PESSOA E OS OUTROS. Rosana Cristina Zanelatto Santos UFMS/CNPq

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1 PESSOA E OS OUTROS Rosana Cristina Zanelatto Santos UFMS/CNPq Resumo: Neste ensaio, pensamos o caso de Fernando Pessoa e dos heterônimos/dos outros, inicialmente, com base na tradição diaspórica e assimilatória do povo judeu. O que vemos em Pessoa é que o ser poético, ao assimilar os outros, salvou-os da dispersão, inserindo-os num lugar estético uno e responsabilizando-se por eles, criando uma unidade explicitamente dependente uns dos outros, ilustrada na percepção de mestre que o próprio Pessoa tem de Alberto Caeiro. Palavras-chave:: Fernando Pessoa; Heteronímia; Marranismo. Abstract: In this essay, we study the case of Fernando Pessoa and his heteronyms/others, firstly based on the Jewish people traditions of diaspora and assimilation. What we see in Pessoa is that the poetic being, assimilating the others, saved them from spreading, inserting them in an aesthetic locus. It has created an unity specifically dependent on each other, as illustrated in the master perception which Pessoa has to Alberto Caeiro. Keywords: Fernando Pessoa; Heteronyms; Marranism. O exílio foi, talvez, a primeira questão, pois o exílio foi a primeira palavra o antes-do-exílio é o antes-da-palavra (Edmond Jabès). Trago dentro de meu coração, / Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei, / Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,/ Ou de tombadilhos, sonhando, / E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero (Passagem das horas, Álvaro de Campos). Para aqueles que têm algum trato com os estudos de Literatura Portuguesa, falar em Fernando Pessoa é pensar no drama em gente, expressão cunhada pelo próprio Pessoa quando disse sobre o processo de heteronímia: As obras destes três poetas formam, como se disse, um conjunto dramático; e está devidamente estudada a entreacção intelectual das personalidades, assim como as suas próprias relações pessoais. [...] É um drama em gente, em vez de em actos (PESSOA apud AREAL, 2007, p.5). Ou seja, Pessoa transforma-se em personagem de si mesmo, chamando-nos a atenção para uma questão que permanecerá em aberto: a heteronímia. É o deslocamento do olhar de si para os outros que o compõem, transformando-os em personas ativas, fenômenos da alteridade constituída no locus de si mesma.

2 Cria-se, pois, um mito, quase sempre tentado explicar voltando-se para o criador, para Pessoa, como se os heterônimos fossem criaturas com constituição tão-somente dramática e externa. Trechos de duas cartas de Pessoa ao escritor e professor Adolfo Casais Monteiro atestariam duas hipóteses: Médium, assim, de mim mesmo todavia subsisto. Sou, porém, menos real que os outros, menos coeso [?], menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro, e ainda me lembro do dia 13 de Março de 1914 quando, tendo ouvido pela primeira vez (isto é, tendo acabado de escrever, de um só hausto do espírito) grande número dos poemas do Guardador de Rebanhos, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-inscrições que compõem Chuva Oblíqua (Orpheu 2), manifesto e lógico resultado da influência de Caeiro sobre o temperamento de Fernando Pessoa (PESSOA, 1990, p. 92). O que sou essencialmente por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja é dramaturgo. O fenômeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterônimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO [grifo do autor]. (Por um lapso na tecla das maiúsculas saiu-me, sem que eu quisesse, essa palavra em letra grande. Está certo, e assim deixo ficar.) [...] Por isso dei essa marcha [dos heterônimos] em mim como comparável, não a uma evolução, mas a uma viagem: não subi de um andar para outro; segui, em planície, de um para outro lugar (PESSOA, 1990, p. 101). Médium? Viajor? Ambos? Interessa-nos o viajor e como ele escreve e inscreve a viagem heteronímica na literatura, transformando as marcas dramáticas de seu ser e sua dimensão trágica em constructo crítico e imaginativo, erigido pelas energias do labor. 1 Em nossa hipótese interpretativa, Pessoa reaproveitaria a tradição diaspórica e assimilatória do povo judeu, criando personas (os heterônimos) complexas, vindas de lugares diferentes, enxergando o mundo a partir de ideologias próprias e expressando-se segundo o seu lugar de acolhimento. Essa proposição nos surgiu a partir da leitura dos 1 Rachel Sztajnberg, no ensaio Frida Kahlo: o desamparo encarnado, observa que o desamparo, como forma traumática, influi na conformação do sujeito, podendo agir de duas formas diferentes: como desilusão irreparável e como constituição laboriosa e criativa. Segundo Sztajnberg, na primeira forma, Perde-se assim a matéria-prima sem a qual não há o que construir. Porque o desamparo, se não pode ser evitado, pode ser trabalhado, desde que ele possa ser vislumbrado. E é desse esforço que advém o criativo no humano, o que determina o mais além, o desdobramento e a mobilidade de energia que barra o mortífero. Uma outra coisa (diferente da Coisa das Ding) se viabiliza então. Aí surge o sujeito na sua rebeldia a um destino sinistro e inelutável. Aí nasceu o herói que tece com os elementos de sua própria ferida narcísica uma diferença que o arranca da mesmice e da repetição, da fixidez da trajetória à qual já está predestinado independente de si (2007, p. 2). Apesar de não enveredarmos diretamente pelos caminhos da Psicanálise, entendemos que em Pessoa o trauma transfoma-se em drama, para alimentar sua literatura. 2

3 estudos da historiadora Anita Novinsky sobre o marranismo 2 na família de Fernando Pessoa e sua compreensão das motivações para a viagem dos judeus, que vão para além da conversão ao catolicismo que lhes foi imposta em Portugal, especialmente a partir do século XVI, já havendo casos de conversão em fins do século XV. Segundo Novinsky, O exame de milhares de páginas manuscritas referentes à vida colonial me levaram a fazer uma revisão crítica do tradicional conceito de marranismo e me aproximar do conceito de submarranismo e pósmarranismo tão sugestivamente proposto pelo filósofo francês Edgard Morin. Morin conta que começou a entender a complexidade e fecundidade do marranismo quando escreveu o Prefácio do livro Les Juifs d Espagne, onde coube a mim os dois capítulos referentes a Portugal e ao Brasil. E Morin diz textualmente o que me atraiu no marranismo foi a experiência psicológica complexa que traz consigo uma dupla identidade, dilacerante e eventualmente criadora, fermento da superação dos dogmas das duas religiões, resultando numa postura interrogativa e crítica em Montaigne e na busca de novos fundamentos em Spinoza (2001, p. 2). O que está presente na escrita heteronímica (e marrana) de Pessoa é a possibilidade de não se fechar em torno da materialidade e da compreensão de um único sujeito (Pessoa) de uma tradição (a judaica), acionando a atividade imaginativa, no caso, a atividade estética/literária. É como se o ser humano tivesse a esperança de se achar no lugar que lhe foi negado, porém sempre em relação a si mesmo, ao outro e à linguagem. Desse modo, narrar, nomear como fez Pessoa com os heterônimos lhe devolveria (ao ser humano) o que lhe foi tomado. Em tempo: lembremo-nos de que aqui fazemos uma leitura alegórica da presença do marranismo em Pessoa. Ou seja, o marranismo, do modo como o estamos tratando, existiria em qualquer sujeito que foi expoliado de uma certa condição, mais ou menos ao modo do mito do judeu errante. Como ponto de partida [do mito do judeu errante] não temos à nossa disposição uma lenda primitiva, mas a imagem difusa de uma testemunha da paixão do Cristo, a qual, sobrevivente do drama do Calvário, erra pelo mundo afora. Tanto quanto é possível reconstituir uma tradição oral [...], a imaginação popular teria trabalhado sobre certos discípulos, João e Judas, e elaborado a tradição divergente de um sobrevivente condenado a errar por haver esbofeteado o Cristo ou a aguardar, anunciando por seu arrependimento a última vinda do Senhor no final dos Tempos (BRUNEL, 1997, p Grifos nossos). 2 Marrão sm. porco desmamado XIII. Do ár. Muharram coisa proibida, em alusão à proibição entre os muçulmanos de comerem a carne de porco. Marrano adj. sm. dizia-se de, ou cristão novo designação injuriosa que se dava aos mouros e judeus XV. Do cast. marrano marrão (CUNHA, 2000, p. 503). 3

4 Essa personagem difusa anuncia não somente a última vinda do Messias, mas, sobretudo, o seu próprio drama, fadado que está a aguardar o final dos Tempos. Ainda segundo Brunel (1997, p. 666), De cem em cem anos, ele [a testemunha] retoma a idade que tinha na ocasião daquele encontro [no Calvário] e não pode mais perder sua vida porque perdeu sua morte. Anita Novinsky assevera que: As múltiplas personalidades em que se dividiu Fernando Pessoa refletem as múltiplas vidas que tiveram os marranos. Esse modo de vida resultou no mundo fragmentado, foi o mundo fragmentado de todos os portugueses que tinham origens judaicas, vivendo aos pedaços, sem nunca poder ser eles mesmos (2005, p. 44). Os heterônimos são também as inúmeras vidas pelas quais passou (e passará) o judeu errante. O texto que abre as obras em prosa de Fernando Pessoa (com organização de Cleonice Berardinelli) chama-se [COMPROMISSO PARADOXAL] (1990, p. 33) e diz o seguinte: Compromisso assumido entre Alexandre Busca, residente no Inferno, em Parte Alguma, e Jacó Santanás, senhor, embora não rei, do mesmo lugar: 1. Nunca desistir nem recuar do propósito de fazer bem à humanidade. 2. Nunca escrever coisas sensuais ou de qualquer modo más, que possam servir de detrimento ou prejudicar aos que lerem. 3. Nunca escrever, ao atacar a religião em nome da verdade, que a religião pode dificilmente ser substituída e a pobre criatura humana está chorando nas trevas. 4. Nunca esquecer o sofrimento e as dores humanas. A marca de Satanás. 2 de outubro de Alexandre Busca* *Em inglês: Alexander Search. Ao nos fiarmos na data de escrita do texto, 2 de outubro de 1907, nos virá à lembrança de que Pessoa recentemente voltara da África do Sul: os seus 18 anos já os conheceu em Portugal. O compromisso acima é assinado por Alexandre Busca, aliás, Alexander Search, um dos heterônimos de Pessoa. Ele foi criado em 1899, quando o poeta residia na África do Sul com a família, e escrevia cartas ao próprio Pessoa e poemas em língua inglesa. Vale destacar o que diz José Augusto Seabra, em O heterotexto pessoano (1988), que Pessoa, assim como os marranos, quando expatriados, adotou nomes portugueses e também estrangeiros para seus heterônimos como Alexander Search 4

5 como faziam os judeus sem pátria, que adotavam dois ou três nomes hebraicos, italianos, ingleses, enfim, aqueles que melhor servissem aos seus propósitos. No texto de Search, aliás Sr. Busca, observamos que ele assume um compromisso com Jacó Satanás, senhor, embora não rei, do mesmo lugar, isto é, do Inferno, em Parte Alguma. Segundo Novinsky, e sua fala cabe muito bem ao que escreveu Search, Forçado a viver em um mundo sem fazer parte dele, o marrano tornou-se aquilo que os Inquisidores queriam que ele fosse: judeu. Assumia sempre a culpa, mesmo que fosse inocente [...] (2005, p. 45. Grifo nosso). Vale lembrar que Deus também quis que Jacó não fosse mais Jacó e sim Israel. No comentário ao capítulo 33 do Gênesis, existente na Torá, lemos o que segue: Jacob O que distingue a vida do nosso patriarca Jacob são as incessantes inquietações, as suas constantes lutas pela existência. Desde o momento em que nasceu e durante toda a sua vida, ele vê-se obrigado a combater contra Deus, e os mestres explicam: contra ideologias, contra concepções teológico-filosóficas e contra homens (povos), para garantir a sua continuidade. A Torá descreve-nos Jacob como sendo igual a qualquer ser humano, com todas as suas fraquezas; como homem que une em si as qualidades de Jacob e de Israel, Jacob como homem de luta, e Israel como príncipe de Deus. No começo era Jacob, mas depois de ter passado por inúmeros conflitos e combates, ele torna-se Israel. E essa contenda é tremendamente longa e duradoura. Pois desde o momento em que abandonou a casa paterna até o dia do seu regresso à pátria, não parou de travar combates (TORÁ, 2001, p. 96). Só o regresso à pátria trouxe a paz a Jacob. Sua pátria é Israel. Sob o título [A CRISE EUROPÉIA E O FUTURO IMPÉRIO DE ISRAEL], datado de 1919, leiamos o seguinte subtítulo e trechos de uma entrevista de Álvaro de Campos, sobre o que há de salvar Portugal: ÁLVARO DE CAMPOS, ENGENHEIRO NAVAL E POETA FUTURISTA Concede ao [jornal... ] uma entrevista sensacional: A situação da Inglaterra A situação da Europa A situação de Portugal PONTOS DE VISTA ORIGINALÍSSIMOS [...] O que há a fazer, então? - Para nos salvarmos? Aderir antecipadamente ao futuro império de Israel. Os judeus têm ganha a primeira batalha; ganharam-na em 5

6 Moscóvia, como ali a perdeu Napoleão. No devido tempo ganharão também o seu Waterloo. [...] - Mas o que tem o império de Israel com o império dos técnicos? - Essencialmente, nada. Mas o único império que pode haver é o de Israel, e a única maneira de realizar hoje um império é utilizando a técnica, que é o característico distintivo da nossa época. [...] - Pareceu-nos sempre que essa história do judaísmo e do perigo judeu era uma madureza de fanáticos... - Nalgumas das suas manifestações, é. Mas na essência não é madureza nenhuma. Madureza seria, sem dúvida, a de alguém que no tempo de Tibério ou de Nero se lembrasse de dizer que o Império Romano corria risco de ser absorvido, conquistado, por uma obscura seita judaica chamada o cristianismo (...) (PESSOA, 1990, p ). Na entrevista concedida por Álvaro de Campos, vemos reforçada a crítica de Pessoa e de seus heterônimos (e também da Geração de 70, liderada por Eça de Queirós e outros intelectuais portugueses) de que o cristianismo, ou mais precisamente, o catolicismo é das causas da decadência de Portugal. Campos não esclarece ao seu entrevistador por que considera que Portugal deve aderir ao Império de Israel. Será uma percepção de irmanação do espírito português ao espírito do povo judeu e o seu correr pelo mundo em busca de um lugar para si? Ou será a perspectiva divulgada pelo Bandarra no auge do Sebastianismo e divulgada por Vieira sob a rubrica do Quinto Império, aquele que não o será na terra dos homens, mas num locus para além do materialismo e da ambição humana? Ou ambas coadunadas, uma vez que o Messias, para os judeus, ainda está por vir? Se Israel acolheu em si Jacob, Portugal também o fez com Pessoa? Portugal é terra de retorno ou terra de exílio? Ou terra de eterna busca por si mesmo? A ausência de um lugar fixo, o exílio faz com que Pessoa, assim como os judeus, encontre-se nas palavras. Partilhando uma proposição da pesquisadora Sybil Safdie Douek (2003, p ), Pessoa [...] está enraizado naquilo que conta, e não ao solo ou à terra, ligado portanto mais à palavra que diz no tempo e pelo tempo, do que ao espaço. Alguns leitores mais apressados podem dizer: Mas Pessoa falou tanto de Portugal! Respondemos a essa exclamação com uma pergunta: de qual Portugal? Leiamos trecho do ensaio Como organizar Portugal (s/d): Onde quer que se coloque o início da nossa decadência [de Portugal] da decadência resultante do formidável esforço com que realizamos as descobertas e as conquistas, aí se deve colocar o início da grande ruptura de equilíbrio, que se deu na vida nacional. Com a dispersão por todo o mundo, e a morte de tantos em combates, precisamente daqueles elementos que criavam o nosso progresso, o nosso pequeno 6

7 povo foi pouco a pouco ficando reduzido aos elementos apegados ao solo, aos que a aventura não tentava, a quantos representavam as forças que, em uma sociedade, instintivamente reagem contra todo o avanço. É um dos casos mais visíveis da criação de uma predominância das forças conservadoras. Com isto, visto à luz do que se explicou, queda revelado o porquê da nossa decadência (PESSOA, 1990, p Grifo nosso). Êxodo, partida e dispersão são expressões que inscrevem Portugal no mundo histórico e no universo pessoano. Desde a sua fundação, Portugal é estrangeiro: os pais de D. Afonso Henriques, o primeiro rei português, foram D. Henrique, que possuía ascendência francesa, e sua esposa, D. Tereza, que era de Castela. Ao pai de Afonso Henriques pertence o terceiro castelo da Mensagem pessoana: TERCEIRO / O CONDE D. HENRIQUE Todo começo é involuntario. / Deus é o agente. / O heroe a si assiste, vario / E inconsciente. / À espada em tuas mãos achada / Teu olhar desce. / Que farei eu com esta espada? / Ergueste-a, e fez-se (PESSOA, 1992, p. 72). Fez-se Portugal. Ao lanço de uma espada surgiu o reino português. Como emblema dos reis, a espada carrega consigo um duplo poder: o de destruir e o de construir. Sob esse duplo aspecto, [...] ela é um símbolo do Verbo, da Palavra (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1998, p Grifo dos autores). O ato de D. Henrique, de espada em punho, mais a palavra proferida Que farei eu com esta espada?, ambos dão vida a Portugal. Portugal nasce não somente de um ato de heroísmo, de conquista, de união terrena; ele é fruto da luz que desce à terra e a fecunda; ele é fruto da Palavra. Quando Pessoa fala que aqueles que ficaram em Portugal representam as forças conservadoras (cf. PESSOA, 1990, p ), são elucidativas as falas de Maurice Blanchot (em O diálogo infinito), citadas por Sybil Douek, sobre o nomadismo, que Pessoa também atribui aos patriarcas portugueses: Se é preciso pôr-se na estrada e vaguear (errar), será porque, excluídos da verdade, estamos condenados à exclusão que proíbe qualquer morada? Não seria, antes, que esta errância significa uma relação nova com o verdadeiro? Não seria também que este movimento nômade (onde se inscreve a idéia de divisão e separação) afirma-se não como a eterna privação de uma estadia, mas como um modo autêntico de residir, de uma residência que não nos liga à determinação de um lugar, nem à fixação a uma realidade de antemão fundada, segura, permanente? Como se o estado sedentário fosse necessariamente o alvo de toda conduta! Como se a verdade ela própria fosse 7

8 necessariamente sedentária! [...] o nomadismo mantém, portanto, acima do que está estabelecido, o direito de repor em causa (questionar) as distribuições do espaço, chamando para as iniciativas do movimento e do tempo humanos (BLANCHOT apud DOUEK, 2003, p ). O combate de Jacob, a errância judaica e a errância portuguesa, a dispersão heteronímica pessoana: todas são formas de afirmar que o lugar da dúvida, daquilo que parece abissal, pode ser transposto pela palavra. Ainda segundo Blanchot, citado por Douek (2003, p. 181), A distância [abissal] não será diminuída, ela, ao contrário, permanece preservada e pura, pelo rigor da palavra que sustenta o absoluto pela diferença. Portanto, a palavra não diminui as diferenças: ela nos põe a pensar que se nós somos diferentes dos outros, também o somos de nós mesmos, renovando-se essa diferença a cada dia. Quando Pessoa escreve a Casais Monteiro sobre a condição de Alberto Caeiro como seu mestre, podemos ler, em O Guardador de Rebanhos, a palavra que, transpondo o abismo entre o ser e o parecer, entre o real e o ficcional, é, a um só tempo, a coisa e o que se diz da coisa. A palavra de Caeiro é o fenômeno na sua completude de ser o que é e o que o denomina, (re)humanizando aquele que um dia foi homem, e judeu, para tornar-se, na iconografia e na teologia católica, o que sofreu por nós, sem parecer sofrer por si. Leiamos a parte VIII de O Guardador de Rebanhos: Num meio-dia de fim de primavera /Tive um sonho como uma fotografia. / Vi Jesus Cristo descer à terra. / Veio pela encosta de um monte / Tornado outra vez menino, / A correr e a rolar-se pela erva / E a arrancar flores para as deitar fora / E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. / Era nosso demais para fingir / De segunda pessoa da Trindade.... Um dia que Deus estava a dormir / E o Espírito Santo andava a voar, / Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. / Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. / Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. / Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz / E deixou-o pregado na cruz que há no céu / E serve de modelo às outras. / Depois fugiu para o sol / E desceu pelo primeiro raio que apanhou (CAEIRO, 1992, p. 209). Os versos de Caeiro não vencem o abismo, nem restauram a judeidade do Cristo ou o marranismo de Pessoa, no entanto confirmam dois movimentos que se fixam por via da heteronímia pessoana: negação e realização. Segundo Tatiana Salem Levy, O esforço da literatura se dá no sentido de se tornar a realização de uma irrealização (p. 22). Ou nas estrofes de Ricardo Reis: 8

9 Vivem em nós inúmeros; / Se penso ou sinto, ignoro / Quem é que pensa ou sente. / Sou somente o lugar / Onde se sente ou pensa. Tenho mais almas que uma. / Há mais eus do que eu mesmo. / Existo todavia / Indiferente a todos / Faço-os calar: eu falo. Os impulsos cruzados / Do que sinto ou não sinto / Disputam em quem sou. / Ignoro-os. Nada ditam / A quem me sei: eu screvo (REIS, 1992, p. 291). Referências bibliográficas: AREAL, Leonor. Modelos hipertextuais. Disponível em: <http://www.educ.fc.ul.pt/ hyper/resources/lareal-modelos.htm> Acesso em: 29 jan BRUNEL, Pierre (Org.). Dicionário de Mitos Literários. Trad. Carlos Sussekind et al. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: Ed. UnB, CAEIRO, Alberto. Poemas completos de Alberto Caeiro. In: PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa. Obra poética. Org. Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p (Volume único). CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain (Orgs.). Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Trad. Carlos Sussekind et al. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2. ed. e 13ª impr. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, DOUEK, Sybil Safdie. Memória e exílio. São Paulo: Escuta, LEVY, Tatina Salem. A experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Relume Dumará, (Conexões; 19). NOVINSKY, Anita. A nova historiografia sobre os judeus no Brasil: perspectivas para o século XXI. Disponível em: <www.tropicologia.org.br/conferencia/2001nova_ historiografia.html> Acesso em: 29 jan NOVINSKY, Anita. Fernando Pessoa: o poeta marrano. In: CORNELSEN, Elcio; NASCIMENTO, Lyslei Nascimento (Orgs.). Estudos Judaicos: ensaios sobre literatura e cinema. Belo Horizonte: FALE/UFMG, p PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa. Obras em prosa. Org. Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (Volume único). 9

10 PESSOA, Fernando. Mensagem. In:. Fernando Pessoa. Obra poética. Org. Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (Volume único). REIS, Ricardo. Odes de Ricardo Reis. In: PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa. Obra poética. Org. Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p SEABRA, José Augusto. O heterodoxo pessoano. São Paulo: Perspectiva, SZTAJNBERG, Rachel. Frida Kahlo: o desamparo encarnado. Disponível em: <www.antroposmoderno.com/textos/fridakahlo.shtml> Acesso em: 29 jan TORÁ A LEI DE MOISÉS. Trad. Meir Matzliah Melamed et al. São Paulo: Ed. Sêfer; Templo Israelita Brasileiro Ohel Yaacov; Jerusalém: Centro Educativo Sefradi en Jerusalem,

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