ACÓRDÃO PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

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1 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO ACÓRDÃO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO ACÓRDÃO/DECISÃO MONOCRÁTICA REGISTRADO(A) SOB N i iiiiii mil uni mil nu mil uni mil mi nu * * Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação n , da Comarca de Taubaté, em que é apelante MINISTÉRIO PUBLICO sendo apelados PREFEITURA MUNICIPAL DE TAUBATE e FAZENDA DO ESTADO DE SÃO PAULO. ACORDAM, em 4 a Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "DERAM PROVIMENTO AO RECURSO. V. U.", de conformidade com o voto do(a) Relator(a), que integra este acórdão. O julgamento teve a participação dos Desembargadores RICARDO FEITOSA (Presidente sem voto), THALES DO AMARAL E OSVALDO MAGALHÃES. São Paulo, 29 de novembro de RUI STOCO RELATOR

2 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO VOTO N /10. 4 a Câmara de Direito Público Apelação Cível n. : Taubaté ( /4-00) APELANTE: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO APELADOS: MUNICÍPIO DE TAUBATÉ E FAZENDA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO EMENTA: Apelação Cível. Ação Civil Pública. Medicamentos. Pretensão do Ministério Público de ver os réus compelidos ao fornecido de medicamentos de caráter excepcional, gratuitamente, àqueles que necessitam, independentemente da natureza jurídica da entidade responsável pela Solicitação de Medicamentos Especiais - SME. Admissibilidade. Art 196 da CF/88. Ação julgada improcedente na origem. Sentença reformada. Recurso provido. I) Os Tribunais Superiores e esta Egrégia Corte vêm dando conforto e tornou-se pacífico o entendimento de que todos têm direito à saúde e à vida e que esta prepondera acima de qualquer outro interesse, sendo obrigação do Estado - usada essa expressão em seu sentido amplo e universal (União, Estados e Municípios) - prestar assistência integral aos necessitados e carentes de recursos. VISTOS, Trata-se de Ação Civil Pública, com pedido de liminar, proposta pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO contra a PREFEITURA MUNICIPAL DE TAUBATÉ E OUTRO. Segundo consta, ingressou o representante do Parquet alegando recusa por parte da autoridade pública, em conceder medicamentos de caráter excepcional a pacientes portadores de doenças renais crônicas, atendidos pelo Instituto de Nefrologia de Taubaté. Aduziu que os entes estatais recusam-se a fornecer os medicamentos sob o argumento de que os pacientes são atendidos por planos de saúde privados, o que contrariaria a Portaria 1.318/GM, que exige para fornecimento dos medicamentos, que a SME - Solicitação de Medicamentos Excepcionais, seja fornecida pelo Poder Público ou prestador conveniado ao SUS - Sistema único de Saúde. Traz que tal exigência viola o direito à vida e à saúde, consignando como paradigma a realidade fática ocorrida com a Sra. Geralda Viana Pires.

3 2 Aduziu que a Constituição da República prevê a saúde como direito social básico de todas as pessoas e dever do Estado, de modo que os réus, por intermédio dos respectivos serviços de saúde, ao não oferecerem gratuitamente a medicação necessária aos doentes, descumprem a Constituição Federal e legislação infraconstitucional pertinente e ofendendo direito individual indisponível. Com essas razões, requereu a concessão da liminar e, ao final, a procedência da demanda para compelir os entes públicos ao fornecimento de medicamentos e demais utensílios necessários, a todos que deles necessitem, pelo prazo necessário, a critério médico, independentemente da natureza jurídica da entidade responsável pela Solicitação de Medicamentos Especiais - SME. O pedido liminar foi indeferido (fls ). Contra tal decisão, o Ministério Público interpôs Agravo de Instrumento n /6-00 (fls. 182), ao qual foi dado provimento por relatoria do ilustre Des. Jo Tatsumi (fls , do apenso). A r. sentença julgou improcedente o pedido (fls ). O Ministério Público Estadual, inconformado, apelou, pugnando pela reforma da r. sentença e repisando os argumentos constantes da peça inaugural (fls ). Foram apresentadas contrarrazões pelo Município de Taubaté (fls ). É o relatório. II - Ressalva-se o entendimento do Relator quando à legitimidade do Ministério Público para propor Ação Civil Pública, como substituto processual, em favor de qualquer pessoa, indiscriminadamente e não apenas em favor das pessoas expressamente apontadas na legislação de regência, como com relação à criança e o adolescente (ECA, art. 201, V e IX) e o idoso (Lei n /2003, art. 74, III e VII). III - Os recursos não comportam acolhimento. Como não se desconhece a questão da legitimidade da União, dos Estados ou Municípios da Federação para figurar no pólo passivo, em casos outros discutida, e responder pelo atendimento aos necessitados, já não mais suscita discussão, ante o posicionamento assumido pelo Supremo Tribunal Federal, em longo e brilhante voto do Ministro Celso de Mello, e do Superior Tribunal de Justiça, como se verifica nas ementas abaixo. Aliás, a questão está pacificada nos tribunais superiores: 1

4 3 Paciente com HIV/AIDS. Pessoa destituída de recursos financeiros. Direito à vida e à saúde. Fornecimento gratuito de medicamentos. Dever constitucional do poder público (CF, arts. 5 o, caput, e 196). Precedentes (STF). Recurso de agravo improvido. O direito à saúde representa conseqüência constitucional indissociável do direito à vida. - "O direito público subjetivo à saúde representa prerrogativa jurídica indisponível assegurada à generalidade das pessoas pela própria constituição da república (art. 196). Traduz bem jurídico constitucionalmente tutelado, por cuja integridade deve velar, de maneira responsável, o poder público, a quem incumbe formular. E implementar. Políticas sociais e econômicas idôneas que visem a garantir, aos cidadãos, inclusive àqueles portadores do vírus HIV, o acesso universal e igualitário à assistência farmacêutica e médico-hospitalar. O direito à saúde. Além de qualificar-se como direito fundamental que assiste a todas as pessoas. Representa conseqüência constitucional indissociável do direito à vida. O poder público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional. A interpretação da norma programática não pode transformá-la em promessa constitucional inconseqüente. O caráter programático da regra inscrita no art. 196 da carta política. Que tem por destinatários todos os entes políticos que compõem, no plano institucional, a organização federativa do estado brasileiro. Não pode converter-se em promessa constitucional inconseqüente, sob pena de o poder público, fraudando justas expectativas nele depositadas pela coletividade, substituir, de maneira ilegítima, o cumprimento de seu impostergável dever, por um gesto irresponsável de infidelidade governamental ao que determina a própria lei fundamental do estado. Distribuição gratuita de medicamentos a pessoas carentes. O reconhecimento judicial da validade jurídica de programas de distribuição gratuita de medicamentos a pessoas carentes, inclusive àquelas portadoras do vírus hiv/aids, dá efetividade a preceitos fundamentais da constituição da república (arts. 5 o, caput, e 196) e representa, na concreção do seu alcance, um gesto reverente e solidário de apreço à vida e à saúde das pessoas, especialmente daquelas que nada têm e nada possuem, a não ser a consciência de sua própria humanidade e de sua essencial dignidade. Precedentes do STF. (STF - 2 a T. - RE no AgRg Rei. Celso de Mello-j DJU Ement ). No mesmo sentido: RTJ-105/704, RTJ-132/455, RTJ-165/812, AI , RE , AI , AI , AgRg no RE , RE , RE , RE , RE e RE "No tocante à responsabilidade estatal no fornecimento gratuito de medicamentos no combate à AIDS, é conjunta e solidária com a da União e do Município. Como a Lei n /1996 atribui à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios o dever de fornecer medicamentos de forma gratuita para o tratamento de tal doença, é possível a imediata imposição para tal fornecimento, em vista da urgência e conseqüências acarretadas pela doença" (STJ - I a T. - REsp Rei. José Delgado - j DJU RSTJ 152/149, abr./2002). "A CF/1988 erige a saúde como um direito de todos e dever do Estado (art. 196). Daí, a seguinte conclusão: é obrigação do Estado, no sentido genérico (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), assegurar às pessoas desprovidas de recursos financeiros o acesso à medicação necessária para a cura de suas mazelas, em especial, as mais graves" (STJ - I a T. - REsp Rei. José Delgado - j DJU ). No mesmo sentido: STJ - I a T. - REsp Rei. José Delgado - j DJU RSTJ 152/149, abr./2002). 9

5 4 Ademais, os tribunais superiores vêm dando conforto ao entendimento de que todos têm direito à saúde e à vida e que esta prepondera acima de qualquer outro interesse, sendo obrigação do Estado - usada essa expressão em seu sentido amplo e universal (União, Estados e Municípios) - prestar assistência integral aos necessitados e carentes de recursos, fomecendo-lhes assistência médico-hospitalar, medicamentos, próteses, aparelhos de apoio e acessórios. Confiram-se, nesse sentido, as decisões abaixo: Constitucional. Administrativo. Medicamentos, fornecimento a pacientes carentes. Obrigação do Estado. - Paciente carente de recursos indispensáveis à aquisição dos medicamentos de que necessita. Obrigação do Estado em fornecê-los. Precedentes. (STF - 2 a T. - AI Rei. Carlos Velloso - j DJU ). Agravo regimental. SUS. Fornecimento de medicamento. Paciente. Portador de epilepsia. Direito à vida e à saúde. Dever do estado. Legitimidade. Correta valoração da prova. 1. Ação objetivando a condenação da entidade pública ao fornecimento gratuito dos medicamentos necessários ao tratamento de Epilepsia. 2. O Sistema Único de Saúde - SUS visa a integralidade da assistência à saúde, seja individual ou coletiva, devendo atender aos que dela necessitem em qualquer grau de complexidade, de modo que, restando comprovado o acometimento do indivíduo ou de um grupo por determinada moléstia, necessitando de determinado medicamento para debelá-la, este deve ser fornecido, de modo a atender ao princípio maior, que é a garantia à vida digna. 3. Configurada a necessidade do recorrente de ver atendida a sua pretensão posto legítima e constitucionalmente garantida, uma vez assegurado o direito à saúde e, em última instância, à vida. A saúde, como de sabença, é direito de todos e dever do Estado. 4. O Estado é parte legítima para figurar no pólo passivo nas demandas cuja pretensão é o fornecimento de medicamentos imprescindíveis à saúde de pessoa carente. 5. Agravo Regimental desprovido (STJ - I a T. - AgRg no REsp Rei. Luiz Fux - j DJU ). "O direito à saúde - além de qualificar-se como direito fundamental que assiste a todas as pessoas - representa conseqüência constitucional indissociável do direito à vida. O Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional" (STF - AGRE /RS, Rei. Min. Celso de Mello, DJ )" (STJ - 2 a T. - REsp Rei. Franciulli Netto - j DJU ). Administrativo. Moléstia grave. Fornecimento gratuito de medicamento. Medicamento. Direito à vida e à saúde. Dever do estado. Direito líquido e certo do impetrante. - "1. Esta Corte tem reconhecido que os portadores de moléstias graves, que não tenham disponibilidade financeira para custear o seu tratamento, têm o direito de receber gratuitamente do Estado os medicamentos de comprovada necessidade. Precedentes. 2. O direito à percepção de tais medicamentos decorre de garantias previstas na Constituição Federal, que vela pelo direito à vida (art. 5", caput) e à saúde (art. 6 ), competindo à União, Estados, Distrito Federal e Municípios o seu cuidado (art. 23, II), bem como a organização da seguridade social, garantindo a 'universalidade da cobertura e do atendimento' (art. 194, parágrafo único, I). 3. A Carta 9

6 5 Magna também dispõe que 'A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação' (art. 196), sendo que o 'atendimento integral' é uma diretriz constitucional das ações e serviços públicos de saúde (art. 198). 4. In casu, não havendo prova documental de que o remédio fornecido gratuitamente pela administração pública tenha a mesma aplicação médica que o prescrito ao impetrante - declarado hipossuficiente -, fica evidenciado o seu direito líquido e certo de receber do Estado o remédio pretendido. 5. Recurso provido" (STJ - 2 a T. - RMS Rei. Eliana Calmon - j DJU ). E nem se diga que faltaria ao Ministério Público Estadual o necessário interesse de agir, pois se veio a Juízo pleitear é justamente porque lhe foi noticiado o fato de que os réus não estariam atendendo atenderam espontaneamente, ou colocaram entraves intransponíveis, aos necessitados de medicamentos excepcionais. E a alegação da Fazenda Pública no sentido de o fornecimento de medicamentos segue as determinações da Portaria 1.318/GM, que exige a SME - Solicitação de Medicamentos Excepcionais, fornecida pelo Poder Público ou prestador conveniado ao SUS - Sistema Único de Saúde, somente reforça o quanto alegado na inicial. Isto porque, tal exigência não se mostra razoável, em casos de urgência e diante da solicitação realizada por médico especializado, para tratamento de moléstia especifica. qualquer outro direito ou interesse. Cabe obtemperar que o direito à vida e à saúde prepondera sobre A Constituição Federal assegura genericamente e traz como regra programática à saúde como direito coletivo (art. 6 o ) e reafirma ser a saúde direito de todos e dever do Estado (art. 196), que se efetiva através de políticas sociais e econômicas. Do que se infere, estreme de dúvida, que o paciente hipossuficiente tem direito, por força de preceito constitucional regulamentado por lei complementar, de obter medicamentos e insumos para seu tratamento, desde que esse acesso ao direito à saúde seja concretizado de forma universal e igualitária, restando claro que a assistência do Estado só pode ser efetivada assegurando a todos a concretização possível da garantia, sem distinções e sem desigualdade no tratamento, no benefício ou mesmo na restrição que a ordem econômica impõe, como já decidiu nosso Tribunal (TJSP - 3 a C. Dir. Público - Embs. Infrs /5-01 -Rei. Rui Stoco-j Voto: 2.536/01). Ninguém pode se furtar a isso, na consideração de que a vida é o direito maior do cidadão, independentemente da existência ou não de preceito garantidor, pois acima da lei formal está a lei decorrente do direito natural ou não escrito. 7

7 6 III - Em razão do exposto, dão provimento ao recurso de apelação, condenando as rés a fornecer os medicamentos de caráter excepcional, a todos que necessitarem, pelo prazo necessário, a critério médicofirrdeeendentemente da natureza jurídica da entidade responsável pela Solicifação de^lediçameníoi Especiais - SME. (1-169) pha RUI STO Relato, Apelação Cível n Taubaté

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