A individualização e a flexibilidade na construção de contextos educacionais inclusivos

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1 A individualização e a flexibilidade na construção de contextos educacionais inclusivos ARANHA, M.S.F.. A individualização e a flexibilidade na construção de contextos educacionais inclusivos. Resumo de Conferência Anais do VIII Congresso de Educação de Presidente Prudente, de julho de (Apresentação de Trabalho/Conferência ou palestra). É de geral conhecimento que as pessoas com deficiência têm sido segregadas e excluídas dos espaços comuns, inclusive o educacional, da vida na comunidade, praticamente em todos os períodos da história da humanidade. A promulgação, pela Organização das Nações Unidas, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), enriquecida pela revolução de idéias ocorrida no mundo ocidental a partir da década de 60 (século XX), na qual se ampliou internacionalmente o movimento de defesa desses direitos, veio constituir-se um elemento definitivo para a mudança desse panorama. O reconhecimento da dignidade e do valor inerentes a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis definiu, afirmativamente, novos espaços políticos e jurídicos a serem percorridos na busca da garantia de uma atenção cuidadosa e compromissada a todos os segmentos minoritários e excluídos, e dentre estes, o segmento populacional constituído pelas pessoas com deficiência. Ainda no âmbito internacional, outras Declarações especificamente voltadas a garantia, pelos países membros, dos direitos das pessoas com deficiência foram, subseqüentemente,

2 produzidas: Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes (O.N.U., 1975), Programa de Ação Mundial relativo às Pessoas com Deficiência (O.N.U.., 1982), Declaração e Programa de Ação de Viena(O.N.U., 1993), Normas sobre a Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência (O.N.U., 1993), Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade (O.N.U., 1994), Panama Commitment to Persons with disabilities in the american hemisphere (O.N.U., 1996) e a Declaração de Caracas (O.N.U., 2001). O Brasil, como país membro da O.N.U. participou da elaboração e/ou foi signatário de todos esses documentos, tendo assim se comprometido com o respeito ao conteúdo neles contido. Na América Latina, saiu à frente, tendo sido um dos primeiros países a reproduzir, em sua legislação, os princípios da Educação para Todos e a produzir documentos norteadores para a prática nacional do atendimento de pessoas com deficiência no sistema regular de ensino, consistentes com o conteúdo dos documentos norteadores de âmbito internacional. Assim, fez a opção política pelo reconhecimento da pessoa com deficiência como sujeito de direito. Na área educacional, estabeleceu legalmente, como dever do Estado, o ensino fundamental obrigatório e gratuito, o atendimento educacional especializado aos alunos com necessidades educacionais especiais, preferencialmente na rede regular de ensino e a Educação Especial como modalidade da educação escolar que permeia transversalmente todos os níveis e modalidades de ensino, constituindo-se processo flexível, dinâmico e individualizado (Constituição da República Federativa do Brasil, 1988, Estatuto da Criança e do Adolescente Lei No , 1990, Diretrizes e Bases da Educação Nacional Lei No , 1996, Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência Decreto 3.298, 1999, Plano Nacional de Educação Lei

3 No , 2001, Decreto Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência, 2001). Paralelamente à criação dos instrumentos e dispositivos que estabeleceram o amparo legal para a implementação de uma política social inclusiva, desenvolveu também documentos norteadores para mudanças nas práticas institucionais, tais como: Parâmetros Curriculares Nacionais Adaptações Curriculares (M.E.C., 1999), Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (M.E.C., 2001) e Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (M.E.C., 2001). Sabe-se que todo agrupamento humano é constituído de diversidade. Ignorar essa diversidade reduz as possibilidades de desenvolvimento e enriquecimento social, já que o reconhecimento e a convivência na diversidade promove, no mínimo, o desenvolvimento de padrões mais humanizados nas relações sociais. Assim, a consideração política dos alunos com necessidades educacionais especiais na organização do sistema público de ensino regular, aliada à retirada da Educação Especial da posição de sistema paralelo e não monitorado de ensino e sua inserção no contexto geral da Educação, veio contribuir com o conjunto de esforços, historicamente exigidos pela população brasileira, para combater as práticas da segregação e exclusão de segmentos minoritários. Entretanto, sabe-se que nenhum processo de transformação social se efetiva por decreto, embora a exigência legal estabeleça condições políticas e jurídicas de pressão para a busca de mudanças objetivas nas práticas educacionais. Assim, embora as decisões políticas e o desenvolvimento de exigências legais sejam determinantes dessas mudanças, é também inegável que provocaram grandes polêmicas, já que as leis não

4 apresentavam uma política de formulação clara, compreendida e aceita, no âmbito das escolas e da comunidade em geral. A não existência, até recentemente, de um plano norteador para o processo de mudança tem sido um fator que tem produzido grandes dificuldades operacionais, já que enquanto por um lado a legislação estabelecia e exigia mudanças na prática educacional, por outro, não orientava, com objetividade, a como promove-las. As reações da comunidade educacional às exigências contidas na legislação levaram o governo federal, através de seu Ministério da Educação, a envidar esforços, junto aos Estados da Federação e aos municípios, para sensibilizar e capacitar educadores para a atenção a alunos com necessidades educacionais especiais, na rede regular de ensino. Assim, a partir de 1995, têm sido promovidos diversos programas de sensibilização e de capacitação, tanto na modalidade presencial como à distância para educadores de todo o país; tem, também, sido produzido e distribuído material educativo e material didático adaptado, para diferentes áreas da atenção educacional a alunos com necessidades especiais. O Plano Nacional de Educação (Brasil, 2001) veio, então, explicitar com maior clareza as responsabilidades que competem à União, aos Estados e Distrito Federal e aos Municípios, quanto ao desenvolvimento de trabalho integrado, para implementação de sistemas educacionais que assegurem o acesso e a aprendizagem significativa a todos os alunos. Estabeleceu metas quantitativas a serem atingidas, gradativa e progressivamente, pelo sistema educacional brasileiro, no decorrer de dez anos. De maneira geral, define prazos para a criação e implementação das políticas educacionais, dos ajustes administrativos e pedagógicos que permitam a prevenção de deficiências e o ensino eficiente aos educandos com necessidades educacionais especiais, nas classes

5 regulares, bem como a previsão de implementação de centros especializados para o atendimento de pessoas com comprometimentos severos, em cada unidade da Federação. Estabelece, ainda, a determinação da articulação de parcerias com as demais áreas de atenção pública para responder às necessidades especiais de todos os educandos, a introdução de conteúdos disciplinares referentes às pessoas com necessidades especiais nos cursos que formam profissionais em áreas relevantes para o atendimento dessas necessidades, a adequação da formação inicial e de formação continuada de educadores para o ensino na diversidade. Em sua redação, define, para os dez anos seguintes, as diretrizes para a gestão e o financiamento da educação, as diretrizes e metas para cada nível e modalidade de ensino e as diretrizes e metas para a formação e valorização do magistério e demais profissionais da educação. Ainda no mesmo ano, logo em seguida, o Conselho Nacional de Educação aprovou, em seu Parecer No. 17/2001, o Relatório da Câmara de Educação Básica sobre as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. A redação deste documento veio explicitar o compromisso político nacional com a operacionalização de um sistema educacional que permita que todos os alunos, independentemente de classe, raça, gênero, sexo, características individuais ou necessidades educacionais especiais, possam aprender juntos, em uma escola de qualidade... (p. 12). O documento estabelece o que é competência de cada sistema de ensino (municipal, estadual e federal) nos diferentes aspectos que constituem a prática educacional. Assim, estabelece que, no âmbito político, é competência das instâncias político-administrativas superiores:

6 Conhecer a demanda (população que lhe cabe atender, no espaço geopolítico onde o sistema se encontra inserido) Assegurar a matrícula de todo e qualquer aluno, Planejar-se estrategicamente para responder às necessidades educacionais de todos os seus alunos, inclusive daqueles que apresentam necessidades educacionais especiais, Implementar, gradativamente, seu processo de ajuste às condições exigidas para a prática de uma educação de qualidade para todos, organizando-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais especiais nas classes comuns, Elaborar projetos pedagógicos orientados pela política de inclusão e pelo compromisso com a educação escolar desses alunos, Apoiar programas educativos e promover ações destinadas à capacitação de recursos humanos para atender às necessidades desses alunos, Garantir recursos financeiros e serviços pedagógicos especializados, para assegurar o desenvolvimento educacional dos alunos. No âmbito técnico-científico, o texto sinaliza a necessidade de formação dos professores para o ensino na diversidade, bem como para o desenvolvimento de trabalho de equipe, como fator essencial para a efetivação da inclusão. No âmbito pedagógico, o documento enfatiza o foco principal da prática educacional: em vez de focalizar a deficiência da pessoa, enfatiza o ensino e a escola, bem como as formas e condições de aprendizagem; em vez de procurar, no aluno, a origem de um problema, define-se pelo tipo de resposta educativa e de recursos e apoios que a escola deve proporcionar-lhe para que obtenha sucesso escolar; por fim, em vez de pressupor que o aluno deva ajustar-se a padrões de normalidade para aprender, aponta para a escola o desafio de ajustar-se para atender à diversidade de seus alunos.

7 Aponta, também, que o Projeto Pedagógico deve seguir as mesmas diretrizes já traçadas pelo Conselho Nacional de Educação para os diferentes níveis de escolaridade, atendendo ao princípio da flexibilização, para que o acesso ao currículo seja adequado às condições dos discentes, respeitando seu caminhar próprio e favorecendo seu progresso escolar. Trata, ainda, da necessidade de se manter um processo contínuo de avaliação compreensiva, como ferramenta para acompanhamento do desenvolvimento e da aprendizagem dos alunos, norteadora dos ajustes a serem efetivados no planejamento do ensino. O texto estabelece que cabe a cada unidade escolar diagnosticar sua realidade educacional e implementar as alternativas de serviços e a sistemática de funcionamento de tais serviços, seja considerando as já existentes e utilizadas pela comunidade escolar, como também criando novas, sempre fundamentada no conjunto de necessidades educacionais especiais encontradas no alunado. No âmbito administrativo, estabelece que cabe aos sistemas de ensino a criação e implementação de um setor responsável pela educação especial, dotado de recursos humanos, materiais e financeiros que viabilizem e dêem sustentação ao processo de construção da educação inclusiva. Além disso, explicita que cabe aos gestores educacionais e escolares assegurar a acessibilidade dos alunos ao espaço físico e ao conhecimento, através da provisão dos recursos físicos, humanos, metodológicos e materiais necessários. A realidade nos tem mostrado que estas recomendações não vêm sendo aproveitadas e seguidas. Na grande maioria dos casos, seja em sistemas educacionais estaduais, seja em municipais, a prática vem se caracterizando pela matrícula de alunos com necessidades especiais em classes regulares, ficando por conta do professor administrar, sozinho, o ensino na diversidade.

8 Ora, sabe-se que o fato de se matricular alunos com deficiência em classes regulares, por si só, não faz de uma classe regular uma classe inclusiva. A prática pedagógica inclusiva somente estará implementada quando cada aluno for reconhecido em sua individualidade, suas necessidades educacionais, e a partir disso, receber respostas educacionais e educativas que atendam ao conjunto de suas peculiaridades, favorecendo a efetivação de uma educação significativa e funcional. Sabe-se que a educação tem por função promover o acesso de todos ao conhecimento historicamente produzido e sistematizado pela humanidade e formar cidadãos livres, conscientes e responsáveis. Sabe-se, também, que formar cidadãos implica na promoção: 1. da utilização do conhecimento sistematizado (científico) para a compreensão da realidade, 2. da participação no debate social de idéias e 3. da participação nos processos decisórios da sociedade. Ora, um ensino somente será eficiente e bem sucedido quando garantir a todos os alunos, inclusive aos que têm necessidades educacionais especiais, essas competências e habilidades. Esse processo culmina na prática educativa da sala de aula, mas depende de providências que envolvem ações das diferentes instâncias da prática educacional: da Secretaria da Educação, da Direção da Unidade Escolar, da Equipe Técnica, do professor, da família e da comunidade. Cabe à Secretaria da Educação: Cabe à Direção da Unidade: Cabe à Equipe Técnica: Cabe ao Professor: O Estudo de Caso e o Plano Individualizado de Adequações Curriculares (P.I.A.P.) serão, no caso dos alunos com necessidades

9 educacionais especiais, os elementos norteadores da prática de ensino. O Estudo de Caso deverá ser efetivado por um grupo de pessoas denominado Equipe de Apoio Pedagógico, constituído pelo professor da classe regular, por um professor especialista, por um membro da equipe técnica e por um membro interessado da família. Ele tem por objetivo identificar que conhecimentos, habilidades e competências o aluno tem e quais deverá desenvolver, tendo sempre como parâmetro suas necessidades para uma vida o mais autônoma e independente possível, especialmente no caso da falta dos pais ou de familiares que por ele possam zelar. A partir das informações coletadas e caracterizadas no Estudo de Caso, deve-se elaborar o P.I.A.P., documento que deverá nortear o ensino a ser oferecido para esse aluno em toda sua caminhada pelos diferentes níveis educacionais. Deve-se lembrar que é recomendada a matrícula do aluno com necessidades especiais em séries que atendam pessoas que se encontram na mesma faixa etária em que ele se encontra. O(s) professor(es) dos diferentes componentes curriculares deverá(ão) adequar o trato dos conteúdos aos objetivos educacionais constantes do P.I.A.P. desse aluno. Em resumo, o sistema todo precisa adotar as providências necessárias para atender às necessidades especiais dos alunos que as apresentarem, devendo cada instância executar aquilo que é de sua competência. Somente assim caminhar-se-á com eficácia no processo de transformação do sistema educacional brasileiro, com conseqüências para a própria transformação de nossa sociedade, na direção de um coletivo mais justo e digno na convivência social.

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