ADAPTANDO-SE À NOVA REALIDADE: A MULHER GRÁVIDA E

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1 Adaptando-se à gravidez e à sexualidade Artigo de Pesquisa ADAPTANDO-SE À NOVA REALIDADE: A MULHER GRÁVIDA E O EXERCÍCIO DE SUA SEXUALIDADE ADAPTING TO THE NEW REALITY: THE PREGNANT WOMAN AND THE EXERCISE OF HER SEXUALITY ADAPTÁNDOSE A LA NUEVA REALIDAD: LA MUJER EMBARAZADA Y EL EJERCICIO DE SU SEXUALIDAD Karla Gonçalves Camacho I Octavio Muniz da Costa Vargens II Jane Márcia Progianti III RESUMO: Trata-se de estudo cujo objetivo foi descrever como a mulher exerce a sexualidade na gravidez. Consiste em pesquisa qualitativa baseada nos pressupostos teórico-metodológicos do Interacionismo Simbólico e Grounded Theory. Coletaram-se dados em 2005, através de entrevistas semiestruturadas, com 12 gestantes, assistidas no prénatal de um Centro Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Atendendo ao preconizado pelo método, a coleta e análise de dados se deram simultaneamente de modo comparativo constante. Os resultados evidenciaram que, embora o desejo sexual estivesse presente durante a gravidez, o exercício da sexualidade é influenciado pelo relacionamento conjugal e depende do adaptar-se à nova realidade: estar grávida. Conclui-se que a gestante, ao experimentar transformações físicas e emocionais, procura escolher melhores maneiras de vivenciar esse período, tendo como fundamento a decisão e ação social de buscar caminhos para adaptar-se. Nessa busca pode influenciar o comportamento do parceiro de modo que a vida sexual seja mais prazerosa. Palavras-Chave: Gravidez; saúde da mulher; sexualidade; enfermagem obstétrica. ABSTRACT: This paper aims at describing the woman s exercise of her sexuality during pregnancy. It is a qualitative piece of research based on Symbolic Interactionism and Grounded Theory. Data were collected in 2005, through semi-structured interviews with 12 pregnant women receiving prenatal assistance at a Municipal Health Center in Rio de Janeiro, Brazil. According to methodological procedures, data collection and analysis were simultaneous, on a comparative constant basis. Results evidenced that, although sexual desire was present during the pregnancy, the exercise of sexuality is influenced by their marital relationship and it depends on adapting to the new reality: being pregnant. Conclusions show that when experiencing the physical and emotional changes of pregnancy, pregnant women look up better ways to go through that stage, making a point about social action to find ways to adapt. In that search they can influence the partner s behavior in such a way that sexual life becomes more pleasant. Keywords: Pregnancy; women s health; sexuality; obstetrical nursing. RESUMEN: El objetivo fué describir como la mujer ejerce la sexualidad durante el embarazo. Es una investigación cualitativa basada en el Interaccionismo Simbólico y en la Grounded Theory. Los datos fueron colectados en 2005, a través de entrevistas semiestructuradas, con 12 embarazadas, asistidas durante el prenatal en un Centro Municipal de Salud de Río de Janeiro, Brasil. La colección y análisis de los datos fueran simultáneas y hechas de manera comparativa constante. Los resultados evidenciaron que, aunque el deseo sexual estuviera presente durante el embarazo, el ejercicio de la sexualidad es influenciado por la relación matrimonial y depende de adaptarse a la nueva realidad: estar embarazada. Se concluye que la mujer embarazada, al experimentar los cambios físicos y emocionales del embarazo, busca mejores maneras de vivir ese período, teniendo como fundamentación la decisión y la acción social de buscar maneras de adaptarse. En esa búsqueda ella puede influir en el comportamiento del compañero para que la vida sexual se ponga más agradable. Palabras Clave: Embarazo; salud de la mujer; sexualidad; enfermería obstétrica. INTRODUÇÃO Este artigo aborda o tema sexualidade na gestação. Quando se fala em sexualidade, enfatiza-se uma abordagem sistêmica remetendo aspectos biológicos, psicológicos, culturais, antropológicos, sociais e comportamentais, entre tantos outros 1,2. No campo teórico, a sexualidade simboliza união I Enfermeira Obstetra e Neonatologista. Mestranda em Enfermagem pelo Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora de Pesquisa Clínica no Instituto Nacional de Câncer/RJ. Rio de Janeiro, Brasil. s: e II Enfermeiro Obstetra. Doutor em Enfermagem. Professor Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Líder do Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Poder e Violência em Saúde e Enfermagem. Rio de Janeiro, Brasil. III Enfermeira Obstetra. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora do Curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. p.32 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37.

2 Artigo de Pesquisa Trata-se de um estudo qualitativo descritivo desenvolvido com base nos pressupostos teóricometodológicos do Interacionismo Simbólico e da Grounded Theory. O Interacionismo Simbólico caracteriza-se por ressaltar o valor do sentido das coisas no comportamento humano. Este reflete o resultado das interações sociais de seus sujeitos, dos significados dos fatos, do compartilhamento do significado destes e o sentido das coisas de um certo ponto de vista, mas principalmente uma resposta às intenções dos outros e/ou com os outros, que por sua vez são transmitidas através de gestos que se mutam em símbolo que é a palavrachave do Interacionismo 12,13. Com o Interacionismo Simbólico é possível obter um conhecimento amplo e significativo das relações sociais. Este pode ser considerado como uma forma de contextualização do problema ou do fato, proporcionando um conhecimento mais estratégico e situacional dos acontecimentos entre os indivíduos 13,14. Tem seu conceito central focalizado no significado das ações individuais e coletivas, embasadas em um conjunto de conceitos básicos como a natureza humana, natureza das ações e identificação da atividade humana que envolve a interação entre seus sujeitos na vida social, ou seja, na relação do ser humano com o mundo 14. A Grounded Theory consiste em estratégia de identificação dos processos sociais básicos no contexto em que estes ocorrem, focalizando não só os fenômenos, mas também os significados destes para os sujeitos da envolvidos. Visa gerar modelos teóricos ou teorias que expliquem o comportamento humano a partir da coleta e análise simultânea dos dados, sendo por isso considerado um método de análise comparativa constante Os sujeitos integrantes dos grupos amostrais deste estudo foram 11 mulheres grávidas, inseridas no estudo à medida que o processo de análise comparativa dos dados era desenvolvido, conforme preconizado pela Grounded Theory 16,17. O primeiro grupo amostral constou de seis gestantes matriculadas no pré-natal, de um Centro Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que estavam no terceiro trimestre de gestação. A escolha por este grupo inicial deveu-se ao fato de ser um período da gestação em que as modificações corporais são mais evidentes e mais marcantes do ponto de vista externo, o que requer adaptação das mulheres à nova estática e dinâmica corporal. A análise destas entrevistas, conforme preconizado pelo método do estudo, indicou a necessidade de inclusão de gestantes que estivessem vivenciando períodos da gestação, em que as modificações, apesar de evidentes, ainda não representassem tão forte impacde valores e práticas corporais historicamente legitimadas 3 e relaciona-se à dimensão íntima, constituinte da subjetividade das pessoas e relações corporais com seus pares e com o mundo 2,4. Nesse sentido, sexualidade não é tratada apenas como relação sexual, e sim como um processo amplo que envolve relações afetivo-sexuais entre casais, ou seja, extrapola aspectos orgânicos e associam-se a estes fatores psicossociais 5-7. No entanto, na vida cotidiana dos indivíduos, sexo e sexualidade inter-relacionam-se, sendo quase impossível diferenciar os conceitos, pois apresentamse conjugados e sobrepostos fortemente nos relacionamentos humanos. Por isso mesmo, trataremos sexualidade como fusão entre práticas sexuais/sexo e o constructo teórico sexualidade com ênfase nos aspectos relacionados às práticas sexuais. No ciclo gravídico-puerperal, a vivência da sexualidade é influenciada pelas modificações anatômicas, fisiológicas ou psicológicas. Há também a interferência de mitos, tabus, questões religiosas, socioculturais bem como o próprio desconhecimento do casal acerca do seu corpo. 8,9 Esses fatos levaram durante muito tempo a não se aconselhar gestantes a terem relações sexuais nessa fase da vida 10. No entanto, vivemos hoje um momento em que as informações sobre sexualidade estão cada vez mais presentes estimulando uma maior participação no prazer sexual. A vida sexual, presente durante a gravidez, vai muito além do genital. Traz comprometimento e aceitação do outro, com benefícios significativos para os dois. O sexo e a sexualidade podem e devem desenvolver o erotismo na mulher, mesmo grávida, fazendo com que ela possa continuar se sentindo sexualmente desejada, mesmo com as alterações de seu corpo, nesse processo que a tornará mãe 9. Estudos desenvolvidos nas últimas décadas 9,10 demonstram que é possível observar melhora do relacionamento conjugal, com sentimentos de feminilidade aguçada e com maior prazer sexual, quando há liberdade de expressão da sexualidade e de práticas sexuais durante a gestação. Em contrapartida, também é possível observar o abandono do parceiro, violência não física e diminuição da atividade sexual. Há uma miscelânea de sentimentos que repercutem na vivência da sexualidade. Percebe-se conflito interno entre estar gerando um filho e ao mesmo tempo sentindo vontades, desejos, que são sentimentos culturalmente não permitidos na gestação 11. A libido muitas vezes não diminui nesta fase, porém pode ser inibida diante de tantas especulações que giram em torno do casal grávido 9. Diante do exposto, este estudo tem por objetivo descrever como a mulher vivencia a sexualidade na gravidez. Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1): p.33

3 Adaptando-se à gravidez e à sexualidade to na dinâmica corporal. Assim, o segundo grupo amostral constou de cinco gestantes matriculadas no mesmo serviço, com as mesmas características, porém que estavam no segundo trimestre da gestação. Para manter a confidencialidade das informações, atribuímos um nome fictício de identificação das falas, com a junção da letra G de gestante, seguido pela ordem numérica das entrevistas, ou seja, a primeira gestante recebeu o codinome de G1 e assim por diante. Foram excluídas somente as gestantes que, mesmo dentro dos critérios de inclusão, não quiseram participar da pesquisa. O término da inclusão de sujeitos ocorreu quando houve saturação dos dados colhidos, isto é, não havia mais distinção entre os antigos e os novos registros 16. A técnica de coleta de dados foi uma entrevista, semiestruturada, cuja frase indutora era: fale-me sobre sua sexualidade durante o período gestacional. As entrevistas com duração de 20 a 40 minutos foram realizadas após a consulta de pré-natal, pela própria pesquisadora, em A análise contemplou as seguintes etapas: transcrição das entrevistas, pela própria pesquisadora, mantendo-se na íntegra os depoimentos; a distribuição vertical e sequencial do discurso 18 ; a codificação substantiva ou codificação aberta; o agrupamento de códigos afins, que permitiu a construção de categorias provisórias; a categorização preliminar; a análise e consolidação das categorias construídas preliminarmente; análise comparativa constante destas categorias; e, por fim, a identificação da categoria central 19 com a descrição do processo social básico. Por último elaborouse um diagrama representativo deste processo social 16,18,19. Ver Figura 1, na seção Discussão. O presente estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Pedro Ernesto e aprovado (Protocolo n o 1125-CEP/HUPE), conforme Resolução n o 196, de 10/10/1996, do Conselho Nacional de Saúde. Todos os sujeitos consentiram em sua participação assinando um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS O processo de exercício da sexualidade pelas gestantes se deu em duas esferas que permitiram constituir as categorias do estudo: a descoberta do desejo sexual na gravidez, que traz consigo um mundo de mitos, tabus e preconceitos associados e incorporados ao longo do processo de socialização da mulher, e que inclui aqueles relacionados à sexualidade e às práticas sexuais; e a adaptação à nova realidade: a busca de formas adaptativas de sentir prazer sexual durante a gravidez. Artigo de Pesquisa Sentindo Desejo Sexual Durante a Gestação O primeiro ponto de encontro para vivência da sexualidade na gestação está em descobrir desejo sexual na gravidez. Este gera um novo conflito para a mulher que já está em um momento de transição e de identificação próprio da gestação. Conceber que em seu corpo gera-se um novo ser e este mesmo corpo deseja manter relações sexuais gera uma ambivalência de sentimentos em muitas mulheres que às vezes estão vulneráveis às influências socioculturais. E apesar disso grande parte das gestantes considera normal o sexo na gravidez, e mesmo sofrendo influências populares, socioculturais e religiosas, permite-se vivenciar a sexualidade. [...] Eu sempre fui muito gulosa por sexo [...], então não mudou muito, sempre quero fazer (prática sexual) [...] (G3) Em nossa análise, detectamos gestantes que tiveram a libido mais acentuada, sentindo vontade de fazer sexo com mais frequência do que antes da gravidez. [...] Eu acho que eu ficava às vezes com até mais vontade de fazer (sexo) do que antes da gravidez [...] (G4) Identificamos também que o fato de alguns companheiros serem mais afetuosos e carinhosos durante o período gestacional permite a muitas mulheres terem sua sexualidade aflorada e com isso almejam que seus companheiros continuem amorosos mesmo após a gestação e que o sexo continue tão prazeroso quanto nessa fase da vida conjugal. [...] Ficou melhor. Sempre falo para ele ver se aprende e conserva isso depois da gravidez. Ah! Eu adoraria que ficasse assim, carinhoso, atencioso, gentil, preocupado comigo [...] (G6) Dessa forma, percebemos que o primeiro contato das grávidas com o sentimento do desejo sexual, gera uma emoção diferenciada que pode ser encarada como algo positivo a partir do momento em que se consegue compreendê-la de forma saudável. Assim, o exercício da sexualidade torna-se mais prazeroso e intenso na gestação do que no período não gestacional. Não Conseguindo Relacionar-se Sexualmente Durante a Gestação Entre as entrevistadas houve situações em que, embora o desejo sexual estivesse presente ou mesmo mais aguçado, não conseguiam manter atividade sexual. O principal fator relatado pelas gestantes que não conseguiam relacionar-se sexualmente com o parceiro foi a mudança física característica da gravidez, principalmente nos últimos meses de gestação. Nesta situação não pesou muito a falta de interesse, mas sim o desconforto que a gravidez traz: [...] Eu continuo tendo desejo, mas não consigo ter relação [...] (G2) p.34 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37.

4 Artigo de Pesquisa Observamos também que em alguns casos a mulher passa a considerar desfavorável a relação sexual, pelo fato de o companheiro não ter respeito ao seu corpo grávido e muito menos ao seu estado emocional. [...] Assim, às vezes eu até tenho vontade, mas quando ele vem encostar, de qualquer jeito, grosseiro, bruto, daí a vontade passa [...] (G1) Identificamos também a questão da violência física ou moral, em geral relacionadas como resposta a uma gravidez não desejada ou não planejada. Esta condição repercute na vivência da sexualidade do casal, que em muitas vezes não é espontânea e satisfatória para ambas as partes. [...] A gente brigava direto, ele me batia, falava mal, ficou estranho de uns tempos para cá, não botava mais comida em casa [...] (G9) Assim evidencia-se que fatores externos e principalmente internos inerentes ao casal podem dificultar o exercício da sexualidade na gestação. Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM Adaptando-se à Nova Realidade O fato de descobrirem a si mesmas sentindo desejo sexual e ao mesmo tempo estarem enfrentando dificuldades para o relacionamento sexual na gravidez levou estas mulheres a um movimento em direção à busca do prazer e da satisfação sexual, apesar dos fatores negativos até então experimentados por elas. Um dos elementos mais marcantes dessa busca foi o fato de que, entendendo que o prazer não necessariamente estaria relacionado apenas com a relação sexual em que o intercurso vaginal é o ponto culminante, admitiram para si mesmas outras formas de sentir prazer. [...] A gente fica só nas carícias, que para mim sempre foi o melhor... Ficamos só nas preliminares[...] (G8) [...] Mas aí a gente fica namorando, acha outros jeitos de fazer [...] e sinto prazer mesmo [...] (G5) Essa decisão só foi possível porque a mulher tomou para si a iniciativa de determinar como seriam as relações. O parceiro, habitualmente determinante do como e do quando, passou a ter que aceitar uma maneira diferente e determinada por ela de praticar sexo e a sexualidade conjugal. Isso certamente representou uma capacidade de negociação com o parceiro. [...] Sempre falo para ele ver se aprende e conserva isso depois da gravidez, eu adoraria que ficasse assim. [...] Ele aceita o que eu peço [...] (G7) Mais uma vez, é importante ressaltar que o comportamento sexual do parceiro durante a gravidez parece ser o comportamento desejado pelas mulheres. Por isso mesmo seu empenho em convencer seus parceiros a manterem esse comportamento depois da vivência da gestação. DISCUSSÃO Os dados foram analisados na perspectiva interacionista, a partir do modelo teórico explicativo da ação humana 19. Assim entendemos a relação existente entre as categorias encontradas neste estudo e que está representada na Figura 1. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1): p.35

5 Adaptando-se à gravidez e à sexualidade A descoberta da gravidez revela o primeiro contato com o universo do gerar um novo ser. A confirmação da gestação pode fazer aflorar na mulher sentimentos propriamente maternos, permitindo-lhe experimentar transformações físicas e emocionais inerentes ao processo de gestar. Nesta fase a mulher define metas e considera o futuro 14,19. Porém, mais do que se descobrir grávida, o descobrir a si mesma sentindo desejo sexual durante a gravidez, independente da idade gestacional, gera dúvidas e angústias relacionadas a fatores culturais fortemente influenciadores que impregnam o emocional das gestantes, principalmente se houver falta de conhecimentos científicos por parte delas 20. Além disso, ainda identificamos reflexo remoto da influência das três instituições dominantes: o estado, a igreja e a medicina que ainda têm poder sobre o corpo feminino 21. Nesse âmbito, os mitos estão relacionados com a concepção de impureza e fragilidade do corpo feminino, visto como fonte de poluição 6, e quando atrelados à gestação, deixam a gestante insegura em exercer sua sexualidade na gravidez. Por outro lado, há mulheres que sentem prazer durante a gravidez e não se deixam influenciar por fatores externos impostos pela sociedade sobre sexualidade e a exercem sem nenhum problema 22. Para essas mulheres a consciência desses mitos movimentou-as em busca de recursos que lhes permitissem vivenciar esta nova realidade em suas vidas: estou grávida e ao mesmo tempo sentindo desejo sexual. É a partir disto que esta mulher poderá entrar direta e/ou indiretamente em contato com todo seu referencial interno, com suas experiências prévias ou com o que pode ser representado 16,19. Observa-se constantemente na grávida uma ambivalência dos sentimentos de querer e não querer é a vivência básica da gravidez 3. A gestação afeta a intimidade do casal 9,10 principalmente devido ao abdômen grávido que pode ser um empecilho para as práticas sexuais. Dessa maneira, estratégias alternativas de práticas sexuais são elaboradas na tentativa de melhor adaptar-se e sentir prazer. No entanto é importante salientar que o modo como a gestante se percebe nesse momento da vida repercute em seu relacionamento conjugal. Neste estudo evidenciamos que há gestantes que não conseguem relacionar-se sexualmente, apesar de sentir desejo, pois o universo em que estão inseridas não é favorável. Ainda há relações conjugais em que prevalece o caráter de dominação masculina, destinando à mulher o papel de submissa e obediente 23. Os achados também demonstram que muitas mulheres são vitimas, dentro do casamento, de diferentes formas de violência, como desrespeito, agressão verbal e física 24. E o mais interessante é que a gestante Artigo de Pesquisa permanece sentindo desejo sexual não pelo parceiro, mas um desejo sexual interno, que independe do outro. Algo que surge de sua própria sexualidade feminina que pode ser vista como uma energia vital, criadora e criativa que surge do ser humano 21. A sexualidade não se concentra somente no ato sexual propriamente. Há outras manifestações de amor e carinho que a representam. Nesse contexto, o ato sexual torna-se um momento de expressão de carinho, onde a relação sexual não é vista com mera consumação do desejo carnal, mas de entrega e respeito. Quando um casal é flexível e paciente geralmente encontra posições confortáveis para ambos 7. A vivência da sexualidade na gestação pode ser prazerosa com a libido exacerbada, podendo haver criação de formas sexuais adaptativas para melhor sentir prazer na gestação 12. Sentir prazer e desejo sexual na gestação é algo que depende da interação do casal e pode repercutir sob diversos aspectos no desenvolvimento psíquico da gestante e de seu companheiro, permitindo-lhes criar maneiras sexuais adaptativas 9,10. Cada situação de interação acontece no âmbito de um contexto que certamente influencia os agentes/ objetos sociais presentes, na definição da situação e na determinação da linha de ação 19. Neste estudo o contexto pode ser representado pelo fato de a mulher estar sofrendo influências socioculturais, religiosas e crenças impostas pela sociedade em que está inserida. A partir da integração das categorias foi possível identificar que a vivência da sexualidade depende de como a gestante se vê como mulher e mãe, e também da interação com seu parceiro e com seu meio. Sob o ponto de vista feminino, das gestantes entrevistadas, as modificações gestacionais que mais influenciam na sexualidade e no relacionamento conjugal originam-se das mudanças corporais, principalmente do impacto gerado pelo crescimento do ventre materno e da atuação do parceiro no dia a dia gestacional 10. Assim, exercitar a sexualidade na gestação faz parte do processo de adaptação da mulher ao universo gestacional e envolve fatores no âmbito do imaginário e de vida pública 5,8. É possível manter a sexualidade com a mesma intensidade, interesse e vivência que do período pré-concepcional 22. Há diferentes maneiras de a grávida vivenciar sua sexualidade durante a gestação, entre elas incluise o sentir ou não desejos sexuais, o que a leva à decisão de criar formas adaptativas para exercer positivamente a sexualidade durante a gestação. CONCLUSÕES A sexualidade na gestação é um dos aspectos que valoriza o processo de gestar, porém, isto dependerá de como a mulher se percebe nessa etapa da vida. p.36 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37.

6 Artigo de Pesquisa Para tal, é importante a mulher sentir-se amada e atraente, ter sua autoestima desenvolvida, e independente de qualquer fator, adaptar-se à nova realidade, e isso a permitirá exercer sua sexualidade. O profissional de saúde, em especial o enfermeiro, ao considerar a sexualidade imersa na gestação, compreenderá melhor o que se passa na gestação sob o ponto de vista da gestante e com isso terá a oportunidade de melhor articular com o casal grávido sobre o contexto amplo da gestação e suas implicações. Isso irá proporcionar ao casal assistido pelo profissional e também a todos que estão envolvidos com essa fase maravilhosa da vida captar mais claramente o que for transmitido. É nesse contexto que se insere o profissional, enfermeiro, promotor da saúde e do bem-estar da gestante, participando juntamente à mulher dessas transformações e adaptações que estão acontecendo, podendo orientá-la da melhor forma, quebrando regras e eliminando tabus, para que ela possa usufruir todos os tipos de prazeres e sensações nesse momento da sua vida. REFERÊNCIAS 1.Lupton D. Corpos, prazeres e a prática do eu. Revista Educação & Realidade. 2000; 25(2): Souza LB, Fernandes JFP, Barroso MGT. Sexualidade na adolescência: análise da influência de fatores culturais presentes no contexto familiar. Acta Paul Enferm. 2006; 19(4): Scott J. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Revista Educação & Realidade. 1995; 20(2): Maturana HC, Progianti JM. A ordem social inscrita nos corpos: gravidez na adolescência na ótica do cuidar de enfermagem. Rev enferm UERJ. 2007; 15: Ressel LB, Gualda DMR. A sexualidade como uma construção cultural: reflexões sobre preconceitos e mitos inerentes a um grupo de mulheres rurais. Rev esc enferm USP. 2003; 37(3): Ressel LB, Silva MJP da. Reflexões sobre a sexulidade velada no silêncio dos corpos. Rev esc enferm USP. 2001; 35(2): Silva MA, Mandú ENT. Ideias cristãs frente ao corpo, à sexualidade e contracepção: implicações para o trabalho educativo. Rev Gaúcha Enferm. 2007; 28: Artiles PV, Gutiérrez SMD, Sanfélix GJ. Función sexual Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM femenina y factores relacionados. Aten Primaria. 2006; 38(6): Senkumwong N, Chaovisitsaree S, Rugpao S, Chandrawongse W, Yanunto S. The changes of sexuality in that women during pregnancy. J Med Assoc Thai. 2006; 89(4): Pellegrini JO. A sexualidade na gestação. Femina (Rio de Janeiro) 2003; 31(1): Carvalho FAM. Sexualidade da mulher no ciclo gravídicopuerperal e valores culturais. Fortaleza(CE): s.n; Bazilli C. Interacionismo simbólico e teoria dos papéis: uma aproximação para a psicologia social. São Paulo: EDUC; Blumer H. Symbolic interactionism: perspective and method. London (UK): University of California Press; Carvalho LS, Silva CA, Oliveira ACP, Camargo CL. O interacionismo simbólico como fundamento para pesquisas de enfermagem pediátrica. Rev enferm UERJ. 2007; 15: Merigi MAB, Praça NS. Abordagens teórico-metodológicas qualitativas: a vivência da mulher no período reprodutivo. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; Stern PN. Grounded theory methodology: its uses and process. Image. 1980; 12(1): Glaser BG. The grounded theory perspective: conceptu-alisation contrasted with description. California(USA): Sociology Press; Vargens OMC. Tentando descobrir um modo de fazer enfermagem sem ser enfermeiro: os conflitos do estudante na construção da imagem da profissão. Rio de Janeiro: Edição do autor; Charon JM. Symbolic interacionism: an introduction, an interpretacion, an integracion. 3 a ed. Englewood Cliffs: Prentice Hall; Mouta RJO, Pilotto DTS, Vargens OMC, Progianti JM. Relação entre posição adotada pela mulher no parto, integridade perineal e vitalidade do recém-nascido. Rev enferm UERJ. 2008; 16: Salvador RT, Vargens OMC, Progianti JM. Sexualidade e histerectomia: mitos e realidade. Rev Gaúcha Enferm. 2008; 29: Oriá MOB, Alves MDS, Silva RM. Repercussões da gravidez na sexualidade feminina. Rev enferm UERJ. 2004; 12: Leôncio KL, Baldo PL, João VM, Biffi RG. O perfil de mulheres vitimizadas e de seus agressores. Rev enferm UERJ. 2008; 16: Monteiro CFS, Souza IEO. Vivência da violência conjugal: fatos do cotidiano. Texto contexto-enferm. 2007; 16: Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1): p.37

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