Juventudes Contemporâneas. Um mosaico de possibilidades

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2 Juventudes Contemporâneas Um mosaico de possibilidades

3 Juarez Dayrell, Maria Ignez Costa Moreira e Márcia Stengel (Organizadores) Todos os diretos reservados. Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita da editora. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Grão-Chanceler Dom Walmor Oliveira de Azevedo Reitor Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães Vice-reitora Patrícia Bernardes Pró-reitoria de Pesquisa e de Pós-graduação Sérgio de Morais Hanriot Editora PUC Minas Coordenação editorial Cláudia Teles de Menezes Teixeira Assistente editorial Maria Cristina Araújo Rabelo Revisão Michel Gannan Divulgação Danielle de Freitas Mourão Comercial Maria Aparecida dos Santos Mitraud Projeto gráfico e formatação Comissão editorial João Francisco de Abreu (PUC Minas); Maria Zilda Cury (UFMG); Mário Neto (Fapemig); Milton do Nascimento (PUC Minas); Oswaldo Bueno Amorim Filho (PUC Minas); Regina Helena de Freitas Campos (UFMG) Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais S612j Simpósio Internacional sobre Juventude Brasileira (4. : : Belo Horizonte, MG) Juventudes contemporâneas: um mosaico de possibilidades / Organizadores: Juarez Dayrell, Maria Ignez Costa Moreira, Márcia Stengel. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, p.: il. ISBN: Juventude Aspectos sociais. 2. Juventude - Brasil. 3. Juventude Comportamento sexual. 4. Juventude e violência. I. Dayrell, Juarez. II. Moreira, Maria Ignez Costa. III. Stengel, Márcia. IV. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. CDU: Editora PUC Minas Rua Dom Lúcio Antunes, Coração Eucarístico Belo Horizonte MG Brasil Tel.: 55 (31) Fax: 55 (31)

4 Juventudes Contemporâneas Um mosaico de possibilidades Juarez Dayrell Maria Ignez Costa Moreira Márcia Stengel Organizadores Belo Horizonte, 2011

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6 Sumário Prefácio... 8 Carta de Belo Horizonte Introdução A socialização da juventude e os espaços institucionais Adolescentes, jóvenes y socialización: entre resistencias, tensiones y emergencias Marcelo Urresti Sociabilidade juvenil, mídias e outras formas de controle social Maria da Graça Jacintho Setton Juventude e escola Mônica Dias Peregrino Ferreira Entre sonhos e projetos de jovens, a escola Geraldo Leão Juventude, trabalho e educação: crônica de uma relação infeliz em quatro atos Naira Lisboa Franzoi Participación en proyectos y desarrollo integral de adolescentes y jóvenes Olga Nirenberg

7 Juventude, sexualidade, gênero e violência Visibilidade e invisibilidade do trabalho de garotos de programa Rubens de Camargo Ferreira Adorno Geraldo Pereira da Silva Junior O lugar dos homens e das masculinidades no debate sobre juventude Jorge Lyra Enigmas do medo juventude, afetos e violência Glória Diógenes Casamento forçado e violência. O contexto francês Edwige Rude-Antoine Adolescentes, jovens, direito e família: questionando saberes sobre proteção a direitos sexuais e reprodutivos Mary Garcia Castro Ingrid Radel Ribeiro Discussões de gênero e sexualidade no meio escolar e o lugar da jovem mulher no ensino médio Wivian Weller Iraci Pereira da Silva Nivaldo Moreira Carvalho

8 Participação juvenil e a dimensão dos direitos Os jovens podem falar? Sobre as possibilidades políticas de ser jovem hoje Lucia Rabello de Castro Notas sobre o passe livre e o poder e fazer de uma juventude Leo Vinicius Maia Liberato Hierarquias, sujeitos políticos e juventudes: os chamados movimentos juvenis circunscrevem um sujeito político na contemporaneidade? Marco Aurélio Maximo Prado Juliana Perucchi Juventude e saúde: concepções e políticas públicas Cássia Baldini Soares Sobre a participação da família no processo socioeducativo Hebe Signorini Gonçalves Vinte anos do Estatuto da Criança e do Adolescente e as políticas para infância e juventude Benedito Rodrigues dos Santos Juventude, pesquisa e extensão: interfaces, diálogos e possibilidades Sônia M. Gomes Sousa Sobre os autores

9 8 Prefácio O IV Jubra - Simpósio Internacional sobre Juventude Brasileira: juventudes contemporâneas, um mosaico de possibilidades, foi realizado nos dias 16 a 18 de junho de 2010 na PUC Minas com o objetivo de evidenciar a pluralidade da juventude e os diversificados olhares do campo das ciências e da sociedade sobre esse segmento, que apresenta múltiplas possibilidades como sujeitos que contribuem para a transformação social. A sua programação incluiu três dias de debates, com mesas-redondas, painéis e grupos de trabalho em torno de dez eixos temáticos, agregando pesquisadores brasileiros e estrangeiros, estudantes das mais diversas áreas, como psicologia, educação, ciências sociais, ciências da saúde e saberes afins; bem como profissionais dos campos da saúde, assistência social e educação; profissionais de ONGs, de fundações, de governo nos níveis municipal, estadual e federal e de associações da sociedade civil; lideranças jovens que estão à frente de grupos e redes, dentre outros. Nesse sentido, o IV Jubra significou um importante fórum para a discussão e a circulação de trabalhos de pesquisa e intervenção no campo das juventudes, além de contribuir para a consolidação do campo de estudos das juventudes no âmbito da pós-graduação brasileira. Podemos destacar a exposição e a circulação das produções oriundas da pós-graduação através da apresentação das pesquisas resultantes dos programas de pós-graduação, bem como da publicação desses trabalhos na forma dos resumos e textos completos e agora na forma desta coletânea, que divulga boa parte dos artigos apresentados nas mesas-redondas. Ao mesmo tempo, o Jubra acolheu os trabalhos de iniciação científica e, na sua estrutura de GT (Grupos de Trabalho), permitiu o contato de bolsistas de iniciação científica com os alunos da pós-graduação, o que contribui para a promoção da desejável articulação entre a pós-graduação e a graduação.

10 9 É importante destacar a participação de aproximadamente 150 jovens inseridos em Projeto de Extensão Universitária da PUC Minas Jubra Jovem. Esses jovens, organizados em pequenos grupos, iniciaram em março de 2010 um trabalho sobre a situação atual dos jovens, promovendo o diálogo e a reflexão crítica sobre a diversidade de práticas socio-históricas empreendidas por adolescentes e jovens no mundo contemporâneo. Estimulando o debate em torno das temáticas propostas pelo simpósio, apresentaram no IV Jubra o resultado de suas reflexões. Outro aspecto significativo foi o lançamento da Carta de Belo Horizonte (anexa), um manifesto dos pesquisadores reunidos solicitando o lançamento pelas agências de fomento à pesquisa de editais para pesquisa interdisciplinar especificamente voltados para o tema da juventude. Esperamos que esta coletânea possa contribuir para a disseminação das reflexões em torno da juventude, fortalecendo o movimento existente em prol dos direitos desse segmento da população, bem como para a ampliação e consolidação das políticas públicas voltadas para os jovens brasileiros. Os organizadores

11 10 Carta de Belo Horizonte O Jubra Simpósio Internacional sobre Juventude Brasileira é um evento acadêmico, interinstitucional e interdisciplinar que congrega pesquisadores brasileiros e estrangeiros para a discussão de pesquisas, programas e projetos sociais referentes à juventude. O objetivo primordial do evento é potencializar o fluxo de intercâmbios e ampliar a rede de cooperação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros que estudam a temática a partir de diferentes referenciais e campos de saber. Além disso, pretende também produzir em curto, médio e longo prazos impactos na produção de conhecimento e ampliar a troca de experiências acerca das ações públicas e da sociedade civil no sentido de garantia dos direitos dos adolescentes e jovens. O Jubra foi realizado pela primeira vez em outubro de 2004, na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. A iniciativa de realização partiu do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência Contemporâneas (Nipiac). Contou com o apoio institucional do Comitê de Pesquisa Sociológica da Juventude da ISA (International Sociological Association), do Observatoire Jeunes et Société Universidade de Quebec e do Comitê da Infância e Juventude da IUAES (International Union of Antropological and Ethnological Sciences). O Jubra, em sua IV edição, tem como tema central Juventudes contemporâneas: um mosaico de possibilidades, contando com um público composto por pesquisadores e estudantes de psicologia, educação, ciências sociais, ciências da saúde e saberes afins; bem como profissionais dos campos da saúde, assistência social e educação; profissionais de ONGs, de fundações, de governo nos níveis municipal, estadual e federal e de associações da socie-

12 11 dade civil, lideranças jovens que estão à frente de grupos e redes, entre outros, tendo em média 800 participantes e mais de 500 trabalhos inscritos. O Jubra tem contado com o apoio das instituições oficiais de fomento CNPq, Capes e das fundações estaduais de amparo à pesquisa. É um evento que vem se consolidando como um importante espaço para os pesquisadores da juventude. Considerando a importância da temática da juventude no contexto da realidade brasileira e a relevância da produção de conhecimento científico como subsídio para a elaboração de políticas públicas que respondam às demandas e necessidades das juventudes, os pesquisadores da área, reunidos neste IV Jubra, solicitam ao CNPq que lance um edital de pesquisa específico sobre a temática da juventude, de caráter interdisciplinar, para potencializar a produção científica na área. Belo Horizonte, 18 de junho de 2010.

13 12 Introdução Esta obra busca compreender a complexidade das juventudes brasileiras na contemporaneidade, para além dos marcadores etários. As juventudes são tomadas como uma categoria social transversalizada pelas categorias de gênero, de classe social, de etnia e de geração, dentre outras variáveis. Outro ponto que possibilita o diálogo entre os diversos autores é a consideração de que os processos de subjetivação dos jovens se desenvolvem em contextos socio-históricos nos quais são sujeitos ativos capazes de transformar esses contextos e, ao mesmo tempo, transformarem-se a si mesmos. Os diversos autores afirmam em suas reflexões os jovens como sujeitos em construção, mas sujeitos também do tempo presente e não somente como um vir-a-ser adulto. Os jovens vistos como portadores de direitos e seres políticos capazes de intervir no espaço coletivo revelam no cotidiano as contradições, os impasses e os antagonismos nas relações com os próprios pares e com os demais segmentos sociais, tornando visível, como um iceberg, a complexidade da sociedade contemporânea. Os artigos foram organizados em três blocos temáticos. No primeiro, encontramos os trabalhos cujo eixo de reflexão refere-se à produção social dos jovens, discutindo os processos de socialização em diferentes espaços institucionais, como a escola, o trabalho e a mídia, com suas contradições, possibilidades e limites. O segundo eixo trata da sexualidade, corpo e gênero e finalmente, no terceiro bloco, os autores se dedicam a compreender a participação política dos jovens, a relação das políticas públicas de saúde e de proteção destinadas aos jovens, o contexto de afirmação dos jovens pertencentes a um segmento social portador de direitos específicos. É o que vamos comentar a seguir.

14 13 A socialização dos jovens e os espaços institucionais Neste bloco foram agrupados os trabalhos que refletem sobre a produção social dos jovens, discutindo os processos de socialização em diferentes espaços institucionais, como a escola, o trabalho e a mídia, ou mesmo a participação em projetos sociais, com suas contradições, possibilidades e limites. A socialização da juventude O texto de Marcelo Urresti, Adolescentes, jóvenes y socialización: entre resistencias, tensiones y emergencias, reflete sobre as mutações existentes nos processos de socialização da juventude contemporânea, apontando os desafios e impasses existentes. Para o autor, vem ocorrendo um debilitamento das instituições socializadoras, o que aponta para um crescente processo de autossocialização das novas gerações, cada vez mais autônomas se as compararmos com as gerações anteriores. Mas, adverte ele, todo esse processo é contraditório, promovendo também a reprodução da desigualdade social em novos termos. Ao desenvolver o seu argumento, Urresti discute as fases da adolescência e da juventude como momentos específicos de transição para a vida adulta, marcados pela diversidade do contexto socioeconômico e cultural. Ao discutir as mutações existentes nos modos de ser jovem, faz uma recuperação histórica, situando a década de 1960 como um marco na construção contemporânea da juventude na sociedade ocidental. Para Urresti, as expressões das culturas juvenis, às quais dá especial atenção, tendem atualmente a uma proliferação de formas e de estilos que fragmenta o espaço cultural, no qual o alternativo, o minoritário e o disperso ganham cada vez mais relevo. É esse contexto, acrescido das transformações socioeconômicas, que explica o debilitamento da capacidade de socialização das instituições, dentre elas a família e a escola. Diante delas, ganham força os grupos de pares, a

15 14 indústria cultural, os meios audiovisuais e as tecnologias digitais, dentre outros, que facilitam o acesso a vozes múltiplas e a construção de mundos próprios e identidades compartilhadas. Nesse contexto, os jovens tendem a se tornarem independentes da opinião e do parecer dos adultos com os quais interagem, com uma equiparação nas condições de informação e formação e com a consequente redução das assimetrias com as gerações adultas. Todo esse processo interfere nas instituições como a escola, pela falta de interesse crescente dos jovens, ou o trabalho, no qual a ética da produção vem sendo substituída pela ética do consumo. Finalmente, Urresti nos adverte de que estamos diante de novas expressões da desigualdade social. Segundo o autor, em sociedades nas quais os recursos materiais, afetivos, didáticos etc. são escassos ou estão desigualmente distribuídos, as possibilidades das distintas juventudes inserirem-se socialmente tenderão a ser tão díspares quanto os suportes com os quais possam contar, sendo necessário redefinir os sentidos das instituições educativas. Com posições semelhantes a Urresti, Maria da Graça Setton reflete em seu artigo Sociabilidade juvenil, mídias e outras formas de controle social sobre a dinâmica do campo da socialização e, em decorrência, do campo das sociabilidades na contemporaneidade, discutindo a tensão entre os agentes sociais e buscando apreender a luta simbólica de valores existente entre eles. A autora parte de uma discussão sobre as transformações institucionais e culturais da realidade social contemporânea, evidenciando o ambiente social no qual o jovem encontra condições de forjar um sistema de referências que mescla as influências familiar, escolar e midiática, dentre outras. Um sistema de esquemas coerente, no entanto híbrido e fragmentado. Compreende assim a socialização do jovem e, como decorrência, sua sociabilidade entre os pares e com as mídias com base em uma perspectiva relacional de análise e, sobretudo, com o apoio do conceito de fenômeno social total, forjado por Marcel Mauss.

16 15 A autora sustenta a hipótese de que jovens, sociabilidade e consumo midiático podem encerrar tensas e intensas articulações entre subjetividades e coerção social. Para ela, no caso específico das investigações de ordem sociológica, a complexidade derivada da diversidade das dimensões estruturais e simbólicas do mundo social torna-se por vezes obscura, em função dos imponderáveis da ação e da criação dos sentidos dos sujeitos sociais. Isso posto, a sociabilidade jovem através do consumo midiático deveria ser pensada em sua ambiguidade constitutiva ora oferecendo margens para a construção de uma identidade jovem autônoma, ora fortalecendo o controle e a tirania do grupo de pares. As relações entre juventude e escola Dois artigos discutem as relações entre juventude e escola, com posições que se complementam. O primeiro deles, de Geraldo Leão, intitulado Entre sonhos e projetos de jovens, a escola... centra sua análise na realidade do ensino médio brasileiro, evidenciando os limites da escola pública na sua tarefa de garantir o acesso a uma educação de qualidade como um direito de todos os jovens. Ao desenvolver o seu argumento, Leão constata a expansão da escolarização, em especial do ensino médio, ocorrida no Brasil a partir dos anos 1990, o que gerou, dentre outras consequências, a entrada de um novo contingente de jovens alunos que antes não tinham acesso a esse nível de ensino. Passam a trazer para o interior da escola as tensões e contradições de uma sociedade marcada pela desigualdade. Nesse sentido, evidencia o autor, um dos desafios da escola pública é reconhecer o jovem existente no aluno, ou seja, as trajetórias juvenis, suas práticas sociais e culturais, sua relação com o mundo do trabalho, com os amigos e com o lazer, dentre outras dimensões, como condição para compreender os sentidos, motivações, atitudes e práticas que desenvolvem na sua inserção em processos educativos, que é muito diferente dos jovens alunos das gerações anteriores.

17 16 Ao mesmo tempo, denuncia as contradições existentes nesse processo de expansão do ensino médio, no qual persistem os altos índices de desigualdade social. Esta aparece na precariedade da estrutura física e do funcionamento das escolas, na precarização da condição docente, dentre outros fatores que apontam para a existência de uma pedagogia da precariedade. Conclui que a expansão da escolarização no Brasil representou muito mais um quadro de massificação da educação, de expansão do acesso, do que um processo real de democratização. Nesse contexto, passa a analisar a relação dos jovens com a escola, evidenciando que as motivações e sentidos em relação à escola parecem resultar da conjugação entre o quadro mais amplo das relações sociais em que eles se inserem e aspectos ligados à trajetória individual e familiar. Dependendo dos suportes a que têm acesso via apoio familiar, redes sociais e institucionais, os jovens podem tecer diferentes modos de ser estudante, expressando um continuum diferenciado de posturas na sua relação com a escola. Sobre os projetos de futuro, constata que os jovens manifestam uma gama diferenciada de desejos e sonhos, uma diversidade de projetos, sentidos e motivações que pode ser a expressão dos conflitos de uma sociedade que expandiu a escolaridade e o consumo, mas no contexto de baixas perspectivas de mobilidade social, na qual persiste a reprodução da desigualdade social. A escola pública, conclui o autor, parece estar diante de um dilema. Ela pode continuar prometendo ser um passaporte para um futuro distante, do qual os jovens desconfiam, tendo em vista que a sua experiência lhes ensina que o futuro é incerto nessa sociedade. Por outro lado, ela pode ser uma referência para os jovens, o lugar de acolher e discutir com eles seus medos, angústias, dilemas e alternativas. Para isso, um primeiro passo seria reconhecer os jovens alunos nas suas especificidades e identidades. Em outra perspectiva analítica, o artigo de Mônica Peregrino, Juventude e escola: elementos para a construção de duas abordagens, ao tratar também da relação dos jovens com a escola, chega a conclusões semelhantes às de Leão, principalmente no que diz respeito à produção das desigual-

18 dades escolares. A autora busca analisar as consequências da expansão da escolarização ocorrida no Brasil no ponto de vista dos jovens, perguntandose sobre os tipos possíveis de escola que surgiram com tal expansão e sobre as experiências de escolarização que tal instituição passou a proporcionar. Ao mesmo tempo, pergunta-se em que medida a escola amplia as possibilidades de experimentação da condição juvenil. A análise de Peregrino nos mostra que o processo de expansão escolar das últimas décadas é baseado na lógica do fazer mais com menos, a exemplo de Leão, fazendo com que a expansão das vagas pela aceleração dos processos de aprendizagem e do tempo de habitação da escola pelo jovem antes excluído desta não agregue valor aos processos de escolarização. Dessa forma cria-se, dentro das instituições, uma espécie de habitação escolar sem escolarização, constatando-se que a expansão da escolarização, nessa lógica, vem perpetuando a reprodução das desigualdades escolares. Segundo a autora, uma das formas mais importantes de manifestação de tais desigualdades refere-se à existência, dentro de um mesmo espaço institucional, de modos diversos de escolarização, seja o modo pleno ou o precário. Esses modos implicam trajetórias diferentes e desiguais no interior de uma mesma instituição e possibilidades desiguais de apropriação dos conhecimentos que a escola devia, por princípio, disseminar, de acordo com o modo de escolarização ao qual se é submetido. Nesse sentido, a escola estaria instalando uma nova forma de desigualdade, indicando possibilidades desiguais de enraizamento institucional, e, portanto, disponibilidade desigual e limitada de incorporação dos jovens por parte da instituição. A partir daí Peregrino se pergunta pelo lugar que essa escola ocupa na vida dos jovens. Para a autora, a escola ocupa um lugar importante principalmente na sua relação com outras instituições igualmente importantes nos processos de transição dos jovens para a vida adulta. Constata que a experiência de escolarização, combinada a outras variáveis, a outras modalidades institucionais, produz efeitos diversos, mesmo quando se tomam como referência posições sociais semelhantes. 17

19 18 Juventude, trabalho e participação Outra instância de socialização analisada nesse bloco é o trabalho, no artigo Juventude, trabalho e educação: crônica de uma relação infeliz em quatro atos de Naira Lisboa Franzoi. Nele, a autora busca analisar a relação entre juventude, trabalho e educação, discutindo a histórica negação das especificidades do trabalho e do aluno trabalhador pela escola pública, as complexas relações entre a qualificação profissional e a inserção no mundo do trabalho, as modalidades de oferta de ações de qualificação profissionais escolares e não escolares para jovens e as possíveis relações com a escola. Finalmente, analisa algumas experiências exitosas de educação profissional, apontando certos elementos para uma formação integral dos jovens na sua relação com o mundo do trabalho. Ao longo do texto, a autora reitera as análises de Leão e Peregrino ao evidenciar que a escola pública, composta em grande parte por alunos trabalhadores, não leva em conta no seu cotidiano a realidade do trabalho, muito menos as demandas e necessidades dos jovens alunos, reproduzindo no seu interior a histórica negação do trabalho na tradição cultural brasileira. Essa realidade reforça a ausência de sentido da escola para os jovens, que projetam um futuro melhor através das credenciais escolares, mas não conseguem conectá-lo ao presente. Para Franzoi, os jovens alunos trabalhadores são estrangeiros em uma escola que não fala sua língua. A falta de opções de uma educação profissional pública de qualidade tende a empurrar boa parte dos jovens para qualquer curso de qualificação profissional, grande parte deles de qualidade duvidosa. A autora constata que, embora busquem a profissão desejada no plano de suas iniciativas formativas, as condições objetivas não são favoráveis a ponto de permitirem alcançá-la no plano de sua inserção no mercado de trabalho. Significa dizer que a relação entre formação e emprego não é linear, e as credenciais e a formação atuam de modo diferente segundo redes de pertença social, cultural, familiares ou locais, dentre outras variáveis. Para Franzoi, a certificação

20 adquirida nesses espaços se assemelha a uma senha para uma fila de espera que pode não chegar ao seu fim ou que pode apontar em uma direção bastante diferente daquela para a qual o indivíduo se preparou. Finalmente Franzoi analisa algumas experiências educativas consideradas exitosas, evidenciando que a escola pública pode vir ao encontro das demandas e anseios dos jovens e que é necessária uma vontade política para que o novo possa nascer do velho. Ao descrever algumas dessas experiências, ela vai pontuando alguns aspectos considerados essenciais. Em termos mais gerais, lembra a autora, é fundamental um reforço na oferta de ensino técnico de nível médio e de ensino médio integrado e, nestes, criar uma rede de suporte aos jovens alunos, por meio de bolsas associadas a estágios efetivamente supervisionados e/ou outros tipos de auxílio, como alimentação, transporte, entre outros. Em termos da organização curricular, ela pontua a necessidade de formar os jovens não apenas para o consumo ou adaptação de tecnologias, mas também para a sua produção. Nesse sentido, torna-se necessário educar cidadãos capazes de intervir, em diferentes níveis, nos rumos dados à sua produção e utilização. Outro aspecto é a necessidade de superar a visão reduzida de ensino para articular, de forma orgânica, o ensino e a pesquisa produzida no próprio processo de formação. Acrescenta-se ainda a importância da formação cultural dos jovens, em uma articulação entre ciência, tecnologia e cultura, levando para a escola pontos de contato com a identidade juvenil. Conclui evidenciando a importância de a escola deslocar a ênfase das carências dos alunos, daquilo que lhes falta, para o que os alunos já trazem, para as suas experiências socioculturais, ou seja, reforça a posição de Leão ao lembrar a necessidade de a escola reconhecer o jovem existente no aluno. Finalmente, o último artigo desse bloco, Participación en proyectos y desarrollo integral de adolescentes y jóvenes, de Olga Niremberg, trata da participação dos jovens em projetos sociais, um âmbito muito presente na socialização dos jovens, principalmente dos mais pobres, trazendo uma rica reflexão sobre possíveis critérios para sua avaliação. 19

21 20 Ao desenvolver seus argumentos, a autora faz uma crítica às formas reduzidas de compreensão da juventude como etapa de preparação para a vida adulta ou a sua patologização, advogando a compreensão dessa fase da vida na sua diversidade, com ênfase nas suas potencialidades. A autora, ao analisar e avaliar projetos sociais na América Latina, ressalta algumas categorias que deveriam estar presentes nas ações socioeducativas. Uma delas é a resiliência, entendida como a capacidade humana para enfrentar, superar, aprender, fortalecer-se e transformar-se a partir das situações mais adversas. Associado a ela, propõe o enfoque de habilidades para a vida como uma estratégia sinérgica para enfrentar riscos e adversidades e contribuir para o desenvolvimento integral dos jovens. Depois de discutir a importância da noção de capital social e capital humano nos projetos sociais, a autora defende a necessidade de estratégias para favorecer o empoderamento dos jovens, como meio de alcançar níveis mais altos de autonomia e liberdade, possibilitando a construção da cidadania pelos próprios jovens. Para Niremberg, os projetos e programas sociais, ao assumir tais categorias, poderiam constituir espaços de oportunidade para a inserção social dos jovens, contribuindo para a tomada de consciência, realização e disseminação de seus direitos, significando o início de um processo participativo mais geral e criador de sentido, além de um espaço de exercício de valores e práticas democráticas. A partir daí a autora discute a importância da participação efetiva dos jovens no cotidiano das ações educativas, descentralizando os núcleos de poder no interior das instituições e incorporando o olhar e a voz dos jovens, gerando novas formas de vínculo e envolvimento deles no cotidiano. Finalmente Niremberg levanta vários atributos desejáveis para os programas e projetos voltados para os jovens, que podem servir como um guia na avaliação de projetos sociais e para o debate em torno das políticas públicas de juventude. Sexualidade, gênero e violência Os textos agrupados nesse bloco tratam da sexualidade, em especial da masculina, da questão do gênero na sociedade brasileira e finalmente de algumas manifestações da violência.

22 21 Como vimos em artigos anteriores desta coletânea, uma ideia frequente sobre juventude é que o sujeito, nessa fase da vida, é um vir-a-ser, pois ainda não é maduro o suficiente para decidir os seus destinos, nem é responsável para sustentar suas decisões. Dessa forma, ele precisa ser tutelado, seja pela família, pela escola e/ou pelo Estado. Nessa visão, a juventude é considerada uma fase de transição, um momento de preparação para a vida adulta, o que determina representações, práticas sociais e até políticas públicas direcionadas a esse público. Mas ao percebermos que os jovens já são sujeitos, quais os impactos e impasses dessa representação em seus cotidianos? Como pensar o exercício da sexualidade e o uso do corpo que os jovens estabelecem? A masculinidade entre jovens Em dois artigos a tônica refere-se à masculinidade entre jovens, abordados de forma diferenciada. O trabalho de Rubens de Camargo Ferreira Adorno e Geraldo Pereira da Silva Júnior, Visibilidade e invisibilidade do trabalho de garotos de programa, traz a pesquisa realizada com jovens garotos de programa moradores de bairros periféricos de São Paulo. Ele mostra que, no espaço das cidades, muitas vezes, os jovens costumam ter visibilidade, apresentando-se como sujeitos ativos, ora em posições valorizadas socialmente, ora em posições discriminadas. Todavia, também há jovens que podem passar despercebidos, invisíveis, como são os garotos de programa. Apesar de atualmente haver um reconhecimento institucional relativo aos profissionais do sexo categoria em que os garotos de programa podem ser inseridos não há um reconhecimento moral, o que, somado a outros aspectos, contribui para a invisibilidade desses jovens. A invisibilidade também ganha contornos nas relações pessoais dos garotos de programa, na medida em que a família e os amigos desconhecem sua atividade, marcando, mais uma vez, o não reconhecimento moral da atividade. Finalmente, outro aspecto que parece contribuir para

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