CENTRO UNIVERSITÁRIO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DE BRASÍLIA - IESB RELAÇÕES INTERNACIONAIS DÉBORA RODRIGUES DOS SANTOS

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1 CENTRO UNIVERSITÁRIO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DE BRASÍLIA - IESB RELAÇÕES INTERNACIONAIS DÉBORA RODRIGUES DOS SANTOS POLÍTICA NACIONAL BRASILEIRA DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOAS À LUZ DO PROTOCOLO DE PALERMO BRASÍLIA - DF 2016

2 DÉBORA RODRIGUES DOS SANTOS POLÍTICA NACIONAL BRASILEIRA DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOAS À LUZ DO PROTOCOLO DE PALERMO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Instituto de Educação Superior de Brasília IESB, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Relações Internacionais. Orientadora: Msc. Francisca Javiera Gallardo Conejera BRASÍLIA - DF 2016

3 DÉBORA RODRIGUES DOS SANTOS POLÍTICA NACIONAL BRASILEIRA DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOAS À LUZ DO PROTOCOLO DE PALERMO Trabalho de Conclusão de Curso aprovado pela Banca Examinadora com vistas à obtenção do título de bacharel em Relações Internacionais do Centro Universitário Instituto de Educação Superior de Brasília. Brasília, DF 08 de junho de Banca Examinadora Profª MSc. Francisca Gallardo (Orientadora) Prof. MSc. Fabrício Lopes Paula (Membro) Prof. Dr. Weber de Lima Bonfim (Membro)

4 AGRADECIMENTOS A Jesus Cristo cujo amor é fonte e inspiração da minha vida. A toda a minha família, em especial a minha mãe, Ilma Rodrigues e meu pai, Manoel Rodrigues, pelo amor, incentivo e investimento nos meus estudos. À minha admirável orientadora, Professora Francisca Gallardo, pelo carinho, prestatividade e orientação. Aos professores do IESB, e ao coordenador Paulo Mafra pela dedicação em transmitir conhecimento. As colegas de turma pelo companheirismo. E a todos aqueles que de alguma forma me ajudaram e incentivaram nessa jornada.

5 A mais premente necessidade do ser humano é a de ser humano. Clarisse Lispector

6 RESUMO O presente trabalho de conclusão de curso tem por finalidade apresentar o fenômeno do tráfico internacional de pessoas, a terceira modalidade criminosa mais lucrativa do mundo que afeta milhões de pessoas, sobretudo mulheres e crianças. Nesse contexto o esforço global para tratar desse crime organizado transnacional resultou na criação, em 2000, do principal instrumento normativo internacional de prevenção, repressão e punição do tráfico de pessoas, o Protocolo de Palermo, no entanto, sua efetividade é um desafio que começa com a ratificação do Protocolo, que geram obrigações concretas, e sua internalização ao ordenamento jurídico interno do país que o adere. O Brasil promulgou o Protocolo de Palermo, em 2004, por meio do Decreto Presidencial nº 5.107, logo após ter depositado o instrumento de ratificação junto à Secretária-geral da Organização das Nações Unidas, assumindo o enfrentamento ao tráfico de pessoas como um tema relevante em sua agenda de direitos humanos. Diante disso, é possível observar a influência direta do Direito Internacional na produção de normas e políticas públicas brasileiras como a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas que será objeto de análise desse trabalho a partir de relatórios publicados pelo Ministério da Justiça do Brasil. Palavras-chave: Tráfico Internacional de Pessoas. Protocolo de Palermo. Direito Internacional. Políticas Públicas.

7 ABSTRACT The monograph aims to present international trafficking of people, the third most lucrative criminal modality in the world that affects millions of people, especially women and children. In this context the global effort to treat this transnational organized crime resulted in the creation, in 2000, the main international instrument to prevent, suppress and punish trafficking in persons, the Palermo Protocol, however, its effectiveness is a challenge that begins with ratification of the Protocol, which generate specific obligations, and internalising the domestic legal system of the country that adheres. The Brazil adopted the Palermo Protocol in 2004, through Presidential Decree No. 5107, shortly after having deposited the instrument of ratification with the Secretary-General of the United Nations, taking confronting trafficking in persons as an important issue in its human rights agenda. Therefore, it is possible to observe the direct influence of international law on the production standards and Brazilian public policies such as the National Policy to Combat Human Trafficking which will be analyzed in this work from reports published by the Ministry of Justice of Brazil. Keywords: International People Trafficking. Palermo Protocol. International Law. Public policy.

8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Mapa das principais áreas de destino dos fluxos transregionais de tráfico e suas significativas origens, Figura 2 - Gráfico sobre o gênero das vítimas de tráfico, Figura 3 - Gráfico sobre as formas de exploração das vítimas de tráfico, Figura 4 - Gráfico sobre as formas de exploração entre vítimas de tráfico detectadas por região,

9 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Tipificações penais relacionadas ao tráfico de pessoas e aos crimes correlatos...26 Tabela 2 - Número de vítimas do tráfico de pessoas e crimes correlatos entre 2011 a Tabela 3 - Perfil das vítimas de tráfico de pessoas Sexo, Brasil, 2011 a Tabela 4 - Estrutura do II Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, Brasil ( )...37

10 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS DAC DEPEN DPF DPRF ECA MDS MJ MRE MS MTE NETP OIT Divisão de Assistência Consular Departamento Penitenciário Nacional Departamento de Polícia Federal Departamento de Polícia Rodoviária Federal Estatuto da Criança e do Adolescente Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Ministério da Justiça Ministério das Relações Exteriores Ministério da Saúde Ministério do Trabalho e Emprego Núcleos de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas Organização Internacional do Trabalho OEA Organização dos Estados Americanos ONU Organização das Nações Unidas PAAHM Postos Avançados de Atendimento Humanizado ao Migrante PESTRAF Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual Comercial PNETP Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas PR Presidência da República SDH SENASP SINAN SINESP sobre Drogas SIT Emprego SPM UNODC Secretaria de Direitos Humanos Secretaria Nacional de Segurança Pública Sistema de Informação de Agravos de Notificação Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Secretaria de Políticas para as Mulheres Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime

11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO TRÁFICO INTERNACIONAL DE PESSOAS O HISTÓRICO DO TRÁFICO DE PESSOAS A DEFINIÇÃO ATUAL DO TRÁFICO DE PESSOAS ASPECTOS GERAIS DO TRÁFICO INTERNACIONAL DE PESSOAS FATORES COLABORADORES PARA O TRÁFICO DE PESSOAS TRÁFICO DE PESSOAS NO BRASIL A INTERNALIZAÇÃO DO PROTOCOLO DE PALERMO AO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO A LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS A REALIDADE BRASILEIRA SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS O perfil das vítimas de tráfico de pessoas O perfil do traficante e suas características Indiciados e presos POLÍTICA NACIONAL DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOA O I PLANO NACIONAL DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOAS O II PLANO NACIONAL DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOAS CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEXO A DESCRIÇÃO DAS 115 METAS DO II PNETP...47

12 12 INTRODUÇÃO O presente trabalho aborda sobre tráfico internacional de pessoas, tema relevante para as Relações Internacionais e para o Brasil por ser um país de origem, trânsito e destino de vítimas do tráfico. O tráfico de pessoas é uma violação aos Direitos Humanos que afeta milhões de pessoas além de ser a terceira modalidade criminosa mais lucrativa do mundo, assim, o seu combate exige uma abordagem complexa e multidimensional. Nesse contexto o esforço global para enfrentar esse problema resultou na criação do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, o principal instrumento normativo sobre a temática que traz a primeira definição internacionalmente aceita de tráfico de pessoas. O Protocolo já foi aderido por mais de 160 países inclusive o Brasil, com isso a hipótese deste trabalho se encontra na influência direta do Direito Internacional na produção de políticas públicas no âmbito interno de um país. Neste sentido o objetivo geral deste trabalho visa analisar a efetividade da Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e seus respectivos Planos Nacionais. Além disso, os objetivos específicos buscam introduzir o arcabouço histórico e o marco legislativo internacional sobre o tráfico humano; identificar a aplicação do Protocolo de Palermo no âmbito jurídico do Brasil e avaliar as políticas públicas brasileiras de combate ao tráfico de pessoas. O trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro capítulo será introduzido o contexto histórico e o avanço da legislação internacional sobre o tráfico de pessoas, bem como os aspectos gerais do tráfico e as causas que colaboram para ocorrência do crime na atualidade. O segundo capítulo será abordado a internalização do Protocolo de Palermo ao ordenamento jurídico brasileiro e traçará um perfil do tráfico humano no Brasil com base no Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas: dados de 2013 do Ministério da Justiça. Por último, será avaliado os Planos Nacionais I e II de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas com amparo ao objetivo do Protocolo de Palermo, ou seja, na prevenção do crime, punição dos criminosos e proteção das vítimas.

13 13 A metodologia utilizada amparou-se na bibliográfica descritiva, com estudo de caso dos efeitos da implementação dos Planos Nacionais de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas no Brasil. Para o alcance dos objetivos geral e específicos, a pesquisa terá uma abordagem qualitativa para verificar a problematização do tráfico de pessoas submetendo o fenômeno a análise e reflexão. Além disso, segue uma ordem cronológica dos acontecimentos históricos que foi realizada mediante referências, organizando informações, dados coletados por sites, artigos e livros, tanto impressos quanto eletrônicos.

14 14 1 TRÁFICO INTERNACIONAL DE PESSOAS O primeiro capítulo do presente trabalho tem por objetivo explanar o contexto histórico e o avanço da legislação internacional sobre o tráfico de pessoas, além dos aspectos gerais do tráfico e as causas que colaboram para ocorrência do crime na atualidade. 1.1 O HISTÓRICO DO TRÁFICO DE PESSOAS A escravidão antecede o tráfico de negros, surgindo nos primórdios da história da humanidade, quando povos vencidos eram destinados a prestarem qualquer tipo de trabalho aos seus conquistadores. Exemplo disso são as civilizações antigas do Egito, da Grécia e da Roma. Damásio de Jesus cita que o problema do tráfico não é novo, e é comumente referido de forma moderna de escravidão que persisti até os dias de hoje, problema antigo que o mundo democrático pensava extinto 1. No Brasil o tráfico negreiro perdurou séculos e foi o último país americano a abolir a escravidão. O motivo de tanta resistência para a libertação dos escravos era porque o Brasil dependia de sua mão-de-obra para suas atividades econômicas desde meados do século XVI até meados do século XIX. Depois que a Inglaterra aboliu em 1807 o tráfico nas suas colônias, torna-se o defensor internacional da luta contra ele. Em 1808 a escravidão foi considerada crime contra a humanidade e é sob influência ou pressão por parte da Inglaterra que o Brasil quase meio século depois aboliu o tráfico negreiro. Após a abolição da escravidão a preocupação mundial com os danos causados pelo tráfico de pessoas teve como marco inicial a publicação do Acordo Internacional para a Repressão do Tráfico de Escravas Brancas, em 1904, embora tenha tido uma aplicação restrita, pois mostrava uma realidade limitada ao continente europeu 2. Complementando o Acordo de 1904, em 1910 foi formulada a Convenção Internacional relativa à Repressão do Tráfico de Escravas Brancas, cujo acréscimo se deu no tocante a disposição de sanção aos recrutadores de vítimas 3. Outros instrumentos internacionais deram continuidade aos anteriores como: a Convenção Internacional para a Repressão do Tráfico de Mulheres e 1 JESUS, Damásio Evangelista de. Tráfico internacional de mulheres e crianças Brasil: aspectos regionais e nacionais. São Paulo: Saraiva, 2003, p Ibid, p. 27/28. 3 Ibid, p. 27/28.

15 15 Crianças, realizada em Genebra em 1921; a Convenção Internacional relativa à Repressão do Tráfico de Mulheres Maiores, também em Genebra em Sob a égide da Organização das Nações Unidas ocorreu a Convenção e Protocolo Final para a Supressão do Tráfico de Pessoas e do Lenocínio, em Nova York, em Essa convenção foi a primeira a reconhecer que qualquer pessoa poderia ser vítima do crime de tráfico internacional de pessoas. 4 Mais tardar a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Direitos Humanos (Viena, 1993) e a Conferência Mundial sobre a Mulher (Beijing, 1995) reforçaram a ideia de que o tráfico de seres humanos vai contra a dignidade e o valor inerente à pessoa humana e liberdades fundamentais, e que é de interesse da humanidade combater tal crime. Por fim, no ano de 2000, em Nova York, foi realizado a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial mulheres e crianças, também conhecido como Protocolo de Palermo. Ele entrou em vigor internacional em 2003 e encontra-se aberto à adesão dos Estados, em janeiro de 2016 já contava com 169 Estados-Membros e 117 signatários. 5 Seus objetivos são de caráter preventivo, punitivo e social, de recuperação e de tratamento das vítimas com observância e respeito aos tratados de direitos humanos, e também a promoção da cooperação entre os Estados a fim de tornar efetivos esses objetivos. O Protocolo de Palermo traz a primeira definição internacionalmente aceita de tráfico de seres humanos, houve um avançou na sua definição do crime, uma vez que o objeto de proteção se estendeu para pessoas ou seres humanos, pois inicialmente a proteção se limitava apenas às escravas brancas, e posteriormente para mulheres e crianças. Outro aspecto importante refere-se à abrangência, até o advento do Protocolo de Palermo, a preocupação era apenas com a prostituição, hoje o foco é a proteção de qualquer forma de exploração, seja ela de índole sexual, laboral ou de remoção de órgãos, ocasionada pelo tráfico internacional A DEFINIÇÃO ATUAL DO TRÁFICO DE PESSOAS 4 RODRIGUES, Thaís de Camargo. Tráfico internacional de pessoas para exploração sexual. São Paulo: Saraiva, 2013, p Disponível em:< a&chapter=18&lang=en>. Acesso em: 25 fev RODRIGUES, op. cit., p. 63.

16 16 O Protocolo de Palermo em seu artigo 3º define o tráfico de pessoas como: a) o recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para o propósito de exploração. Exploração inclui, no mínimo, a exploração da prostituição ou outras formas de exploração sexual, trabalho ou serviços forçados, escravidão ou práticas análogas à escravidão, servidão ou a remoção de órgãos; b) O consentimento de uma vítima de tráfico de pessoas para a desejada exploração definida no subparágrafo (a) deste artigo deve ser irrelevante onde qualquer um dos meios definidos no subparágrafo (a) tenham sido usados; c) O recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de uma criança para fins de exploração devem ser considerados tráfico de pessoas mesmo que não envolvam nenhum dos meios definidos no subparágrafo (a) deste artigo; d) Criança deve significar qualquer pessoa com menos de 18 anos de idade. 7 De acordo com essa definição, o crime de traficar pessoas tem três elementos constitutivos referentes à forma (recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas); os meios (ameaça ou uso da força ou outras formas de coação, rapto, fraude, engano, abuso de autoridade ou situação de vulnerabilidade ou entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra) e a finalidade que envolve diferentes formas de exploração. Para que o Tráfico de Pessoas seja considerado crime é imprescindível a existência de pelo menos um de cada dos três elementos constituintes do tráfico (forma, meio e finalidade), por exemplo, a forma de recrutamento de uma pessoa por meio de ameaça para fins da exploração sexual se configura crime de tráfico. Caso contrário a ocorrência isolada desses elementos podem representar um delito específico na legislação criminal interna de um país. No entanto, o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de uma criança para fins de exploração serão considerados "tráfico de pessoas" mesmo que não envolvam nenhum dos meios referidos na alínea a do artigo 3º do Protocolo de Palermo. Embora o Protocolo não mencione outras finalidades da exploração ele deixa claro, com o uso da expressão no mínimo, que esse rol é meramente exemplificativo 8 podendo assumir quaisquer outras modalidades degradantes como casamentos forçados, adoções ilegais, exploração da mendicância dentre outras. O Protocolo de Palermo cita basicamente as 7 Decreto nº 5.017, de 12 de março de Promulga o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças. Disponível em: < Acesso em 04 de maio RODRIGUES, op. cit., p. 128.

17 17 seguintes finalidades de exploração: a exploração sexual que para Guilherme Nucci deve ser caracterizada como forma de retirada de vantagem em relação a alguém, valendo-se de fraude, ardil, posição de superioridade ou qualquer forma de opressão; 9 o trabalho ou serviços forçados ou similares a escravidão que abrange uma gama de atividades de recrutamento, abrigo e transporte da pessoa utilizando a força física ou ameaças, coerção psicológica ou outros meios coercitivos para obrigar alguém trabalhar e o tráfico de órgãos que se caracteriza pelo recrutamento ou recepção de pessoas vivas ou mortas ou dos respectivos órgãos por meio de ameaça ou utilização da força ou recepção por terceiros de pagamentos ou benefícios no sentido de conseguir a transferência de controle sobre o potencial doador, para fins de exploração por meio da remoção de órgãos para transplante ASPECTOS GERAIS DO TRÁFICO INTERNACIONAL DE PESSOAS O tráfico internacional de pessoas é um fenômeno de raízes históricas e práticas modernas com incidência mundial, além de constituir a terceira modalidade criminosa mais lucrativa no mundo, ultrapassada apenas pelo tráfico de drogas e contrabando de armas. 11 Segundo dados fornecidos pelo Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas de 2014 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o crime afeta praticamente todos os país, em todos os continentes. Entre 2010 e 2012, foram identificados 152 países de origem e 124 países de destino afetados pelo tráfico de pessoas, e pelo menos 510 rotas de tráfico ao redor do mundo 12. Observa-se de modo geral que os países de origem são menos desenvolvidos, local onde se encontram as pessoas mais vulneráveis a esse tipo de crime. Os países de trânsito são aqueles marcados por insuficiências de fiscalização em suas fronteiras. Já os países de destino, em regra, são países mais desenvolvidos, ressaltando-se o crescente aparecimento de países em desenvolvimento nessa categoria. 9 NUCCI, Guilherme de Souza. Crimes contra a dignidade sexual. 2. Ed. São Paulo, Revista dos Tribunais, 2010, p SIQUEIRA, Priscila; QUINTEIRO, Maria (Orgs.). Tráfico de Pessoas: Quanto vale o ser humano na balança comercial do lucro?são Paulo: Ideias & Letras, 2013, p MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Secretaria Nacional de Justiça. Tráfico de Pessoas Uma Abordagem para os Direitos Humanos. 1. Ed. Brasília: Edição do autor, 2013, p UNODC. Global report on trafficking in persons.2014, p. 7. Disponível em: < Acesso em: 22 mar

18 18 Figura 1 - Mapa das principais áreas de destino dos fluxos transregionais de tráfico e suas significativas origens, Fonte: UNODC, Global Report in Trafficking in Persons 2014, p. 7 Segundo o Relatório do UNODC de 2014 as informações sobre a idade e o sexo das vítimas do tráfico de pessoas fornecidas por 80 países foram identificadas vítimas entre 2010 a 2012, dentre elas é possível notar que a grande maioria das vítimas são mulheres e meninas e mais de 30% das vítimas detectadas são crianças menores de 18 anos de idade como mostra no gráfico abaixo. Figura 2 - Gráfico sobre o gênero das vítimas de tráfico, 2011 Meninas 21% Meninos 12% Mulheres 49% Homens 18% Fonte: UNODC, Global Report in Trafficking in Persons 2014, p. 5

19 19 A fonte de lucro dos traficantes de pessoas esta nos diversos tipos de exploração das vítimas. Os dois tipos mais freqüentes são a exploração sexual e o trabalho forçado com 53% e 40% respectivamente. Apesar da baixa percentagem global, 0,3%, a remoção de órgãos se enquadra nas formas de exploração. Além dessas finalidades de exploração o gráfico abaixo ilustra que 7% correspondem a outros tipos de exploração que foram identificados durante a elaboração do Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas de 2014, são eles: exploração mista de trabalho forçado e exploração sexual, pornografia (incluindo via internet), casamentos forçados, venda de bebês, adoção ilegal, combate armado e ritual. As informações da figura 3 foram fornecidas por 88 países e refere-se a um total de vítimas de tráfico de pessoas detectadas entre Figura 3 - Gráfico sobre as formas de exploração das vítimas de tráfico, 2011 Remoção de órgão 0, 3 % Outros 7% Trabalho Forçado 40% Exporação sexual 53% Fonte: UNODC, Global Report in Trafficking in Persons 2014, p. 9 De acordo com a figura 4, a finalidade de exploração sexual é a principal forma de tráfico de pessoas detectada nas regiões da Europa e Ásia Central e nas regiões da África e Oriente Médio. Nas Américas, as categorias de trabalho forçado e exploração sexual são praticamente iguais. Já nas regiões do Sudeste Asiático e Pacífico o tráfico para o trabalho forçado é predominante no período de 2010 a 2012.

20 20 Figura 4 - Gráfico sobre as formas de exploração entre vítimas de tráfico detectadas por região, Europa e Ásia Central 66% 26% 8% Sudeste Asiático e Pacífico 26% 64% 10% Américas 48% 47% 4% África e Oriente Médio 53% 37% 10% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Exploração Sexual Trabalho Forçado, servidão e escravidão Outras formas de exploração Remoção de órgão Fonte: UNODC, Global Report in Trafficking in Persons 2014, p. 9 Quanto à legislação que criminaliza o tráfico de pessoas conforme o Protocolo de Palermo, de 173 países considerados nesta análise, 146 (85%) criminaliza todos os aspectos do tráfico de pessoas explicitamente listados no artigo 3, cerca de 10% dos países-membros têm uma legislação parcial, isto é, esses países criminalizam o tráfico de pessoas especificamente, mas a sua legislação só pode cobrir algumas vítimas (por exemplo, apenas crianças, mulheres e / ou estrangeiros) ou determinadas formas de exploração (por exemplo, exploração sexual) e apenas 5% dos países considerados (09 de 173) não tem uma legislação que criminaliza especificamente tráfico de pessoas, ou mesmo algumas formas deste crime. 13 É provável que os casos de tráfico podem ser processados nesses países, aproveitando outros artigos do código penal, tais como a escravidão, o trabalho forçado, lenocínio, roubo de criança ou outros. No entanto, é muito improvável que estes instrumentos são adaptados para abordar a questão da assistência às vítimas. Além disso, as sanções para os traficantes podem não ser proporcionais a gravidade dos crimes cometidos. As regiões da África e Oriente Médio são as que mais precisam preencher a lacuna da legislação penal, enquanto os países grandes e densamente povoados da Ásia e da América do 13 UNODC. Global report on trafficking in persons.2014, p. 7. Disponível em: < Acesso em: 22 mar. 2015

21 21 Sul ainda têm legislação parcial, ou seja, nesses países existem pessoas desamparadas e vulneráveis ao tráfico por não ter leis em conformidade com as normas internacionais, que lhes proporcionariam proteção integral, como o Protocolo de Tráfico de Pessoas. 14 O relatório também destaca que a impunidade deste crime continua um problema grave, pois cerca de 40% dos de 128 países analisados relataram mais de 10 condenações, das quais, cerca de 16% tinham mais de 50 condenações em pelo menos um dos anos de enquanto 15% não registrou uma única condenação. No geral não houve um aumento perceptível na resposta da justiça global a este crime, deixando uma parcela significativa da população vulnerável. A grande maioria dos países relatou um número relativamente estável de condenações durante o período de , enquanto que apenas 13% viram um aumento perceptível. No entanto, outros 10% dos países registraram tendências decrescentes em relação ao mesmo período. Isto significa que a partir de uma perspectiva global, agregada, a situação permaneceu inalterada. 1.4 FATORES COLABORADORES PARA O TRÁFICO DE PESSOAS Infere-se que a problemática do tráfico de pessoas está presente em todas as regiões do mundo e tem, entre suas causas, a ausência de direitos ou a baixa aplicação das regras internacionais de direitos humanos, os fatores econômicos e sociais, a emigração irregular, a discriminação de gênero e a instabilidade política e econômica em regiões de conflito, que transformam as pessoas, em especial mulheres, crianças e adolescentes, em vítimas de diferentes tipos de exploração. Para Damásio de Jesus, o crime de traficar pessoas cresceu nos últimos anos por ser uma atividade que não exige grandes investimentos e gera altos lucros, porque é muito mais rentável traficar pessoas do que as outras mercadorias, já que elas podem ser usadas diversas vezes Ibid, p JESUS, Damásio Evangelista de. Tráfico internacional de mulheres e crianças Brasil: aspectos regionais e nacionais. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 13/14.

22 22 Conforme Maria L. Leal e Maria de F. Leal o tráfico de pessoas tem suas raízes no modelo de desenvolvimento desigual do mundo capitalista globalizado e do colapso do Estado, não só do ponto de vista ético, mas, sobretudo pela falta de atenção à questão social 16. O atual modelo de globalização centraliza a riqueza mundial nas mãos de uns poucos privilegiados, deixando marginalizada uma massa imensa de excluídos do processo produtivo. O resultado desse processo é a existência da extrema pobreza em diversas regiões do mundo, daí surge à vulnerabilidade das pessoas, com baixas condições de vida e ausência de oportunidade de trabalho, tornam-se presas fáceis das promessas de uma vida melhor para si e suas famílias em empreitadas envolvendo o tráfico humano. Outro fator determinante é a emigração indocumentada. Este meio pelo qual as pessoas saem de seu país e tentam entrar, sem observância dos procedimentos legais, em outro país que ofereça melhores condições de vida, colocam-se em alto grau de vulnerabilidade para diferentes tipos de crime, tais como o contrabando de migrantes e o tráfico de pessoas 17. Em algumas regiões os conflitos armados, instabilidade política, econômica e civil causam efeitos devastadores sobre mulheres e crianças. As mulheres são particularmente vulneráveis a abusos sexuais e trabalhos domésticos forçados por parte de grupos armados 18. Por fim, vale ressaltar a deficiência das leis. Leis brandas ou em desconformidade com as diretrizes internacionais favorecem a consumação e crescimento do crime 19, na medida em que torna custoso o combate e prevenção tanto na esfera interna de um país quanto em âmbito internacional 20. Apesar da legislação internacional de enfrentamento ao tráfico humano ter progredido ao longo dos anos, sua eliminação eficaz ainda está longe de ser alcançada por diversos fatores supracitados, instando os Estados a buscar mecanismos de cooperação internacional, bilateral e multilateral para prevenção do crime, punição dos traficantes e proteção às vítimas. 16 LEAL, Maria Lúcia; LEAL, Maria de Fátima (Orgs.). Pesquisa sobre tráfico de mulheres, crianças e adolescentes para fins de exploração sexual comercial PESTRAF. Relatório Nacional Brasil. Brasília: CECRIA, OIT. Tráfico de pessoas para fins de exploração sexual. Brasília: OIT, 2006, p OIT, loc. cit. 19 JESUS, op. cit, p BRASIL. Secretaria Nacional de Justiça. Política nacional de enfrentamento ao tráfico de pessoas. Brasília: SNJ, 2 ed., 2008, p. 40.

23 23 2 TRÁFICO DE PESSOAS NO BRASIL Este capítulo abordará o processo de internalização do Protocolo de Palermo ao ordenamento jurídico brasileiro e traçará o perfil do tráfico de pessoas no Brasil com base no Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, dados de 2013 do Ministério da Justiça. 2.1 A INTERNALIZAÇÃO DO PROTOCOLO DE PALERMO AO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO O Tráfico de Pessoas foi abordado na Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, realizada em 1999 na Itália, ganhando profundidade e sistematização no Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, elaborado em 2000 em Nova Iorque. Nesse mesmo ano o representante do Brasil assinou o Protocolo de Palermo concordando com seu conteúdo. Após a assinatura do Protocolo compete ao Congresso Nacional a autorização da ratificação do mesmo. O processo administrativo percorre o seguinte trâmite: O Ministério das Relações Exteriores traduz o texto negociado para o português, prepara uma minuta da Mensagem Presidencial, faz a análise jurídica da legalidade do texto e encaminha ao Presidente da República; a Casa Civil da Presidência da República faz uma análise da legalidade e do mérito do tratado, tecendo suas considerações; o Presidente, estando de acordo, envia a Mensagem, acompanhada da Exposição de Motivos à Câmara dos Deputados; a Câmara aprova o tratado, remete em seguida ao Senado Federal; o Senado aprova o tratado; o Presidente do Senado promulga, então, um Decreto Legislativo, que é publicado no Diário Oficial do Senado. Este ato representa o referendo do Congresso Nacional; o Poder Executivo ratifica o tratado, com o depósito do instrumento de ratificação perante o órgão depositário. O Poder Executivo ratifica o tratado porque ele é o único com competência para agir internacionalmente em nome do Estado. Após a autorização pelo Congresso, o chefe do Poder Executivo, por meio do Ministério das Relações Exteriores, procede à ratificação. A partir de então, o Brasil se compromete perante os demais Estados-partes. o Poder Executivo publica o Decreto Executivo, promulgando e internalizando o tratado, a partir do momento em que este integrará a ordem jurídica interna. 21 Por meio do Decreto Legislativo nº 231, de 29 de maio de 2003 o Congresso Nacional autorizou o texto do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, 21 VARELLA, Marcelo D. Direito Internacional Público. 4ª. Ed. São Paulo: editora: Saraiva, 2014, p.68

24 24 em Especial Mulheres e Crianças. Em 29 de janeiro de 2004, o Brasil depositou o instrumento de ratificação junto à Secretaria-Geral da ONU, 22 posteriormente, em 14 de março de 2004, o Protocolo de Palermo foi promulgado pelo Decreto Presidencial do Governo Lula, nº 5.107, assumindo o enfrentamento ao tráfico de pessoas com relevância em sua agenda de direitos humanos. No Brasil, tratado é internalizado com a promulgação do Decreto Executivo a partir de então, seu texto é incorporado ao ordenamento jurídico nacional. O decreto executivo tem três funções: a promulgação do tratado, a publicação oficial de seu texto e a executoriedade do ato internacional, que passa, então, a vincular e a obrigar no plano do direito positivo interno. Segundo Marcelo D. Varella o tratado ratificado e internalizado no Brasil integra o direito interno e deve ser utilizado como qualquer outra norma infraconstitucional, regulando a matéria à qual se destina. No Brasil, os tratados em geral têm força de norma infraconstitucional, no entanto, os tratados de direitos humanos, quando aprovados na forma de projeto de emenda constitucional, têm força de norma constitucional A LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS Conforme a criminalização do tráfico de pessoas o artigo 5 do Protocolo de Palermo prevê que os Países signatários deverão adotar medidas legislativas e outras que considere necessárias de forma a estabelecer como infrações penais os atos descritos no seu artigo 3, quando tenham sido praticados intencionalmente. 24 Embora houvesse uma adaptação na legislação brasileira com a tipificação de conduta do tráfico de pessoas, essa modificação no Código Penal (pela lei n /2009) não atende a peculiaridade e a complexidade que contemple as características do crime conforme a definição do Protocolo de Palermo em um dispositivo específico, pois é restrita a conduta praticada contra vítimas traficadas internamente e internacionalmente apenas para fins de exploração sexual. 25 Entretanto, há 22 Decreto nº 5.017, de 12 de março de Promulga o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças. Disponível em: < Acesso em: 25 de junho de VARELLA, op. cit., p Decreto nº 5.017, de 12 de março de Promulga o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças. Disponível em: < Acesso em: 25 de junho de SIQUEIRA, Priscila; QUINTEIRO, Maria (Orgs.). Tráfico de Pessoas: Quanto vale o ser humano na balança comercial do lucro?são Paulo: Ideias & Letras, 2013, p. 224.

25 25 outros tipos penais que são chamados correlatos ou subsidiários ao tráfico de pessoas, no sentido de que se cometidos em paralelo ou com meio para alcançar o fim, que seria o tráfico de pessoas e a exploração. Tabela 1 - Tipificações penais relacionadas ao tráfico de pessoas e aos crimes correlatos. TRÁFICO PARA FINS DE EXPLORAÇÃO SEXUAL E CORRELATOS TIPO PENAL LEGISLAÇÃO CONDUTA Tráfico internacional Art. 231 Código Penal Tráfico interno Art. 231-A Código Penal Corrupção de menores Art. 218 Código Penal Favorecimento da prostituição ou outra Art. 218-A forma de exploração Código Penal sexual de vulnerável Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual Art. 228 Código Penal Art. 229 Código Penal Art. 230 Código Penal -Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de alguém que nele venha a exercer a prostituição ou outra forma de exploração sexual; ou a saída de alguém que vá exercê-la no estrangeiro. -Agenciar, aliciar, comprar a pessoa traficada. -Transportar, transferir, alojar a pessoa traficada tendo conhecimento desta condição. -Promover ou facilitar o deslocamento de alguém dentro do território nacional para o exercício da prostituição ou outra forma de exploração. -Agenciar, aliciar, comprar a pessoa traficada. -Transportar, transferir, alojar a pessoa traficada, tendo conhecimento desta condição. -Induzir alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem. -Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone. -Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la ou impedir que alguém a abandone. -Manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, havendo, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente. -Tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no Rufianismo todo ou em parte, por quem a exerça. Crimes contra a criança e Art. 244-A ECA -Submeter criança ou adolescente à prostituição ou à o adolescente exploração sexual. CORRELATOS AO TRÁFICO PARA FINS DE TRABALHO ESCRAVO -Redução alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão Redução a condição Art. 149 de dívida contraída com o empregador ou preposto. análoga à de escravo Código Penal -Cercear o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com fim de retê-lo no local de trabalho. -Manter vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apoderar de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. Maus tratos Art. 136 Código Penal -Expor a perigo a vida ou a saúde de criança ou adolescente, sob sua autoridade, guarda ou vigilância, sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado. -Frustar, mediante fraude ou violência, direito assegurado pela legislação do trabalho.

26 26 Frustração de direito assegurado por lei trabalhista Art. 203 Código Penal -Obrigar ou coagir alguém a usar mercadorias de determinado estabelecimento, para impossibilitar o desligamento do serviço em virtude de divida. -Impedir alguém de se desligar de serviços de qualquer natureza, mediante coação ou por meio de retenção de seus documentos pessoais ou contratuais. -Recrutar trabalhadores, mediante fraude, com o fim de Aliciamento para o fim de emigração Art. 206 Código Penal levá-los para território estrangeiro. Aliciamento de -Aliciar trabalhadores para transporte dentro do território trabalhadores de um local Art. 207 nacional, com ou sem fraude ou cobrança de qualquer para outro do território Código Penal quantia. nacional CORRELATOS AO TRÁFICO PARA FINS DE CASAMENTO SERVIL Cárcere privado Art Privar alguém de sua liberdade mediante cárcere Código Penal privado. Redução à condição Art. 149 análoga à de escravo Código Penal -Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto. CORRELATOS AO TRÁFICO PARA FINS DE REMOÇÃO DE ÓRGÃOS, TECIDOS E PARTES DO Crimes contra a Lei de Transplante Crimes contra a Lei de Transplante Crimes contra a criança e o adolescente Art. 14 da Lei n 9.434/97 Art. 15 da Lei n 9.434/97 Art. 16 da Lei n 9.434/97 Art. 17 da Lei n 9.434/97 CORPO HUMANO -Remover tecidos, órgãos ou partes do corpo de pessoa ou cadáver com o fim de lucro ou sem a autorização do doador ou responsável. -Comprar ou vender tecidos, órgãos ou partes do corpo humano. -Promover, intermediar, facilitar ou auferir vantagem com a transação. -Realizar transplante ou enxerto utilizando tecidos, órgãos ou partes do corpo humano de que se tem ciência que foram obtidos de forma ilícita. -Recolher, transportar, guardar ou distribuir partes do corpo humano de que se tem ciência que foram obtidos de forma ilícita. CORRELATOS COM AS DIVERSAS MODALIDADES DE TRÁFICO DE CRIANÇA E ADOLESCENTE Art. 238 ECA -Prometer ou efetivar a entrega de filho ou pupilo a terceiro, mediante paga ou recompensa. Art. 239 ECA -Promover ou auxiliar a efetivação de ato destinado ao envio de criança ou adolescente para o exterior com inobservância das formalidades legais ou com o fito de obter lucro. CORRELATOS COM AS DIVERSAS MODALIDADES DE TRÁFICO DE ESTRANGEIRO Fraude de Lei sobre Estrangeiros Crimes do Estatuto do Estrangeiro Art. 309 Código Penal Art. 125, Inciso XII da Lei nº Atribuir a estrangeiro falsa qualidade, para promover-lhe a entrada em território nacional. -Introduzir estrangeiro clandestinamente ou ocultar clandestino ou irregular. Fonte: Secretaria Nacional de Justiça. Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas: Dados de Brasília: Ministério da Justiça, 2014, p. 11. Dada a ausência de previsão legal das outras modalidades de tráfico de pessoas, segundo o Protocolo de Palermo, são os tipos penais da tabela acima que podem ser aplicados,

27 27 responsabilizando aqueles que pratiquem o tráfico de pessoas com outras finalidades que não a exploração sexual A REALIDADE BRASILEIRA SOBRE O TRÁFICO DE PESSOAS O Brasil é um país de origem e destino do tráfico humano, vítimas brasileiras foram encontradas na Suíça, Portugal e Espanha submetidas à exploração sexual, e no Brasil, foram encontradas pessoas do Paraguai, Peru e Haiti submetidas à condição análoga a de escravo. De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual Comercial (PESTRAF) no Brasil, publicada em 2002, existem cerca de 240 rotas de tráfico de pessoas no país sendo que 131 rotas interligam o Brasil ao exterior, com forte concentração na Região Norte, 78 rotas interestaduais e 32 rotas intermunicipais. As rotas são estrategicamente construídas a partir de cidades que estão próximas as rodovias, portos e aeroportos, oficiais ou clandestinos, que são pontos de fácil mobilidade. Pode utilizar-se de vias terrestres, aéreas, hidroviárias e marítimas. 27 Há uma precariedade muito grande com relação aos dados correspondentes ao tráfico de pessoas, no entanto, existe um número considerável de fontes oficiais capazes de produzir informações sobre o tema que são aqueles pertencentes ao campo da justiça e da segurança pública, como a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) do Ministério da Justiça através do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas (SINESP), o Departamento de Polícia Federal (DPF), o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), o Departamento de Polícia Rodoviária Federal (DPRF). Além desses órgãos também há outras instituições que possuem informações importantes sobre tráfico de pessoas. São elas a Divisão de Assistência Consular do Ministério das Relações Exteriores (DAC/MRE), a Secretaria de Direitos Humanos (SDH), a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), a Coordenação-Geral de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (MS), o Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria Nacional de 26 BRASIL. Secretaria Nacional de Justiça. Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas: Consolidação dos dados de 2005 a Brasília: Ministério da Justiça, 2011, p LEAL, Maria Lúcia; LEAL, Maria de Fátima (Orgs.). Pesquisa sobre tráfico de mulheres, crianças e adolescentes para fins de exploração sexual comercial PESTRAF. Relatório Nacional Brasil. Brasília: CECRIA, 2002.

28 28 Assistência Social (DPSE/SNAS/MDS) e Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (SIT/MTE). 28 Os dados sobre vítimas da tabela abaixo trazem informações diferenciadas na abordagem quanto ao crime dc tráfico de pessoas. Enquanto os dados da DAC, SDH, SPM, MDS e MS estão de acordo com a definição conceitual de tráfico de pessoas da Convenção de Palermo, os dados das instituições da Segurança Pública e da Justiça Criminal- DPF e DPRF trazem informações de acordo com a legislação penal brasileira. Tabela 2 - Número de vítimas do tráfico de pessoas e crimes correlatos entre 2011 a Ano/ Ator estratégico DAC SDH/PR SPM/PR MS MDS MTE SENASP DPRF Fonte: Secretaria Nacional de Justiça. Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas: Dados de 2013 (Adaptado pela autora, 2016). Em 2013, a Divisão de Assistência Consular registrou 62 vítimas de tráfico de pessoas, sendo que 41 (66%) foram de tráfico para exploração sexual e 21 (34%) de trabalho escravo. Dentre 41 casos de exploração sexual, 36 envolveram vítimas do sexo feminino e cinco de sexo não informado. Nos casos de trabalho escravo, as vítimas do sexo masculino foram maioria, sendo 11 casos cujas vítimas eram homens, 07 eram mulheres e 03 não havia informação. 29 A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República registrou 309 vítimas, por meio do Disque , cerca de dez vezes maior que o número de 2011 (32), e o dobro do ano anterior (170). Os estados mais populosos foram os que tiveram os maiores números de 28 BRASIL. Secretaria Nacional de Justiça. Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas: Dados de Brasília: Ministério da Justiça, 2014, p Ibid, p O Disque Denúncia Nacional é um serviço de discagem direta e gratuita disponível para todo o Brasil. É coordenado pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República. Sua função é encaminhar as denúncias de violações contra direitos humanos em geral à rede de proteção e responsabilização local onde a vítima se encontre, além de utilizar os dados para mapear as regiões mais críticas, possibilitando uma definição das regiões prioritárias no estabelecimento de políticas públicas.

29 29 vítimas de tráfico de pessoas em 2013, São Paulo com 51 vítimas, Minas Gerais com 35 e Rio de Janeiro com A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República recebeu 340 denúncias de tráfico de pessoas e crimes correlatos por meio de relatos feitos ao Ligue Observa-se que de 2012 para 2013 as denúncias aumentaram de 58 para 340. O Ministério da Saúde contabilizou o atendimento de 115 vítimas sendo a grande maioria (82) vítimas do sexo feminino. Já o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Forme registrou 64 atendimentos vítimas de tráfico de pessoas e crimes correlatos em todo território nacional. 33 O Ministério de Trabalho e Emprego responsável por todos os registros de trabalhadores resgatados na condição análoga à de escravo no Brasil, contabilizou, em 2013, trabalhadores resgatados através das operações empreendidas pelo grupo especial de fiscalização móvel, vinculado à MTE, assim como pelas equipes de fiscalização formadas nas Superintendências Regionais do Trabalho e Emprego. A concentração desses casos deu-se principalmente nos estados de São Paulo e Minas Gerais, com 419 e 446 trabalhadores resgatados no ano, respectivamente. Outros estados registraram além dos citados mais de uma centena de trabalhadores resgatados nessas operações, caso dos estados do Pará, da Bahia, de Goiás, do Rio de Janeiro, do Ceará e do Mato Grosso do Sul. 34 Pode-se citar também a presença de estrangeiros com predominância de bolivianos na indústria têxtil na cidade de São Paulo e região metropolitana, em situações de trabalho escravo em Conforme a MTE também foi verificada a existência de trabalhadores estrangeiros provenientes de países como Paraguai, Peru, Haiti e Argentina submetidos à condição análoga à de escravo nos estados do Amazonas, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Santa Catarina. O percentual de estrangeiros entre os trabalhadores resgatados, que variava em uma margem de um a três por cento do total de trabalhadores, 31 Ibid, p Em 2005, a Secretaria de Políticas para as Mulheres lançou a Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, que tem como finalidade recebe denúncias, orientar e encaminhar para os órgãos competentes os casos de tráfico de pessoas e de cárcere privado. Nos casos de violência contra mulher (doméstica, por exemplo), a central orienta a mulher sobre seu direitos e sobre onde deve buscar ajuda e/ ou fazer a denúncia. 33 Ibid, p Ibid, p. 28.

30 30 saltou para 13, 35 em 2013, ou seja, 278 estrangeiros de um total de trabalhadores resgatados. 35 De acordo com as informações existentes sobre tráfico de pessoas e crimes correlatos ocorridos no ano de 2013, provenientes das polícias de 18 dos 27 unidades federativas, cuja fonte é o Sistema Nacional de Estatísticas de Segurança Pública, houve 254 casos de vítimas registradas nas delegacias das polícias civis, sendo São Paulo e Minas Gerais os estados que tiveram o maior número de vítimas registradas, a forma de exploração mais comum foi a sexual com 134 casos, somando-se os crimes de tráfico interno e internacional (52% das ocorrências), e o trabalho escravo, que respondeu por 113 das 254 ocorrências registradas (43,7% das ocorrências). No ano de 2013, o DPRF detectou em suas operações 329 vítimas de tráfico de pessoas para fins de exploração de trabalho escravo. Também vale ressaltar o projeto de mapeamento de pontos vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais brasileiras, realizado pelo DPRF. Ambientes ou estabelecimentos onde os agentes da Polícia Rodoviária Federal encontram características presença de adultos se prostituindo, inexistência de iluminação, ausência de vigilância privada, locais costumeiros de parada de veículos e consumo de bebida alcoólica que propiciam condições favoráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes. Em 2013, 590 crianças e adolescentes foram resgatadas de situações de risco das rodovias federais brasileiras O perfil das vítimas de tráfico de pessoas O Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas de 2013 traz importantes informações relativas ao perfil das vítimas de tráfico de pessoas retratadas nas denúncias recebidas pela SDH. Com relação ao sexo das vítimas verifica-se uma concentração consideravelmente maior de mulheres do que de homens em todos os anos. No ano de 2013 essa concentração de mulheres foi muito superior que nos dois anos anteriores. Do total de casos em que o sexo da vítima foi informado (184 do total de 309 casos do ano), 135 foram mulheres, o que corresponde a 73,4% dos casos Ibid, p Ibid, p Ibid, p. 34.

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