TINHA UM POEMA NA PROVA DE INGLES DO VESTIBULAR DA UNICAMP Josalba Ramalho Vieira(UFSC) Maria Viviane Costa Pinto(UNICAMP)'

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1 TINHA UM POEMA NA PROVA DE INGLES DO VESTIBULAR DA UNICAMP Josalba Ramalho Vieira(UFSC) Maria Viviane Costa Pinto(UNICAMP)' A prova de do vestibular da Unicamp em 1993 apresentou urnpoema de Emily Dickinson como urndos textos para leitura. Os professores de cursinho, como sempre, publicaram suas crfticas a prova. Uma delas nos chamou aten9ao em especial, porque se referia ao poema como sendo, alem de muito facil, "super batido no 22 grau"(l). A partir da leitura deste comentario, solicitamos a Coordena9ao da Comissao Permanente para os Vestibulares da Unicamp(CONVEST) acesso aos dados referentes a esta questao. A expectativa da Banca Examinadora em rela9ao ao poema era de 70% de acertos. Urn texto "super batido", uma expectativa bastante otimista. Como sera que os alunos responderam a isso? A questao de numero 25 estava elaborada da seguinte forma : "Esse pequeno poema de Emily Dickinson( ) apresenta duas maneiras de se encarar as palavras. Explicite-as, indicando qual e a da autora." Logo abaixo aparecia 0 poema : Some say. I say it just Begins to live That day. Dentro de urn total de mais de nove mil candidatos, 0 resultado percentual geral relativo a questao 25 foi : notas cinco notas urn a quatro notas zero respostas em branco 34.5% 22.5% 25% 18%

2 1447 A questao 25 apresentou 0 mais alto 1ndice de respostas em branco e urndos mais altos de notas zero em toda a prova de ingles. Esse fato surpreende mais do que 0 baixo percentual de notas m~ximas, ou seja, notas cinco. Tiveram nota cinco respostas como, por exemplo : a) "Para alguns, as palavras morrem quando sac pronunciadas. Para a autora, em outra visao, 0 falar e que d~ vida as palab) "0 poema de Emily Dickinson apresenta duas maneiras de se encarar as palavras : elas perdem seu significado( 'morrem') quando sao ditas ou comegam a significar algo(comegam a 'viver') a partir do dia em que sao usadas. Emily Dickinson acredita na segunda maneira"; c) "Uma das maneiras e de que a palavra est~ ou e morta.a outra maneira e de que.a palavra comega a viver quando ela e dita". Nas respostas aciam os candidatos explicitaram 1) as duas maneiras de se encarar a palavra, 2) indicaram a posigao da autora, e 3) relacionaram a enunciagao, 0 dizer, com a morte ou vida das palavras. E bastante apropriado observar, nessa fragmentagao da leitura,a necessidade inevit~vel de tornar a resposta afer1vel( afinal, sao mais de nove mil respostas). Nao discutiremos aqui os criterios de avaliaagao usados pela Banca Corretora, nem os tipos de respostas a que foram atribu1das notas. Interessam-nos principalmente os espagos deixados em branco -- que fizeram a diferenga nessa questao. Segundo Geraldi(93:170), e muito frequente que 0 aluno em geral, antes de ler urn texto, leia primeiro as perguntas que se referem a"ele, " para encontrar alguma razao para o esforgo que farao em busca das respostas que satisfarao nao a si, mas a aferigao de leitura que livro didatico e professor podem vir a fazer". Neste caso especifico do Vestibular, a situagao torna-se mais critica, porque do seu esforgo

3 1448 depende 0 espago na Universidade(esse sim, n~o pode ser deixado em branco). Convem perguntar aqui que vis~o de interpretag~o fundamenta essa pratica. Numa vis~o mais tradicional e corrente de interpretag~o, todo texto que algum leitor se proponha a esclarecer cai sob uma nuvem. "0 texto e opaco", esta e a premissa tacita da interpretag~o. As palavras se reprimem e 0 leitor sera aque- Ie que as libertara. Ele recupera do texto duas realidades : uma realidade externa, aquilo a que 0 texto se refere, a realidade imitada, reduzindo 0 texto ao status de causa material do que se presume deva ser imitado na realidade; ou recupera do texto uma realidade interna, a intengao do autor, um querer dizer, e 0 texto torna-se uma metafora do pensamento por tras das palavras, que esperam apenas a leitura, a interpretagao que as trara a luz. As propostas de ensino de leitura nas escolas, diz Maria Jose Coracini(ms: s/d), parecem privilegiar "0 texto como um objeto -- um todo que tem um fim em si mesmo". Coracini acredita que essa "super-valorizagao do texto leva ao nao-questionamento do mesmo, a aceitagao do que se acredita ser 0 conteudo de uma verdade irrefutavel". Esse tipo de ensino que toma o texto como ponto de partida inviabiliza a "leiturizagao,no sentido de Jean Foucambert(93), na qual cada aluno procura no texto respostas para as questoes que the dizem respeito. A leiturizagao parte do aluno, do seu querer saber. "E e este querer saber mais que", segundo Geraldi,"impuisiona a busca de respostas dadas por outros em textos que vamos buscar, que vamos ler(93:175). Pode-se especular que a maioria dos candidatos ao Vestibular nao estejam habituados a procedimentos de leiturizagao, mas de posse das teorias tradicionais de leitura, eles deveriam estar aptos, na pior das hipoteses, a preencher 0 espago em branco destinado as suas respostas. A pergunta da prova parece nao deixar margem a duvidas : ha duas maneiras de se encarar as palavras e uma delas e a da autora do poema. No

4 entanto, 0 texto(o poema) parece continuar opaco, ele resiste, alguma coisa ali faz "barreira". Poderia ser uma questao de simples desconhecimento de lingua inglesa? Nao parece ser esse 0 caso; a facilidade da questao a que se referiam os professores de cursinhos, devia-se exatamente a uma, digamos, simplicidade de vocabulario. Urn dos jornais baseia sua critica neste fato, e diz que 0 grau do Vestibular vai do impossivel ao "banal", acusando a presenga do poema como fator para este desequilibrio, pois era urnpoema "super batido". Nao, a barreira nao era 0 vocabulario, pois foram muitos os casos de alunos, que preencheram todos os outros espagos de respostas demonstrando possuir urnborn dominio da lingua inglesa, mas que deixaram exatamente essa questao em branco. Foram esses os casos que para nos fizeram questao. Onde afinal estava o problema? Considerando que as praticas vigentes de urnmodo geral privilegiam 0 texto como urn todo em si, que conteudo, que intengao foi essa que nao se encontrou? Se a leitura aqui pressupoe alguem dizendo algo a alguem, onde se rompe 0 circuito da comunicagao? Por que estrategias conhecidas, como a predigao, nao puderam ser usadas neste caso? 0 texto poetico faz uma diferenga, que parece ter se disseminado para alem do espago em branco. Talvez se no ensino da leitura fosse "vivenciada a obra literaria enquanto experiencia transformadora e nao simplesmente como assimilagao de mecanismos codificados de escuta e apreciagao"(2) esse espago em branco fosse preenchido. Esse branco desafia, mas voltemos ainda urnpouco as respostas que puderam ser aferidas para ver de que outras maneiras 0 texto poetico foi ignorado. Selecionamos as questoes 25 de provas que no resultado geral obtiveram boa classificagao. Foram comuns respostas do tipo a) " As palavras estao mortas, entao voce deve falar pouco na vida," a autora e muito pessimista"; ou

5 1450 b) " A palavra e coisa viva, e so comegar os dias de born humor e tentar sempre ser feliz nessa vida". Parece que as respostas acima demonstram que, por se tratar de urnpoema, 0 leitor tern0 direito de devanear para preencher 0 espago em branco da maneira que the parece "poetica". Havia tambem recados como os seguintes : a) "As duas maneiras de se encarar as palavras e ouvindo as palavras ou nao ouvindo-as, mas 0 que a autora quer mesmo e confundir a cabega das pessoas"; ou como 0 exemplo b) que vem sob a "forma" que 0 aluno acredita ser poetica: b) " 0 poema ternuma forma para se dar trabalho, para eu ler inclusive, para eu traduzir infelizmente". Houve uma resposta que ocorreu apenas 28 vezes, mas que nem por isso torna 0 fato menos curioso. A resposta foi : "0 poema pode ser lido de baixo para cima". Essa resposta se refere a uma questao da Vestibular do ano anterior, que tambem incidia sobre urnpoema. Aqui 0 retorno "de urn acontecimento discursivo nao se da sem as marcas de sua presenga em discursos anteriores" (Geraldi, 93:11). Ele volta como modelo, volta como a resposta ao poema do ana anterior(3). Como sera que esses candidatos foram ensinados a ignorar a poesia? Mesmo entre a maoir parte das respostas nota cinco nao houve espago para 0 desenvolvimento das metoforas do poe~ ma. Essa ausencia nao invalida as respostas, pois elas foram ao encontro do que a ordem estabelecida desejava -- foram respostas "politicamente corretas". Ha urn espago em branco na questao 25. Para preenche-lo, o aluno teria que se colocar no lugar da incerteza da poesia, mas 0 ordem estabelecida nao deixa espago para 0 0 incerto, para 0 indecid!vel. Esta espago em branco entre 0 literal e o metaforico pode significar urnespago em branco dentro da propria possibilidade de significagao.

6 (1) Diario Popular, Sao Paulo, 14/01/93. (2) A. Osakabe. Apud W. Geraldi(93),p.131. (3) 0 poema do and anterior foi escrito por Roger McGough. Havia uma ilustra9ao de Tony Blunbell de um jacare com a cauda em forma de uma escada rolante. "Allivator" : at the top. then eat you his back ride upon let you he will in a shop see one if you allivator Beware the CORACINI, M.J. "Leitura: decodifica9ao, processo discursivo...?", Mimeo, sem data. (Porteriormente publicado nos Anais do Gel de 1989). FOUCAMBERT, Jj "Mais que alfabetizar, agora e preciso 'leiturizar"', entrevista a Noya Escola, mar90,1993. GERALDI, W. Portos de Passagem, Sao Paulo: Martins Fontes,1993.

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