O NARRADOR-PROTAGONISTA DE O SOL SE PÕE EM SÃO PAULO: a experiência urbana

Save this PDF as:
 WORD  PNG  TXT  JPG

Tamanho: px
Começar a partir da página:

Download "O NARRADOR-PROTAGONISTA DE O SOL SE PÕE EM SÃO PAULO: a experiência urbana"

Transcrição

1 O NARRADOR-PROTAGONISTA DE O SOL SE PÕE EM SÃO PAULO: a experiência urbana Gínia Maria Gomes (UFRGS) O romance O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, tem início com a pergunta O senhor é escritor? (CARVALHO, 2007:11), feita pela dona do restaurante Seiyoken ao então cliente. Isso é essencial, posto transformá-lo em narrador da história que ela, Michiyo, tem urgência em relatar. O seu relato é apenas aparentemente simples, pois, pouco a pouco, a trama vai-se desdobrando e complexificando-se, com personagens que buscam o reconhecimento identitário e que, por isso mesmo, se angustiam diante da consciência do não pertencimento. Por isso mesmo, muitos deles sentem-se estrangeiros, desenraizados, como um trem em marcha, um avião em pleno ar, a própria transição que exclui a parada. (KRISTEVA, 1994:15). A um breve olhar, essa problemática logo se revela. Está presente em várias personagens do relato do Michiyo, como Jokichi, que perdeu a sua própria identidade graças às articulações paternas que, no intuito de salvá-lo, enviara para a guerra um dos seus empregados aquele que, por necessidade, se prest[ou] a assumir a identidade do filho, respondendo à mobilização no lugar dele (CARVALHO, 2007:45). Descoberta a impostura, Jokichi, já oficialmente morto, trava uma luta para reconquistar a identidade que fora emprestada a outro. Ao recuperá-la, é, no entanto, submetido à humilhação de ser tratado como desertor, culpa da qual não consegue eximir-se, sob pena de manchar a memória do pai. O próprio nome transformara-se em óbice para o convívio social. Nessa conjuntura, assumir outro nome é a solução que se apresenta. Com esse intuito, compra documentos falsos, dos quais só vai apropriar-se ao imigrar para o Brasil, depois de forjar o próprio suicídio, supostamente realizado na mata dos arredores de Kyosan (CARVALHO, 2007:84). E o que dizer do jovem que morreu na guerra com a identidade de Jokichi? Quais as suas motivações para tal ato? Michiyo nada fala sobre ele no relato que faz ao narrador. É na carta endereçada a Masukichi que ela reporta-se sobre a identidade do rapaz; nesta reflete sobre a sua ascendência e faz ilações sobre os motivos que determinaram tal decisão. Oriundo de uma família de párias, ele era um burakumin (CARVALHO, 2007:140, grifo do autor), excluído da sociedade, visto ser considerado gente impura, [...], simplesmente porque num passado remoto os antepassados deles teriam feito o serviço sujo, [...], teriam cuidado da carne e dos mortos, matando os animais que nós comemos e executando os criminosos que nós mandamos à morte. (CARVALHO, 2007:141, grifo do autor). Ele é aquele que não faz parte do grupo, aquele que não é dele, o outro. (KRISTEVA, 1994:100, grifo do autor). Só a alguém assim 835

2 estigmatizado, que crescera consciente de que sua presença era intolerável (CARVALHO, 2007:142), o pai de Jokichi teria coragem de fazer uma proposta tão ignominiosa: oferecer dinheiro para que ele assumisse a identidade do filho Não foi à toa que procurou um homem formado na humilhação (CARVALHO, 2007:142). E só alguém nessas condições teria aceito lutar por uma nação que o havia proscrito (CARVALHO, 2007:142). No entanto, não consegue manter o silêncio sobre essa identidade, porque, na frente de batalha, reconhecendo a solidariedade onde no fundo ela não existia (CARVALHO, 2007:142) Seiji, este era o seu verdadeiro nome, revela ao amigo a farsa de sua identidade: que tinha tomado o lugar de outro para lutar por um país que o rejeitava. (CARVALHO, 2007:142). A ruptura do silêncio é sintomática do sentimento de integração e de pertença que estava experimentando, o qual era novo para ele: afinal pertencia a algum lugar, era reconhecido pela pátria, lutava pelo país. (CARVALHO, 2007:142). O pretenso amigo não consegue manter o segredo, e o fato chega aos superiores. Um deles, primo do imperador, mata-o com o objetivo de apropriar-se de seu nome em disponibilidade e assim fugir aos Tribunais, onde era acusado de inúmeros assassinatos de guerra. Michiyo, a dona do restaurante, é também uma personagem que necessita assumir outra identidade para contar a sua história. Ela apresenta-se para o narrador como Setsuko, uma octogenária que deseja fazer o relato de uma história acontecida há mais de cinquenta anos, a qual teria presenciado, como amiga e confidente de Michiyo, personagem central desta trama, e depois como secretária. Essa identidade se mantém enquanto o seu relato perdura. Só é descoberta pelo narrador no final do livro, quando lhe é revelado que se trata da mesma personagem. Nela se apresentam três diferentes facetas: a de Michiyo, a octogenária dona de um restaurante o Seyoken; Michiyo, a jovem de vinte e três anos, obrigada a casar-se para saldar as dívidas paternas; Setsuko, a jovem de dezenove anos, cuja família vive uma situação de extrema precariedade financeira, pois perdera tudo durante a guerra, sendo, por isso, obrigada a trabalhar. Essas três facetas são complementares, não se excluem; ao contrário, se justapõem. O que interessa é apontar as razões que motivaram a assunção de outro nome. Acredita-se que isso decorra da necessidade de distanciar-ser, pois, segundo a avaliação do narrador, Não se sentia à vontade para contar com seu próprio nome. (CARVALHO, 2007:33). Assim como essas personagens, o narrador-protagonista também busca estabelecer uma relação de pertença com o mundo em que vive. A sua história se descobre na medida em que ouve/narra o relato transmitido por Setsuko, sendo a sua condição similar à dessas personagens: também ele revela-se um estrangeiro no mundo em que vive; também ele extravasa a sua situação incômoda decorrente do sentimento de não pertença, seja ao mundo japonês, que procura negar, seja ao brasileiro, no qual deseja inserir-se. É a sua trajetória que se pretende percorrer neste artigo. 836

3 Bisneto de japoneses imigrados para o Brasil no início do século XX, esse narrador yonsei nega a cultura de seus ancestrais, sem, contudo, conseguir reprimi-la. O Japão construído em terras estrangeiras, de cuja imagem obsedante ele deseja livrar-se, impõe-se em seu percurso como a própria imagem do inferno e dos [seus] pesadelos de infância (CARVALHO, 2007:27). É uma sensação de estranhamento que aflora nas ocasiões em que ele se depara com a reconstrução desses espaços japoneses. Isso ocorre ao divisar o jardim japonês em miniatura da casa de Setsuko, quando deixa extravasar o seu impacto diante do que vê: Eu não podia crer nos meus olhos (CARVALHO, 2007:27). Então as imagens da infância se sobrepõem e se confundem para dar visibilidade ao país dos seus antepassados, perpetuada na memória: Desde pequeno guardei a imagem de um Japão de brincadeira, como um parque infantil, ao mesmo tempo pobre e irreal, um mundo de canteiros caiados construídos por anões no interior de São Paulo. (CARVALHO, 2007:27). Ver esse mundo em miniatura desencadeia nele um forte sentimento de não pertença, o que é expresso na sensação de horror e no temor de não caber neste mundo e de já não ter os meios, nem materiais nem imaginários, de escapar dele. (CARVALHO, 2007:28). Sensação igualmente incômoda e impactante é expressa ao deparar-se com o monumento japonês à saída/entrada de Promissão: Num instante, me vi de novo diante do mundo em miniatura que me perseguia desde a infância, os canteiros com as bordas de cimento caiado, os bancos de cimento, um mundo hesitante entre o parque de diversões de província e o cemitério. O aspecto fúnebre e macabro daquela pequena encenação tão simples e tão pobre me fez querer sair dali às pressas, sufocado, à procura de um pouco de ar. Entrei no carro e dei a partida. (CARVALHO, 2007:95). Repare-se nesse trecho a reprodução das mesmas imagens que se impuseram ao entrar na casa de Setsuko, as quais mostram o quanto esse mundo em miniatura o afeta, tanto que sente-se sufocado, o que determina a sua imediata partida de Promissão. Quando do seu retorno para São Paulo, prefere arriscar-se em uma estrada [...] perigosa à noite (CARVALHO, 2001:98) a passar novamente pelo local: Não queria rever o monumento japonês, um jardim de anões, ao mesmo tempo pobre e irreal, singelo e fúnebre. Procurava outra saída. (CARVALHO, 2001:98). O seu temor, que motiva a escolha de outra rota, apesar dos perigos a ela inerentes, dá a dimensão do seu movimento de fuga. É significativa a frase Procurava outra saída., que pode ser vista como a metáfora de seu momento. Consciente de que voltar-se para o mundo dos antepassados é o caminho que não deseja trilhar, ele estava em busca de um outro ainda não divisado em seu horizonte. Certamente este é um importante conflito da personagem: não sentir-se integrado à cultura japonesa, mas também não poder reprimi-la. Com esse intuito o de manter-se afastado 837

4 tent[ava] fugir como o diabo da cruz de tudo o que fosse japonês (CARVALHO, 2007:28). A partida da irmã para o Japão, cujo propósito era trabalhar em uma fábrica de carros, porque ganharia mais como operária do que como professora universitária em São Carlos (CARVALHO, 2007:29), lhe traz a consciência de que não obstante terem perdido os costumes e a língua (CARVALHO, 2007:29), o movimento de volta era uma realidade possível; no entanto, realizar esse percurso inverso ao dos bisavós seria reconhecer o fracasso e a humilhação, validando a frase pronunciada pela autoridade de Kobe mais valia se matar no país do desterro do que voltar como fracassados (CARVALHO, 2007:29). A sua interpretação do fato de a irmã não permitir que ele a visite, vai justamente nesse sentido: Não queria que eu visse como vivia que confirmasse o meu pesadelo e a minha prognose de que viver no Japão, para nós dois pelo menos, seria pôr em marcha a engrenagem da qual fugiram os bisavós ao emigrar para o Brasil. (CARVALHO, 2007:108). O caminho de volta realizado pela irmã confirma a ideia do fracasso, 1 perigo para o qual os bisavós foram alertados, ainda no porto, antes da partida. Contra todas as suas próprias precauções e também contra as advertência da irmã tentou me dissuadir de todas as maneiras quando lhe falei dos meus planos (CARVALHO, 2007:104), ele decide viajar ao Japão, em busca de respostas para a história de Setsuko, deixada inacabada. Setsuko desaparece, a casa é destruída, o restaurante é fechado e ele, obcecado pela história, da qual não podia mais [se] livrar (CARVALHO, 2007:94), anseia pela sua continuidade: Eu queria o resto, o fim. (CARVALHO, 2007:94). Sem alternativa, segue a única pista que lhe dá o sushiman e vai para Promissão. Lá é tomado de perplexidade diante da revelação de que Setsuko, na realidade, era Michiyo, a principal personagem do relato. Em vez de respostas, novas perguntas se descobrem, como essa sobre a identidade de Setsuko/Michiyo. Volta ao restaurante com o objetivo de saber qual o verdadeiro nome da proprietária, e a descoberta feita em Promissão se confirma. O suschiman lhe entrega um envelope enviado a Kobe, cujo destinatário não havia sido encontrado; por isso a carta fora devolvida: este era Masukichi e o remetente, Michiyo. A viagem então se impõe, pois, na sua perspectiva, só Masukichi poderia lhe dar as respostas silenciadas por Michiyo. 1 As várias reiterações dessa idéia associar o retorno ao Japão ao fracasso mostram o seu temor de que a falta de oportunidades torne esse percurso inevitável: Voltar ao Japão como operário (apesar de nunca ter posto os pés lá antes) seria perpetuar o fracasso e o erro, a fuga apenas nos afundava ainda mais no inferno. (CARVALHO, 2007:20). No encontro com a irmã, em Osaka, ao observá-la e constatar as suas transformações, questiona o movimento realizado pelos bisavós: O corpo dela havia ficado tão pequeno. Também ia desaparecer no escuro, como todos os outros, para mostrar aos bisavós que de nada tinha adiantado fugir para o outro lado do mundo, para viver debaixo do sol e de toda aquela claridade ofuscante. A sombra sempre estaria no nosso encalço. (CARVALHO, 2007:113). 838

5 Essa viagem, cujas motivações são outras, completamente diferentes das da irmã, permite-lhe levar ao paroxismo a experiência da não pertença. Agora a questão não apenas é mostrada como sentimento interno, mas é desdobrada através do não reconhecimento dos habitantes locais, que o percebem como outro, como estrangeiro, e, como tal, o excluem. Em Osaka, logo de sua chegada, essa circunstância fica transparente. Sem saber onde fica o hotel, dirige-se às pessoas em inglês lembre-se de que ele não falava japonês, e, por isso, não consegue alguém que lhe informe onde se situa. Apesar de o homem de terno (CARVALHO, 2007:106) ser inicialmente receptivo, ao notar que se trata de um estrangeiro, afasta-se imediatamente: fugiu de mim assim que percebeu que eu era estrangeiro (CARVALHO, 2007:106). Certamente os traços físicos dos ancestrais ainda permanecem incólumes, posto o homem não ter distinguido imediatamente a sua condição. Nessa conjuntura, é a língua que o denuncia. As outras tentativas de abordagem foram catastróficas, provavelmente porque, ao falar em inglês, a sua identidade é logo revelada: Eu tentava me aproximar das pessoas, em inglês, e todas fugiam de mim. Desviavam-se, olhavam para o chão, fingiam que não me viam, que não me ouviam. Uma mulher chegou a apertar o passo, como se eu fosse um mendigo bêbado a importuná-la, enquanto eu a acompanhava, repetindo por favor, por favor. Eu era a lepra. Comecei a rir sozinho na rua. Que é que eles tinham? Eu olhava para o alto, para deus, acho, e ria. As pessoas me evitavam. (CARVALHO, 2007:106). Ressalta-se do trecho que, para os japoneses, ele é o estrangeiro, circunstância que motiva a sua segregação. Sentir-se a lepra dá a medida da sua própria sensação de não pertencimento. A reação dos habitantes locais está em consonância com as reflexões de Zygmunt Bauman (2004:139), para quem a insegurança das grandes cidades desencadeia sentimentos mixofóbicos [...] estimulados e alimentados por uma sensação de insegurança esmagadora. A segregação a que o protagonista é submetido é de tal ordem que, mesmo encontrando-se próximo ao hotel, não há pessoa alguma a indicar-lhe o caminho, porque todas o evitavam, o que determina o prenúncio de um choro já estava pronto para chorar (CARVALHO, 2007:107), o qual é sintomático de seu estado, motivado pela rejeição de que fora objeto. Se no Brasil ele se sente fora de lugar, no Japão, ele é visto como outro, como aquele que não é do lugar. Não obstante a negação da cultura japonesa, ele já a introjetou. Tanto é assim que, quando a sua obsessão pela história de Michiyo, deixada incompleta, o mobiliza para a viagem ao Japão, ele pensa nesse país como se já fosse conhecido. Nesse sentido, observe-se o quão significativa é esta sua frase: Só me restava voltar para onde eu nunca tinha ido. (CARVALHO, 2007:104). Uma sensação de conhecer o lugar lhe ocorre em Tóquio, ao passear pela cidade: Era domingo, e havia pouca gente nas ruas. O ar frio batia no meu rosto. Embora 839

6 eu nunca tivesse pisado ali, tudo era reconhecimento, como se eu estivesse voltando para casa. (CARVALHO, 2007:122). Com certeza, a reprodução dos monumentos e a tentativa de reconstrução de referências japonesas, feitas pelos imigrantes, contribuíram para essa sensação de reconhecimento. Apesar de seu movimento de fuga à cultura japonesa, ela permanece latente, para aflorar em situações específicas. Dessa dupla face introjeção e fuga decorre o ter-se transformado em alguém sem lugar do que ele tem uma consciência aguçada. Em Osaka, com a irmã, as suas reflexões evidenciam tal problemática: Eu ainda lembrava dos dias que passamos juntos nos ônibus a caminho de Bastos e das cidades em miniatura, recordações de gente que já não cabia em lugar nenhum, a condição que herdamos. (CARVALHO, 2007:109). E esse não pertencer é tanto pela sua condição de dességuis analfabetos (CARVALHO, 2007:29), sem o domínio da língua e dos costumes; quanto por viver em São Paulo, sendo oriundo do interior. Nessa metrópole, a experiência do estranhamento, de sentir-se não integrado está em evidência, o que as suas palavras confirmam: E, no entanto, é disso que as ruas de São Paulo tentam convencer quem passa por elas: que está em outro lugar, num esforço inútil de aliviar a tensão incômoda de estar aqui, o mal-estar de viver no presente e de ser o que se é. (CARVALHO, 2007:14-15). Esse mal-estar vivido pelo protagonista está em sintonia com as observações de Walter Benjamin (1985:99) que, em A Paris do Segundo Império em Baudelaire, aponta para a complexidade da cidade moderna, avessa à realização do indivíduo: Os obstáculos que a modernidade contrapõe ao elã produtivo natural do ser humano encontram-se em desproporção às forças dele. O sentimento de não pertencimento do protagonista apresenta-se com extrema contundência, visto ser movido por forças diferentes que, porém, estão justapostas: não cabe no mundo [japonês] em miniatura e não se integra à cidade. Nesta ele não consegue inserir-se, de um lado, por ser-lhe impossível despojar-se da carga cultural que lhe foi imposta e, de outro, por não encontrar na metrópole o abrigo que buscam os oriundos de outros lugares. O seu desencontro passa pela escolha profissional, que não fora motivada pelo seu próprio desejo; porém, pela sedução da proposta paterna: Veio do meu pai a ideia de que eu devia ser publicitário para tocar os negócios que ele iniciara e criar os textos aos quais as lâmpadas dariam visibilidade, corpo e movimento. (CARVALHO, 2007:15). Além disso, ele encontrava-se desempregado. A questão não é muito comentada, mas as observações esparsas não deixam dúvidas de que se sentia um fracassado: depois de me foder por nada, trabalhando como redator de comerciais de uma agência de publicidade (CARVALHO, 2007:10). Certamente o seu malogro pode ser atribuído à escolha errônea, alheia aos anseios pessoais. Aliada a sua derrota profissional está a ruptura do casamento, que ocorreu um ano antes, quando a mulher o deixou para viver com um cara desprezível mas bem-sucedido. (CARVALHO, 840

7 2007:19). É significativo que, nas poucas vezes em que se refere a essas circunstâncias, ele as coloque lado a lado. A sua situação, quando é interpelado pela dona do restaurante, é de extrema precariedade, sobretudo, por terem-se rompido os laços identitários que construíra na cidade: o do trabalho e o da família. Essa desconstrução é sintomática da fluidez identitária, sobre a qual reflete Bauman (2005:32, grifo do autor): Buscamos, construímos e mantemos referências comunais de nossas identidades em movimento lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo. A ruptura desses laços não lhe permite divisar outros caminhos, o que se pode inferir desta sua observação: eu me via desempregado e sem nenhuma outra perspectiva (CARVALHO, 2007:12). Mais adiante ele faz uma ressalva similar: A minha obsessão cresceu conforme todas as outras perspectivas foram por água abaixo. (CARVALHO, 2007:19). Pode-se, agora, entender a sua reação intempestiva à pergunta de Michiyo que abre o romance. Sob o efeito do impacto, ele mesmo reconhece que os seus gestos certamente foram contundentes, pois levaram-na a desculpar-se Devo ter arregalado os olhos de um jeito que costumava afligir minha mulher, tanto que ela logo se explicou, como se pedisse desculpas, referindo-se a um garçom: O rapaz me disse que o senhor é escritor (CARVALHO, 2007:11). Percebe-se o impacto dessa interpelação ao considerar-se a derrocada de sua vida pessoal e profissional, aliada à falta de perspectivas. Nessa conjuntura, essa pergunta desperta um sonho acalentado na juventude uma fantasia que [ele] achava ter enterrado (CARVALHO, 2007:12), daí a sua reação imediata Pela primeira vez, senti[ndo-se] mal de estar ali (CARVALHO, 2007:12) e a subsequente partida, que demonstram o quanto esses sonhos ainda eram presentes e continuavam a ser acalentados, como confessa na continuidade da sua reflexão: entendi que não tinha vencido os sonhos de adolescente, como chegara a acreditar, porque ainda nutria aquela fantasia infernal, só que agora em silêncio, só para mim. (CARVALHO, 2007:12). A escrita, para ele, não era mero diletantismo, mas apresenta-se como agente de salvação: No fundo ainda achava que pudesse escrever e um dia me salvar não sabia bem de quê. (CARVALHO, 2007:12). A escrita, da qual ele havia desistido sem fazer nenhuma tentativa, assoma como um caminho que se abra para ele, para quem todas as perspectivas foram por água abaixo. (CARVALHO, 2007:19). Passado o impacto inicial, escrever assume outros significados, que vão sendo agregados à ideia de salvação. Nesse convite de fazer o relato, ele descobre um sinal, vendo-o como sua grande chance (CARVALHO, 2007:17), desejoso de acreditar que aquela mulher tinha o poder de me transformar em um escritor. (CARVALHO, 2007:17). Escrever a história que Michiyo tinha urgência em contar era, portanto, a chance de transformar[-se] em escritor. E o que isso significava para ele? Significava a possibilidade de integrar-se, de pertencer ao país 841

8 onde nascera. Tendo malogrado nas outras tentativas de inserção, a apropriação da escrita através da imersão na literatura era afastar-se do risco de algum dia ter que pisar o Japão, por necessidade (CARVALHO, 2007:20). A escrita é de fundamental importância para o seu sentimento de pertença. Quando isso acontece, o livro acaba. Então, finalmente teria ele conseguido a tão ambicionada integração? Possivelmente! O término do livro, com o relato de Michiyo transformado em romance pronto, aponta para isso. No entanto, para que pudesse realizar-se, foi necessário ir ao Japão e mergulhar nas suas origens, enfrentando, dessa forma, o seu medo de permanecer na terra dos antepassados por falta de perspectiva. E note-se que, para a viagem, ele se despojou de seu carro, o seu último bem material, o que aumentava o risco de fazer o percurso inverso àquele realizado pelos bisavós, e isso o atemorizava sobremaneira. Mesmo assim fez a viagem, e, ao confrontar o mundo dos ancestrais, ele se revigorou, o que lhe deu condições de seguir o próprio sonho de incursionar pela literatura. Escrever o romance certamente é o passaporte para inserir-se na cidade, perceber-se integrado e pertencente ao país onde nasceu, consciente dos percalços dessa trajetória: A literatura podia ser a minha miragem, mas pelo menos era uma forma de abraçar o inferno como pátria. No fundo, era nisso que eu acreditava. Escrever em português era para mim uma forma de romper com a ilusão de imigrantes dos bisavós (que era possível escapar ou voltar atrás) e reconhecer de uma vez por todas que estamos todos amaldiçoados, onde quer que seja. Sempre. E que o Céu é aqui mesmo. (CARVALHO, 2007:19-20). Sim, a crer nas palavras desse narrador, essa é uma possibilidade de leitura. Mas o que dizer de suas reflexões no final do romance, quando, em uma breve síntese sobre as personagens, ressalta o não pertencimento que as caracteriza, e, na continuidade, ele mesmo identifica em si essa condição? As suas palavras são eloquentes: Uma história de párias, como eu, e os meus, gente que não pode pertencer ao lugar onde está, onde quer que esteja, e sonha com outro lugar, que só pode existir na imaginação em nome da qual ela me contou uma história que pergunta sem parar a quem a ouve como é possível ser outra coisa além de si mesmo. (CARVALHO, 2007: ). A identificação com personagens que não se enquadram em seus respectivos contextos permite a percepção da arguta consciência do narrador-protagonista, que reconhece o seu não lugar no mundo, porque, como Michiyo, que afirma sentir[-se] amputada desde que saíra do Japão, como uma perna ou um braço que não pertencessem a lugar algum (CARVALHO, 2007:124), e os outros seres do seu relato, também ele vive a angústia do não pertencimento. São personagens que vivenciam a condição de estrangeiros, a qual, muitas vezes, apresenta-se 842

9 internalizada: o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta da nossa identidade, o espaço que arruína a nossa morada, o tempo em que se afundam o entendimento e a simpatia. (KRISTEVA,1994:9). REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, BENJAMIN, W. A Paris do Segundo Império em Baudelaire. In: Walter Benjamin. São Paulo: Ática, p CARVALHO, Bernardo. O sol se põe em São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco,

VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ A história completa Francisco Ferreira (Mr. Smith) Nova Edição Abril de 2006 Ilustrações: Alex G. S. VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ O livro conta a história completa da saga de um jovem

Leia mais

O PODER DO AGORA. Eckhart Tolle UM GUIA PARA A ILUMINAÇÃO ESPIRITUAL * * *

O PODER DO AGORA. Eckhart Tolle UM GUIA PARA A ILUMINAÇÃO ESPIRITUAL * * * O PODER DO AGORA UM GUIA PARA A ILUMINAÇÃO ESPIRITUAL * * * Eckhart Tolle ÍNDICE INTRODUÇÃO... 7 A origem deste livro... 7 Verdade está dentro de você... 8 VOCÊ NÃO É A SUA MENTE... 10 O maior obstáculo

Leia mais

Onde está Tereza? Pelo espírito Lucius Zibia Gasparetto. 1ª Edição Dezembro-2007. Centro de estudos Vida& Consciência Editora Ltda. São Paulo-SP.

Onde está Tereza? Pelo espírito Lucius Zibia Gasparetto. 1ª Edição Dezembro-2007. Centro de estudos Vida& Consciência Editora Ltda. São Paulo-SP. Índice PRÓLOGO... 5 CAPÍTULO 01... 7 CAPÍTULO 02... 14 CAPÍTULO 03... 20 CAPÍTULO 4... 26 CAPÍTULO 5... 32 CAPÍTULO 6... 39 CAPÍTULO 7... 45 CAPÍTULO 8... 51 CAPÍTULO 9... 57 CAPÍTULO 10... 63 CAPÍTULO

Leia mais

AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo Nathaniel Branden

AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo Nathaniel Branden AUTO-ESTIMA: Como aprender a gostar de si mesmo Nathaniel Branden Capítulo 1 A importância da auto-estima A forma como nos sentimos acerca de nós mesmos é algo que afeta crucialmente todos os aspectos

Leia mais

Orelhas do Livro Orelha esquerda: "T. Harv Eker desmistifica o motivo pelo qual algumas pessoas estão destinadas à riqueza e outras a uma vida de

Orelhas do Livro Orelha esquerda: T. Harv Eker desmistifica o motivo pelo qual algumas pessoas estão destinadas à riqueza e outras a uma vida de Contra-capa Se as suas finanças andam na corda bamba, talvez esteja na hora de você refletir sobre o que T. Harv Eker chama de "o seu modelo de dinheiro" - um conjunto de crenças que cada um de nós alimenta

Leia mais

Copyright 2008??? Capa Retina 78 e ECD. Projeto gráfico Retina 78. Imagem de capa Peter Dozendey / Getty Images

Copyright 2008??? Capa Retina 78 e ECD. Projeto gráfico Retina 78. Imagem de capa Peter Dozendey / Getty Images o vencedor está só o vencedor está só Copyright 2008??? p. 9 - Seja você quem for, Walt Whitman. Tradução de Geir Campos publicada em Folhas das folhas de relva, Ediouro, 1983. p. 121 - A estrada não

Leia mais

Capítulo 3 A Tríade do Tempo

Capítulo 3 A Tríade do Tempo Capítulo 3 A Tríade do Tempo www.triadps.com www.neotriad.com 002575_Gestao_Conhecimento_ID/tRIADE/W www.neotriad.com Capítulo 3 A Tríade do Tempo A vida é curta, por isso não faça dela um rascunho, pois

Leia mais

Onde habitar é possível

Onde habitar é possível Onde habitar é possível Rafaela Arrigoni O habitar não se limita a uma habitação, no sentido de uma casa ou de um abrigo, mas estende-se na medida em que o espaço construído é palco para a vida. Habitamos

Leia mais

fazendo minha história Guia de ação para o trabalho em grupos

fazendo minha história Guia de ação para o trabalho em grupos fazendo minha história Guia de ação para o trabalho em grupos 1 fazendo minha história Guia de ação para o trabalho em grupos apresentação Estar em grupo nos dá a sensação de estarmos mais vivos. Pelo

Leia mais

Equilíbrio a vida não faz acordos

Equilíbrio a vida não faz acordos Parte I Olhe! Ageusia Tempo Nunca será suficiente Onde está você agora? Férias Natal A vida não faz acordos Eu não gosto de trabalhar Só depende de mim Insegurança Parte II Istambul Capadócia Dia seguinte

Leia mais

Educação ainda que tardia: a exclusão da escola e a reinserção de adultos das camadas populares em um programa de EJA *

Educação ainda que tardia: a exclusão da escola e a reinserção de adultos das camadas populares em um programa de EJA * Educação ainda que tardia: a exclusão da escola e a reinserção de adultos das camadas populares em um programa de EJA * Geovânia Lúcia dos Santos Universidade Estadual de Minas Gerais, Faculdade de Educação

Leia mais

Quando cada caso NÃO é um caso Pesquisa etnográfica e educação*

Quando cada caso NÃO é um caso Pesquisa etnográfica e educação* Pesquisa etnográfica e educação* Claudia Fonseca Universidade Federal do Rio Grande do Sul Trabalho apresentado na XXI Reunião Anual da ANPEd, Caxambu, setembro de 1998. Introdução Cada caso é um caso

Leia mais

Paulo Coelho. O Diário de um Mago. Edição especial da página www.paulocoelho.com.br, venda proibida

Paulo Coelho. O Diário de um Mago. Edição especial da página www.paulocoelho.com.br, venda proibida Paulo Coelho O Diário de um Mago Edição especial da página www.paulocoelho.com.br, venda proibida Quinze anos depois... Sentado em um jardim de uma cidade no sul da França. Agua mineral. Café. Temperatura

Leia mais

Paulo Coelho. O Diário de um Mago. Foto: cortesia Istoé Gente. Edição especial de www.paulocoelho.com.br, venda proibida

Paulo Coelho. O Diário de um Mago. Foto: cortesia Istoé Gente. Edição especial de www.paulocoelho.com.br, venda proibida Paulo Coelho O Diário de um Mago Foto: cortesia Istoé Gente Edição especial de www.paulocoelho.com.br, venda proibida Quinze anos depois... Sentado em um jardim de uma cidade no sul da França. Agua mineral.

Leia mais

O MITO E A REALIDADE

O MITO E A REALIDADE O MITO E A REALIDADE Entre as maiores manifestações da consciência crítica neste século, a presença de Camus é certamente uma das mais generosas. Sobretudo agora, no final do milênio, quando tantas das

Leia mais

Mas afinal porque a rua? * Cássia Maria Carloto ** Luana Campos Garcia

Mas afinal porque a rua? * Cássia Maria Carloto ** Luana Campos Garcia Mas afinal porque a rua? * Cássia Maria Carloto ** Luana Campos Garcia *Cássia Maria Carloto- Docente do Departamento de Serviço Social da UEL **Luana Garcia Campos - Mestranda em Serviço Social e Politica

Leia mais

Curso de Difusão Cultural. Educação, Democracia e Direitos Humanos UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE EDUCAÇÃO

Curso de Difusão Cultural. Educação, Democracia e Direitos Humanos UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE EDUCAÇÃO Curso de Difusão Cultural Educação, Democracia e Direitos Humanos DIREITOS HUMANOS NAS ESCOLAS PROGRAMA DE FORMAÇÃO DOCENTE O VALOR DA EDUCAÇÃO E A FORMAÇÃO

Leia mais

As Cinco Linguagens do Amor

As Cinco Linguagens do Amor As Cinco Linguagens do Amor Gary Chapman Como expressar um compromisso de amor a seu cônjuge Com Guia de Estudos Título original: The five love languages Tradução: Iara Vasconcelos Editora Mundo Cristão

Leia mais

UMA VIDA SEM LIMITES

UMA VIDA SEM LIMITES UMA VIDA SEM LIMITES Nick Vujicic UMA VIDA SEM LIMITES Inspiração para uma vida absurdamente boa Tradução Renato Marques de Oliveira Sumário Introdução 9 UM Se você não consegue um milagre, torne-se um

Leia mais

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA LISIANE CHIARADIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA LISIANE CHIARADIA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO LICENCIATURA EM PEDAGOGIA LISIANE CHIARADIA FAZ-DE-CONTA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: PREVENÇÃO DE DIFICULDADES E PROMOÇÃO DE APRENDIZAGENS. PORTO

Leia mais

Coleção TEATRO DE DIAS GOMES Volume 3

Coleção TEATRO DE DIAS GOMES Volume 3 Coleção TEATRO DE DIAS GOMES Volume 3 Teatro de Dias Gomes: vol. 1: O Pagador de Promessas vol. 2: O Rei de Ramos vol. 3: O Santo Inquérito vol. 4: O Bem-Amado vol. 5: Os Campeões do Mundo vol. 6: A Invasão

Leia mais

reflexões e propostas para o trabalho com jovens nos abrigos

reflexões e propostas para o trabalho com jovens nos abrigos reflexões e propostas para o trabalho com jovens nos abrigos reflexões e propostas para o trabalho com jovens nos abrigos SDH Secretaria de Direitos Humanos Esplanada dos Ministérios, Bloco T, sala 420

Leia mais

(im)pertinências da educação

(im)pertinências da educação (im)pertinências da educação o trabalho educativo em pesquisa maria lúcia de oliveira (org.) (IM)PERTINÊNCIAS DA EDUCAÇÃO MARIA LÚCIA DE OLIVEIRA (Org.) (IM)PERTINÊNCIAS DA EDUCAÇÃO O TRABALHO EDUCATIVO

Leia mais

Foi assim, de Natalia Ginzburg: a vida entre a fantasia e a realidade È stato così, of Natalia Ginzburg: the life between fantasy and reality

Foi assim, de Natalia Ginzburg: a vida entre a fantasia e a realidade È stato così, of Natalia Ginzburg: the life between fantasy and reality Foi assim, de Natalia Ginzburg: a vida entre a fantasia e a realidade È stato così, of Natalia Ginzburg: the life between fantasy and reality Edson Roberto Bogas Garcia 1 Resumo: O presente trabalho tem

Leia mais

Contracapa: Abas: Robin Norwood

Contracapa: Abas: Robin Norwood Contracapa: Espero que, para todas vocês que amam demais, este livro não ajude apenas a se tornarem mais conscientes da realidade de sua condição, mas também as encoraje a começar a se modificar, retirando

Leia mais

O Livro das Religiões

O Livro das Religiões O Livro das Religiões Jostein Gaarder Victor Hellern Henry Notaker O Livro das Religiões TRADUÇÃO ISA MARA LANDO REVISÃO TÉCNICA E APÊNDICE ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI 7ª reimpressão CIA. DAS LETRAS Copyright

Leia mais

MOACIR GADOTTI. BONITEZA DE UM SONHO Ensinar-e-aprender com sentido

MOACIR GADOTTI. BONITEZA DE UM SONHO Ensinar-e-aprender com sentido MOACIR GADOTTI BONITEZA DE UM SONHO Ensinar-e-aprender com sentido São Paulo Editora Cortez 2002 2 SUMÁRIO 1 Por que ser professor?... 3 2 Crise de identidade, crise de sentido... 10 3 Formação continuada

Leia mais

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Copyright 2014 Bel Pesce Revisão: Thiago Brigada Ilustração: Fátima Ventapane Design de capa: Marcelo Martinez Laboratório Secreto Projeto gráfico: Ideias com Peso Dados Internacionais de Catalogação na

Leia mais

Educar sem punições nem recompensas

Educar sem punições nem recompensas Jean-Philippe Faure Educar sem punições nem recompensas Tradução de Stephania Matousek EDITORA VOZES Petrópolis Éditions Jouvence, 2005 Chemin du Guillon 20 Case 184 CH-1233 Bernex http://www.editions-jouvence.com

Leia mais