RELAÇÕES INTERSEMIÓTICA NA OBRA MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS.*

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1 RELAÇÕES INTERSEMIÓTICA NA OBRA MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS.* Por: Zenildo Santos Silva ** O presente trabalho fará uma observação das diferentes artes presentes no Livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma obra que problematiza a própria arte, criando uma nova forma de escrita. Machado de Assis, considerado o ficcionista mais expressivo da prosa realista da literatura do Brasil, ao escrever o texto em estudo utilizou uma riqueza semiótica, proporcionando assim um livro rico, diferenciado e inovador. Antes de analisarmos as relações intersemióticas na obra, faz-se necessário uma síntese da temática da mesma. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o autor utiliza um elemento novo, o texto é narrado por um defunto, ou seja, um defunto autor, como ele mesmo se intitula no inicio do romance. Brás Cubas se considera um homem sem grandes realizações, não casou, não teve filho, nem realizou outros desejos. No livro a narração da vida de Cubas perpassa todas as fases, do menino ao adulto, percebemos toda uma subjetividade nos relatos do personagem. A obra mostra os bastidores de uma sociedade patriarcal, destacando valores e aspectos culturais da época. Nela o autor destaca os amores, sonhos e desejos não alcançáveis em sua trajetória. O autor defunto pode contar tudo que desejar, pois não terá as criticas das pessoas que o rodeia, afinal de contas, está morto. No seu foco narrativo a história é contada por um narrador-observador e protagonista. Não existe um tempo cronológico linear, o autor utiliza um tempo psicológico e fala do passado com uma visão atualizada, se arrepende do que fez e do que deixou de fazer, assiste sua trajetória fazendo juízo de valor. Quando Brás narra os fatos acontecidos ele usa uma seqüência (infância, juventude e fase adulta). Como a obra é um retrato da sociedade da época, os personagens são representações da elite brasileira do século XIX, sem esquecer dos criados que prestavam serviço para essa classe na época. * Texto apresentado como requisito parcial para avaliação do Componente : Literatura e outras Artes. ** Acadêmico do Curso de Letras UNEB Campus XXI

2 Voltando ao nosso objeto de estudo, sabe-se que a Semiótica investiga todas as linguagens possíveis, tendo como objetivo os modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como, por exemplo: a produção de significado e sentido. Walty, Fonseca e Cury (2001) falam que os bens simbólicos produzidos pelo homem em sociedade codificam-se de diversas formas que mantêm uma relação estreita entre si e se expressam no que convencionou chamar de semiose cultural, conhecida como ampla rede de significações. Eles ainda mostram que essa semiose é apresentada a partir da junção de diversas linguagens (sons, gestos, cores, expressões corporais) que são signos abertos de decodificação, e todo recorte de significação é um texto. Ao analisar o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas é possível perceber que o único signo apresentado é o verbal. As imagens, cenários, figurinos etc. ficam por conta do leitor, que ao ter pré requisitos entram em contato com a obra, conseguindo perceber a contextualização da época, fazendo assim uma tradução semiótica entre o código verbal e a representação da imagem, que neste caso aconteceria mentalmente. A estrutura do livro é inovadora, o autor faz sua organização em pequenos blocos, totalizando 160 capítulos, desses alguns merecem atenção por sua riqueza intersemiótica (XXVI O autor hesita; LV O velho diálogo de Adão e Eva; CVII Bilhete; CXIX - Parênteses; CXXV - Epitáfio; CXXXIX - De como não fui ministro de Estado), tais capítulos utilizam outras artes para a produção da mensagem. Nos capítulos supra citados, o leitor vivencia uma experiência de leitura semiótica, o código verbal deixa de ser exclusivo no texto, diferente do que ocorria com outros romances da época. No capítulo LV O velho diálogo de Adão e Eva o autor utiliza do código gráfico, sinais de pontuação, para ironizar a situação (grafo especialidade). No trecho é ausente palavras, mesmo assim o leitor percebe a intenção do autor em utilizar tal linguagem, é um recurso que enriquece, ironiza e proporciona o envolvimento e interesse do leitor com o texto. No capítulo CXXXIX De como não fui ministro de Estado, o texto é totalmente em branco, linhas tracejadas sem palavras, ou seja, autor deixa os espaços vazios para percebemos que não aconteceu nada de interessante, como o próprio título nos apresenta, Cubas não foi ministro de Estado, por isso nada ocorreu. O autor não utilizou o código

3 verbal principalmente para ironizar o capítulo, mais uma vez a linguagem não verbal é apresentada como artifício de entendimento do texto. Neste sentido, Alves (2005) ressalta que essa preocupação que faz Machado de Assis subverter a forma para adaptá-la ao conteúdo que deseja transmitir. Sendo assim, além dos dois capítulos acima citados, Machado utiliza em outros esta técnica. No XXVI ele coloca palavras de forma aleatória para mostrar a indecisão do personagem (a utilização da poesia concreta). O capítulo CVII é intitulado bilhete, para aproximar a temática da forma, o autor escrever o texto tão pequeno quanto um bilhete, resultado 04 (quatro) linhas. No CXIV Fim do um diálogo o ele utiliza o teatro, a técnica do texto dramático para apresentar a conversa de Cubas e Vergília, é perceptível claramente o jogo de falas, a técnica da pergunta X resposta dá uma dramaticidade ao trecho. Em CXXV Epitáfio encontramos uma placa fúnebre daquelas de cemitério, onde está escrita AQUI JAZ..., o que por sua vez já é uma representação semiótica, a placa representa morte de Eulália, uma pretendente. Em linhas gerais o texto é fruto da integração de diversos recursos gráficos. Aproveitando a riqueza deste livro, o diretor André Klotzel aproveitou a obra transformando em uma montagem cinematográfica, ou seja, fez uma tradução semiótica, o filme tal qual o livro é interessante e prende o telespectador do início ao fim, porém é importante ressaltar que é uma outra linguagem. Oliveira mostra que todo filme é, pois, o resultado de uma sucessão de etapas, imateriais e materiais, nas quais as imagens tomam uma forma, essa forma estimula o desejo humano, sendo um artifício de entretenimento. Neste sentido, Walty, Fonseca e Cury (2001) ressaltam: (...) as diferenças são inevitáveis ao se transpor um texto de um código para outro. Na verdade, o diretor está criando um outro texto, ou seja, fazendo uma leitura no sentido produtivo que caracteriza esse processo. (p.47) A transformação do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas para a linguagem fílmica é um novo texto, portanto uma nova linguagem, nele o diretor faz uma releitura colocando e adaptando pontos que consideram necessários. Walty, Fonseca e Cury (2001) ainda

4 mostram que há filmes que parodiam a narrativa literária, outros são pastiches de estilos e gêneros, outros, a maioria, apresentam-se no nível da paráfrase. A esse respeito Plaza (2003) acrescenta que a arte apropria-se dos recursos modernos e passa a ser reproduzida por multimídias e/ou intermídias. Logo, produtos da Tradução Semiótica. Há semelhanças semióticas entre o filme e o livro, como o cineasta se basear na obra, mas por mais que se dedique em ser fiel, chegará um momento em que ficará impossível ser uma reprodução mimética, como já foi mencionado antes, sua criatividade influenciará livremente na produção da imagem. Garrit (2006) apresenta que: Diferente da Literatura, todo o tempo no filme tende a ser sentido como presente. Presa ao esquema lingüístico, a ficção literária não consegue narrar o passado fazendo abstração das modalidades verbais que o marcam, ao passo que o filme, que apenas mostra sem enunciar, fez isso perfeitamente. O gênero cinematográfico é baseado em fatores técnicos, pragmáticos, culturais e semióticos, aprofundando-se na imagem. Enquanto que o gênero literário analisa o texto a partir do contexto histórico entre outros recursos aprofundados em uma teoria. As cenas do filme se identificam até certo ponto com os diálogos e roteiros da obra, porém a maior parte da montagem segue outra linha de estruturação e organização, o filme é o fruto de diversas artes, ou seja, a narrativa, música, arquitetura, teatro e outras linguagens. Ao analisarmos a obra, compreendemos que ela tem um forte teor semiótico, ou seja, ao produzi-la Machado utilizou diversas estratégias, são visíveis traços do cinema, da arquitetura, da poesia, pintura e outras artes, o livro é uma verdadeira junção de códigos e linguagens. Daí o prazer da leitura e a importância de seu texto, ele nos faz refletir nossa subjetividade e o mundo que nos cerca, proporcionando uma leitura dinâmica e reflexiva. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GARRIT, Luciana Lima Alves da Silva. Comparação semiótica entre o cinema e a literatura Artigo disponibilizado no site:

5 OLIVEIRA, Marinyse Prates de. Laços entre a tela e a página. Artigo disponibilizado no site PAULINO, G.WALTY, I.; CURY, M.Z. Intertextualidades: teoria e prática. Belo Horizonte: Lê p PLAZA, Júlio. Tradução Intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, p KLOTEZEL, André. Memórias Póstumas. Europa filmes. Super Filmes Produtora, 2002.

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