KLEYTON KAMOGAWA NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA

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1 KLEYTON KAMOGAWA NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA Londrina 2008

2 KLEYTON KAMOGAWA NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina Orientadora: Profª. Dra. Alice Yatiyo Asari Londrina 2008

3 KLEYTON KAMOGAWA NOTÍCIAS DE BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS NA MÍDIA IMPRESSA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina COMISSÃO EXAMINADORA Profª. Dra. Alice Yatiyo Asari Universidade Estadual de Londrina Profª. Dra. Ruth Youko Tsukamoto Universidade Estadual de Londrina Profª. Dra. Estela Okabayashi Fuzii Universidade Estadual de Londrina Londrina, de de.

4 AGRADECIMENTOS Aos familiares, pelo apoio e incentivo para a conclusão do curso de Geografia. À Prof.Dra. Alice Yatiyo Asari, pelas valiosas orientações, amizade, paciência e dedicação, tanto para a conclusão deste trabalho, quanto na Iniciação Científica. À Prof. Dra. Ruth Youko Tsukamoto e Estela Okabayashi Fuzii pelo aceite na comissão examinadora. Aos amigos(as) do curso: Ana Paula, Andrea, André Quinelato, Daniel Lania, Diogo, Iris, Kelly, Mariana, Silvia, Tatiana, Viviane, pelo apoio e companheirismo em todos os momentos. Aos amigos(as): Alan Leonardo, Edson, Emerson, Fernando, Flávia, Herminia, Lilian, Luciana Vieira, Luis Guilherme, Michelle, Milena, Vander. Aos professores(as) do Departamento de Geociências, pelos ensinamentos durante a graduação. Aos entrevistados, pela disposição, atenção e paciência para responder aos questionários. A todos que, direta ou indiretamente, viabilizaram este trabalho, meus sinceros agradecimentos.

5 Torne-se uma pessoa capaz de suportar todos os reveses da vida, aceitando-os com um sorriso. (Mokiti Okada 25/01/1949)

6 KAMOGAWA, Kleyton. Notícias de brasileiros no Japão: os dekasseguis na mídia impressa f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação de Geografia) Universidade Estadual de Londrina. Londrina, RESUMO A migração de brasileiros rumo ao Japão iniciou-se no fim da década de 1980 e início de 1990 devido à crise econômica que o Brasil enfrentava e o Japão necessitar de mão-de-obra no seu setor produtivo. No entanto, foi a partir da promulgação de Lei de Imigração Japonesa, no dia 1º de junho de 1990, que houve a intensificação da migração, pois os filhos, netos de imigrantes e seus cônjuges poderiam trabalhar no Japão por alguns anos, acumular dinheiro e retornar. Estes são os chamados dekasseguis. Os dekasseguis exercem atividades que exigem pouca ou nenhuma qualificação, realizando tarefas que são desprezadas pelos japoneses, pois estes almejam cargos na diretoria ou gerência nas fábricas. São esses dekasseguis, objeto de noticiários na mídia impressa, que foram analisados no trabalho em foco. Para isso, foram pesquisadas as notícias publicadas em jornais impressos, destinados à comunidade nipo-brasileira, sobre os dekasseguis, verificando o tema da notícia, o local dos acontecimentos, enfim, a imagem dos brasileiros no Japão. O maior número de notícias, sobre brasileiros no Japão, está relacionada aos crimes, como furtos e roubos, seguido pelas comemorações e festas. A quantidade de alguns tipos de notícia, como crimes graves e com morte e acidentes de trânsito, também são significativos. Além disso, foram aplicados questionários para os dekasseguis vinculados à Aliança Cultural Brasil-Japão do Norte do Paraná a fim de conhecer os motivos da emigração, os objetivos, as dificuldades enfrentadas, entre outros, e se conseguiram concretizar seus planos. Palavras-Chave: migração, dekasseguis, trabalho, mídia impressa.

7 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Idade dos entrevistados 49 Gráfico 2 Motivo da viagem 50 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Tipos de visto e status de permanência 14

8 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Inconstância no emprego 13 Figura 2 - Sistema de solicitação de atendimento proveniente do Japão 19 Figura 3 - Crimes e Delitos cometidos por Brasileiros 21 Figura 4 - Festas, Hábitos e Comemorações Brasileiras 24 Figura 5 - Acidentes de Trânsito 26 Figura 6 - Tipo e Mercado de Trabalho dos Dekasseguis 27 Figura 7 - Escolas, Creches, Faculdades Brasileiras 30 Figura 8 - Problemas com Empreiteira 31 Figura 9 - Carteira de Motorista e Leis de Trânsito 32 Figura 10 - Brasileiros vítima de crimes, delitos, agressões 33 Figura 11 - Atividade comercial de brasileiros 34 Figura 12 - Acidentes de Trabalho 35 Figura 13 - Mendigos Brasileiros 36 Figura 14 Discriminação 37 Figura 15 - Centro de Atendimento/Agência de emprego para brasileiros 38 Figura 16 - Maus Tratos 39 Figura 17 - Bancos/Igrejas/Novelas/Programa de Rádio para brasileiros 40 Figura 18 Outros 41

9 LISTA DE MAPAS Mapa 1 Número de brasileiros no Japão 06 Mapa 2 Crimes cometidos por brasileiros (2002) 23 Mapa 3 Escolas brasileiras x Número de brasileiros no Japão 29 Mapa 4 Número de notícias de brasileiros 42 Mapa 5 Regiões do Japão 43 Mapa 6 Anúncios de emprego do Jornal Nippo-Brasil 47 Mapa 6 Municípios onde foram realizadas as entrevistas 48 Mapa 7 Províncias de destino dos entrevistados 53

10 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Número de brasileiros e taxa de crescimento anual ( ) 05 Tabela 2 - Registro de estrangeiros em províncias onde a maioria dos brasileiros reside 08 Tabela 3 - Entrada de brasileiros no Japão por status de permanência ( ) 15 Tabela 4 - Notícias encontradas nos jornais 20 Tabela 5 - Crimes cometidos por estrangeiros 22 Tabela 6 - Data dos jornais pesquisados 44 Tabela 7 - Anúncios de emprego pesquisados 45 Tabela 8 - Período de permanência no Japão 50 Tabela 9 - Número de viagens ao Japão 51 Tabela 10 - Empregos dos entrevistados 51 Tabela 11 Discriminação 52 Tabela 12 - Dificuldades encontradas 54 Tabela 13 - Conseguiu concretizar seus planos? 55

11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS E O MERCADO DE TRABALHO A MIDIA IMPRESSA E OS BRASILEIROS NO JAPÃO Crimes e Delitos cometidos por Brasileiros Festas, Hábitos e Comemorações Brasileiras Crimes graves e com morte Acidentes de Trânsito Tipo e Mercado de Trabalho dos Dekasseguis Escolas, Creches, Faculdades Brasileiras Problemas com Empreiteira Carteira de Motorista e Leis de Trânsito Brasileiros vítima de crimes, delitos, agressões Atividade comercial de brasileiros Acidentes de Trabalho Mendigos Brasileiros Discriminação Centro de Atendimento/Agência de emprego para brasileiros Maus Tratos Suicídio Bancos/Igrejas/Novelas/Programa de Rádio para brasileiros Outros Total de Notícias OS ANÚNCIOS DE EMPREGO NO JORNAL NIPPO-BRASIL OS DEKASSEGUIS DO NORTE DO PARANÁ CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA 58

12 ANEXOS 63 Anexo A - Acidente resultante da mudança de emprego 64 Anexo B - Destinação do lixo 65 Anexo C - Obtenção da carteira de motorista 66 Anexo D - Dekassegui vítima de furto 67 Anexo E - Canal de televisão em português 68 Anexo F - Igreja para brasileiros 69 Anexo G - Discriminação entre brasileiros 70

13 1 1 INTRODUÇÃO O Brasil, na década de 1980, enfrentava uma grave crise econômica e estagnação, sendo esta década chamada de década perdida. Muitos brasileiros, descontentes com a situação, começaram a emigrar para outros países, como os Estados Unidos, Japão e países da Europa, buscando melhores condições financeiras. Os brasileiros que partiram rumo ao Japão, os dekasseguis, termo que significa sair de seu país de origem para trabalhar em outro, buscavam trabalhar por curto período, acumular certa quantia de dinheiro e retornar ao Brasil. Em meados da década de 1980 este movimento ainda se mostrava tímido, pois havia dificuldades para se conseguir autorização de desembarque e trabalho no Japão. Porém, a partir de 1990, com a promulgação da Lei de Imigração Japonesa, este movimento de brasileiros rumo ao Japão aumentou drasticamente, sendo cada vez maior o número de brasileiros que partem em busca de melhores condições de vida. Com isso, tem-se como objetivo compreender o processo migratório dos descendentes de japoneses rumo ao Japão, identificando as motivações e perspectivas que levaram estes à emigrar, sobretudo na década de 1990, após a promulgação da Lei de Imigração do Japão e analisar a situação atual deste processo. Além disso, investigar, nos jornais impressos destinados à comunidade japonesa, os anúncios de oferta de emprego, verificando os tipos de trabalho, salário, província, entre outros, e os tipos de reportagens e notícias que são publicados sobre os brasileiros no Japão. Neste trabalho será discutido, no primeiro capítulo, o fenômeno dekassegui, as motivações que levam os brasileiros a migrarem para trabalhar, as dificuldades enfrentadas, a criação de novas territorialidades pelos brasileiros no Japão, os tipos de visto existentes, os trabalhos exercidos pelos dekasseguis, as províncias onde estes se encontram em maior número, os tipos de seguros ao trabalhador, como os de saúde e desemprego, além da contribuição com a previdência. No segundo capítulo serão apresentadas as notícias sobre os brasileiros no Japão que foram divulgadas na mídia impressa, no período de 1990 a 2007, nos jornais destinados à comunidade japonesa, classificando-as em categorias e o

14 2 número total de notícias, sendo possível analisar e observar em quais tipos de notícia é freqüente a aparição dos brasileiros e a sua imagem no Japão. No terceiro capítulo são analisados os anúncios de emprego no Japão que foram divulgados no jornal Nippo-Brasil, nos anos de 2000 a 2006, no qual foram escolhidos dois exemplares por ano, caracterizando o tipo de emprego mais freqüente, a cidade ou província do emprego. No quarto capítulo são apresentados os resultados das entrevistas feitas com dekasseguis do norte do Paraná, identificando os motivos da viagem, a cidade ou província de destino, o tipo de trabalho exercido, tempo de permanência no Japão, as dificuldades encontradas, o número de vezes que foi ao Japão, entre outros.

15 3 2 BRASILEIROS NO JAPÃO: OS DEKASSEGUIS E O MERCADO DE TRABALHO A imigração de japoneses para o Brasil, iniciada em 1908, trouxe milhares de pessoas com a esperança de encontrar melhores condições de vida e fazer fortuna, pois o Brasil era considerado um país promissor. Desejavam trabalhar por alguns anos, economizar uma certa quantia e retornar ao país de origem, não rompendo os laços com o país de origem. Porém, a grande maioria permaneceu no Brasil, por decisão ou por não ter condições financeiras, e hoje sua cultura é reconhecida e admirada por muitos brasileiros. Em meados da década de 1980 e, sobretudo no início da década de 1990, houve inversão no sentido do fluxo migratório, pois o Brasil, que no início do século recebeu grande contingente de imigrantes japoneses, torna-se, posteriormente, um exportador de mão-de-obra para outros países a partir da intensificação de crises políticas e econômicas. Assim, Kawamura (1999) explica que: Nos anos 80, as seqüelas da crise do petróleo; a diminuição dos investimentos estrangeiros no país; o aumento crescente da dívida externa; a desvalorização internacional das matérias-primas para exportação; a elevada inflação e os juros altos; ao lado da rearticulação das forças políticas civis no país e dos movimentos sociais pelas condições de vida, por salários melhores, por saúde, educação e contra a discriminação das mulheres e negros; e outros, de ordem econômica e política, expressaramse na desaceleração da economia interna, nos movimentos sociais, no desemprego e, a partir de meados da década, nas crescentes migrações de brasileiros para o exterior. (KAWAMURA, p.59) Por esses motivos acentuou-se a emigração de brasileiros rumo aos Estados Unidos, alguns países da Europa e o Japão, que se encontrava em pleno desenvolvimento e necessitava cada vez mais de trabalhadores nas fábricas. BENKO (2002, p.24), explica que os países ocidentais atravessaram período difícil nos anos 70 e 80. Muitas regiões industriais outrora prósperas passaram por graves problemas econômicos, acompanhados de desemprego, que lhes acarretaram a estagnação e o declínio. Devido a isso muitos brasileiros migraram para outros países e os japoneses e seus descendentes viram, no Japão, a chance de sair da crise e melhorar a qualidade e condições de vida.

16 4 A inversão e o aumento no fluxo de brasileiros rumo ao Japão deve-se, sobretudo, às mudanças na Lei de Imigração do Japão que ocorreu no ano de 1990, que permitiu a entrada de filhos (nisseis) e netos (sanseis) de imigrantes japoneses e cônjuges não-nikkeis destes. A lei de imigração tinha, como um de seus objetivos, diminuir o número de trabalhadores ilegais, como tailandeses, coreanos, chineses, substituindo estes por descendentes de japoneses, que se encontram em grande número no Brasil. Os isseis, que voltavam ao Japão como dekassegui, não encontravam grandes problemas na adaptação, pois conheciam o modo de vida japonês. Já as outras gerações (nisseis, sanseis e cônjuges não-nikkeis) encontram muitas dificuldades, como YOSHIOKA (1995) explica: Já os nisseis têm um comportamento mais ocidentalizado, têm dificuldade para ler e falar o japonês, são mais expansivos, a despeito de possuírem a cultura japonesa pré-guerra que lhes foi transmitida por seus pais. O sansei é bem mais ocidentalizado e, com raras exceções, consegue comunicar-se em japonês. O cônjuge não-nikkei praticamente desconhece a cultura japonesa. (YOSHIOKA, 1995, p.148) Os descendentes de imigrantes japoneses, mesmo conhecendo a cultura, conversando em japonês com seus pais ou avós, mantendo a alimentação e religião, algumas regras de educação, acabam encontrando muitas diferenças, como na língua, pois algumas palavras que aprenderam com seus pais ou avós já não são mais utilizadas atualmente, na separação do lixo, no rigor ao respeito às leis japonesas, entre outros. Além das dificuldades, os dekasseguis acabam sendo discriminados pelos japoneses justamente por não conhecerem seu modo de vida. Alguns atos normais para os brasileiros, como falar alto, cumprimentos calorosos, demonstrar afetividade em público e o não cumprimento de algumas regras, são motivo para vistas grossas dos japoneses. Porém, a necessidade de mão-de-obra no Japão e o fato do Brasil estar num período de recessão, acabou impulsionando a emigração de brasileiros, que buscavam melhores salários, qualidade de vida e concretização de sonhos, mesmo sabendo das dificuldades e sofrimentos que enfrentariam. Na tabela 1 é possível observar o crescimento no número de brasileiros no Japão.

17 5 TABELA 1: NÚMERO DE BRASILEIROS E TAXA DE CRESCIMENTO ANUAL ( ) Ano Nº de Brasileiros Taxa de Crescimento (%) % % ,80% % % % % % % % % % % % % % % % % % % % Tabela 1: Número de brasileiros no Japão (1985 a 2007) Fonte: Ministério da Justiça do Japão In: Nota-se que o ano de 1990 é o que apresenta o maior índice, justamente no ano em que foi promulgada a nova lei de Imigração Japonesa. Porém, no final dos anos 90, ocorre uma crise no Japão que faz o índice decrescer ao saldo negativo, isto é, muitos dekasseguis retornaram ao Brasil neste ano. A população decresceu de em 1997 para em 1998, ou seja, brasileiros deixaram o Japão devido à crise. Os brasileiros concentram-se, sobretudo, nas imediações da província de Tóquio, conforme mapa 1. A província com maior número de dekasseguis, no ano de 2004, é Aichi, com brasileiros, seguido por Shizuoka, com brasileiros.

18 Mapa 1: Número de brasileiros no Japão (2004). 6

19 7 Segundo OZAKI (2004): Se falarmos com relação à mão-de-obra nikkei, as regiões que possuem maior número de brasileiros registrados são Gunma, Nagano, Shizuoka, Aichi, Mie, Gifu e Shiga, onde estão localizadas as principais fábricas do setor industrial, e em cujo redor serão instaladas as empreendedoras de empreiteiras coligadas. Isto é, a mão-de-obra nikkei está intimamente relacionada com a estrutura empregatícia dessas indústrias. (OZAKI, 2004, p.59) Em função disso os brasileiros concentram-se em determinadas localidades e a tabela 2 mostra as províncias e o número de brasileiros onde se concentra a população de dekasseguis no período de 1993 a 2004.

20 8 TABELA 2: REGISTRO DE ESTRANGEIROS EM PROVÍNCIAS ONDE A MAIORIA DOS BRASILEIROS RESIDE Províncias Aichi Shizuoka Kanagawa Saitama Gunma Gifu Mie Nagano TOTAL Tabela 2: Nas províncias citadas acima estão, em média, 70% do total de brasileiros no Japão. De 1993 a 2004 houve grande aumento da população brasileira, duplicando e/ou triplicando o número de pessoas, com exceção da província de Kanagawa, que manteve-se estável durante os anos. Fonte: (HAYASHI, 2005, p.146)

21 9 A concentração de brasileiros em determinadas cidades propiciou o aparecimento de mercados, restaurantes, comércio, serviços, vestuário, produtos farmacêuticos e perfumaria, destinados aos brasileiros, criando territórios onde predomina a cultura brasileira. Sobre isso, CORRÊA (2002) explica que: Etimologicamente território deriva do latim terra e torium, significando terra pertencente a alguém. Pertencente, entretanto, não se vincula necessariamente à propriedade da terra, mas à sua apropriação. Essa apropriação, por sua vez, tem duplo significado. De um lado associa-se ao controle de fato, efetivo, por vezes legitimado, por parte de instituições ou grupos sobre um dado segmento do espaço. (...) por outro lado, pode assumir uma dimensão afetiva, derivada das práticas espacializadas por parte de grupos distintos definidos segundo renda, raça, religião, sexo, idade ou outros atributos. (CORRÊA, 2002,, p.251) Cria-se, numa determinada localidade das cidades, atividades comerciais destinadas aos brasileiros, apropriando-se de determinada área, uma rua ou bairro, caracterizando esta área pertencente aos brasileiros, da cultura brasileira, enquanto dimensão afetiva, subjetiva. HAESBAERT (2004), propõe quatro vertentes sobre a noção de território: - Política: a mais difundida, onde o território é visto como um espaço delimitado e controlado, através do qual se exerce um determinado poder, na maioria das vezes relacionado ao poder político do Estado. - Cultural: prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido. - Econômica: enfatiza a dimensão espacial das relações econômicas, o território como fonte de recursos e/ou incorporando no embate entre classes sociais e na relação capital-trabalho, como produto da divisão territorial do trabalho, por exemplo. - Naturalista: que se utiliza da noção de território com base nas relações entre sociedade e natureza, especialmente no que se refere ao comportamento natural dos homens em relação ao seu ambiente físico. (HAESBAERT, 2004, p.40) Assim, o território pode ter sentido concreto, de dominação, de poder, quanto simbólico, de apropriação e pertencimento, como ocorre nos caso das atividades comerciais destinados aos brasileiros. Os dekasseguis acabam freqüentando estes locais para lembrar do Brasil, para matar a saudade das comidas típicas, músicas, danças, festas, entre outros, pois apesar da distância, ainda sentem-se pertencentes ao seu local de origem, com seu espaço vivido.

22 10 Sobre isto, HAESBAERT (2004) afirma que assim, não é obrigatoriamente por sair de seu território de origem, mesmo no caso das migrações internacionais, que os migrantes se tornam, automaticamente, desterritorializados, o mesmo acontecendo em relação a sua identidade em termos de nacionalidade ou de grupo étnico. (HAESBAERT, 2004, p.249) Não é por estar em outro país que o migrante perde suas raízes, a cultura da terra natal. Este se desterritorializa, deixando seu país, sua cultura, e se reterritorializa no novo país, adquire novas territorialidades, assimilando a nova cultura, o novo estilo de vida, os hábitos e cumprindo regras para conviver em harmonia com a sociedade. A necessidade de mão-de-obra no Japão decorre, principalmente, pela alta escolaridade dos japoneses, o que faz com que estes almejem cargos na diretoria, administração, gerência, entre outros, nas empresas, recusando os serviços braçais, que requerem pouca ou nenhuma qualificação, geralmente encontrados em indústrias de eletro-eletrônicos, automobilísticas e de alimentos, como REIS (2001) coloca: Assim, a sociedade japonesa, que ostenta elevados índices de educação, já reflete a tendência universal do mundo pós-industrial de prestigiar os escalões mais elevados da hierarquia laboral, ainda que em detrimento de maiores salários em atividades menos nobres. Vasto contingente da população, ao lançar-se no mercado de trabalho, busca, de preferência, colocação no setor terciário da economia, privilegiando áreas como finanças, mercado imobiliário, profissões liberais, setor público e serviços em geral. (REIS, 2001, p.55) Ainda segundo Kawamura (1999): Estudos têm mostrado que os trabalhadores internacionais surgem com a falta de mão-de-obra em setores dinâmicos de economias avançadas, devido ao fato de os salários e a natureza do trabalho não serem atraentes para os trabalhadores locais e de o custo-benefício ser maior quando se empregam mais trabalhadores estrangeiros do que se investe em tecnologias. (KAWAMURA, 1999, p. 48) Assim, os tipos de trabalho exercidos pelos dekasseguis são considerados pelos japoneses como kitanai (sujo), kitsui (pesado), kiken (perigoso), conhecido como os 3K s. Posteriormente, os brasileiros adicionaram mais 2K s, que são os trabalhos considerados por estes como kibishii (exigente) e kirai (detestável). Têm-

23 11 se então os trabalhos 5K s, exercidos pelos dekasseguis. Segundo KLAGSBRUNN (1996): Em todos os casos de emigração, uma das poucas vantagens dos imigrantes frente aos naturais do país, é que, nos primeiros tempos, quando predomina a idéia de uma migração temporária, o migrante está disposto a aceitar qualquer tipo de trabalho, muitas vezes fazendo coisas que não aceitaria em seu próprio país. (KLAGSBRUNN, 1996, p.39) Mesmo os dekasseguis que possuem alta escolaridade exercem trabalho de baixa qualificação, pois no Japão sua formação acadêmica não é levada em conta. Certamente, esta pessoa, no Brasil, também recusaria trabalhos que exigem pouca qualificação e são mal-remunerados; porém, no Japão, quando comparados com os salários pagos no Brasil, estes tipos de trabalho são bem-remunerados e suficientes para a manutenção própria e de parentes. Quando há crise na economia ou na empresa, os primeiros a serem demitidos são os dekasseguis, sendo que muitos, por não contribuírem com o sistema de seguros oferecidos, ficam sem renda e podem se ver forçados a retornar ao Brasil. Assim, HARVEY (1989) coloca que a atual tendência dos mercados de trabalho é reduzir o número de trabalhadores centrais e empregar cada vez mais uma força de trabalho que entra facilmente e é demitida sem custos quando as empresas tornam-se deficitárias. Estão sujeitos ainda à mudança no turno ou período de trabalho em determinadas semanas, conforme GAUDEMAR (1977) explica: [...] o operário deve adaptar-se a uma modificação periódica do lugar do seu tempo de trabalho, no decorrer do dia; uma semana, trabalha de manhã, outra à tarde, outra ainda à noite, e conseqüentemente deverá conciliar com esse ritmo a sua vida fora do trabalho. A mobilidade da força de trabalho surge assim como a sua capacidade, não só de ser utilizada durante um máximo de tempo, mas além disso em qualquer momento do dia, apenas segundo as exigências do capital investido, na total indiferença do seu ritmo individual ou familiar de vida. (GAUDEMAR, 1977, p ) Assim, nota-se que o importante é produzir e acumular capital, independente da vontade e disponibilidade do trabalhador, pois este deve se adaptar e cumprir as condições do capital. Pode acontecer, nos serviços considerados perigosos, o dekassegui sofrer acidentes de trabalho, pois pode demorar a adaptar-se ao novo horário de trabalho e ao ritmo de produção (ver anexo A).

24 12 O empregado e o empregador têm obrigação de efetuar, mensalmente, os pagamentos de seguro saúde (kenko hoken), aposentadoria (kosei nenkin hoken) e seguro desemprego (koyo hoken). Segundo YOSHIOKA (1999, p.29), estas contribuições são chamadas de shakai hoken, que totalizam pouco mais de 13% do salário do trabalhador. Ainda segundo o autor, os seguros oferecidos dão direito ao trabalhador à: Kenko Hoken (seguro saúde) dá direito a assistência médica, mediante pagamento de 10% do custo do tratamento. Além disso, a partir da quinta falta por problemas médicos o seguro cobre os vencimentos em 60% da diária. Kosei Nenkin Hoken (aposentadoria) o trabalhador que contribuir por mais de 25 anos, ao atingir 60 ou 65 anos, poderá requerer aposentadoria. Entretanto, dificilmente os trabalhadores contribuirão por tanto tempo. Daí a aprovação da lei no dia 9 de novembro de 1994, determinando a restituição de parte dessa contribuição aos estrangeiros que retornam definitivamente ao seu país, mediante requerimento apresentado no decorrer de dois anos da saída do Japão. Koyo Hoken (seguro desemprego) é o seguro desemprego ao qual tem direito o trabalhador que tenha contribuído por mais de sete meses. O valor do benefício é de 60% do salário. Estes seguros garantem ao dekassegui, caso fique doente e seja demitido, uma renda mensal para sua manutenção, tendo também o auxílio do governo no pagamento das despesas do tratamento. O salário varia de acordo com o tipo de trabalho e o número de horas extras permitidas na empresa, o que faz muitos mudarem constantemente de emprego, buscando sempre aqueles que oferecem maiores salários e vantagens, mesmo que o horário, a jornada de trabalho e o esforço físico sejam grandes. Há casos em que o dekassegui muda de cidade ou de província em busca de melhores oportunidades. Sobre isto, GAUDEMAR (1977, p.191) explica que o dinheiro vem reforçar esta tendência e assim estimular a mobilidade da força de trabalho. Pouco importa o emprego, desde que o salário recebido em troca seja satisfatório. Porém, segundo Reis (2001, p.99), a inconstância no emprego, por outro lado, é apontada como uma característica negativa ao empregado brasileiro. Ainda

25 13 segundo a autora (p.101), a estratégia que os empregadores japoneses conseguiram até agora desenvolver no sentido de contornar a grande mobilidade do trabalhador brasileiro foi a instituição de prêmios por estabilidade no emprego. Uma notícia do Jornal-Nippo-Brasil mostra esta tendência, em que nos anos 1990 era constante a procura e troca de empregos, e atualmente essa prática deixou de ser vantajosa e aceita pelos dekasseguis e japoneses, conforme figura 1: Figura 1: As notícias dos jornais do ano de 1996 e 2003 mostram a mudança no comportamento dos dekasseguis. Fonte: Jornal Nippo-Brasil (02 a 08 de Agosto de 1996) e (03 a 09 de Setembro de 2003). A maioria dos brasileiros possui visto com validade de dois a três anos, com possibilidades de renovação. Os nisseis e sanseis têm um prazo de três anos de estadia legal para trabalhar no país, com possibilidade de prorrogação de sua permanência. De acordo com o Manual da Lei de Imigração Japonesa (1993), existem 7 tipos de visto e 27 status de permanência, conforme quadro 1:

26 14 QUADRO 1: TIPOS DE VISTO E STATUS DE PERMANÊNCIA TIPOS DE VISTO Diplomático Oficial Trabalho Comum Especial Visita Temporária Trânsito STATUS DE PERMANÊNCIA Diplomático Oficial Professores Artistas Atividades Religiosas Imprensa Investimentos e Administração de Empresas Serviços Jurídicos e Contábeis Serviços Médicos e Paramédicos Pesquisadores Educação Engenheiros Especialistas em conhecimentos humanísticos, tecnológicos e prestação de serviços internacionais Transferências internas das empresas Promoções de entretenimento Serviços técnicos especializados Atividades Culturais Estudantes universitários Estudantes de curso médio Estagiários Permanência de dependentes Atividades designadas Residentes em caráter permanente Cônjuges e filhos de japoneses e outros Cônjuges e filhos de residentes em caráter permanente Residentes por longo período Visita Temporária Quadro 1: Tipos de visto e status de permanência. Fonte: Manual da Lei de Imigração Japonesa (1993). Há casos em que a pessoa entra com o visto de visita temporária, que tem duração de 90 dias, podendo ser prorrogado, possibilitando que a pessoa trabalhe como dekassegui. Somente o visto diplomático e o oficial não possuem prazo determinado; o prazo estabelecido é a conclusão das atividades. O visto especial é emitido para os nikkeis brasileiros e seus cônjuges; o visto trabalho é voltado para os prestadores de serviços, profissionais que possuem conhecimento específicos para trabalhar no Japão; o visto comum é emitido para estudantes, estagiários, bolsistas, sua família e dependentes; o visto de visita temporária é emitido para turistas, pessoas que visitam parentes, que permanecem

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