Cartografias dos estudos culturais

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1 Maria Immacolata Vassallo de Lopes Ana Carolina D. Escosteguy é doutora em Ciências da Comunicação (USP, 2000), professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Faculdade de Comunicação Social (FAMECOS) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), além de pesquisadora do CNPq nas áreas de Estudos Culturais & Comunicação, Estudos de recepção e relações de gênero e Teorias da Comunicação. Este livro traça cartografias intelectuais significativas no desenvolvimento dos estudos culturais. Na Inglaterra, pólo de origem dessa perspectiva, a trajetória de Stuart Hall é explorada. Na América Latina, os itinerários de Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini evidenciam a configuração dessa abordagem no espaço latino-americano. Esta leitura dos estudos culturais diz respeito a nós, latino-americanos, e a eterna discussão de nossas particularidades em relação aos Outros Cartografias dos estudos culturais uma versªo latino-americana - Ana Carolina D. Escosteguy e por meio da qual são revelados traços inéditos da contribuição latino-americana aos estudos culturais e de comunicação. Esta é a maneira encontrada pela autora para demonstrar que a atividade da ciência não é imune ao trabalho da história e, de forma original, nos traz o confronto entre o nós e o eles, o local e o internacional, marcas do cenário contemporâneo, para dentro dos atuais estudos da cultura e da comunicação. Estudos Culturais Cartografias dos estudos culturais uma versão latino-americana Ana Carolina D. Escosteguy O cenário contemporâneo, identificado como globalização, vem repor questões já clássicas nos estudos sociais, como a identidade cultural, ao mesmo tempo em que desafia os particularismos, a diversidade e a possibilidade de convivência num mundo cada vez mais entrelaçado e, paradoxalmente, mais desigual. A ambivalência que emerge dessa realidade exige dos estudiosos e pesquisadores tanto a crítica dos tradicionais procedimentos de análise como a criação de novos instrumentos de compreensão. É dentro desse pano de fundo que primeiramente deve ser visto este livro de Ana Carolina D. Escosteguy. Dizendo de outro modo, ele é naturalmente contemporâneo. Produto de uma tese de doutorado realizada sobre fontes originais, esta obra traz uma discussão teórica densa e esclarecedora sobre o encontro de duas tradições intelectuais a dos estudos culturais britânicos e a dos estudos culturais latino-americanos. A autora não só percorre a história dessas duas perspectivas, o que a faz deter nas suas especificidades e identidades, bem como se detém em seus vasos comunicantes. Mas, creio que a sua grande contribuição está no verdadeiro trabalho de garimpagem bibliográfica que possibilita uma síntese explicativa raramente oferecida antes ao público brasileiro e que vai da origem do projeto dos estudos culturais britânicos ao seu processo de internacionalização. Essa é a cartografia que dá título ao livro

2 Cartografias dos estudos culturais Uma versão latino-americana

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4 Ana Carolina D. Escosteguy Cartografias dos estudos culturais Uma versão latino-americana Edição on-line, ampliada

5 Copyright 2001 Ana Carolina D. Escosteguy COORDENADOR DA COLEÇÃO ESTUDOS CULTURAIS Tomaz Tadeu da Silva CAPA Jairo Alvarenga Fonseca (Mandala Massa corrida sobre madeira) EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Waldênia Alvarenga Santos Ataíde REVISÃO Erick Ramalho Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. AUTÊNTICA EDITORA LTDA. Rua Aimorés, 981, 8º andar. Funcionários Belo Horizonte. MG Tel.: (55 31) TELEVENDAS: Escosteguy, Ana Carolina D. D256e Cartografias dos estudos culturais Uma versão latinoamericana/ Ana Carolina D. Escosteguy ed. on-line Belo Horizonte: Autêntica, p. (Coleção Estudos Culturais, 8) ISBN Estudos Culturais. 2. Antropologia. 3. Cultura-América Latina. I. Título. II Série. CDU (8=6)

6 À Elisa, minha filha, que aos três meses iniciou esta jornada comigo.

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8 Agradeço à Maria Immacolata Vassalo Lopes, Francisco R. Rüdiger, Nilda Jacks, Eliana Pibernat Antonini, Dóris Fagundes Haussen, Maria Amélia Mascena, Cláudia Peixoto de Moura e José Eduardo Utzig, pelas variadas formas de colaboração, estímulo e afeto. Gostaria ainda de mencionar as observações de Silvia Helena Simões Borelli, Mauro Wilton de Sousa, Antônio Flávio Pierucci e Octavio Ianni que constituíram a banca que aprovou esta pesquisa como tese de doutoramento na Universidade de São Paulo, uma fonte valiosa de incentivo para revisar o texto original e publicar este livro.

9 A pesquisa que deu origem a este livro recebeu apoio da CAPES (Bolsa de Doutoramento e Doutorado-sanduíche) e PUCRS (horas-pesquisa e auxílio às viagens).

10 Sumário Prefácio à edição on-line... Introdução... Estudos culturais: uma perspectiva histórica... Uma narrativa possível ou a versão britânica... A construção de uma narrativa ou uma versão latino-americana... De ideologia para hegemonia... Ideologia como dominação... O aporte gramsciano O popular como opção política... Formas de engajamento intelectual... A título de conclusão Notas Bibliografia Apêndice Depoimento de David Morley... Depoimento de James Curran... Depoimento de Nick Couldry Identidades culturais: uma discussão em andamento 145 Identidade como diáspora Identidade como descentramento Identidade como hibridismo

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12 PREFÁCIO À EDIÇÃO ON-LINE Cartografias dos estudos culturais uma versão latino-americana, em edição esgotada já há algum tempo, passa a estar disponível, em acesso aberto, no formato eletrônico. Embora não fosse o foco central da obra, ela revela, através da explanação dos seus eixos teóricos a questão da ideologia, da hegemonia, da problemática do popular e das identidades, que o corpo teórico-metodológico associado aos estudos culturais 1, configurado a partir do final dos anos 50, na Inglaterra, passou por alguns desdobramentos. Portanto, das reflexões embrionárias de sua formação, em especial sustentadas por Richard Hoggart, Raymond Williams e E. P. Thompson, à prática contemporânea dos estudos culturais da virada do século XX para XXI, época do lançamento do livro, observam-se alterações em relação a posições teóricas, metodológicas e até mesmo políticas. Passados 10 anos do primeiro lançamento dessa obra, pode-se dizer que tais transformações se exacerbaram. É claro que esta não é uma característica exclusiva dos estudos culturais, ao contrário, estes sofrem o que Ianni 2 (2003, p.331) já problematizou, identificando que o processo de globalização envolve uma ruptura de amplas proporções, abalando mais ou menos profundamente os quadros sociais e mentais de referência (...) trata[ndo-se] de uma ruptura simultaneamente histórica e epistemológica. No que diz respeito aos estudos culturais, apenas algumas dessas mudanças foram mapeadas e circulam no meio acadêmico através de textos que tomam a própria tradição como objeto de análise 3. Logo, hoje, para fazer juz ao título de Cartografias dos estudos culturais, os capítulos deveriam ser reformulados, acrescentando-se informações novas e atualizando aquelas defasadas. A produção intelectual e as discussões sobre os estudos culturais, no meio acadêmico nacional, latino-americano e anglo-americano, cresceram num ritmo galopante no último decênio 4. Fenômeno reconhecido, por exemplo, por Roberto Follari 5 (2003, p. 4): 11

13 o peso dos estudos culturais é tal na América Latina que se faz indispensável tomar seu desenvolvimento como objeto. Isto é, chegou o momento da consciência teórica sobre o fenônemo dos estudos culturais, fruto precisamente de seu forte desenvolvimento. Nas nossas fronteiras, isso foi reforçado sobretudo pela circulação mais ágil de bibliografia em língua inglesa, mas também pela tradução de obras importantes 6 e, claro, pela formação de pesquisadores que se vincularam a esse programa de pesquisa. De imediato, essa expansão exponencial de produção intelectual demandaria o acréscimo de capítulos, a reestruturação e ampliação do livro. Por um lado, os eixos-teóricos se desdobrariam em objetos de estudo, tais como a problemática da recepção, das culturas juvenis, da cibercultura via contribuições do ciberfeminismo, da crítica feminista aos estudos de mídia, entre os mais prementes. De outro, as próprias trajetórias intelectuais exploradas Stuart Hall, Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini deveriam ser continuadas, dado que esses autores permanecem atuantes na cena intelectual. Também outros itinerários mereceriam ser incorporados para dar conta de uma prática em circunstâncias distintas, como já mencionei, tanto no cenário latino-americano quanto anglo-americano. Como resultado final teríamos uma nova obra. O que se pretende com esta edição não é isso. Creio que apesar do que foi dito, o conteúdo original do texto ainda tem uma função ao recapitular a matéria e preparar o leitor para acompanhar com alguma propriedade essa produção mais recente. Persistindo a finalidade didática de apresentar uma abordagem introdutória, publica-se novamente o texto sem mexer no seu conteúdo, alertando que este obrigatoriamente precisa ser lido no seu respectivo contexto, a entrada no século XXI. Nesse sentido, faz-se imprescindível um registro. Este diz respeito ao recorte temporal da produção bibliográfica que comparece nesse estudo. A tese que dá origem à Cartografias dos estudos culturais, foi concluída no segundo semestre de 1999, tendo sua defesa ocorrido em março de 2000, portanto, o texto original alcança, por exemplo, apenas a publicação das reflexões de Hall até Contudo, com o objetivo de suprir essa lacuna em termos de atualização, à moda das suítes na música, o texto original é suce- 12

14 dido pelos depoimentos de três intelectuais David Morley, Nick Couldry e James Curran com expressiva importância no debate internacional sobre os estudos culturais. Tratando-se de um programa de pesquisa, diverso e heterogêneo como inúmeras vezes já foi qualificado, é indispensável analisá-lo mediante a elucidação de trajetórias intelectuais e suas respectivas reflexões e pesquisas como sustentado na presente obra. Destaco que as características do atual contexto histórico, bem como da presente institucionalização dos estudos culturais aqui refiro-me especialmente ao contexto anglo-americano têm diferenças do período de sua formação e mesmo do que foi apresentado em 2000, momento de defesa da tese. Dado que essas transformações estão em andamento e, portanto, ainda não estão disponíveis em relatos mais sistemáticos ou mesmo em reflexões que tenham tal propósito, a exposição de testemunhos orais de atores envolvidos nesse processo contribui para dar visibilidade a distintas experiências, oferecendo uma oportunidade para refletir sobre a contribuição contemporânea dos estudos culturais. Com esse objetivo, as entrevistas, realizadas por mim, em fevereiro de 2007, com o apoio do CNPq, versam sobre a história dos estudos culturais e o respectivo lugar ocupado nela pelo entrevistado, bem como de que forma sua produção intelectual contribui para a reconfiguração e atualização dos mesmos. Assim, abre-se uma possibilidade para que o leitor pense como um programa de pesquisa pode ser reconstruído 7, a fim de melhor atingir a meta que a própria teoria se fixou no momento de sua origem. Ressalto que David Morley e Nick Couldry se destacam na constituição atual desta área de estudos, atuando no Goldsmiths College da Universidade de Londres, tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação. No entanto, podem ser identificados como de gerações distintas na configuração dos estudos culturais. David Morley faz parte do que se convencionou chamar de segunda geração de estudos culturais 8. Participou do coletivo de pesquisadores do Centro, no início dos anos 70, momento em que a Escola de Birmingham se consolida. O encontro de Nick Couldry com os estudos culturais somente ocorreu no limiar dos 90 quando estes já tinham se internacionalizado e estavam institucionalizados, na 13

15 Grã-Bretanha. Esta diferença geracional abarca singularidades decorrentes das respectivas formações. O primeiro, no próprio CCCS e o outro, fora daí, no Goldsmiths College. Isto é, ambos vivenciam situações históricas bastante distintas o momento de efervescência do CCCS e a consolidação dos estudos culturais na academia. Decorre, também, daí a possibilidade de observar um forte reconhecimento, em nível internacional, do primeiro com os estudos culturais e um vínculo mais fraco, no caso do segundo. Em relação ao terceiro pesquisador que também está vinculado ao Goldsmiths College, trata-se de um dos porta-vozes, no contexto britânico, das críticas aos estudos culturais. Situando-se mais próximo dos estudos de economia política da comunicação, tradição extremamente forte naquele ambiente acadêmico, o propósito é que ele reavalie os embates gerados entre essas duas forças teórico-metodológicas, confronto que teve escasso realce entre nós. De resto, considero oportuno trazer à baila pelo menos duas das críticas que, embora não tenham sido lançadas em referência direta ao trabalho em questão, circulam no nosso contexto acadêmico. Uma delas diz respeito às resistências vigentes em aderir ao uso do termo estudos culturais latino-americanos e a sua associação à intelectuais como Martín-Barbero e García Canclini. De um lado, nega-se a utilização da terminologia, dando-se preferência, por exemplo, a estudos de cultura na América Latina ou estudos sobre comunicação e cultura 9 ou ainda estudos de cultura e poder 10. O que parece estar implicado é que tal enquadramento teórico não sofre influências de repertórios teóricos surgidos em outras latitudes. E que, no caso específico, não têm afinidades com a proposta dos estudos culturais. É claro que os estudos sobre cultura são bem anteriores a essa proposição, mas também é verdadeiro que os estudos culturais imprimiram uma determinada forma de estudá-la e construíram uma diferenciação 11. De outro lado, evoca-se a própria resistência, por exemplo, dos autores citados, na sua auto-identificação com esse campo, omitindo-se que em determinados momentos tal associação é aceita, reconhecida e até mesmo bem-acolhida 12. Tendo assumido como ponto de vista o que chamo de narrativa dominante sobre os estudos culturais, a partir desse marco, 14

16 considerei que era possível esboçar um mapa mínimo sobre os estudos culturais onde se destacava, além do que já foi mencionado, uma possível vinculação entre a vertente britânica de estudos culturais e a emergência de uma perspectiva latino-americana de análise cultural, associada fundamentalmente aos itinerários intelectuais de Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini. Foi, sumária e pretenciosamente, isso que tentei cartografar, dado que uma cartografia dos estudos culturais era impossível, devido à amplitude do tema, e que meu interesse também era pensar: como algo denominado como um marco teórico latino-americano tinha sido configurado? Isso existia? Em que condições ele tinha sido constituído? Quem eram seus formuladores? O ponto de convergência entre esses autores e os estudos culturais britânicos se deu através da discussão sobre o uso do aporte gramsciano em torno da hegemonia o que significa dizer que a cultura devia ser estudada mediante as relações de poder que constituía e expressava. E que, na comunicação, implicava em pensar, como diz Martín-Barbero 13 (2002, p. 224), que a inscrição da comunicação na cultura deixou de ser mero assunto cultural, pois é tanto a economia como a política as que estão comprometidas com o que aí se produz. A partir dessa posição é que foram se alinhavando outros pontos de encontro que tanto podiam ser recuperados retrospectivamente como para além dessa convergência teórica. Essa aproximação revela a existência de uma espécie de vasos comunicantes entre uma produção latino-americana e outra, em especial a britânica. Contudo, a escolha da trajetória de Stuart Hall se deve não a interlocução propriamente dita entre os autores em foco na pesquisa, mas pela expressão de Hall no direcionamento do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos para especificamente a centralidade do tema da mídia, objeto central na proposta de Cartografias dos estudos culturais. Uma outra crítica que circula, sobretudo, entre simpatizantes dos estudos culturais, trata do eterno retorno às contribuições de intelectuais que configuraram a formação dos estudos culturais como se somente esses fossem as vozes autorizadas a falar em nome dos estudos culturais. Em outros termos, é a acusação da volta patriarcal à herança da Escola de Birmingham como se estivesse aí a essência dos estudos culturais

17 Como parto do pressuposto que, no nosso meio, muito se fala em estudos culturais, mas pouco se conhece sobre eles - não só sobre sua história, mas também sobre a reflexão que constituiu essa área de estudos, assim como ainda se confunde os estudos culturais britânicos com os norte-americanos, desconsiderando suas diferenças, considero fundamental um retorno aos clássicos simplesmente para armar um ponto de vista mais historicizado. Isto não concede autoridade apenas aos autores consagrados ou à uma determinada narrativa sobre os estudos culturais, nem muito menos desmerece o trabalho de autores contemporâneos e de outras versões de estudos culturais. Reivindica, apenas, a formação de um ponto de vista histórico, vinculada sim a uma determinada versão de estudos culturais. Esta contempla o entendimento de uma prática em estudos culturais que foca na tensão entre a capacidade criativa e produtiva do sujeito e o peso das determinações estruturais como dimensão substantiva na limitação de tal capacidade. Em outros termos, a questão é como falar das estruturas constituindo os sujeitos, sem perder de vista a experiência desses mesmos sujeitos; manter na análise tanto o peso objetivo das instituições, revelado nos seus produtos, quanto a capacidade subjetiva dos atores sociais. Dentro desse marco, tornam-se visíveis intersecções entre três temas-chave: o sujeito e sua ação num determinado marco histórico; o reconhecimento de processos de exclusão, diferenciação e dominação como historicamente construídos e não, naturais e/ou tanshistóricos; e a compreensão da esfera cultural e dentro dessa, a comunicação, através da relação entre produtores, produtos e receptores. modo, o objeto de análise dos estudos culturais, como nos diz Santiago Castro-Gómez 15, é composto pelos dispositivos a partir dos quais se produz, distribui e consome toda uma série de imaginários que motivam a ação (política, econômica, científica, social) do homem em tempos de globalização. Ao mesmo tempo, os estudos culturais privilegiam o modo em que os próprios atores sociais se apropriam desses imaginários e os integram a formas locais de conhecimento. Enfim, cabe ao leitor julgar o mérito tanto das críticas quanto da apresentação da matéria. Ana Carolina D. Escosteguy Verão de

18 INTRODUÇÃO Não creio que seja possível elaborar, neste momento, um mapa exaustivo e detalhado do que poderia ser chamado aproximativamente de uma cartografia dos estudos culturais. 1 Vários motivos poderiam ser arrolados para mostrar as dificuldades de cobrir tal objeto. Porém, o primeiro obstáculo esbarra na própria amplitude teórica do fenômeno. Além disso, existem diversos movimentos de apropriação da perspectiva dos estudos culturais, para não mencionar a anfibiedade das definições que circulam sobre os mesmos e, também, a existência de uma extensa bibliografia, sobretudo em língua inglesa, sobre o tema. Em contraposição, não se dispõe de trabalhos preliminares que recolham e organizem informações sobre a emergência dos estudos culturais no território latino-americano. Uma das exceções é o artigo de Fabio López de la Roche (1998) que analisa algumas contribuições, produzidas a partir do campo de estudo das relações entre comunicação e cultura, de autores latino-americanos, sinalizando a existência de uma investigação cultural interdisciplinar que poderia ser identificada com uma tradição latino-americana de estudos culturais. Acrescenta-se, ainda, outro problema: a pouca difusão na América Latina de bibliografia que trate dos estudos culturais, independentemente do contexto geográfico onde sejam praticados. São escassas, para não dizer quase inexistentes, as traduções tanto em português quanto em espanhol de textos importantes sobre a configuração dos estudos culturais, seja do ponto de vista histórico, seja de sua composição contemporânea. Daí a opção de traçar cartografias intelectuais que possam ser vistas como significativas no desenvolvimento dos estudos culturais. Na Inglaterra, pólo de origem dessa perspectiva, a trajetória de Stuart Hall é explorada. Na América Latina, os itinerários de Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini 17

19 servem para evidenciar a configuração dessa abordagem no espaço latino-americano. Dessa forma, a leitura proposta sobre os estudos culturais e sua apropriação na América Latina é uma construção nossa, sendo que o grifo no pronome implica um duplo registro. Em primeiro lugar, é uma arquitetura decorrente de um percurso e um posicionamento particular desta autora e, por isso, incompleto e parcial, como será adiante justificado. A outra via diz respeito a nós, latino-americanos, e a eterna discussão de nossas particularidades em relação aos Outros. Em relação ao último aspecto, parece oportuno formular algumas perguntas, mesmo sabendo de antemão que não serão totalmente respondidas: o que têm os nossos estudos culturais de singular em relação ao mais amplo movimento desse corpo teórico-político-acadêmico? Que desconstruções e reconstruções efetuamos sobre o empreendimento intelectual dos estudos culturais para iluminar nossa própria realidade? No presente trabalho, essas questões sinalizam uma problemática, e não a exigência de uma solução. Neste momento, vale recordar, apenas, que a América Latina abarca heterogeneidades culturais, pluralidades étnicas, diversidades econômicas, experiências diferentes e desigualdades estruturais. Logo, falar de América Latina representa uma construção incompleta que é um projeto a realizar, pois é uma tentativa de uniformizar essas diversidades (ARICÓ, 1988). Portanto, a referência à América Latina e ao latino-americano, neste livro, não desconhece essa dimensão do problema e que enquanto projeto incompleto, ele está sempre na linha de nosso horizonte e nos incita a indagar sobre o nosso destino, sobre o que somos ou que queremos ser (ARICÓ, 1988, p. 29). Mesmo assim, presume-se que se existe algo denominado estudos culturais latino-americanos, estes, ou melhor, seus praticantes, não parecem dispostos a submergir sua identidade nesse amplo movimento, essencialmente, anglo-americano. Daí a necessidade de compreender essa relação entre uns e outros como de tradução : ou seja, a análise latino-americana pode ser lida tanto como um exemplo da perspectiva dos estudos culturais quanto como 18

20 uma exemplificação que retém tudo que é distintivo a seu respeito. Adotando essa posição, ambas as perspectivas o programa dos estudos culturais e a investigação cultural latino-americana, embora partilhem um mesmo objeto, isto é, a relação comunicação e cultura, e uma certa afinidade teórica, preservam suas diferenças e originalidades. 2 Portanto, a idéia de tradução, utilizada aqui, não endossa o princípio de existência de um original no caso, a proposta dos estudos culturais britânicos e sua tradução, entendida como mera aplicação de tal proposta em outros territórios. Os estudos culturais compõem, hoje, uma tendência importante da crítica cultural que questiona o estabelecimento de hierarquias entre formas e práticas culturais, estabelecidas a partir de oposições como cultura alta ou superior e baixa ou inferior. Adotada essa premissa, a investigação da cultura popular que assume uma postura crítica em relação àquela definição hierárquica de cultura, na contemporaneidade, suscita o remapeamento global do campo cultural, das práticas da vida cotidiana aos produtos culturais, incluindo, é claro, os processos sociais de toda produção cultural. Na América Latina, uma reflexão crítica começou a emergir, principalmente, na década de 80, tendo como eixo central as novas configurações da cultura popular a partir da emergência das indústrias culturais. Dentre as contribuições mais importantes e originais no repensar dessa problemática, revelando a existência de empréstimos e negociações entre a cultura considerada legítima e aquelas formas culturais cotidianas tidas como insignificantes, dentro do âmbito latino-americano, estão as reflexões de Jesús Martín-Barbero e de Néstor García Canclini. Por essa razão, este trabalho se detém na análise da contribuição desses autores. Porém, tais formulações latino-americanas não podem ser encaradas como um movimento isolado do restante do pensamento social, ilhadas das idéias em circulação e dos debates atuais. Daí uma das razões para abordá-las em relação com aquela reflexão que legitimou a outra cultura a comum e ordinária, pois ambas as vertentes coincidem nesse pressuposto. Convergem, também, na afirmação de relações entre cultura e poder e seu caráter essencialmente conflitivo, assim como na atenção sobre 19

21 a cultura mediática e seu envolvimento em processos de resistência e reprodução social. De forma mais genérica, reconhecem o papel constitutivo da cultura e das representações nas relações sociais. A presença dessas articulações na análise cultural proposta pelos autores latino-americanos citados e pelos estudos culturais, e suas implicações em ver a esfera cultural como um terreno onde política, poder e dominação são mediados, propicia a este estudo estabelecer e explorar intersecções, assim como diversidades entre os estudos culturais e a reflexão latino-americana em foco. Entretanto, como os estudos culturais compõem um vasto, fragmentado e inter/trans ou antidisciplinar conforme o ponto de vista que seja assumido campo de estudo, o recorte, abordado pelo meu trabalho, trata especialmente das análises que abordam as relações entre comunicação e cultura. Na tentativa de construir uma abordagem que extrapolasse a reconstituição histórico-descritiva das trajetórias britânica e latinoamericana, escolhi determinadas temáticas teóricas eixos-nodais que fazem a conexão entre os estudos culturais e o pensamento latino-americano em foco e que marcam o percurso teórico de ambas perspectivas. Ao mesmo tempo, constituem-se em questões centrais que vão sinalizando rupturas e desdobrando-se em rotas abertas para a continuidade da reflexão. Esses eixos teóricos são: as relações entre cultura e ideologia; a opção pela análise da cultura popular; e a construção de identidades culturais contemporâneas mediadas, intensamente, pelos meios de comunicação. Como eixos-nodais, permitem que outras questões a eles relacionados sejam também abordadas. Entre elas: o conceito de hegemonia, o papel do intelectual na esfera da cultura e a problemática da recepção. Reconheço, contudo, que ao destacar e recuperar apenas esses questionamentos, estou omitindo ou subvalorizando outros. Apesar de adotar esse procedimento de seleção de aspectos de uma obra, espero não trair o pensamento dos autores aqui em destaque. Seguindo as orientações recém delineadas, este trabalho consiste, em primeiro lugar, em propor uma articulação entre os autores 20

22 latino-americanos citados e os estudos culturais, sobretudo na sua vertente britânica. Do ponto de vista dos estudos culturais britânicos, o trabalho de Stuart Hall vai servir como fonte maior desta exploração na medida em que é, indubitavelmente, uma figura central no desenvolvimento da versão dominante dos mesmos. Isso não quer dizer que outros autores e trabalhos não sejam incorporados nessa articulação entre os latino-americanos e o campo dos estudos culturais. Ao contrário, a tentativa é compor uma narrativa, na medida do possível diante da vasta bibliografia existente em língua inglesa mais plural, diversa e polifônica, não centrada exclusivamente na versão britânica. 3 Ao construir o trajeto sobre o tratamento das temáticas anteriormente citadas, observa-se como alguns dos praticantes, tanto da perspectiva latino-americana quanto da anglo-saxônica, compreendem-nas e desenvolvem-nas. Porém, nunca com o propósito de aplicar os termos próprios, sobretudo da vertente britânica enquanto pólo gerador desse projeto, ao contexto latino-americano. Mesmo porque a prática dos estudos culturais alcança sua propriedade dentro de condições históricas específicas entre elas a localização nacional e geográfica (GROSSBERG, NELSON E TREICHLER, 1992; MORRIS, 1992). Contudo, não conta apenas a diferença de contextos dentro dos quais os argumentos se engendram, mas existe, também, um grau de especificidade cultural na própria teoria (TURNER, 1993b). Outra consideração decorrente da escolha dos autores em foco neste livro diz respeito ao reconhecimento de que são vozes posicionadas geograficamente em lugares distintos. Ou seja, em termos talvez não muito apropriados para a época vigente, mas que ainda guardam uma certa potencialidade, são posições situadas no centro e na periferia. Mesmo que esteja em curso o debilitamento de uma noção de centro que tem sua capacidade explicativa fragilizada e a concentração de poder um pouco mais dispersa, percebe-se ainda a exclusão de experiências e saberes periféricos daquele identificado como centro. De qualquer modo, o propósito não é reavivar esse confronto esquemático, mas localizar-se num outro ponto fora dessa oposição binária. Nessa direção, os três autores estudados como eixo 21

23 central deste livro experimentam todos um deslocamento semelhante. Partindo cada um de posições particulares, encontramse, como disse Martín-Barbero (1987a, p. 229) a respeito de sua busca pessoal por um novo mapa para explorar o campo cultural contemporâneo, assumindo as margens não como tema, mas como enzima. Apesar da discussão proposta concentrar-se nesta tríade de autores Stuart Hall, Jesús Martín-Barbero e Néstor García Canclini, não é de forma alguma minha intenção localizar os estudos culturais em textos canônicos ou elevar a obra de cada um desses autores a um estatuto canônico. Sobretudo porque é justamente contra a oposição entre o cânone e seu outro, a cultura popular, que os estudos culturais vicejaram. Nesse contexto geral, embora reconheça uma singularidade na reflexão latino-americana, representada, aqui, por Martín-Barbero e García Canclini, 4 isso não pode ser motivo para assumi-la sem questionamento, deixando de ser objeto de crítica. Logo, pretende-se tanto recuperar e reconstituir alguns procedimentos ao longo dessa trajetória quanto, também, discuti-los sistematicamente, mediante uma leitura crítica e reflexiva, no sentido de ver para onde apontam, que via descortinam para prosseguir o estudo em torno das vinculações entre cultura e comunicação. Esse é, também, o norte da crítica ao atual desenvolvimento dos estudos culturais como um todo. Delimitados os contornos da temática deste trabalho, é imperativo esclarecer a partir de que lugar esta análise de um determinado aporte teórico-metodológico se realiza, ou seja, explicitar o lugar de enunciação que o analista privilegia para operacionalizar essa leitura. Proponho, então, situar-me genericamente dentro dos estudos de comunicação e cultura, denominação corrente na América Latina. Porém, é mais preciso dizer que o ponto de partida se estabelece mediante a vinculação dos estudos culturais e a comunicação 5. Isso significa que a investigação da cultura mediática, incluindo tanto os meios, os produtos e as práticas culturais ou seja, refere-se tanto à natureza e à forma dos produtos simbólicos quanto ao circuito de produção, distribuição e consumo está 22

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