Os CAPS e seu s trabal h a d o r e s: no olho do furacã o anti m a n i c o m i a l. Alegria e Alívio como dispo s i tiv o s analisador e s

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1 Os CAPS e seu s trabal h a d o r e s: no olho do furacã o anti m a n i c o m i a l. Alegria e Alívio como dispo s i tiv o s analisador e s Emerson Elias Merhy / 2004 Idéias No seu estudo sobre o trabalho médico no Progra m a de Saúde da Família, em São Paulo, Angela Capozzolo 1 teve a interess a n t e image m do olho do furacão, para representar o que via na promessa deste Progra m a em ser alternativo e substitutivo ao que chama de modelo médico hege mônico. Considera que este modelo não tem capacidade de operar a produç ão da saúde, pois está, antes de tudo, comprometido com os interess es econômicos e corporativos predomina nt es na sociedade, e não com o mundo das necessidad e s de saúde dos indivíduos e coletivos. Sem discordar da visão crítica que, com a sua promessa, nos oferta do modelo médico hegemônico, o que me chamou a atenção, e da qual vou pedir algumas coisas emprestadas para a Angela, é a idéia de que: quem promete ser alternativo e substit u tivo de um outro modo de prod u zir ações de saú d e, ou mes m o, que m do seu luga r faz uma leitu r a crítica das form a s Gostaria de deixar claro que este texto é um ensaio e é devedor de um trabalho coletivo com os profissionai s do Cândido Ferr ei r a, Cam pi n a s, dura n t e o ano 2003, com que m pude vivenci a r muita s situaçõ e s instiga n t e s, não confort áv eis, de como é dur a a vida dos que apos t a m na muda n ç a. Sou deve do r tamb é m de muit a s de suas idéias, que, aqui, sistematizo e agrego novos elementos Muitos dos termos que uso, como alívio, cuidar de cuidador es, são devedores de vários outros com quem venho trabalhan do. No decorrer do texto cito partes das fontes, outra s ficara m tão minha s tam b é m que não as localizo, mas as reconh e ç o como de muitos auto re s. 1 A Angela aprese ntou este trabalho como sua tese de doutoramento no Curso de Pós em Saúde Coletiva no DMPS/UNICAMP 1

2 hegemônica s de se construir práticas de saúde; só pode estar no olho do furacão. Não que ro com isso copia r os mes m o s sentid o s dest a repres e nt a ç ã o, mas ela nos ajuda a olhar o que, hoje, a rede de CAPS promete no discurso do movimento antima nicomial e no campo das estratégias para a reforma psiquiátrica, no Brasil. Quem vem propondo, e me parece com muito acerto, que caminhar na constituição de redes substitutivas ao Manicômio é apostar na construç ão de CAPS, por semelhança, está em um lugar muito parecido daquele que descrevi atrás do estudo da Angela. Pois, entendo que, neste sentido, os CAPS prometem fazer a crítica do mundo manicomial e ser lugar de construção das práticas alternativas e substitutivas. Reafirmo que as experimentações de construç ão dos CAPSs têm sido muito produtivas, para gera re m processos antimanicomiais; e, mais, têm de fato melho r a d o a vida de milh ar e s de usu á rio s deste s serviços. Ousaria dizer que dentre as várias missões que eles comport a m, há algumas que têm mostra do a superiorida de efetiva destes tipos de equipa mentos perante o que a psiquiatria clássica e os manicômios construíram, nestes últimos séculos. O fato dos CAPS estare m dirigidos, como equipa mentos de saúde, para a produção de intervenções em saúde mental, que se pauta m pelo(a): 2

3 Direito do usuário ir e vir Direito do usuário desejar o cuidado Oferta de acolhim e n t o na crise Atendim e n t o clínico individ u al e coletivo dos usu á rio s, nas suas complexas necessida des Construç ão de vínculos e referê ncias, para eles e seus cuidadores familiares ou equivalent es Geração de alívios nos demandantes Produção de lógicas substitutivas em rede Matriciamento com outras complexidades do sistema de saúde Geração e oportunização de redes de reabilitação psico- social, inclusivas; os tornam, em termos de finalidades, ao mesmo tempo, dispositivos efetivos de tens ã o entr e novas prátic a s e velhos hábitos, e lugare s de melhorias reais na construç ão de formas sociais de tratar e cuidar da loucura. Por isso, estare m no olho do furacão antimanicomial, tornam- os lugares de manifestação dos grandes conflitos e desafios, como venho apontando no decorre r do texto; e ousar dar conta destas missões, gigantesc a s, é estar aberto a operar no tamanho da sua potência e governabilidad e, adotando como um dos princípios o de ser um dispo sitivo para isso, o que implica em prod u zi r novos coletivos para fora de si mes m o. Nest e sen tid o, estã o no olho do furac ã o e, como tal, os que o estão fabricando devem e podem usufruir das dúvidas e das experimentaçõ e s, e seria muito interessa nte que tornasse m isso um elemento positivo, como marcador contra os que possa m imaginar que ele já é o lugar das certezas antimanicomiais. 3

4 Esta última postura, das certezas, carrega consigo um grande perigo. Esta r no olho do furac ã o é atiça r um inimigo pode r o s o: o conju n t o dos que se constitu ír a m e constitu e m o mun d o, e um mund o, manico mi al. Dest e modo, ter uma post u r a de que na constituição dos CAPS devemos seguir modelos fechados ou receitas, é eliminar a interessante multiplicidade deste, e não aproveit a r de um fazer coletivo solidá rio e expe ri m e n t a l. Com isso, abr e- se o flanco par a que aqu el e inimigo pod e r o s o seja o referencial crítico, fazendo da crítica um lugar da negação e não um campo instigante de cooperação, reflexão, auto- análise e ressig nifica ç ã o das prátic a s; que, ante s de tudo, se propõ e m produzire m novas vidas desejant es, novos sentidos para a inclusivid a d e social, ond e ante s só se realizav a a exclus ã o e a inter diç ã o dos desejos. Aposta r alto dest e jeito, é cre r na fabric a ç ã o de novos coletivos de trabalhado res de saúde, no campo da saúde mental, que consigam com o seus atos vivos, tecn oló gico s e micro p olítico s do trab al h o em saúde, produzire m mais vida e interditarem a produção da mort e manico mi al, em qualq u e r lugar que ela ocorr a. Aqui, estou conside rando como marcador nobre, um dos eixos nuclear es da reflexão, a noção de que o trabalho no campo da saúde mental - que se dirige para desinte rditar a produção do desejo e, ao mesmo tempo, gerar redes inclusivas, na produção de novos sentido s par a o viver no âmbito social -, é de alta complexidade, múltiplo, interdisciplina r, intersetorial e inter p r ofissio n al; que, em última instâ n c ia, só ving a se estive r colado a uma revoluç ã o cultu r a l do imagin á r io social, dos vários 4

5 sujeitos e ator e s sociais, ou seja, se constitui r- se, tamb é m, como gerador de novas possibilidades anti- hegemônica s de compree n d e r a multiplicidade e o sofrimento humano, dentro de um campo social de inclusividade e cidadanizaç ão. Reforço que este trabalho humano tem que ser portador de capacidade de vivificar modos de existências interditados e antipro d u tivos, tem que per mitir que vida prod u z a vida, implicaç ã o última de qualque r trabalho em saúde, enqua nto trabalho que opera na sua dimensão tecnológica, centralm e n t e, modos em ato de trabalho vivo, que podem e devem, na minha concepção, adq uirir sentido na medid a que a sua alma seja a pro d u ç ã o de um cuidado em saúde dirigido para ganhos de autonomia e de vida dos seus usu á r io s. Par a que m a vida, como utilida d e, faz muito sentido. Aposta r alto deste jeito é se per mitir usufr ui r de ser luga r do novo e do acontec e r em aberto e experimental, é construir um campo de proteção para quem tem que inventar coisas não pensadas e não resolvid a s, para que m tem que const r u i r suas caixas de ferra ment a s, muitas vezes em ato, para quem, sendo cuidador, deve ser cuidado. Sempre será uma aposta, em boa medida, experimental, construir novos modos tecn oló gico s e sociais que per mit a m o nasc e r, em terre no não fértil da subjetividade aprisionada da loucura excluída e interditada, de novas possibilidades desejantes, protegidas em rede s sociais inclusiva s. 5

6 Por isso, par a todos aqu el e s que estã o implica d o s com esta s apostas, imagino, que mesmo que tenhamos pistas sobre como isso foi feito em algu m lugar, como algu m coletivo já exercito u e realizou isso, devemos nos proteger de tornar estas experiências em paradigmas e receitas, em guias de nossas práticas; e, sabiamente, considerá- las como pistas, como momentos e lugares para mirarmos, como alimentos para digerirmos e ressig nifica r m o s com os nosso s fazer e s, com os nossos coletivos reais, nos nosso mundos concretos. Propo n h o entr a r nesta apost a de modo crítico, solidá rio, experimental, impedindo que os inimigos sejam os que façam o nosso questionamento. Façamo- lo entre nós, ampliando, desta forma, nossa capacidade de inventa r muitas maneiras de ser antimanicomial. Parta mos do princípio de que já sabe mos fazer um monte de coisas e que, també m, não sabemos outras tantas, ou mes m o, fazemo s coisa s que não dão certo; e, com isso, vamos apostar que é interessa nte e produtivo construir escutas do nosso fazer cotidia n o par a capt a r este s ruído s, neste luga r ond e se aposta no novo, mas se está diante da permanente tensão entre o novo e o velho fazer psiquiátrico e/ou seus equivalentes. Como regra, ao nos depara r m os diante de uma tarefa dessa, voltamos nosso olhar imediata me n t e para aquele que dá o sentido do trabalho em saúde: o usuário e seu mundo de necessida des e possibilidades; e, com correção, saimos a cata de modos de indicar que o nosso agir antima nicomial está produzindo desinterdição de desejos e inclusão. Entretanto, aqui, gostaria de uma outra viage m, pois ent e n d o que um coletivo, que esteja implica d o com 6

7 este tipo de agir, par a ter as cap a cid a d e s que ele exige, nec e s sit a estar re- criando em si, de modo constante, mecanismos de reprodução deste coletivo, que lhe garanta enqua nto lugar da vida de seus protagonistas. Proponho, adiante, olhar para a máquina desejante coletivo de trabalhado res de um CAPS, como um lugar que nos estimula a falar do que estou apontan do, tanto quanto aquele que analiticamente pergunt a o que estamos fazendo com o usuário com o nosso trabalho em saúde. Refletin d o sobr e o cotidiano de uma equip e de CAPS. Ofertando idéia s O me u olha r, que oferto nest a reflex ão, vem do luga r de que m neste último ano tem se dedicado a cuidar de cuidador es. Termo que peço emprestado para Cinira M. Fortuna 2, que ao estuda r o modus operandi de um coletivo de trabalhado r e s de saúde, em Ribeir ão Preto, trato u dest a mira d a nas sua s anális e s. Pois bem, estou ofertando um olhar deste lugar que venho ocupando junto a alguns coletivos, que operam na saúde mental, em particular na red e de Campin a s, vincula d o às equip e s do Serviço de Saú d e Cândido Ferreira.. Dentre muitas coisas interessantes e acertos que os trabalha dores realizam, vi e vejo, també m, muitas dificuldades dos trabalha dor e s para entenderem e resolvere m várias questões que estão 2 A Cinira aprese ntou esta temática através da sua tese de doutoramento no Curso de Pós Gradu a ç ã o da Escola de Enfer m a g e m da USP/RIBEIRÃO PRETO 7

8 envolvida s no seu exige n t e cotidia n o, no qual se cruz a m distint a s e importantes intencionalidad es. Entre elas, destaco: de um lado, a existência de um cotidiano fortemente habitado por intensas demand a s de cuidado, que usuários, muito múltiplos e, facilmente, em esta d o s de crise s, têm sobr e a equip e; e, do outro, pela prese nça marca nte de um imaginário do trabalhador, de que o seu agir clínico é suficiente m e n t e ampliado e a sua rede de relações intra e intersetorial, para além da clínica, é suficientemente inclusiva, que com os seus fazer e s, o louco não vai ficar nem mais enlouqu ecido e nem excluído. Caminhar nestas linhas tem colocado, sobre o ombro dos trabalhado res, pesos importa ntes para o seu agir, e que facilmente geram fazeres árduos, que os fazem experimentar, o tempo todo, sensações tensas e polares, como as de potência e impotência, construindo no coletivo de trabalhadores situações bem paradoxais, nas quais cobram de si e do conjunto posiciona mentos profissionais e estados de ânimos muito difíceis de sere m mantidos, durante todo o tempo do trabalho; particula rmente, para aqueles que oferta m seu trabalho vivo para vivifica r o sentid o da vida no outro. Não é por acaso, que muitos trabalha dores, em supervisão, falam, como um lamento, da sua exaustão, da sua tristeza, da sua incap a cid a d e de acolh e r o outro, o temp o todo, e do seu pavor diante das crises dos usuários. E, cobra m, exata ment e de si, o oposto: o de estar sempr e em prontidão e apto, o de estar sempr e atento e alegre, o de ofertar escuta a todo momento, que se fizer 8

9 necessário, e o de tomar as crises como eventos positivos e como oportunidades. Por estas manifestações serem comum, tão sofridas e dúbias, é que deve mo s nos abrir par a escu t á- las. E, neste sentid o, é disso que que r o trat a r, agor a. Antes de mais nad a, gosta ri a de propo r que encararemos estas situações como lugares de polarida des não excludentes, e, ao mesmo tempo, estas polarida des como constitu tiv a s do olho do fura c ão, no qual os CAPS e seus trabalhado res se encontram. E, assim, como matériasprimas/oportu nidades para se pensar, e problematizar, sobre o modo cotidia n o como se fabrica, ou se pod e fabrica r, CAPSs antimanicômios. Os parad ox o s do cotidiano e o que aprender com eles para pensar a produ ç ã o dos anti- mani c ô m i o s De novo, restrinjo- me ao âmbito dos CAPS, pois pod e ri a trat a r da construç ão de anti- manicômios de uma maneira mais alarga da, o que seria bem pertin e n t e pelo fato do ma nico mi al não ser um luga r, mas uma prátic a social, cultu r al, polític a e ideológica. Entretanto, para efeito do que vem sendo dito, até agora, situar- se no CAPS, já é muito. Partin d o do princípio de que só pro d u z novos sentid o s para o viver quem tem vida para oferta r, vou procura r pensa r sobre uma equip e aleg r e, que não exau r e, que atu a na crise como oportunidade. 9

10 Neste momento, um outro empréstimo é útil. Spinoza me ajuda a pensar de forma bem livre - que a vida em produção, como lugar de expressão do divino que é, se manifesta de várias formas. Que a alegria é uma destas manifestações das mais interessantes, porq u e um corpo aleg r e está em plen a prod u ç ã o de vida, está em expans ão. Por isso, tomo este empréstimo, para sugerir que só pode esta r implica d a com um agir antim a n ic o mi al uma equip e de trabalhado res alegres. Ou seja, só um coletivo que possa estar em plen a prod u ç ã o de vida em si e par a si, pod e oferta r, com o seu fazer, a prod u ç ã o de novos vivere s não dados, em outro s. Ou, pelo men o s, instig á- los a isso. Tomando a alegria como indicador da luta contra a tristeza e o sofrimento, a que são submetidos todos os coletivos de trabalhado res da saúde, podemos utilizá- lo també m como analisa d o r a das suas prá tic a s. Não que, com isso, imagin o que o coletivo seria um bando de penélopes saltitantes, mas que penso o quanto na dobra tristeza/alegria deste coletivo, no seu fazer cotidiano, pode estar algumas chaves auto- analíticas para remetêlo a uma discussão de seus processos de trabalho e implicações. Tenho experimentado, isso, com grupos de trabalhado res e me instiga d o a idéia de que há que se instituir como part e do cotidiano, além das supervisões institucionais e clínicas, arra njos auto- geridos pelos trabalha dor e s que lhes permitam re- ordena r suas tristezas e sofrime ntos, realizando, inclusive, auto- cuidado de si como cuidadores. Arranjos que desloque m, mas os recoloquem, do faze r cotidia n o que lhes conso m e em vida e em ato, como se um 10

11 fosse um ser antropofágico. Situação não difícil de entender em processos de trabalho que se alimentam do trabalho vivo em ato, como qualquer agir em saúde. Por isso, agr e g o, sem fundir, a idéia de exau s t ã o ou, melho r, de combustão do trabalhado r e da equipe. Aqui, o empréstimo é das linhas de investig a ç ã o que vêem, no camp o da saú d e do trabalhado r, pensan do o seu burn out como expressão de processos de trabalho altament e exploradores e alienador e s. Isto é, trago como indicador analítico a noção de exaustão do trabalhado r, para se agrega r ao de alegria/tristeza, no sentido de que um pro d u t o r de novas possibilid a d e s de vida, que para isso consome a sua própria, se não produzí- la o tempo todo, exaure. Ou seja, provoca combustão total de sua energia vital. Poder gerar processos, no cotidiano, que exponha m estas questõe s é per mitir que o coletivo pen s e e fale sobr e isso; e, assim, atu a r sobre a produção destas situações e estados. Vejo que os trabalhado res, que procura m caminha r por aí interrogam de modo bem produtivo o seu próprio fazer manicomial, interrog a m o que lhes entristece m e exaurem, e com estas interrogaç ão abrem oportunidades de se re- situarem em relação a novas possibilidade s antimanicomiais. Ofertando imag e n s Imagine m algum trabalhador relatando em um encontro da equipe o sentido de não- vida que adq uir e ao final de cada dia de tra b a lh o e a exau st ã o qu e sent e; que, qua n d o sai do serviço ou das 11

12 atividades, sente um alívio enorme, adquire mais oxigênio e respi r a melho r; que não sent e vont ad e de voltar no dia seg uin t e. Imagine m este trabalhado r chegando em um CAPS, encontrando dezenas de usuários que irão participar de várias atividades, algumas das quais ele é responsável; e, de repente, um dos seus 20 casos- referê ncias entra em uma crise séria, na moradia. Este trabalhador, para dar conta destas tarefas, vai ter que se apoiar na equipe, mas vai também ter que atuar, diretam e nt e, no seu caso- referência, vai ter que acolhê- lo na crise. Vai ter que usar de sua clínica, de suas pers pic á ci a s, de suas red e s de ajud a. Vai ter que gerar intervenções singulare s e novas redes. Vai ter que, e pode, aproveitar a oportunidade que a crise permite para ressignificar o Projeto Terapêutico que vem gerindo em relação àqu el e usu á rio. Pode inclusiv e desco b ri r novas pista s intersetoriais para criar outros sentidos, para vários de seus casos- referências. Enfim, vai ter que acolh e r, escu t a r, ressig nifica r, expo r- se a vínculos e jogos transfere nciais, abrir- se em rede, atuar em linhas de fuga. Vai ter que exerc e r sab e r e s tecnoló gico s clínicos, construir redes de encontros entre competê ncias de intervenção, abrir- se para redes intra- saúde, que possam suportar e agrega r novos agire s tecn oló gico s, inclusive no mom e n t o de uma crise qu e pode se tornar um sério caso de urgência e emergên cia. Terá que ter rede de suporte. Vejam, algu é m exau rid o e triste, sem alívio, diant e de toda s esta s demand a s e necessidad e s, como é que vai gerar vida, além de ter 12

13 que produzir novas e inovadoras ações. Este trabalhador, se vier para um grupo que o acolha e se abra para escutá- lo, provavelmente, vai relatar diante disto tudo uma grande sensação de mais exaustão e tristeza. Uma grande sensação de impotência, ou mes m o, vai relat a r que só deu conta das tar efa s porq u e não foi antimanicomial, mas sim burocrat a do atendimento. Fez o fluxo de atendimento andar, mas não o domina, nem o compreen d e. Só toco u o cotidia n o. Gerou alívios nos outro s. De fato, muito do que ten h o visto, a partir de mom e n t o s muito parecidos, são equipes relatando o seu medo com as crises, com as urgências e emergências, e o massacre que tem sido, simplesmente, tocar os fluxos de atendimento. Isto tem sido tão significativo, que em uma supervisão concret a alguns trabalhado res chega ra m a montar a seguinte imagem, em uma atividade de supervisão: nós geramos alívios nos outros, mas não temos nenhum alívio para olhar e repensar o nosso trabalho; não sab e m o s se esta m o s ou não send o um coletivo/dis p o sitivo antimanicô mio. E, aí, o desafio que fiz para a equip e - com a qual pud e pen s a r e siste m a t iz a r muito do que tem nest e texto -, foi o de imagin a r as vária s possibilida d e s de prod u ç ã o de uma aleg ria e um alívio, no cotidiano do trabalhador, implicado com um agir antimanicomial, encara n do a produção cotidiana dos seus inversos: a tristeza e a exaustão, para poder criar uma aposta coletiva de desconstr uí- las. Nesta direção, estou sugerindo, além dos eixos alegria e combustão, tomar o foco da produção do alívio produtivo 13

14 antimanicomial como uma poderosa arma a favor da construção dos CAPS anti- manicô mio s. O que isso pod e significa r? Como imagin á- lo? Todo processo de trabalho que captura plenamente o trabalho vivo em ato na produção, impede a construç ão do alívio produtivo pelo trabalhado r e a equipe. Dá- lhes grau zero de liberdad e para ressignificarem seus atos e inventar e m novas possibilidades e sentidos para os seus fazeres produtivos. Organizar CAPSs, que aliviam os demandan t e s, sem se construir mecanismos descaptu r a n t e s do trabalho vivo em ato, impede a possibilidade do trabalho em saúde mental tornar- se um dispostivo de intervenção anti- manicô mio. O que coloc a, como uma gra n d e tar efa, a construç ão cotidiana de alívios para o trabalho vivo em ato gera r novos caminhos. Como fazer, isso? Sem receitas. Creio que cada coletivo deve problematizar, no seu fazer, a implicação com o agir antimanicomial e a construção de temp o real de trab al h o, no interio r da equip e, dirigin d o- o, intencionalment e, para fabricar novos sentidos para o viver do louco e da loucu r a na socie d a d e, abrin d o novas pista s, em cada lugar onde os CAPS são construídos. Mas, é possível pro d u zir alívios prod u tivo s no inte rio r da equip e, sem neg a r que uma das missõ e s seja a de gera r alívios nos demand a n t e s? Será que isso não exige ressignificar o que vimos 14

15 entend e n do como crise/oportu nidade e construção de redes de intervenções na urgência e emergência, em saúde mental? É possível abrir mão de apoio em hospitais ger ais? E, ond e não existam, os CAPS de alta complexidad e, para acolher e internar nas crises, resolve m? Não con h e ç o uma expe riê n c ia definitiva que dê cont a disso, mas conheço bons exemplos que mostra m caminhos diversos. Há aqueles que não abrem mão de suporte especializado em hospitais gerais, para a urgência e emergência, o que me parece uma das boas idéias; há aqu el e s que cria m serviços próp rio s na red e de saú d e men t a l, de uma complexid a d e distin ta para dar conta desta situ a ç ã o; há os que apost a m que os CAPS, em si, deve m dar conta desta situação; e, assim, por diante. Uma equipe de trabalha dores dos CAPSs que não possa usufruir de alívios prod u tivo s e de esta d o s de aleg ria, de forma implica d a, não tem muito a ofert a r a não ser exa u rir par a ger a r alívios nos outros, como o manicô mio já fazia e faz. Há que radicaliza r o senti m e n t o deste bom medo, em relaç ã o às crise s, no inte rio r das equipes, e há que compree n d ê- las como um dispositivos em rotação, que ao operarem geram novas formas de cuidado no seu interio r, mas agita m e mobiliza m os outro s, que compõ e m a red e de cuidados, neste mesmo sentido. Creio, que ter uma red e bem articul a d a entr e serviços de saú d e mental (CAPS), serviços próprios de urgência e emergência (como os SAMUs e PSs) e equip e s locais de saú d e, seja esse n cial par a dar respostas razoáveis a um dos problem as que mais somam, no 15

16 imagin á r io social, a favor da lógica manico mi al. Ou seja, enfre n t a r bem esta situa ç ã o tem um duplo sentido: de um lado, é uma das chav e s par a ger a r alívio prod u tivo nas equip e s de CAPS; de um outro, ao ger a r alívio nos que convive m com loucos, em crise, diminui a pressão para a segregação e exclusão. A melhor solução encontrad a é aquela que se baseia na rede necessária, que dá conta efetiva dos casos de urgência/em e r g ê n cia, sem gera r exclusão e segregação; ao revés, gerando oportunidades de intervenções terapê uticas e trabalhos intersetoriais inclusivos. O melhor é a rede, possível no local ou na região, que consiga impedir a manicomialização e, ao mesmo, não negue a necessidad e de gerar alívios nos familiares (ou equivalentes) e nos cuidador es. O que interess a, em última instância, é a oportunida de de operar novos senti do s par a a ressig nifica ç ã o das crises, tan to no desenca deamento de projetos terapêuticos, quanto na construção de um conjunto de atividades, em rede, que tragam o usuário para ampliar suas redes de vinculação, aumentando as chances de produzir contratualização e responsabilização nas relações com os outros. Apostar na construção de processos de trabalho que produza m cuidados para os usuários e cuidados para os cuidador es é vital, neste percurso. Permite m vivificar o trabalho em saúde que aposta na construção da qualificação de vidas. 16

17 Constr ui r a aleg ri a e o alívio pro d u tiv o como dispositivos analisa d o r e s é um desafio par a aqu el es coletivos sociais que opera m no olho do furacão e se propõe m como gerador e s de anti- manicô mio s. Biblio grafia Ana Mart a Lobosq u e Princípios par a uma Clínica Antima nic o mi al e outro s escrito s Edito r a Hucite c São Paulo Angela Capozzolo No olho do furac ã o: tra b al h o médico e o pro g r a m a de saúd e da família Tese de douto r a d o Curso de Pós Graduação em Saúde Coletiva Unicamp Campinas Angelin a Har a r i e Willians Valen tini A refor m a psiquiá t ric a no cotidian o Edito r a Hucite c São Paulo Antonio Lancetti, Gregório Baremblitt et al. SaúdeLouc u r a 4 Editor a Hucite c São Paulo Cinira Fortuna Cuidando dos cuidadores Tese de doutorado Curso de Pós Graduaç ão em Enfermagem EERP- USP Ribeirão Preto Emerson Elias Merhy A loucura e a cidade: outros mapas Publicação do Fórum Mineiro de Saúde Mental Belo Horizonte Gregório Baremblit et al. SaúdeLoucu r a 5 Editora Hucitec São Paulo 17

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