Diários de Pesquisa Visual - dispositivos para pensar a formação inicial em artes visuais

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1 Diários de Pesquisa Visual - dispositivos para pensar a formação inicial em artes visuais Programa de Pós-Graduação em Educação Mestrado Universidade Federal de Santa Maria Thais Raquel da Silva Paz Orientadora: Marilda Oliveira de Oliveira Cada fato, cada pensamento, cada sentimento, cada experiência é única. E, porque é única, exige que inventemos modos de lidar com elas a cada vez. Por isso, digo: até para continuarmos os mesmos temos que mudar, (PEREIRA, 2009, p. 2). Inicio com este fragmento do texto de Marcos Villela Pereira (2009), no qual nos fala sobre a experiência de viver e extrair do que se vive algumas marcas, traços que colaboram na reflexão sobre o conhecimento de si, para pensar sobre meu percurso de formação e transformação durante a graduação Licenciatura em artes visuais até meu ingresso no mestrado em Educação. Tenho buscado compreender como a perspectiva da cultura visual adentra a educação das artes visuais, refletindo sobre como ela pode ampliar, suscitar novas experiências, provocar novos ruídos no campo da educação. Sendo assim, durante o Estágio Curricular Supervisionado, pesquisei as formas de apresentação do corpo na cultura contemporânea como potencial a ser trabalhado no contexto escolar. Ao escrever o meu trabalho de conclusão de curso senti a necessidade de trazer esse questionamento para outra área da educação, naquele momento com acadêmicas do curso de Educação Especial. Propus as colaboradoras pensar o corpo e a arte enquanto experiências que dialogam com o campo da formação inicial, através de um espaço de interação que nos provocasse novas formas de pensar e se relacionar com as artes visuais e a imagem. Nesse período foi possível aprofundar questões acerca do corpo, da construção das subjetividades e da cultura visual, assim como perceber que o meu maior interesse é compreender como esses corpos 1 são afetados pelas imagens e quais as colaborações dessa experiência para a atuação no contexto escolar. Em minha formação em licenciatura em artes visuais trabalhei com o uso de diários de aula, a partir de Zabalza (2004), como um instrumento de reflexão sobre a prática profissional durante 1 A partir de Christine Greiner (2008), que propõe pensar o corpo como uma forma de organização, resultado de cruzamentos entre ambiente, informações e sujeito.

2 Diários de pesquisa visual 2 os estágios. Tendo em vista que a imagem faz parte do contexto da educação das artes visuais, penso ser importante exercitar essa reflexão do lugar que se ocupa, ampliando as formas de se trabalhar com o diário, pois, como coloca Oliveira (2009, p. 58) ao ampliar as noções de um diário de campo passo a compreendê-lo como instrumento que carrega não apenas reprodução de imagens, mas conteúdos visuais que realçam um tipo de subjetividade que se conecta a uma visão plural e necessária onde não se separa o conteúdo da forma. Se nossas visões de realidade devem ser mais inclusivas, então precisamos ter uma perspectiva mais ampla sobre outras maneiras de articulação de sentidos e elaboração de discursos. Assim, o que me motiva a pesquisar sobre a perspectiva da cultura visual é a imagem enquanto uma possibilidade de produção de sentidos, que acontece através das narrativas construídas a partir de visualidades e contextos culturais específicos, podendo então apresentar-se como um potencial para se discutir as experiências vivenciadas na formação inicial em artes visuais. Perspectivas iniciais... A pesquisa encontra-se em fase inicial, de considerações e algumas reflexões preliminares sobre o projeto, fundamentado em discussões propostas por autores como Basbaum (2007), Hernández (2000; 2005), Zabalza (2004) e Oliveira (2009), que trabalhou com a construção do diário de pesquisa visual (DPV) em sua dissertação de mestrado. Partindo da abordagem metodológica qualitativa a pesquisa objetiva discutir sobre a relevância da reflexão e construção de diários de pesquisa visual, por professores em formação inicial em artes visuais, para a futura atuação no contexto escolar. Para isso, faz-se uso de apontamentos tratados por Chizzotti (1998) que apresenta a abordagem qualitativa para a pesquisa em educação. Nesse tipo de investigação, o pesquisador busca compreender as ações e relações que se ocultam nas estruturas sociais. O autor destaca a importância do colaborador para a pesquisa qualitativa, visto que nela, os mesmos são reconhecidos por elaborarem conhecimentos e produzirem práticas adequadas para intervir nas situações propostas. Para colaboradores desta pesquisa convidarei quatro alunos do Curso de Licenciatura em artes visuais, que no momento deverão estar cursando disciplinas de Estágio Curricular Supervisionado, tendo em vista que é neste momento que os professores em formação inicial estarão atuando no contexto escolar. Formaremos um grupo que se proponha a viver a experiência proposta neste projeto.

3 Diários de pesquisa visual 3 Neste sentido, as dúvidas enfrentadas neste momento concentram-se na busca pela abordagem mais adequada para essa investigação, que tem como intenção principal levar em consideração as experiências vividas pelos participantes da mesma. A princípio, procurarei contemplar como instrumentos o diário de campo através de observação direta dos acontecimentos durante os encontros, experimentando construí-lo no formato proposto nesta pesquisa, ou seja, um diário de campo buscando um diálogo entre imagem e texto. Compreensões documentais também serão utilizadas, pois as produções realizadas pelos participantes da pesquisa serão de grande importância para a mesma. Será utilizada também a entrevista com grupo focal, na qual o moderador e os participantes sentam em um círculo, de forma que possa haver um contato frente a frente entre cada um durante o diálogo. Educação das artes visuais e contemporaneidade Na contemporaneidade, a educação das artes visuais tem se proposto a não só expor os estudantes ao conhecimento formal, conceitual e prático em relação às artes, mas também considerá-la como parte da cultura visual de diferentes povos e sociedades, (HERNÁNDEZ, 2000, p.50). Assim, na perspectiva da cultura visual, passa a ser fundamental pensar a aprendizagem como uma relação entre a construção da subjetividade individual e o contexto social, em que não existem mais receptores nem leitores, mas construtores e intérpretes. Situando, dessa forma, a nós e nossos educandos nas relações com o que vemos, nos questionando como, por que, em que situações e, formando que tipo de conexões com essas visualidades. Neste sentido, penso que a formação docente também necessita ser repensada, reconstruída, (re)conceituada. De acordo com Hernández (2005), ser docente não é uma realidade essencial, mas social, discursiva e, portanto, modificável, produto de cada época e contexto. Desta forma, pode-se dizer que os indivíduos passam a estabelecer sua identidade através de uma série de relações com o entorno e os outros, assumindo diferentes identidades em momentos diversos de sua vida. Para estabelecer um diálogo entre o que acontece fora da escola, tendo um cuidado especial para as mudanças ocorridas na organização dos saberes, nas representações simbólicas, nas formas de trabalhos e na atuação dos professores em sala de aula, torna-se necessário considerar importante refletir sobre as experiências vividas.

4 Diários de pesquisa visual 4 O diário de aula, segundo Zabalza (2004), apresenta-se como um espaço narrativo, em que a reflexão é um dos componentes fundamentais. Essa reflexão acontece sobre o objeto narrado e sobre si mesmo (narrador), proporcionando um envolvimento pessoal de revisão e análise da própria prática profissional e o contexto no qual se encontra inserido. Pensando então no diário escrito e na perspectiva da cultura visual, trago Basbaum (2007) que fala em diagrama para tratar da articulação visual entre texto e imagem, conceituando-o como um tipo de esquema visual. Segundo o autor, um diagrama sempre junta palavras e imagens, utilizando recursos gráficos para criar um dispositivo visual: linhas, formas, letras, palavras, símbolos, pontos, planos, etc. Assim, os diagramas realizam o papel de conectar, mediar, relacionar e associar, no entanto, não de um modo passivo e linear, mas de uma forma dinâmica e ativa que acaba por indicar e construir regiões de contato. Ao articular produção visual e produção discursiva simultaneamente, torna-se importante perceber que o que interessa realmente é o que se passa entre elas, investigar quais os pontos de contato construídos entre as duas produções. Assim, penso que o diário de pesquisa visual pode possibilitar um espaço de convivência, colaboração e diálogos a partir da proposição de sua construção. Não como fim em si mesmo, mas como dispositivo pertinente para refletir sobre a formação inicial em artes visuais no contexto atual. Referências BASBAUM, Ricardo. Além da pureza visual. Porto Alegre, RS: Zouk, CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 2. ed. São Paulo: Cortez, GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. 3. ed. São Paulo: Annablume, HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Tradução: Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, HERNÁNDEZ, Fernando. A construção da subjetividade docente como base para uma proposta de formação inicial de professores de Artes Visuais. In: OLIVEIRA, Marilda Oliveira de; HERNÁNDEZ, Fernando (orgs). A formação do professor e o ensino das artes visuais. Santa Maria: Ed. da UFSM, pp OLIVEIRA, Wolney Fernandes de. Histórias com Dona Prizulina [manuscrito]: da beira do fogão à cultura visual. 188 f. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Artes Visuais, PEREIRA, Marcos Villela. Aproximações entre arte, pedagogia e formação. In: Anais do II Congresso de Educação, Arte e Cultura: Confluências e diálogos no campo das artes. Santa Maria: UFSM, p

5 Diários de pesquisa visual 5 ZABALZA, Miguel A. Diários de aula: um instrumento de pesquisa e desenvolvimento profissional. Tradução: Ernani Rosa. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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