GLOBALIZAÇÃO, UNIVERSIDADE E MERCADO DE TRABALHO

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1 GLOBALIZAÇÃO, UNIVERSIDADE E MERCADO DE TRABALHO GEORGE DE CERQUEIRA LEITE ZARUR Consultor Legislativo da Área XV Educação, Desporto, Bens Culturais, Diversões e Espetáculos Públicos JUNHO/2000

2 Câmara dos Deputados. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citados o(s) autor(es) e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução, sem autorização prévia por escrito da Câmara dos Deputados. Câmara dos Deputados Praça dos 3 Poderes Consultoria Legislativa Anexo III - Térreo Brasília - DF 2

3 3 GLOBALIZAÇÃO a) Enfraquecimento de alguns estado nacionais e fortalecimento de outros estados nacionais Apesar da disseminação (possivelmente intencional) de teses equivocadas, o que vem ocorrendo, com a globalização, é o enfraquecimento ainda maior dos estado nacionais que eram frágeis, antes mesmo do início do atual processo de globalização. A globalização inicia-se com o fim da antiga União Soviética, de forma que tal processo representa a instituição de um mundo unipolar. Como este pólo mundial único é o estado nacional norte-americano, o que ocorre, de fato, é a supremacia absoluta dos Estados Unidos e o fortalecimento do estado norteamericano. Assim, o enfraquecimento de outros estados nacionais é diretamente proporcional ao fortalecimento dos Estados Unidos. Os estados nacionais europeus, alguns dos quais, previamente desenvolvidos, como a França ou a Alemanha, viabilizam-se, para resistir à globalização, através da formação da Comunidade Européia de Nações. Trata-se de uma unidade econômica tão poderosa quanto os Estados Unidos. Embora a União Européia já tenha a densidade econômica para formar um novo pólo, concorrente aos Estados Unidos, a densidade política e militar deste grande estado supranacional em formação ainda é limitada, pelo próprio estágio de institucionalização em que se encontra. Um terceiro bloco poderia se formar, a partir da China, em possível aliança com o Japão. O poder norte-americano não se voltou contra a China, devido à própria concentração de esforços contra a União Soviética. A elite política chinesa vem, por enquanto, conseguindo manter um bem sucedido programa de abertura e expansão econômicas aliado ao controle nacional da política e da economia. O Brasil tentou, desesperadamente, inclusive, à custa de uma série de concessões econômicas, instituir o Mercosul. Porém, a Argentina, o outro sócio relevante no bloco Sul Americano, quebrou a aliança estratégica pressuposta pelo 3

4 4 Mercosul ao tentar vincular sua moeda à norte-americana e colocar-se como sócio geopolítico e militar dos Estados Unidos contra seus vizinhos. Por isto, dada a instabilidade econômica e a fragilidade institucional da região, não há nenhuma garantia de sucesso do Mercosul. b) Características da Globalização nas Economias periféricas. Terceiros países como os Latino-americanos, por exemplo, vêem-se extraordinariamente expostos a novos problemas, decorrentes da globalização que, para eles, manifesta-se da seguinte forma:: - Pelo enfraquecimento e desmoralização das instituições de estado e da elite burocrática estatal. - Pela desnacionalização da economia. Há uma tendência universal à privatização de muitas das empresas estatais. Sua implementação é, entretanto, extremamente cuidadosa nos países mais fortes, dando-se preferência ao controle nacional das empresas privatizadas, ou a sua venda pulverizada ao público nacional, em bolsa de valores. Há algumas empresas, consideradas estratégicas que, em muitos países mais fortes, são mantidas sob controle do estado. Já nos países mais frágeis, há uma forte tendência à concentração de empresas em poucas mãos e a sua venda a grupos externos. - Por taxas medíocres de crescimento econômico ou por um crescimento muito oscilante, sem sustentação ao longo do tempo - Pela supressão de direitos sociais, referentes à estabilidade no emprego, direitos de aposentadoria e serviços gratuitos de saúde. - Pelo aumento a níveis desconhecidos das taxas de desemprego, transferidos em massa para os países desenvolvidos. - Por fluxos de capital especulativo sem o controle estatal. - Pela falta barreiras de resistência cultural frente à uniformização ocasionada pela informação oferecida através de sistemas como a internet. O MERCADO DE TRABALHO O aumento da atividade econômica nos países economicamente fortes têm levado a aumento de taxas elevadíssimas de desemprego nos países mais frágeis, de diferentes maneiras. O desemprego nos países frágeis é decorrente da desativação de importantes setores econômicos, inclusive de inteiros parques industriais, o que decorre de três motivos: a) Pelo câmbio sobrevalorizado que leva a um barateamento dos bens produzidos externamente e ao encarecimento dos.bens produzidos internamente. A indústria e agricultura locais perdem competitividade tanto para abastecer o mercado interno como para exportar. b) Pela liberação das importações, em nome do controle interno dos preços, sem que haja contrapartida dos países mais fortes, que continuam exercendo práticas protecionistas em larga escala. 4

5 5 c) Pela substituição da tecnologia e dos serviços, em geral, produzidos internamente pelos produzidos no exterior, especialmente pelas empresas, estatais ou privadas, recentemente vendidas ao capital externo. Devido a esses fatores há um decréscimo no emprego, em todos os níveis, da mão de obra não qualificada à mão de obra mais qualificada. Além desses fatores, no caso da mão de obra mais qualificada, há que se acrescentar o chamado desemprego tecnológico, comum aos países pobres e aos ricos, como o decorrente do uso de robots, por exemplo, substituindo seres humanos. Entretanto, no caso dos países mais fortes, tal perda é compensada pelos empregos transferidos das nações mais frágeis, através dos três mecanismos acima descritos. Assim é que diferentes estudos têm demonstrado a lamentável situação do mercado de trabalho brasileiro, especialmente, naqueles setores considerados como empregos de qualidade. Segundo cálculos da professora Lilian Miller, da UFRJ, foram eliminados empregos, dentre os melhores, da economia brasileira, durante os anos 90. Atualmente há pouco mais de engenheiros trabalhando no Brasil e em 1989 este número era de mais de , com uma redução de 11% nos postos de trabalho nesta área. Há, por este motivo, cursos da engenharia, pesadamente tecnológicos, onde o número de vagas supera o número de candidatos Segundo estudo do professor Márcio Pochmann, da UNICAMP, o discurso oficial da necessidade de melhor qualificação para se obter uma vaga no mercado de trabalho representa um equívoco. Enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra há um crescimento de vagas de alta qualidade no setor serviços, o crescimento dessas vagas no Brasil, também no setor serviços ocorre em atividades como as de segurança, limpeza, comércio, construção civil e profissões como as de cozinheiro e garçom. Pochman descobriu que as áreas técnicas são aquelas que mais desempregaram, com queda de empregos para técnicos de eletricidade, eletrônica, telecomunicações, química e mecânica. Há um saldo positivo de 1989 a 1996, segundo este mesmo estudo, de 6,9 milhões de postos de trabalho mas concentrados nas ocupações de pior qualificação do setor serviços, como emprego doméstico, limpeza e vigilância. Por outro lado, o estudo demonstra que há um excesso de pessoal qualificado para as vagas existentes. De acordo com o professor Cláudio Salm, da UFRJ, o que temos agora, com o avanço educacional são babás mais educadas. Embora as pessoas portadoras de diploma de nível superior tendam a não ficar desempregadas, como demonstram essas pesquisas, as formadas em universidades menos importantes, vão se ocupar de posições abaixo da qualificação formal que possuem. Engrossarão os quadros de telefonistas, motoristas de táxi, e, até babás, com curso superior, que começam a se espalhar pelo Brasil. Por outro lado, expulsam desses nichos de mercado pessoas menos preparadas formalmente, embora, talvez, perfeitamente aptas a desempenharem a função exigida pelo emprego. Assim, é importante que se perceba que a globalização não requer uma mão de obra tecnicamente muito qualificada para os países mais pobres, pois esses estão desativando setores de sua indústria e perdendo capacidade tecnológica por falta de demanda de insumos tecnológicos pela economia. 5

6 6 A UNIVERSIDADE BRASILEIRA FRENTE À GLOBALIZAÇÃO E OS PROBLEMAS RELATIVOS AO MERCADO DE TRABALHO Frente aos problemas acima descritos, não cabe uma política de expansão indiscriminada do número de vagas para o ensino superior. Não há nenhuma razão para se expandir o ensino superior, se o mercado de trabalho não está absorvendo os profissionais dele egressos. É fundamental que se lembre que uma política para o ensino superior é completamente diferente da traçada para o ensino básico. A universalização do ensino básico representa uma condição da cidadania, sendo outras as funções da universidade. Há que se considerar que a expansão do ensino superior ocorre a partir de dois fatores: 1. O crescimento do ensino, especialmente o privado, pago penosamente por jovens que esperam, com o seu sacrifício e o de suas famílias, melhorar sua situação e exercer a profissão para a qual se preparam no ensino superior. Sua subutilização pelo mercado de trabalho representa uma verdadeira violência contra o idealismo dos que se formaram e não exercerão sua profissão. A frustração de expectativas dos jovens representa uma face extremamente cruel do assim chamado desemprego intelectual. 2. Um pesado custo financeiro para a sociedade, que mobiliza escassos fatores para produzir profissionais desnecessários para o mercado de trabalho. Com o aumento de graduados no ensino superior, vagas continuarão sendo demandadas, agora como condição para se obter qualquer emprego, não representando qualquer aumento para a eficiência do sistema econômico ou para nível médio de bem estar no País. A percepção popular a este respeito é sábia, pois os dados originários do ENEM demonstram que a maior parte dos estudantes que concluem o ensino médio não iriam para a universidade, se tivessem assegurado um emprego. Por isto, há que se rediscutir a função e a expansão da universidade no quadro de um país pobre em um mundo globalizado. Nesta situação, a função da universidade continua a ser a de formar profissionais com a melhor qualificação possível, de preferência, de acordo com as demandas do mercado de trabalho e com as expectativas das pessoas com um diploma universitário. Cabe à universidade continuar produzindo e reproduzindo ciência e tecnologia, mesmo que a desativação de vários setores da economia diminua a demanda por serviços nesta área. O conhecimento científico e tecnológico não pode ser perdido. Consiste em um patrimônio nacional que, poderá voltar a ser intensamente mobilizado em outra situação econômica. Cabe, além disto às instituições universitárias brasileiras de boa qualidade a produção de uma elite cultural, científica e política que formule a crítica e aponte as soluções para os modelos econômicos e políticos disponíveis para um país como o Brasil

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