APEPI Associação Portuguesa para o Estudo da Propriedade Intelectual Grupo Português da ALAI Association Littéraire et Artistique Internationale

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1 GESTÃO DO DIREITO DE AUTOR E DOS DIREITOS CONEXOS NO MERCADO INTERNO A propósito da Comunicação da Comissão europeia de 16 de Abril I. GENERALIDADES 1 - Gestão colectiva tradicional O direito exclusivo do autor de explorar a sua obra ou de autorizar terceiros a fazê-lo constitui o elemento fundamental do direito de autor e vale, essencialmente, pela garantia que dá ao respectivo titular de que a exploração das suas obras se conforma com a sua vontade e os seus interesses. O pleno gozo do direito exclusivo depende, em larga medida, da possibilidade de o autor tomar pessoalmente as decisões relativas às condições pecuniárias da exploração da obra e de fazer respeitar os seus direitos morais e patrimoniais. Todavia, existem certos direitos, como o de comunicação pública de obras musicais não dramáticas, cujo exercício individual desde sempre se mostrou difícil. Acresce que o desenvolvimento das novas técnicas de reprodução e de difusão tem contribuído decisivamente para multiplicar os casos em que o exercício individual se torna impraticável em razão da incontrolabilidade das utilizações e do grande número de utilizadores e, consequentemente, da impossibilidade de negociar com estes e de se fazer remunerar. Assim, embora o exercício dos direitos continue, em tese, a poder ser assegurado individualmente, a natureza de certas obras e a diversidade dos modos da sua difusão, aliadas à evolução das tecnologias de comunicação e à multiplicação do número de utilizadores, impõe, na prática, o sistema de gestão colectiva dos direitos exclusivos, mediante o qual os titulares de direitos autorizam as organizações de gestão colectiva a gerir os seus direitos, isto é, a vigiar as utilizações das suas obras, a negociar com os eventuais utilizadores, a conceder-lhes, mediante pagamento de uma remuneração apropriada, autorizações sujeitas a determinadas condições, a perceber as remunerações e a reparti-las entre os titulares de direitos 1 1 Segundo definição adoptada pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).

2 Ainda que o controlo sobre certos aspectos do exercício dos direitos exclusivos sofra um enfraquecimento num sistema completo de gestão colectiva, certo é que ele serve os interesses dos titulares de direitos e é vantajoso para os utilizadores, aos quais se proporciona um acesso mais simples às obras. 2 As diferentes formas de gestão colectiva 3 reflectem a medida da ligação do autor à exploração da sua obra, definida em função da interacção de vários factores, em especial o reconhecimento de direitos exclusivos ou de simples direito a remuneração e a controlabilidade da utilização. a) A ligação é mais ténue quando há lugar à aplicação de licenças não voluntárias, seja porque o próprio direito não foi definido como exclusivo (caso da radiodifusão e da comunicação ao público dos fonogramas do comércio), seja porque se verifica 2 Sobre o assunto, veja-se o relatório Raison d être des sociétés de gestion des droits, importance, essor et développements récents, apresentado por Carine Doutrelepont no Congresso da ALAI Protection des auteurs et artistes interprètes par contrat, que decorreu em Montebello, no Canadá, em 1997 (Actas do Congresso, pags. 469 a 514, em francês, e 515 a 559, em inglês). O relatório afirma, em conclusão: La gestion collective des droits est un concept multiforme à geometrie variable qui présente certains avantages et certains inconvénients par rapport à la gestion individuelle. La gestion collective a pour effet d eroder le caractère exclusif du droit et s accompagne d un nombre important de contraintes pour le titulaire. Il n est cependant pas exagéré de soutenir que les sociétés de gestion favorisent la mise en place d un sistème permettant d affirmer les droits avec efficacité tout en facilitant la libre circulation des oeuvres par le recours à des situations contractuelles souples, prenant en consideration les différents intérêts en cause, qui peuvent être renégociées, en fonction de l évolution des choses. Le dévellopement des nouvelles technologies conduit les sociétés à devoir faire face à des defies supplémentaires sans néanmoins bouleverser l économie de leurs activités. La technologie numérique va sans doute accentuer les problèmes auxquels sont déjà confrontées les sociétés de gestion: identification des oeuvres et des titulaires de droits, titularité variable des droits selon les États, existence de présomptions de cession au profit de producteurs et leur extention aux oeuvres assemblées fragilisant l intervention des sociétés d auteurs ou artistes, incertitude de la loi applicable et de la qualification de nouvelles prérrogatives, tel le droit de transmission numérique. Si, comme le soutiennent certains, le nouvel environnement technologique permettrait de revenir au droit exclusif d autoriser préalablement et de façon individuelle, l intervention das sociétés de gestion restera, à mon sens, indispensable eu égard à la multiplicité des intervenants et des potentialités d utilisation des oeuvres. Les nouvelles techniques permettent plus que jamais aux oeuvres et aux prestations de méconnaître la limite artificielle des frontières nationales et d être communiquées dans une multitude de pays étrangers. Grace à la technique des acords de représentation réciproque, seules le sociétés de gestion sont en mesure désormais de faire respecter les prérogatives des titulaires de droits, en recourant aux services de leurs homologues étrangers. 3 Ver Breve resenha das principais formas de gestão colectiva, em anexo.

3 uma utilização massiva (caso do direito de reprodução reprográfica e, nalguns países, os direitos relativos à retransmissão por cabo de programas radiodifundidos 4 ), seja ainda porque a utilização não é controlável (caso do registo no domicílio de obras sonoras e audiovisuais). Nestas circunstâncias, o tipo de gestão colectiva adequado comporta o mais elevado grau de colectivização defesa colectiva dos direitos, licenças globais e, por vezes, ausência de repartição entre os titulares individuais de direitos. Estes não podem escolher entre gestão individual e colectiva: a lei impõe esta última e pode estabelecer as tabelas remuneratórias e outras condições. Esta imposição de gerir colectivamente o direito configura-se como uma condição do seu próprio exercício ; constitui uma restrição menos forte que a licença não voluntária e, o que é importante, mais consentânea com a natureza do direito de autor. Assim, a gestão colectiva é, nestes casos, a única solução possível, fora das licenças não voluntárias, de exercer o simples direito à remuneração. b) A gestão colectiva pode também constituir o único meio de garantir o exercício do direito exclusivo de autorizar certas utilizações. É o caso do direito de execução de obras musicais (não dramáticas), o relativo a certos casos de reprodução reprográfica e o da retransmissão por cabo, no espaço comunitário 5, de programas radiodifundidos. Dado o número de utilizações e as condições em que estas têm lugar, bem como o número e a variedade de obras utilizadas, não é possível ao utilizador seguir todos os passos da contratação individual, nem aos titulares de direitos controlar todas essas utilizações. Nestas circunstâncias, adopta-se um tipo de gestão colectiva completa, com recurso às licenças globais e à possibilidade de gestão dos direitos de não membros (gestão colectiva alargada). 4 Tendo sido dado como adquirido, embora sem nunca se ter provado, que o exercício do direito de autor constitui obstáculo inaceitável à retransmissão por cabo de programas radiodifundidos, nalguns países o direito de os comunicar por cabo ao público foi reduzido a um simples direito a remuneração (solução manifestamente desconforme à Convenção de Berna). 5 A nível comunitário, a questão da natureza deste direito veio a ser resolvida (a favor dos autores) pela directiva europeia satélite/cabo, de Todavia, dada a dependência da transmissão por cabo (efectuada por entidade diversa da que obteve autorização para radiodifundir) em relação ao acto de radiodifusão de origem, o correspondente direito, definido à partida como exclusivo, é obrigatoriamente exercido através da gestão colectiva. Dadas as circunstâncias de facto, que levariam à instituição de licenças não voluntárias, esta é a única alternativa consentânea com o carácter exclusivo do direito.

4 c) O exercício do direito exclusivo de representação pública e de reprodução de obras dramáticas e audiovisuais constitui exemplo típico da maior ligação do autor à exploração da sua obra. A gestão colectiva não é, neste caso, uma necessidade absoluta, antes se destinando a facilitar e a conferir maior força negocial aos titulares de direitos nas suas relações com os utilizadores. Neste caso, o tipo de gestão colectiva adequado tem como pressuposto o mínimo de colectivização existe representação colectiva, mas as autorizações são sempre individualizadas e a repartição é directa. Todavia, a organização de gestão, que só pode gerir os direitos dos seus membros, conduz livremente as negociações com vista à fixação de tabelas e outras condições a que sujeita as autorizações dadas aos utilizadores, sendo os diferendos dirimidos pelo tribunal. A gestão colectiva teve origem na necessidade sentida pelos autores de se reunirem em sociedades aptas a defenderem os seus interesses, designadamente nas negociações dos contratos gerais com os difusores ou com agrupamentos de utilizadores. Embora os titulares de direitos sejam livres de escolher entre formas de gestão individual e colectiva, certo é que a prática acaba por impôr esta última. Importante é, todavia, saber identificar com clareza as diferenças existentes entre os vários domínios de gestão colectiva, designadamente quanto à forma, aos métodos e aos efeitos reais da gestão. Também para os utilizadores a gestão colectiva é fundamental: permite-lhes recolher com facilidade todas as autorizações necessárias à utilização das obras e prestações, garantindo segurança jurídica no exercício da sua actividade. Em razão da crescente complexidade dos problemas decorrentes da multiplicidade de meios de comunicação ao público, bem como da necessidade de coordenar a respectiva exploração no tempo e no espaço, tem-se acentuado o movimento de especialização 6 das sociedades de gestão, cujo funcionamento se quer adaptado à especificidade dos direitos geridos. A sua organização é concebida em função das diferentes formas de utilização de determinada categoria de obras e interessa, por consequência, às mesmas categorias de titulares representados. Assim, um sistema eficaz de gestão colectiva funciona como meio imprescindível de conferir aos direitos reconhecidos a desejável efectividade. 6 Esta especialização poderá evitar que autores do audiovisual realizadores e argumentistas (os autores da música incluída nos filmes já são representados pelas sociedades que gerem o direito de execução das obras musicais) normalmente representados por sociedades generalistas onde predomina o sector musical, estejam sujeitos ao funcionamento e a métodos de gestão que, não adaptados à especificidade da exploração da obra audiovisual, não proporcionam os resultados desejáveis. Só essa especialização poderá garantir a ligação directa do autor à exploração da sua obra, permitindo-lhe tomar ele próprio as decisões que a ela respeitam, fazer face aos riscos da concentração dos média e, naturalmente, ser remunerado em conformidade.

5 1.1 - Digital Rights Management (DRM) Sobre este tema a APEPI acompanha inteiramente a posição de Mihály Ficsor, expressa em documento cuja tradução em português foi publicada na nossa revista Temas de Propriedade Intelectual, número 8 a 10, ano 2002, e que agora se reproduz: Com a generalização do uso da tecnologia digital, o advento das produções "multimédia e o espectacular aumento da utilização de material protegido pelo direito de autor e direitos conexos, as condições de protecção e aplicação dos direitos alteraram-se. Emergiram novos desafios ao exercício e gestão de direitos e, ao mesmo tempo, usando a mesma tecnologia, desenvolveram-se novas soluções para esses desafios: encriptação, electronic envelopes, fingerprints digitais, watermarks e números de identificação. Em consequência, surgiu uma nova situação no campo do exercício e gestão de direitos que respeita a vários aspectos. Em resposta a estes desenvolvimentos a OMPI convocou, em Maio de 1997, em Sevilha, um fórum internacional sobre o exercício e gestão do direito de autor e dos direitos conexos face aos desafios da tecnologia digital com o objectivo de analisar as alterações aos princípios e aspectos práticos da instituição e funcionamento dos sistemas de gestão colectiva. Depois de intensa discussão, os participantes acordaram em manter os princípios de , que entendem adequados também em ambiente digital, e em desenvolver as acções necessárias para preservar o "espírito de Sevilha", de que se destaca alguns aspectos: - A gestão colectiva deverá reforçar-se no mundo digital. De facto existem algumas áreas, já identificadas, em que a gestão colectiva tem um papel de importância inegável, designadamente o licenciamento de "produções multimédia" (que normalmente integram um grande número de obras e contribuições de diferentes categorias) e a autorização para utilizar certas categorias de material protegido na Internet. - Os titulares de direitos têm a maior liberdade de escolherem entre a gestão individual e colectiva de direitos, desde que os possam exercer directamente na Internet (através do uso de medidas tecnológicas e do sistema de informação para a gestão electrónica de direitos). Não é liquido que o uso desta solução seja do interesse dos próprios titulares de direitos; é que as razões pelas quais, em certas áreas exercício de direitos de comunicação ao público e radiodifusão a gestão colectiva é a melhor solução no analógico, existem também no digital. Como se 7 Princípios constantes no estudo da OMPI (da autoria de Mihály Ficsor) sobre as mais importantes questões relativas à gestão colectiva de direitos.

6 sabe, apenas os autores e artistas mais conhecidos têm possibilidade de escolher a gestão individual; mas a experiência mostra que este género de "dissidência" e a negação do princípio da solidariedade pode ser contraproducente não só para a comunidade dos criadores, mas também para os próprios "individualistas". - Estão em desenvolvimento novas formas de gestão de direitos que pode combinar elementos do exercício individual e colectivo, designadamente os copyright clearance centres (muito utilizados na gestão de direitos reprográficos), os quais constituem fonte de licenciamento centralizado, mas aplicam tarifas diferentes e condições de licenciamento determinadas individualmente pelos titulares de direitos; - A tecnologia digital e a Internet colocam sérios desafios e oferecem oportunidades promissoras às entidades de gestão colectiva "tradicionais" (designadamente as sociedades de gestão dos direitos dos artistas com condições "colectivizadas" de licenciamento, sistemas de tarifas e regras de distribuição). Por um lado, as novas possibilidades de gestão individual e as ditas opções de administração alternativa podem, em princípio, pôr em causa o seu monopólio também nas áreas em que o seu sistema costumava ser a única opção praticável, mas, por outro lado, utilizando a mesma tecnologia que lhes causa problemas, podem tornar a sua actividade mais eficiente e atractiva para os titulares de direitos. Em consequência, as sociedades "tradicionais" de gestão colectiva poderão sair deste período de desenvolvimento mais fortalecidas e aperfeiçoadas. - O fenómeno do "multimédia" quer em produções off-line, quer pela utilização conjunta em redes digitais globais de diferentes categorias de obras e prestações protegidas implica a crescente necessidade de estabelecer "coligações" de várias entidades de gestão colectiva, com vista a oferecer uma fonte centralizada de autorizações (one-stop shops), ou a participar numa cooperação genérica que se pode estender também a titulares de direitos individuais que a essa "coligação" se juntem, não só através da inclusão da sua informação para gestão, como através de mandato conferido à "coligação" para dar autorizações em seu nome e segundo as suas tarifas e condições individuais. Tal não significa que as várias entidades se fundam nessa "coligação"; as sociedades de gestão colectiva "tradicionais" podem e devem preservar a sua autonomia. Estas considerações referem-se às questões relativas ao impacto das novas tecnologias, sobretudo da tecnologia digital e da Internet, na gestão colectiva do direito de autor e dos direitos conexos. Os participantes no fórum de Sevilha e noutros mais recentes não estão felizmente de tal modo obcecados pelo desenvolvimento das mais modernas tecnologias que tenham perdido de vista tudo o resto. Assim, o debate teve ainda como resultado mais três constatações fundamentais que podem também ser tidas como princípios e que serão mencionadas por ordem crescente de importância:

7 - A tecnologia digital é apenas uma das tecnologias e o mundo digital interactivo coexistirá pacificamente com o mundo analógico. Continuará a existir a radiodifusão não interactiva (presente também na Internet sob a forma de webcasting), o teatro, os concertos ao vivo, as discotecas, restaurantes, clubs, hotéis etc. que usam obras musicais, e continuará a venda, o aluguer ou o empréstimo, não só on-line mas também em suportes físicos, de livros, revistas, jornais, fonogramas, videogramas, etc. Por isso não há qualquer razão para negligenciar a protecção e o exercício dos direitos relativos a estes usos "tradicionais", nem a gestão colectiva a eles atinente deixará de existir. - A questão de saber se podem e devem manter-se as formas colectivas de exercício de direitos ou se se deve escolher a gestão individual, não assenta na mera comparação das técnicas de gestão e da sua eficiência. Há algo mais que determinou os fundadores das primeiras sociedades de autores e que tem sido devidamente tido em conta pelos seus sucessores: em conjunto é possível alcançar mais e representar os interesses com mais eficiência do que individualmente. Seria um grande erro esquecer isto apenas porque existe uma nova ou mesmo uma novíssima tecnologia. - A terceira constatação, ou princípio, consiste na confirmação da natureza exclusiva dos direitos básicos dos autores e, quando adequado, dos beneficiários dos direitos conexos nas redes de comunicação e sob as condições inerentes ao novo "mundo digital". Não há qualquer razão ou justificação para restringir os direitos exclusivos só porque se verificam novos desenvolvimentos tecnológicos. A aplicação de medidas técnicas de protecção (sistemas de encriptação) e de informação para a gestão electrónica de direitos (números de identificação digital) tornam possível e garantem o adequado e eficiente exercício de direitos exclusivos não só na Internet como em futuras redes semelhantes. Não é de todo desejável que os governos limitem desnecessariamente a liberdade dos titulares de direitos de escolherem entre exercício individual (nos casos em que é possível) e a gestão colectiva dos seus direitos; e seria desastroso que transformassem os direitos exclusivos geridos colectivamente em meros direitos e remuneração, o que sucederia se interviessem no estabelecimento do sistema de tarifas e outras condições de autorização para além do que é justificável como medida preventiva de abusos do monopólio de facto de que as sociedades de gestão gozam. Não podemos satisfazer-nos nem repousar sobre o facto de os princípios de 1990 terem sido mantidos e confirmados. É necessário apresentar e defender esses princípios vezes sem conta, assim com é necessário continuar a dar a conhecer e garantir os princípios fundadores e os valores do direito de autor. Estão em causa os interesses dos Criadores, os interesses da Cultura e a possibilidade de uma vida social saudável de todos os Povos.

8 II. A COMUNICAÇÃO DA COMISSÃO EUROPEIA É com base nas considerações feitas no número anterior que a APEPI analisa o documento da Comissão, no que respeita à sua oportunidade (a) e às premissas em que se funda (b), bem como às razões invocadas para justificar uma iniciativa legislativa (c). a) A APEPI considera que é necessário conferir maior transparência aos procedimentos específicos das entidades de gestão colectiva e tornar a actividade destas mais compreensível para os titulares dos direitos administrados e para os usuários; entende, todavia, que no momento da entrada de 10 Estados para a União Europeia não é oportuno promover a harmonização deste sector, sendo certo, para mais, que não é visível a necessidade dessa harmonização 8 e que, no conjunto das matérias sobre propriedade intelectual, existem outros temas que carecem de atenção especial e neste sector têm particular impacte: são questões de direito substantivo 9 cuja prévia resolução é determinante para o objectivo que esta harmonização deverá alcançar. b) Para além de não extrair as devidas ilações da existência dos diferentes domínios e formas de gestão, o que pressupõe uma visão de uniformidade completamente desconforme à realidade, 10 a análise da Comissão ignora certas questões e assenta em certas premissas que, não totalmente correctas, podem falsear o resultado. 8 Para além de não constituírem entrave ao bom funcionamento do Mercado Interno, as diferenças entre os sistemas nacionais de gestão colectiva permitem ter em consideração as diferenças sociais, culturais e económicas entre os Estados membros, facilitando a adaptação às evoluções do mercado. Uma directiva comunitária (não necessária), geradora de normas obrigatórias, poria em causa a flexibilidade requerida para os ajustamentos à realidade do mercado. Acresce que esta iniciativa parece ignorar a resolução do Parlamento Europeu, de 15 de Janeiro de 2004, que, depois de reconhecer que as disparidades relativas à legislação, regulamentação, estatutos e práticas das sociedades de gestão colectiva resultam de tradições e de especificidades nacionais de ordem histórica, jurídica, cultural e económica, considera necessário estabelecer programas específicos de ajuda às sociedades dos países da Europa central e oriental ( 10) e convida a ter em conta a dimensão cultural das sociedades de gestão colectiva ( 26). 9 Designadamente: o reconhecimento, expresso nas legislações nacionais, de um direito intransmissível dos co-autores da obra audiovisual, a cargo dos difusores independentemente das convenções individuais existentes entre autores e produtores; o reconhecimento expresso da natureza exclusiva do direito relativo à retransmissão por cabo, simultânea e inalterada, de programas radiodifundidos (cfr. nota n.º 5); o reconhecimento da necessidade de remuneração por cópia privada, também colectivamente gerida... A citada resolução do Parlamento Europeu, de 15 de Janeiro de 2004, ocupa-se também destas questões: pede, no 28, que as futuras directivas europeias em matéria de televisão, de rádio, de comunicação, de transmissão e de telecomunicação digital reconheçam o princípio da propriedade do direito de autor, bem como a respectiva protecção e contenham disposições expressas sobre a matéria. 10 Cfr. Breve resenha das principais formas de gestão colectiva, em anexo.

9 Assim: Depois de passar em claro questões importantes relativas à gestão individual, a Comissão parece entender que os direitos exclusivos serão geridos individualmente (enquanto os direitos a simples remuneração, cuja concessão individual é impossível, ficarão para a gestão colectiva) e que os sistemas DRM são instrumentos privilegiados desse tipo de gestão. Todavia, como se sabe, estes sistemas, longe de constituírem alternativa à gestão colectiva, são um precioso auxiliar desta: facilitam todo o processo de emissão de licenças, desde a identificação das obras à percepção e distribuição de direitos. Na verdade, como se viu, 11 a gestão colectiva continua a ser, mesmo em ambiente digital, o meio mais eficaz para dar corpo 12 aos direitos reconhecidos. Parte do princípio que as sociedades de gestão colectiva estão em posição de força em relação aos utilizadores, quando, na realidade, o peso económico destes, em especial dos grupos audiovisuais, é incomparavelmente superior. A Comissão tende a concentrar-se nas missões de base das sociedades de gestão colectiva percepção e repartição de direitos, em detrimento de outras importantes missões sociais, culturais, de promoção, de aconselhamento jurídico indissociáveis da actividade criadora. Reduzidas as sociedades de gestão colectiva à sua dimensão meramente mercantil percepção e repartição das remunerações independentemente do conteúdo do direito que lhes deu origem 13 compreende-se que a Comissão tenha sujeitado a análise da respectiva actividade aos princípios do Mercado Interno, designadamente a liberdade de estabelecimento, a livre prestação de serviços e a livre concorrência. Para além de revelar desconhecimento daquilo que é a essência das sociedades de gestão colectiva e justifica a sua existência a luta pelo respeito dos direitos dos criadores, a aplicação destes princípios põe em causa o princípio da territorialidade do direito de autor, aceite no direito internacional e reconhecido pelas legislações e jurisprudência europeias. Elemento fundamental do sistema de protecção pela propriedade intelectual, este princípio traduz-se na celebração de acordos de representação recíproca entre sociedades de gestão colectiva, mediante os quais é possível assegurar a utilização dos repertórios no respeito pelos direitos dos respectivos titulares. A Internet e os mercados em linha não justificam qualquer contestação deste princípio. 11 Cfr. excerto do artigo de Mihály Ficsor, acima transcrito. 12 Só no seio das sociedades de gestão colectiva os titulares de direitos podem fazer valer eficazmente as suas prerrogativas, quer no caso de uma multidão de utilizadores, quer nos casos em que os utilizadores têm um poder económico imenso, em resultado de estratégias inerentes à convergência dos média. 13 Como se viu, o conteúdo do direito é elemento determinante do tipo de gestão mais adequado ao respectivo exercício.

10 c) Com base nesta análise, a Comissão identificou quatro domínios em que a intervenção comunitária lhe parece necessária, a fim de melhorar as condições de governabilidade das sociedades de gestão colectiva: criação e estatuto das sociedades de gestão colectiva, relações destas com os utilizadores e com os titulares de direitos e controlo externo. Certo é, todavia, que os Estados membros já dispõem de legislação sobre a actividade de gestão colectiva (a qual, aliás, nunca suscitou qualquer conflito a nível comunitário), e que uma harmonização nos domínios identificados, para além de não parecer adequada a alcançar o objectivo proposto pela Comissão, contribuiria para ocultar as especificidades nacionais em razão da realidade dos mercados. Resumindo Com o objectivo de realizar eficazmente um mercado interno da gestão colectiva de direitos, a Comissão entendeu complementar as regras da concorrência com um quadro legislativo de boa governança, incidente em 4 domínios identificados. Todavia, a análise em que, para tanto, se baseou, padece de certos vícios - não atende à razão de ser das entidades de gestão colectiva; - reduz a actividade destas à percepção e repartição de direitos, em detrimento das outras missões que lhes são próprias em função da sua razão de existir; - sujeita a actividade das sociedades de gestão colectiva aos princípios do mercado interno e põe em causa o princípio da territorialidade, fundamental no sistema de protecção pela propriedade intelectual; - ignora as diferenças entre os vários domínios e formas de gestão, o que pressupõe uma visão de uniformidade desconforme à realidade; - sobrevaloriza os sistemas DRM e considera-os alternativa à gestão colectiva; - parte do pressuposto que as sociedades de gestão colectiva estão sempre em posição de força em relação aos utilizadores; que levam a concluir pela deficiência do suporte técnico da iniciativa proposta. Sendo embora importante conferir maior transparência aos procedimentos próprios das entidades de gestão colectiva, tornando a actividade destas mais compreensível para os administrados e para os usuários, não é conveniente empreender esse trabalho ao nível comunitário enquanto a harmonização não se mostrar necessária e, muito menos, no momento do alargamento a 10 Estados membros que, desse modo, ficariam impedidos de beneficiar da flexibilidade requerida para os ajustamentos à realidade do mercado.

11 Acrescem fortes dúvidas sobre se a intervenção nos domínios identificados é adequada ao fim em vista. No conjunto das matérias sobre propriedade intelectual, existem outros temas que carecem de atenção especial e neste sector têm especial impacte: são questões de direito substantivo cuja prévia resolução é determinante para o objectivo que esta harmonização deverá alcançar. III. EM CONCLUSÃO 1. A APEPI acompanha a Comissão na sua preocupação de estabelecer regras que garantam a transparência dos procedimentos e assegurem a observância dos princípios que regem a representação dos autores, a gestão do repertório e o controlo das sociedades de gestão colectiva. 2. Considera, todavia, - que os erros e omissões de que a comunicação da Comissão enferma indiciam uma deficiente compreensão do fenómeno da gestão colectiva e da dimensão da actividade das entidades que a asseguram; - que as áreas de intervenção identificadas não são adequadas a resolver os problemas de fundo com que essas entidades se defrontam. 3. Nestas circunstâncias, entende a APEPI que se deverá continuar o trabalho de reflexão até que estejam reunidas as condições para uma intervenção realista e adequada. Paço de Arcos, Junho, 2004

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