ATIVIDADES DE DESENHO COMO PROPOSTA DE AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA: AS EXPECTATIVAS DE CRIANÇAS APRENDENDO INGLÊS

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1 ATIVIDADES DE DESENHO COMO PROPOSTA DE AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA: AS EXPECTATIVAS DE CRIANÇAS APRENDENDO INGLÊS Hidemi Senno (Letras Inglês/UEL/Pibid/Capes) Ingrid Carvalho (Letras Inglês/UEL/Pibid/Capes) Juliana Reichert Assunção Tonelli (UEL) RESUMO É evidente o aumento do número de pesquisas a respeito do ensino e a aprendizagem de língua estrangeira para crianças. Nesta área muitos temas têm sido pesquisados, como por exemplo, a aprendizagem de inglês através de histórias infantis (TONELLI, 2005), o ensino através de músicas (MILLINGTON, 2011) e atividades lúdicas (ARAÚJO & SILVA, 2010). No entanto é possível notar uma lacuna quando o assunto é a avaliação da aprendizagem de inglês por crianças. Na literatura da área encontramos um consenso sobre as funções da avaliação, que são três: diagnosticar, controlar e classificar (FURTOSO, 2011). Neste trabalho relataremos uma experiência feita com alunos do Centro de Educação Infantil da UEL-Campus. A atividade consistiu da produção de desenhos pelas crianças os quais foram utilizados como instrumento de avaliação diagnóstica objetivando identificar as expectativas dos alunos quanto às aulas de inglês. A análise dos desenhos foi realizada com base em Linguevis (2007b) e Brooks (2009). Os resultados revelaram que as crianças com idade superior conseguiram expressar suas expectativas, enquanto que as crianças menores tiveram mais dificuldade. Palavras-chave: Ensino de língua estrangeira para crianças. Avaliação. Atividade de desenho. 146

2 Introdução Cada vez mais podemos ver crianças sendo expostas à aprendizagem de línguas estrangeiras (LE), principalmente a língua inglesa (LI). De acordo com Domingues e Gibk (2011), o aprendizado de uma LE? pode contribuir para a comunicação global efetiva e para a construção da cidadania de um indivíduo. Devido à importância da LI atualmente, a procura de escolas particulares e institutos de idiomas tem sido grande, e o aumento das instituições que oferecem esse curso para crianças também No entanto, grande parte das escolas públicas do estado do Paraná não avançaram, optando pela não inclusão de línguas estrangeiras no currículo de crianças da educação infantil e ensino fundamental I. Com o crescente interesse na área, muito se tem pesquisado a respeito do ensino e aprendizagem de língua estrangeira para crianças. Um dos exemplos é o projeto de pesquisa do qual fazemos parte 80, que tem como principal objetivo promover um espaço de pesquisa sobre o ensino e a formação de professores de língua inglesa para crianças. Este trabalho teve origem a partir da leitura da pesquisa desenvolvida por Linguevis (2007), feita durante nossas as reuniões semanais do PIBID 81 e do projeto de pesquisa anteriormente mencionado, na qual a autora relata uma atividade feita com seus alunos da educação infantil. A atividade consistia na produção de desenhos pelas crianças. Os desenhos tinham como objetivo descobrir a visão das crianças a respeito das aulas de inglês. O fato de a disciplina de LI não ser obrigatória nas séries iniciais no estado do Paraná e, consequentemente, a não existência de um currículo da disciplina causava, e ainda causa, muitas inquietações já que não temos um ponto de partida e nem um caminho definidos para organizar as aulas de inglês. 80 Projeto integrado (ensino, pesquisa e extensão) O TRABALHO DO PROFESSOR NO ENSINO- APRENDIZAGEM DA LÍNGUA INGLESA PARA CRIANÇAS: UMA PROPOSTA DE FORMAÇÃO DOCENTE, sob coordenação da Profa. Dra. Juliana Reichert Assunção Tonelli na Universidade Estadual de Londrina. 81 Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência 147

3 Durante as reuniões nos questionamos em relação ao que os nossos alunos esperavam das aulas de LI, posto que um dos grupos (E4) nunca havia sido exposto ao ensino formal daquela língua e os alunos do outro grupo (E6) tiveram aulas de inglês no ano anterior 82. Como são crianças e estão na educação infantil, a grande maioria ainda não está alfabetizada. Sendo assim decidimos utilizar o desenho como instrumento de avaliação diagnóstica para identificarmos as expectativas dos alunos em relação as aulas. sustentam este estudo. No próximo item apresentamos os fundamentos teóricos que Fundamentação teórica Muitos autores (GARDNER, 1995; LINGUEVIS, 2007a; TONELLI, 2012; BROOKS, 2009) têm pesquisado sobre o uso de desenhos em pesquisas que envolvem crianças. Brooks (2009) diz que as atividades de desenho propiciam às crianças a oportunidade de se expressarem enquanto às opiniões, sentimentos e visões de mundo já que raramente são capazes de usar as palavras para se expressarem com eficácia. Ainda para a autora, o ato de desenhar envolve observação, experiência, imaginação e memória. Acrescentando um pouco mais a respeito dos desenhos feitos pelas crianças, Tonelli (2012) afirma que emoções, sentimentos, conhecimento de mundo e concepções são transferidas para o desenho. 82 As aulas foram ofertadas como parte das atividades do estágio supervisionado dos licenciandos de Letras/ Inglês sob a supervisão e orientação da Profa. Dra. Juliana Reichert Assunção Tonelli. 148

4 De acordo com Gardner (1995), as crianças em idade pré-escolar usam os símbolos para expor ou expressar sua visão de mundo, e isso acontece por meio de desenhos, músicas, danças entre outros. Para Linguevis (2007a), já que as crianças em idade pré-escolar ainda não foram alfabetizadas, desenhar é a forma mais eficaz de expressar suas ideias, o desenho seria no caso uma linguagem simples usada por elas. Ancoradas nos pesquisadores anteriormente citados decidimos realizar uma atividade de desenhos a fim de usá-la como uma avaliação diagnóstica a fim de descobrir quais eram as expectativas dos alunos quanto às aulas de inglês. Em outras palavras, nosso interesse era o de saber que tipos de atividades os alunos esperavam realizar durante as aulas de inglês, qual seria a postura e o papel das professoras e das crianças nas aulas de inglês e até mesmo o conteúdo que os interessavam. Tendo explicitado os fundamentos teóricos que sustentam o trabalho em tela, trazemos, na próxima seção, o caminho metodológico percorrido que nos permitiu realizar este trabalho. Metodologia Este trabalho foi desenvolvido no Centro de Educação Infantil (CEI) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) como atividade integrante da disciplina de estágio obrigatório e atividades desenvolvidas dentro do PIBID. As alunas pesquisadoras são do 3º e 4º ano do curso de Letras Inglês e bolsistas do PIBID. O CEI está localizado nas dependências do campus da UEL. O Centro oferece turmas de berçário até a Educação Infantil 6, as aulas acontecem em período integral, os alunos contam com aulas extracurriculares de música. As aulas de LI passaram a ser ofertadas no turno das aulas a partir de 2013 como atividade de um projeto integrado 83 e como campo de desenvolvimento de atividades do estágio 83 O TRABALHO DO PROFESSOR NO ENSINO-APRENDIZAGEM DA LÍNGUA INGLESA PARA 149

5 obrigatório para alunos do curso de Letras/Inglês. As crianças matriculadas na escola são exclusivamente filhos de servidores da universidade. Os alunos participantes deste trabalho pertencem às turmas de Educação infantil 4 e Educação Infantil 6, crianças que completam, respectivamente, 4 e 6 anos no ano de A atividade de desenho foi realizada na primeira aula de inglês das turmas. Após a apresentação das professoras e dos alunos, foi pedido para que cada criança desenhasse o que esperava das aulas de LI ou como imaginava o que aconteceria nas aulas. Em seguida, solicitamos que cada aluno explicasse oralmente o seu desenho. As explicações foram gravadas em áudio e transcritas para posterior análise. Os desenhos foram feitos em folha de sulfite e os alunos tinham como material apenas o lápis de cor. Dentre os 24 desenhos, foram selecionados 4 de cada turma, tendo como critério de escolha a clareza dos desenhos associada a explicação oral da criança. Chamaremos de Grupo 1 os alunos da turma de Educação Infantil 6, e de Grupo 2 os alunos da turma de Educação Infantil 4. Quatro alunos de cada turma integram os participantes desta pesquisa, sendo o Grupo 1 composto por 2 meninos (JG e R) e 2 meninas I e C) e o Grupo 2 por 4 meninos (MK, MN,K e AM). O suporte teórico- metodológico usado para a análise dos desenhos foi a fenomenologia hermenêutica de Van Manen (1990) apud Linguevis (2007b), e Brooks (2009). Análise dos desenhos CRIANÇAS: UMA PROPOSTA DE FORMAÇÃO DOCENTE coordenado pela Profa. Dra. Juliana Reichert Assunção Tonelli. 150

6 Para a análise dos desenhos utilizou-se a fenomenologia hermenêutica de Van Manen, a qual encontra seu ponto de partida no reino empírico da experiência da vida diária (VAN MANEN, 1990 apud LINGUEVIS, 2007b p. 48). Linguevis (2007b, p. 49) entende que a fenomenologia hermenêutica é a ciência humana que estuda as pessoas trilhando um caminho retrospectivo, que é a reflexão sobre a experiência vivida, buscando em sua natureza, a essência dessa experiência. Escolhemos fazer uso deste suporte metodológico, pois segundo Van Manen (1990 apud Linguevis, 2007b) formas não-discursivas, como vídeos, pinturas, música e escultura são fontes ricas de dados das experiências vividas, e portanto tais fontes não precisam se restringir a materiais textuais e escritos. Ao analisarmos os desenhos notamos uma diferença significativa entre os desenhos produzidos pelas duas turmas, tal diferença se dá pela idade das crianças e, consequentemente, ao nível de desenvolvimento da motricidade fina de cada um. Conforme podemos observar nos desenhos produzidos pelos alunos da turma do grupo 1, os alunos do E6 conseguiram expressar por meio do desenhos o que foi solicitados pelas professoras. A seguir, apresentamos os desenhos de cada aluno associado à sua explicação: Grupo 1: Desenho1 Aluno: J.G. 151

7 "Olha, aqui você trouxe um livro pra gente ler, e aqui estão os meus amigos. E você e a outra teacher estão arrumando aí pra gente sentar." Baseando-se em Van Manen (1990), considerando as experiências vividas pela criança é possível inferir que no desenho de JG, o aluno espera que as aulas de inglês sejam parecidas com as que ele teve no ano anterior. Sabendo que as aulas eram baseadas na abordagem de gêneros textuais, utilizando o gênero histórias infantis como objetivo, através da explicação, na qual JG diz que as professoras levaram um livro para ler, a criança relacionou uma experiência passada com uma possibilidade futura. Desenho 2 Aluno: R "Aqui sou eu e alguns alunos, a gente tá tendo aula de inglês embaixo da árvore." Através do desenho do aluno R, talvez seja possível entender que a criança esteja expressando uma vontade. O CEI possui um espaço amplo ao ar livre, onde se encontram algumas árvores. Desenho 3 152

8 Aluna: I "É você e a sua amiga. Aqui é a música do Hello e embaixo a música do Byebye." Assim como no desenho de JG, a aluna I pode ter expressado a sua opinião tendo como referência uma experiência já vivia por ela. As aulas de inglês costumam estabelecer uma rotina para que as crianças se sintam mais seguras e assim se desenvolvam com mais facilidade. Uma das maneiras pela qual esta rotina se estabelece é através das músicas cantadas no início e no fim da aula, no caso como a aluna disse: as músicas do Hello e do Bye bye. Sabendo que as aulas de inglês do ano anterior seguiam esta rotina, podemos inferir que a criança espera que as aulas deste ano sigam o mesmo caminho. Desenho 4 Aluna: C Eu desenhei os meus amigos e aqui você, e ela, e as mochilas, e as músicas, vai ter músicas. 153

9 Assim como a aluna I, a aluna C também parece se lembrar das músicas trabalhadas nas aulas de inglês do ano anterior e espera que as aulas deste ano sejam parecidas. Já os desenhos do grupo 2 mostraram que em função da idade os alunos tiveram maior dificuldade em representar conceitos abstratos: o que esperar da aula de LI ao longo do ano. Esta limitação pode ser identificada nos desenhos e nas explicações dadas pelos alunos: Grupo 2: Desenho 1 Aluno: M.K. Eu desenhei um círculo. O desenho produzido por MK quando relacionado à sua explicação é possível notar que sua coordenação motora fina ainda está em desenvolvimento, pois não podemos ver um círculo em seu desenho. O fato de a criança ter dito que desenhou um círculo quando a proposta era a de representar como achavam que seriam as aulas de inglês, pode talvez ser explicado pelas sua experiência com aulas em que são ministradas por outros professores (e não as professoras regentes da turma). Sabemos que as crianças fazem aula de música, e que é comum sentarem sempre em círculos com os professores. Novamente, através deste desenho, podemos inferir que a criança fez uma relação com uma experiência já vivida anteriormente por ela. 154

10 Desenho 2 Aluno: M.N. Eu desenhei uma música de aula de inglês só isso. O aluno MN disse ter representado a música da aula de inglês, relembrando que no início da aula foi introduzida a música que marca o início das aulas e que a probabilidade desse aluno ter contato com músicas em inglês, pode ter influenciado o aluno a chegar nesta conclusão. Desenho 3 Aluno: K Anjinho e um monstro. A aula de inglês vai ser legal, a gente vai fazer inglês. No caso do aluno K, além de representar a música como parte da aula de inglês, ele desenhou também um anjinho e um monstro, isso pode ser pelo fato de ele ter associado algum desenho animados onde tem o intuito, ou não, de ensinar inglês ou qualquer outro tipo de LI para crianças. 155

11 Desenho 4 Aluno: A.M. Eu desenhei muita música, bastante música. Muita música de inglês. Novamente a música está presente como parte da aula de inglês, mostrando como a música influencia os alunos e como ela está intimamente relacionada ao que seja aprender inglês: cantar músicas nesta língua. Isso pode revelar como as músicas internacionais tem influenciado os alunos. Feitas as análises dos desenhos associadas às suas explicações, passaremos agora para as conclusões a que esta pesquisa nos permitiu alcançar. Conclusão Após as leituras seguidas das análises dos desenhos, podemos concluir que os alunos do grupo 1 demonstraram mais facilidade em expressar as suas ideias através do desenho. Acreditamos que isso pode ter acontecido pelo fato de as crianças desta turma já terem tido aulas de LI anteriormente e, portanto já possuírem uma noção de como seja uma aula de LI. Outro fator que pode ter contribuído é o de que as crianças daquele grupo terem a habilidade motora fina mais desenvolvida em relação ao grupo

12 No caso do grupo 2, os alunos deste grupo tiveram mais dificuldade em expressar uma ideia abstrata e, talvez, por isto não conseguiram representar suas expectativas em seus desenhos. Além destes fatores, acreditamos também que isto tenha acontecido por eles não terem entendido a proposta, ou ainda por não saberem o que desenhar, pois como não tinham uma experiência anterior, podem ter utilizado a sua imaginação, levando em conta várias influências que esses alunos tiveram e/ou ainda tem, como em desenhos animados, músicas, família, amigos, escola e entre vários outros. Embora não tenhamos obtido o sucesso esperado com o grupo 2, não podemos afirmar que a atividade proposta tenha sido um fracasso com aquele grupo, pois os alunos transferiram para o desenho objetos que representam sua realidade de mundo. De forma geral, acreditamos que a atividade de desenho pode ser utilizada junto à crianças que não se apropriaram do código escrito como uma proposta lúdica de manifestação de conceitos e conhecimentos que fazem parte do mundo e da vida das crianças a despeito de sua pouca idade. 157

13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, C. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências. 16. ed. Petrópolis: Vozes, BROOKS, M. What Vygotsky can teach us about young children drawing. International Art in Early Childhood Research Journal, Austrália, v. 1. n DOMINGUES, D.; GIBK, C. K. S. Narrativas no ensino de língua inglesa na educação infantil: discutindo algumas práticas. In: TONELLI, J. R. A.; CHAGURI; J. P. (Eds.), Ensino de língua estrangeira para crianças: o ensino e a formação em foco. 1. Ed. Curitiba: Appris, P GARDNER, H. A criança e o pré-escolar. Como pensa e como a escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artes Médicas, LINGUEVIS, A. M. Vamos ouvir a voz das crianças sobre aprender inglês na educação infantil. In: TONELLI, J. R. A.; RAMOS, S. G. M. (Eds.). O ensino de LE para crianças: reflexões e contribuições. 1. ed. Londrina: Moriá, 2007a. p LINGUEVIS, A. M. A porta de entrada para o ensino-aprendizagem de Língua Inglesa. 2007b. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. TONELLI, J. R. A. A dislexia e o ensino-aprendizagem da língua inglesa fls. Dissertação (Doutorado em Linguagens) - Universidade Estadual de Londrina, Paraná. 158

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