10/10/2012 EI11830,00The+Guardian+PMDB+foi+tido+como+grande+vencedor.html. Acesso em 10/10/ Three_Corners_Rihana_Resort-El_Gouna_Red_Sea_and_Sinai.html. Acesso em 28/12/2012

47 27 por ninguém, mas, sim, o crescimento estável da trinca é o resultado, a consequência. Ainda, destaca-se que soaria como pouco comum a transposição desta sentença para a construção passiva analítica: O crescimento estável da trinca é tido... Ao analisar-se o desempenho peculiar de tem-se(/têm-se), percebe-se que o falante ora parece encará-lo como componente de uma estrutura passiva, sinalizando a concordância entre predicador e SN plural lido como sujeito, ora parece entendê-lo como componente de uma estrutura de impessoalização do sujeito, como demonstram os exemplos abaixo: (14) As formas simples contempladas configuram-se como verbos pronominais; e as formas complexas, como perífrases com verbo-suporte em que o elemento não-verbal ligado a ele é cognato àquela forma simples e como construções com verbo auxiliar de passiva ligado a um verbo em sua forma nominal também cognato à forma simples. Têm-se, então, [três tipos de construções contempladas] nesse estudo. [Dissertação de mestrado, Letras, 2011]. (15) Esse problema aparece em várias situações tais como [1, 2, 3] em processamento de imagens utilizam-se filtros digitais para realçar uma imagem, em sistemas de comunicações tem-se [os filtros formatadores de pulso responsáveis por modelar o sinal transmitido de forma que ele não interfira em outros sistemas de comunicações que estejam utilizando bandas adjacentes, em bancos de filtros para comprimir sinais, etc]. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2009]. A construção passiva analítica com ter soa um pouco incomum também nesses enunciados: Três tipos de construções contempladas são tidas... Os filtros formadores de pulso responsáveis por modelar o sinal transmitido de forma que ele não interfira em outros sistemas de comunicação que estejam utilizando bandas adjacentes, em bancos de filtros para comprimir sinais etc. são tidos.... O mesmo não ocorre com estruturas passivas sintéticas formadas por outras formas verbais, com verbos que projetam argumento externo com papel temático de agente, em que é possível obter-se a

48 28 correspondência com a passiva analítica, como se pode observar no exemplo abaixo em que é possível a reescritura: Sintagmas nominais como neguinho, fulano e cicrano são considerados como forma de indeterminação.... (16) Consideram-se aqui como formas de indeterminação [sintagmas nominais como neguinho, fulano, cicrano ] [PB escrito, redação em trabalho da disciplina de Língua Portuguesa do 5o período do curso de Letras/UFRJ]. Como dito por Dik (1997), o NLU (usuário da língua natural), a partir de sua capacidade lógica, reconhece uma estrutura através de regras de raciocínio. Sendo assim, ao associar a estrutura tem-se(/têm-se) a uma construção passiva sintética, possivelmente o NLU agiria assim pela categorização que o verbo ter recebe nos dicionários de Língua Portuguesa: verbo transitivo direto. 14 Ressalta-se, ainda, que a construção passiva sintética (com flexão verbal) é uma estruturação linguística que é apresentada ao NLU no ensino regular da Língua Portuguesa, como se este estivesse apreendendo um mecanismo novo, não natural. Machado Vieira e Saraiva (2011) observaram que, entre falantes da norma culta, as construções passivas pronominais tendem a ser utilizadas com a flexão verbal, embora até seja alto o percentual de nãoconcordância. Nesse estudo, também se constatou que essa estrutura é mais utilizada em textos acadêmicos e quase não é contemplada na modalidade oral. Seria esse o caminho do complexo tem-se(/têm-se)? A construção seria mais produtiva na modalidade escrita e acadêmica? Salienta-se, ainda, que construções com tem-se(/têm-se), em determinados contextos, possuem certa equivalência funcional com outras estruturas de impessoalização, por exemplo, no caso do exemplo 5: Quanto aos enunciados subordinados completivos, há [dois resultados: um relacionado à presença de verbos 14 Em praticamente todos os livros didáticos consultados para a elaboração desta dissertação, ao traçar a diferença entre uma construção passiva com o clítico se e uma construção de indeterminação com o mesmo clítico, incentiva-se que o aluno atente para a transitividade verbal: se VTD, teremos passiva sintética e se VI, teremos indeterminação do sujeito.

49 29 intransitivos e outro, a de verbos transitivos e cópula (verbo impessoal),...você/a gente tem dois resultados: um relacionado à presença de verbos intransitivos e outro, a de verbos transitivos e cópula (com formas nominais indeterminadas), dispõe-se de/conta-se com dois resultados: um relacionado à presença de verbos intransitivos e outro, a de verbos transitivos e cópula (verbo transitivo indireto com índice de indeterminação do sujeito). Em função dessa situação aqui brevemente traçada, pretende-se, por meio desta pesquisa, desenvolver uma reflexão a respeito dessa construção, ainda pouco analisada na literatura linguística, de modo a contribuir para uma descrição condizente com a realidade do Português Brasileiro. Por isso, espera-se verificar, no teste de atitudes, como o usuário da língua tende a classificar essa estrutura. 3. Quadro teórico Neste capítulo, pretende-se tecer considerações sobre as teorias que fundamentam os fenômenos abordados nesta dissertação: a gramaticalidade de temse(/têm-se) e a variação tem-se(/têm-se)~há. Assim, serão abordados os principais aspectos da teoria Funcionalista (com ênfase à Teoria da Gramática funcional de Dik, 1997), da Teoria da Variação e Mudança e do Sociofuncionalismo, que, como veremos, propõe a interseção de pressupostos daquelas duas teorias. 3.1 O Funcionalismo Esta pesquisa pauta-se numa abordagem teórico-metodológica que procura enfrentar o desafio de estudar (i) a gramaticalidade da estrutura tem-se(/têm-se), como resultante de um processo de gramaticalização no sentido da impessoalização, em situações reais de uso em articulação à (ii) pesquisa da variação entre as formas temse(/têm-se)~há~tem (na perspectiva de WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968;

50 30 LABOV, 1994). Assim, orientações funcionalistas à concepção de estudo da língua em uso são fundamentais a esta dissertação. Na perspectiva funcionalista, a língua é tida como um instrumento de comunicação/interação (entre os seres humanos). O objetivo principal das pesquisas funcionalistas é investigar a função das formas linguísticas no ato comunicativo. Explicar a estrutura de uma língua, seus princípios e entidades, levando em consideração o discurso, explicar os fenômenos linguísticos com base em aspectos semânticos e discursivo-pragmáticos e explicar como o conhecimento da língua é posto em prática são alguns procedimentos importantes a serem considerados nos estudos funcionalistas. Sendo assim, nesta dissertação, pretende-se analisar a construção temse(/têm-se) considerando os seus valores semânticos e as motivações discursivopragmáticas que podem ter influenciado sua emergência nos textos acadêmicos, sem perder de vista aspectos da estruturação das predicações em que é usada. Desse modo, a Língua será abordada como um instrumento de interação social, e as estruturas linguísticas em análise serão estudadas a partir do evento comunicativo. Em outras palavras, adota-se a concepção de que a função comunicativa da língua exerce influência sobre o uso de determinadas formas/estruturas linguísticas. Cabe ressaltar que os estudos da semântica e da pragmática são relevantes para a análise da estrutura linguística e ganham relevo em estudos funcionalistas. Entretanto, considera-se que a noção de estrutura é central para o entendimento das línguas naturais, mas essa consideração da estrutura linguística é distinta da feita pelos formalistas. Em razão disso, convém resumir o que aqui se entende por função, funcional. Sabe-se que o termo função dentro dos estudos linguísticos é plurissignificativo. De acordo com Saraiva (1996, p. 13), é patente, dada a polissemia do termo função, a necessidade de explicitar-se o conceito com o qual se vai trabalhar, se se quiser evitar equívocos. Neves (1994) diz que nem sempre é tarefa fácil identificar, nos trabalhos linguísticos, em que sentido o termo função foi empregado, já que, segundo a autora, muitas vezes, apesar de corriqueiro, o termo funcional é empregado em sentido vago. E o Funcionalismo não se caracteriza tão somente pelo emprego dos termos função e funcional. Não cabe pensar no termo função, dentro dos estudos funcionalistas,

51 31 referindo-se estritamente à relação entre os constituintes da oração, ou seja, às funções sintáticas. Segundo a autora, função, na perspectiva funcionalista, refere-se ao papel que a linguagem desempenha na vida dos indivíduos (Neves, 1994, p. 8). Tal noção pode ser tomada como o sentido principal do termo função dentro da vertente funcionalista. De acordo com Dik (1981), toda gramática, em sua base, possui um caráter funcional, quando aborda os papéis temáticos e sintáticos desempenhados pelas classes de palavras. De acordo com Nobre (1999), o caráter de gramática funcional: pode ser apreendido na base do princípio da unidade do sistema estrutural (sistema categorial) e por aspectos funcionais da gramática no seu todo. No primeiro nível tem-se um sistema de unidades gramaticais, classes e categorias. No segundo, um sistema de leis e regras, governando as unidades gramaticais em cooperação com os elementos nos diferentes níveis de línguas, que tomem parte na expressão oral. (NOBRE, 1991, p. 61) Dik (1981) ainda destaca que a função de um item pode ser considerada a partir de sua habilidade para promover certo fim que pode ocorrer de diferentes maneiras. E, segundo o autor, a significação de função das unidades linguísticas abarca os seguintes conceitos: (a) o usuário da língua seleciona o sentido que atenta mais satisfatoriamente a sua intenção, (b) a interação nos diferentes níveis entre as estruturas e as funções das unidades e (c) a transformação das funções potenciais em funções referidas agindo como um objetivo realizável. Nesta pesquisa, busca-se observar a função do complexo tem-se(/têm-se), emergente na língua culta escrita, levando-se em conta, mais especificamente, as postulações de Dik acerca dos sentidos que o termo função engloba. 3.2 A Teoria da Gramática Funcional sob a perspectiva de Dik Segundo Moura Neves (1994, p.112), a Gramática Funcional é uma teoria geral da organização gramatical de línguas naturais que procura integrar-se em uma teoria

52 32 global de interação social. Na Teoria da Gramática funcional (Dik, 1997), fica claro que o autor busca traçar uma distinção entre o sistema da língua e o uso da língua, ao mesmo tempo em que se preocupa em não estudar um deles deixando de lado o outro. Segundo Neves (1997, p.120), na TGF, Dik destaca que a forma dos enunciados não é entendida, pois, independentemente de sua função: uma descrição completa inclui referência ao falante, ao ouvinte e a seus papéis e estatuto dentro da situação de interação determinada socioculturalmente. Assim, na perspectiva funcionalista, na interação verbal, a relação entre a intenção do emissor e a interpretação do destinatário tem a expressão linguística tão somente como mediação. A TGF, então, teve como principal objetivo explicar como locutores e interlocutores de uma língua natural conseguem obter êxito no ato comunicativo ao fazerem uso das expressões linguísticas. Nessa teoria, a língua é tomada como instrumento de interação social, ou seja, sua função é a de estabelecer relações comunicativas. De acordo com a TGF, quando há interação verbal, ocorrem também alterações nas informações pragmáticas tanto do emissor como do receptor. Desse modo, segundo DIK, no momento do ato comunicativo, o falante, na construção do enunciado, faz julgamentos, ou seja, infere sobre a pragmática do interlocutor, deduzindo sobre a interpretação que o mesmo dará ao que será dito, a partir do que pensa ser o seu conteúdo pragmático (PD). O destinatário, ao interpretar o conteúdo da mensagem, acessará, da mesma forma, o conteúdo pragmático do emissor (PE). No esquema abaixo, observar-se-á esse movimento:

53 33 Emissor concebe Destinatário constrói INTENÇÃO antecipa -----> <-----reconstrói--- INTERPRETAÇÃO EXPRESSÃO LINGUÍSTICA INFORMAÇÃO PRAGMÁTICA DO EMISSOR (PE) INFORMAÇÃO PRAGMÁTICA DO DESTINATÁRIO (PD) Gráfico 1: Modelo de interação verbal da Gramática Funcional de DIK (1997:8-9, v.1) Assim, emissor e receptor acessam o conteúdo pragmático um do outro no momento da comunicação. Após a interpretação da informação linguística feita pelo receptor, esse poderá ter a sua informação pragmática alterada, em consonância com a intenção do emissor. Dik ainda considera que a interação pode vir a falhar se o receptor não atingir uma interpretação aceitável da intenção comunicativa do emissor. E ressalta ainda que, de acordo com o que entendeu o destinatário, o locutor pode vir a alterar a sua noção de PD. De acordo com a TGF, no uso comunicativo da língua, estão envolvidas as seguintes capacidades: linguística, epistêmica, lógica, perceptual e social. Assim, em relação ao NLU (usuário da língua natural), a primeira diz respeito à capacidade de produzir e interpretar expressões em situações comunicativas; a epistêmica possibilitará a construção, manutenção e a exploração de uma base do conhecimento organizado. Machado Vieira (2001) afirma que o usuário da língua extrai conhecimentos de expressões linguísticas, arquiva esse conhecimento de forma apropriada e o utiliza na interpretação de outras formas linguísticas. A capacidade lógica possibilita ao NLU chegar a um determinado (re)conhecimento de uma forma linguística a partir de regras de raciocínio; a perceptual relaciona-se à utilização de conhecimentos adquiridos através da percepção no momento da produção e/ou interpretação das expressões linguísticas e, por último, a capacidade social vincula-se ao fato de que o NLU tem o conhecimento sobre o que dizer e como dizer a um determinado interlocutor em uma

54 34 situação comunicativa específica. Para Dik, todas essas capacidades estão interrelacionadas. A TGF muitas vezes é apontada como possuindo um forte enfoque na estrutura. Dessa forma, o processo de interação verbal é governado por regras, normas e convenções. Essa teoria lida com dois tipos de sistemas de regras: (1) regras linguísticas (semânticas, sintáticas, morfológicas e fonológicas) que conduzem à construção das expressões linguísticas e (2) regras que geram os padrões da interação verbal nos quais as expressões são utilizadas (pragmáticas). No estudo das regras das cláusulas, o predicador (item lexical), que pode ser verbal (V), adjetival (A) e nominal (N) ou um subtipo dessas categorias, organiza a sua estruturação. Essas formas linguísticas, prioritariamente, vão designar as propriedades de uma entidade ou relações entre entidades. Por exemplo, em relação ao predicador agir, apreende-se que há dois espaços para os termos (alguém/ algo age sobre alguém/algo). Os termos a serem selecionados são considerados, então, como as expressões linguísticas que podem ser usadas para se referirem a algo no mundo 15. Dik propôs uma estrutura (complexa e abstrata) subjacente para a cláusula em que se encontram as camadas de organização formal e semântica. Observe o quadro 16 adaptado de Esteves (2008) que se refere a essa estrutura: 15 Mais à frente, observar-se-á a noção de termos satélites. Sendo assim, DIK propõe a diferença entre esses e os termos argumentais. Estes seriam os termos exigidos pelo predicador para constituir uma predicação nuclear completa, assim, possuem posição mais central na sentença. Os satélites não se configuram como constituintes exigidos pelo predicador e referem-se à predicação da segunda camada e possuem posição periférica na oração. 16 Para a melhor compreensão do gráfico, respectivamente as variáveis E, X, e e f referem-se a: ato de fala (cláusula), fato possível (proposição), estado de coisas (predicação) e predicado (relação ou propriedade).

55 35 Camadas Exemplos π4 [(francamente) σ 4 deve π3 [escrever (João) (uma carta) (cuidadosamente) σ1 (na Biblioteca) σ2 (até onde eu sei) σ3 (francamente)] Quarta camada Cláusula (ato de fala) [E] Proposição [X] [E] Francamente, até onde eu sei, João deve estar escrevendo uma carta cuidadosamente na biblioteca π3 [(deve )escrever (João (uma carta) (cuidadosamente) σ 1(na biblioteca) σ2 (até onde eu sei) σ3] Terceira camada Segunda Camada Primeira Camada Camada zero Predicação estendida Estado de coisas localizado e qualificado Predicação central Estado de coisas qualificado Predicação Nuclear Estado de coisas [e] Predicação [f] [X]: Até aonde eu sei, João deve estar escrevendo uma carta na biblioteca π2 [escrever (João) (uma carta) (cuidadosamente) σ1 (na biblioteca) σ2 [e]: João escrevia uma carta cuidadosamente na biblioteca π1 [escrevia (João) (uma carta) (cuidadosamente)σ1 [e]: João escrevia uma carta cuidadosamente [e]: João escrever uma carta Predicador: escrever (predicador básico) Quadro 1: Estrutura subjacente para a cláusula Como propõe a seta, o gráfico deve começar a ser lido de baixo para cima. Na camada zero, está selecionado o predicador básico escrever, que designará as propriedades e relações da cláusula; na primeira camada (predicação nuclear), o predicador está relacionado com dois argumentos (termos) segundo as restrições de seleção do verbo e designa o estado de coisas; na segunda camada (predicação central), começam a atuar os operadores gramaticais (π) e os satélites (σ), que funcionam no sentido de qualificar o estado de coisas.

56 36 O satélite de nível um (σ1), no exemplo, cuidadosamente, incide diretamente sobre o predicador. Os operadores gramaticais de nível um (π1), os morfemas de modo e aspecto (escrevia) demonstram as fases do evento (progressivo/ não progressivo, imperfectivo/perfectivo) Assim, esses operadores constituirão distinções que são gramaticalmente expressas e os satélites, expressarão as modificações lexicalmente expressas. Nesta segunda camada, está inserida também a predicação estendida/expandida que resulta da predicação central e designa um determinado estado de coisas situado no tempo e no espaço. Nesta camada, operam satélites do nível 2 (σ2), em que o estado de coisas é localizado no tempo e no espaço e morfemas de tempo (passado/presente, interativo, habitual, frequência). Atuam também os operadores gramaticais de nível 2, π2, (morfemas de modo e tempo verbais; auxiliares aspectuais). Na terceira camada, teríamos o que Halliday (1985) entende como a função interacional da linguagem, ou seja, camada que reflete a possibilidade de o falante especificar a atitude que possui em relação ao estado de coisas (inserem-se, então, auxiliares modais, no exemplo dever (π3 e σ3). Essa interferência do usuário da língua pode ser feita operadores proposicionais, ou seja, algo que o falante acredita e expressa; pode ser razões de surpresa, dúvida; podem ser mencionadas, negadas e, ainda, podem ser falsas ou verdadeiras. Na última camada, está presente a inserção do conceito do ato ilocucionário. Assim, considera-se o modo de falar (σ4= declaração, interrogação etc.) e, os operadores gramaticais (π4) que tenham a semântica declarativa, interrogativa, exclamativa, imperativa etc. e, ainda, o ato de fala pode ser marcado pela entonação característica. Abaixo, o esquema da cláusula segundo DIK, com todas as camadas. Cabe ressaltar, porém, que não há a necessidade de que todas elas sejam realizadas em todos os enunciados da língua: [π4 Ei: [π3 Xi: [π2 ei [predicado [tipo de predicado] argumentos] σ1] σ2] σ3] σ4] 3.3 A Teoria da Variação e Mudança

57 37 Pode-se destacar a década de 60 do século XX como o marco inicial da Sociolinguística. Os principais aspectos desta nova corrente, àquela época, já demonstravam a necessidade de reestruturação teórica e metodológica dos estudos linguísticos históricos, já que, como destaca Faraco, na apresentação da versão em Português do clássico Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística (WEINREICH, LABOV e HERZOG, 1968), a entrada em cena, desde o início da década de 1930, das tendências estruturais acabou por colocar a chamada linguística sincrônica na posição de primazia que antes fora da linguística histórica (2009, p. 9) Esse texto de Weinreich, Labov e Herzog destaca-se pelo estudo da mudança linguística em comunidades contemporâneas, ou seja, a alteração da língua em grupos urbanos complexos em situações observáveis. Antes, o foco da maioria das investigações linguísticas estava em sociedades pré-urbanas. Com o estudo proposto por estes teóricos, tornou-se mais viável a observação dos fatores que desencadeiam e ou restringem as mudanças, já que, nas comunidades urbanas, esses são, certamente, mais diversificados. Weinreich, Labov e Herzog (2009) destacam que a mudança estrutural não compromete a estruturalidade da língua. A partir desse ponto, os autores questionam-se acerca do fato de ser necessário à Língua estar estruturada para funcionar eficientemente e, mesmo assim, ela continua a funcionar enquanto a estrutura muda. Desse modo, os referidos autores rompem com o axioma da homogeneidade linguística, que vinha sendo considerado como pilar desde o estudo dos neogramáticos e propõem que se instaure, então, o axioma da heterogeneidade ordenada. Assim, com o advento da Sociolinguística, inicia-se a busca por caminhos teóricos para harmonizar os fatos da heterogeneidade, a língua como uma realidade inerentemente variável, com a abordagem estrutural, a língua como uma realidade inerentemente variável, como escreve Faraco (2009, p.13), ainda na apresentação do livro. Além disso, quando se lida com a heterogeneidade da língua, é preciso considerar também a heterogeneidade do falante. Desse modo, o domínio dos usuários da língua sobre as estruturas heterogêneas não se relaciona com multidialetalismo ou com desempenho, mas, sim, com a competência linguística monolíngue. O estudo

58 38 linguístico passa a concentrar-se na língua do indivíduo, e essa começa a ser considerada o objeto de estudo da Sociolinguística. Weinreich, Labov e Herzog (2009) desenvolveram cinco questionamentos, que, segundo eles, devem nortear os estudos sociolinguísticos. Busca-se traçar a correlação dessas questões com as etapas desta pesquisa. A seguir, os questionamentos que foram levantados: a) a questão dos fatores condicionantes, em que as mudanças serão pensadas a partir de elementos linguísticos e ou extralinguísticos que favorecem ou não o uso de uma variante inovadora; b) a questão da transição, que visa a compreender, no uso das formas variantes, os caminhos da mudança na estrutura social. Além disso, busca-se a análise dos estágios intervenientes entre dois estados de uma determinada língua; c) a questão do encaixamento, que leva em conta o entrelaçamento das mudanças com outras que acontecem na estrutura linguística e na estrutura social; d) a questão da avaliação, segundo a qual se busca refletir acerca dos efeitos da mudança sobre a estrutura e o uso da língua e, por último, e) a questão da implementação, que visa a pensar nas razões que motivam os processos de mudanças em uma dada língua, numa dada época. O problema dos condicionamentos será discutido nas próximas seções do trabalho, quando se pretende refletir sobre os fatores que podem estar influenciando o uso de tem-se(/têm-se) em vez de outro recurso verbal de impessoalização. A partir dos estudos sociolinguísticos, apreende-se que a variação é inerente às línguas. É um traço que está presente em todas as comunidades de fala de forma sistemática e estruturada. Sendo a variação organizada, existem condições (linguísticas ou extralinguísticas) que

59 39 podem ou não favorecer o uso de uma dada forma em uma situação específica. Essas condições atuam juntas, mas, através da quantificação, pode-se ver o peso de influência de cada uma delas. Pretende-se, assim, ao longo deste trabalho, também, verificar quais os fatores que corroboram o uso de um variante em detrimento da outra e, dessa forma, será utilizada a ferramenta GoldVarbX para a análise quantitativa e qualitativa dos dados. Sobre a questão da transição, apesar de esta pesquisa não focar no estudo diacrônico, é importante, em um trabalho que verse sobre o fenômeno da gramaticalização, ter em mente que, nesse processo, há a transição de uma forma/ função para outra forma/função. Assim, o clítico se se cristaliza com o verbo ter (na terceira pessoa), consolidando uma nova forma, que passa a figurar na língua escrita com novas funções que não cabem à forma tem, já que tem-se(têm-se) tende a marcar o distanciamento do enunciador do texto, a indeterminação/indefinição do sujeito e até a impessoalização da predicação, servindo, inclusive, de alternativa morfossintática adequada (porque aceita) ao atendimento do padrão normativo culto. Assim, nos estudos de gramaticalização, é preciso refletir sobre o processo da gradação inerente à mudança, pois a mesma não ocorre de forma direta e instantânea, ou seja, tem não passa a tem-se(/têm-se) na escrita de forma imediata. Há, sim, que considerar, durante o processo de mudança, a existência de estágios intermediários em que se evidencia a coexistência das duas ou mais formas (no nosso caso de tem, tem-se(/têm-se) e, ainda, há) relativamente equivalentes. Segundo Labov (1972), é possível detectar três estágios no processo da mudança linguística em uma comunidade de fala: (a) primeiramente, a mudança inicia-se de forma lenta, uma vez que a forma inovadora tende a ser utilizada somente por um grupo específico; (b) em um segundo estágio, intermediário, a variante inovadora passa a ser utilizada de forma mais significativa e começa a passa a se espalhar por outros grupos sociais e (c) no estágio final, uma das variantes desaparece, provavelmente a mais antiga e a variante inovadora e passa a ser utilizada de forma categórica. Assim, ao longo desta dissertação, também se pretende investigar em que estágio se encontra a gramaticalidade da estrutura tem-se(/têm-se).

60 40 Sobre a questão do encaixamento, ao verificar o crescente uso da estrutura temse(/têm-se) nos textos escritos, hipoteticamente acredita-se que esse uso significativo pode ser advindo da tendência de, no Português Brasileiro escrito, ser alto o índice de indeterminação com a partícula se. No estudo de Duarte (2007) sobre os sujeitos de referência arbitrária, observa-se que há uma diferença significativa entre PB e PE, na modalidade oral, como já visto. Enquanto no PE, dentre as estratégias para indeterminar o sujeito (uso de se, eles, a gente, nós, você, tu e zero), a estratégia mais utilizada para indeterminar o argumento externo é o uso do se (38%), no PB esta estratégia está entre as menos utilizadas, com percentual de 8% na fala culta e de 2% na fala popular. No PB, há uma significativa diferença entre língua falada e língua escrita. Assim, na modalidade escrita padrão, há a maior ocorrência de indeterminação com o clítico se (36%), de acordo com os estudos de Duarte (2006). Os dados da modalidade escrita do PE, todavia, confirmaram o que a fala já havia demonstrado, ou seja, o clítico se é a estratégia mais frequente (69%). Busca-se refletir se o aumento do percentual de uso com o clítico se na modalidade escrita estaria relacionado com o baixo, ou melhor dizendo, quase nulo, uso da forma do verbo ter na terceira pessoa com valor impessoal, encaixando-se a esse padrão de indeterminação estaria emergindo a estrutura temse(/têm-se). Sobre o questionamento da avaliação, indaga-se em que medida a forma temse(/têm-se), ao entrar na língua escrita, estaria sendo também interpretada como uma variante de prestígio, já que, como pôde ser observado anteriormente, na modalidade oral, é considerável o índice de uso da variante tem com valor impessoal, mas, na escrita, espaço em que há uma maior preocupação com a manutenção da norma padrão, esse uso não caberia. E, para competir com a outra variante de prestígio a forma verbal há, estaria ganhando espaço a estrutura tem-se(/têm-se). Relacionado com os dois questionamentos acima, sobre a questão da implementação, leva-se em conta o fato de que o índice de uso do clítico se na língua escrita é expressivo, além de questões sociais, como, por exemplo, a valoração de uma (s) variante(s) em detrimento de outra(s). Também, leva-se em consideração o caráter conservador da escrita em relação à fala. Viu-se que a escrita do PB tende refletir a

61 41 norma lusitana, ou seja, recupera-se, no caso de sujeitos de referência arbitrária, a indeterminação com o clítico se. Labov ainda, no estudo da variação, propõe a diferenciação entre regra categórica, semicategórica e variável. Para uma regra ser categórica, o percentual de uso de uma variável deve ser de 100%. Por exemplo, no Português a colocação do artigo anteposto ao nome (O menino foi à escola) é uma regra categórica, já que o artigo posposto (*Menino o foi à escola) acarreta uma sentença agramatical que não é produzida por falantes do Português como Língua I. Tem-se uma regra semicategórica se o percentual de uso de uma das variáveis fica entre 95 e 99%. Ou seja, parece que há variação, mas, o uso de uma das estruturas é raro. Assim, Labov (2003, p. 243), exemplifica a regra semicategórica com a construção Why you ain't never giving me no A's?, que, segundo o autor, é rara no inglês, mas que pode ser produzida pelos falantes. E, então, tem-se variação se o percentual de uso das variantes ficar entre 5 e 95%. Assim, a partir desses fundamentos da teoria variacionista, foi possível traçar alguns tópicos norteadores fundamentais à reflexão sobre a variação entre as formas tem/tem-se(/têm-se)/há e também sobre as possíveis motivações para a implementação de tem-se(/têm-se) na língua escrita. 3.4 A abordagem sociofuncionalista O Sociofuncionalismo visa ao trabalho com a interface teórico-metodológica que busca a junção dos fundamentos da teoria da Variação e Mudança com os princípios dos estudos funcionalistas da gramaticalização. De acordo com May (2009), os estudos sociofuncionalistas já são realizados há algum tempo no Brasil (PAREDES SILVA, 1993; NEVES, 1999; NARO; BRAGA, 2000; entre outros). Entretanto, essa aproximação teórica tem sido discutida mais enfaticamente em Tavares, 2003; Görski (2003). De acordo com Paiva (1998), a interface Sociolinguista e Funcionalista

62 42 permite incorporar na análise de fenômenos gramaticais nuances semânticas das variantes e o pressuposto de que a forma linguística sofre restrições impostas pela necessidade de adequação discursiva e pragmática. Faz resaltar, assim, a importância de aspectos textuais, (como distribuição de informação), interacionais e cognitivos (como iconicidade) na distribuição das formas linguísticas. (PAIVA, 1998, p. 91) De acordo com Görski e Tavares (2009), o Sociofuncionalismo de vertente variacionista teve o seu marco inicial nos movimentos expansionistas dos sociolinguistas. Nos anos 70, Labov considerou a necessidade de ampliação dos estudos variacionistas para além do nível fonológico. Assim, ao se passar dos estudos fonológicos para os estudos morfológicos, sintáticos e discursivos, à Sociolinguística foram se incorporando aspectos funcionalistas como, por exemplo, os relativos ao fenômeno da gramaticalização, que auxilia na busca pela explicação das diferenças entre formas variantes. As autoras destacam que os estudos funcionalistas também já estavam associando aos seus estudos pressupostos da Sociolinguística, nos seguintes aspectos: na defesa do uniformitarismo e na referência a condicionamentos sociolinguísticos, na questão do ápice de mudança na fala adolescente e na noção de gramaticalização em andamento. O princípio elementar que une as duas correntes, a Sociolinguística e o Funcionalismo, é o fato de que a Língua deve ser pensada e analisada em situações concretas de usos reais. Com o arcabouço da Teoria da Variação e Mudança, nas próximas seções, pretende-se verificar como fatores internos e externos influenciam (ou não) na escolha de umas das variantes (tem~há~ tem-se(/têm-se)) e contribuem para a fixação da estrutura como resultado de um fenômeno de gramaticalidade na escrita culta brasileira. Com a interseção entre Funcionalismo e Sociolinguística, são acrescidos à análise linguística fatores de ordem funcional, como por exemplo: planos discursivos, status informacional das variantes, graus de integração etc. Tavares (2003) ressalta que os principais aspectos da interrelação entre a Sociolinguística e o Funcionalismo são os seguintes:

63 43 (i) o objeto de estudo é a língua em uso, cuja natureza heterogênea abriga a variação e a mudança; (ii) os fenômenos linguísticos que constituem o alvo das investigações são analisados em situações de comunicação real em que falantes reais interagem; (iii) a língua está continuamente se movendo, mudando e interagindo; (iv) a mudança espalha-se de forma gradual ao longo do espectro social, considerando-se fatores como região, geração, classe social, etc, sendo o aumento de freqüência de uso compreendido como índice de difusão sociolinguística; (v) fenômenos de mudança podem ser atestados através de tratamento empírico com quantificação estatística (TAVARES, 2003, p. 114) Como se apreende, existem muitos pontos de correlação entre as teorias. Entretanto, ressalta-se que, apesar de a mudança linguística ser abordada em ambas as correntes teóricas, há diferenças em cada uma na significação do termo mudança. Enquanto nos estudos sociofuncionalistas, principalmente nos que versam sobre a gramaticalização/gramaticalidade, a mudança associa-se à inserção das inovações no mundo social e, sobretudo, ao surgimento das inovações, nos estudos variacionistas é dada ênfase ao estudo da dispersão da inovação linguística através das comunidades de fala. Nos apanhados sobre a gramaticalização/gramaticalidade, na vertente funcionalista, busca-se investigar as fases do processo, desde o início (surgimento de determinada forma linguística) até a possível substituição (não obrigatória) de uma forma mais antiga por uma atual ou especificação, em que a forma gramaticalizada ficaria restrita a determinados contextos do domínio funcional. Nas abordagens sociolinguísticas, o enfoque do estudo fixa no estágio em que ocorre a variação entre duas ou mais formas linguísticas. A interseção entre os objetos de estudo da Sociolinguística e do Funcionalismo atrela-se, principalmente, ao princípio da estratificação (um dos princípios da gramaticalização descritos por Hooper, 1991). Entretanto, cabe dizer que esse princípio considera que surjam novas camadas ou formas para exercerem funções que já eram abrangidas por formas mais antigas. Para a Sociolinguística, para que duas ou mais formas estejam em variação, é necessário que elas mantenham o mesmo valor referencial. Enquanto para o

64 44 Funcionalismo é necessário que as formas exerçam a mesma função. A fusão entre as duas teorias é estabelecida no momento em que se considera que formas em variação podem ou não exercer o mesmo sentido, mas desde que seja exercida a mesma função. Com os estudos de gramaticalização (diacronicamente conduzidos) ou gramaticalidade (sincronicamente conduzidos) atrelados aos sob análise variacionaista, configura-se uma busca melhor fundamentada por explicações. Assim, ao estudo do fenômeno variável em voga, acrescentam-se postulações sobre processos históricos das estruturas até o momento em que, no caso de tem-se(/têm-se), a estrutura resultante de um processo de gramaticalização passa a ser tratada gramaticalmente como uma alternativa linguística de impessoalização. Focaliza-se, justamente, o fenômeno da gramaticalidade dessa estrutura em contextos de variação com outros recursos verbais de impessoalização. 4. Materiais e procedimentos de pesquisa Neste capítulo, pretende-se evidenciar algumas escolhas tomadas no desenvolvimento da pesquisa e as etapas enfrentadas no que tange ao tratamento de dados do comportamento observável em textos e à análise sociofuncionalista dos mesmos. Também se trata da proposição de materiais para a pesquisa de percepções/interpretações linguísticas e dos procedimentos de análise desses materiais. Assim, serão apresentadas informações relativas às seguintes fases: (i) a constituição dos materiais de investigação, corpus e testes de atitudes; (ii) os procedimentos de análise de cada material; (iii) os grupos de fatores, linguísticos e/ou extralinguísticos, que foram estipulados e investigados na análise sociofuncionalista do fenômeno da alternância, bem como grupos de controle das estruturas em jogo no corpus considerados no estudo da gramaticalidade da construção tem-se(/têm-se). 4.1 Considerações sobre o tratamento estatístico de dados nos materiais considerados.

65 O tratamento variacionista de dados Somam-se ao tratamento qualitativo dos dados contribuições advindas do seu tratamento quantitativo, particularmente no estudo variacionista que se faz aqui. O sociolinguista, em seus estudos, utiliza, como método de trabalho, a análise quantitativa, "uma ferramenta poderosa e segura que pode ser usada para o estudo de qualquer fenômeno variável nos diversos níveis e manifestações linguísticas". (NARO, 2010, p. 25). O tratamento estatístico serve para verificar com que frequência cada fator pode influenciar no emprego de formas variantes. E existem programas computacionais, como o GoldVarb X, utilizado nesta pesquisa, que fornecem ajuda estatística, produzindo informações como pesos absolutos e relativos de ocorrência de cada fator em relação a cada contexto delimitado para estudo. Com esse tipo de suporte estatístico, é possível compreender e atestar ou refutar as hipóteses estabelecidas no momento da análise dos dados linguísticos. O uso de informações estatísticas auxilia o cientista a entender melhor os fenômenos linguísticos, além de lhe propiciar fundamentação empírica para a descrição do uso. Quando um estudo valida hipóteses apenas com base na intuição linguística de seus pesquisadores, ele pode mostrar-se de forma bem controversa. Isso acontece porque as intuições linguísticas são variáveis de indivíduo a indivíduo e, para serem consideradas argumentos verdadeiros, é desejável que estejam subordinadas a testes estatísticos. Logo, a quantificação oferece contribuição no que diz respeito à qualidade e confiabilidade dos resultados obtidos. O estudo de frequências pode oferecer contribuição não só ao estudo sociolinguítico, mas também ao estudo funcionalista, haja vista o pressuposto, nos estudos de gramaticalização, de que formas gramaticalizadas são mais frequentes na língua O teste de atitudes

66 46 Nesta seção, serão apresentadas considerações sobre o teste de atitudes, elaborado com os seguintes objetivos centrais: (a) verificar, na etapa 1, como os usuários da língua interpretam a função sintática do termo selecionado por tem-se(/têmse); e (b) na etapa 2, apreender em que medida cada forma (tem-se(/têm), há e tem) é considerada típica da oralidade e/ou da escrita. Assim, hipoteticamente, acredita-se que têm-se(/têm-se) será apontada prioritariamente como uma estrutura inerente à língua escrita e haverá uma associação da construção como estrutura passiva sintética, em virtude da transitividade direta do verbo ter. Os testes de atitude, de acordo com Weinreich, Labov e Herzog (1968), permitem que o pesquisador lide com o problema da avaliação, que diz respeito ao julgamento subjetivo dos usuários da língua sobre questões envolvidas no processo em que duas ou mais formas estão em variação. Desse modo, espera-se poder refletir acerca da influência do estigma social no curso da mudança linguística e em como os usuários avaliam a forma tem-se(/têm-se) em seus contextos de uso. O teste foi aplicado, primeiramente, a graduandos das seguintes áreas: 6 do curso de História (segundo período), 6 do curso de Pedagogia (primeiro período) e 6 do curso de Matemática (primeiro período), todos alunos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, pois, como o enfoque da pesquisa está centrado no estudo do corpus que representaria a norma culta brasileira, buscou-se trabalhar com participantes que já tenham iniciado o terceiro grau. Após esta etapa, o teste foi aplicado a graduandos do quarto período do curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Destacase que os resultados obtidos serão comparados com estes testes que foram aplicados por último, uma vez que estes alunos já trabalharam em sala de aula com construções passivas e com questões relacionadas ao se como partícula apassivadora ou indeterminadora. O teste, na primeira etapa, conta com um total de 10 sentenças e, na segunda, com 22. As sentenças utilizadas foram recolhidas em dissertações, no Jornal O Globo, no Jornal Extra, no Jornal da UFRJ, no acervo do Projeto NURC e em de artigos científicos. Para um melhor resultado, evitou-se utilizar sentenças criadas e/ou que tivessem uma linguagem muito técnica ou específica de uma determinada área. Ainda que se trate de um teste direto, o participante não terá informações acerca das estruturas

67 47 que serão analisadas, já que foram incluídas orações que não continham as formas temse(/têm-se), tem ou há, para que o indivíduo não perceba qual fenômeno linguístico está sendo analisado e a sua resposta seja a mais natural possível. Pretendeu-se observar, assim, na etapa 1 do teste, a averiguação da associação da estrutura tem-se(/têm-se) com a estrutura de construções passivas sintéticas, já que, nesta etapa, se busca analisar como o usuário interpreta o SN selecionado pelas formas quando há ou não concordância. Ainda, foi solicitado que fossem destacadas por cada participante as sentenças que foram consideradas passivas sintéticas. Busca-se também verificar, na etapa 2, se os participantes consideram a forma verbal tem mais prototípica da oralidade. A confirmação dessa hipótese revelaria que se associa à forma um estigma social que, de certo modo, seria responsável por ela ser rechaçada na escrita e, consequentemente, no discurso acadêmico, mais formal, por emergir a forma temse(/têm-se) para entrar em competição com há. Geralmente, a análise de atitudes linguísticas pode basear-se em duas abordagens: (a) na abordagem mentalista, em que há uma interferência, através de uma variável, entre o estímulo recebido pelo participante do teste e a sua resposta e (b) na abordagem behaviorista, em que as atitudes dos usuários da língua são levantadas e analisadas a partir das respostas cedidas em situações sociais. No teste proposto nesta pesquisa, utiliza-se a abordagem behaviorista. Será analisado o comportamento dos participantes de forma direta, já que as repostas obtidas serão analisadas, na busca de interpretar como o usuário da língua está interpretando a estrutura tem-se(/têm-se). Nesta pesquisa será utilizado o método direto 17. Foi proposto um questionário (cf. no anexo) constituído de duas etapas, com formato único. Na primeira o voluntário deverá colocar entre parênteses a letra correspondente à função sintática que considerar ser a exercida pelo termo em destaque: S, para sujeito, e OD, para objeto direto. Após 17 Os testes de atitudes podem ser pautados em dois métodos: (a) direto, em que o participante é estimulado a fornecer respostas acerca de questões sobre as variedades de uso, sobre a língua em si e também traçará avaliações sobre determinados aspectos linguísticos e (b) indireto, em que o participante não tem conhecimento sobre o fato de que as suas atitudes linguísticas serão avaliadas; neste método, o participante é questionado sobre assuntos diversos que o levarão a fornecer respostas subjetivas e, partir delas, serão extraídos somente os aspectos interessantes ao estudo linguístico em questão.

68 48 isso, deverá(ão) ser informada(s) qual(is) sentença(s) contém/contêm construção passiva sintética. Na segunda etapa, os participantes deverão atribuir uma pontuação, dentro de uma escala de 1 a 5, julgando se a estrutura destacada é mais típica da oralidade ou da escrita, sendo, dentro de um continuum, 1 a estrutura mais típica da oralidade e 5 mais próxima da língua escrita. Desse modo, a partir da metodologia de aplicação do teste de atitudes, pretendese averiguar a avaliação social feita pelos usuários das formas tem-se(/têm-se), há e tem, além de verificar os padrões comportamentais em relação a essas estruturas. Também se espera que seja possível, a partir deste estudo de atitudes linguísticas, apreender a emergência da estrutura tem-se(/têm-se) na língua escrita e como os usuários avaliam tal construção, como mais prototípica ou não da escrita. 4.2 Constituição do corpus para estudo do comportamento observável na escrita acadêmica Primeira fase: exame preliminar de formas verbais para a delimitação do corpus desta pesquisa Como se pretendeu averiguar a alternância ter~haver e observar em que medida a construção tem-se(/têm-se) vem sendo utilizada na modalidade culta da língua escrita, foram levantados dados do Jornal O Globo, da Revista Superinteressante, da Revista Diadorim e da Revista Matéria. Inicialmente, foram pesquisados 68 textos (34 notícias e 34 editoriais) do Jornal O Globo, escolhidos aleatoriamente em edições dos anos de 2010 e 2011, 68 artigos científicos (34 da Revista Diadorim volumes 2, 4 e 6 e 34 da Revista Matéria volume 16, do terceiro trimestre de 2011, volume 15, do primeiro e do terceiro trimestre de 2010, e volume 14, do quarto trimestre de 2009) e, por fim, 34 reportagens de divulgação científica da Revista Superinteressante (edições 289, 290, 294 e 298 do ano de 2011).

69 49 O Jornal O Globo foi escolhido por ter, em sua trajetória, forte comprometimento com o atendimento aos padrões normativos da língua. A Revista Superinteressante, por ser um veículo destinado ao grande público. Acredita-se que nesta não haja um forte rigor normativo como há nos textos do Jornal O Globo. Já as revistas Diadorim e Matéria, que possuem públicos específicos, profissionais da área de Letras e da área de Materiais, e por terem seus artigos escritos por pesquisadores, estimou-se a existência de um comprometimento com o atendimento ao padrão normativo culto, principalmente na Revista Diadorim cujos artigos são escritos e revisados por profissionais que se dedicam ao estudo linguístico. Visando à obtenção de uma amostra quantitativamente equilibrada, foram consideradas somente as três primeiras páginas dos artigos científicos, salvo os casos em que tabelas eram inseridas nas páginas iniciais do texto. Nesse caso, a quarta lauda também passava a ser apreciada. Foram recolhidos períodos em que figurasse ou a forma verbal ter (incluindo tem-se/têm-se) ou haver com valor impessoal, como demonstram os exemplos a seguir: (17) Há, ainda, o efeito incerto sobre os preços da maxi-desvalorização recente do real [Editorial, Jornal O Globo, ]. (18) Como as salas são muito cheias, tem chaveiro que deixa o preso dormir na BR (como é chamado um corredor), pela qual também cobra taxa confirma outra mulher. [Notícia, Jornal O globo, ]. (19) No padrão brasileiro atual, tem-se [o uso da próclise ao verbo principal] como mais frequente do que a próclise ao auxiliar. [Dissertação de mestrado, Letras, 2010]. Para a especificação da variável dependente a focalizar nesta pesquisa a partir desse exame inicial de dados, contou-se com um corpus de 194 dados. Após realizar quantificação estatística dos dados com o auxílio da ferramenta GoldVarb X, chegou-se ao seguinte resultado: em 93.3 % (181 dados), constatou-se o uso do verbo haver. Com

70 50 relação ao verbo ter, em que estavam inseridos os dados com tem-se(/têm-se), o percentual de uso foi de 6.7% (13 dados). A partir da análise desses números absolutos, assim como já demonstrado por Callou e Avelar (2007), no PB escrito, ratificou-se a preferência pelo uso do haver impessoal. Sabe-se que a escrita é mais conservadora do que a língua oral. Mesmo sendo uma estrutura pouco utilizada na fala, o padrão oriundo de Portugal, a impessoalização mediante o verbo haver, revela-se muito forte na modalidade expressiva analisada. No que diz respeito à eleição das formas em certo tempo verbal, decidiu-se considerar somente os predicadores ter e haver no presente do indicativo em virtude dos números que são expostos abaixo: essas formas, com valor impessoal, aparecem mais produtivamente nesse tempo verbal. TEMPO VERBAL 18 VARIÁVEL DEPENDENTE Presente Presente Pret. Pret. Fut. do Fut. do Infinitivo do Subj. Perfeito Imperfeito Presente Subjuntivo Dados/Total/% D/T/% D/T/% D/T/% D/T/% D/T/% D/T/% TER HAVER 12/165 (7,3) 0/3 (0) 0/8 (0) 0/8 (0) 0/1 (0) 0/2 (0) 1/7 (14,3) 153/165 (92,3) 3/3 (100) 8/8 (100) 8/8 (100) 1/1 (100) 2/2(100) 6/7 (85,7) Tabela 1: Distribuição das variantes ter e haver em relação ao tempo verbal numa amostra-teste de 194 dados. Em nenhum dos tempos verbais (presente ou infinitivo) que permaneceram após a eliminação dos KnockOuts foi destacado pelo GoldVarbX como fator condicionante para o uso de ter ou haver. Em razão desses resultados, ao final dessa testagem coube, ainda, refletir sobre o seguinte: ao se focalizarem apenas os poucos casos de uso do verbo ter no corpus (o conjunto de 13 dados), seria ainda possível pensar, no que diz respeito à escrita, em uma regra variável que inclua esse verbo? Ao avaliarem-se 18 Foram listados e considerados apenas os tempos verbais que surgiram no corpus dessa análise preliminar.

71 51 somente os casos em que houve a utilização do verbo ter, percebeu-se que: este, quando ocorreu, integrava o complexo tem-se; e, em apenas 3 de 5 dados em que se constatou a presença do verbo ter sem o clítico se, seu uso se encontrava dentro do discurso direto. A partir da análise do gráfico a seguir, apreende-se que o percentual de uso do verbo ter é baixo em todos os gêneros analisados. Nota-se, entretanto, que, nas revistas de divulgação científica, o índice de uso de verbo ter é mais elevado do que nas demais fontes. Em todos os dados com ter nas referidas revistas, 4 da Revista Matéria e 5 da Revista Diadorim, houve a presença do complexo tem-se(/têm-se), estrutura que se mostrou bem produtiva no discurso acadêmico. A estrutura tem-se(/têm-se) figurou também em um dado do editorial do Jornal O Globo. Sendo assim, levando-se em conta somente os dados com o verbo ter, a estrutura em questão foi utilizada em 9 dos 13 dados. A seguir, será exposto o gráfico com a distribuição percentual de uso das formas verbais em estudo por gênero: Gráfico 2: Distribuição percentual de ter e haver por gênero textual numa amostra-teste de 194 dados. Ao analisar-se o gráfico anterior, nota-se que, no Jornal O Globo (em notícias e editoriais), há forte resistência à inserção do ter impessoal. Como já dito, em editoriais, ocorreu apenas um dado com a estrutura tem-se; já no gênero notícias, nas duas vezes

72 52 em que houve a ocorrência do verbo ter, essas eram oriundas do discurso direto, como demonstra o seguinte exemplo: (20) Eles perguntavam demais: Professora vai ter aula hoje? Há um interesse real. Além disso, acho que a continuidade dos estudos é um sinal para o paciente de que ele vai sair do hospital e voltar para a casa. [Notícia, Jornal O Globo, ]. Dessa forma, assim como verificado e exposto por Callou e Avelar (2007), parece que, por meio de estruturas que se aproximam da fala ou a reproduzem (discurso direto ou formulação de diálogos), o verbo ter impessoal tem lugar na escrita. De acordo com os referidos autores, parece ser a necessidade de inserir marcas da oralidade a principal condicionante do uso desse verbo entre os textos considerados [na formulação do corpus de análise dos estudos], grifo nosso (CALLOU; AVELAR, 2007, p. 185), Nos artigos científicos, o índice de utilização do verbo ter é mais expressivo. Entretanto, a impessoalização é feita a partir do complexo tem-se(/têm-se). Por fim, nas reportagens de divulgação científica da Revista Superinteressante, o verbo ter, em apenas um das três ocorrências, esteve inserido no discurso direto. Apesar de ser baixo o índice de uso desse verbo na Revista Superinteressante, foi justamente nesta fonte que o mesmo não apareceu no discurso direto e/ou compondo a estrutura tem-se(/têm-se), como demonstra o exemplo abaixo: (21) Se desperdiçar moedas não é hábito exclusivo nosso, tem um que é sim parcelar. Nenhum país teve inflação alta por tanto tempo como o Brasil, diz Alcides. [Artigo de divulgação científica, Revista Superinteressante, ].

73 53 Ao pensar nas hipóteses inicias, constatou-se que o Jornal O Globo, por seu reconhecido cuidado e atendimento à norma culta, como já era esperado, apresenta baixíssima frequência de impessoalização acionada mediante o verbo ter, que, como visto, aparece em contextos bem específicos. Esperava-se mesmo que não fosse alto o percentual de uso do verbo ter no gênero acadêmico. De qualquer modo, vale destacar que os resultados obtidos com relação aos artigos científicos reforçam a hipótese de que esse fato acabou por acarretar o emprego de uma nova estratégia, a impessoalização por meio de tem-se(/têm-se), que, ao que tudo indica, não é rechaçada nesse domínio discursivo. A partir da análise preliminar descrita acima, notou-se que o verbo ter, como já previsto, foi pouco registrado na modalidade escrita e aparece, quase que categoricamente, em um contexto bem específico: discurso direto. Sendo assim, pelo fato de o verbo ter figurar em um espaço tão particular e somente ter sido apreciado no gênero jornalístico, nesta pesquisa, opta-se, a partir deste momento, pelo encaminhamento da pesquisa com a variável binária tem-se/têm-se~há, já que parece que é exatamente na estrutura em processo de gramaticalidade que o verbo ter com valor impessoal entra em variação na língua escrita com a forma verbal há A constituição do material de análise final: o texto acadêmico A partir da constituição da variável dependente, a construção tem-se(/têm-se) e a forma verbal há (terceira pessoa do singular, presente do indicativo), buscou-se a ampliação do corpus. Novas fontes foram inseridas e excluíram-se os dados oriundos da Revista Superinteressante e de editoriais do Jornal O Globo. E, para verificar com maior precisão a distribuição de tem-se(têm-se) na escrita culta padrão brasileira, aumentou-se o copus de análise para que seja possível afirmar com mais precisão se o complexo está restrito a ser utilizado no discurso acadêmico. Eis, então, a nova configuração do material para análise: Jornal O Globo, Jornal Extra, Revista Caros Amigos, Revista

74 54 Diadorim, Revista História Comparada 19, Revista Matéria e Dissertações das Áreas de Letras, História e Engenharia Elétrica dos Programas de Pós Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pesquisou-se em um total de 743 textos. Incluíram-se as novas fontes pelas seguintes razões: (a). Jornal Extra: publicação da mesma editora do Jornal O Globo. Esse jornal possui como público alvo as classes C e D. E, pelo fato de os jornais serem veiculados a camadas sociais diferentes, pretende-se verificar se no Jornal Extra aumenta-se o uso da forma verbal tem. (b) Dissertações e artigos científicos da área de História: além da ampliação do número de textos do domínio acadêmico, tenciona-se verificar se há alguma diferença significativa de uso das variantes entre usuários que se dedicam ao estudo da língua (Revista Matéria e dissertações da área de Letras), usuários da área de humanas (Revista História comparada e dissertações da área de História Social) e usuários que se voltam para o estudo das ciências exatas (Revista Matéria e dissertações da área de Engenharia Elétrica). Na etapa de ampliação do corpus, foram selecionados, de maneira aleatória: (1). 400 notícias e reportagens do Jornal O Globo e do Jornal Extra (200 de cada veículo); (2). 50 editoriais do Jornal O Globo (3) 100 artigos de opinião do Jornal O Globo (as edições do Jornal O Globo e do Extra consultadas distribuíram-se entre os anos de 2011 e 2012); 19 A Revista História comparada é uma publicação do Programa de Pós-graduação História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

75 Formas Dissertações Letras Dissertações História Dissertações Engenharia Artigos Diadorim Artigos História Artigos Matéria Not. e Rep. O Globo Not. e Rep. Extra Artigos O Globo Artigos Caros Amigos Editorias O Globo Total 55 (4). 102 artigos científicos, sendo 34 da Revista Diadorim (volumes 2, 4 e 6), 34 da Revista Matéria (volume 16, do terceiro trimestre de 2011, volume 15, do primeiro e do terceiro trimestre de 2010 e volume 14, do quarto trimestre de 2009) e 34 da Revista História Comparada (volumes: 1, nº2 dez., 2007; 2, nº1 jun., 2007; 2, nº2 dez., 2008; 3, nº1 jun., 2009; 3, nº2 dez., 2009; 4, nº1 jul., 2010; 4, nº2 dez., 2010; 5, nº1 ago., 2011 e 5, nº2 dez, 2011, (5) 60 dissertações (sendo 20 da área de Letras Mestrado em Língua Portuguesa, 20 da área de História Mestrado em História Comparada e 20 da área de Mestrado em Engenharia Elétrica) entre os textos publicados no período compreendido entre 2009 e Buscando equilibrar o corpus, foram consideradas apenas as vinte páginas inicias de cada dissertação, contabilizadas a partir da introdução. A seguir, apresenta-se uma tabela com a distribuição dos dados nas fontes pesquisadas, em que ainda estão inseridos os dados com a forma verbal tem, já que novas fontes foram incluídas: Há Tem-se/ Têm-se Tem Tabela 2: Distribuição dos dados com o acréscimo de novas fontes de consulta Assim, em um total absoluto de 796 dados, nota-se que a variante tem figurou apenas no domínio jornalístico. Acrescenta-se ainda que, como tinha acontecido na etapa preliminar da pesquisa, ela somente foi localizada dentro do discurso direto também em dados levantados no Jornal Extra. Mas, em um dado oriundo de editorial e em 2 dados extraídos de artigos de opinião do Jornal O Globo, ou seja, em 3 dos 10

76 56 dados a forma tem apareceu inserida no discurso do jornalista que assina a autoria do texto. O uso de tem-se(têm-se), como foi possível reafirmar a partir do novo rearranjo do corpus, é significativo somente no domínio acadêmico, em dissertações e em artigos científicos. A estrutura continuou a não figurar em notícias e reportagens, contabilizaram-se 3 dados (1 dado localizado em um editoriais e 2, recolhidos em artigos de opinião da Revista Caros Amigos). A partir da análise da tabela acima, tomou-se a decisão de considerar, para o controle das variáveis, apenas os dados extraídos dos textos do domínio acadêmico, já que o enfoque principal da pesquisa é averiguar se a construção tem-se(/têm-se) estaria perpassando por um processo de gramaticalidade e, como ela demonstra-se mais produtiva somente na modalidade acadêmica, decidiu-se, assim, trabalhar somente com textos presentes nesta classificação. Para verificar a frequência de ocorrência das variantes no domínio acadêmico e expor a distribuição das mesmas entre os textos, nesta seção, busca-se descrever mais detalhadamente a etapa de levantamento de dados nas fontes acadêmicas. Assim, optouse por trabalhar apenas com o verbo haver no tempo verbal presente, na terceira pessoa do singular, já que, verificou-se na etapa preliminar que, na modalidade escrita culta do PB, na grande maioria dos casos, os verbos impessoais ter e haver impessoais são utilizados no Presente do Indicativo e ainda, destaca-se o fato de que, durante o levantamento de dados, não ter sido encontrada a partícula se ligada ao verbo ter em nenhum outro tempo verbal diferente do presente do indicativo, terceira pessoa (singular e plural). Ressalta-se que se registraram pouquíssimos usos (um total de 5 dados extraídos de textos acadêmicos), do verbo ter na sua forma infinitiva + partícula se, como no seguinte exemplo: (22) Para chegar a este fim, é necessário ter-se [uma linha de raciocínio consistente] e até apresentar provas e evidências que possam corroborar a opinião que pretendemos defender [Dissertação de mestrado, Letras, 2009].

77 57 De acordo com a tradição gramatical, o verbo em sua forma infinitiva não faz referência a qualquer sujeito. Assim, há, pois, uma relação direta na tradição gramatical entre infinitivo pessoal e inexistência de sujeito. Essa noção explica, sem dúvida, ignorarem, completamente, em suas descrições, a possibilidade de usar o clítico se junto aos infinitivos (DUARTE, 2008 b, p. 15). Ainda, de acordo com a autora, o uso do se com verbos no infinitivo, em determinados contextos, contribui para que se garanta uma interpretação arbitrária do sujeito. Também, mais uma vez, não foram encontrados dados em que tem-se(têm-se) ou tem apresentassem valor temporal, sendo assim, foram considerados somente os dados em que tem-se(têm-se), tem ou há estivessem empregados em estruturas de impessoalização não veiculadas ao valor temporal. Sobre a distribuição das variantes entre os textos consultados, em relação às dissertações, em textos da área de Letras, em todos os textos consultados encontrou-se a forma verbal há e em 12 textos localizou-se o complexo tem-se(têm-se). Nos textos da área de História, em 9 dissertação não constatou-se a presença de nenhuma das variantes, em 10 observou-se a presença de há em 4 a presença de tem-se(têm-se). Já nos textos da área de Engenharia, em 3 textos não foram localizados nenhuma das variantes, em 14 textos localizou-se a forma verbal há e em 12 textos foram encontrados dados com o complexo tem-se(têm-se). Em relação aos artigos científicos, na Revista Diadorim, em 30 textos encontraram-se dados com a forma verbal há, em 9 localizaram-se dados com o complexo tem-se(/têm-se) e em 4 não foram localizadas as estruturas em análise; na Revista História Comparada, em 25 textos localizou-se a forma há, em 5 a forma temse(têm-se) e em 4 não foi localizado nenhum dado e, por fim, nos textos da Revista Matéria, em 5 localizou-se a estrutura tem-se(têm-se), em 16 a forma verbal há e em 18 não localizou-se as variantes Em dissertações e artigos da área de Letras, há um maior índice de uso da forma verbal há e também do complexo tem-se(/têm-se). Nas dissertações da área de Engenharia, as variantes encontram-se mais distribuídas entre os textos. Mas, em todos os outros casos, há uma supremacia de uso da forma verbal há. Ao observar que o complexo tem-se(têm-se) é mais utilizado justamente em textos da área de Letras, em

78 58 que se computa a maior frequência de uso de há, surge a seguinte hipótese: a estratégia de impessoalização com tem-se(têm-se) estaria a emergir da necessidade de evitar o uso da indeterminação com a forma verbal há? Textos acadêmicos, como os analisados neste trabalhado, são marcadamente reconhecidos pelo seu caráter impessoal. Nesses textos, procura-se deixar implícita a voz do emissor. Muitas vezes, adota-se uma posição aparentemente neutra, que atenua a dialogia e oculta o agente das ações. Em sua pesquisa, Rumeu (2011) buscou analisar as estratégias de indeterminação do argumento externo em notícias e reportagens de jornais lusitanos (Diário de Notícias, Expresso e Correio da manhã) e brasileiros (O Globo e Jornal do Brasil). Em textos jornalísticos brasileiros, averiguou-se que foi expressiva a presença da indeterminação com o pronome nós (com percentual de 28%) e com o clítico se (26%). As formas a gente e você, preferidas na fala, são inesperadas na escrita e respectivamente computaram-se os percentuais de uso de 2% e 3%. Em Portugal, foi expressivo o predomínio com o se (com 58% de ocorrência) e seguida pelo uso de nós (com 18 % de ocorrência). Nesta dissertação, verificou-se uma significativa diferença entre textos acadêmicos e jornalísticos, já que, durante o levantamento de dados, viu-se que em dissertações e artigos acadêmicos, é baixo o índice de indeterminação com o uso do pronome nós e as formas a gente e você também se apresentam inexpressivas. Assim, o percentual de uso do clítico se na escrita observado por Rumeu (2011) e o seu crescente uso como estratégia de indeterminação nos textos acadêmicos estariam correlacionado com a fixação da construção tem-se(têm-se) nestes textos. Em artigos e dissertações, há sempre orientações em manuais de redação para que seja evitado o uso de pronomes de primeira e segunda pessoa e também a pessoalização das formas verbais 20. Assim, almeja-se que o texto venha a obter uma maior objetividade já que, ao se anular a presença do pesquisador apresentam-se os fatos por si mesmos. (SILVA, 2007, p. 1829). Desse modo, acredita-se que a alta frequência de uso de indeterminação com o clítico se e a emergência de tem-se(/têm-se) textos científicos sejam oriundos também da necessidade de impessoalização inerente do discurso acadêmico. Nos seguintes exemplos: 20 Cf. Severiano, 1986, Lakatos; Marconi (1995)

79 59 (23) No entanto, no caso do modelo utilizado neste trabalho, tem-se como premissa que os geradores da microrrede possuem frequência constante e que a microrrede em si possui um sistema de comunicação altamente confiável. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2010] (24) Tem-se como hipótese principal que usos distribuídos em outros tipos de orações podem viabilizar o conteúdo consecutivo e que os conceitos de coordenação e subordinação vinculados à noção de independência e dependência sintática e/ou semântica têm sido insuficientes para a análise das orações. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] (25) Note-se também que a teoria darwinista de variações graduais dificilmente explicaria o surgimento de divisões bem acima da especiação, como a dos reinos vegetal e animal. Não explicando a origem das espécies, tem-se mais uma forte razão para que a seleção natural não possa ser o mecanismo geral da evolução, mas sim e quando muito, um mecanismo do equilíbrio das populações. [Artigo científico, Revista História comparada, v 1 n2, 2007] É possível observar a impessoalização com o uso da construção tem-se que substitui o uso do pronome de primeira pessoa, como no exemplo 24: (Eu) tenho uma hipótese principal.../nós temos uma hipótese principal, o que garante um distanciamento do autor do texto preserva uma polidez, já que propõe uma forma de proteção de território, de modo que o outro não possa invadi-lo e, neste caso, as faces negativas dos interlocutores são relativamente protegidas, dada uma menor ocorrência de formas nominativas. (MONTEIRO & PAIVA, 2007, p. 6) 5. Estudo da gramaticalidade de tem-se(/têm-se) como recurso/construção de indeterminação e sua alternância com outras formas verbais 5.1 A estrutura argumental da construção tem-se(têm-se)

80 60 Como se observou na sessão anterior, para Dik, a cláusula é organizada a partir de um item predicador, ou seja, a organização e a estruturação ocorrem a partir das exigências sintático/semânticas do elemento predicante e, posteriormente, pela atuação dos operadores gramaticais e dos satélites, na segunda camada, até que se chegue ao nível da cláusula. Ao investigar o frame semântico dos verbos, torna-se mais viável traçar explicações acerca da distribuição de determinado predicador nas diferentes construções em que ele pode ser inserido. Sendo assim, a seguir serão apresentadas as estruturas de predicação do verbo ter: (A) TER [v] (X 1 <+humano, + animado>) (X 2 < + ou humano, + ou animado>) (26) Não, eu tenho meu dinheiro, eu faço o que eu quisé. E se não fosse pelo meu dinheiro, eu não teria comprado esse apartamento; não teria comprado o carro, não teria comprado <te...> nada, ia sê muito mais difícil. [Amostra PEUL, de recontactados/2000, R01, Eri] (argumento externo + humano, + animado e argumento interno humano, animado) (27) Não, eu tenho uma pessoa que vem aqui, dá uma limpeza pra mim, diarista, né? Mas não todo dia, porque a gente não pára quase aqui em casa. [Amostra PEUL, de recontactados/2000, R01, Eri] (argumento externo + humano, + animado e argumento interno + humano, +animado) Nos exemplos acima, é possível observar que são revelados usos distintos do verbo ter. Em 26, há uma noção de posse alienável (Não, eu possuo meu dinheiro...). Já em 27, há uma noção de posse, por assim dizer, mais psicológica, no sentido de contar com.../dispor de... e não possuir uma pessoa. Assim, com o argumento com o traço mais animado, observa-se que há uma diluição do valor semântico de posse. (B) TER [v] (X 1 < - humano, - animado>) (X 2 < - humano, - animado>)

81 61 (28) Aquela caixa tem todos os documentos da casa 21. (29) A portaria em si tem o vigia, noite e dia, e o telefone interno para qualquer pessoa que entre seja, seja interrogada, NE, e avisam em cima pra dizer quem é e quem não é? [Inq. 48, NURC - RJ] Nesses dois exemplos, temos mais dois usos distintos do verbo ter. Em 28, Aquela caixa e A portaria, em 29 não são exatamente possuidores, mas sim o local (contêiner) e o verbo em questão, em 28 assume um valor de conter, abrigar, comportar em 29 o sentido de abrigar, já que a portaria é o local de trabalho do vigia. (C) TER [v] (X 1 < Ø>) (X 2 <+ ou humano, + ou animado) (30) Móveis, eh, ele é decorado em estilo moderno, com peças antigas também porque um dos meus fracos também é antiguidade. Tem um santo grande, que foi da minha avó, uma Nossa Senhora do Parto, que eu roubei, de família e está lá no quarto. Agora dá visão pra praia e, lá numa janela lateral eu posso ver o morro Dois Irmãos também que fica no final da rua, o verde do morro... [Inq. 48, NURC - RJ] (31) Tem um vizinho folgado que estaciona o carro em frente a minha porta. O que eu faço?[http://br.answers.yahoo.com/question/índex?] Em 30 e 31, o verbo ter foi utilizado com valor + existencial e, nesses exemplos, percebe-se que o predicador em questão associa-se semanticamente ao verbo haver impessoal (Há um santo grande.../há um vizinho folgado...), o que não foi perceptível nos exemplos 26, 27, 28 e Exemplo extraído de VIOTTI, 2003.

82 62 (D) TEM +SE (X 1 < Ø >) (X 2 <+ ou humano, + ou animado >) (32) Diante disso, tem-se, então, [o conceito da articulação hipotática] para as partes constituintes de uma construção que apresentem uma relação circunstancial subordinadas adverbiais para a Gramática Tradicional - e sejam relativamente dependentes, ou melhor, interdependentes entre si (Mathiessen & Thompson, 1988:283). [Dissertação de mestrado, Letras, 2009, p. 34]. (33) Resumindo-se o quadro, tem-se mulheres utilizando-se mais da variante alteada de <o> do que da de <e>, e vice-versa com respeito à fala masculina. [Tese de doutorado, Letras, 2010]. Nos exemplos 32 e 33, também é possível notar que tem-se assume um valor impessoal. Assim, considerando toda a polifuncionalidade semântica do verbo ter e suas extensões de sentido, observa-se que o complexo assemelha-se, tanto na estrutura de projeção como no frame semântico aos usos da forma verbal ter em 18 e 19. Na busca de um continuum, observa-se que, quando o verbo ter é utilizado no seu sentido de posse (alienável ou não), como se observa em A e B, não há restrições quanto ao caráter mais ou menos animado tanto do argumento externo quanto do interno. Viotti (2003) classifica o verbo ter como leve, por ele ter uma contribuição muito pequena na construção do sentido das sentenças das quais participa (VIOTTI, 2003, p.226). A autora apresenta exemplos que expressam a multiplicidade de sentidos que as sentenças com o verbo ter permitem e o fato de este verbo não fazer nenhuma restrição seletiva a seus argumentos. Se houver restrição, segundo Viotti, ela é causada pelo produto da composição de outros itens lexicais com ter. A autora ainda ressalta que o verbo ter é esvaziado semanticamente, tem valor predicativo enfraquecido, sendo capaz de produzir uma multiplicidade de sentenças de significados diferentes. Ainda, segundo ela, nas sentenças com verbo ter, a construção do sentido dos sintagmas e das sentenças não é feita por um item lexical isoladamente,

83 63 mas é fruto de uma composição do sentido de vários itens lexicais que participam da predicação (VIOTTI, 2003, p. 238). Sendo assim, acredita-se que essas características do verbo ter, de certa forma, contribuam para que esse item passe por um processo de gramaticalidade. Dada a natureza semântica menos densa e específica desta forma verbal, infere-se que haveria, assim, condição propícia à instalação de um processo de gramaticalidade. Na estrutura apresentada em C, o verbo ter é utilizado com valor impessoal e, dessa forma, passa a projetar apenas argumento interno, que pode ser + animado ou animado, +humano ou humano, como demonstram os exemplos 11 e 12. A estrutura tem-se(/têm-se) aproxima-se desta relação de predicação prevista em C, como se demonstra em D. Ainda, cabe ressaltar que, na estrutura de predicação de tem-se(/têm-se), há um estreitamento em relação à semântica do argumento interno selecionado. Em todos os dados levantados para esta pesquisa, tem-se(/têm-se) não projetou argumento interno com o traço +animado e, o exemplo 14, que não faz parte do corpus desta pesquisa foi utilizado 22 para verificar que a referida construção pode vir a projetar um argumento com o traço + humano. Destaca-se ainda o fato de o complexo expressar, mesmo que de forma atenuada, um sentido de posse. No exemplo abaixo, nota-se que tem-se denota a concepção de posse: (34) Tem-se como hipótese principal que usos distribuídos em outros tipos de orações podem viabilizar o conteúdo consecutivo e que os conceitos de coordenação e subordinação vinculados à noção de independência e dependência sintática e/ou semântica têm sido insuficientes para a análise das orações. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. 22 Mediante a ausência de SN com o traço mais animado sendo selecionado por tem-se, buscou-se investigar se haveria a possibilidade de o complexo projetar tal estrutura. Sendo assim, após exaustiva busca nos mais variados textos, que compuseram ou não o corpus, foi localizado apenas o dado exposto no exemplo 14.

84 64 A partir deste exemplo, é possível a seguinte permuta: Temos/Tenho/Possuímos como hipótese principal que usos distribuídos em outros tipos de orações.... Desse modo, a estrutura em estudo, neste processo contínuo de gramaticalidade, ainda mantém nuances que, em alguns casos, a aproximam do verbo ter expressando posse, mesmo aproximando-se mais da estrutura de predicação e do comportamento impessoal do verbo ter, como visto em C. Como se verá adiante, acredita-se que a emergência do complexo tem-se(/têmse) em estruturas como a descrita em 34 esteja emergindo em textos acadêmicos a partir da necessidade de impessoalização e distanciamento do autor, que são marcas inerentes a esses textos. Destaca-se, ainda, que, ao analisar os frames das construções com há, como a exposta a seguir, apreende-se que também em tal construção há, ainda que reduzido, o valor implícito de posse: (35) Contudo, não há registros que possibilitem avaliar em que medida essa formação de mão-de-obra correspondia à demanda da empresa ferroviária. [Artigo científico, Revista História comparada, v 3 n1 2007]. A partir do exemplo, é possível inferir uma nuance do sentido de posse: Contudo, (Nós) não temos/possuímos registros.... Entretanto, a forma verbal temos aparece em número muito reduzido no corpus de análise deste trabalho. Acredita-se que, evita-se o uso dessa forma verbal no intuito de tornar o discurso mais impessoal. Pretende-se, então, nesta pesquisa, verificar as construções e os frames das formas tem/ tem-se(/têm-se)/há nas construções impessoais do PB e verificar em que medida e com qual frame a forma tem-se(/têm-se) se fixa na modalidade escrita culta O processo de gramaticalização da construção tem-se(têm-se)

85 65 Bybee (2003) destaca a frequência de uso como fator que contribui para a gramaticalização de uma estrutura, uma vez que ela favorece o processo de mudança. Sendo assim, nos estudos que versam sobre a gramaticalização/gramaticalidade, é preciso considerar o aumento da frequência de uma construção e ou expressão. A partir da repetição, as sequências de palavras ou morfemas automaticamente passam a ser interpretadas como uma unidade única de processamento linguístico. A autora ainda destaca que a frequência de uso implica no enfraquecimento semântico de determinada construção/item, ou seja, as formas tornam-se mais gerais e mais abstratas no significado. (LOPES; SILVA, 2002, p. 87). Desse modo, observa-se o aumento da frequência de uso do complexo temse(/têm-se) nos textos acadêmicos, que contribui para a gramaticalidade da construção. Acredita-se que essa seja motivada por fatores pragmáticos e a nova forma passa a ser utilizada em contextos em que a forma verbal tem, que compete com há na língua oral, não é utilizada, como visto, teoricamente, por pressões normativas e a implementação desse novo uso (tem-se(/têm-se)) é motivada pelo aumento na sua frequência de uso em textos acadêmicos. Outra questão importante a ser levantada no processo de gramaticalidade de temse(/têm-se) é a dessemantização, que é o resultado do seguinte processo: significados mais concretos passam a ser reinterpretados como abstratos em contextos específicos (BARROS, 2012). Neste caso, os significados principais do verbo ter (posse alienável ou inalienável) e a manifestação da impessoalização (no sentido existencial, não contemplado pelos compêndios gramaticais) são enfraquecidos. De acordo com Heine (2003) os itens gramaticalizados perdem algumas propriedades, mas ganham outras características em seus novos contextos de uso. O intuito principal desta dissertação é pensar no processo de gramaticalidade pelo qual estaria passando a estrutura tem-se(/têm-se). Por essa razão, a partir de agora, relacionar-se-á a construção e seus usos com os parâmetros de gramaticalização propostos por Hopper, a fim de se pensar na gramaticalidade de tal estrutura. Os parâmetros são: estratificação, divergência, especialização, persistência e descategorização. A partir desses parâmetros, segundo o autor, é possível verificar o caráter gradual da gramaticalização e, consequentemente, também da gramaticalidade.

86 66 Em relação à estratificação novas formas estariam imergindo e coexistindo com as antigas. Percebe-se, assim, que a substituição das formas equivalentes já existentes na língua não é imediata ou pode nem vir a acontecer. Na divergência, Hopper aponta para o fato de que a unidade gramatical que dá origem ao processo de gramaticalização pode manter suas propriedades originais, preservando-se como item autônomo, estando sujeita até mesmo a sofrer um novo processo de gramaticalização. Sobre o parâmetro da especialização, Hopper o relacionou com o enfraquecimento da escolha; a partir desse princípio, percebe-se que há um aumento na frequência de uso da forma adiantada no processo de gramaticalização. De acordo com o princípio da persistência, alguns traços semânticos da forma fonte são mantidos na forma gramaticalizada, o que pode ocasionar restrições sintáticas para o uso da estrutura gramaticalizada. Por último, sobre a descategorização, Hopper aponta para o fato de que a forma gramaticalizada tende a perder ou neutralizar as marcas morfológicas e os privilégios sintáticos que caracterizam as formas plenas como nomes e verbos. No que diz respeito à estratificação, a estrutura tem-se(/têm-se) funcionaria como uma estratégia de impessoalização e estaria em competição, na língua escrita, com a forma verbal há. O verbo ter está tomando o espaço do verbo haver na língua desde o português arcaico, como já visto. Logo, a tendência é que se criem estratégias de substituição, ou seja, se, em algum contexto, a forma verbal simples do verbo ter não se substituir por haver, o usuário utiliza uma estratégia, uma perífrase ou uma forma cristalizada, por exemplo, que naquela situação especifica vai possibilitar a permuta. Quando suprimimos a partícula se, o sentido da sentença fica um pouco comprometido, não soa como uma construção natural dentro do texto como um todo, (talvez por a forma tem ser rechaçada na escrita) como demonstram os exemplos a seguir, em que em dezessete apresenta-se a sentença na íntegra e em 36 b, suprimi-se a partícula se: (36) Ao final desse processo tem-se tantos conjuntos quanto centróides, e a partir desse agrupamento podemos calcular os novos valores de centroides. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2009].

87 67 (36b) Ao final desse processo tem tantos conjuntos quanto centróides, e a partir desse agrupamento podemos calcular os novos valores de centroides. Pensando no parâmetro da divergência, o verbo ter mantém-se na língua autônomo, funcionando como predicador e pode até mesmo sofrer novo processo de gramaticalização. Sendo assim, esse verbo, que já passara pelo processo de gramaticalização, funcionando como auxiliar ou suporte e nas construções perifrásticas ter que/ter de + infinitivo, por manter suas propriedades originais na língua, na estrutura tem-se(/têm-se) estaria passando por um processo de gramaticalidade. No que tange à especialização, nota-se que a estrutura tem-se(/têm-se) vem ganhando força de uso nos textos acadêmicos, em que há uma maior preocupação com o bom uso da língua e com o cumprimento dos padrões gramaticais normativos. Como se tratam de textos que exigem o posicionamento do autor sobre determinado assunto, é significativo o uso de estratégias de impessoalização e, desse modo, como o uso do verbo ter impessoal é evitado na escrita, a forma tem-se(/têm-se) começa a ganhar espaço e compete com a forma há. Relacionando a construção tem-se(/têm-se) com o parâmetro da persistência, a construção apresenta o valor de impessoalidade representado pelo verbo ter e, como já visto, por algumas vezes, aproximou-se do sentido primários da forma fonte do verbo ter (posse alienável ou inalienável). Por último, no que tange à descategorização, em relação à estrutura tem-se(/têmse), fica muito difícil pensar em perdas ou neutralizações de marcas morfológicas. A flexão de número é marcada apenas pelo acento (^) e, desse, modo, só pode ser verificada na língua escrita. Por fim, cabe salientar, que durante o controle percentual de tem-se(/têm-se) e há no corpus, também se observou que em nenhum momento outras flexões do verbo ter acompanhadas do clítico se (tinha-se/ se terá/ teria-se etc) foram registradas, o que também corrobora a pensar na descategorização da estrutura analisada.

88 A construção tem-se(/têm-se) e seus graus de impessoalização Como já citado nesta dissertação, em textos acadêmicos, há a preocupação com a impessoalização do discurso e distanciamento do pesquisador. Segundo Silva (2007) costuma-se dizer que o artigo científico deve evitar o uso de formas pessoais do pronome e ater-se ao uso da terceira pessoa do singular em voz ativa ou voz passiva. Tal norma é justificada pelo fato de que o cientista deve apresentar os fatos por si mesmos, evitando demonstrar a manipulação subjetiva dos dados. Como a ciência deve comprovar que os fenômenos existem ou ocorrem de uma determinada forma, o cientista deve se ausentar do texto e mostrar que o fenômeno ocorreria sem sua manipulação. (SILVA, 2007, p. 1829) Santana (2011) expõe graus de indeterminação que podem ser percebidos com a utilização dos pronomes você, a gente e nós. Como proposto por Cunha (1993), o grau de indeterminação aumenta à medida que deixam de existir elementos no contexto que permitam a interpretação do pronome e o grau de indeterminação será maior ou menor de acordo com a dependência da interpretação em relação ao contexto (SANTANA, 2011, p. 3440). Observe os seguintes exemplos destacados por Santana: a. A que eu mais gostava era assim, você pega as duas latas bota uma assim e a outra lá, aí fica dentro com o taco na mão, aí você joga a bola e se você dá a tacada, você ganha ponto, era a que eu gostava mais. b. Hoje tá mais fáci, naquele tempo não tinha luz, não tinha água a gente tinha que ir pro rio com uma lamparina, um candeeirinho de querosene, agora tá bom, tem energia, tem água. c. INF: Demorou bastante pra receber o cartão, mas depois chegou. DOC: E vocês tiram o dinheiro é com o cartão? INF: É, nós tira lá na Caixa de Seabra. (B, É, nós tira lá na Caixa de Seabra.

89 69 Em a, o pronome você está mais generalizado e, a partir do contexto, percebe-se que ele se refere as três pessoas do discurso, podendo significar, assim, qualquer pessoa que venha a realizar a brincadeira descrita, mas não é possível determinar com quem, com precisão, realiza a ação; em b, infere-se que a gente representa um grupo (eu, o informante e mais as pessoas da comunidade), apesar de esta informação não ser claramente evidenciada pelo contexto e, em c, a partir de elementos do texto, apreende-se que a informante, ao utilizar o nós, faz menção a ela e aos demais moradores da comunidade que recebem auxílio do governo e assim, em c, teríamos um menor grau de indeterminação e em a um menor grau. Durante a análise dado a dado, buscando categorizar graus de impessoalidade revelados por tem, tem-se(/têm-se) e há, assim como Sampaio (2011) buscando analisar os contextos em que as formas estavam inseridas, foi possível notar que o emprego da forma tem parece ocorrer em prol de um distanciamento do enunciador, que, ao inserir a informação, estabelece um maior descomprometimento em relação à opinião dada, como vemos no exemplo 53, em que tem foi utilizado para, além de impessoalizar o discurso, garantir um maior distanciamento: tem foi inserido especificando que o emissor acredita que há um problema e assim, com o uso desse predicador, a sentença ganha um valor maior de verdade do que se o autor utilizasse a primeira pessoa Eu vejo um problema aí... ou Temos um problema aí.... Pensando em um continuum, a forma verbal há, em menor grau, também promove o distanciamento do locutor. No exemplo 52, há também demonstra o menor comprometimento do autor do texto. A informação ganha um status de verdade absoluta ; mas percebe-se que encaminha, implicitamente, uma opinião do autor que foi exposta de forma mais impessoal, diferentemente do que aconteceria se a sentença tivesse sido estruturada destas formas:...pois já não tenho/temos mais dúvidas. Já no exemplo 51, apesar de também estar expressa a impessoalização, há um maior envolvimento do autor do texto, pois a forma tem-se(/têm-se) aparece no corpus revelando algo mais inerente ao interlocutor e, dessa forma, em alguns usos com temse(/têm-se) ( O nosso objeto de estudo específico da investigação é a ordem dos clíticos neste trabalho /... Temos a ordem dos clíticos ), pode-se evidenciar a inerência, a voz

90 70 do autor do texto, o que não é tão perceptível com as demais formas. Desse modo poderíamos pensar no seguinte esquema relacionado à impessoalização: ( ) ( + ) Tem Há tem-se(/têm-se) Gráfico 3: Grau de impessoalização expresso pelas formas tem, tem-se(/têm-se) e há A partir do continuum proposto, evidencia-se que tem é utilizado em contextos em que há um maior distanciamento do autor ou a expressão da existência dos fatos/dados/coisas, há revela um distanciamento menor que tem, revelando também a expressão da existência e tem-se(/têm-se), dentre as três formas, aparece em contextos que revelam um maior envolvimento do autor do texto e menor expressão do sentido puramente existencial de fatos/dados/coisas. Cabe, ainda, ressaltar que, como foi possível observar, tem-se(/têm-se) se alterna de forma mais natural com há, o mesmo ocorre com a forma tem, que não entra em equivalência funcional com tem-se(/têm-se). Assim, supõe-se que a forma em processo de gramaticalidade, na modalidade escrita culta, assume, de maneira considerável. um valor locativo existencial, em sentenças com a presença de um elemento contêiner, contexto em que, no corpus, não se registrou o uso de tem A correferência semântica entre tem-se(têm-se), tem e há As formas tem-se(/têm-se)/tem/há, numa abordagem preliminar, estavam sendo consideradas, à priori, formas variantes sujeitas a serem acionadas em contextos de discurso impessoal. De acordo com Labov (1978), um conjunto de formas com o mesmo significado referencial é denominado de variável dependente. As formas em estudo reportam à impessoalidade e entende-se que, grosso modo, há a possibilidade de uso das três formas em contextos em que se pretende produzir/configurar estados de

91 71 coisas estativos impessoais ou existencias. Naturalmente, questiona-se, nesta pesquisa, qual é o limite para cogitar a relativa alternância que se percebe entre essas três formas como um fenômeno variável relacionado à impessoalização do discurso? Será viável considerar que as três são equivalentes em todos os contextos em que são utilizadas? Será que a construção em processo de gramaticalidade, tem-se(/têm-se), assume valores semânticos não contemplados, ou pouco contemplados pela forma tem? Embora seja viável uma associação entre as três, pretende-se, nesta seção, propor uma análise da equivalência semântica dessas formas de predicação impessoal no corpus estudado e, então, traçar uma descrição dos contextos em que tais formas apareceram no corpus. Neste exame prévio de dados, nota-se que a forma tem é, como já dito, rechaçada na escrita e tende a ser encontrada na modalidade oral, com o sentido + existencial. Sendo assim, foram considerados além dos dados recolhidos de textos do domínio acadêmico e jornalístico, os dados recolhidos em Elocuções Formais do Projeto NURC/RJ, a fim se pensar na equivalência semântica entre as formas em análise. Cabe ressaltar, que, em 6 Elocuções formais, foram localizados 28 dados com a forma verbal há e 12 com tem. Bechara (2006) destaca que Dik (1989) propõe uma diferença, na língua inglesa, entre sentenças existenciais com contêiner e sentenças existenciais. Assim, a primeira, diferencia-se da segunda por conter um termo locativo. A seguir, os exemplos extraídos de Dik (1989, p.177): There are black swans in Africa 23 There are black swans 24. Assim, na primeira sentença, teríamos uma sentença existencial locativa, em virtude do constituinte in Africa e, na segunda, teríamos uma sentença existencial. Pinheiro (2007) aponta que, a partir da representação de esquemas imagéticos, as 23 Existem/Há/Tem/ cisnes negros na África. 24 Existem/Há/Tem/ cisnes negros.

92 72 sentenças com o ter existencial locativo podem ter uma relação com a noção de posse (a. Tem muitas praias no rio de Janeiro/ b. O Rio de Janeiro tem muitas praias). Buscando analisar as sentenças a e b, o autor considera que a relação entre elas é conceptual e não formal e, ainda, considera que: as relações de posse e existência, no caso locativa, estariam ambas codificadas no esquema imagético dentro-fora (cf. JOHNSON, 1987, p. 52), que apresenta um ente inserido em uma região de fronteiras delimitadas: assim ter é ser um espaço que contém algo, enquanto existir é ser um elemento contido dentro de um espaço. (PINHEIRO, 2007, p.43) A representação da noção de locatividade codificada no esquema imagético dentro fora, corresponde a um cenário de continência de uma entidade em um contêiner de fronteiras delimitadas espacialmente, com foco sobre o conteúdo (PINHEIRO, 2007, p. 46). Nesse sentido, observa-se, na análise do corpus desta dissertação, que tem-se(/têm-se) parece figurar, consideravelmente, em sentenças impessoais com contêiner, uma vez que, na escrita acadêmica, como demonstra o exemplo a seguir, esta construção tende a revelar a imparcialidade do discurso e não somente informar a existência de algo em algum lugar : (37) No quadro 1, a seguir, tem-se [a posição dos principais gramáticos de linha tradicional] sobre a justaposição. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. A construção tem-se(/têm-se), assim, tende a ser mais produtiva nas sentenças impessoais com contêiner, que aparece, prioritariamente, com valor locativo, ainda que expresse um local abstrato (Cf. Pinheiro 25, 2010), posicionamento no espaço textual como no exemplo acima e apresentação de algo, ou em sentenças em que há 25 O autor propõe a diferenciação entre locativo concreto, como em Só tem um shopping na minha cidade, e locativo abstrato: Tem uma falha na sua argumentação. Durante o levantamento de dados, pôde-se perceber que tem-se(/têm-se) em construções com locativo abstrato ou localização dentro do contexto do espaço textual, como demonstra o exemplo 40.

93 73 uma construção que especifica o campo de atuação da predicação (sentenças impessoais, com construção que especifica o campo de atuação do elemento predicante), como demonstram os exemplos abaixo: (38) Finalmente, quanto ao quadro temporal, tem-se a atualidade. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 4, 2008]. (39) Em resumo, tem-se o princípio uso reflexão uso (Brasil, p. 65), já definido por Travaglia (1996), de uma pluralidade de GT. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 6, 2009]. Os termos destacados em sublinhado quanto ao quadro temporal e Em resumo determinam o espaço de atuação previsto pela predicação e teríamos a existência que restringe o domínio da busca do referente do sintagma nominal (PINHEIRO, 2007, p. 42). Assim, no exemplo 38, tem-se foi empregado em uma construção sem contêiner, ou seja, sem a relação X, no caso a atualidade está em algum lugar Y virtual ou não, mas, a sentença com tem-se...tem-se a atualidade está inserida num campo de atuação específico, determinado por quanto ao quadro temporal. O mesmo pode ser observado no segundo exemplo, em que também não se percebe a relação X está em Y, mas sim uma relação da atuação da construção tem-se expressa pelo termo adjunto em resumo. Em relação aos dados com o predicador verbal há, além deste também aparecer em sentenças impessoais ou existenciais com contêiner, a grande ocorrência de uso é percebida em sentenças impessoais, que podem ou não evidenciar o envolvimento do autor. Abaixo os exemplos com tal predicador: (40) É preciso atentar para o fato de que, nesse corpus, não há exatamente norma jornalística, pois não é o jornalista que escreve em primeira mão, mas uma instância jornalística particular, produzida em primeira mão por leitores-escritores e normalmente revista por jornalistas. [Dissertação de mestrado, Letras, 2010].

94 74 (41) Na verdade, a historiografia oficial desses eventos, escrita por adeptos do darwinismo, começa a sofrer contestações, pois há [uma discrepância entre a versão preliminar de Darwin para o famoso capítulo IV de A Origem das Espécies e a versão final da publicação 1859, que estranhamente coincide muito bem com o manuscrito de Wallace. [Artigo científico, Revista História comparada, v 1 n2, 2007]. (42) De início, os trabalhos enquadrados e recuperados diziam a respeito tão somente da história até a II Guerra mas, aos poucos, a partir da década de 70, há [o aumento significativo da publicação de teses de novos pesquisadores que avançavam para os estudos do período pós-guerra]. [Artigo científico, Revista História comparada, v 1 n 2, 2007]. Em 40, nota-se a presença de um contêiner, representado por nesse corpus e, teríamos, assim, uma sentença impessoal locativa com há; em 41, sem a presença de um contêiner, tem-se uma sentença impessoal, em que é possível observar a apresentação de um posicionamento crítico do autor sobre a comparação entre a versão preliminar de Darwin para o famoso capítulo IV de A Origem das Espécies e a versão final da publicação 1859 e em 42, há um exemplo de sentença impessoal, sem o posicionamento do autor, já que o autor expõe que houve um aumento significativo da publicação de teses de novos pesquisadores que avançavam para os estudos do período pós-guerra. E, em alguns dados com sentenças impessoais com contêiner ou com construção especificadora, percebeu-se uma nuance de relação com sentenças existenciais, como em: (43) Para os sociolinguistas, entretanto, essa visão de língua como um sistema homogêneo era artificial e, evidentemente, não podia dar conta do fato de que em toda língua há [variação, que pode levar a mudanças], e ainda assim o sistema continua estruturado. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009].

95 75 No exemplo acima, há a presença do contêiner em toda língua e, o predicador há revela a existência de um fenômeno, mas, ainda assim, essa sentença foi classificada como impessoal, na medida em que não apresenta algo com caráter material e ainda favorecerem, de forma mais tênue, à impessoalização do discurso, já que há uma afirmação em que está embutida a consideração sobre algo: a variação, que, no ponto de vista, na afirmação do autor do texto, pode levar a mudanças. Já na análise dos dados que continham a forma tem, foi possível apreender que não se detecta uma tendência desta em estar inserida em construções impessoais com contêiner. Nos dados do nosso corpus, tem figurou em sentenças existenciais, como a exemplificada abaixo: (44) Se desperdiçar moedas não é hábito exclusivo nosso, tem [um que é sim parcelar]. [Reportagem de divulgação científica, Revista Superinteressante, ]. Desse modo, durante a testagem de equivalência entre os predicadores, percebeu-se que, na permuta entre as forma, a inserção de tem não soa tão naturalmente nos contextos em que tem-se(/têm-se) aparece em uma sentença impessoal locativa. Assim, não foi frequente no corpus a inserção de tem nestas sentenças, talvez, em virtude da ordem estrutural que foi percebida na grande maioria destas construções: SPrep com valor adverbial + predicador + SN. A título de ilustração, analisa-se o resultado da permuta com as formas tem e há com base no exemplo citado acima: (45) No quadro 1, a seguir, tem [a posição dos principais gramáticos de linha tradicional] sobre a justaposição. (46) No quadro 1, a seguir, há [a posição dos principais gramáticos de linha tradicional] sobre a justaposição

96 76 Em 45, com a permuta por tem, ao que parece, o sentido/o valor semântico da sentença original com tem-se sofre alguma alteração, ressaltando-se com a substituição muito mais uma noção implícita associada ao conceito de posse, que é reforçado também em virtude do contêiner (formado por um S Prep com valor adverbial locativo), do que uma noção de existência; e, assim, a sentença não soa como uma construção tão natural quanto a original. Tal situação se resolveria se, na inserção de tem, altera-se o contêiner de SPrep para SN: O quadro 1, que deixaria de ser um termo adjunto e passaria a atuar como sujeito. Mas, quando se testa a permuta da construção tem-se pelo predicador há, no exemplo 46, parece que o significado semântico percebido na sentença original, com valor de estar presente, não foi alterado. Já ao se propor a permuta pelos predicadores tem e há em uma sentença com a forma tem-se em uma construção impessoal, sem contêiner, tem-se o seguinte: (47) O tópico não estabelece nenhuma relação argumental com o verbo, ou seja, não está vinculado a qualquer função sintática na sentença-comentário. Tem-se, tão-somente, uma relação semântica: o locutor anuncia o tópico sobre o qual vai falar para depois fazer um comentário por meio de uma sentença completa. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 2, 2007 p. 84]. (48) O tópico não estabelece nenhuma relação argumental com o verbo, ou seja, não está vinculado a qualquer função sintática na sentença-comentário. Tem, tão-somente, uma relação semântica: o locutor anuncia o tópico sobre o qual vai falar para depois fazer um comentário por meio de uma sentença completa. (49) O tópico não estabelece nenhuma relação argumental com o verbo, ou seja, não está vinculado a qualquer função sintática na sentença-comentário. Há, tão-somente, uma relação semântica: o locutor anuncia o tópico sobre o qual vai falar para depois fazer um comentário por meio de uma sentença completa. [Artigo científico. Revista Diadorim, n 2, 2007].

97 77 Nesse contexto impessoal, a alternância entre as formas parece ser mais viável e a permuta pela forma tem soa mais natural e, mais uma vez, a substituição por há também não alterou a significação da sentença. Testou-se, ainda, a alternância em contextos em que figurou, primeiramente, a forma tem e a forma há. Com a primeira, a substituição por tem-se (Se desperdiçar moedas não é hábito exclusivo nosso, tem-se um que é sim parcelar) não soa como uma construção natural. Já na permuta por há (Se desperdiçar moedas não é hábito exclusivo nosso, há um que é sim parcelar), a troca não causa alteração semântica significativa. Já em contextos em que figura o há, a alternância com tem-se (Tem-se, ainda, uma classificação morfológica do adjetivo...) ou tem (Tem, ainda, uma classificação morfológica do adjetivo...) apresenta-se de uma forma natural, ou seja, há uma maior equivalência semântica entre as três formas nesse último contexto. Mas, cabe ressaltar que, ainda assim, na alternância das formas, de certa forma, altera-se, a nuance semântica da sentença original. No que tange ao valor semântico e à questão da relativa equivalência das três formas, é preciso também considerar o grau de distanciamento entre o autor e o texto, ou seja, o grau de impessoalidade que é revelado nas construções com tem-se(/têm-se)/tem/há. Observe os seguintes exemplos: (50) O presente trabalho constitui uma analise de cunho variacionista a respeito da colocação pronominal na escrita escolar considerando a variedade brasileira da língua portuguesa. Como objeto de estudo especifico desta investigação, tem-se [a ordem dos clíticos pronominais] em contextos de complexos verbais, em textos do gênero redação escolar. [Dissertação de mestrado, Letras, 2011]. (51) Este é o mais alto grau de gramaticalização, pois já não há [mais dúvidas de que o primeiro verbo é auxiliar e de que todas as informações lexicais encontram-se no verbo seguinte]. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 4, 2008]. (52) Parece um argumento inatacável. Mas tem [um problema aí: quem é o juiz para decidir o que é certo e o que é errado, o que ofende e o que não

98 78 ofende?] [Reportagem de divulgação científica, Revista Superinteressante, julho de 2011]. Além de ganhar força de uso em sentenças impessoais com elemento contêiner, ao utilizar a construção tem-se(/têm-se), na modalidade acadêmica, parece que o usuário da língua visa obter um maior distanciamento da opinião apresentada e, assim, evita-se o uso da primeira pessoa nos textos acadêmicos. Acredita-se que a construção temse(/têm-se) ganharia forças nesta modalidade específica em virtude de garantir que o cientista, por assim dizer, se ausente do texto. Destaca-se, ainda, que, no corpus, se percebeu o uso da forma há em construções, que se destacam por revelarem um valor existencial/apresentacional, como no exemplo abaixo: (53) Posteriormente, foram contratados dois jornalistas para realizarem uma síntese do material que saiu publicada no volume intitulado Brasil Nunca Mais conhecido como Projeto B. AQUINO, Há [25 cópias do Projeto A espalhadas pelo Brasil]. [Artigo científico, Revista História comparada, v 2 n ]. No exemplo acima, o uso de há, com valor existencial apresentacional não revela um distanciamento do autor do texto, na medida em que é utilizado tão somente para demonstrar a existência do número de cópias que do Projeto A que estão espalhadas pelo Brasil e, assim, há a apresentação do número de cópias do documento existentes e não uma opinião do autor do texto ou apresentação de algum posicionamento ou consideração. Com o predicador tem-se(/têm-se) em menor número também se observa esse valor mais existencial. Observe: (54) Após a apresentação dos corpora, dedica-se um capitulo à analise dos dados. Nele, encontram-se os frutos e os resultados de toda a reflexão

99 79 desenvolvida com a fundamentação teórica e metodológica oferecida nos capítulos iniciais. Têm-se, tanto uma análise quantitativa, quanto qualitativa, sendo esta a de maior interesse, portanto, a de maior importância nesse trabalho. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. Nesse exemplo, tem-se(/têm-se) foi também utilizado com um valor mais existencial, pois na obra analisada, o autor destaca que existe tanto uma análise qualitativa quanto quantitativa. Já com a forma tem, levando-se em conta os poucos dados que temos, é possível observar uma tendência ao uso mais impessoal desta forma, como em: (55) Tem também gás natural para abastecer o planeta todo por 14 anos. [Artigo de divulgação científica. Revista Superinteressante, ]. Na análise dos dados do corpus, foi possível perceber que tem-se(/têm-se) tende a figurar em contextos nos quais é revelado um menor distanciamento do autor e em construções existenciais com contêiner e, nos contextos em que há uma sentença impessoal, que não expressa envolvimento do emissor ou uma sentença que revela a apresentação de algo, houve a preferência pelo uso da forma verbal há. Ou seja, parece que a construção tem-se(/têm-se) adquire espaço na escrita acadêmica principalmente em contextos em que há a busca por apresentar a opinião do autor de forma mais distanciada, na intenção de que os fatos expressos sejam apresentados por si mesmos. Assim, nesta pesquisa, propuseram-se quatro tipos de sentenças, que serão sintetizadas no quadro abaixo, que também demonstrará as características de cada tipo e o nível de impessoalidade que geralmente representam:

100 80 Configuração da sentença (1) Sentenças impessoais ou existenciais com contêiner Características Presença de um elemento contêiner, geralmente, anteposto ao predicador. A forma tem, não costuma figurar nesses contextos. (Cf. ex. 31) (2) Sentenças impessoais ou existenciais com construção que especifica o campo de atuação do elemento predicante Presença de um elemento que especifica a atuação do predicador, geralmente anteposto a este. (Cf. ex. 32) (3) Sentenças impessoais ou existenciais que podem ou não expressar envolvimento do autor Sem presença de um elemento contêiner ou especificador. (Cf. ex. 35) (4) Sentenças existenciais (apresentacionais) que não expressam em nenhuma circunstância o envolvimento do autor Sem presença de um elemento contêiner ou especificador. O predicador é utilizado tão somente para expressar a existência de algo. (Cf. ex. 46) Quadro 2: Tipos de sentenças em que ocorrem as estruturas tem(/têm-se) e há no corpus de análise No quadro acima, as sentenças foram apresentadas na ordem em que foram sendo exemplificadas no texto. Em (1), as sentenças impessoais ou existencias com contêiner, em (2) as sentenças impessoais ou existencias com construção especificadora e em 3 sentenças impessoais ou existenciais sem contêiner ou construção especificadora. Nestas, a impessoalização revela-se no distanciamento do autor do texto na enunciação de conclusões ou posicionamentos ou na apresentação de teorias, conceitos. E, nas sentenças descritas em (4), existenciais/apresentacionais, não há a possibilidade de haver o posicionamento do autor, já que revelam a existência de algo, em um contexto específico, que possui, geralmente, o traço + material ou + animado. 5.2 A alternância de tem-se(/têm-se) e há no discurso acadêmico: análise e interpretação de usos e percepções Distribuição geral da amostra de dados do comportamento observável em textos acadêmicos

101 81 Como, para o estudo da variação, se consideraram somente os dados levantados em textos do domínio acadêmico, obteve-se, conforme exposto a seguir, a seguinte distribuição percentual das formas verbais em análise: Gráfico 4: Construções para impessoalização ou expressão de existência no discurso acadêmico (Distribuição percentual das 527 ocorrências). A partir da análise do gráfico, nota-se que construções impessoais/existenciais no Português Brasileiro escrito são produtivamente estruturadas com o verbo haver. De acordo com Labov (2003), ao analisarmos os números absolutos, pode-se caracterizar a alternância tem-se(/têm-se)~há, especificamente na modalidade escrita acadêmica, como uma regra variável, já que o percentual de uso do verbo haver ficou entre 5 e 95%. Cabe ressaltar, ainda, que ao pensarmos no cômputo geral de dados levantados para a pesquisa ora apresentada, que reúne todas as ocorrências obtidas (inclusive as 527 submetidas à análise variacionista e as distribuídas na tabela 2 pelas duas variantes estudadas: ter, incluindo os dados com tem-se(/têm-se) e haver, teríamos a seguinte distribuição percentual das formas passíveis de emprego impessoal: Há (696 dos 796 dados 87.5%); Tem-se(/Têm-se) (90 dos 796 dados 11.2%) e Tem (10 dos 796 dados 1.3%). Diante desse quadro, percebe-se que, na modalidade escrita extensões de uso da forma tem com valor impessoal, cujo percentual de ocorrência é de 1,3%, são

102 82 raramente encontradas. E reforça-se a suposição de que, em razão da raridade desta, tem-se(/têm-se) afigura-se como a alternativa de impessoalização que vem tomando espaço de há. A partir da verificação dessa distribuição de formas, investiu-se na investigação de possíveis condicionamentos à regra variável detectada no discurso acadêmico. Para tanto, estipularam-se variáveis independentes de natureza linguística e extralinguística, bem como grupos de fatores para controle de algumas características dos dados encontrados Os grupos de fatores examinados: descrição e hipóteses A seguir, expõe-se um quadro que sintetiza todos os grupos de fatores que foram controlados nesta dissertação. Alguns fatores foram concebidos no intuito de se averiguarem funcionalmente certas particularidades das predicações coletadas na modalidade escrita acadêmica, enquanto outros foram postulados com base em hipóteses de condicionamento da alternância tem-se/têm-se e há. Supõe-se que tais grupos poderão colaborar, a depender dos resultados estatísticos obtidos mediante o Programa GoldVarb X, para que se detectem influências relativas ao emprego da construção tem-se(/têm-se) em lugar de há e até certas restrições a essa variação. Grupos de fatores 1. Fonte: gênero acadêmico e área 2. Estrutura da predicação Dissertações (Programa de Pós Graduação em Letras Vernáculas. Área: L. Portuguesa, UFRJ), Dissertações ( Programa de Engenharia Elétrica, UFRJ), Dissertações (Programa de Pós- graduação em História Social, UFRJ) Revista Diadorim, Revista História comparada ou Revista Matéria. Tem-se(/têm-se) /Há verbo suporte + SN incorporado Tem-se(/têm-se) /Há verbo predicador + SN objeto Tem-se(/têm-se) /Há verbo predicador + SN objeto + (como/por) X constituinte predicativo do objeto

103 83 3. Presença e natureza de elemento antecedente proclisador Período sem qualquer elemento atrator Presença de vocábulo atrator no período Presença de vocábulo atrator imediatamente antes da variante 4. Posição das variantes no período 5. Tipo de sentença 6. Localização do contêiner no período 7. Localização da construção especificadora no período 8. Grau de envolvimento do autor na expressão do enunciado 9. Equivalência entre as formas tem-se(/têm-se) e há 10. Estruturação do elemento nominal (SN) 11. Natureza semântica do SN selecionado Início absoluto de período Início de período após um elemento contêiner ou construção especificadora Outra posição no período Sentenças impessoais ou existenciais sem presença de contêiner. Sentenças impessoais ou existenciais com presença de contêiner. Sentenças impessoais ou existenciais com construção que especifica o campo de atuação do predicante. Sentenças existenciais/apresentacionais, que denotam a existência de algo Anterior ao predicador Posterior ao predicador Sentença sem contêiner Anterior ao predicador Posterior ao predicador Sentença sem construção especificadora Presença implícita de opinião/ posicionamento do autor do texto Ausência da opinião do autor do texto. Apresentação de um fato/elemento/dado ou algo, em que não há a expressão da opinião do autor. Maior relação de equivalência semântica Menor relação de equivalência semântica SN simples (composto por (det.) e núcleo não modificado), não extenso SN simples (composto por (det.), núcleo + SAdj ou SP modificador de curta extensão - até 4 vocábulos), não extenso. SN simples (composto por (det.), núcleo + SAdj ou SP modificador de maior extensão com mais de 4 vocábulos ), extenso SN complexo (composto por (det.), núcleo + Or. Adjetiva desenvolvida com pronome relativo), extenso SN complexo (composto por (det.), núcleo + Or. Adjetiva reduzida de gerùndio ou infinitivo), extenso Animado Abstrato Material Evento (situação, estado, posição, processo, ação, evento, acontecimento, causa, consequência ou resultado) Quadro 3: Os 11 grupos de fatores em exame nesta pesquisa sociofuncionalista Os grupos de fatores 2. Estrutura da predicação, 6. Localização do contêiner no período e 7. Localização da construção especificadora no período foram estipulados principalmente para que se pudesse controlar as condições de uso impessoal de tem-

104 84 se(têm-se). Os demais são, em alguma medida, considerados influências que podem estar atuando no fenômeno de alternância em pauta nesta dissertação Fonte: gênero acadêmico e área O ponto de partida para delinear o primeiro grupo de fatores foi à estimativa de que se pudesse avaliar a influência, na alternância tem(/têm-se) e há, da área em que foi produzido o discurso acadêmico (Letras, História e Engenharia), do gênero discursivo (dissertação ou artigo científico). Especula-se que, em dissertações e artigos da área de Letras, a utilização da variante há seja produtiva; por se tratar de textos escritos por profissionais que se dedicam aos estudos linguísticos, acredita-se que, nessa área, possa haver uma maior atenção/preocupação quanto à utilização da língua e, consequentemente, com a impessoalização do discurso. Quanto ao gênero, espera-se que se possa detectar alguma diferença nos materiais considerados em razão de o fato de a dissertação contar com, no mínimo, dois revisores (autor e orientador) poder implicar maior produtividade de forma há. Com a composição com que foi delineado o grupo de fatores, esperava-se, ainda, controlar a distribuição das formas alternantes no discurso acadêmico por fonte, área e gênero articulados entre si Estrutura da predicação A configuração do segundo grupo de fatores, Estrutura da predicação, decorreu do fato de, na etapa de codificação dos dados, ter sido possível detectar, entre os dados, algumas sentenças com verbo suporte, como demonstram os exemplos:

105 85 (56) Em linhas gerais, tem-se o intuito de verificar a distribuição estatística das formas verbais em alternância pelos contextos linguísticos e extralinguísticos estipulados para o exame do fenômeno variável, identificar suas motivações funcionais, estudar a avaliação das formas simples e complexas e a influência desta sobre a seleção e o emprego dessas formas na composição de textos, averiguar a configuração e a funcionalidade de perífrases verbo-nominais na construção discursiva. [Dissertação de mestrado, Letras, 2011]. (57) Para tal, há necessidade do desenvolvimento de tecnologias, equipamentos, produtos e processos relacionados ao uso de gás natural no país, destacando-se I desenvolvimento de tecnologias e processos para auxiliar a agregação de valor a derivados II novos processos de conversão para líquidos III transporte, distribuição e armazenamento IV metrologia do gás natural V identificação de gargalos tecnológicos para o desenvolvimento do estado da arte VI tendências das tecnologias para energia VII mercado nacional de gás natural e VIII aumento de eficiência na aplicação em equipamentos de uso final. [Artigo científico. Revista Matéria, v. 15, n. 3, 2010]. Em 56 e 57, observa-se que é possível ler a estrutura destacada em negrito e sublinhado como uma perífrase verbo-nominal que serve de predicador complexo à predicação e para a qual, inclusive, se pode prever uma forma predicante simples correspondente, cognata ao nome incorporado ou não: tenciona-se e necessita-se. A esse predicador complexo se ligaria o sintagma preposicional posposto ao nome (normalmente, não determinado e não modificado), SP que, por sua vez, funcionaria como um termo complemento da perífrase. Entre os casos com esse tipo de configuração, que, geralmente, se caracterizam, no corpus em análise, por mostrarem maior relação de integração entre a forma verbal em questão (tem-se/têm-se ou há) e um elemento nominal que o acompanha, foram observadas mais ocorrências de há do que de tem-se/têm-se.

106 86 A maioria dos dados do corpus, porém, é composta por tem-se ou há funcionando como predicadores de um elemento SN objeto, destacado entre colchetes nos exemplos abaixo: (58) Na Figura 2.9, têm-se [os três diferentes tipos de circuitos de pixel utilizado em sensor CMOS]. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2009]. (59) Toda e qualquer categoria conceptual, por conseguinte, é estabelecida com base em condições necessárias e suficientes compartilhadas por todos os seus membros. Desse modo, as categorias apresentam fronteiras bem nítidas, e todas as entidades apresentam o mesmo estatuto, ou seja, não há [melhores exemplares]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2010]. Registrou-se, ainda, um terceiro tipo de estruturação no corpus e que, por sua vez, parece restringir-se a tem-se(/têm-se): Predicador (tem-se(/têm-se) ou há) + SN objeto + (como/por) X constituinte predicativo/qualificativo do objeto: (60) Seguindo esta tendência de estudos de máquinas de indução alternativas para aplicações em geração eólica que não utilizem escovas, tem-se [a MICDAS Máquina de Indução em Cascata Duplamente Alimentada Sem escovas] como tema deste trabalho. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2009]. (61) Em 1, por exemplo, há [a valorização e ênfase do constituinte [os médicos, modificador do SN complexo, e obscurecimento da importância do núcleo o laudo], como consequência do recurso formal do CV. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 4, 2008].

107 87 Como só se encontrou, no corpus desta pesquisa, um dado, exposto em 63, com essa estruturação envolvendo a forma há 26, tal fato nos leva a indagar: se esse seria um contexto para o qual se especializou a forma tem-se(/têm-se) com valor impessoal, se esta teria ganhado o espaço de haver por ser esse um contexto de restrição à forma há Uma vez detectadas tais estruturas no momento da codificação, decidiu-se incluir esse grupo de fatores no intuito de controlar sua influência na distribuição das ocorrências de tem-se(têm-se) e há impessoais na análise geral dos dados e de, em análises posteriores, poder retirar das rodadas multivariadas sentenças cuja estruturação favoreça a ocorrência categórica de uma ou outra forma Presença e natureza de elemento antecedente proclisador Teve-se a impressão, durante o levantamento de dados, de que, na presença de palavra que pudesse funcionar como atrator do clítico se, a saber, os vocábulos qu- e advérbios (neste caso, principalmente diante da partícula de negação não ), havia tendência à utilização da forma verbal há. A possibilidade de confirmar essa hipótese colabora para a defesa da hipótese de cristalização da construção tem-se(/têm-se), envolvida em sua gramaticalidade. Supõe-se que, quando se utiliza a forma há em tais condições, evita-se o uso de tem-se(/têm-se) em contextos nos quais a ênclise, de acordo com a tradição gramatical, não é prevista. Cabe, porém, destacar que vocábulos atratores não influenciam na utilização de há como ocorre com tem-se(/têm-se), em que, de acordo com os padrões gramaticais, caberia o uso proclítico de se. O que se nota é que em sentenças com atratores, principalmente antes da variante, observa-se a preferência pelo uso de há. Vale lembrar que o domínio discursivo focalizado é o acadêmico e mesmo quando se utiliza a forma tem-se(/têm-se) na presença de atrator, também ganha força a hipótese de cristalização da construção: a construção mantém-se 26 À semelhança do que se percebe na estrutura descrita no Dicionário Escolar da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras que prevê, no verbete haver, haver por bem: considerar certo e oportuno; concordar, assentir: Os credores houveram por bem perdoar-lhes as dívidas. p Dicionário escolar da língua portuguesa. Academia Brasileira de Letras. 2.ed. SP: Companhia Editora Nacional, 2008.

108 88 inalterada até em contextos promotores de próclise, ordem preferida entre os brasileiros. De acordo com Perini (2011): todas as gramáticas mencionam de que certos itens atraem o clítico, de maneira que quando esses itens iniciam a oração somente a próclise é possível; no entanto, não há muito consenso sobre quais são exatamente esses itens. (PERINI, 2011, p. 231) Nesta pesquisa, consideraram-se os seguintes casos destacados por Perini (2011): (a) ausência vocábulo atrator no período e (b) presença de vocábulo atrator imediatamente antes da variante. Quanto ao que se considera atrator nesta investigação, o inventário que se pode fazer, com base no corpus, é o seguinte: os vocábulos não, nunca, só, até, mesmo, também, tudo, nada, alguém, os pronomes interrogativos (como, por exemplo, quem, que, por que?), o complementizador que, preposições (a, para e de) e a conjunção se ou, o complementizador que e os pronomes interrogativos presentes no período em que figura as variantes em estudo. Observe os exemplos: (62) Explica-se assim a rejeição dos gramáticos a esse uso e tem-se [mais uma evidência da mudança da norma no Brasil em direção à norma lusitana na virada do século 19, apontada por Pagotto 1998]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. (63) Dessa forma, distingue-se a hipotaxe ou subordinação da visão tradicional, da hipotaxe e da subordinação dentro da visão funcionalista, segundo a qual uma cláusula subordinada pressupõe encaixamento sintático em outra, enquanto que na articulação hipotática não há [encaixamento ou dependência], mas interdependência sintática entre as cláusulas. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. (64) Com aplicação de torção, aparentemente as tensões são mais distribuídas ao longo dos filetes apicais do mini-implante de forma cilíndrica, enquanto que no de forma cônica há [grande concentração] próxima ao ápice. [Artigo científico. Revista Matéria, v. 15, n. 3, 2010].

109 89 (65) O ato de comunicação é visto, pelo autor, como um dispositivo no qual se encontra o sujeito falante comunicante numa relação com um parceiro o interpretante. Ainda, como componente desse dispositivo, tem-se [a língua, a qual constitui o material verbal estruturado em categorias linguísticas que tem, ao mesmo tempo, e de maneira consubstancial, uma forma e um sentido]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. Em 62, não há a presença de qualquer vocábulo atrator; em 63, há a presença do vocábulo que no período em que ocorre a variante; já em 64 há a presença do advérbio não, imediatamente antes do elemento predicador; e, em 65, há a presença do vocábulo atrator ainda no período. Considerou-se, neste estudo, a questão da pausa por vírgula, casos em que os compêndios gramaticais recomendam a posposição do clítico em relação ao verbo e, assim, casos como o exemplificado em 65, apesar de conterem elemento atrator, em virtude da pausa, foram classificados como sem atratores Posição das variantes no período Acerca da posição de tem-se(têm-se) e há no período, quarto fator a ser controlado, pretende-se verificar se a localização de tais formas (i) em início absoluto, (ii) em início, mas após um elemento contêiner ou que especifique circunstância da predicação, ou (iii) em outra posição no período (mais mediana ou final) será selecionado como um fator influente na alternância em estudo. Cogita-se, em posição inicial, se a forma verbal há, por ser a variante preferida, e, por assim dizer, considerada padrão, é a mais utilizada, já que a posição inicial geralmente está associada à localização de termos aos quais se tende a conferir destaque. Vejam-se exemplos das três possibilidades consideradas nos enunciados: 27 Ressalta-se que os 6 dados com se tem foram utilizados somente em rodadas para controle de distribuição percentual das variantes e não foram considerados na análise multivariada possibilitada no encaminhamento variacionista.

110 90 (66) Há, ainda, em Black Spring, uma lista dos cem livros que, segundo o próprio Miller, teriam sido suas mais significativas referências. [Dissertação de mestrado, História, 2009]. (67) No terceiro capítulo, tem-se a análise dos dados que consiste na interpretação dos resultados concernentes aos grupos de fatores elaborados e submetidos ao programa matemático Varbrul Pintzuk 1998, no intuito de observar quais estratégias de indeterminação são implementadas em cada período de tempo investigado. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. (68) No entanto, é preciso considerar que, no que diz respeito especificamente à questão das relações da Igreja Católica com as outras religiões, no período pós-concílio Vaticano II, há poucas análises, sobretudo se comparado com o volume de produção dos trabalhos que examinam as relações da Igreja com Estado. [Dissertação de mestrado, História, 2011] (69) Verifica-se que, embora as adições dos inibidores tenham aumentado a resistência à compressão aos 28 dias, há [uma tendência de redução do módulo de elasticidade com os inibidores]. Matéria, v. 15, n. 3, 2010]. [Artigo científico, Revista Pode-se observar que, em 66, a variante aparece no início absoluto do período; já em 67, temos a inserção de tem-se após o adjunto que inicia a sentença e que funciona, no enunciado, como elemento contêiner; em 78 e 69, as formas aparecem em outras posições no período (em 69, o predicador aparece em posição mais mediana e, em 70, a construção tem-se aparece em posição mais final de período) Tipo de sentença Com esse grupo de fatores, pretendeu-se averiguar a relação entre as condições estruturais de impessoalização envolvidas nas sentenças do corpus e os registros de temse(/têm-se) e há obtidos, uma vez que, entre os dados, se encontram construções

111 91 existenciais. Parte-se da suposição que a construção tem-se(/têm-se) tende a ser inserida, prioritariamente, em sentenças com contêiner e em sentenças com construção que especifique circunstância do que se predica. Vale lembrar que, no caso de construções existenciais com há, a predicação não prevê referente para a posição de sujeito; já, no caso de construções com tem-se(/têm-se), mesmo naquelas em que se focaliza semanticamente a existência de um fato, elemento, dado, está previsto um referentesujeito/pessoa, embora este não possa ser recuperado/reconhecido, se encontre impessoalizado. A seguir, exemplos dos tipos de sentenças que serão avaliadas nesta pesquisa: (70) Em 35 tiras, há [referência verbal ao ato sexual e ou à atração sexual] e, em cinco delas, a palavra sexo aparece. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 6, 2009]. (71) Na Figura 2.9, têm-se [os três diferentes tipos de circuitos de pixel utilizado em sensor CMOS]. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2009] (72) Não explicando a origem das espécies, tem-se [mais uma forte razão para que a seleção natural não possa ser o mecanismo geral da evolução, mas sim e quando muito, um mecanismo do equilíbrio das populações]. [Artigo científico, Revista História comparada, v 1 n2, 2007]. (73) Durante o processo de sinterização, há [um encolhimento do material que não pode ser evitado]. [Artigo Científico, Revista Matéria, v. 16, n. 1, 2011]. (74) Segundo muitos autores GRICE, 2006 FÓNAGY, 1993 MORAES, 2006 HIRST e DI CRISTO, 1998 SOSA, 1999, essa força ilocutória caracteriza-se por apresentar uma subida no acento nuclear da frase fonológica, que desempenha um papel fundamental na distinção entre questão total e assertiva se não há [uma sintaxe interrogativa ou uma partícula de questão]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2010]

112 92 (75) Há [duas vertentes nessa criação cognitiva], segundo Koch 2002 as representações, que são consideradas pela autora como conhecimentos estáveis na memória, acompanhados de interpretações a eles associadas acarretamentos, entre outros e formas de processamento da informação, que são processos ligados à compreensão e à ação (processos inferenciais). [Dissertação de mestrado, Letras, 2010] (76) Assim, quando há [uma proposição], ocorre simultaneamente o acionamento das estruturas mínimas cognitivas, os nós, que interagem com estruturas maiores até alcançar esquemas que se ligam a um sistema conceptual de caráter ontológico, provocando a compreensão do contexto em que tal discurso está inserido. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] (77) Há [uma pequena história popular de domínio público que ilustra a desobediência ao princípio de não contradição, em que as ações não condizem com as expectativas do leitor]. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 6, 2009]. Em 70 e 71, foram expostas sentenças que contêm elemento contêiner, destacados em sublinhado: na primeira, há a presença do posicionamento do autor do texto (avaliação em relação às referências que foram feitas nas tiras analisadas) e um exemplo de sentença que reportaria à impessoalidade atenuação das marcas do enunciador do discurso, enquanto em 71, há um exemplo de sentença com contêiner, com um caráter mais existencial. Em 72 e 73, foram exemplificadas sentenças com construção especificadora, em que os elementos especificadores estão destacados em sublinhado. Nestas duas sentenças, apreende-se o posicionamento do autor, em 74 a conclusão do autor, que revela existir uma forte razão para que a seleção natural não possa ser o mecanismo geral da evolução, mas sim e quando muito, um mecanismo do equilíbrio das populações e, em 73, percepção do encolhimento do material que não pode ser evitado. Já em 75 e 76, há exemplos de sentenças impessoais, sem a presença de contêiner ou construção especificadora, em que 75 apresenta o posicionamento crítico do autor do texto e 76 há a apresentação de um fato. Por fim, em 77, exemplifica-

113 93 se uma sentença existencial/apresentacional, na qual se percebe tão somente a existência de algo, no caso, uma pequena história popular. Durante a etapa de codificação dos dados que compõem o corpus desta pesquisa, averiguou-se, que, em um número significativo de uso, as sentenças com contêiner ou construção especificadora possuíam um caráter mais impessoal, revelando, de forma distante (evitando-se as marcas de primeira pessoa), o posicionamento do autor do texto e, na análise variacionista, espera-se averiguar se há especificação de uso de temse(/têm-se) nestas sentenças. Já as sentenças como a apresentada em 78, revelam um uso mais significativo da forma há, o que também corroboraria tal hipótese Localização do elemento contêiner e da construção especificadora no período No intuito de poder controlar a localização do elemento contêiner ou construção especificadora envolvida em alguns dos fatores deste grupo poderia surtir algum efeito sobre as formas em análise, tratou-se de controlar, a posição de tais elementos. O corpus revela que, na maioria dos casos o elemento contêiner ou a construção especificadora, geralmente iniciam o período, ou seja, são inseridas anteriormente às variantes, como nos exemplos abaixo: (78) Em 16, tem-se [uma oração coordenada reduzida de gerúndio que poderia ser confundida com uma oração modal], pois se pode pensar em fazer a pergunta De que modo algumas juntas gerais de distritos recusaramse a dividir os respectivos contingentes [Artigo científico, Revista Diadorim, n 6, 2009]. (79) Tem-se no Brasil [muito bem estudado e aplicado o sistema HVDC convencional], mas ainda não tem-se aplicações em grande escala do VSC HVDC, ou transmissão em alta tensão com corrente contínua utilizando

114 94 conversor fonte de tensão. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2011]. (80) Do ponto de vista da interpretação, há [um sujeito interpretante TUi que interpreta a enunciação produzida]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. (81) Historicamente, há [três posicionamentos] em relação à língua como representação espelho do mundo e do pensamento como estrutura, instrumento ferramenta de comunicação como forma lugar de ação e interação. [Dissertação de mestrado, Letras, 2011]. Em 78, temos o elemento contêiner, sublinhado, em início de período, posição que, segundo demonstra o corpus, parece favorecer a presença de tem-se(/têm-se). Em 79 28, o contêiner está posposto à construção, posição que não se demonstrou muito produtiva no corpus. e, espera-se investigar se, nesta posição, há motivação para o aparecimento de uma das formas. E sobre a presença de construção especificadora da atuação, também se busca investigar se a posição, anterior, demonstrada no exemplo 80 ou posterior, como no exemplo 81, interfere no uso de uma das variantes Grau de envolvimento do autor na expressão do enunciado Quanto ao oitavo grupo de fatores estabelecido, grau de envolvimento do autor na expressão do enunciado, estima-se verificar se as formas alternantes em estudo sinalizariam alguma diferença nesse sentido. Supõe-se que construções com temse(/têm-se) representariam uma maior preocupação com o distanciamento do autor do que é dito, predicado. Segundo Huston (1994) textos científicos devem demonstrar objetividade e neutralidade, ou seja, os traços de subjetividade do texto devem ser 28 Este uso de contêiner, revelando localização espacial geográfica não foi muito produtivo no corpus; na grande maioria dos casos, há, em construções com contêiner, a localização de algo no texto (dentro do domínio discursivo).

115 95 apagados e, desse modo, tem-se(/têm-se) e há favoreceriam a manutenção da neutralidade do texto. Apesar de tem-se(/têm-se) também ser utilizada em construções mais existenciais, em que não há a expressão da opinião do autor, parece que a mesma é mais utilizada em contextos nos quais almeja-se a neutralidade e não a evidenciação da existência de algo. Para analisar o grau de envolvimento do autor, se fará uma análise semântica das construções. Para tanto, previram-se 3 fatores, quais sejam: (i) averiguação da estruturação do período e do tipo de sentença, a fim de avaliar se houve ou não posicionamento crítico, inferência de algum ponto de vista do autor do texto e busca pela neutralidade, já que as sentença com elemento contêiner ou construção especificadora influenciam na neutralidade do discursos, enquanto as existenciais apenas revelam a existência de algo em algum contexto. (ii) avaliação da possibilidade de utilização de um dos seguintes verbos na primeira pessoa, ainda que haja a necessidade de adaptações na sentença, no lugar de tem-se(/têm-se) ou há: avaliar, considerar, concluir, intuir (eu/nós avalio/avaliamos; eu/nós considero/consideramos; eu/nós concluo/concluímos; eu intuito/ nós intuímos) e (iii) natureza do argumento selecionado pela formas, já que, normalmente, os traços material e animado revelam que a sentença é existencial/apresentacional, não havendo a possibilidade de haver envolvimento do autor. Observe os seguintes exemplos: (82) Melo (1970, p. 237) critica os estudiosos que passaram a desconsiderar a correlação devido à NGB, afirmando que, apesar de ele manter sua posição, há [aqueles que aceitam a doutrina careada pela NGB]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] (83) A incipiente indústria de cosméticos procurou atender o seu público feminino para o bom proveito da água, do ar livre e dos raios solares. Ao mesmo tempo, tem-se [um imperativo mercadológico que acaba submetendo mulheres a novos padrões de beleza]. [Dissertação de mestrado, História, 2009].

116 96 Em 82, sentença existencial, não há a possibilidade de evidenciação da opinião do autor e o argumento interno possui o traço + animado. Neste exemplo, não a possibilidade de permuta pelas formas verbais citadas (*Concluo/Concluímos Considero/Consideramos (que) aqueles...). No exemplo 83, sentença impessoal, com construção especificadora e argumento interno com o traço + abstrato, o autor expõe, com um grau de distanciamento, a sua opinião. Assim, busca-se deixar o texto com menos marcas subjetivas e há a possibilidade da inserção das formas verbais listadas acima (Considero/Consideramos, (porém),/concluo/concluímos, (porém), (que) um imperativo mercadológico que acaba submetendo mulheres a novos padrões de beleza) Grau de equivalência semântica entre as formas tem-se/têm-se e há O corpus conta com predicações que se baseiam em estruturações diferentes: há sentenças em que as formas variantes podem ter leitura de verbo suporte e outras em que não há essa possibilidade, ao lado de construções em que as formas variantes podem ter leitura de verbos transitivos-predicativos e outras em que não há essa possibilidade; há também construções existenciais entre as tomadas aqui por impessoais. Além disso, ao testar a possibilidade de ocorrência de tem, há e temse(/têm-se) dado a dado, detectaram-se casos em que a permuta de uma forma por outra implica alguma nuance de sentido distinta ao lado de outros em que tal permuta não afeta o sentido. Nos seguintes exemplos: (84) Na visão dos autores, tem-se [o contexto de gerúndio antecedido da preposição em] como altamente favorecedor da posição pré-verbal. [Dissertação de mestrado, Letras, 2010]. (84a) Na visão dos autores, há [o contexto de gerúndio antecedido da preposição em] como altamente favorecedor da posição pré-verbal.

117 97 (85) Complementando o que afirma Marmaridou 2000 (apud Rocha 2006, p.2), percebemos que há [situações em que, para fazermos uma relação dêitica, precisaremos acionar o MCI], mas há casos em que traços linguísticos são suficientes para estabelecer essa relação. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] (85a) Complementando o que afirma Marmaridou 2000 (apud Rocha 2006, p. 2), percebemos que tem-se [situações em que, para fazermos uma relação dêitica, precisaremos acionar o MCI], mas há casos em que traços linguísticos são suficientes para estabelecer essa relação. (86) Para os sociolinguistas, entretanto, essa visão de língua como um sistema homogêneo era artificial e, evidentemente, não podia dar conta do fato de que em toda língua há [variação, que pode levar a mudanças], e ainda assim o sistema continua estruturado. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. (86 a) Para os sociolinguistas, entretanto, essa visão de língua como um sistema homogêneo era artificial e, evidentemente, não podia dar conta do fato de que em toda língua tem-se [variação, que pode levar a mudanças], e ainda assim o sistema continua estruturado. (87) Essa projeção é essencial para o próprio encadeamento textual. Nesse anúncio, na medida em que o leitor vislumbra aquilo que se fala, tem-se [as condições para se traçar o recorte de significação daquilo que se ouve]. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 4, 2008]. (87a) Essa projeção é essencial para o próprio encadeamento textual. Nesse anúncio, na medida em que o leitor vislumbra aquilo que se fala, há [as condições para se traçar o recorte de significação daquilo que se ouve]. Nas sentenças 84 e 85, respectivamente originalmente com tem-se e há, a permuta em 84a (por há) e em 85 a (por tem-se) ocasionou leve alteração na nuance de sentido da sentença original, causando, a troca, certo estranhamento. Em 84, infere-se

118 98 que autores, elemento pertencente à construção especificadora, com o traço + humano, desencadearia o uso de tem-se(/têm-se), construção com uma forma verbal que pode ser associada à noção de posse. Em 85, acredita-se que, em virtude de a sentença ser existencial e conter a conjunção que, o uso de tem-se deixa a sentença com menor grau de naturalidade. Na análise, verificou-se que o comprometimento do sentido original da sentença ocasionado pela permuta entre os predicadores ocorre devido a especificidades das sentenças. No exemplo 86 (originalmente com há) e no exemplo 87 (originalmente com tem-se), a permuta entre os predicadores não alterou/comprometeu o sentido original da sentença, sendo que as duas sentenças contêm elementos contêineres. Diante do quadro estrutural e semântico das sentenças incluídas no corpus, considerou-se importante investigar em que medida a possibilidade de matiz de sentido distinto entre as formas em análise pode interferir no emprego delas. Para tanto, estabeleceram-se os seguintes fatores: (i) possibilidade (ou não) de permuta entre as formas, como proposto acima (a alternância entre os predicadores causa estranhamento? Compromete o sentido da sentença original?) 29 e (ii) averiguação das especificações/peculiaridades de cada sentença (natureza e especificações do argumento, presença de atrator). Tenciona-se investigar se em algum tipo de sentença ( impessoais ou existenciais, sem presença de contêiner, impessoais ou existenciais com presença de contêiner, impessoais ou existenciais com construção que especifica o campo de atuação do predicante ou existenciais, que denotam a existência de um fato/elemento/dado ) haverá uma maior equivalência semântica entre as formas Estruturação do elemento nominal Sobre este grupo de fatores, estruturação do elemento nominal, pretende-se verificar se a extensão associada ao tipo de configuração do sintagma influenciará na escolha de uma das variantes. Especula-se que a estrutura nova e mais complexa, tem- 29 Em geral, na análise dado a dado do corpus, a permuta entre as formas não causa nenhum prejuízo à interpretação do sentido da sentença.

119 99 se(/têm-se), seria mais utilizada com SNs mais extensos e complexos, enquanto, com SNs mais simples e menos extensos, a estrutura padrão seria a mais utilizada, já que intui-se que a mesma seja mais facilmente acessada pelos usuários da língua. A seguir, serão expostos exemplos dos tipos de SNs detectados que motivaram as classificações propostas para sua descrição nesta dissertação: (88) Quando locutor e enunciador não são idênticos, há [polifonia]. [Dissertação de mestrado, Letras 2009]. (89) Dentro da Linguística Cognitiva, não há [o enfoque somente no discurso], uma vez que o significado não tem relação com o pareamento entre linguagem e mundo, ou seja, as significações linguísticas estão ligadas às experiências a partir de nossa movimentação no mundo, da interação com o que nos rodeia. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009]. (90) A partir desse período, tem-se [a infiltração da forma você e uma homogeneidade na distribuição das diferentes estratégias com percentuais de 36 para o uso de se, 27 para nós, 17 para a gente, 14 para eles e para você]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] (91) No terceiro capítulo, tem-se [a análise dos dados que consiste na interpretação dos resultados concernentes aos grupos de fatores elaborados e submetidos ao programa matemático Varbrul Pintzuk 1998], no intuito de observar quais estratégias de indeterminação são implementadas em cada período de tempo investigado. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] (92) Embora sejam 1024 ocorrências, apenas 22 itens lexicais foram encontrados, o que leva à constatação de que há [um número reduzido de verbos cognitivos funcionando na Língua Portuguesa]. [Artigo científico, Revista Diadorim, n 6, 2009].

120 100 Em dados como o exposto em 88, aparece o SN considerado como simples; em 90, ocorre também sintagma simples, só que este já conta com um modificador de curta extensão, com até 4 vocábulos após o núcleo. Em 90, 91 e 92, há exemplos de sintagmas complexos, porém com algumas diferenças, pois, em 90, o SN contém modificador e é constituído por mais de 4 vocábulos, e, em 91 e 92, o SN vem acompanhado de uma oração adjetiva desenvolvida com pronome relativo ou uma reduzida de gerúndio, respectivamente. Não se trabalhou, na análise variacionista, com a classificação em que o termo argumento interno de tem-se(/têm-se) ou há se configura como um sintagma oracional (SO) com valor substantivo, pois somente com o complexo tem-se(/têm-se) ocorreu argumento dessa natureza, como demonstra o seguinte exemplo: (93) Desse modo, tem-se [que estados afetivos e emotivos que caracterizam emoções são consequência de uma avaliação subjetiva e não objetiva da pessoa]. [Dissertação de mestrado, Letras, 2009] Embora as orações que se ligam a tem-se(/têm-se) nesses exemplos possam ser pronominalizadas por isso, segundo teste de constituintes (cf. NEGRÃO, SCHER & VIOTTI, 2007), não se registra a possibilidade de ocorrência de há com termo com configuração afim. Tal resultado corrobora a hipótese de a construção em estudo ser mais utilizada com argumentos mais complexos. Assim, nesse contexto específico, ao que parece, não se pode cogitar de variação, por se tratar de um contexto que propicia a especialização do complexo tem-se(/têm-se) com valor impessoal, já que nele ocorreu em 6 dados e não registrou-se nenhuma ocorrência com a forma há Natureza semântica do argumento interno selecionado

121 101 Para a definição do décimo primeiro grupo de fatores, natureza semântica do argumento selecionado, recorreu-se a Callou e Martins (2003) que, ao controlarem tal variável no estudo da alternância ter~haver, descreveram os seguintes traços semânticos: a. animado (i. Tem-se, como totalidade, todos os desembargadores); b. abstrato (ii....tem-se um imperativo mercadológico que acaba submetendo mulheres a novos padrões de beleza) c. material (iii.há [gramáticas que inserem ainda outros itens, como bem, mal, ainda, já, sempre].); d. evento (iv. Há [as reuniões também informais onde as pessoas vão]). Pretende-se verificar, assim, se o traço mais material influenciará na utilização de tem-se(/têm-se). Na classificação feita nesta pesquisa, foram considerados também como evento os seguintes tipos de argumentos: (94) O corpo feminino foi duplamente erotizado a partir da década de De um lado, pela via artificial, tem-se [o crescimento da indústria dos produtos para estética feminina], de outro, via natural, a prática de esportes e de outros cuidados como a alimentação. [Artigo científico, Revista História comparada, n6, v 6, 2009]. (95) Utilizando a modulação com sobreposição, tem-se [uma redução de quase 50 por cento da largura de banda]. [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2010]. Nesses exemplos, os argumentos representam um processo de alteração de um estado anterior, E ressalta-se ainda que, nos textos acadêmicos pesquisados, não localizamos qualquer exemplo como o exposto em iv, retirado de Callou e Martins (2003), que expressa o acontecimento de um evento, no caso do exemplo, uma reunião Análise estatística dos dados do comportamento observável em textos acadêmicos por cada grupo de fatores.

122 102 Nesta seção, expõem-se e interpretam-se os resultados obtidos na análise sociofuncionalista da relação entre o fenômeno variável da impessoalização aqui delineado e grupos de fatores linguísticos e extralinguísticos, após os dados terem sido submetidos ao programa estatístico GoldVarb X. Foram realizadas as seguintes rodadas: (i) rodada multivariada principal 1 (com os 527 dados, contendo cada fonte e as demais variáveis, à exceção dos grupos de controle); (ii) rodada principal multivariada 1a (em que os dados estão separados/codificados por área do domínio discursivo: Letras, História e Engenharia) e (iii) rodada principal 1b (em que os dados foram separados por gênero textual). Em um segundo momento, procedeu-se, a rodada principal 2 (com uma subamostra dos dados cujas predicações contêm somente a estrutura verbo predicador + SN objeto), em função dos resultados obtidos nessas rodadas, a outras, que serviram de fundamento ao estudo variacionista dos condicionamentos da regra variável em foco nesta dissertação. Para efeitos de descrição estatística utilizar-se-á, prioritariamente, a rodada principal 2, segundo os mesmos arranjos das rodadas 1 supracitadas: rodada principal 2a dados separados por área ; e rodada principal 2b dados separados por gênero. Com as primeiras rodadas dos dados, buscou-se analisar a distribuição das variantes tendo em vista características das fontes consideradas, bem como se pretendeu avaliar a interferência da estrutura da predicação e dos grupos que serviram apenas ao controle da configuração de predicações com tem-se(/têm-se) no discurso acadêmico: posição do elemento contêiner no período e posição de expressão especificadora no período. Com as rodadas multivariadas realizadas em um segundo momento (rodada principal 2 e derivadas), com uma subamostra de 483 dados, tencionou-se averiguar a influência dos demais grupos de fatores na utilização de tem-se(/têm-se) frente a há, já que se supunha identificar, entre estes, os possíveis condicionamentos do fenômeno de variação. Para encerrar essas considerações iniciais, vale informar que tem-se(/têm-se) é o valor de aplicação das rodadas: seu input geral de aplicação em ambos os tipos de rodadas multivariadas ficou em torno de: Análise da fonte, do gênero textual e da área de conhecimento

123 103 Partindo-se da intenção de verificar se tem-se(/têm-se) seria mais utilizado por pesquisadores da área de Letras, considerou-se, no exame da fonte dos dados de escrita acadêmica, três possibilidades de organização dos fatores estipulados. Primeiramente, tratou-se de analisar a distribuição dos dados por cada fator estabelecido, conforme se pode visualizar a seguir: Fonte Tem-se/ Têm-se Há Dados/Total % Dados/Total % PR Dissertação Letras 27/ % 130/ %.53 Dissertação História 4/ % 29/ %.41 Dissertação Eng. Elétrica 25/ % 31/ %.78 Artigo Diadorim 18/ % 122/ %.52 Artigo - História comparada 8/98 8.2% 90/ %.36 Artigo Matéria 5/ % 38/ %.27 Tabela 3: A alternância de tem-se(/têm-se) e há em função do grupo de fatores fonte em 527 dados de escrita acadêmica. (Significância do nível selecionado: 0.029) A tendência ao uso de tem-se(/têm-se) nos textos da área de Letras fica próximo ao ponto neutro nas dissertações, 27 usos, e, nos artigos da Revista Diadorim, 18 usos com pesos relativos de.53 e.52, respectivamente. São as dissertações da área de Engenharia Elétrica que se destacam como um contexto discursivo que exerce forte influência em prol da utilização da construção (. 78): o número de ocorrências de ambas variantes é bem próximo. Nos textos da área de História e da Revista Matéria, é baixo o índice de uso de tem-se(/têm-se). Em relação ao fato de as dissertações de Engenharia se destacarem pelo uso de tem-se(/têm-se), cabe ressaltar que estes textos, por apresentarem elementos técnicos com mais frequência, sendo o foco apresentacional, o fator discursivo parece a influenciar o uso de tal variante, como demonstram os seguintes exemplos: (96) Para as tensões no rotor e no estator, de acordo com a Figura 2.6 tem-se: VS (rs j S LST )IS j S MIR, (2-36) e

124 104 VR (r'r js S L'RT )IR js S MIS. (2-37) [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2009] (97) Para os valores conhecidos do entreferro, tem-se os seguintes valores de gap e força de levitação, mostrados na tabela 2.2: [Dissertação de mestrado, Eng. Elétrica, COPPE, 2010] Nos exemplos acima, em 98, houve a apresentação de fórmulas e, em 98, a de uma tabela com os resultados obtidos. Nas dissertações de engenharia, verificou-se que é produtivo o uso de tem-se(/têm-se) nesses contextos apresentacionais. Analisando-se os resultados da análise da subamostra contendo apenas dados de tem-se(/têm-se) e há seguidos de SN objeto em função da fonte, em virtude de, em construções com verbo suporte ser mais produtivo o uso da forma verbal há e nas sentenças com a estruturação tem-se(/têm-se) ou há (com função predicadora) + SN objeto + (como/por) X constituinte predicativo do objeto, é praticamente categórico o uso de tem-se(têm-se), como já dito anteriormente, obtiveram-se os seguintes resultados:

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----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- --- Aquisição e variação dos verbos ter e haver existenciais no PB Elyne Giselle de Santana Lima Aguiar Vitório (UFAL) RESUMO: Este trabalho se insere na área de Aquisição e Mudança Linguística e tem como

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