VARIAÇÃO LINGUÍSTICA, ORALIDADE E LETRAMENTO: NA INVESTIGAÇÃO DO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA ESCRITA EM TURMA DE PRÉ-ESCOLAR, EM TERESINA.

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1 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA, ORALIDADE E LETRAMENTO: NA INVESTIGAÇÃO DO PROCESSO DE AQUISIÇÃO DA ESCRITA EM TURMA DE PRÉ-ESCOLAR, EM TERESINA. MARIA DE FÁTIMA SILVA ARAÚJO (bolsista do PIBIC/CNPq), CATARINA DE SENA SIQUEIRA MENDES DA COSTA, (Orientadora, Depto de Letras UFPI) Introdução Este trabalho descreve e analisa as práticas sociais de letramento, oralidade e de aquisição da escrita na creche Tia Rosinha na comunidade Anajás, zona rural de Teresina, conforme previsto no Plano de Trabalho desenvolvido através do PIBIC/ UFPI, no período de 2014/2015 que teve como objetivo contribuir para o desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem da escrita de forma efetiva em sala de aula, enquanto prática social na comunidade em que vivem. Metodologia A abordagem metodológica utilizada foi a Etnográfica, pois permite ao pesquisador entrar no universo dos sujeitos pesquisados, para descobrir o significado das ações dos sujeitos no processo interacional, procurando entender os fenômenos linguísticos pesquisados dentro do social, e não de maneira isolada. Além de possibilitar uma análise entre os eventos de oralidade e letramento como prática social dentro dos contextos em que ocorrem. A pesquisa etnográfica [...] exige a descrição de experiências e vivências de indivíduos e de grupos que participam e constroem o cotidiano da escola e da comunidade (LIMA, 1996, p.66). Na pesquisa etnográfica o etnógrafo participa, durante extensos períodos, na vida diária da comunidade que está estudando, observando tudo o que ali acontece. (BORTONI-RICARDO, 2008, p.35), observa que essa metodologia proporciona ao pesquisador um amplo acesso para observar o uso da língua oral e escrita dos sujeitos pesquisados. Como já foi mencionado a pesquisa foi realizada em uma creche, onde se buscou entender os significados socioculturais que as práticas de letramento e oralidade realizados na aula de língua Portuguesa têm na vida dos sujeitos envolvidos em atividades de que participam. Para isso, o pesquisador teve a oportunidade de entender a organização cultural dessas práticas sociais em sala de aula. As atividades de coleta de dados foram precedidas de uma fase de visitas e

2 conhecimento da creche e da comunidade, para a familiarização do pesquisador. Foram observados eventos de fala e eventos de escrita nas mais diversas situações sociais: tarefas escolares, aula, conversas familiares, vida cotidiana e etc. Para tanto, nos dados de fala foi utilizado o gravador de voz e filmagens que possibilitou a obtenção de dados mais fidedignos. Além disso, foram feitas fotografias para a demonstração do ambiente e do espaço físico do local. Resultados Para analisar a forma como os membros da comunidade estudada utilizam a escrita, foi observado e analisado o cotidiano desses moradores e a relação que estes estabelecem com a escrita. Na escola, no contexto da sala de aula, constatou-se que as atividades pedagógicas relativas ao ensino de língua materna no pré-escolar (ou ensino infantil), desenvolvidas na creche apresentam alguns problemas, tais como: a escrita baseada em cópias, ou seja, os alunos reproduzem o que já está escrito e não conseguem entender os seus usos e significados sociais; o distanciado da realidade linguística da comunidade; o letramento escolar é o predominante; ocultamento das variedades linguísticas. Evento: Aula de português Ambiente: Escolar Participantes: Professora e alunos Estilo: Monitorado P: hoje vamos falar de uma letra, essa bem daqui: ela escreve no quadro a letra C. Que letra é essa? A: letra A,O, P, C P: letra C, pelo amor de Deus! E agora q letra é essa? A: O, p, g P: vocês tão é desaprendendo é? Letra C, minha gente! Parô a brincadeira. Estudo da letra...? Aqui a palavra, Ca-rinho, começa com a letra C. então a primeira letra, começa com a letra C, qual a última letra? A:O Evento: aula de português Ambiente: escolar Participantes: pesquisadora e alunos Estilo: monitorado P: vocês já viram uma borboleta de verdade?vocês sabem onde elas vivem? A: sim! nas foia.. P: o titulo da nossa historia é a borboleta e a lagarta! P: vocês já viram uma lagarta? A: sim! ixi! I: é tia! Quando ela tá na casa, Ela cai do pé de arvori P: texto: H: é tia a borboleta vira numa lagarta! P: texto S: é tia! Eu mais o Heitor já vi uma lagarta de fogo e era verde! P: vocês sabem o que é um casulo? A: não

3 Como possível notar acima, as aulas de português da professora são ministradas fora do contexto social da criança e esta não consegue interagir na aula, pois o que nota-se é que a própria professora faz a pergunta e ao mesmo tempo responde sem dar oportunidade ao aluno, sendo que ela nem utiliza textos, para facilitar o ensino da escrita, utiliza palavras soltas e descontextualizas, dificultando assim o processo de aprendizagem por parte do aluno. Nessa aula que foi dada pela pesquisadora, o texto que foi exposto trazia em si elementos do dia-a-dia dos alunos, foram selecionadas palavras que faziam parte do universo vocabular do aluno, contendo relações grafemas e fonemas, contendo também um significado social, cultural e político. SOARES dá importância ao ensino que contenha um significado baseado no social: Não se trata de apenas selecionar palavras, nesse universo vocabular dos alfabetizandos, (...) selecionam-se aquelas carregadas de significado social, cultural, político, vivencial (SOARES, 2008, p. 120). A comunidade Anajás é muito interligada à creche. Todos os eventos que ocorrem na comunidade são realizados na creche. Esta comunidade tem como principal religião o catolicismo, tanto que as missas são organizadas pelos moradores, lá também se observou eventos de oralidade e letramento: leituras bíblicas, rezas, músicas; e isso é refletido também no ensino da escola, pois na creche, os alunos rezam e cantam músicas pertencentes ao catolicismo. Evento: reza Ambiente: escolar Participantes: professora e alunos Alunos: santo anjo do senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou, a piedade de vida,, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumene amém. Vou agora conversar com meu Jesus, vou juntar as mãos para rezar, meus olhinhos agora vou fechar, para ver meu Jesus maiavioso, papai do céu abençoai: o nosso dia, a nossa mente, nosso coração, as nossas tias, e nos dê um bom dia com muita paz, em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém. Todos fazem o sinal da cruz. Verifica-se que essas rezas e músicas são uma prática bem comum na creche. Os alunos rezam quando chegam à creche, quando vão almoçar e quando vão embora. Nessa escola especificamente, pode-se dizer que a reza é um letramento religioso, que foi incorporado ao letramento escolar.

4 Discussão A escola valoriza muito a palavra escrita, esta é vista como um ideal para que o aluno reconstrua seus conhecimentos. Essa concepção se reduz ao processo de alfabetização: a escola transmite a Idéia de que a escrita é uma transcrição da oralidade (MATENCIO, 1994, p.16). Essa visão tradicional acredita que somente conhecer as sílabas, palavras e frases o aluno estaria apto a aprender a ler e escrever, mas o que ocorre é apenas uma decifração dos signos lingüísticos. Em vista das observações realizadas durante a pesquisa, foi possível constatar que os métodos utilizados para o ensino de língua Portuguesa na creche é bem distante da realidade de seus alunos, a escola valoriza somente a escrita, deixando de lado a oralidade e o letramento de seus alunos, dificultando a assim a aprendizagem de seus alunos. Não é somente adquirir a habilidade de leitura e escrita, mas é compreender e entender seus significados dentro e fora da escola. A escola infelizmente ainda não entendeu o real significado de alfabetizar. Alfabetizar significa tornar o indivíduo capaz de ler e escrever de maneira contextualizada. A partir dessa problemática de alfabetização escolar, um fenômeno surge para solucionar o problema, um processo chamado de letramento cuja definição é: estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais (SOARES, 1998, p. 47). Não é somente o aluno que sabe ler e escrever, aquele que prática sua leitura e escrita no meio social. CONCLUSÃO De um modo geral foi possível perceber que ainda existem escolas que não consideram a oralidade/letramento no ensino de língua materna. A relação que existe entre a escola e a comunidade é uma maneira da criança desenvolver o letramento. Pois é possível identificarmos diferentes letramentos sociais na escola, como vimos nos eventos, mas infelizmente estes letramentos não estão sendo utilizados. Portanto, o método utilizado na pesquisa mostrou-se eficaz, pois englobou dentro de si, o real significado do letramento. A utilização de textos que traziam em si significados reais da realidade do aluno facilitou a identificação na hora da escrita. A

5 escrita passou a ser espontânea e não apenas cópia como antes, pois os alunos entendiam o verdadeiro sentido cultural de cada palavra escrita. Palavras chaves: Letramento. Oralidade. Escrita. Apoio: Agradeço ao PIBIC/UFPI pelo apoio à pesquisa. REFERÊNCIAIS MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, MATENCIO, Maria de Lurdes Meirelles. Leitura produção de textos e escolas: reflexões sobre letramento. Campinas, SP. : Mercado de letras, SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 5 ed. São Paulo: Contexto, 2008.

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