Infraestrutura estagnada: o nó da economia brasileira

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1 Boletim Econômico Edição nº 51 dezembro de 2014 Organização: Maurício José Nunes Oliveira Assessor econômico Infraestrutura estagnada: o nó da economia brasileira 1

2 Situação atual da infraestrutura no Brasil O arrocho fiscal que será imposto pela futura equipe econômica ao longo dos próximos dois anos fará com que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o volume dos investimentos em infraestrutura sofram uma redução brutal. Mas o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, iniciado em 2011 e que se encerra no término deste mês, também foi pouco eficiente no quesito liberação de verbas e conclusão de obras. Na prática, isso significa que pelo menos seis dos oito anos de Dilma à frente do Palácio do Planalto três quartos do tempo serão de investimentos aquém do que o país precisa para retomar o ritmo de pujança da economia. Existem vários nós que precisam ser desatados no setor de investimento em infraestrutura. Levantamento feito pelo Contas Abertas a pedido do Jornal Correio Braziliense mostra que, durante as duas etapas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 1 e 2), entre 2007 e 2014, foram aplicados cerca de R$ 1,49 trilhão. Desse total, apenas 10% saíram do Orçamento Geral da União (OGU). O investimento das empresas estatais contribuiu com quase 30% do total, ou R$ 434 bilhões. O setor privado aplicou outros 20% do total investido no PAC, por meio das parcerias público-privadas e das concessões em obras de infraestrutura. A maior parcela (34%) é composta por empréstimos 2

3 habitacionais, como os do programa Minha Casa, Minha Vida e outros, concedidos pelos bancos públicos. Os dados são do último balanço do PAC, divulgado em abril deste ano. Se as cifras são impressionantes, os resultados finais, porém, decepcionam. Dos pouco mais de 48 mil empreendimentos incluídos no conjunto de ações do PAC 2, apenas 15,8% pouco mais de 7,7 mil foram concluídos. Desse total, apenas 0,1% (57) está em funcionamento. Quase metade das obras, mais precisamente 45,6%, equivalente a 22,2 mil empreendimentos, não saiu do papel. Outros 18,8 mil (38,6%) estão em execução. Quando se olham os desembolsos orçamentários globais envolvendo as duas etapas do PAC, chega-se à astronômica cifra de R$ 1,19 trilhão. Mais da metade desse montante foi destinado a empréstimos habitacionais subsidiados, como os do Minha Casa, Minha Vida, com R$ 578,5 bilhões. O Minha Casa, Minha Vida é praticamente um empreendimento privado. As empreiteiras apresentam o projeto à Caixa Econômica Federal (CEF) e, caso seja aprovado, vendem as unidades à população. O papel do governo nesse processo é apenas subsidiar a mensalidade para que ela se adeque ao orçamento da população mais carente. O investimento público, sobretudo em infraestrutura, sempre foi um dos principais entraves do país. Apesar disso, o que se observa é um declínio constante na confiança depositada no governo, principalmente depois da crise do mensalão. O governo se propôs a pôr em marcha uma série de investimentos, mas não contava com uma máquina pública azeitada e organizada o suficiente para isso. Em outras palavras não houve o esforço necessário para tornar a administração mais ágil. No PAC, o que funciona realmente é o Minha Casa, Minha Vida. Só que esse programa tem um impacto muito pequeno do ponto de vista da estrutura produtiva do país. Dilma Rousseff, apontada como a mãe do PAC, não conseguiu destravar esse processo ao longo dos últimos quatro anos. Além de todos os problemas técnicos, o governo sofre com a corrupção nas 3

4 etapas de licitação e contratação como explicitado pela Operação Lava-Jato na crise atual da Petrobrás (O chamado Petrolão). Gastos correntes em infraestrutura As dificuldades para alavancar o investimento ficam evidentes quando as cifras são avaliadas em relação ao conjunto das riquezas produzidas pelo país, o PIB. Entre 2011 e 2013, os investimentos do Orçamento da União e os das empresas estatais avançaram timidamente, de 3% para 3,32% do PIB. Para efeito de comparação: nos três primeiros anos do segundo governo Lula, entre 2007 e 2009, o percentual cresceu de 2,2% para 3,19%. Ao longo dos três primeiros anos de Dilma, o investimento subiu a reboque das estatais: as empresas do governo saltaram de 1,9% do PIB, em 2011, para 2,3%, em No mesmo período, o investimento direto da União caiu de 1,01% do PIB para 0,98%. A elevação das despesas correntes está relacionada à desorganização das contas públicas. Ao longo dos últimos anos, alguns dos pressupostos de uma política econômica responsável foram sendo relegados em segundo plano. E foram sendo introduzidos expedientes como a contabilidade criativa. Os resultados, a longo prazo, tendem a ser ruins. 4

5 O Ritmo lento dos programas governamentais O governo pisará no freio do investimento nos próximos dois anos. Mas já foi assim nos últimos quatro anos. Confira os dados a seguir para o período de 2011 a Total de empreendimentos incluídos no PAC 2: Obras que ainda estão no papel: (45,6%) Obras em execução: (38,6%) Obras concluídas: (15,8%) Desembolso orçamentário incluindo as obras do PAC 1, iniciado em 2007: Custo total: R$ 1,1 trilhão Transportes: R$ 124,3 bilhões, o que representa 11% do gasto total Energia: R$ 381,6 bilhões, o que representa 34% do gasto total 5

6 Cidade Melhor (mobilidade urbana): R$ 13,6 bilhões, o que representa 1% do gasto total Minha Casa, Minha Vida: R$ 578,5 bilhões, o que representa 52% do gasto total Água e Luz para Todos: R$ 17,3 bilhões, o que representa 2% do gasto total Comunidade Cidadã: R$ 4,5 bilhões, o que representa menos de 1% do gasto total Infraestrutura estagnada afeta setor da Construção civil O setor de construção civil terá crescimento entre 0% e 0,5% neste ano, mas em 2015 deve ficar estagnado, segundo estimativa divulgada nesta segunda-feira (24) pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). A retomada para o setor é esperada apenas para Os principais motivos para esse resultado ruim são o cenário macroeconômico atual, imposto pelo baixo crescimento do País, a 6

7 desaceleração do consumo das famílias e do crédito disponível e a queda no nível do emprego. A cadeia de produção da construção civil tem um ciclo de entre dois e três anos, portanto, os resultados ruins hoje são reflexos do desaquecimento do setor de dois anos antes. A melhora esperada para o ano de 2016 está prevista com base nos contratos de infraestrutura realizados em 2013, apoiada principalmente em obras de logísticas do governo federal, como ampliação de ferrovias e melhorias em rodovias em todo o País. A expectativa é que haja ainda uma queda na produção de materiais de construção de mais de 5% neste ano, e crescimento nulo na cadeia de insumos. Para 2015, a previsão é de que caia 1,5% a produção de materiais de construção. O nível do emprego na construção deve fechar esse ano com queda de 0,3%, puxado pelo recuo de 0,76% segmento imobiliário de janeiro a outubro deste ano. Não são números empolgantes, mas trazem em si aspectos positivos que devem ser ressaltados. Esperamos uma mudança na expectativa após um compromisso [a ser assumido] do governo com as metas de inflação, nova equipe econômica e ajuste fiscal. Já o mercado imobiliário deve prosseguir ainda em fase de ajuste, de renda e o consumo das famílias que devem crescer menos. O setor depende da arrumação de casa da economia brasileira. A Segundo dados do Sinduscon-SP, as contratações de obras relacionadas a novos investimentos devem ganhar maior volume somente a partir do segundo semestre do próximo ano. Essas variáveis negativas deverão ofuscar a contribuição positiva de projetos de infraestrutura para o setor, incluindo concessões e obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além do programa de habitação popular Minha Casa Minha Vida. 7

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