En aparecer a BARULHO DE VASSOURA NA PROSA. Os tradutores. que n:io e uma palav;a.:_~ coisa de cois~ri~cidaill;_s_j.ua.:c:q~eia

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1 Este e o livro que, depois da coletanea A rosa dos ventos (publicada por Cosac Naify e 7Letras, em 2004), trazemos para o lei tor brasileiro, acrescido do minimo de notas que julgamos indispensaveis ao entendimento do seu universo de referencias. Reabertura apds obras, ao qual o autor nega o titulo mas nao a contundencia de urn "manifesto pela poesia'', foi publicado em 2007 na Franp. E urn dos epis6dios mais recentes da obra de Michel Deguy que, aos So anos, continua sen do nao apenas urn dos principais nomes da poesia francesa do ultimo seculo, mas tambem urn dos pensadores mais originais da poesia no contempod.neo. BARULHO DE VASSOURA NA PROSA Os tradutores No silencio da manha bern cedo, o barulho solidrio..da.~ soura de ramos sobre a cal~ada molhada, que o varredor municipal manobra com amplas e peri6dicas bra~adas, como urn ceifador, como urn semeador de Millet, como urn grande ret6rico... 0 barulho solitario dos feixes da vassoura dando lustro as pedras umedecidas da sarjeta em largas bra~adas regulates no final da madrugada... Trata-se de uma perifrase, e claro, e desdobravel. E nao e por acaso: a frase circunda com palavras uma coisa que n:io e uma palav;a.:_~ coisa de cois~ri~cidaill;_s_j.ua.:c:q~eia En aparecer a imagina~ao; ela sugere, como Mallarme gostava de dizer. Ela mostra, susterua~uagem desta lingua (a francesa) aquilo <j!le nao e ver~ dizivel: e tambem pintivel, ou fotografavel... Ao faze-lo, a frase permite i!]laginar por meio do entendimento; embora seja usual, nao se trata de dizer que 10 ~-- 11

2 a frase "traduz". Tampouco haveria uma outra maneira dedizer. As maneiras sio muitas, a opera<;:io e a mesma. Todas as frases que eu mobilizaria para exercitar esse motivo sao bastante parecidas, no cuidado com que se aproximam da coisa, frases por fase. Nao se trata de uma substitui<;ao, pedag6gica ou pudica, como "capital da Fran<;a" por "Paris", segundo Pascal. Trata-se de um~te:;t<;iio lited.ria_grazerosa; o prazer e multiplo, e urn recon ecimento, e que acolhemos com reconhecimentq.:..recovnidio. Kant falaria de sfntese emp' fric;. "' ~ --~- E uma frase proustiana que reativa a procura ("quiri<;io"*, infelizmente, s6 existe em palavras compostas) de urn tempo perdido, de modo tanto mais minucioso quanto o tempo esteja perdido "para sempre". 0 eu-me-lembro tern como correlate favorite - preferido porque favoravel - o tempo perdido; o saber de uma coisa recentemente e para sempre desaparecida, da qual nossos filhos nao podem "lembrar-se" e que recebem da gera<;ao precedence como urn medalhao, uma reliquia familiar, urn fetiche- urn "testemunho"? Uma promessa de felicidade, a ser transposta. ~~'"'~}.," J,~,<il-_) A uma poetica de enfase e de hiperboles epidicticas sucedeu, na modernidade do seculo XX, uma poetica minuciosa que prefere demonstrar acribicamente, no processo-de-fazerse (processo do fazer), a p'o.ematk; d-;, poetico ao res de sua I techne. Exemplo: uma simples eli~ao, "neologizando" discreta- 1 'I 0\&.1'1'\ e.c...c... f~ u. lf:, * "Quite" (procura) e "quisition" ( quiriifiio ), em frances, rem a mesma raiz; na tradudo, a proximidade lexical fica perdida. "Procura" faz refercncia ao titulo conhecido de P;oust, traduzido em portugucs por Em busca do tempo perdido. (N. dot.) ~ mente a lingua cotidiana (aquela que conversa), pode sera isca para urn ~imisculo atentado que nos p6e em alerta. armando o poema, ou dando-lhe destaque com urn tra<;o!evemente "fitico" (Jakobsen), o que ocorre quando Reverdy intitula seu livro Maior parte do tempo, omitindo o artigo definido. 0 poeta contemporimeo apresenta-se de born grado como te6ricp da poesia'. Ele gosta de girar dentro do (e junto como) ' drcul~''que enca~-~-~-~pensamento-da-pot.tica ~J!._po_e_ti<;a- ~p~ament~-~---- " Uma poetica uma "arte poetica" que se manifesta sobre o interesse e a composic;:io de urn poema - associa e articula dois ingredientes principais: uma formalidade com uma revela<;:io. Reconhecemq, aver "poema, u texto poettco, em era!, gra<;as a uma dupla disposi<;iio: a a sequencia da linguagem, ana isavel ' rmalmente", ou nguisticamente por exempfo,"ciimocttspnsttivo-ptoso dll::"''trlrmmn:qu:aaro grafico "justificado" de maneira reconhedvel, a partir dos quais o leitor-ouvinte se diz "isto e urn poema"); ~ do.e':".:".'.::e~to. parafraseavel, ou rela<;ao que induz o ouvinte-leitor a uma compreensao do texto do tipo "e. como ele ve as coisas"**, isto e, a luz daquilo que as mostra como tais. Por urn!ado, algo que diz respeito ao ouvir-dizer ( o modo como uma lingua * Traduzimos, ao longo do texto, o tcrmo ''poiticien" por"te6rico" ou "te6rico da poesia~. (N.doT.) ** Deguy usa frequemementc a expressao francesa "commera~ {assim, desse jeito), cxpressao que, designando uma identifica<iao ( e assim), conn!m tambem uma ideia de compara<iao (como). Em portugucs, usamos porvezcs "como e~ "C como'; "assimcomoc", para nao perder a referenda a comparas:ao, tiio imporrante para o autor. (N. dot.) j

3 vernacular e auscultada uesse aparelho) e, por outro, algo que diz respeiro ao ser-no-mundo, ao ver-este-mundo, ou "ilumina<;ao", na terminologia rimbaudiana. A reflexao de urn comentirio rumina sua dile<;ao e busca "analisar" o segredo de composi<;ao daquilo que esti em estado de indivisao: som e sentido, dizia Valery, em estado de "hesita<;ao prolongada". 0 formalista, por indiferente que se declare a respeito do conteudo, da dose de pensividade, de urn poema, nao pode negar a ambi<;ao de dizer-em-poema. 0 realista, por insensivel que se declare quanto a formalidade, nao pode permanecer surdo a essa dimensao "sui-referencial" do "charme", segundo a qual urn poema aspira a ser poema da, e em, poesia. 0 texto de urn poem~_un!~".~e_de conten<;ao' ~inima da escnta que se declara poetica, preteride(e-tende a) fazer a composi<;ao de dois impulsos: r.~.hmn2funia (de modo muito geral), ou paronomisia, ou ainda itera<;ao de semelhan<;as na sonoridade de determinada lingua, em sua materialidade significa1zt'-. Permitamme extrair urn breve exerripio-doinc;tiide urn de meus prosemas, que interpela os "Balineses abluidos /.../": trata-se de urn alerta para o acordo, a vigilancia da lingua pela lingua, da enuncia<;ao pelo enunciado, ou como queiram chami-lo. A questao do outro "Mas por que ele diz as coisas assim?", a resposta e: as coisas vieram assim; e sua maneira de prestar aten<;io; urn outro de outro modo; e sua lingua no seu cerebro. seu cerebro na sua lingua. 2. O_::gue:"::c!it_o( o Dicto', na solenidade filosofica) e endere<;ado a, ou conteudo, e 0 segundo ingrediente material. Alguma coisa aspira ser dita, dita a outros: e a "mensagem", dizemos as vezes; verdade na garrafa que se joga ao mar... potque quer dizer. A defini<;io da verdade nao e que qualquer uma merece ser dita? 9-uero transmitir i:.~~~:!~da q~~-i?~~turado com minha vida ( introduzido em minha historia, diz :r-&1tfa;~~y: Com esses do is impulsos, reconhecemos o poema. 9u, mais genericamente, o logos. Recentemente, I~ rudo aquilo que, na obra~:::.e relaciona a poesia. E muito interessante, porqu~c~:j a que ele permanece insensivel, ou que nao leva em considera <;io, permitem compreender em que c9nsisre a poesia. Ele procura atingir urn devir moderno da poesia destinada ao "suiddio". Ele nao,di ouvido~ a~uilo q.:'e Mal\arme P{nsa como destruifdo. (fill it V c\ \_p-.. t}e.. <o-[.r ' '.~ ) Se~ desacerto (que nao e de modo algum nm desprezo) repousa sobre o desconhecimento daquilo que Baudelaire ( citado por ele) chama de admirdvel Jaculdade de poesia, ao * 0 rermo original C "contenance~ de dificil tradw;:ao, designando ao mcsmo tempo contelido c a capacidadc de contc-lo. TambCm o movimento de uma certa rcrra11iio ou pudor transparece na palavra. Adotamos, ao longo do texto, o tcrmo "conten11iio': (N.doT.) * Em frances, "diet" e urn neologisrno (com aspecto arcaico, como explica o amor em outra parte do tcxro) a partir do vcrbo "dieter" (ditar): trata-sc da tradw;iio francesa de urn conceito de Heidegger: Dichtung(a pocsia, o dizer). (N. dot.) 14 15

4 acrescentar que "a clareza de ideias e a potencia da esperan~a. constituem [ seu] Unico capital". Sartre separa demais, no cor~ao da pr6pria literatura, a poesia da prosa. Tal decisao baseia-se no axioma segundo o qual o desvelamento (tema epalavra retomados de Heidegger) e urn problema da prosa, da prosa do mundo, uma vez que nao hi desvelamento sem uma vista e uma a~ao prosaica de mudan~a do mundo. Se nao hi a~:io transformadora, n:io hi desvelamento. A dicotomia leva I a ruina. Antes de mais nada, a literatura moderna e hesitafdo entre (Valery); entre prosa e poema, por exemplo. 0 segundo axioma e 0 da destrutibilidade: a linguagem e a lingua (que ele nao distingue) servem para ser destruidos. ~ fim Ora, nem esta nem aquela sao feitas para a destrui~ao. Sartre nao entende a conquista de Mallarme no famoso "Vitoriosamente evitado o suiddio belo": ou seja, nem a duph nega~ao, que e 0 procedimento mallarmeano, nem a dierese. Quero dizer com isso que ele nao a11:sculta nem mesmo a textura significante do verso, tao espantosa, na medida em que esta recusa duas possibilidades de dierese no primeiro hemistiquio a de favorecer aquela que alonga o su-i-d-dio-be-lo. A questao para 0 te6rico, questao da conten~ao poetica, e de estabelecer acordo redproco da dierese (forma) e do "suid,dio-recusado" ( conteudo ).... ~e o surrealismo, que, para S~rtre, e o prolongamento do suiddio e da destrui~ao, nao hi motte nem re~surrei<;io. Hi transformac;ao, muito lenta e por vezes perigosa, a "vigiar de perto", por assim dizer. Qual a raz:io dessa cren~a persistente na destrui~ao da linguae esse estere6- tipo que n:io faz senao agravar-se? De maneira que hoje ( seculo XXI), em uma epoca hem diferente da sartriana, estaft1()s talvez de faro diante de uma destrui~ao, pore~'lue ati~g~ : poesia de seu exterior. m, mos;ava-s~~--- ~ 16 pela desapari~:io da frase, mas conservava a esperan~a na poesia... japonesa. A questiio da poesia francesa <\fo:rn:;:~siderada, a do "e" ( emudecimento e elisio) ~dterereemteral: estiramento, alongamento, sequencia, jogo de acelera~:io e desacelera~ao possiveis. No que toea ao poema, trata-se de(r~)pa~_al a lingua em dmera lentapa:a_~t1:':ult~r_e e[l.:_(!n_d_e!jll!9l?k cldadeouconten-~iio:"e.iistica ondula~ao'~_dizia Ilal!d.~lair"; aolongo:ae, digamos, ao long<l:do ~p~relho ritmico de diapas:io: alternlmcia de "brevidade" (abrevia~:io) e de "dura~:io" (alongamento), distinguidas pela insonora diferen~a. ou pausa, p_or-veze~.- reiteraaa~ ( Quantoao senti:'.() (olr conteudo ): trata-se da questao do par~bjlico, <i~"fab~la",_!lue_l_l~(?j'()cle _sg:_i.soltirjo. Cnao.pode haver discurso "sozinho no mundo"), mas construfvel, edific,becp-;,i~ dlferen~~ ( oposi~it~. ~;;~j~~~~o.:desac()rcfo) em re!a~ao aos ouc~os regimes-de se;tido, o filos6fico, o teol6- gico; onarrai:!vo,o cientlfico: na turba, poreu1 distini:o: Epor isso nossas quest6es: como fica o mito? a religiao? a proposi- ~r:::;~::-~t:~i-~tn c~~;;~:: ::~la nao eo ~odo da literatura, dos recursos \ ret'iracros, d!z1a Mallarme, da conversa<;io comercial cotidiana) do pensamento vernacular. Hi dois: po~~e...p!:9.s.~-~~-~()~".(),l1tra; e_portanto "h'=~ta~ao" (troca, liga, alian~a, ruptura local etc.). ;-op;;-eina e aperitivo e cognitivo. Sua brevi dade e a de urn aperitivo (brinde ou saudafdo, na linguagem- e na experiencia de Mallarme). Nao se acumula nele urn saber- desde que a poesia deixou de ser diditica ou miquina mnemotecnica. 17

5 Reabertura apos obras Sua discursividade nao e "cientifica':_l}_0fc~a->io..consiste erp abrir, em abrir-se, em reabrir. Em correspondencia com a ~ria abertura do mundo, na clareira do mundo, nessa dimensao que a omologia moderna qualifica de aperidade, ou ainda '<grandeza'' mundo, transversalmente ao curse do mun: do, reiteravel como 0 bom-tempo-que-esti, 0 poema e urn incipit continuado: "Wie wenn am Feiertage" holderliniano: como quando. 0 poema e duas vezes "aletheico"; "devo-lhes a verdade em poema~ diz o poema, duas vezes (pelo menos). Uma vez como "desvelamento". Outra vez como "moeda desse absoluto" (Malraux). Que{o~ como proposi,ao ou juizo ve- '--- ri-dico. ~-e_o poe~a e citdv:!j}m de seus eventuais_ mtrir~:),.\ ~~sso oco~re _orgu~;;f-7ie Siias:propasi0es esciarece:ilma " -- -~s.i\p - uma (~ircunstincia"(~allarme). Seus exitos de juizo permitem ~<;io (urn acontedmento) -a luz dessa cita,ao - solicitada -1' - an cia , Em outros termos,- a urn potencihognftfva m alcance gnosiologico) da compara,ao, proxtm~ao, qne caracteriza o pens_a_i!leilto."p~ ( da proximidade) do poema: pois ex!ste diferen'a entre 0 mesmo (homo-logicamente) e 0 que nao e 0 mesmo. Assimila<;io-dissimila<;io. -~ (',/---"' "', ~ A ex;,ressao del(:hat~aubr~ 2::a:briE~Ea!l~e!latli_'"eza feq!":da_, pode ter e~nda-hoje desde que troquemos natureza por mundo: essa e a injun<;ao primeira a qual deve responder a arte, no semido moderno, numa epoca em que a natureza nao tern mais Iugar (diria Mallarme), nem o sagrado ( exceto para aqueles - alias, numerosos - que creem ainda 18 nessas duas destina<;6es). Poderiamos ignorar o complemento e condensar assim a formula:~rir ~ gue novame.vte.se fecha. 0 conhecido topos da abertura, ou grandeza ( ou ';f;eritlade do Ser, na terminologia heideggeriana), ou "mundiamento do mundo" (para traduzir o Welten der Welt do Pensador alemao), retoma os dois termos relacionados pela cita<;io do seculo XVIII, reabrir e grandeza, absolutamente e tautologicamente; os do is termos estao na linhagem semantica da velha admirarao, mae das Musas: a arte e taumaturgia. Contra os incessantes rebaixamentos, ressentimentos, reenclausuramemos diversos, velhos dominios dos academicismos etc. Naturalmente, de urn tal prindpio de espanto nao decorre nenhum programa espedfico para o fazer-obra: nem o conteudo nem as modalidades das tentativas de "vanguarda" ou experimentais podem ser deduzidas dele. Como na ciencia, as expericncias "para ver" seguramente nio sabem "para ondevao,... Para a poesia, hoje, tres proposi<;6es. ~~~"~ --~r =~ ~<"-?>~< - "N,-., -~-<>,~<.- --" ~,, --"--' r. A poesia toma um(~i9 ste ar sao trcs coisas: a) ~~--Y~~a; b) o aspecto; c) a melodia:.. Ni\o -~~~rir fa:lta de ar (para respirar ): nao deixar de ter urn ar ( aspecto); nao perder a melodia. E o que procura urn poema. 2. Em frances, existe urn "AR do tern o" [air du temps]. Ele e chamado tambem de espmto Weltgeist). Esse espirito nao tern nada de urn espirito; ele nao e urn fantasma, nem uma pequena divindade, nem urn djinn noturno, nem, nem. Este espirito e o nosso - humano. Eu poderia chama-lo 19

6 ' santo, por que nao?, com a condi'rao de traduzir essa santidade por tra~os de sabedoria e de idade, de saber e juizo, de psicologia e de am or do bern. A religiao deu a luz a teo-logia. A teologia ensinou ao homem do que ele era capaz. Agora, e necessirio retomar para si essa capacidade (Feuerbach): antropomorfose continuada. Nao quero dizer que nio existe nada alem disso, justamente porque_tudo e origem: a natureza ai em frente, o fundo ~ ~, ~-... ; do universo, o Ser, as «fontes cristas" (Simone Weil), entre outros. J. A literatura, e ~~em suma: a poesia, cuja singularidade consiste em ser audaciosa, atirar-se, ousar, marcar; ela decide, ela nomeia... -, mostra, faz ver, esse espirito, ao torni-lo perceptive!. E sua videncia, ou visao. No passado, adivinho; agora, adivinha. Ela o mostra a suas companheiras, mllsica, pintura, formas volumosas, filmes, conten'r6es novas, pla.sticas... Ela arrasta consigo, ela torna-se ali ada. 0 aspecto talvez mais decisivo de urn poema- o tra~o decisiv~aiiro~-a-iilv:rt!aiire;aquilo.que rest~---~ ~~:::;;:;e~u~:o~:~~~~~~::::f:~~~:~c~~.i-~~:~~: Prontidao - como de urn deus que perde urn rapto, se puder citar a mim mesmo. Divisa, enigma, incipit - cliusula. 0 que explica que ainda se publique, e inesmo que se leia, as miximas, os pensamentos ( dos Pre-Socriticos a La Rochefoucauld, Pascal oujoubert). ou ~- A brevi dade -liga4!,~r,divid\4!,j,q'!!l.q_ql1sf'<rece ser ~u a~~~.":l'~~ "i_~rif~ase:_: ~~:~::~fra:e 0~ seja, 0 l~nto no acelerado, o ~~uiwit~aocapenf~ase e a defim~ao, a perifrase gira em torno aa presa da qual so pode apoderar-se nesses termos. A boa perifrase diz o ser, e nio pode dize-lo senao resumidamente. 0 segredo continua a se ocultar. Pode ser que cada linha (verso) do poema- por que esses "poetas" as destacam, as justificam desta forma? - procure dar (de)fini~ao ao tra~o que penetra o indecidivel, em urn lance perifd.stico; reincidencia vazia. Aquilo que resta hoje, encontramos nos muros, nas paredes do metro, apcn:egmas pichados. No tratamento intimo que o poeta (poema) dirige a si mesmo - como todo sujeito em solil6quio - hi aquele que fala, sujeito na linguagem, "eu" implic_i~.<'o.-'l':: a rigor nao eo mesmo com quem se fay. "Bebn'de ele fala?";p~de-se perguntar, como se dizia n'o-pass.adg_a_qilem.tomav~ a palavra, numa interven~ao, para que ele se justificasse... Resposta: de urn ponto de vista arquimedico, fora do sistema, ponto espiritual (se e que este epiteto mescla adequadamente alma e espirito ), e imortal. Ele e o juiz. E assim que urn universal pode ser construido, uma hip6tese de genero humano, talvez projetivel (parabolicamente...) como institui~ao, de voca~ao cosmopolita, internacional: uma especie de instincia juridica, que pode se pronunciar apenas a respeito do inumano. 0 proprio do juizo e a severidade

7 _ Por _pro :l,,.. <:nt<:!'do: A frase, o fraseado, da fala co mum, dialogal, irrefletida, ~o vernacular, a de Monsieur Jourdain, de Moliere, aquela "detodo-mundo'; desde priscas eras aprendida a base do ditado, na mira do indicador sorridente severo carinhoso dos pais hi seculos - e que s6 relaxou recentemente, intimidado pela inepcia pedag6gica. 2_sg_ alantee.. rr()sador. Aquela que se aprende mais tarde, sempre na escola, que ndo i, expressamente, a poesia. A diferente, a que nao rima, nio conta silabas, nao tern cesura nem enjambement, porque e puro encavalgamento, hiperbato do tipo "maria-vai-com-asoutras". Trata-se da prosa liter:iria, aquela que os jornais confundem com "romance''. Para mim, ~~~~---~---g _er()~a nao coincidem. Nem de Ionge. E quando penso na "pro;a~ -_:::: como p~~~~;;;ento que puxa, que se escreve, elemento em que ou<;o minha lingua e, ate mesmo, o elemento "16gico" (logos) em que minha lingua ausculta a si mesma, buscando beleza -, eu nao penso no romance. Se me perguntam quais sao os grandes prosadores franceses do seculo XX, respondo Claude!, Artaud, Proust, Bataille, Giono e muitos outros, sem consultar a rubrica "romancistas". Alguns romancist~~ -~~o_ prosadores S?.--~~:P_~_()_~_a _como mei_o, ~_teh_ dos _p'?e_mas-em-prosa; os de Baudelaire, por ;,:;~~pio:e que podem ser transpostos em prosa-em-poema. As duas vers6es baudelairianas come<;am a, destacar, a dar relevo a este fato que Valery nomeia "hesita \ :;\:ao entre". ~'!E_~~esitar-d~~i<:liHntre pmsa_e.p.o.em;t, entre _().ll.'ros. Em quea poesia seria prosaica? Ela mostra em -~f~ra lenta ~ capacidade do idioma; em todos seus adornos, seus tropos, suas faculdades. A prosa nao e integralf!!ente prosaica ~uanto a poesia que se mostra, que se isola levantando a ---.:::...=-- ' crista, e precise desconfiar. ---~ Eo pensamento 'l"~.pll.:"~res'±me.rim.baud; que encaminha e encadeia ("prop6e uma palavra depois a outra", como escrevi em FigurarOes); consiste em frases. Rente sobre o vazio. Sem isso, nao hi sequencia ("sequencia nas ideias", diz a lingua), nenhuma "razao" de... prosseguir. 0 pensamento, cria<;io continua, encavalga a descontinuidade, o nada. Como pode este ser apreendido pelos sentidos? Do mesmo modo que, para Mallarme, o vazio era sensardo do nada, digamos que o nada descontinuo a que me referi se apresenta como bran~o da pigina branca. 0 pensamento passa e faz passar atris dele, psicopompo hermttico, guia; ele atravessa o famoso "caminho do pensamento". Sem pensamento do poema, nao hi_ po_em~_; "nada a di;er". ----~ n ~ "' o~fe,;;-~n~uu..ix_e:;:, d.o p_ensamento, antes de ser aquele da comunicac;:ao no sentido atual, e o elem~!:.:.? ::U que o pensamento se e~-~~-~-~~ill: -~o111a consi,s,'t~-~~i-~: aquel~ que os gregos chamavam logikon, I6gica ou vernacular frasico. A maneira pela qual as palavras mantem seu serjunto-a, seu sintagma (sin, ou para-t:itico), sua taxis, e identicamente volteio, tropo. Dito de outro modo: para que as palavras estejam juntas e nao em pulveriza<;ao estocistica; para que estejam ate mesmo uma ao lado da outra em aposi<;ao, em a-sindeto; para que haja o menor valor diferencial entre aposi<;ao e assindeto opositivo, por exemplo, ou entre equivalencia e oximoro (etc.), e nio atomiza<;ao sem nenhuma especie de liga ( diferente de sua 22 23

8 dispersiio pontilhista dada a uma percep~iio humana), e "preciso" que o meio seja tr6pico, tropol6gico. A ~~;!Q_daJiteJ:;tJ:1Jramodernae menos decidida (decisiva) entre prosa e poesia. M~~i~ent~s teci6rllcos-afeta:ram,---..., '"""" _."""'"' o solo:-os do is tra~os principals da modernidade, a saber, a generalizardo e a dissondncia, deslocaram as fronteiras, provocaram sobreposi~6es, indivis6es, redistribui~6es. Q_sgiter poetlso ( ou do poema) em constante inunda~iio infih~_<>~:_s:c..t::~m.~<:>e~()):''3~i!!cl2-4.~leito "afiqpfl:.:~:>.~ o ~o, com justifica~ao bern recortada (linha restrita, estrofes distintas, genero afetado, soneto, balada, epopeia, cantiga, tragedia... ),. derramou: liberdade de versos, poema em prosa, proema, prosema... ainda que a polaridade entre as extremidades a que se liga a "hesita~ii.o'''persi~t;~onstitutiva; e. que continue importante reconstitui-la r esf~s renovados. Aconteceu, como apontei, que p romance ~sorveu todo o interesse do grande publico, ate q~m situa~ao de sinonimia com a prosa e com a literatura: a epoca de Ian~amentouili!.ori!is,_!!~Fran~a, diz muito sobre o estado de nossos h<ibitos. Entre outras consequencias nocivas, aponto esta: o texto fil()s6fi_c.() ~ rejeigqo como!lii() literario, assim como o te;;:~,;-antropol6gico e alguns outros. ~=_s ~,,- e ainda mais inepta se pensarmos que, naquilo que chamamos «exterior", os escritores franceses mais conhecidos sao os fil6sofos, ensaistas e, frequentemente, intelectuais das "ciencias humanas". Entretanto, hi prosas e prosas. Em outras p~a'{ras:. diferen~a e separa~ao subsistem; por urn!ado, a literatur~a "grande literatura", atuai e por vir, ainda tenta ~5'4-el s, e no interior dela a escrituraparabolica geral - pensamento.c. saber, Jics ()$atir~~~~s,;~---.:::_. abs~~~~ geneidades) e, por outro!ado, "litera:_:ita:~:::ia.d_e~spe~a:-') 'COiiiiillka~ao e informa~ao Em outro momcmo, apontei para. "'haerere" (atar) como etimologia de "hesitar;ao~ 24 25

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