UNIFESO PROFª LIDIA CALDEIRA TEORIA GERAL DO NEGÓCIO JURÍDICO 1ª aula

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1 UNIFESO PROFª LIDIA CALDEIRA TEORIA GERAL DO NEGÓCIO JURÍDICO 1ª aula CONCEITOS BASILARES AO CONHECIMENTO DAS RELAÇÕES JURÍDICAS FATO, ATO E NEGÓCIO JURÍDICO FATO é qualquer ocorrência que interessa ou não ao direito, ao âmbito jurídico. Logo, há fatos que não interessam ao direito, e fatos jurídicos. Os direitos subjetivos estão ligados a acontecimentos fáticos. Quando um fato gera direitos subjetivos, são chamados fatos jurídicos. Fatos jurídicos são acontecimentos oriundos da determinação humana ou de fatos naturais, que geram, modificam, conservam ou extinguem relações jurídicas. Fato simples, material ou neutro os que não têm relevância jurídica. Conceitos doutrinários para fatos jurídicos: Miguel Reale É qualquer fato que, na vida social, venha a corresponder ao modelo de comportamento ou de organização configurado por uma ou mais normas de direito. Sílvio de Salvo Venosa: São fatos jurídicos todos os acontecimentos que, de forma direta ou indireta, ocasionam efeito jurídico. Nesse contexto, admitimos a existência de fatos jurídicos em geral, em sentido amplo, que

2 compreendem tanto os fatos naturais, sem interferência do homem, como os fatos humanos, relacionados com a vontade humana. Alessandro Groppali. Qualquer evento que a lei reconheça consequências jurídicas, quer dizer, o nascimento, a modificação ou a extinção de um direito subjetivo. Carlos Roberto Gonçalves: Fato jurídico em sentido amplo é todo acontecimento da vida que o ordenamento jurídico considera relevante no campo do direito. Fatos Jurídicos Lato sensu Fatos naturais Ou fatos jurídicos stricto sensu Fatos humanos Ou voluntários ou atos jurídicos lato sensu ordinários extraordinários Lícitos 1. Ato jurídico stricto sensu 2. Negócio Jurídico 3. Ato-fato jurídico Ilícitos Classificação dos fatos jurídicos lato sensu: 1. Naturais ou jurídicos stricto sensu são os fatos que decorrem da natureza, independem da vontade humana, mas ainda assim produzem efeitos jurídicos. Podem ser: Ordinários : evento natural previsível e comum de ocorrer. Sofre influência do elemento tempo.

3 Ex. nascimento, morte, decurso de prazo, prescrição, decadência. Extraordinários: Decorrente da natureza, mas de fatos inesperados como o caso fortuito (evento totalmente imprevisível) ou força maior (evento previsível, mas inevitável ou irresistível). Ex: terremotos, tsunami, a tragédia em Teresópolis, em Voluntários ou atos jurídicos lato sensu são aqueles que nascem de uma participação voluntária do homem, isto é, decorrem de um comportamento volitivo. São ações humanas que criam, modificam, transferem ou extinguem direitos. OBS: Os fatos jurídicos voluntários podem ser lícitos ou ilícitos. Os ilícitos, praticados de forma contrária às lei, podem ser ilícitos civis, administrativos ou penais. Artigo 935 CC: analisar! Diferenciação: Penal sanção (pena), tipicidade de conduta, pessoalidade da aplicação da pena Civil tem por sanção o ressarcimento de um dano causado à vítima do ato, e resulta na chamada responsabilidade civil. A conduta não é típica, mas descrita no art. 186 CC e 187 CC. Administrativos tem por sanção a aplicação de multas ou exigência de condutas por parte da administração.

4 Há correntes doutrinárias, a qual filia-se o prof. Flávio Tartuce, de que os atos ilícitos não são jurídicos lato sensu, pois estes dependem da licitude para entrar no plano de validade. É fato jurígeno, porém não jurídico. Posições divergentes: Prof. Sílvio de Salvo Venosa, Jose carlos Moreira Alves, dentre outros. Os atos lícitos, portanto, são chamados atos lato sensu e se dividem em atos jurídicos stricto sensu e negócios jurídicos. Exige-se manifestação de vontade. 1. Atos jurídicos stricto sensu ou meramente lícitos são atos voluntários, materiais, cujos efeitos da manifestação de vontade estão previstos em lei, não possuindo o agente meios de alterá-lo. Trata-se de mera intenção, pois não há como modificar o resultado da ação. Ex. Ato de pescar como gerador do efeito da aquisição do direito de propriedade. Notificação que constitui em mora o devedor. Reconhecimento de filhos. A tradição do bem móvel. 2. Negócio jurídico manifestação duas de vontade, em regra, que produz efeitos jurídicos, sendo que os agentes podem coordenar os efeitos. É a manifestação de vontade que gera, modifica, conserva ou extingue a relação jurídica. A vontade não poderá conter vícios. Se o negócio jurídico tiver natureza patrimonial terá a natureza jurídica de contrato. Ex. Se alguém celebra com outrem um contrato de compra e venda.

5 3. Ato-fato jurídico a boa doutrina do Prof. Pontes de Miranda aponta mais uma categoria de atos lícitos: o ato-fato jurídico, segundo o qual não há vontade relevante. É irrelevante para o direito que o agente tenha ou não a intenção e praticá-lo, o que se leva em conta é o efeito resultante do ato que pode ter repercussão jurídica, inclusive ocasionando prejuízos a terceiros. Trata-se de um fato jurídico qualificado por uma atuação humana, por uma vontade não relevante juridicamente. Para o reconhecimento do ato-fato, não se exige capacidade do agente, nem se reconhece a existência de negócio jurídico. Ex. a descoberta de tesouro. Art CC. Confeitos comprados por criança num botequim (ex. do Prof. Silvio de Salvo Venosa). NEGÓCIO JURÍDICO CONCEITO São atos jurídicos resultantes do encontro de duas vontades capazes (excepcionalmente mais de duas) que se encontram para produzirem efeitos desejados pelas partes. Diferentemente dos atos jurídicos stricto sensu, onde o resultado será sempre o determinado pela lei, nos negócios jurídicos, o resultado será aquele que as partes desejarem, desde que obedecidos os elementos de validade determinados no artigo 104 do Código Civil. TEORIAS CONCEITUAIS Anotações tiradas da obra dos Prof. Gagliano e Pamplona Filho: Teoria voluntarista: Segundo Antônio Junqueira de Azevedo, para esta corrente de pensamento, o negócio jurídico é a manifestação de vontade destinada a produzir efeitos jurídicos.

6 O ato de vontade dirigido a fins práticos tutelados pelo ordenamento jurídico. Uma declaração de vontade, pela qual o agente pretende atingir determinados efeitos admitidos por lei. Esta é a corrente dominante no direito brasileiro conforme se depreende da confrontação entre os artigos 85 e 112, dos CC de 1916 e 2002, respectivamente: Art.85 CC/16: Nas declarações de vontade se atenderá mais à sua intenção que ao sentido literal da linguagem. Art.112 CC/02: Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem. Duelo entre a teoria da vontade e teoria da declaração: Para a teoria da vontade, o elemento produtor dos efeitos jurídicos é a vontade real. A declaração é a causa imediata do efeito perseguido. Se não houver correspondência entre a vontade real e a declarada, prevalece a intenção. Para a teoria da declaração, que não se afasta tanto da voluntarista, o elemento fundamental para a produção dos efeitos jurídicos é a declaração. A doutrina entende serem ambas as faces de uma mesma moeda. Teoria objetivista O negócio jurídico seria antes um meio concedido pelo ordenamento jurídico para a produção de efeitos jurídicos, que propriamente um ato de vontade. Em outras palavras: para os objetivistas, o negócio jurídico, expressão máxima da autonomia da vontade, teria conteúdo normativo, consistindo em um poder privado de autocriar um ordenamento jurídico próprio. Antônio Junqueira de Azevedo.

7 ELEMENTOS ESSENCIAIS DO NEGÓCIO JURÍDICO O negócio jurídico será válido para o direito se estiverem presentes todos os elementos do artigo 104 do Código Civil, e mais a manifestação de vontade livre e conscientemente declarada. A DECLARAÇÃO DE VONTADE A vontade é um elemento de caráter subjetivo, que se revela através da declaração. Esta, portanto, e não aquela, constitui requisito de existência do negócio jurídico. (GONÇALVES, 2015, p.354). I - A manifestação de vontade quanto à forma de declarar pode ser: Expressa: a que se realiza por meio de palavras, falada ou escrita, e de gestos, sinais ou mímicas, de modo explícito. Tácita: a que se revela pelo comportamento do agente. Somente se entenderá como válida a declaração tácita quando a lei não exigir que seja expressa. Ex. aceitação de herança. Presumida: não realizada expressamente, mas que a lei deduz de certos comportamentos. Ex: artigos 322, 323 e 324 CC. Diferença entre vontade tácita e presumida: na tácita, vale o comportamento do agente, na presumida, há o estabelecimento pela lei. Nestas, o agente pode elidi-las (provar que não é tal a sua vontade).

8 II a manifestação quanto à sua recepção pelo outro contratante pode ser: Receptícias : por dirigirem-se a uma pessoa, que dela deve ter ciência do ato, para produzirem efeitos. Nas declarações que a lei exige serem receptícias, o não recebimento da declaração pelo outro contratante gera ineficácia do negócio jurídico. Ex: revogação de mandato (682,I e 686 CC) e proposta de contrato à distância (427 e 428 CC). Não receptícias: são as que se efetivam com a manifestação do agente, não se dirigindo a destinatário especial. Produzem efeitos independentemente da recepção. Ex: promessa de recompensa, aceitação de letra de câmbio, revogação de testamento. (GONÇALVES, 2015, p.356). Quando uma das partes neutraliza a manifestação da vontade, como na coação física, por exemplo, ou na hipnose, o negócio jurídico é inexistente. O SILÊNCIO COMO MANIFESTAÇÃO DE VONTADE Regra geral, o silêncio não vale como declaração de vontade, pois equivale à ausência de declaração de vontade. No entanto, tanto a lei, como o contrato, podem determinar importância do silêncio para a validade do negócio jurídico. Análise dos artigos 111 c/c 539 CC. Art. 432 CC. Art. 147 CC. Ver! Cabe ao juiz analisar se o silêncio importa em manifestação de vontade. RESERVA MENTAL

9 Ocorre reserva mental quando um dos declarantes oculta a sua verdadeira intenção, isto é, quando não quer um efeito jurídico que declara querer. Tem por objetivo enganar o outro contratante ou declaratário. Se este, entretanto, não soube da reserva, o ato subsiste e produz os efeitos que o declarante não desejava. Análise do artigo 110 CC. CLASSIFICAÇÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS: A classificação do negócio jurídico tem como objetivo enquadrar um determinado instituto jurídico, bem como demonstrar a natureza jurídica deste (categorização jurídica). Pelo que consta no artigo 185 da atual codificação, as classificações a seguir servem tanto para os negócios quanto para os atos em sentido estrito. TARTUCE, 2012, P.188. Quanto à manifestação de vontade dos envolvidos: Unilaterais são atos e negócios em que a manifestação de vontade emana de apenas uma pessoa, com um único objetivo. (testamento, promessa de recompensa arts. 854 a 860 CC, proposta de contrato art. 427 CC). Bilaterais negócios que somente se realizam mediante a manifestação de vontade das duas partes sobre o objeto ou bem jurídico tutelado. Ex. contratos em geral, casamento, etc.

10 Plurilaterais ou multilaterais são negócios jurídicos que se aperfeiçoam com a participação de três ou mais partes, com interesses semelhantes no plano jurídico. Ex. Contrato de consórcio e de sociedade, envolvendo mais de duas partes. Há discussão doutrinária acerca desta modalidade de contrato, uma vez que não gera direitos e obrigações entre as partes. Quanto à onerosidade: onerosos os que geram dispêndio econômico para as duas partes que participam do negócio. Ex. contrato de compra e venda. Gratuito negócio jurídico que onera apenas uma parte, beneficiando a outra. Ex. doação pura. Obs. Diferenciar negócio jurídico unilateral, de contrato unilateral (neste só há obrigações para uma das partes). Ex. doação é negócio jurídico bilateral e contrato unilateral. Quanto à forma: Solenes ou formais negócios jurídicos cuja validade está condicionada à observância de uma forma determinada, haja vista a sua importância para a vida das pessoas. Exigem, portanto, forma prescrita em lei, como garantia jurídica. Ex. casamento, testamento, compra e venda de imóveis (escritura pública).

11 Não solenes ou não formais admitem qualquer forma não proibida em lei. Ex: contrato de locação. 4. Quanto à reciprocidade: Principais existem por si mesmos, não dependem de qualquer outra relação jurídica ou negócio para sua existência. Ex. Contrato de locação. Acessórios são aqueles cuja existência está vinculada a um outro negócio jurídico ou a uma relação jurídica. Ex. contrato de fiança. Regra: o acessório segue o principal. Se o principal se extingue, extingue-se, também, o acessório. 5. Quanto ao agente pode ser: Inter vivos ocorrem e produzem efeitos durante a vida do agente. Ex. compra e venda. Mortis causa produz efeito somente após a morte do sujeito. 6. Quanto às condições pessoais especiais dos contratantes:

12 Intuito personae ou personalíssimos são aqueles que dependem das condições especiais de um dos contratantes, havendo obrigação infungível. Ex: contrato de fiança. A contratação de um cantor famoso para fazer um show. Negócios jurídicos impessoais são aqueles que não dependem de condições especiais, e podem ser executados por qualquer pessoa ou profissional da categoria ou objeto contratados. Bibliografia: 1. GAGLIANO, Pablo Stolze e PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil. Parte Geral. Vol I. SP: Saraiva, GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. Parte Geral. Vol I.14. ed. SP: Saraiva, TARTUCE, Flávio. Direito Civil. Lei de Introdução e Parte Geral. Vol.1. SP: Gen &Método.

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