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1 AGATHA CHRISTIE UM CORPO NA BIBLIOTECA Tradução EDILSON ALKMIN CUNHA Título do original em inglês: THE BODY IN THE LIBRARY Copyright Agatha Christie 1942 Copyright desta edição DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A., 1987 Publicado sob licença da

2 EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Direitos desta edição DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina Rio de Janeiro, RJ Tel.: Impresso no Brasil Distribuição exclusiva para bancas de jornais FERNANDO CHINAGLIA DISTRIBUIDORA S.A. Rua Teodoro da Silva 907 Rio de Janeiro, RJ Tel.: Contra Capa: UM CORPO NA BIBLIOTECA Você quer dizer perguntou o Coronel Bantry que há um cadáver na minha biblioteca... na minha biblioteca? Como o corpo de uma moça desconhecida fora parar na biblioteca dos Bantry? E por que teria ela sido assassinada? Miss Jane Marple, ligando acontecimentos triviais da aldeia com problemas mais graves, desvenda esse terrível mistério e responde a essas aparentemente insolúveis perguntas. PREFÁCIO DA AUTORA Há certos chavões que pertencem a determinados tipos de ficção. O mau e ousado baronete no melodrama, o corpo na biblioteca na ficção policial. Durante muitos anos estudei a possibilidade de uma adequada Variação do Conhecido Tema. Propusme certas condições. A biblioteca em questão deveria ser uma biblioteca altamente ortodoxa e convencional. O cadáver, de outro lado, deveria ser um corpo extravagantemente fantástico e extremamente sensacional. Esses eram os termos do problema, mas durante alguns anos permaneceram como tais, representados apenas por algumas linhas mal redigidas num caderno de exercícios. Depois, veraneando por alguns dias num elegante hotel à beira-mar, observei uma família a uma das mesas da sala de jantar; um senhor idoso, paralítico, numa cadeira de rodas, e com ele pessoas da família uma geração mais jovem. Felizmente partiram no dia seguinte, de modo que minha imaginação pôde trabalhar sem o embaraço de qualquer espécie de conhecimento. Quando me perguntam: A senhora põe pessoas reais em seus livros? respondo que para mim é inteiramente impossível escrever sobre qualquer pessoa que eu conheça, ou mesmo com quem tenha conversado, ou de quem apenas tenha ouvido falar! Não sei por que motivo, isso é o suficiente para destruí-los completamente. Todavia, posso tomar um manequim e dotá-lo de qualidades e idéias concebidas por mim. Assim um senhor idoso e paralítico tornou-se o pivô da história. O Coronel e a Sra. Bantry, amigos íntimos de minha Miss Marple, tinham apenas a espécie de biblioteca que eu queria. À maneira de uma receita culinária acrescentem-se os seguintes ingredientes: um instrutor de tênis, uma jovem dançarina, um artista uma jovem guia, uma recepcionista de um salão de dança etc., e sirvam-se à la Miss Marple!

3 Agatha Christie Para meu amigo Nan CAPÍTULO 1 A SRA. BANTRY estava sonhando. Suas ervilhas de cheiro tinham sido classificadas no primeiro lugar na exposição de flores. O pároco, de batina e sobrepeliz, distribuía os prêmios na igreja. Sua esposa perambulava por perto, vestida num roupão de banho, mas como sói acontecer nos sonhos, esse fato não provocou a desaprovação do pároco como certamente o leria feito na vida real... A Sra. Bantry deleitava-se no seu sonho. De modo geral adorava os sonhos ao amanhecer, que terminavam com a chegada do café da manhã. Em alguma parte de sua consciência mais profunda, percebia os ruídos domésticos no início da manhã. O guizo das argolas da cortina das escadas, quando a empregada as corria, os ruídos da pá de lixo e da vassoura da segunda empregada no passeio da casa. A distância, o barulho pesado do ferrolho da porta da frente, ao ser puxado. Começava mais um dia. Entrementes, devia retirar todo prazer possível da exposição de flores pois a sensação de que tudo não passava de um sonho começava a se manifestar... Lá embaixo, fazia-se ouvir o ruído das grandes venezianas de madeira, da sala, que estavam sendo abertas. Ela ouvia e, não obstante, não ouvia. Por mais uma meia hora os ruídos domésticos continuariam, discretos, abafados, que não perturbavam por serem tão familiares. Culminariam num som rápido e controlado de passos no corredor, o guizo de atavios, o tinido abafado do serviço de chá quando a bandeja era colocada sobre a mesa lá fora, em seguida a batidas de leve na porta e a entrada de Mary para abrir as cortinas. Em seu sono a Sra. Bantry franziu o cenho. Algo de perturbador estava perpassando por seu sonho, algo fora de hora. Pisadas pelo corredor, passos apressados demais e tão cedo. Seus ouvidos ouviam inconscientemente o tinido de louça, mas não havia tinido de louça. Bateram na porta. Do fundo de seus sonhos, a Sra. Bantry disse automaticamente: Entre. Abriu-se a porta. Agora ouviria os guizos das argolas da cortina. Da luz verde fraca veio a voz de Mary, sem fôlego, histérica. Oh, que coisa horrível, há um corpo na biblioteca. E em seguida, com um acesso histérico de soluços, saiu correndo do quarto. 2 A Sra. Bantry assentou-se na cama. Ou seu sono tinha tomado um rumo estranho ou coisa que valha, ou realmente Mary tinha entrado ali correndo e teria dito (incrível, fantástico!) que havia um corpo na biblioteca. Impossível, disse a Sra. Bantry para si mesma. Devo ter sonhado. Mas mesmo ao afirmar isso, sentiu-se ainda mais certa de que não estivera dormindo, que Mary, sua Mary autocontrolada e superior, tinha realmente dito aquelas terríveis palavras. A Sra. Bantry refletiu por alguns instantes e em seguida com e cotovelo conjugal cutucou seu marido ainda adormecido. Arthur, Arthur, acorde. O Coronel Bantry grunhiu, resmungou e virou-se para o outro lado. Arthur, levante-se. Não ouviu o que ela disse?

4 Talvez respondeu o Coronel Bantry indistintamente. Concordo com você, Dolly. E caiu de novo no sono. A Sra. Bantry o sacudiu. Você deve ter ouvido. Mary entrou aqui e disse que há um corpo na biblioteca. Há o quê? Um corpo na biblioteca. Quem disse isso? Mary. O Coronel Bantry reuniu todos os seus sentidos dispersos e procurou inteirar-se da situação. Tolice, minha velha disse ele. Você deve ter sonhado. Não, não estava sonhando. No início, realmente, pensei que estivesse. Mas não estava. Mary de fato entrou e disse isso. Mary entrou e disse que havia um corpo na biblioteca? Disse. Mas não, não pode ser. Mas então por que Mary disse que havia? Ela não pode ter dito. Disse. Você deve ter imaginado isso. Não, não é imaginação minha. O Coronel Bantry estava agora completamente acordado e preparado para avaliar a situação real. Você esteve sonhando, Dolly disse ele bondosamente. É tudo. É aquele conto policial que você estava lendo. A Pista do Pau de Fósforo Quebrado. Lord Edgbaston encontra o lindo corpo de uma loura sobre o tapete da biblioteca. Corpos estão sendo sempre encontrados nas bibliotecas, nos livros. Nunca soube de um caso real. Talvez desta vez você verá disse a Sra. Bantry. De qualquer maneira, Arthur, levante-se e vá ver. Ora, Dolly, deve ter sido um sonho. Os sonhos muitas vezes são tão maravilhosamente vivos, que ao acordar nos parecem uma realidade. Eu estava tendo um sonho muito diferente. Era uma exposição de flores e a mulher do pároco vestida num roupão de banho. Mais ou menos isso. Com uma súbita manifestação de energia, a Sra. Bantry pulou da cama e puxou as cortinas. A luz de um lindo dia de outono invadiu o quarto. Não foi sonho coisa nenhuma disse ela firmemente. Levante-se logo, Arthur, desça e vá ver isso. Você quer que eu desça para perguntar se há um cadáver na biblioteca? Não precisa perguntar nada respondeu a Sra. Bantry. Se houver um corpo na biblioteca e, naturalmente, é bem possível que Mary tenha ficado louca e pense que viu coisas que não existem... alguém lhe dirá logo. Você não precisará dizer nada. Resmungando, o Coronel Bantry vestiu seu roupão e saiu do quarto. Caminhou pelo corredor e desceu a escada, ao pé da qual se acotovelava um pequeno grupo de criadas, algumas delas soluçando. O mordomo adiantou-se com um ar impressionante. Graças a Deus o senhor veio, patrão. Tinha ordenado que nada fosse feito antes de o senhor chegar. Acha que eu já deveria ter chamado a Polícia? Chamar a Polícia? Para quê? O mordomo lançou um olhar de repreensão para uma jovem que estava chorando histericamente no ombro da cozinheira. Eu pensei que Mary já o tivesse informado, patrão. Ela me disse que o fizera. Mary falou ofegante.

5 Eu estava tão excitada que não sei o que disse. Lembrei-me de tudo de novo e minhas pernas começaram a tremer e vi tudo embaralhado. Encontrar uma coisa daquelas... oh, oh, oh! E apoiou-se de novo no ombro da Sra. Eccles, que dizia para tranqüilizá-la: Acalme-se, acalme-se, minha filha. Mary, como é natural, está muito agitada, patrão, tendo sido ela a autora da descoberta macabra explicou o mordomo. Entrou na biblioteca, como de costume, para correr as cortinas e... quase tropeçou no corpo. Você quer dizer perguntou o Coronel Bantry, que há um cadáver na minha biblioteca... na minha biblioteca? O mordomo tossiu. Talvez fosse bom o senhor ir ver pessoalmente. 3 Alô, alô, posto policial. Sim, quem está falando? O policial Palk com u a mão abotoava sua farda e com a outra segurava o fone. Sim, é da Polícia de Gossington. Como? Oh, bom dia, senhor. O tom de voz do policial passou por uma ligeira modificação. Tornou-se menos impaciente, reconhecendo a voz do generoso patrono dos esportes da Polícia e do principal magistrado do distrito. Às suas ordens, senhor. Em que lhe posso ser útil?... Desculpe, mas não compreendi bem... o senhor disse um corpo?... Sim. Sim, como o senhor preferir... Está bem, senhor... O senhor disse... uma jovem que não conhece?... Está bem. Pode deixar tudo por minha conta. O policial repôs o fone no suporte, tirou um longo assobio e começou a discar o número de seu superior. A Sra. Palk espiou da cozinha de onde vinha o cheiro apetitoso de bacon frito. O que é que há? A coisa mais estranha que já se ouviu respondeu o marido. Foi encontrado o corpo de uma jovem em Hall. Na biblioteca do Coronel. Assassinada? Estrangulada, conforme disse ele. Quem era ela? Diz o Coronel que nunca a viu. Mas então o que estava fazendo na biblioteca? O policial Palk fê-la calar com um olhar de repreensão e começou a falar de modo oficial pelo telefone. Inspetor Slack? Aqui fala o Palk. Acabo de ser informado de que foi achado hoje, às sete e quinze, o corpo de uma jovem... 4 O telefone de Miss Marple tocou enquanto ela se vestia. A chamada a excitou um pouco. Seu telefone não costumava tocar àquela hora. Sistemática e afetada em sua vida de solteirona, uma chamada imprevista era uma fonte de vivida conjetura. Deus meu disse Miss Marple, olhando perplexa para o aparelho que soava. Quem será? Das nove às nove e trinta da noite era a hora de praxe na aldeia para as conversas telefônicas, resultando sempre planos para o dia seguinte, convites e assim por diante. O açougueiro tinha o costume de chamar um pouco antes das nove, no caso de ocorrer

6 alguma coisa no mercado de carne. Durante o dia o telefone podia tocar ocasionalmente, embora fosse considerado pouco delicado fazer chamadas à noite, depois das nove e meia. Era verdade que um sobrinho de Miss Marple, um escritor, e por conseguinte excêntrico, tinha o costume de chamar nas horas mais inconvenientes, às vezes mesmo por volta da meia-noite. Mas quaisquer que fossem as excentricidades de Raymond West, levantar-se cedo não era uma delas. Nem ele nem ninguém do conhecimento de Miss Marple tinha costume de telefonar antes das oito da manhã. Realmente, faltavam quinze para às oito. Cedo demais, mesmo para um telegrama, uma vez que o telégrafo não abria antes das oito da manhã. Deve ser engano decidiu Miss Marple. Tendo assim decidido, dirigiu-se ao aparelho, impaciente, e o fez calar, retirando o fone. Alô disse ela. É você, Jane? Miss Marple ficou muito surpresa. Sim, é Jane. Você se levanta muito cedo, Dolly. A voz da Sra. Bantry chegava trêmula e agitada. Aconteceu a coisa mais pavorosa. O quê, querida? Acabamos de encontrar um corpo na biblioteca. Miss Marple achou por alguns instantes que sua amiga tinha ficado maluca. Vocês encontraram o quê? Eu sei. Ninguém acredita, não é? Eu também pensava que essas coisas só aconteciam nos livros. Tive que discutir longamente com Arthur esta manhã até que ele resolvesse descer e ir ver. Miss Marple procurava controlar-se. Perguntou quase sem fôlego: Mas de quem é o corpo? É uma loura. Uma o quê? Uma loura. Uma linda loura... como nos livros também. Ninguém aqui de casa a conhece. Mas lá está, estendida na biblioteca, morta. É por isso que você precisa vir aqui imediatamente. Você quer que eu vá aí? Sim, estou mandando o carro apanhá-la. Está bem, querida disse Miss Marple indecisa, se acha que posso confortála... Oh, não, não preciso de conforto. Mas você é muito competente em matéria de cadáveres. Oh, não, por favor, Dolly. Meus modestos sucessos têm sido na sua maioria teóricos. Mas você é a tal em assassinatos. Ela foi estrangulada, sabe? Tenho a impressão de que se alguém quisesse ter um assassinato em sua própria casa, a oportunidade não poderia ter sido melhor. Não sei se está-me compreendendo. É por isso que quero que venha ajudar-me a descobrir quem fez isso e esclarecer todo o mistério. É realmente excitante, não acha? Bem, é claro, querida, se é que lhe posso ser de alguma utilidade. Ótimo. Arthur está-se tornando difícil. Parece pensar que eu não deveria alegrarme com isso. Sei, é claro, que é muito triste e tudo, mas não conheço a jovem e quando você a vir compreenderá o que quero dizer quando afirmo que ela não parece real. 5

7 Um pouco afobada, Miss Marple saiu do carro dos Bantrys, cuja porta lhe foi aberta pelo motorista. O Coronel Bantry surgiu nos degraus da entrada e parecia um tanto surpreso. Miss Marple?... prazer em vê-la. Sua mulher me telefonou explicou Miss Marple. Ótimo, ótimo. Dolly precisa ter alguém com ela. Caso contrário sofrerá um colapso. Por enquanto está-se fazendo de forte mas a senhora sabe o que é... Naquele momento apareceu a Sra. Bantry que exclamou: Vá acabar de tomar seu café, Arthur. O bacon está esfriando. Pensei que fosse o inspetor que estivesse chegando explicou o Coronel Bantry. Ele não vai demorar disse a Sra. Bantry. É por isso que acho bom ir tomar seu café primeiro. Você precisa alimentar-se. Você também. É melhor ir para dentro comer alguma coisa Dolly... Irei nesse instante disse a Sra. Bantry. Vá, Arthur. O Coronel Bantry foi enxotado para dentro como uma galinha recalcitrante. Finalmente! disse a Sra. Bantry com uma entonação de triunfo. Vamos, entre. Ela tomou rapidamente a dianteira no corredor, dirigindo-se para o lado oriental da casa. Do lado de fora da porta da biblioteca estava de guarda o policial Palk, que interceptou a Sra. Bantry com um ar de autoridade. Sinto muito, madame, mas ninguém pode entrar. São ordens do Inspetor. Bobagem, Palk disse a Sra. Bantry. O senhor sabe perfeitamente quem é Miss Marple. O policial Palk confessou que não conhecia Miss Marple. É muito importante que ela veja o corpo disse a Sra. Bantry. Deixe de bobagem, Palk. Afinal de contas, a biblioteca é minha, não é? O soldado afastou-se. Era velho seu hábito de ceder a pessoas importantes. O Inspetor não pode jamais saber disso, pensava ele. Nada deve ser tocado ou manuseado advertiu, às senhoras. É claro que não disse a Sra. Bantry impaciente. Sabemos disso. O senhor pode entrar e vigiar, se quiser. Palk beneficiou-se dessa permissão. De qualquer maneira tinha sido sua intenção. A Sra. Bantry conduziu sua amiga triunfantemente pela biblioteca na direção da grande lareira já fora de moda. Eis ali! disse ela com o sentimento dramático de clímax. Miss Marple compreendeu então exatamente o que sua amiga quisera expressar quando dissera que a moça morta não parecia real. A biblioteca era uma sala muito característica de seus proprietários: ampla, gasta e desordenada. Tinha uma grande poltrona já decadente; cachimbos, livros e documentos cobriam uma mesa imensa. Havia um ou dois velhos retratos da família nas paredes e péssimas aquarelas vitorianas com algumas cenas de caça pretensamente engraçadas. Havia um grande vaso de ásteres num canto da sala, que era sombria, simples e descuidada. Ela falava de uma longa ocupação, do uso familiar e de vínculos com a tradição. E de lado a lado do tapete central de pele de urso jazia estatelado algo de novo, rude e melodramático. A figura extravagante de uma jovem. Uma jovem com uma cabeleira de beleza artificial que lhe caía sobre o rosto em cachos e anéis. Seu corpo franzino trazia um vestido toalete de cetim, sem costas, de cor branca reluzente. O rosto estava grosseiramente pintado, o pó sobressaindo grotescamente sobre a pele inchada e azulada. A base da maquilagem permanecia espessa sobre as maçãs do rosto desfigurado; o vermelho vivo dos lábios parecia um corte profundo. As unhas das mãos estavam pintadas com esmalte vermelho escuro, como também os dedos dos pés,

8 metidos num par de ordinárias sandálias cor de prata. Era uma figura comum, espalhafatosa, extravagante, mais do que imprópria naquele ambiente austero e antiquado da biblioteca do Coronel Bantry. Está vendo agora o que quis dizer? Não parece verdadeiro! disse a Sra. Bantry em voz baixa. A velha senhora a seu lado assentiu com a cabeça. Ficou contemplando pensativa a figura mal posta. No fim disse em tom moderado: Era muito jovem. Sim, sim, acho que era. A Sra. Bantry parecia quase surpresa como quem faz uma descoberta. Miss Marple curvou-se. Não tocou na moça. Olhou os dedos que apertavam freneticamente a gola do vestido, como se o tivesse rasgado em sua última luta frenética pelo ar. Ouviu-se o barulho de um carro que rangeu sobre o cascalho do lado de fora. Deve ser o Inspetor... disse o policial Palk afobado. Confirmando sua arraigada convicção de que pessoas de bem não nos desapontam, a Sra. Bantry dirigiu-se imediatamente à porta, seguida de Miss Marple. Não haverá problemas, Palk disse a Sra. Bantry. Palk sentiu-se imensamente aliviado. 6 Deglutindo os últimos fragmentos de torrada e marmelada com um gole de café, o Coronel Bantry saiu correndo para o saguão e respirou aliviado ao ver o Coronel Melchett, Chefe de Polícia do município, descendo do carro acompanhado do Inspetor Slack. Melchett era amigo do Coronel. Quanto a Slack, nunca lhe tinha sido apresentado. Era um homem forte que contradizia o seu próprio nome, que em inglês significa indolente, e que acompanhava suas atitudes dinâmicas com uma boa dose de desconsideração para com os sentimentos de quem quer que fosse, desde que não os julgasse importantes. Bom dia, Bantry disse o Chefe de Polícia. Achei que seria melhor vir logo. Isso me parece um caso fora do comum. É... é, sim o Coronel Bantry procurava expressar-se É incrível... absurdo! Tem alguma idéia de quem seja a mulher? Não faço a menor idéia. Nunca a vi em minha vida. O mordomo sabe de alguma coisa? perguntou o Inspetor Slack. Lorrimer está tão surpreso quanto eu. Ah! disse o Inspetor Slack. É estranho. O café está servido, Melchett. Não quer tomar alguma coisa? Não, não. É melhor irmos logo ao trabalho. Haydock deverá estar aqui a qualquer momento. Ah, está chegando. Outro carro parou e dele saiu um homem grande e espadaúdo, o Dr. Haydock, que era também médico da Polícia. Um segundo carro da Polícia tinha descarregado dois homens vestidos em trajes simples, um deles com uma câmera fotográfica. Tudo pronto? perguntou o Chefe de Polícia. Ótimo. Vamos ver. Na biblioteca, conforme me disse Slack. O Coronel gemeu. Incrível! Você sabe quando minha mulher insistiu esta manhã em que a empregada tinha entrado no quarto e dito que havia um corpo na biblioteca, eu não quis acreditar nela. É claro, posso compreender perfeitamente. Espero que sua esposa não tenha ficado muito sobressaltada com isso.

9 Ela se comportou maravilhosamente. Realmente, de modo admirável. Convidou sua velha amiga, Miss Marple, a vir aqui. Ela é lá da aldeia, sabe? Miss Marple? formalizou-se o Chefe de Polícia. Por que mandou chamála? Oh, as mulheres sempre precisam de outra para tagarelar, não acha? O Coronel Melchett disse com um certo sorriso de mofa: Se quer minha opinião, sua esposa vai querer bancar a detetive amadora. Miss Marple é a perfeita investigadora local. Ela já nos passou a perna, uma vez, não foi, Slack? Aquilo foi diferente disse o Inspetor Slack. Diferente de quê? Daquela vez era um caso local, Sir. A velha sabe de tudo que se passa na aldeia, isso é verdade. Mas aqui ela não tomará pé. Nem você sabe muito a respeito desse caso, Slack disse Melchett secamente. Ah, espere, chefe. Não vou precisar de muito tempo para esclarecer tudo. 7 Na sala de jantar, a Sra. Bantry e Miss Marple tomavam, por sua vez, o café da manhã. Depois de servir à sua hóspede, disse a Sra. Bantry com insistência. Que tal, Jane? Miss Marple levantou a vista e olhou para ela perplexa. A Sra. Bantry perguntou esperançosa: Isso não a faz lembrar de alguma coisa? Miss Marple tinha-se tornado famosa por sua capacidade de ligar acontecimentos triviais da aldeia com problemas mais graves, a ponto de lançar luz sobre os últimos. Não respondeu Miss Marple pensativa. Não posso dizer se me lembro de algo, no momento. Pensei na caçula da Sra. Chetty, Edie, você a conhece. Mas acho que foi somente porque essa pobre moça mordia unhas e por ter os dentes da frente um pouco para fora. Nada mais do que isso. E, é claro continuou Miss Marple, acompanhando a comparação. Edie adorava também o que eu chamo de coisas baratas. Você se refere ao seu vestido? perguntou a Sra. Bantry? Sim, um cetim de mau gosto, de qualidade inferior. Eu sei disse a Sra. Bantry. Uma dessas lojinhas imundas, onde tudo é vendido por ninharias. Deixe ver continuou esperançosa, o que aconteceu a Edie da Sra. Chetty. Ela acaba de ir para o segundo lugar e está indo muito bem, creio. A Sra. Bantry sentiu-se um pouco desapontada. O paralelo da aldeia não lhe parecia muito promissor. O que não posso compreender disse a Sra. Bantry é o que estaria fazendo no escritório de Arthur. A janela foi forçada, disse-me Palk. Ela poderia ter entrado aqui com um ladrão e depois os dois brigaram... mas isso parece não ter sentido, não é? Ela não estava adequadamente vestida para um roubo disse Marple pensativa. Não, ela estava vestida para um baile ou para alguma festa. Mas não há nada disso aqui, nem por perto. Não, não há disse Miss Marple em tom de dúvida. A Sra. Bantry empolgou-se. Você tem alguma idéia, Jane. É, estava apenas pensando.. Em quê? Em Basil Blake.

10 Oh, não exclamou a Sra. Bantry, acrescentando como explicação: Eu conheço a mãe dele. As duas mulheres se entreolharam. Miss Marple suspirou e meneou a cabeça. Posso compreender como você se sente nesse caso. Selina Blake é uma criatura excelente. Sua cerca de ervas é simplesmente maravilhosa. Fico doida de inveja. E dá mudas com muita generosidade. Miss Marple, ignorando essas considerações da Sra. Bantry, acrescentou: E, no entanto, você sabe, correm muitos boatos por aí. Oh, sim, eu sei. E naturalmente Arthur fica lívido quando ouve o nome de Basil Blake. Ele foi realmente muito grosseiro com Arthur, e desde então Arthur não quer ouvir falar dele. Não tolera esse modo estúpido e desdenhoso de falar dos jovens de hoje em dia, escarnecendo das pessoas que defendem sua escola ou o Império ou coisa semelhante. E, depois, é claro, o tipo de roupas que ele usa! Dizem continuou a Sra. Bantry, que não tem importância o que se usa no interior. Nunca ouvi tamanho contra-senso. Pois é exatamente no interior que todo mundo nota as coisas. Fez uma pausa e acrescentou espirituosamente: Ele era uma criancinha adorável em seu banho. Há uma linda fotografia do assassino de Cheviot quando criança, no jornal de domingo passado disse Miss Marple. Sim, Jane, mas você não acha que ele... Não, absolutamente. Não quis dizer isso. Seria saltar para conclusões. Estava apenas procurando explicar a presença do cadáver da jovem aqui. St. Mary Mead é um lugar tão inverossímil. Então me pareceu que a única explicação possível era Basil Blake. Ele dá festas. Vem gente de Londres e dos estúdios. Lembra-se de julho passado? Gritando e cantando, um barulho horrível, todo mundo bêbado, infelizmente. E a confusão e vidros quebrados na manhã seguinte, era incrível, conforme me contou a velha Sra. Buny. E uma jovem dormindo no banheiro praticamente nua! Gente de cinema, provavelmente disse a Sra. Bantry indulgente. É provável. E depois, acho que você ouviu falar, ultimamente trás com ele todo fim de semana uma jovem loura platinada. Não vá você me dizer que o cadáver é dela! Bem, estava pensando. É claro que nunca a vi de perto mas só entrando e saindo do carro, e uma única vez no jardim do bangalô tomando banho de sol, só de short e soutien. Realmente nunca vi seu rosto. E todas essas moças com suas maquilagens, seus cabelos e unhas se parecem umas com as outras. É, bem que poderia ser. É, é uma idéia, Jane. CAPÍTULO 2 ERA UMA IDÉIA que estava sendo discutida naquele momento pelo Coronel Melchett e o Coronel Bantry. O Chefe de Polícia, depois de examinar o corpo e mandar seus subordinados executarem as tarefas de rotina, tinha-se dirigido com o proprietário para o escritório, na outra ala da casa. O Coronel Melchett era um tipo de aspecto irascível, que tinha o hábito de puxar os fios do bigode curto e ruivo. Era o que estava fazendo no momento, lançando indagativos olhares de esguelha para o outro Coronel. Finalmente, perguntou com rudeza: Olhe aqui, Bantry. Tenho uma dúvida e gostaria de me livrar dela. Você, realmente, não sabe quem é aquela moça? A resposta do Coronel Bantry ia ser explosiva mas o policial o interrompeu. Eu sei, eu sei, meu caro, mas olhe bem. O negócio poderia ser um bocado incômodo para você. Um homem casado, que ama sua mulher e tudo mais. Mas, aqui

11 entre nós, se tem qualquer ligação com a vítima, é melhor dizer agora. É muito natural querer esconder o fato. Eu faria o mesmo. Mas não convém. Trata-se de um crime. Os fatos acabam vindo à luz. Não estou sugerindo que você tenha estrangulado a jovem... não o creio capaz disso. Suponhamos que ela tenha entrado aqui e o estivesse esperando e um sujeito ou outro a tivesse acompanhado e matado aqui dentro. É possível, sabe. Compreende o que eu quero dizer? Ora essa, Melchett, eu lhe asseguro que nunca vi aquela moça na minha vida! Eu não sou homem dessa espécie. Está bem, então. Não o queria ofender, chamando-o de mundano. Mas a questão continua de pé: o que estaria ela fazendo aqui? O certo é que não é daqui deste lugar. Até parece um pesadelo disse o dono da casa tomado de raiva. Aí está a questão, meu caro. O que estaria fazendo na sua biblioteca? Como posso saber? Eu não a chamei aqui. Não, não. Mas, seja lá como for, ela veio. Parece que queria vê-lo. O senhor não recebeu nenhuma carta estranha ou coisa que valha? Não, não recebi nada. O Coronel Melchett perguntou delicadamente: O que esteve fazendo na noite passada? Estive numa reunião na Associação Conservadora. Às nove horas, em Much Benham. E quando voltou para casa? Saí de Much Benham um pouco depois das dez. Ocorreu, porém, um bocado de contratempos no caminho e tive de trocar um pneu. Quando cheguei a casa faltavam quinze para meia-noite. Esteve na biblioteca? Não. Foi pena. Estava cansado. Fui direto para a cama. Ninguém o esperava? Não. Eu sempre levo as chaves. Lorrimer recolhe-se às onze horas, a não ser que lhe dê ordens em contrário. Quem fecha a biblioteca? Lorrimer. Geralmente às sete e meia nesta época do ano. Teria ele estado lá durante a noite? Durante minha ausência, não. Ele deixou a bandeja com uísque e copos no salão. Está bem. E sua senhora? Não sei. Ela estava deitada quando cheguei, e adormeci logo. Pode ter estado na biblioteca ontem à noite, ou na sala de estar. Esqueci de lhe perguntar. Está bem. Saberemos logo todos os detalhes. É claro que algum criado pode estar envolvido, não acha? O Coronel Bantry meneou a cabeça. Não o creio. São todos muito corretos. Estão conosco há anos. Melchett concordou. É, não parece provável que estejam metidos nisso. Tudo indica que a moça veio da cidade, talvez com algum jovem. Mas por que teriam entrado nesta casa... Bantry o interrompeu. De Londres. É o mais provável. Não temos dessas ocorrências por aqui, pelo menos... O que quer dizer com isso? Palavra de honra! explodiu o Coronel Bantry. Basil Blake! Quem é ele? Um jovem ligado à indústria cinematográfica. Um sujeito grosseiro e pernicioso. Minha mulher o defende porque foi colega de sua mãe na escola. Mas não passa de um

12 mequetrefe dessa juventude inútil e decadente! Precisa de um pontapé na traseira! Mora naquele bangalô na Lansham Road, sabe, nesse estilo de construção horrivelmente moderno. Dá festas ali, com grupos barulhentos e estridentes, e recebe moças nos fins de semana. Moças? Sim, na semana passada tinha uma. Uma dessas louras platinadas... O Coronel deixou cair o queixo. Uma loura platinada, hein? disse Melchett pensativo. Exato. Você não acha, Melchett... O policial interrompeu-o incontinenti. É uma possibilidade. Explica uma jovem desse tipo em St. Mary Mead. Acho que preciso ter uma conversa com esse jovem... Braid... Blake... como é mesmo seu nome? Blake. Basil Blake. Estaria em casa agora? Vamos ver. Que dia é hoje? Sábado? Em geral não sai daqui nas manhãs de sábado. Vamos ver disse Melchett sombriamente. 2 A casa de Basil Blake, que reunia todas as comodidades modernas encerradas numa horrível concha de estrutura aparente e pretenso estilo Tudor, era conhecida pelos funcionários dos correios e pelo construtor William Booker como Chatsworth (Casa de Tordos); por Basil e seus amigos como A Peça da Época, e para a aldeia de St. Mary Mead, em geral, como a casa nova do Sr. Booker. A casa estava a pouco mais de quatrocentos metros da aldeia, situada numa nova área de construção que tinha sido comprada pelo empreendedor Sr. Booker, pouco adiante do Blue Boar, de frente para o que tinha sido uma vereda particularmente intacta. Gossington Hall estava a mais ou menos um quilômetro e meio, ao longo da mesma estrada. St. Mary Mead foi tomada de vivo interesse, quando correu a notícia de que a casa nova do Sr. Booker tinha sido comprada por um astro de cinema. Todos estavam ansiosos para presenciar o primeiro aparecimento da importante personalidade na aldeia. E pode-se dizer, que no tocante às aparências, Basil Blake era tudo que poderia ser imaginado. Pouco a pouco, entretanto, a realidade dos fatos começou a transpirar. Basil Blake não era astro de cinema, nem tampouco trabalhava em filmes. Era ainda muito jovem e se comprazia com o título de ser mais ou menos o décimo quinto da lista dos responsáveis por Decorações de Ambiente nos Estúdios Lenville, sede da British New Era Films. As mulheres da aldeia perderam o interesse e a classe dirigente de solteironas reprovadoras criticava o sistema de vida de Basil Blake. Só o proprietário do Blue Boar continuava entusiasmado com Basil e seus amigos. As rendas do Blue Boar tinham aumentado desde a chegada do jovem ao lugar. O carro da Polícia parou do lado de fora do portão rústico e retorcido, nascido da fantasia do Sr. Booker, e o Coronel Melchett, com uma expressão de aborrecimento pelo excesso de estrutura aparente da casa, dirigiu-se à porta de entrada e bateu energicamente com a aldrava. A porta abriu-se muito mais rapidamente do que esperava. Apareceu um jovem de cabelos pretos, lisos, um pouco compridos, usando calças de belbutina cor de laranja e uma camisa azul-escuro. O que é que o senhor deseja? O senhor é o Sr. Blake? Sou eu mesmo.

13 Gostaria de conversar um pouco com o senhor. Com quem falo? Sou o Coronel Melchett, Chefe de Polícia do município. Oh, não diga. Que interessante! disse o Sr. Blake insolentemente. E o Coronel Melchett, entrando atrás dele, compreendeu as reações do Coronel Bantry. Estava começando a se irritar. Contendo-se, entretanto, disse, procurando mostrar-se agradável: O senhor é um madrugador, Sr. Blake. O senhor se engana. Eu não me deitei ainda. De fato? Mas não creio que o senhor veio aqui para saber a hora em que me recolho. Se for, será um desperdício de tempo e de dinheiro do município. O que é que o traz aqui? O Coronel Melchett limpou a garganta. Ouvi dizer, Sr. Blake, que neste último fim de semana o senhor recebeu uma visita, ou melhor, uma loura. Basil Blake arregalou os olhos, jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. As gatas velhas do condado foram procurá-lo por causa disso? Por causa de meus costumes? Ora essa, a moral não é assunto para a Polícia. O senhor sabe disso. Como o senhor diz ponderou Melchett secamente, não me interessa sua moral. Vim procurá-lo por causa do cadáver de uma moça loura, de aparência, diria, um tanto extravagante, que foi encontrada... assassinada. Como? Blake o encarou. Onde? Na biblioteca, em Gossington Hall. Em Gossington? Na casa do Coronel Bantry? Aquele ricaço. O velho Bantry! Aquele velho trapaceiro! O Coronel Melchett ruborizou-se. Por favor, queira controlar sua língua. Vim aqui interrogá-lo na esperança de lançar alguma luz sobre o caso disse o Coronel, incisivamente, ao jovem que se mostrava de novo sorridente. Quer dizer que veio precisamente para me perguntar se perdi uma loura? É isso? Um carro parou à porta rangendo os freios. Uma jovem, vestindo pijama preto e branco, saiu dele. Tinha lábios vermelhos, cílios escurecidos e cabelos louros. Encaminhou-se a passos rápidos na direção da porta, abriu-a violentamente e exclamou zangada: Por que você me abandonou, seu salafrário? Basil Blake tinha-se levantado. Já vem você! Por que eu a abandonaria? Eu lhe pedi para vir embora. E você não quis. Mas por que diabo eu teria de vir embora, só porque você queria? Estava-me divertindo. Sim, divertindo-se com o nojento do Rosemberg. Você sabe com que ele se parece? Ah, você está enciumado. Não se lisonjeie. Detesto ver moça, de quem gosto, ficar bêbada sem poder segurar seu copo, e não repelir a pata de um nojento europeu central. Isso é pura mentira. Você é que estava bebendo demais e atrás daquela cadela morena da Espanha. Se a convido para uma festa, espero que seja capaz de se comportar devidamente. O negócio é que não aceito ordens. Você disse que iríamos à festa e voltaríamos para aqui depois. Não vou deixar uma festa antes de estar pronta para partir. É claro, e foi por isso que a deixei estendida. Eu estava pronto para sair e não iria ficar à toa, esperando pelos caprichos de qualquer tola. Como é gentil e educado, querido!

14 Parece que você me imita em tudo! Eu quero dizer-lhe o que penso a seu respeito! Se acha que me vai dominar, engana-se totalmente. E se pensa que me pode dar ordens, está perdendo seu tempo! Eles se encararam com olhar feroz. Foi nesse momento que o Coronel Melchett aproveitou a oportunidade e limpou a garganta fortemente. Basil Blake voltou-se. Desculpe-me, esqueci que o senhor estava aqui. Pelo tempo, pensei que já tivesse ido embora. Permita-me apresentar-lhe Dinah Lee. O 007 da Polícia local. E agora, Coronel, que o senhor viu que minha loura está viva e gozando boa saúde, talvez lhe convenha continuar o negócio da piranha do velho Bantry. Aconselho-o a usar uma linguagem mais educada, meu jovem, ou acabará tendo dificuldades disse o Coronel Melchett e saiu bruscamente, vermelho de raiva. CAPÍTULO 3 EM SEU ESCRITÓRIO em Much Benham, o Coronel Melchett recebia e examinava os relatórios de seus subordinados:...parece, portanto, bastante claro, concluía o Inspetor Slack, que a Sra. Bantry assentou-se na biblioteca depois do jantar e foi-se deitar pouco antes das dez. Apagou as luzes ao sair da sala e, ao que parece, ninguém entrou ali depois. Os criados recolheramse às dez e meia e Lorrimer, depois de colocar as bebidas no saguão, foi-se deitar às quinze para as onze. Ninguém ouviu nada de anormal, com exceção da terceira criada, e como ouviu! Gemidos e um grito pavoroso, além de pisadas ameaçadoras e não sei mais o quê. A segunda criada que partilha com ela o mesmo quarto diz que sua companheira dormiu profundamente a noite toda. São dessas coisas que complicam tudo E sobre a janela forçada? Negócio de amador, chefe disse Simmons. Foi arrombada com um formão ordinário, não deve ter feito muito barulho. Devia ser um formão da casa, mas ninguém o encontrou. Aliás, isso é muito comum quando se trata de instrumentos. O senhor acha que algum empregado sabe de alguma coisa? Não, senhor, não creio respondeu o Inspetor Slack um tanto relutante. Parecem muito chocados e sobressaltados. Tive suspeita de Lorrimer... estava reticente, acho que o senhor me compreende, mas não tenho nenhum fundamento para incriminálo. Melchett assentiu com a cabeça. Não dispensava nenhuma importância à reticência de Lorrimer. O enérgico Inspetor Slack produzia muitas vezes esse efeito nas pessoas que interrogava. A porta se abriu e o Dr. Haydock entrou. Achei que seria bom vir aqui para lhe dar os dados principais do caso. Oh, sim, ótimo. Prazer em vê-lo. E então? Quase nenhuma novidade. É exatamente como o senhor pensava. Morte por estrangulamento. Uma tira de cetim do próprio vestido enrolada no pescoço e amarrada atrás. Coisa muito fácil e simples de se fazer. Não haveria necessidade de muita força, isto é, caso a moça tenha sido apanhada de surpresa. Não há sinais de luta. E quanto à hora do crime? Entre dez e meia-noite, mais ou menos. Não pode precisar mais? Haydock meneou a cabeça com um ligeiro sorriso. Não quero arriscar minha reputação profissional. Nem antes das dez nem depois da meia-noite. Mas, pessoalmente, que hora o senhor estaria inclinado a precisar?

15 Depende. A lareira estava acesa; a sala estava quente, o que retardaria a rigidez cadavérica. Não tem mais nada a informar sobre a moça? Não muito. Era jovem, digamos, de dezessete ou dezoito anos. Sob certos aspectos, imatura, mas de músculos bem desenvolvidos. Um tipo sadio. A propósito, era virgem intacta. Com uma inclinação de cabeça, o médico saiu do gabinete. Você tem certeza de que a moça nunca foi vista em Gossington? perguntou Melchett ao Inspetor. Os criados são categóricos nesse sentido. Ficam mesmo indignados. Dizem que se teriam lembrado dela se a tivessem visto alguma vez pelas redondezas. Espero que sim disse Melchett. Qualquer pessoa daquele tipo se faria notar nesses dois quilômetros. Veja aquela moça de Blake. É pena que não tenha sido ela disse Slack; poderíamos resolver um bocado de coisas. Tenho a impressão de que essa moça deve ter vindo de Londres disse o Chefe de Polícia, pensativo. Não pense em descobrir pistas locais. De qualquer maneira, acho que deveríamos recorrer à Scotland Yard. É um caso para ela e não para nós. Alguma coisa, porém, deve tê-la trazido aqui disse Slack, acrescentando uma hipótese. Tenho para mim que o Coronel e a Sra. Bantry devem saber de alguma coisa. É claro, eu sei que são amigos seus, chefe... O Coronel Melchett lançou-lhe um olhar frio e lhe disse secamente: Esteja certo de que estou considerando toda possibilidade. Toda possibilidade. E continuou: O senhor deu uma olhadela na lista de pessoas desaparecidas? Slack assentiu com a cabeça e apresentou uma folha de papel datilografada. Ei-los. A Sra. Saunders, dada como desaparecida há uma semana. Cabelos escuros, olhos azuis, trinta e seis anos. Não é ela e, além disso, todo mundo sabe, menos seu marido, que ela fugiu com um comerciário de Leeds. A Sra. Barnard, com trinta e cinco anos. Pamela Reeves, dezesseis anos, desaparecida de casa na noite passada, esteve num torneio de tênis, tem cabelos castanhos, usa tranças, um metro e cinqüenta de altura e... Deixe de detalhes idiotas, Slack disse Melchett irritado. A moça não tem nada de escolar. Na minha opinião... Melchett foi interrompido pelo telefone. Alô... sim, sim, é da Chefatura de Polícia de Much Benham... Como? Espere um momento... Melchett ouvia e escrevia rapidamente. Em seguida falou de novo, com uma nova tonalidade de voz: Ruby Keene, dezoito anos, dançarina profissional, um metro e sessenta, magra, cabelos louros platinados, olhos azuis, nariz arrebitado, devia estar usando um vestido toalete branco brilhante e sandálias prateadas. Certo? O quê? Sim, não há dúvida. Mandarei Slack aí imediatamente. O Chefe de Polícia desligou o telefone e olhou seu subordinado com crescente excitação. Temos uma pista, acho. Foi da Polícia de Glenshire (Glenshire era o município vizinho). Uma jovem é dada como desaparecida pelo Majestic Hotel, em Danemouth. Danemouth disse o Inspetor Slack. É bem possível. Danemouth era um grande e moderno balneário litorâneo, não muito longe dali. Está mais ou menos a trinta quilômetros daqui disse o Chefe de Polícia. A moça era dançarina ou coisa que valha, no Majestic. Não se apresentou para o seu número na noite passada e a gerência ficou preocupada com isso. Hoje, pela manhã, continuando ainda desaparecida, alguém, uma das outras moças talvez, espalhou a

16 notícia. Isso parece um bocado obscuro. Seria melhor você ir imediatamente a Danemouth, Slack. Apresente-se ali ao Inspetor Harper e colabore com ele. 2 A atividade era sempre do gosto do Inspetor Slack. Sair correndo num carro, fazer calar rudemente as pessoas que estivessem ansiosas para lhe contar coisas, interromper conversações a pretexto de necessidade urgente, tudo isso significava vida para Slack. Por conseguinte, em tempo incrivelmente curto, chegou a Danemouth, apresentou-se à chefatura de polícia, teve uma breve entrevista com o gerente do hotel, apreensivo e distraído, e, deixando-o com o conforto duvidoso de primeiro descobrir se era realmente a moça antes de começar as investigações partiu de volta a Much Benham na companhia de uma parente próxima de Ruby Keene. Tinha-se comunicado imediatamente com Much Benham antes de sair de Danemouth, de modo que o Chefe de Polícia estava preparado para recebê-lo, embora não estivesse para a breve apresentação. Apresento-lhe Josie, chefe. O Coronel Melchett olhou seu subordinado friamente. Dava a impressão de que Slack tivesse perdido o bom senso. A jovem, que acabava de sair do carro, veio em seu socorro. É que sou conhecida como profissional explicou ela, mostrando momentaneamente uma dentadura alva e bonita. Raymond e Josie, assim nos chamamos, eu e meu companheiro. Todo o hotel me conhece como Josie. Meu nome verdadeiro é Josephine Turner. O Coronel Melchett ajustou-se à situação e convidou a Srta. Turner a se sentar, observando-a entrementes, de relance, com um olhar de profissional. Era uma jovem simpática, de mais de vinte anos e menos de trinta. Sua beleza dependia mais de atavios habilidosos do que de aspectos reais. Parecia competente, calma e possuidora de senso comum. Não era o tipo que se pudesse chamar de glamorosa mas, não obstante, era muito atraente. Pintava-se discretamente e usava um costume escuro. Embora parecesse preocupada e sobressaltada, na realidade, concluiu o Coronel, não estava particularmente pesarosa. Parece terrível demais para ser verdade disse ela ao se sentar. Acha que realmente seja Ruby? Sinto muito, mas é exatamente isso que nós lhe queremos perguntar. Lamento que possa ser desagradável para a senhora. Ela parece... parece muito horrível?: perguntou a Srta. Turner apreensiva. Bem, tenho receio de que isso possa chocá-la Melchett lhe ofereceu sua carteira de cigarros e Josie tirou um e agradeceu. Quer que eu vá vê-la agora mesmo? Acho que seria bom, Srta. Turner. Não seria muito bom fazer perguntas antes de nos certificarmos. É melhor resolver logo. Perfeito. Desceram ao necrotério. É Ruby mesmo, não há dúvida disse ela com um calafrio. Pobre menina! Santo Deus, parece que estou tonta. Os senhores não têm um pouco de gim por aí? perguntou, correndo a vista pela sala. Não havia gim mas conhaque. Após tomar uns dois goles, a Srta. Turner recobrou a calma. Já teve ocasião de ver coisa semelhante? perguntou ela francamente. Pobrezinha da Ruby! Como os homens são imundos, não é? A senhora acha que foi um homem? Josie foi apanhada um tanto de surpresa.

17 Não foi? Bem, quero dizer... pensei naturalmente. A senhorita teria pensado especialmente em algum homem? Ela meneou a cabeça vigorosamente. Não, eu não. Não tenho a menor idéia. É claro que Ruby não faria segredo para mim se... Se o quê? Josie hesitou. Bem, se ela fosse sair com alguém. Melchett lançou-lhe um olhar penetrante. Não disse mais nada até chegar ao escritório. Então começou: Srta. Turner, preciso de toda informação que possa dar-me. Perfeitamente. Por onde devo começar? Gostaria de ter o nome e endereço completos, seu parentesco com ela e tudo que souber a respeito. Josephine Turner assentiu com a cabeça. Melchett se convenceu mais uma vez de que Josie não estava particularmente sentida. Estava chocada e angustiada e nada mais. Falava com bastante espontaneidade. Ela se chamava Ruby Keene, isto é, seu nome profissional. Seu nome real era Rosy Legge. Sua mãe era prima da minha. Conheço toda sua vida, mas não tão profundamente. Acho que o senhor entendeu o que quero dizer. Temos muitos primos. Alguns no comércio, outros no palco. Acho que Ruby estava estudando para ser bailarina. Ela teve bons contratos no ano passado em teatros de revista e coisa do gênero. Não eram companhias muito chiques mas eram boas companhias provinciais. Desde então esteve contratada como par de dança no Palais de Danse em Brixwell, no sul do Londres. É um lugar respeitável, que procura moças direitas, mas pagam muito mal. Fez uma pausa. O Coronel Melchett assentiu com a cabeça. E agora, eis a razão por que vim aqui. Há três anos sou recepcionista da sala de jogo, e de dança, no Majestic, em Danemouth. É um emprego bom, agradável e bem pago. Procuramos as pessoas que chegam avaliamo-las, é claro algumas gostam de ficar sozinhas e outras são solitárias e querem ficar a corrente das coisas. Procuramos reunir as pessoas certas para o jogo e tudo mais e fazer com que dancem. É preciso um bocado de contato e de experiência. Melchett tornou a assentir com a cabeça. Ele achava que aquela moça devia desempenhar bem suas funções; tinha maneiras agradáveis e simpáticas, inteligentes sem serem intelectuais. Além disso continuou Josie, eu faço umas duas apresentações por noite com Raymond. Raymond Starr, professor de tênis e de dança. Bem, como acontece, neste verão eu escorreguei um dia nas pedras me banhando e torci o tornozelo. Melchett tinha observado que ela caminhava claudicando um pouco. É claro que não podia dançar durante algum tempo e isso era horrível. Eu não queria que o hotel arranjasse alguém para me substituir. Isso é sempre perigoso. Por alguns instantes seus olhos azuis e serenos tornaram-se duros e penetrantes: era a fêmea lutando por sua subsistência. Isso pode significar fim de carreira, sabe. Por isso pensei em Ruby e pedi ao gerente para trazê-la. Eu ficaria encarregada das funções de recepcionista e tomaria conta da sala de jogo e tudo mais. Ruby se encarregaria da dança. Ficaria tudo em família, o senhor sabe o que quero dizer. Melchett disse que sim. Bem, eles concordaram, eu contratei Ruby e ela veio. Era uma oportunidade para ela. Era de classe muito acima de tantas quantas já tiveram. Isso foi há um mês. Compreendo. E teve sucesso? perguntou o Coronel Melchett. Oh, sim disse Josie despreocupada, ela se saía muito bem. Não dançava tão bem como eu, mas Raymond é inteligente e a conduzia. E ela era muito simpática, sabe,

18 delgada, bonita e de feições infantis. Exagerava um pouco na pintura e eu sempre lhe chamava a atenção por causa disso. Mas o senhor sabe como são as moças. Tinha apenas dezoito anos e nessa idade todo mundo exagera as coisas. Mas isso não convinha a um lugar de classe como o Majestic. Quase sempre tinha de chamá-la à parte e fazê-la atenuar a pintura. Todos gostavam dela? perguntou Melchett. Oh, sim. Mas, olhe, Ruby quase não falava. Era um bocado calada. Dava-se melhor com homens mais idosos do que com jovens. Tinha algum namorado especial? Os olhos da moça encararam os do Coronel Melchett expressando perfeita compreensão da pergunta. Não no sentido em que o senhor quer dizer. Ou pelo menos quanto eu soubesse. Nesse caso ela não me teria dito. Melchett refletiu por alguns instantes por que não Josie não dava a impressão de ser uma disciplinadora severa. Mas disse apenas: A senhorita poderia dizer-me agora a última vez que viu sua prima. Na noite passada. Ela e Raymond fizeram duas apresentações, uma às dez e outra à meia-noite. Terminariam a uma hora. Depois disso, vi Ruby dançando com um dos jovens hospedados no hotel. Eu estava jogando cartas na sala. Há um grande painel de vidro entre a sala e o salão de baile. Foi a última vez que a vi. Logo depois da meianoite, Raymond apareceu apreensivo, perguntando onde estava Ruby, que não tinha aparecido e já estava na hora de começar. Fiquei amolada, pode crer! É a espécie de coisa que as moças fazem, aborrecendo os patrões que as põem na rua. Fui com ele ao quarto de Ruby mas ela não estava lá. Observei que havia trocado de roupa. O vestido de dança um vestido cor-de-rosa, espumante, e saia larga estava em cima de uma cadeira. Ela, geralmente, ficava com o mesmo vestido, a menos que se tratasse de um número especial, como na noite de quarta-feira. Não tinha nenhuma idéia de para onde teria ido. Pedimos à orquestra para tocar mais um fox-trote e nada de Ruby aparecer. Eu, então, disse a Raymond que iria dançar com ele. Escolhemos um número fácil e curto, que não machucasse meu tornozelo, mas no final de contas isso seria impossível. Está todo inchado esta manhã. Ruby não tinha aparecido ainda. Ficamos esperando por ela até às duas horas. Fiquei furiosa por causa dela. Sua voz tremia ligeiramente. Melchett percebeu uma nota de raiva no tom. Ficou refletindo por alguns instantes. A reação lhe pareceu um pouco mais intensa do que seria de esperar... Teve a impressão de que alguma coisa estava sendo deliberadamente escondida. E esta manhã, quando Ruby Keene não voltou e sua cama continuou intacta, a senhorita procurou a Polícia? Melchett sabia, pelo telefonema de Slack, de Danemouth, que não fora ela quem chamara a Polícia. Mas queria saber o que Josephine Turner diria. Ela não hesitou; respondeu logo. Não, não procurei. Por que não, Srta. Turner? Seus olhos o encararam francamente. O senhor no meu lugar não o faria! disse ela. Acha que não? Tinha de pensar no meu emprego. A única coisa de que um hotel não gosta é de escândalo, sobretudo quando envolve a Polícia. Não achava que algum mal tivesse acontecido a Ruby. Isso não me passou nem um instante pela cabeça. Pensava que tivesse perdido a cabeça com algum jovem; que apareceria logo e eu iria dizer-lhe umas boas quando chegasse! As meninas de dezoito anos são tão irresponsáveis. Melchett deu a impressão de estar consultando suas anotações.

19 Ah, sim, segundo consta foi o Sr. Jefferson que procurou a Polícia. É um dos hóspedes do hotel? Josephine Turner respondeu laconicamente. Sim. O que levou o Sr. Jefferson a tomar essa atitude? perguntou o Coronel Melchett. Josie alisava o punho do costume. Havia um pouco de constrangimento em suas maneiras. Mais uma vez o Coronel Melchett teve a impressão de que escondia alguma coisa. É um inválido disse ela sombriamente. Assusta-se facilmente. Quero dizer, por ser inválido. Melchett passou adiante e perguntou: Quem era o jovem com quem você viu sua prima dançando por último na noite passada? Chama-se Bartlett. Está hospedado no hotel há dez dias. Estavam-se namorando? Não propriamente. Pelo menos que eu soubesse. Melchett notou mais uma vez um tom de raiva em sua voz. O que diz ele? Disse que, depois da dança, Ruby subiu para se empoar. Foi quando trocou de roupa? Suponho que sim. Foi a última notícia que teve dela? Depois disso ela... Desapareceu disse Josie. É tudo. A Srta. Keene conhecia alguém em St. Mary Mead? Ou na vizinhança? Não sei. Pode ter conhecido. O senhor sabe, vêm jovens de toda parte para o Majestic, em Danemouth. Não é possível saber onde moram, a menos que o digam ocasionalmente. Você ouviu alguma vez sua prima se referir a Gossington? Gossington? Josie mostrou-se evidentemente intrigada. Gossington Hall. Ela meneou a cabeça. Nunca ouvi falar nesse lugar. Havia uma nota de convicção no tom de voz, assim como de curiosidade. Gossington Hall explicou o Coronel Melchett é o lugar onde foi encontrado o cadáver de Ruby. Gossington Hall? Josie arregalou os olhos Que curioso! Melchett disse para si mesmo: Curioso é modo de dizer e, depois, em voz alta: A senhorita conhece um Coronel ou uma Sra. Bantry? Mais uma vez Josie meneou a cabeça. Ou um Sr. Basil Blake? Ela franziu ligeiramente os sobrolhos. Acho que já ouvi este nome. Sim, tenho certeza, mas não me lembro de nada a respeito dele. O diligente Inspetor Slack estendeu a seu superior uma folha arrancada de sua caderneta de anotações, onde se liam os seguintes dizeres escritos a lápis: O Coronel Bantry jantou no Majestic na semana passada. Melchett levantou a vista e encontrou o olhar de Slack. O Chefe de Polícia corou-se. Slack era um policial industrioso e ativo, mas Melchett não gostava dele. Mas não podia desconhecer o desafio. O Inspetor estava acusando-o tacitamente de favorecer sua própria classe, de apadrinhar um velho amigo.

20 Srta. Turner disse, voltando-se para Josephine Turner, incomodar-se-ia em me acompanhar a Gossington Hall? O olhar de Melchett, frio e desafiador, quase ignorando o murmúrio de assentimento de Josie, encontrou-se com o de Slack. CAPÍTULO 4 HÁ MUITO TEMPO St. Mary Mead não tinha uma manhã tão movimentada como aquela. A Srta. Wetherby, solteirona impertinente, de nariz comprido, foi a primeira a espalhar a notícia inebriante. Entrou toda afobada na casa de sua amiga e vizinha, a Srta. Hartwell. Perdoe-me vir aqui tão cedo, querida, mas pensei que talvez você não tivesse sabido da notícia. Que notícia? perguntou a Srta. Hartwell. A Srta. Hartwell tinha um timbre de voz muito baixo e visitava os pobres infatigavelmente, por mais que eles procurassem evitar seus auxílios. Sobre o cadáver na biblioteca do Coronel Bantry... o cadáver de uma mulher... Na biblioteca do Coronel Bantry? Sim. Não é terrível? E sua pobre esposa. A Srta. Hartwell procurou disfarçar seu prazer intimo e ardente. Realmente. Não acho que ela tenha qualquer idéia. A Srta. Hartwell observou em tom de censura: Ela vive ocupada demais com o seu jardim e não cuida do marido. É preciso estar sempre de olho nos homens, sempre, sempre repetia a Srta. Hartwell. Eu sei, eu sei. É realmente triste. Imagino o que Jane Marple vai dizer. Acha que já soube disso? Ela é tão perspicaz nesses casos. Jane Marple foi a Gossington. O quê? Esta manhã? Muito cedo. Antes do café. Não diga! Imagino! Bem, a meu ver, isto é levar as coisas longe demais. Jane gosta de meter o nariz em tudo. Mas isso não é decente! Mas foi a Sra. Bantry que mandou buscá-la. A Sra. Bantry mandou buscá-la? Bem, veio o carro, com Muswell na direção. Santo Deus! É muito estranho... Ficaram caladas por uns dois segundos, digerindo a notícia. De quem é o corpo? perguntou a Srta. Hartwell. Você conhece aquela mulher horrorosa que anda com Basil Blake? Aquela loura de cabelos horrivelmente oxigenados? a Srta. Hartwell estava um tanto atrasada, pois não passara ainda do oxigenado para o platinado. Aquela que fica deitada no jardim, praticamente nua? Sim, minha cara. Lá estava ela... sobre o tapete... estrangulada! Não me diga, em Gossington? A Srta. Wetherby assentiu com uma expressão infinitamente feminina. Então, até o Coronel Bantry...? A Srta. Wetherby assentiu novamente com a cabeça. Oh! Houve uma pausa, enquanto as senhoras saboreavam aquela nota a mais no escândalo da aldeia. Que mulher ruim! exclamou a Srta. Hartwell com justa raiva. Infelizmente, era muito devassa.

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