Conclusões. Antecedentes

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1 Conclusões SIMPÓSIO DO ACTRAV «Celebração do 60º Aniversário da Convenção Nº. 98: O direito de organização e negociação colectiva no século XXI Genebra, de Outubro de 2009 Antecedentes A Constituição da OIT afirma a obrigação solene da Organização Internacional do Trabalho de aprofundar entre as nações do mundo programas que conduzam ao reconhecimento efectivo do direito à negociação colectiva. A Declaração sobre Justiça Social para uma Globalização Justa declara que: respeitando, promovendo e realizando os princípios e direitos fundamentais do trabalho, de particular relevância como direitos e como condições capacitantes que são necessárias para a concretização plena de todos os objectivos estratégicos, salientando: Que a liberdade de associação e o reconhecimento efectivo do direito à negociação colectiva são de particular importância para que se atinjam os quatros objectivos estratégicos; e Que a violação dos princípios e direitos fundamentais do trabalho não pode ser evocada ou de qualquer outro modo utilizada como vantagem comparativa legítima e que as normas laborais não devem ser utilizadas para fins de proteccionismo nas trocas comerciais. A Declaração sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho declara que: Todos os Membros, mesmo os que não tenham ratificado as Convenções em causa, têm uma obrigação, decorrente do próprio facto de serem membros da Organização, de respeitarem, promoverem e realizarem, de boa fé e de acordo com a Constituição, os princípios relativos aos direitos fundamentais que são objecto dessas Convenções, designadamente: (a) Liberdade de associação e reconhecimento efectivo do direito à negociação colectiva;

2 A Declaração de Princípios Tripartida sobre as Empresas Multinacionais e a Política Social (Declaração MNE) declara que: As empresas multinacionais, no contexto de negociações de boa fé com os representantes dos trabalhadores sobre condições de emprego, ou quando os trabalhadores exercerem o direito de se organizarem, não devem recorrer à ameaça de utilizarem a capacidade de transferirem do país em causa, no todo em parte, uma unidade operacional, com o intuito de influenciarem de forma injusta essas negociações ou impedirem o exercício do direito de organização; nem devem também transferir trabalhadores de filiais em países estrangeiros, com a finalidade de prejudicar negociações de boa fé com os representantes dos trabalhadores ou o exercício dos direitos que os trabalhadores têm de se organizarem. (...) As empresas multinacionais devem facultar aos representantes dos trabalhadores as informações necessárias a negociações significativas com a entidade envolvida e, sempre que isso esteja em conformidade com a lei e a prática local, devem também fornecer informações que lhes permitam obter uma avaliação verdadeira e justa do desempenho da entidade ou, quando adequado, da empresa no seu conjunto. O Pacto Global pelo Emprego afirma que O respeito pelos princípios e direitos fundamentais do trabalho é de importância crítica para a dignidade humana. É de importância crítica também para a recuperação e o desenvolvimento. Consequentemente, é necessário aumentar: ( ) o respeito pela liberdade de associação, o direito de organização e o reconhecimento efectivo do direito à negociação colectiva como mecanismos conducentes a um diálogo social produtivo em períodos de maior tensão social, tanto nas economias formais como informais. Recordando o dever da OIT de defender e promover a negociação colectiva, o Simpósio concentrou a sua discussão na forma de aumentar a capacidade da OIT para cumprir o seu mandato constitucional e no papel que os sindicatos podem desempenhar na defesa, no fortalecimento e na ampliação deste importante direito dos trabalhadores.

3 Todos os constituintes, ao decidirem ser membros da OIT, se empenharam no consenso de que, em prol de bons resultados económicos e sociais, as relações industriais devem basearse na confiança e no respeito mútuo, cuja chave reside na negociação colectiva. As relações industriais são complexas, já que se baseiam, simultaneamente, em interesses comuns e conflitos de interesses, pelo que não se prendem apenas com questões económicas, como a eficiência e a distribuição, mas também com o poder, a dignidade e o respeito, o que torna estas relações complicadas e uma área de debate e mudança constantes: de facto, a gestão da mudança é, sem dúvida, um dos pontos fortes da negociação colectiva. A negociação colectiva ajuda a desenvolver regras justas para o jogo, em vez de se jogar um jogo sem regras. Protege os trabalhadores de abusos do poder económico. Promover a negociação colectiva é mais do que uma mera questão de consciencialização é uma questão de instituições e regras efectivas: por conseguinte, os governos têm também um papel essencial a desempenhar na criação de um ambiente capacitante para os parceiros sociais poderem negociar colectivamente. Foi por isso que os participantes do Simpósio do ACTRAV resolveram debruçar-se, através das respectivas organizações, na sua acção internacional conjunta e, através do ACTRAV e da OIT em conjunto, no reforço das seguintes áreas de trabalho e acção: 1. Direitos de negociação colectiva a. O pleno respeito pelo direito de organização e negociação colectiva, incluindo o direito de greve e protecção contra a discriminação anti-sindical, é a condição prévia para a realização da democracia no local de trabalho e na sociedade; b. A Declaração sobre Justiça Social (2008) reconheceu a liberdade de associação e a negociação colectiva como direitos capacitantes e prérequisitos para se atingirem os 4 objectivos estratégicos da Agenda para o Trabalho Digno; c. A capacidade dos sindicatos para realizar negociações colectivas constitui uma ferramenta central para a melhoria das condições de trabalho e a

4 resolução de litígios laborais e, também, para se atingir a justiça social, o trabalho digno, o desenvolvimento económico e a estabilidade nas sociedades; d. Isto requer a ratificação e implantação das Convenções da OIT relevantes (87, 98, 94, 144, 135, , 158) e a promoção das Recomendações que as acompanham e que fortalecem a representação dos trabalhadores e a negociação colectiva; e. O pleno respeito e a implantação dos direitos dos trabalhadores requerem inspecções laborais, tribunais de trabalho e uma administração do trabalho eficazes; f. Sindicatos fortes, representativos, independentes e democráticos, assim como organizações representativas de entidades patronais, empenhados na negociação colectiva, fomentam sistemas eficazes de relações industriais e favorecem políticas e estruturas tripartidas igualmente eficazes; g. O acesso dos sindicatos a informações económicas e financeiras é um elemento essencial da negociação colectiva de boa fé; h. A igualdade de direitos e a não discriminação (C. 100, 111, 97, 143) são elementos importantes a atingir, sustentam condições de trabalho justas para todos e previnem a erosão da negociação colectiva. 2. Argumentos económicos pela negociação colectiva a. A negociação colectiva, principalmente a nível nacional, sectorial e interprofissional, é o elemento essencial de uma estratégia global para reduzir as desigualdades, elevar os salários nas sociedades e melhorar as condições de trabalho e de vida; b. Como salientado no Pacto Global pelo Emprego, a negociação colectiva é essencial para uma resposta eficaz e justa à crise actual; c. A promoção do alargamento do âmbito da negociação colectiva é uma ferramenta essencial para se atingir uma recuperação da crise conduzida

5 pelos salários. Os salários mínimos estatuídos ou negociados são elementos importantes desta estratégia; d. Serviços públicos de qualidade e uma segurança social abrangente incluindo um rendimento mínimo social são elementos complementares da negociação colectiva e mais fáceis de concretizar quando os sindicatos são fortes; e. A procura pública deve ser utilizada como instrumento para promover o trabalho digno, o respeito pelos direitos fundamentais do trabalho, normas laborais internacionais e o reforço das negociações colectivas, sustentando como mínimo a prevalência salarial e as condições de trabalho; f. O sistema financeiro tem de servir os trabalhadores e a economia real. As instituições financeiras, em particular as multilaterais e as internacionais, devem ser encorajadas a incluir referências às normas da OIT nas suas práticas de crédito. 3. Trabalho precário e economia informal a. Enquanto é cada vez maior o número de países que garantem formalmente direitos laborais nucleares, é cada vez menor o número de trabalhadores capazes de exercer esses direitos, devido ao aumento do trabalho precário e do emprego informal; b. A erosão da relação de emprego está fundamentalmente a negar aos trabalhadores a possibilidade de exercerem os seus direitos e constitui uma das principais causas de dificuldade no alargamento do âmbito da negociação colectiva. A Recomendação 198 constitui uma orientação política para garantir que nenhum trabalhador seja privado dos seus direitos laborais; c. O emprego precário não é uma necessidade económica, mas sim uma estratégia para privar os trabalhadores dos seus direitos laborais, corroer a negociação colectiva e enfraquecer os sindicatos;

6 d. A extensão dos contratos colectivos a formas de trabalho precárias é essencial para melhorar as condições de trabalho e construir um movimento sindical mais forte e abrangente; e. Os sindicatos também têm de promover políticas e acções para eliminar as dificuldades judiciais e os obstáculos práticos que limitam e, muitas vezes, excluem a possibilidade de os trabalhadores da economia informal recorrerem à liberdade de associação e à negociação colectiva. 4. Relações Industriais Internacionais a. A globalização requer a internacionalização da negociação colectiva e das relações industriais. Os Acordos de Enquadramento Internacional e os Acordos de Enquadramento Global são instrumentos essenciais para o desenvolvimento de relações industriais globais e constituem também parte da estratégia de alargamento do espaço para organização e negociação colectiva a nível nacional; b. Para que isto seja possível, os sindicatos têm de reforçar a solidariedade internacional, incluindo por uma acção de solidariedade industrial internacional; c. Os códigos de conduta falharam na promoção da liberdade de associação e negociação colectiva; d. Os modelos de negociação colectiva internacional só poderão ser eficazes se for estabelecida uma interacção entre a negociação a nível global e a negociação nacional/sectorial. 5. Acção dos Sindicatos a. O confronto destes desafios políticos depende do poder de mobilização e organização dos sindicatos; b. A ratificação das Convenções depende essencialmente da influência dos sindicatos a nível nacional, coordenada com a acção internacional;

7 c. Os sindicatos devem fazer pleno uso das Convenções e Recomendações para resolverem questões nacionais, incluindo um melhor acompanhamento até ao trabalho dos mecanismos de vigilância da OIT; d. Há que desenvolver abordagens inovadoras e inclusivas de organização e negociação colectiva, tanto para alcançar e abranger os trabalhadores em trabalho precário, como os que estão na economia informal; e. Para aumentar a abrangência e o impacto da negociação colectiva que conduz a uma distribuição mais justa dos rendimentos e da riqueza, é necessário reforçar a negociação colectiva sectorial e centralizada; f. As empresas multinacionais que dirigem cadeias de fornecimento globais têm de se envolver com os sindicatos a nível nacional e internacional, em estreita colaboração entre as estruturas nacionais e sectoriais. Devem recorrer a instrumentos como acordos de enquadramento global, programas dirigidos e acções de solidariedade internacional; g. Para enfrentar o desafio da globalização e promover a liberdade de associação e negociação colectiva, as acções devem ser alargadas a áreas como transacções comerciais, investimento de intervenção e procura internacional; h. A liberdade de associação e a negociação colectiva devem ser utilizadas como instrumentos para promover a igualdade de direitos e a não discriminação. 6. Acção da OIT No sentido de promover a negociação colectiva, a OIT tem de se tornar um centro de excelência neste assunto e assistir os membros no confronto dos desafios políticos atrás indicados. Há que empreender esforços em toda a organização, sobretudo para a implementação das seguintes acções:

8 Promover activamente a ratificação e implementação das convenções (87, 98, 94, 135, 144, 151,154, 158) e recomendações (143, 159, 163, 193, 198) relevantes da OIT, tendo em conta os comentários dos órgãos de supervisão da OIT; Promover formas de negociação colectiva que elevem a quota salarial no PIB e reduzam a desigualdade de salários; Fornecer dados completos sobre tendência salarial, densidade sindical e cobertura da negociação colectiva (tanto a nível nacional como sectorial), processos, instituições e resultados finais; Produzir uma publicação regular de proa sobre as tendências mais importantes da negociação colectiva e da eficiência da economia dinâmica, distribuição justa do rendimento, igualdade, não discriminação, desenvolvimento de competências, saúde e segurança, relação no emprego e análise económica das empresas; Facultar assistência técnica e saberes sobre políticas abrangentes para criar um ambiente conducente ao aumento da cobertura e ampliar o conteúdo da negociação colectiva; Alargar ainda mais os esforços para implicar as empresas multinacionais, no sentido do pleno respeito pelos direitos laborais e a negociação colectiva ao longo de todo o percurso das cadeias de fornecimento globais. A Declaração MNE da OIT fornece orientações relevantes a este respeito. Podiam criar-se sinergias com as Orientações da OCDE e os pontos de contacto nacionais. Deveriam considerar-se novos mecanismos de seguimento da Declaração MNE da OIT; Fornecer orientação sobre a concepção e o nível de políticas de salários e condições de trabalho justas; Considerar a necessidade de novas normas internacionais relativas a questões como protecção jurídica e ampliação da cobertura da negociação colectiva, incluindo salários, aos trabalhadores em situações precárias e formas de trabalho atípicas; Dar prioridade à cooperação técnica e programas de formação a OIT, tendo em vista reforçar a capacidade do sindicato para a negociação colectiva e para promover a ratificação e implementação de normas laborais internacionais; Fomentar a colaboração entre a Sede do ACTRAV e Turim, para traduzir o importante contributo deste encontro em actividades-padrão que deveriam ser replicadas nas

9 regiões e diversas ferramentas, no sentido de implementar esta estratégia, tendo em devida conta as necessidades específicas do movimento laboral. Genebra, 15 de Outubro de 2009

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