Considerações sobre reformulação da regulamentação de MVNO

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1 Considerações sobre reformulação da regulamentação de MVNO Regulação ex ante da relação MNO-MVNO Considerações Gerais Depois de mais de dois anos de regulamentação vigente, ainda são muito poucos os contratos entre MNO e MVNO (credenciadas/autorizadas). O fato de tais contratos estarem sujeitos a livre negociação entre as partes nos parece ser o principal motivo desse resultado limitado da regulamentação. Apesar da existência das regras do art. 48 do RMVNO, que permitem à MVNO reclamar à Anatel sobre os motivos da não pactuação de um contrato pela MNO, até o momento tal regra não se mostrou muito útil. Diante disso, seria conveniente que a Anatel regulasse, ex ante, essa relação entre MNO-MVNO, criando para as MNOs PMS 1 a obrigação de ofertas padrões, com valores pré-definidos e isonômicos, bem como invertendo o ônus da prova para a MNO em sede de resolução de conflitos. Oferta de Exploração Industrial de uso de rede móvel Ofertas padrão de exploração industrial de uso de rede móvel não se confundem com obrigações de compartilhamento de espectro, ou obrigações de compartilhamento de infraestrutura móvel, ou mesmo com obrigações de terminação de chamadas (VU-M) 2. A oferta de atacado necessária para viabilizar de forma rápida 3 a entrada de MVNOs no mercado brasileiro é o que no exterior se chama wholesale air time 4, uma espécie de EILD para uso de rede móvel, precificada em função do uso desta rede móvel (airtime). Esta oferta padrão obrigatória às MNOs PMS permitiria aos MVNOs comprar no atacado 1 Vale lembrar que quando ainda eram dezoito os mercados relevantes regulados de forma ex ante na Comunidade Europeia até 2007, um deles era o wholesale market for access and call origination on public mobile telephone networks (mercado nº 15). Nesse mercado foram identificados operadores com PMS, no caso as MNOs (carriers de produto móvel) que tiveram que se sujeitar a obrigações de oferta de acesso e originação de chamadas. Competition Policy Newsletter, Number 2, Summer Em tation&oq=first+collective+dominance+cases+under+the+european+consultation&gs_l=hp c.1.12.psyab.24Ob57_vRb8&pbx=1&bav=on.2,or.r_qf.&bvm=b v ,d.dmq&fp=a1a119e &biw=1600&bih=759. Acesso em 15 de maio de Essa nova oferta atacadista - diferentemente das supracitadas, presentes em regulamentos bem como em editais recentes da Agência, como o de 2,5 GHz - não pressupõe uma relação entre iguais, ou seja, de compra e venda de insumos entre detentores de redes ou operadores de telecomunicações - que necessariamente detém recursos técnicos. Trata-se, sim, da comercialização em balcão e em atacado de um produto/serviço básico, que será revendido e repassado a diversos outros atores, e que será ao final comercializado ao consumidor final em um formato e em condições distintas das de seus produtores (operadores MNOs). 3 Veja no link abaixo o efeito direto de melhores condições de contratação de minutos de voz e dados das carriers (MNOs) para os negócios das MVNOs nos EUA. Why are MVNOs so hot right now? Em Acesso em 15 de maio de Airtime: Actual time spent using a wireless phone. In OECD. Cellular Mobile Pricing Structures and Trends. 2000, p. 09.

2 minutos de voz e dados da operadora MNO. A figura abaixo 5 nos ajuda a entender a possível relação entre MNO-MVNO, destacando alguns itens técnico-operacionais necessários no caso de a MVNO deter sim card próprio. A despeito do que demonstra a figura, interessante notar que a oferta padrão obrigatória exigida na Comunidade Europeia até 2007 também permitia a contratação de voz e dados móveis por outros operadores - não MVNOs, que não detinham sim cards próprios. Veja trecho abaixo 6 : Access and call origination services are provided by mobile network operators to independent service providers (resellers which do not issue their own SIM cards) or so called mobile virtual network operators (MVNOs which issue their own SIM cards). Hence, independent services providers or MVNOs use the network of mobile network operators to offer mobile telephony services at the retail level in direct competition to the retail arm of the host network. Ou seja, à época essa oferta modelava-se, inclusive, para operadores que desejavam fazer mera revenda dos produtos das MNOs, através dos sim cards delas, independetemente de serem MVNOs ou não. Transportando essa realidade para o caso brasileiro, seria como se um SCM 7 pudesse comprar o insumo (sim card) e usá-lo na formatação de seu produto para destinação ao consumidor final. 5 Em Acesso em 16 de maio de Em Competition Policy Newsletter, Number 2, Summer De certo, para que isso aconteça no Brasil, será necessário adequar o regulamento sobre SCM, de modo a permitir a revenda de serviços (móveis ou fixos) a partir dessa licença. A própria definição do SCM, como sendo apenas um serviço fixo, é uma herança restritiva dos tempos da criação deste regulamento, que precisaria ser

3 Não discriminação e transparência das ofertas de Exploração Industrial de uso de rede móvel Seria importante que todas as contratações realizadas, inclusive as já existentes, façam parte do banco de dados de atacado, desenvolvido a partir da regulamentação do PGMC, de modo a desincentivar comportamentos discriminatórios, seja em preço, prazo de atendimento ou qualidade, sendo permitido ofertas diferenciadas com regras claras sobre descontos. As contratações desse insumo também deveriam ser realizadas somente pelo sistema de negociações de atacado, em desenvolvimento para cumprimento das regras do PGMC, para garantia do tratamento não discriminatório. Esse é um desdobramento lógico das ofertas de atacado, mas vale o alerta de que sua implementação não deve constituir barreira para dificultar ou atrasar o processo de aperfeiçoamento da regulamentação sobre MVNO.. Capacidade excedente, Resolução de Conflitos e Oferta especial As contratações de insumos de atacado de operador integrado verticalmente (com operação no varejo) sempre passam por discussões relacionadas à existência ou não de capacidade excedente. Se para uns a existência de capacidade excedente pode significar oportunidade de rentabilizar investimentos já realizados, para outros essa cessão de capacidade pode significar riscos concorrenciais. Para permitir o crescimento do mercado de MVNOs no país, dado os resultados limitados da regulamentação anterior, recomendamos que o processo de contratação dessa nova oferta seja sujeito a regras de resolução de conflitos - com inversão do ônus da prova para a MNO -, bem como a mecanismos de transparência. Apesar de parecer injustificável a alegação de falta de capacidade de rede pelas MNOs uma vez que a contratação de dezenas de milhares de chips por MVNOs (ou SCMs) seriam em escala pequena, tendo em vista o tamanho das bases atuais de clientes das MNOs com PMS, e que estas continuam com força de venda intensa em território nacional -, entendemos ser necessária também a obrigação de oferta especial de exploração industrial de uso de rede móvel, em condições razoáveis. Dessa forma serão minimizados os riscos de negativas infundadas de indisponibilidade de capacidade e se estimulará os investimentos em novas infraestruturas de rede móvel para melhora da qualidade do serviço e expansão da cobertura nas cidades, sem com isso sobrecarregar as MNOs, já que estes investimentos incrementais serão financiados, em alguma medida, pelas solicitantes. Consolidação de uma única licença de MVNO e desvinculação do licenciamento ao contrato com a MNO Em paralelo a essa medida de se criar produto de atacado de fácil acesso para as MVNOs, seria importante caso a escolha da Anatel seja restringir a compra desse insumo por licenciados MVNOs (i) consolidar as duas categorias hoje existentes em uma só e (ii) desvincular o licenciamento dos MVNOs da apresentação obrigatória de contrato prévio com a MNO. eliminada para permitir a plena exploração do potencial de soluções que a atual tecnologia permite sob esta categoria de serviços. O fato de as autorizadas SCM não possuírem uma numeração própria é uma velha pendência da regulamentação, que nunca foi resolvida e continua inviabilizando serviços independentes pela prestadora do SCM, mantendo-a sempre dependente dos recursos de numeração controlados por operadoras do STFC e SMP, ou permitindo apenas a prestação de serviços dedicados, sem comutação, e sem a possibilidade de agregação de valor e diferenciação de serviços intrínseca apenas à licença SCM.

4 Justificando: A diferenciação de MVNO credenciado e autorizado parece não ter trazido os resultados esperados. Até hoje não existe nenhuma operação de MVNO credenciado, mesmo com todas as facilidades que tal licença traria do ponto de vista de obrigações regulatórias. Por outro lado, muitos potenciais MVNO s autorizados deixaram de seguir em frente com seus business plans, por conta da grande quantidade de obrigações regulatórias essencialmente as mesmas da licença de SMP, sem o benefício da escala que as MNOs possuem. Em função dessa realidade, seria oportuna a eliminação da licença de credenciado e a flexibilização das obrigações da licença de MVNO autorizado, hoje existente. Lembramos que já existem (ou continuam existindo) prestadores de serviços não regulados pela Anatel - que adquirem planos de serviços em grandes volumes, diretamente das MNOs, e os revendem ao mercado consumidor entregando lotes de chips a usuários distintos. Estes serviços são refaturados e o intermediário/revendedor realiza sua margem como contrapartida ao serviço comercial prestado. A obrigatoriedade de oferta de Exploração Industrial de uso de rede móvel terá seu alcance limitado no mercado se para contratarem esse insumo os interessados tiverem, antes, que continuar negociando com as MNOs para obter um contrato e juntá-lo ao seu pedido de licença de MVNO na Anatel. Uma relação direta de licenciamento com a Anatel, como ocorre com todas as outras licenças emitidas pela Agência, seria melhor considerando a existência de obrigações de venda de atacado - wholesale air time. Nova licença MVNO: mudanças de conceitos Nesse novo cenário de contratação de insumos móveis de atacado para prestação de serviços de telecomunicações, não faz sentido manter a exigência da regulamentação anterior sobre revenda/parceria em bases exclusivas. A nova licença deveria permitir a contratação de airtime de qualquer operador MNO PMS, em qualquer lugar, sem necessidade de exclusividade ou vinculação da marca da MNO. Tendo em vista que a MVNO seria a proprietária de seu cliente, nada mais razoável do que sua responsabilização pela qualidade de serviço, mais uma vez com regras relativizadas em função do tamanho, abrangência de sua operação, bem como ao fato de ser uma entrante obrigada pelo próprio mercado a agregar valor aos serviços para ter um mínimo de competitividade e ocupar algum nicho específico. Esta nova formatação, com a transferência da responsabilidade sobre a qualidade para a operadora MVNO, eliminaria parte dos custos com qualidade da MNO, bem como custos de atendimento a clientes/crm/vas, com impacto direto na eficiência da operação e nos preços da oferta de airtime de atacado, que deveriam ficar menores. Considerações Específicas Não obstante nossas considerações gerais, e no caso da Anatel preferir seguir com estrutura atual do Regulamento de MVNO, abaixo seguem itens específicos de cada uma das duas licenças, colhidos junto a investidores interessados em se tornar MVNOs no Brasil, e que a nosso juízo merecem atenção do regulador.

5 MVNO Credenciado Mais controle sobre a oferta do próprio produto, estratégia de marketing e soluções técnicas A licença de Credenciado não dá ao MVNO (revendedor da marca) qualquer controle sobre a oferta de seus próprios produtos e sobre sua estratégia de marketing e, por isso, não lhe oferece a possibilidade de lançar ofertas que lhes permitiriam diferenciar-se para realmente competir com as MNOs. Por conta disso, a Anatel deveria considerar a flexibilização das seguintes restrições à operação do Credenciado: Os contratos de interconexão da Prestadora Origem devem ser utilizados para a interconexão do Credenciado Os Planos de serviço têm de ser registrados pela Prestadora Origem na Anatel Além de permitir que o Credenciado utilize seus próprios sistemas e soluções técnicas onde for necessário e oportuno para ele, e não apenas em áreas onde a Prestadora Origem não tenha infraestrutura. Atribuição de clientes e números (Recursos de numeração) para o Credenciado Já que os números e os clientes do Credenciado permanecem sob controle da Prestadora Origem, os Credenciados não conseguem criar valor para empresa com base em sua carteira de clientes, que é a métrica básica para o valuation deste negócio. Sem isto todo o esforço e investimento fica ainda mais exposto a riscos e perde valor. Licença de Credenciado disponível também para operadores entrantes estrangeiros De acordo com a regulamentação atual, o Credenciado deve ser uma empresa constituída sob as leis brasileiras, com sede no país e com a maioria das ações ou ações com poder de voto pertecendo a indivíduos residentes no Brasil ou a empresas constituídas sob as leis brasileiras e com sede no país. Isso claramente cria uma barreira para entrantes estrangeiros. Não há motivos para restringir a participação de empresas internacionais, assumindo que elas paguem todos os impostos, taxas e estejam sujeitas às mesmas regras do jogo relativas aos MVNOs no Brasil. MVNO Autorizada de Rede Virtual Relativização das obrigações para a Autorizada de Rede Virtual A licença de Autorizada de Rede Virtual exige do MVNO as mesmas obrigações demandadas das Autorizadas do SMP. Isso cria barreiras proibitivas para novos entrantes, que poderiam realmente competir com as Autorizadas do SMP, ou mesmo ocupar um outro nicho no mercado. Portanto, a Anatel deveria considerar a redução substancial dessas obrigações a serem cumpridas pela Autorizada de Rede Virtual. Diferentemente de regulamentações recentes para STFC e SCM, nas operações móveis virtuais o critério de corte de acessos é muito limitado hoje a Porto Seguro Conecta já possui acessos em serviço, devendo ser objeto de ampliação para fins de relativização para os negócios das MVNOs. Retirar as exigências de Pontos de Atendimento presenciais ao Cliente

6 A exigência atual de ponto físico para atendimento presencial por todo o país é impossível de ser cumprida pelos MVNOs e, portanto, deve ser retirada. Soluções técnicas próprias da Autorizada de Rede Virtual A Autorizada de Rede Virtual deveria poder usar suas próprias soluções técnicas onde ela considerar necessário para permitir a oferta de serviços melhores e mais personalizados aos usuários finais, e não somente em áreas em que a Prestadora Origem não tem infraestrutura. Revisão da documentação necessária para a licença de Autorizada de Rede Virtual A extensa documentação necessária para o requerimento da licença de Autorizada de Rede Virtual que inclui habilitação jurídica, qualificação técnica, qualificação econômico-financeira etc. não é passsível de ser cumprida totalmente por entrantes estrangeiros, a não ser que façam parceria com uma empresa brasileira. Já que isso é uma barreira à entrada a mais para entrantes estrangeiros, essas obrigações poderiam ser revistas mais uma vez assumindo que tais empresas internacionais devem cumprir com as regras do jogo relativas a impostos e taxas referentes a operações de MVNO no Brasil.

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