Bioética e espiritualidade na sociedade pós-moderna

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1 ARTIGO de revisão/ Review article/ discussión crítica Bioética e espiritualidade na sociedade pós-moderna desafios éticos para uma medicina mais humana Bioethics and spirituality in the post-modern society ethical challenges for a more human medicine Bioética y espiritualidad en la sociedad postmoderna desafíos éticos para una medicina más humana Virgínio Cândido Tosta de Souza* Resumo: As ciências biomédicas, aliadas à tecnologia na sociedade pós-moderna, permitem manipular o ser humano em todas as fronteiras da vida, surgindo, em consequência, questões éticas que vão ao encontro dos valores espirituais. Esse fato é motivado pela força econômica que a ciência e a tecnologia adquiriram na cultura do mundo globalizado. A proposta desse ensaio é discutir as alternativas éticas, por meio da bioética, nos cursos de medicina e no exercício da profissão médica, voltadas para a formação de cidadãos comprometidos com a construção de uma sociedade solidária, justa e, portanto, mais humana. Palavras-chave: Ética médica. Espiritualidade. Ciências biomédicas. Abstract: Biomedical sciences, together with technology in the post-modern society allow one to manipulate human beings in all life s frontiers, causing ethical questions to appear that link with spiritual values. This fact is motivated by the economic force that science and technology acquired in the culture in the globalized world. The proposal of this essay is to argue for ethical alternatives, by means of bioethics, in medical courses and the medical profession, aiming at educating citizens committed to the construction of a solidary, just and, therefore, more human society. Keywords: Medical ethics. Spirituality. Biomedical sciences. Resumen: Las ciencias biomédicas, junto con la tecnología en la sociedad postmoderna permiten que uno manipule a seres humanos en todas las fronteras de la vida, evocando cuestiones éticas que se acoplan con valores espirituales. Este hecho es motivado por la fuerza económica que adquieren la ciencia y la tecnología en la cultura en el mundo globalizado. La propuesta de este estudio es la defensa de alternativas éticas, por medio de la bioética, en los cursos médicos y la profesión médica, teniendo como objetivo educar a ciudadanos comprometidos con la construcción de una sociedad solidaria, justa y, por lo tanto, más humana. Palabras llave: Ética médica. Espiritualidad. Ciencias biomédicas. Introdução Este início de milênio, chamado por alguns de pós- -modernidade, é um período em que a razão atingiu seu ápice. Na Idade Média, toda cultura girava em torno da figura divina. Nos dias atuais, deparamo-nos com um movimento de ideias e comportamentos que defende um humanismo sem Deus, totalmente voltado para a produção e lucro, centrado no consumo e na busca do prazer. Essa cultura voltada para o visível, em que o ter aniquila o ser, gera um individualismo que gera um vazio interior difícil de suportar. Vazio, que, na área médica conceituamos como depressão. A busca da dimensão interior do ser humano, em sua essência, é a espiritualidade que, quando visa ao bem-estar do outro em sua alteridade, exerce a ética. Sem a ética, os valores morais, como compaixão, solidariedade, compreensão, justiça, desaparecem e perdemse os limites de distinguir o que é certo e o que é errado. * Doutor em Medicina pela Escola Paulista de Medicina UNIFESP São Paulo, SP. Doutorando em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo São Paulo, SP. Professor Titular do Departamento de Clínica Cirúrgica Disciplina de Proctologia da Faculdade de Ciências da Saúde Univás Pouso Alegre, MG. Professor de Ética e Bioética da Universidade José do Rosário Vellano Unifenas Alfenas, MG. Reitor da Universidade do Vale do Sapucaí Univás Pouso Alegre, MG. 86

2 São esses valores que inspiram nosso modo de ser e de agir, tornando nossa conduta profícua e sábia, portanto ética 1. Na sociedade capitalista globalizada, científica e tecnológica, o paradigma não é o compromisso de servir, mas o de competir, mesmo que para isso se ignorem as necessidades e os direitos do outro, desaparecendo, portanto, o conteúdo humano de nossas condutas. A instantaneidade dos meios de comunicação fragiliza a riqueza da reflexão, levando-nos à simultaneidade de relacionamento e opções que geram um individualismo carente de partilha e compromisso com o outro. Ao exercermos a ética baseada em valores internos (espirituais), articulamos, como esperança, uma necessária reflexão crítica acerca do nosso padrão de civilização que se perde na exterioridade, no individualismo, no consumismo e no imediatismo. Dentro desse contexto contemporâneo, um campo que merece um estudo sistemático da conduta moral com repercussões diretas na vida social é a medicina. A medicina, alicerçada na ciência com seus avanços tecnológicos, representa, para os dias atuais, o que a religião e a salvação foram em épocas medievais. Em um rápido panorama histórico da medicina, a partir da metade do século XX e início deste século, deparamo-nos com uma época que poderíamos denominar de paradoxal. Faz pouco mais de meio século que os antibióticos começaram a ser usados. Há 40 anos, teve início a era dos transplantes. Os primeiros bebês de proveta têm pouco mais de trinta anos e agora são milhares. As cirurgias cardíacas são feitas hoje rotineiramente, proporcionando aos sobreviventes de ataques cardíacos uma vida mais longa. As unidades de tratamento intensivo proporcionam padrões de excelência para pós-operatório de cirurgias de grande porte, permitindo aos cirurgiões realizarem o que era no passado impossível. Um número crescente de idosos começa a chegar próximo dos 90 e 100 anos. Por um lado, a medicina progride e salva mais vidas, mas está cada vez mais difícil para as pessoas, empresas e governos pagarem esse processo. Por outro lado, é crescente o número de insatisfações contra os médicos, principalmente na relação médico-paciente, que é o fundamento mais importante da prática médica. Essa relação torna-se impessoal, diante da parafernália tecnológica, das máquinas, da burocracia das empresas ligadas à saúde. Normas éticas legais questionáveis, interesses e patentes de laboratórios entre outros vêm cada vez mais abalando a saudosa relação médico-paciente. No campo da pesquisa, cada vez mais se tornam indispensáveis os comitês de ética para modernizarem e normatizarem condutas que eventualmente venham ferir a dignidade do ser humano. A clonagem, a inseminação artificial e o uso das células-tronco vêm imobilizando opiniões diversas entre a religião e a ciência, levando para o direito (bio-direito) decisões que despertam euforia, mas também incertezas para o futuro da humanidade. Sintetizando, podemos dizer que, desde os estudos anatômicos de Vesálio até a aurora da descoberta do DNA, por Francis Crick e James Watson, em 1953, a ciên cia trouxe progresso e contribuições importantíssimas para a medicina, mas é exatamente por esse paradigma que não se deve perder de vista o ser humano na sua dignidade com seus direitos de benefício, equidade e autonomia quando acometido por uma enfermidade. E esse foi uma das dúvidas levantadas por Potter da Universidade de Winconsin Madison (EUA), ao publicar o livro Bioética: ponte para o futuro. Ponte que apontava para um caminho de sobrevivência da espécie humana de forma decente e sustentável, baseado fundamentalmente em um sistema ético global 2. O objetivo do trabalho em tela é o de beneficiar-se de uma definição clara e homogênea dos propósitos éticos dos cursos de ciências da saúde, em que a medicina, por meio de seus professores, comprometa-se não somente em instruir e transmitir conhecimentos aos seus alunos, mas, fundamentalmente, colaborar na formação de profissionais comprometidos na construção de uma sociedade justa, solidária e mais humana. Ética e Moral A ética e a moral são termos de uso corrente no nosso cotidiano, entretanto não são sinônimos 3. A moral refere-se a uma conduta de acordo com valores consolidados em uma determinada cultura social, não sendo necessária a justificativa desses valores, que vão além dos interesses imediatos desta sociedade. Refere-se à rotina de comportamentos que se denominam bons ou maus, certos ou errados, lícitos ou ilícitos. São valores que vêm de fora para dentro. 87

3 A ética refere-se à conduta que os indivíduos de uma determinada sociedade estabelecem entre si; vem sempre precedida de uma reflexão elucidativa de fundamentos, justificativas ou valores, independentemente da aprovação ou não de seus pares. São valores que vêm de dentro para fora, oriundos de fundamentos elaborados de forma reflexiva e elucidativa. A ética justifica nossos sentimentos morais por meio da busca de seus fundamentos. Ética e Bioética A bioética é um neologismo com características transdisciplinares e combina conhecimentos biológicos com o conhecimento dos sistemas de valores humanos. O termo bioética é um legado deixado por Van Renselaer Potter, na década de 70 por meio da obra Bioethics: bridge to the future, em que bio representaria os conhecimentos biológicos e a ética os conhecimentos dos valores humanos perante as descobertas da biologia molecular, dentro da sociedade científica e tecnológica. O compromisso com a preservação da vida dos seres humanos entre si e com o ecossistema antevia os grandes dilemas dos dias atuais no campo da biologia molecular e da sustentabilidade do meio ambiente. A década de 1970 foi o período em que os avanços científicos e tecnológicos, principalmente no meio médico, se intensificaram e ao mesmo tempo passaram a ser questionados (UTIS, transplantes, diagnóstico de morte, procriação, diagnóstico pré-natal). O compromisso hipocrático e a experiência de Nuremberg propiciaram a criação de Comitês de Ética, que, em sua essência, fundamentam-se no principialismo da bioética, composto por: beneficência, não-maleficência, justiça, autonomia e possuem composição multidisciplinar (médicos, enfermeiros, teólogos, juristas, usuários, entre outros). A bioética é um desdobramento da ética voltado para os questionamentos morais, suscitados pelos avanços científicos e tecnológicos, no contexto da sociedade em sua globalidade (pessoa, meio ambiente, cidadania, aspectos terapêuticos e suas aplicações legais). Assim podemos dizer que a bioética difere da ética, da moral e da deontologia devido a sua característica problematizadora e evolutiva. O que na ética é estudado, na moral praticado, na deontologia obrigado, na bioética é problematizado 4. Espiritualidade e Religiosidade Assim como ocorre com ética e moral, espiritualidade e religiosidade não são sinônimos. A espiritualidade é uma forma implícita de tratar dimensões profundas da subjetividade sem incluir necessariamente a religiosidade. O grande vazio existencial, na sociedade de grandes complexos urbanos da sociedade atual, vem propiciando fóruns para discutir a importância da busca de valores e virtudes, como compaixão, que são de natureza espiritual. Nos Estados Unidos, recentemente, 47 faculdades de medicina, incluindo a de Harvard, propuseram a inclusão de espiritualidade como disciplina no currículo 6. A psicologia fenomenológica existencial, oncologia, profissionais da área da saúde vêm se interessando pelo estudo e sua importância no exercício profissional. Dalai-Lama considera a espiritualidade como aquilo que produz uma mudança interior no ser humano 5. Boff 7 acredita que a nossa estrutura de base fundamental, que regula as nossas ações, é de natureza interior e não exterior. Tais mudanças são fomentadas pela religião, mas nem sempre... Segundo Frei Betto et al 8, a espiritualidade não é uma questão simplesmente religiosa, é uma questão de educação, de subjetividade, de interioridade. É uma forma de reeducarmos para a comunhão conosco mesmos, para a comunhão com a natureza, para a comunhão com o próximo e com Deus. A religião é um conceito oriundo do latim religiane, sendo definida como a crença na existência de forças sobrenaturais, criadoras do universo. Tal crença estabelece dogmas que devem ser adotados e obedecidos. É simbolizada por meio de doutrina e ritual próprios, envolvendo preceitos morais e éticos. É uma filiação a um sistema específico de pensamentos os quais envolvem filosofia, ética e metafísica, voltados e vinculados ao ser supremo: Deus. O termo religare é a volta a Deus, do qual o homem nunca esteve separado, no dizer de Santo Agostinho 9. A religião existe onde existir uma comunidade, porque ela oferece ao indivíduo um significado da vida além da rea lidade terrena, proporcionando explicações para ocorrências misteriosas da vida, como por exemplo, a morte. Ela contribui para a organização social, orientação moral, segurança e, embora institucionalizada, ela fomenta e enriquece a espiritualidade

4 Na sociedade racionalizada contemporânea, ela vem sendo concentrada na vida pessoal, particularizada, o que torna, às vezes, difícil distinguir da espiritualidade. Bioética e Educação Médica A importância da Bioética, na formação acadêmica do estudante de medicina e em outras áreas da saúde, passa, inevitavelmente, pela cultura humanística. Para isso, é fundamental que o modelo cartesiano, que privilegia o modelo fragmentado por especialidades, abra espaço para um ensino voltado para a busca de conhecimento integrado, considerando a óbvia inseparabilidade entre as partes que constituem o ser humano integral. Esse modelo flexeriano privilegia a tecnologia e divide a pessoa humana em partes cada vez menores. É voltado para as especialidades que forma territórios onde os especialistas se comportam, segundo Morin, como lobos que urinam para marcar seus territórios e mordem os que nele penetram. Com isso, a formação acadêmica é atravessada por uma metodologia desconexa de disciplinas, prejudicando a visão holística e integral do ser humano na sua complexidade profissional 11. Desnecessário repetir que a própria universidade, intencionada ou alheia à cultura técnico-científica da pós- -modernidade, foi ficando cativa de um modelo educacional que tem como parâmetros a eficácia e a rentabilidade econômica, formando profissionais voltados para a competitividade e prestígio pessoal, alheios aos valores éticos que é o selo da um ambiente acadêmico. A bioética, por sua característica interdisciplinar e transdisciplinar, problematiza essa cultura dominante enfatizando posições éticas que devem ser estabelecidas visando a transmitir valores, assim como fez Sócrates na Grécia junto aos jovens de Atenas. É crescente o consenso que a Bioética deve figurar no curso médico, em todos os anos da formação acadêmica, com intuito de que, no exercício profissional, o futuro médico tenha uma formação humanística comprometida com o exercício pleno da cidadania. Bioética e Cidadania D Assumpção 12 denomina a cultura dos dias atuais como a Ética da Manipulação. Ética essa regida por grupos dominantes que seguem os ditames: por que assim é que deve ser, ou então os outros que se danem. Essa ética se caracteriza por cidadãos submissos e manipuláveis, que têm a reflexão e autonomia reduzidas; o Homo Sapiens é substituído pelo Homo Faber. Nesse contexto, os meios de comunicação, principalmente a televisão, representam o paradigma ideal para a conscientização desses valores. Os anúncios criam necessidades de consumo, os cidadãos passam a usar remédios sem que realmente necessitem. Atualmente, nos Estados Unidos, cerca de 17 medicamentos de grande lucro laboratorial, entre eles os antidepressivos e outros voltados para o desempenho sexual ou culto à expressão corporal, são desnecessários, embora mais de 90% da população acreditem na sua beneficência. Outro fator ainda referido por D Assumpção é o imediatismo, que descartabiliza as coisas em detrimento da qualidade a ponto de descartar o ser humano. No sistema de saúde, o econômico voltado para o lucro fragiliza a relação médico-paciente em seus princípios fundamentais. A própria pesquisa científica torna-se manipulada e os fins justificam os meios, criando-se um ambiente de competitividade e busca de status, ferindo, assim, os princípios da ética acadêmica. É nesse contexto que a Resolução 196/96, do Ministério da Saúde, por meio dos Comitês de Ética, dentro do principialismo da Bioética, confronta a ética de manipulação do ser humano em respeito a sua dignidade e autonomia. Bioética e Tecnologia Médica A insatisfação com a medicina na sociedade pós-moderna não decorre dos avanços tecnológicos conquistados pela pesquisa científica, que são incontestáveis, mas pelos aspectos éticos que envolvem os usuários quando recorrem a um atendimento hospitalar ou ambulatorial. No que concerne ao atendimento ambulatorial, a relação médico-paciente é fragmentada. Diferentes especialistas examinam o paciente, estabelecendo, muitas vezes, problemas de comunicação, o que leva a desconsiderar o principal motivo que originou a consulta ambulatorial. No sistema público, o paciente, dentro do principialismo da bioética, em diversas ocasiões usufrui somente da não-maleficência e da justiça, essa na dependência do compromisso ético do médico. Exemplificando: em determinadas situações, o exame de padrão-ouro seria a tomografia, mas pela condição hospitalar somente 89

5 se consegue uma ultrassonografia. A justiça depende do profissional que realiza o atendimento naquela determinada circunstância. A não possibilidade da livre escolha do profissional, bem como a impossibilidade do exame mais indicado, fere os princípios da autonomia e da beneficência. O paradoxo é que a alta tecnologia, que aumentou a eficácia dos diagnósticos e tratamentos estabeleceu uma lacuna no relacionamento pessoal entre o médico e o paciente 13. Aquele relacionamento fraternal entre o médico e o paciente, caracterizado pela satisfação recíproca, foi substituído por um relacionamento burocrático e impessoal, em que o paciente se comporta como consumidor em busca de resultados. Considerações Finais A modernidade é um período que nasceu com o Renascimento e dura, aproximadamente, quatro séculos, e a pós-modernidade é imprecisamente definida por alguns como o período do final do século passado e início deste século. Vivemos uma hegemonia do sistema capitalista que se concretizou com a queda do muro de Berlim, representando o fim do socialismo no leste europeu. O racionalismo, preconizado por Freud para resolver os dilemas humanos e por Marx para restabelecer uma justiça social, não responde à globalização do mercado alicerçado no lucro, no consumo e na busca do prazer imediato. A lógica é a acumulação da riqueza para uma minoria e a exclusão da maioria com grande sacrifício de pessoas que têm direito a uma melhor qualidade de vida. Os meios de comunicação, com raras exceções, estimulam o consumo e o prazer imediato, caracterizando uma lógica religiosa na qual os shopping centers simbolizam as catedrais da sociedade pós-moderna. A virtualidade substitui o real, a ponto de se poder fazer sexo pela internet sem risco de pegar AIDS ou promover a procriação. Essa abstração de sentimentos nos torna eticamente e moralmente virtuais. O avanço científico e tecnológico, principalmente na área da saúde, salva mais vidas, revolucionando a qualidade de vida e longevidade das pessoas, mas fica cada vez menos acessível para pessoas e mesmo para o sistema de saúde governamental. Eu existo na medida em que tenho e posso consumir e não na medida em que sou e prezo a minha dignidade. Essa metafísica vem gerando um vazio de valores espirituais, caracterizado por um esoterismo crescente, alimentado por radicalismo de seitas religiosas. É exatamente essa crise de sentido, proporcionada pela busca desenfreada de prazer e posses, que nos obriga a recorrer à interioridade de valores que nos alimenta e recompõe e que chamamos de espiritualidade 14. Na medida em que a nossa espiritualidade se traduz em compaixão e solidariedade, exercemos a ética em sua plenitude, pois nos reeducamos para a comunhão conosco mesmo e para a comunhão com o próximo. A religiosidade, na medida em que nos orienta na busca de princípios e virtudes, subsidia a nossa espiritualidade, como nos ensinou Jesus Cristo e nos ensina Dalai-Lama. A espiritualidade nos indica que a vida é substancialmente o que não se vê, e, como a literatura, sobrevive a seus atores quando feita de interiores. A bioética, como um neologismo da ética, é uma área de conhecimento interdisciplinar de base filosófica e antropológica voltada para os dilemas recorrentes do avanço científico e tecnológico no que concerne à pesquisa envolvendo os seres humanos e o meio ambiente 15. É urgente conscientizarmo-nos que vivemos em uma Aldeia Global, que tornou pequenos os estados nações e exige soluções globais para seus problemas. E, para isso, cabe uma atitude ética universalista, ainda que seja preciso construí-la a partir do regional 16. A bioética representa uma proposta de tolerância e esperança para a pluralidade moral da humanidade nas suas diferenças de crenças e valores em todos campos relacionados às ciências da vida 17. Pelo seu caráter transdisciplinar, ela se apresenta como um instrumento valioso e indispensável para o diálogo que envolve questões éticas levantadas pelas decisões clínicas, pelos avanços científicos e tecnológicos. E o maior exemplo se manifesta na composição pluralista e interdisciplinar das comissões bioéticas dos hospitais e universidades. Diante do avanço científico e tecnológico que permeia todos os setores envolvidos com a saúde, é importante que o estudante de medicina e o médico se conscientizem que a missão mais importante é a de promover a saúde e não de ser um manipulador de tecnologia; infelizmente, muitas vezes comprometidos com dilemas éticos. A medicina mais humana se distingue da medicina tecnológica pelas características que envolvem o desempenho do profissional como forma de avaliação e competência. 90

6 O médico humanista carrega consigo o compromisso de buscar a cura para aquele que sofre, mas quando a cura não é possível, cuidar sempre é. Nos dias de hoje, a competência é avaliada mais pela competência técnica objetiva do que com o cuidado pessoal com o paciente. E essa lacuna vem dificultando a relação médico-paciente, que é o fundamento ético e humano da medicina hipocrática. Esse paradigma será mudado na medida em que conscientizarmo-nos de que a competência profissional no exercício da assistência médica traduz uma definição ética da própria pessoa que a executa, determinando, assim, sua espiritualidade profunda que se plenifica na compaixão e na solidariedade que nada mais são do que atos humanos morais. Esse é o legado deixado por Potter por meio da obra Bioethics: bridge to the future, em que bio representa os conhecimentos biológicos, e ética, os conhecimentos dos valores humanos (espirituais) 2. Referências 1. Cortella MS. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. São Paulo: Vozes; p Potter VR. Bioethics: bridge to the future. USA: Prentice Hall; Severino AJ. Educação e ética no processo de construção da cidadania. In: Claudinei JL, Guergen P, organizadores. Ética e educação. Campinas: Autores Associados; p Soares AMM, Pinheiro WE. Bioética e biodireito: uma introdução. São Paulo: Loyola; p Lama D. Uma ética para o novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante; Souza VCT. Universidade, ética e espiritualidade. In: Pessini L, Barchifontaine CP, organizadores. Buscar o sentido e plenitude de vida. São Paulo: Paulinas; p Boff L. Espiritualidade. Rio de Janeiro: Sextante; p Betto F, Barba E, Costa JF. Ética. Brasília: Codeplan; p Gregório SB. Religião e vivência religiosa. Rev Filos São Paulo. 1995;1(1): Carvalho JJ. Características do fenômeno religioso na sociedade contemporânea. In: Bingenar MC, organizador. O impacto da modernidade sobre a religião. São Paulo: Loyola; p Siqueira JC. Educação médica em bioética. Rev Bras Bioét. 2008;(3)3: D assumpção EA. Bioética & cidadania. Belo Horizonte: Fumarc; p Drane J, Pessini L. Bioética, medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. São Paulo: Centro Universitário São Camilo; p Berger P. Rumor dos anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. 2. ed. Petrópolis: Vozes; Stepke FL, Drumond JFF. Fundamentos de uma antropologia bioética: o apropriado, o bom e o justo. São Paulo: Loyola; Cortina A. Cidadãos do mundo para uma teoria da cidadania. São Paulo: Loyola; Diniz D, Guilhem D. O que é bioética. São Paulo: Brasilense; Recebido em: 23 de junho de Versão atualizada em: 4 de agosto de Aprovado em: 29 de setembro de

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