POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA EURITMIA TERAPÊUTICA PARA O CAMPO DA FISIOTERAPIA: QUESTÕES DE ESTUDO.

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1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA - UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE E DO ESPORTE - CEFID COORDENADORIA DE TRABALHOS DE CONCLUSÃO DE CURSO - CTCC CURSO DE GRADUAÇÃO EM FISIOTERAPIA (BACHARELADO) POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA EURITMIA TERAPÊUTICA PARA O CAMPO DA FISIOTERAPIA: QUESTÕES DE ESTUDO. ELABORADA POR Mariana Sant angelo Reis COMISSÃO EXAMINADORA: Prof. Dr. João Batista Freire (UDESC) Orientador / Presidente Profª Leandro de Oliveira Acordi (UDESC) Co-orientador Dr.ª Luigia Affonso F. Nardone (UDESC) Membro Profª. Rita de Cássia Paula Souza (UDESC) Membro FLORIANÓPOLIS, DEZEMBRO/2009

2 Possíveis contribuições da Euritmia Terapêutica para o campo da Fisioterapia: Questões de estudo.... Possible contributions of Therapeutical Eurythmy to Physiotherapy: study matters FREIRE, João Batista 1 ; REIS, Mariana Sant angelo 2 Resumo: A medicina Antroposófica oferece um olhar complementar ao paciente com asma, através da Euritmia ou arte do movimento. O objetivo deste estudo foi buscar possíveis contribuições da Euritmia para o tratamento fisioterapêutico da asma, através da revisão bibliográfica convencional e antroposófica, entrevista semi-estruturada com um euritmista e observação de campo. Concluímos que a interação de abordagens distintas no tratamento fisioterapêutico consiste em uma via possível e promissora de ampliação de fronteiras no atendimento, bem como na elaboração de diagnósticos mais atentos ao indivíduo como um todo. Na concepção antroposófica a parte não está fora do todo, corpos e vivências são contempladas de forma integral e de correspondente importância. Palavras- chave: Antroposofia, Euritmia, Asma Abstract: The Anthroposophy medicine offers a complementary overview to the patient with asthma, through eurythmy or art movement. The objective of this study was to seek possible contributions of eurythmy therapy for the treatment of asthma, through conventional and anthroposophic literature review, semi-structured interview with a eurythmyst and field observation. We conclude that the interaction of different approaches in physical therapy is to be a promissing and possible option to expand the boundaries of care and the development of diagnostics more attentive to the individual as a whole one. To the anthroposophic conception part is not out of the whole, bodies and experiences are addressed fully and corresponding importance. Keywords: Anthroposophy, Eurythmy, Asthma 1 Professor Doutor João Batista Freire da Silva. Contato: 2 Acadêmica de Fisioterapia Mariana Sant angelo Reis. Contato:

3 Introdução A presente pesquisa surgiu de alguns questionamentos acerca do modo como os atendimentos fisioterapêuticos (seus objetivos e efetiva realização) vêm sendo realizados pelos acadêmicos do curso de graduação em Fisioterapia da Universidade Estadual de Santa Catarina, durante o estágio obrigatório. Estas questões surgiram a partir de nossas próprias experiências nesse estágio, iniciado em , que realizamos em hospital e clínica. Logo no início de nosso estágio, percebemos a necessidade de aproximar o fazer fisioterapêutico de uma atuação e conscientização ativa dos pacientes. Essas questões ganham sentido quando refletimos sobre o grau de consciência motora e sensibilidade requerida para que os movimentos realizados pelos pacientes tragam conseqüências benéficas para eles. Contribuições sobre este tema encontram-se em Bertherat (1990a; 1990b). São diferentes enfermidades que, uma vez sob o auxilio da fisioterapia, parecem necessitar, para além dos simples gestos mecânicos propostos pelo profissional de fisioterapia, também uma atuação ativa do paciente, que vise a harmonia de seu corpo como um todo. O próprio status do profissional de fisioterapia, encontra limites, frente a outras áreas da saúde, como a medicina (Pires, 1999; Leitão,1970; Trelha, et all. 2002). Freqüentemente aos olhos destes profissionais, o fisioterapeuta termina por ser um apêndice de menor valor para o restabelecimento da saúde. Em Cunha (2009) 1, encontramos a compreensão médica sobre outras profissões da saúde, em específico às finalidades da prática médica e fisioterapêutica. (...) uma gama de novos ofícios foi sendo incorporado em virtude da crescente especialização e das necessidades do mercado de trabalho. Este fato fica cristalino nas profissões que lidam com a saúde. Atualmente médicos, odontólogos, nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas e outros paramédicos participam em conjunto, da assistência à saúde em prol do bem estar social. Não se trata aqui de defender a primazia de uma profissão sobre a outra, (...) todos os profissionais da saúde são importantes (...) (IBID.). Continuando seu parecer, o referido autor apresenta o posicionamento do Conselho de Medicina de Santa Catarina. Sua argumentação considera o Decreto de Lei Nº 938 de 1969, que provê sobre as profissões de fisioterapeuta e terapeuta ocupacional: (...) importa o reconhecimento pelo próprio Decreto-Lei, de que o diagnóstico da doença, a prescrição do método ou técnica de cura, a supervisão da aplicação desses métodos ou técnicas - que não se confunde com a simples 1 Publicado nos Pareceres do Sítio do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina

4 execução deles - e a alta do paciente, estão a cargo não dos fisioterapeutas, mas de quem tem capacidade que estes não possuem: os médicos especialistas nesse terreno. (...) O executante - como o próprio decreto-lei em causa posiciona o fisioterapeuta e o terapeuta ocupacional - é mero auxiliar de quem tem a responsabilidade do tratamento como um todo, e esta é do médico (IBID.). O debate entre os campos de atuação do profissional de fisioterapia frente à medicina reflete a hegemonia como herança dos conhecimentos de caráter imediatista de causa e efeito da medicina sobre as prática na área da fisioterapia. Em outros termos, desde a formação até os atendimentos, a prática fisioterapêutica é diretamente influenciada pela área médica, intervindo diretamente no reconhecimento público sobre o conhecimento de ambas, ficando seu profissional subjugado as verdades médicas. Ampliando esta discussão para outras áreas da saúde, como é o caso de alguns estudos no campo da psicologia (CARDOSO, 2002; GONZALEZ REY, 1997) percebemos que algumas enfermidades acometidas não possuem causa somente fisiológica. Elas derivam de questões outras mais complexas, que invariavelmente são conseqüências de distúrbios psico-sociais. Nestes casos, o tratamento puramente mecânico e dissociado da atuação ativa dos pacientes através da falta de consciência sobre os movimentos e compreensão sobre os efeitos, parece acobertar as causas reais da doença e do diagnóstico mais favorável. Isto pode agir muitas vezes impedindo o restabelecimento da saúde ou retardando os processos de melhora do quadro patológico. Deste modo, algumas questões foram suscitadas durante nossa prática de intervenção: em que medida os sujeitos atendidos pela fisioterapia estão conscientes na realização dos movimentos durante seus atendimentos? Um maior grau de consciência sobre os movimentos teria maiores benefícios para seus praticantes? A partir disso, nossa hipótese é aqui sugerida através dos possíveis benefícios que um tratamento que preconiza trazer aos pacientes maior concentração e efetivo envolvimento na realização de um trabalho pode gerar. Tratamento este, movido pela emoção, sensibilidade e bagagem de memória de cada um, realizado através de práticas que utilizam outras formas de linguagem corporal e sensitiva, tais como cores, músicas e poemas. Sabendo das dificuldades que o tema sugere, mas motivados, sobretudo, pela relevância que tais inquietações possuem para a área de fisioterapia, propomos nossa pesquisa a partir de um enfoque mais amplo. Partimos de uma compreensão diferenciada, mas nem por isso excludente, no tratamento sobre as enfermidades. Se o tratamento fisioterapêutico segue indicações referentes ao modelo de ciência

5 convencional adotado e ao modo de compreender o conceito de corpo associado, parece necessário refletir sobre estas questões. A partir de um olhar atento é possível pensar a inadequação do saber científico clássico para tratar questões de caráter amplo, conforme Lopes (1997) sugere. Esses estudos possibilitam uma reflexão sobre temas das áreas da saúde, buscando uma assistência mais humanizada. A ampliação que propomos para o tratamento fisioterapêutico sugere uma inserção dentro de novas conjunturas paradigmáticas, em que o modelo biomédico tradicional se revela restrito e excludente. O enquadramento em uma terapêutica padronizada fragmenta o corpo e exclui suas singularidades e subjetividades. O presente estudo vai para além de uma proposta alternativa de trabalho terapêutico, já que tal conceito estaria sendo da mesma maneira restrito aos fundamentos da abordagem holística. Não é sobre esta concepção que o presente estudo se debruça. Sob a luz de leituras que o tratam em sua totalidade, em uma complexa relação que estrutura o ser vivo, buscamos um caminho novo para o fazer do fisioterapeuta e os tratamentos de enfermidades. Essa tentativa não é nova, basta buscar os atuais métodos que a fisioterapia vem legitimando em seu campo, tais como os métodos de RPG de Souchard (2001), GDS de Denys-Struyf (1997), Consciência pelo movimento de Feldenkrais (1988). Neste estudo, objetivou-se buscar conhecimentos através da Euritmia Terapêutica, cuja área está inserida no campo da Medicina Antroposófica. Para tanto, o primeiro passo foi realizar estudos para construir uma matriz teórica coerente com a proposta do projeto. Como plano de pesquisa, inicialmente foi localizado o conceito de Antroposofia e Euritmia a partir de alguns autores: Steiner (2000; 1994; 1988), Wennerschou (1997), Lanz (1994), tecendo diálogos possíveis entre os pensamentos destes filósofos, suas aproximações e distanciamentos entre si e entre os conhecimentos da ciência tradicional. Como metodologia para aprofundar nossa compreensão sobre o tema investigado, acompanhamos durante sete sessões, o trabalho de um terapeuta euritmista no atendimento de um caso pediátrico de asma. Registramos nossas dúvidas e observações através de diário de campo. Foi realizado também um conjunto de entrevistas semi-estruturadas com esse profissional. As vantagens na utilização de entrevistas como método de pesquisa é apresentado por Goldenberg (2000):

6 Permite uma maior profundidade; instrumento mais adequado para revelação de informação sobre assuntos complexos, como as emoções; maior flexibilidade para garantir a resposta desejada; pode observar o que diz o entrevistado e como diz, verificando as possíveis contradições (GOLDENBERG, Pg. 88). Com as entrevistas buscamos caracterizar o perfil do terapeuta; sua compreensão sobre a Euritmia terapêutica; a relação entre sua prática e os conhecimentos da Antroposofia; e, de que modo a Euritmia pode tratar a asma. No decorrer das entrevistas, buscamos considerar outros elementos que pudessem ser importantes. Para isso, a escolha de um instrumental metodológico flexível e propenso a novos questionamentos tornou-se mais adequado considerando a complexidade que o tema nos sugeriu. Portanto, nossa pesquisa se fez em processo, ou seja, durante o próprio pesquisar. Adotamos o referencial das ciências sociais, através de pesquisa qualitativa de caráter exploratório no sentido que Gil (1991) apresenta. Este método, por considerar vários aspectos do objeto estudado proporciona uma maior aproximação, pois na maioria dos casos, envolve: levantamento bibliográfico, entrevista com pessoas que tiveram experiências práticas com relação a esse problema, e abordagem e análises de exemplos favoráveis ao estudo (IBID.). Dessa maneira trouxemos novos elementos e concepções que nos possibilitaram dialogar com os conhecimentos da Fisioterapia, buscando possíveis contribuições para a área. Novas abordagens para o campo da Fisioterapia Nossas argumentações pretendem aproximar o campo da Fisioterapia com os conhecimentos antroposóficos através das literaturas consultadas em ambos os campos, das entrevistas e observações realizadas. Optamos por desenvolver o texto através de uma estrutura em que as diferentes abordagens foram constituídas de modo articulado com o objetivo de compreender nosso objeto de modo ampliado. Ela possibilitou ainda mesclar os conteúdos extraídos das coletas de dados e produzir um texto em que as diferentes visões puderam ser apresentadas simultaneamente de modo complementar, evitando, no entanto, negar suas diferenças ou pensá-las por antagonismo.

7 Novos personagens em cena A Euritmia é um campo novo e ainda incipiente em Florianópolis. A extensão de suas atividades insere-se nas áreas pedagógicas, artísticas e terapêuticas 2. Dado o interesse de pesquisa nesta última área, buscamos identificar os profissionais atuantes nesta cidade. Através de conversas com diferentes profissionais antroposóficos descobrimos que a Euritmia Terapêutica é representada por um único profissional atuante na cidade, que se tornou um sujeito-chave em nossa tentativa de compreender como esta prática terapêutica atua. Para tal objetivo escolhemos investigar a terapia a partir desse profissional, desvendando através de entrevistas e observações de campo seus princípios teóricos e práticos. Para que a privacidade do entrevistado seja preservada, o trataremos por iniciais. J.J. J.J. nasceu em São Paulo. Realizou sua formação em Witten-Annen, Alemanha, berço da Antroposofia. Primeiramente concluiu bacharel em Euritmia Artística, depois realizou outras duas especializações nessa mesma área: Euritmia Pedagógica e Euritmia Terapêutica. Por onze anos trabalhou em Florianópolis com a euritmia pedagógica paralelamente com a terapêutica, relatando haver grande aproximação entre elas, compreendendo-as inseparáveis. Durante seu trabalho pedagógico mantinha-se muitas vezes atento aos efeitos terapêuticos daquela prática para a saúde das crianças. (...) Existia essa mescla de uma experiência pedagógica entrando um pouco, nesse cunho terapêutico e vice-versa (J.J.). Notas sobre Antroposofia e Euritmia (uma análise dos dados) A aproximação entre diferentes culturas tem ampliado decisivamente nossas formas de compreender o mundo, o corpo e suas enfermidades. Entre estas possibilidades trazemos alguns apontamentos a partir da Antroposofia, teoria fundada por Rudolf Steiner. Nos ocuparemos com as linhas gerais de sua filosofia, buscando, através de alguns comentadores de sua obra, suscitar questionamentos e reflexões. Portanto, trata-se de um esboço teórico de sustentação para novos estudos para aplicação de contribuições do pensamento antroposófico como campo teórico prático para Fisioterapia. Os conhecimentos formados a partir da ciência moderna parecem ser insuficientes para tratar questões filosóficas sobre os seres humanos. Buscando novas 2 Adiante aprofundaremos o tema.

8 formas de abordar problemas relativos ao humano, percebemos haver a exigência de uma revisão paradigmática, tanto sobre os meios do fazer científico, como também sobre a visão de ser humano e das relações deste com o mundo em que vive. A primazia das correntes materialistas sobre posturas filosóficas espirituais alcançou seu ápice no interior da cultura ocidental no decorrer dos últimos séculos em conseqüência da separação entre filosofia e religião. Com o nascimento da ciência positivista, as pesquisas tornaram-se meros meios de aplicação de técnicas sobre uma situação previamente controlada, prejudicando o acesso intuitivo do homem ao mundo espiritual. Esta perda ocorreu tanto em nível teórico quanto prático, e alcançou as diversas áreas humanas, como a filosofia, educação, relações com o meio ambiente e saúde. Mas, se por um lado, a ênfase materialista limita a possibilidade de compreender o ser humano de modo amplo, também a valorização do espírito sobre o corpo apresenta seus limites. Nosso entrevistado colabora com o assunto em questão quando nos diz ser a patologia um desvio que está acontecendo num dado momento ocasionando uma unilateralidade das forças atuantes do ser humano. Tal disfunção é sintomática e representa um alerta para que tal situação possa ser revista pelo paciente. Rudolf Lanz, um dos comentadores da obra de Steiner, no livro Noções Básicas de Antroposofia (1994), aponta-nos para um impasse do homem moderno com relação à sua conduta frente ao conhecimento: Pois o homem moderno quer saber. Quer conhecer. Ele sabe que a sua dignidade de homem estará em jogo se não aspirar a esse conhecimento. Daí as suas perguntas eternas! Ele quer entrar conscientemente nesse reino fechado e aparentemente proibido para sempre. Mas como? Quais as possibilidades? Pesquisar mais profundamente o mundo sensorial ao seu redor? Mas ele já sabe que o próprio método científico atual desnuda esse mundo de toda a realidade, e que acaba encontrando limites fechados. Voltar à religião? Mas ele fugiu justamente da religião porque esta não conseguiu satisfazer sua sede de saber, de conhecer. Voltar à crença, à fé cega? Nunca! (IBID., p. 13 ). Estes extremos, tanto o ser humano demasiado material, quanto o demasiado espiritual, são considerados casos patológicos para a Antroposofia. O dilema sobre os opostos é superado na teoria antroposófica através da busca por restabelecer o equilíbrio. A tradição que separou o espírito e a matéria, tendo em Descartes seu maior representante, foi contestada através da busca pela unidade. Rudolf Steiner ilustra as forças que conduzem o ser humano através da divisão dos corpos em que matéria e espírito permeiam-se em corpo físico, etérico e astral. Lanz (1994) explicando-os:

9 O corpo astral recebe os impulsos e impressões dos mundos físicos e superiores. Com ele o homem reage, pensa e entra em intercâmbio com a realidade. O corpo etérico lhe dá a vida e fornece o instrumento para o pensamento, a memória e outras faculdades. Finalmente, o corpo físico é base material da sua existência atual. Ele fornece a matéria para os instrumentos que permitem ao homem participar do mundo físico (IBID., p. 26). Neste sentido, vislumbrando o ser humano com uma abordagem mais complexa o pensamento antroposófico aproxima-se de Bertherat (1982), quando nos diz que (...) corpo e espírito, psíquico e físico e até força e fraqueza, representam não a dualidade do ser, mas sua unidade (IBID., p.14). autor: Em Lanz (1994), encontramos ainda que Antroposofia é ciência. Citando o Mas uma ciência que ultrapassa limites com os quais até agora esbarrou a ciência comum. Ela procede cientificamente pela observação, descrição e interpretação dos fatos. (...) Sobretudo tem feito, sobre todos os domínios da vida prática, muitas contribuições e inovações concretas e positivas, verdadeira pedra-de-toque dos seus princípios; na medicina, na farmacologia, na pedagogia, nas artes, nas ciências naturais e na agricultura, fez contribuições de grande importância, sobre as quais existe uma abundante literatura. (IBID., p.14). Continuando, ele conclui: A Antroposofia significa sabedoria do homem. Mas não é apenas antropologia; é, na realidade, uma ciência do cosmo, tendo por centro e ponto de apoio o Homem (IBID., p.14). J.J também nos explica a origem e o conceito do nome dessa teoria, além de situar-nos, assim como Lanz (1994), agentes e pacientes de nosso meio de sobrevivência: A Antroposofia (Antropo = homem, Sofia = saber) estuda o homem através de uma cosmo-visão em que ele está inserido. Procurando uma forma de estudo ampliada, a partir destes questionamentos acerca da ciência atual, faz-se necessário o estudo e utilização de ciências filosóficas enraizadas na busca por uma assistência mais humanizada na área da saúde. Para Lanz (1994), a Antroposofia está fundamentada em alguns pressupostos que também estruturam a ciência tradicional. Não se trata aqui, de uma oposição absoluta, pelo contrário, a Antroposofia apresenta-se como um complemento à medicina acadêmica, não contradizendo esta, mas completando e interpretando suas descobertas.

10 Existem correntes na ciência moderna que admitem, ou antes, postulam certos princípios extra-físicos. A própria física atômica chega a este extremo (Heisenberg, Eisten) a biologia o faz (Teorias Gestaltistas, Portmanm), mas sempre reconhecendo que chegamos a um limite que a ciência não pode transpor. A ciência atual tem, portanto, que confessar sua incapacidade pois admite componentes que não podem ser captados pela observação nem pelo raciocínio. (Lanz, Pg.12). Lory Meyer-Smits preocupada em harmonizar a prática do movimento físico com o conhecimento espiritual do homem, sob a orientação de Rudolf Steiner, segundo Wennerschou (1997), desenvolveu a arte do movimento ou Euritmia. Segundo Horny (1982), Euritmia apresenta o prefixo eu que deriva do grego, com o sentido de designar tudo aquilo que em outras línguas tratamos por harmonioso, belo e bom. Podemos, assim, denominar a Euritmia como ritmo harmonioso. Confirmando a afirmação acima, nosso entrevistado explica que a Euritmia surgiu como arte do movimento sob a visão de mundo da Antroposofia. Para ele, a relação da possibilidade de movimento humano, assim como sabemos da movimentação do cosmos, se dá também pelo movimento interno e externo (aquilo que você vivencia físicamente e também o que vivencia em seus pensamentos, sentimentos, desejos).(...) Tudo isso é movimento. A Euritmia, explica ele, trás esse segundo propósito de movimento, o conteúdo interno, por meio dos membros. (...) Isso tem a ver com a consolidação do corpo aqui na terra. Para J.J. a ponte entre as manifestações humanas que não são tão físicas ainda, nem palpáveis, com o corpo, é a fala. É através da fala, ele completa,...e nosso corpo também fala, que podemos comunicar esses conteúdos mais sutis. De acordo com Lanz (1994), compreendemos que, para a Antroposofia, a fala gera um movimento interno no homem, expresso fisiologicamente pela laringe, pulmões... Além disso, movimenta o corpo etérico, formado pelas forças vitais do ser. Tanto o corpo etérico como o corpo astral, precisam de movimento contínuo para que não gere um desequilíbrio na balança. Ao escutar a palavra, o sujeito ativa suas forças vitais movimentando seu corpo etérico. A partir do conhecimento sobre a existência destes movimentos internos foi possível identificar no corpo físico, movimentos relacionados intimamente com a fala. Estes movimentos compõem a Euritmia. Nela, todo o corpo se manifesta, sendo principalmente através dos braços, que os movimentos etéricos deslizam. Para além da atividade da fala que se restringe na laringe, J.J. nos explica que, falar através da Euritmia, é usar a força dos fonemas no corpo, realizando a

11 movimentação viva de todo um ser. Segue ainda nos explicando que com esses movimentos podemos até mesmo apresentar uma música, uma peça teatral ou uma poesia. Mas que movimentos teriam ali em cada uma dessas belas expressões? (...) Todas elas estão repletas de fonemas, palavras, sentimentos, pensamentos (...) isso tudo são movimentos. Essa é a Euritmia Artística, onde você torna seu corpo todo um instrumento da fala (J. J.). Para realizar tal façanha, explica-nos o entrevistado, é preciso treinar muito o corpo e deixar levar-se pela consciência (referindo-se à técnica) e pelo sentimento (J. J.). Com o sentido de apresentar algumas considerações sobre o que é Euritmia, Horny (1982) a distancia de outras práticas, tal como uma educação corpórea através da ginástica ou exercícios em aparelhos. Faz a distinção também da educação física, dos esportes e da dança. Quando, enfim, busca definir o conceito, o faz de modo bastante complexo e geral, através de sua função. A Euritmia insere o anímico em algo objetivo para tornar visível uma regularidade mais elevada. Ela consegue desenvolver em nós e ao nosso redor, em passos cautelosos de um exercício assíduo, reconciliação, harmonia e paz. (Horny, pg. 2). Continuando suas explicações para compreender esta arte, Horny (1982) define uma necessidade de reconhecimento do ser humano como criado pelas forças do universo. Deste modo ela continua: Os gestos eurítmicos não foram inventados ou construídos, mas são a expressão de abrangentes leis superiores de movimento, que permeiam toda nossa criação, e se condensam no organismo humano. Na vivência delas, podemos pressentir a relação recíproca entre Universo e Homem, e conseguimos compreender o homem qual microcosmo dentro do macrocosmo. (Horny, Pg.2). Historicamente, sete anos após a criação da Euritmia, uma escola foi inaugurada com base nos princípios antroposóficos, intitulada Waldorf. Nesta escola a Euritmia foi incluída como matéria fundamental. Na subdivisão pedagógica da arte Euritmica, J.J. nos explica o papel do euritmista como um fomentador do desenvolvimento natural da criança, tendo em vista que toda pedagogia Waldorf apoia-se nesse processo : Não adianta eu entrar no primeiro ano com uma proposta intelectual querendo que a

12 criança realize uma forma geométrica. Coloco meus objetivos dentro de um propósito lúdico e vejo onde posso trabalhar com isso (J.J.). Dentro da sala de aula, mais tarde, as crianças aprendem a simbologia do fonema (A, B, etc...), que para J.J., em consonância com a teoria antroposófica, é apenas o final do reconhecimento que deveríamos ter por trás de toda essa representação. Reconhecimento este que se dá quando a criança vai, por exemplo, para a aula de Euritmia e faz um A com as pernas, com os braços, com as mãos, ou quando vivencia o sentimento a cada árvore, anjo, manhã ou aurora ouvida e pronunciada. Só após essa vivência ela deve sentar-se em uma carteira e aprender que esse A que ela fala é assim (nesse momento nosso entrevistado levantou-se e como se pudesse escrever no ar, esboçou três retas simbolizando o A escrito). A partir da abrangência antroposófica sobre várias áreas da vida humana, como na medicina, Steiner em 1921, proferiu palestras a respeito das inúmeras indicações para uma ampliação terapêutica utilizando-se os elementos eurítmicos. Partindo da questão de que a Antroposofia se propõe como conhecimento complementar à medicina moderna, Wennerschou (1997), situa a Euritmia neste contexto: Tanto a percepção do médico quanto a do euritmista dirigem ao mesmo paciente, mas diferentes planos da personalidade se tornam visíveis: o médico examina, pergunta, tem a sua frente um paciente estático ; o euritmista curativo tem interesse principalmente no movimento, podendo ler nos movimentos o que o paciente necessita. Isso significa uma complementação ideal quando médico e euritmista curativo se encontram para o bem estar do paciente (Wennerschou, Pg.21). Podemos compreender portanto, que a relação entre euritmista e médico, este antroposófico ou não, é benéfica para o paciente e que além disso, compreende como parte necessária ao tratamento eurítmico. As doenças, para a Antroposofia são explicadas como desequilíbrio entre o demasiado material e o demasiado espiritual no indivíduo, não interessando para qual lado a balança pese. Estes dois pólos sempre presentes no ser humano são descritos por Bortt (1980) como: 1)metabólico-locomotor - com sede no abdômem -, e 2)neurosensorial com sede na cabeça/sistema nervoso central. Percebemos ainda essa característica antagônica quando nos atentamos para o a localização desses pólos, bem

13 como a forma como se alojam: as partes moles ( pólo neuro-sensorial) localizam-se no ápice do corpo, e são envoltas por um material de consistência dura e circular caixa craniana; já o pólo metabólico-locomotor localiza-se nas extremidades e, ao contrário do pólo anterior, aquisão as partes moles que envolvem a matéria dura, que nesse caso é ponte-aguda e está mais para dentro da estrutura corporal. Bott (1972) ainda nos explica que, no primeiro pólo o movimento é constante e intenso sede do movimento, ocorrem trocas metabólicas e há imensurável capacidade de regeneração há um fazer e refazer constante - a exemplo o intestino ( refazer ); os órgãos reprodutores cuja função é a multiplicação celular ( fazer ). Bott (1972) aponta essa capacidade de regeneração como mais uma contraposição entre os pólos. No sistema onde impera o pensamento, sensibilidade e consciência, as células não possuem capacidade de regeneração. Ali impera um catabolismo permanente, com pouca presença do corpo etérico e muita influência do corpo astral. Porém, devemos entender que é sintomático menores manifestações de um pólo serem encontradas no pólo oposto. Esta regra, todavia, pode ser quebrada, e a exacerbação de uma das polaridades conferir na outra, características que a ela seriam antagônicas. Nesse caso estaríamos para Bott (1972), diante de um processo patológico que manifestar-se-á como sintoma de caráter físico ou psíquico. Nesse ínterim, o autor acima mencionado chama nossa atenção para a área de transição entre esses dois pólos, o sistema rítmico, localizado aproximadamente na altura mediana do corpo humano, com a principal função de relacionar as forças polares, expansão-eteridade-metabolismo visceral e contração-astralidade-sistema nervoso central. Não é por acaso que os órgãos situados nesse sistema - coração e pulmão -, possuem característica rítmica. Para Bott (1972) em consonância com Marques e Antunes (1999), o fato de, os desequilíbrios originarem-se dos pólos, tornam esses órgãos essencialmente sadios, e seu comprometimento pode ser sempre entendido como de ordem secundária. A função da Euritmia curativa é então demonstrada pela procura de uma figura dinâmica, a qual representa este equilíbrio, já que ele nunca pode ser compreendido por uma existência fixa. Quando algo no homem o está perturbando de maneira a tirá-lo de seu equilíbrio, isto é, quando ele fica doente, a Euritmia curativa atua nessa parte perturbada e pode ajudá-la a transformar-se por meio de uma atividade (WENNERSCHOU, p. 19).

14 Este equilíbrio, para nosso euritmista estudado, pode ser buscado através de movimentações restauradoras, em que o objetivo, ou é exacerbar o movimento no sentido patológico e depois retornar a homeostase, ou caminhar diretamente no sentido da cura. Explica-nos J.J. que só o dia-a-dia do trabalho irá apontar para a melhor decisão terapêutica. A respeito da primeira conduta terapêutica sugerida, pode-se fazer um paralelo com o raciocínio teórico ao qual a homeopatia apóia-se, semelhante destrói semelhante (Federação Brasileira de Homeopatia). Já a segunda conduta terapêutica descrita por J.J. tem por base, aparentemente o mesmo pensamento que estamos acostumados a observar em instituições de saúde cujo enfoque é baseado na ciência tradicional, no qual a saúde é preservada por um fármaco. Na intenção de proteger, essa terapêutica extingue o possível agressor do organismo, não esperando que este o faça sozinho. A respeito desse procedimento, a análise antroposófica realizada por Bott (1972), diz tratar-se de uma medida que mascara e internaliza o problema, o qual ressurgirá mais tarde. Ampliando essa discussão para o campo da fisioterapia, nos é possível entender a falta de autonomia sobre a etiologia da doença que se instala no paciente tratado pelo modelo fisioterapêutico tradicional. Do mesmo modo, a dependência que ele desenvolve através da delegação de responsabilidade sobre sua própria cura, assim como o limite baixo de consciência do seu próprio corpo. J.J. nos esclarece que quando fala em movimentações restauradoras, está intrinsecamente falando em forças atuantes (...) O movimento e a fala trazem essa possibilidade de lidar com o que está estagnado (manipular, restaurar...), pois quando falamos estamos criando, e a fala utiliza a força vital para ser criada. A Euritmia trabalha nessa fonte. Realizando um paralelo entre os dados coletados e a bibliografia tradicional e antroposófica, a partir de agora pretendemos apresentar reflexões abrangendo os diferentes pensamentos a respeito de uma patologia e um caso clínico. A patologia a ser abordada será a asma e a coleta de dados foi realizada através de perguntas ao Euritmista, bem como acompanhamento dos atendimentos que o mesmo ministrava para uma criança de seis anos com diagnóstico de asma. Para Fishman (1992) a asma é uma doença crônica episódica por natureza e na qual exacerbações agudas se interpõem entre períodos assintomáticos de variável duração. Em Sampson e Holgate (2006) encontramos que a patologia é uma síndrome caracterizada por episódios de obstrução variável do fluxo aéreo que são, em grande

15 parte, reversíveis espontaneamente ou como resultado de tratamento. Seguindo a mesma compreensão, Knobel diz ser a asma uma doença crônica das vias aéreas caracterizada por: obstrução do fluxo aéreo; inflamação e hiper-responsividade brônquica. Partindo de tais afirmações percebemos haver um consenso no âmbito da medicina tradicional no que diz respeito ao conceito de asma. Tradicionalmente define-se asma, seja qual for sua gravidade, como uma doença inflamatória crônica das vias aéreas com períodos de exacerbações e remissões. Quanto às origens de tal síndrome, autores que a tratam através da ciência tradicional, dizem esta ter uma grande relação com as características genéticas do paciente que predispõe a iniciar o processo inflamatório a partir de um alérgeno. Preferindo abster-se no aprofundamento de outras hipóteses, apenas citam termos generalizados, como fatores psico-sociais, sem, todavia explicar de maneira clara cada um deles. Dessa maneira os mesmos autores seguem discorrendo sobre prevalência, tipos, fisiopatologia, sintomas e tratamentos tradicionais para a doença. Sampson e Holgate (2006) descrevem três tipos diferentes de asma: a chamada extrínseca ou alérgica; intrínseca ou não alérgica, e ocupacional. A primeira é mais facilmente encontrada na literatura tradicional. As razões para isso talvez estejam colocadas pela valorização que a literatura tradicional dá às substâncias mensuráveis e facilmente descritas como critério de identificação das patologias. A asma extrínseca é assim representada por uma cascata inflamatória resultante em broncoconstrição provocada por um agente químico conhecido. Por outro lado, a asma intrínseca é de difícil diagnóstico e compreensão para a visão biomédica, sendo apenas descrito por Sampson e Holgate (2006) como presente em pacientes não-alérgicos e com início na fase adulta. Fishman (1992) com o intuito de aprofundar o desencadeante psicológico da asma intrínseca, cita van Helmont, do início do século XVII, o qual descreveu um episódio de asma após um período de tensão emocional: Um cidadão abertamente infamado e ferido por um Par do Reino, não pôde contra ele proferir uma palavra sem o receio da mais completa ruína; em silêncio dissimula e suporta a reprovação, mas exatamente depois surge uma crise de asma. (FISHMAN. 1992) A asma ocupacional tratada por Fishman (1992) como uma junção dos dois primeiros conceitos, tem suspeita de origem por insalubridade no ambiente de trabalho. Já Knobel não apresenta nenhum tipo de classificação diferenciada em sua literatura.

16 Ele apenas descreve dados quantitativos físicos, como: fluxo aéreo expiratório e residual anormais, sem preocupar-se com as causas desencadeantes dessa disfunção. Fishman (1992) não só acha útil apresentar a diferenciação da origem da patologia, como preocupa-se em citar os principais estímulos que podem provocar episódios agudos de asma. São eles: alérgenos; exercício físico; infecção, estresse ocupacional, fármacos e processos emocionais. Percebemos nesta última visão uma maior preocupação com desencadeantes não facilmente identificáveis e palpáveis, como o caso da asma intrínseca, onde os pacientes mostram a não-atopia a agentes físicos e químicos. Quando perguntamos ao nosso entrevistado sobre a etiologia da alergia desencadeante dos sintomas da asma, este nos explicou a existência não só de substâncias que causam hipersensibilidade em nossos órgãos, como de forças, tensões de ânimo ou qualidades, que administramos o tempo todo no ambiente em que vivemos, e podem também provocar reações alérgicas, de aversão ou super-proteção em nosso organismo. A pessoa se fecha para suportar diversas situações mais fortes do que ela (J.J.). J.J. ainda segue nos explicando que a asma é como uma congestão do elemento aéreo, no qual uma vez dentro do nosso corpo, esse elemento não consegue ser digerido ou metabolizado de maneira adequada. Na bibliografia antroposófica encontramos a explicação de como as polaridades já citadas acima, podem exacerbar forças no corpo e desequilibrá-lo no sentido da doença. Antes de adentrar no processo pensamental no qual a Antroposofia reconhece a asma, situemos na mesma linha de raciocínio o pulmão, sua função, origem embriológica, localização e vulnerabilidade externa. Assim como Marques e Antunes (1999) descrevem na Revista Arte Médica Ampliada, tanto o pulmão quanto o coração, situados na caixa torácica, exercem importante função rítmica para todo corpo - sístole e diástole-. Os autores seguem explicando que o pulmão apresenta uma vulnerabilidade muito maior vinda do sistema metabólico-locomotor, por ser seu sistema de origem. Com origem no endoderma, o mais inferior dos folhetos embrionários, também conhecido como intestino primitivo, este órgão irá diferenciar-se no desenvolvimento do embrião, em trato respiratório superior e inferior. Eles citam a importância do reconhecimento sobre os pólos metabólico-locomotor e o neuro-sensorial para compreender o desequilíbrio que antecede a patologia. Os autores ainda explicam que as patologias oriundas do sistema metabólico-locomotor manifestam-se por processos inflamatórios no resto do corpo, como é o caso da bronquite. Porém, o processo da asma provém do sistema neuro-

17 sensorial e suas forças exacerbadas conferem disfunções de caráter esclerosantes. Para Cavalheiro (2005) o coração é um órgão tipicamente afetado por este último sistema, cuja sede é a cabeça. Esse fenômeno é facilmente percebido quando observamos as freqüentes síndromes cardíacas - estresse, taquicardia emotiva, angina... Já no pulmão, a exacerbação desse mesmo sistema esclerosante é a causa provável da asma. A barreira hematósa presente no pulmão, mais propriamente dita nos aproximadamente 80 metros quadrados de contato entre alvéolos e capilares, para Cavalheiro (2005), é descrita como o local de troca de forças sutis na interação entre corpo físico e suprasensíveis....por um lado o ar impregna o sangue com forças astrais, possibilitando a encarnação terrestre, e por outro lado o sangue impregna o ar com forças de vida. O sangue impregnado de forças astrais espalha-se pelo corpo, possibilitando o desenvolvimento de uma vida anímica superior. Por outro lado o ar impregnado de forças de vida, do sangue, na expiração serve de força-motriz para a expressão de uma atividade anímica humana a fala. É neste espaço, explica o autor, que o ar capturado pelas vias aéreas e conduzido pelo pulmão começa a impregnar o sangue com forças astrais (esse processo irá efetivar-se no rim, como será explicado mais adiante). Cavalheiro (2005) ainda nos explica o que acontece quando este ar permanece enclausurado num pulmão hiperinsuflado, como é o caso da asma. Para ele, o pulmão, influenciado por uma exacerbação das forças astrais próprias do intelecto, começa a produzir sintomas de estagnação, rigidez e bronco-espasmo. Vale lembrar que tais manifestações assemelham-se com o caráter esclerosante oriundo do sistema neuro-sensorial. Portanto, partindo do princípio da quadrimembração antroposófica - a existência de quatro corpos, o físico, etérico, astral e o eu, formando um só -, temos como causa do distúrbio da asma, a desarmonia entre o corpo astral e o corpo etérico, ou seja, a desarmonia entre o pólo neuro-sensorial e o pólo metabólico-locomotor. Bott (1972), descreve como essa desarmonia procede no caso da asma. Ele explica-nos que isto ocorre quando a organização astral está penetrando de maneira exagerada os dois corpos subseqüentes ( etérico e físico), sem que haja uma regulação adequada mediada pelo corpo organizador ( o eu). Ou seja, a organização superior do eu não consegue dominar o astral que deixa de permear os corpos de maneira harmônica e equilibrada. Além de que o corpo etérico, encontra-se diminuído e fraco para exercer sua ação de harmonizar o ímpeto astral, que acaba por mergulhar intensamente na organização física.

18 Segundo Bott (1972), um dos aspectos que caracterizam o homem é sua sensibilidade que lhe confere desejos e temores. Para ele, esses estados afetivos lhe são interiores e externam-se pelos movimentos, que é o conteúdo do psiquismo, ou seja, são resultados de estímulos exteriores já internalizados há maior ou menor tempo. A invaginação dessas categorias confere ao animal a faculdade da interiorização.... expressão desse corpo astral, do psiquismo, do conteúdo da alma. O mundo exterior é interiorizado pelo corpo astral... Há como uma espécie de movimento respiratório, de alternância entre a interiorização, forma de simpatia, e a exteriorização, forma de antipatia, que nos faz concluir que o ar está ligado a estes processos (Bortt 1980). A afirmação de que o rim é diretamente atingido por um desequilíbrio das forças astrais, ou seja, do sistema neuro-sensorial, é explicada por Bott (1972), pelo fato de este possuir características próprias desse sistema, ter função excretora, a mesma origem embriológica e ainda aparentar-se fisicamente com as estruturas que o compõem. O rim apresenta um grande consumo de oxigênio, tem grande sensibilidade à anoxia, e pouca capacidade regenerativa. A fim de explicar-nos ainda mais a estreita relação do rim com o elemento ar, o autor ainda cita o fato de a secreção renal variar em função da pressão atmosférica. O rim, como explicou-nos J.J., tem a função de transformar o ar captado pela respiração em combustível para o organismo e parte dessa matéria prima em excreção sob forma de urina. Ou seja, sai o que é tóxico ao organismo e fica o que lhe dá vida, ou ainda, o que lhe confere um estado supra-sensível de animação humana. A conseqüência desse fenômeno realizado pelo rim além da função excretora é chamada pelo nosso entrevistado em consonância com Bott (1972), de radiação renal. Continuando J.J. explica-nos como age essa radiação proveniente do rim. Ela teria a função, segundo ele, de dar ânimo ao corpo, é o processo de animação das substâncias orgânicas oriundas do metabolismo hepático. Essa função, porém, encontra-se no indivíduo asmático, prejudicada pelas características de um corpo astralizado. J.J. então conclui que, características próprias do sistema neuro-sensorial, ou seja, de caráter apreensivo e constritor (como a memória) mergulham demasiadamente em outros sistemas, inclusive o sistema rítmico, e faz com que ocorra a bronco-constrição característica do asmático. A partir de nossas leituras percebemos que não há fluidez e vida sem água, portanto as forças etéricas precisam do suporte material do elemento água. Vimos acima que existem processos de dominação entre as forças que atuam em nós para manter o

19 equilíbrio saudável do corpo. Pois bem, se o rim tem por função eliminar água do metabolismo, fica explícita sua relação de eficácia com a boa regulagem das forças astrais (elemento ar). Quando essas forças encontram-se desreguladas, como no caso da asma, o corpo astral cresce demasiadamente e enfraquece o corpo etérico. Temos portanto, o estado saudável da permeação entre os corpos supra-sensíveis -descrito por Bott- desregulado. Segundo o autor o corpo etérico, que está entre o astral e o físico, tem a função de mediar a atuação astral no organismo vivo. No caso da asma, como o etérico encontra-se enfraquecido, não consegue regular as forças astrais que acabam por chegar ao organismo físico de maneira exacerbada. J.J. chama-nos a atenção também para o caso das glândulas supra-renais serem vistas pela medicina antroposófica como um suporte aos nossos medos ou tensões diversas presentes em muitos momentos da vida, principalmente em situações de stress emocional. Quanto a este assunto, percebemos haver um consenso, entre a medicina tradicional e a medicina antraposófica no que diz respeito a emoções que tem relação direta com as glândulas supra-renais. Em um artigo publicado pela USP (2204), na área da enfermagem encontramos contribuições para o estudo das supra-renais, seus autores explicam a função reguladora de stress ministrada pelas glândulas, através da produção de cortisol e adrenalina. Portanto, as supra-renais para a bibliografia médica tradicional, juntamente com reações do sistema nervoso central e outros componentes químicos, constituem a defesa do organismo contra o stress. Voltando ao nosso entrevistado, este nos explica o que pode acontecer quando esses sentimentos de stress fazem-se presentes com freqüência no organismo humano ou aparecem intensamente de maneira repentina, eles vão enfraquecendo o sistema renal. A asma também pode estar ligada a um susto na gravidez, um choque emocional. O fato de a criança não conseguir lidar com o ambiente em que vive, e segue por muitos anos suportando essa realidade, pode acarretar uma sobrecarga no sistema renal que vai enfraquecendo... o corpo astral passa a não funcionar adequadamente e pode fazer com que o movimento do sistema rítmico seja prejudicado (J.J.). Se o corpo astral com a dinâmica do sistema neuro-sensorial penetra excessivamente no sistema rítmico, surge o espasmo, a tendência a reter o ar. Nos deparamos com um processo neuro-sensorial exacerbado em uma região onde esse contexto não deveria estar imperando, mas sim a harmonia do rítmo essencialmente orgânico.

20 O estado de bem estar é caracterizado pela ausência do que se passa em nossos órgãos; nós nos damos conta de sua existência quando sua função está perturbada. Os processos de consciência pertencem normalmente ao nosso sistema neuro-sensorial, no pólo cefálico; lá eles estão em seu lugar certo (Bort. 1980, p.23). O autor utiliza uma frase ambígua para ilustrar esse aspecto modificado, ou fora do lugar, do nosso estado de consciência: não nos sentimos bem (IBID., p. 23). Quanto aos sintomas físicos, é unânime a aproximação dos estudos tradicionais e ainda, em certo grau, da bibliografia antroposófica. Pois o que nos é possível perceber através de exames clínicos e laboratoriais, são alterações decorrentes da capacidade das vias aéreas de alterar seu diâmetro aos estímulos endógenos ou exógenos. Esse processo tem sido designado como a reatividade das vias, que nada mais é do que a contração da musculatura lisa. Fishman (1992), nos explica que não importa qual dos estímulos desencadeie um episódio agudo de asma, uma vez que a crise comece, ocorrem alterações da mecânica pulmonar e das trocas gasosas nos pulmões. Em decorrência disso, alguns sintomas dos asmáticos são enumerados por Sampson e Holgate (2006), tais como: sibilo expiratório intermitente; opressão torácica e dispnéia; tosse; ronco expiratório disseminado; hiper-insuflação do tórax e utilização excessiva da musculatura acessória respiratória. Apesar da correlação dos achados clínicos da medicina tradicional com a antroposófica, quando falamos em tratamento, percebemos a grande lacuna entre as terapêuticas aqui abordadas. Compreendemos que o maior distanciamento entre as filosofias consiste no foco da visão do terapêuta sobre o mesmo paciente. Para entendermos as contribuições que o presente estudo traz à área da fisioterapia em relação ao tratamento da asma foi preciso suscitar como o pensamento antroposófico é engendrado a fim de esclarecer a doença. A Antroposofia admite todos os achados clínicos da medicina tradicional quanto à sintomatologia da doença. Porém, sob a lupa antroposófica nos é possível enumerar ainda alguns sintomas que para Bott (1972), referindo-se ao caso do asmático, seriam essenciais na exclusão de diagnósticos semelhantes. Sintomas estes, como a tendência à intelectualidade, a tendência a o que Freud chama de idéias fixas e a um catabolismo global aumentado. Todas essas características enumeradas acima descrevem, para Bott (1972), um indivíduo astralizado, ou seja, com as forças de seu corpo astral exacerbadas. Constatamos na asma um deslocamento de um processo, normal no polo

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