NAVEGANDO EM AMBIENTES VIRTUAIS: METODOLOGIAS E ESTRATÉGIAS PARA O NOVO ALUNO

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1 NAVEGANDO EM AMBIENTES VIRTUAIS: METODOLOGIAS E ESTRATÉGIAS PARA O NOVO ALUNO Mára Lúcia Fernandes Carneiro 1 Marlise Geller 2 Liliana Passerino 3 INTRODUÇÃO A educação, através dos processos de aprendizagem e de ensino, envolve a construção constante de informações e conhecimentos. Em uma sala de aula convencional, imagens e sons fazem parte desta troca: os estudantes vêem e ouvem o professor, o professor vê e ouve os seus alunos e os estudantes vêem e ouvem uns aos outros. A comunicação ocorre verbalmente entre professor e estudantes ou combinada com várias mídias, tais como um projetor de transparências, áudio e vídeo, projetor ligado ao monitor do computador e assim por diante (CARNEIRO et al, 2001, p. 511). No caso da educação a distância, esta comunicação ocorre entre pessoas que já não estão todas no mesmo local e que necessitam, portanto, de recursos tecnológicos que permitam a superação da distância. A introdução deste aparato tecnológico no dia a dia do professor é hoje uma realidade. O barateamento dos computadores pessoais, a disseminação do acesso à Internet e a constante inovação tecnológica trouxeram a tecnologia para dentro da sala de aula, possibilitando outros desenhos antes impossíveis de serem vividos. Este aparato tecnológico propicia vários incrementos nos recursos disponíveis, indo além do ensino presencial e propiciando a expansão da Educação a Distância (EAD), constituindo novos espaços de convivência e aprendizagem (CARNEIRO, 2003). De forma bastante simplificada, pode-se definir Educação a Distância como o processo educacional que se estabelece quando professor e alunos estão separados geograficamente, mas conectados através de recursos de comunicação (como o correio, o telefone, o fax, a Internet, a videoconferência, etc.). Moran (2003) define a educação online como o conjunto de ações de ensinoaprendizagem desenvolvidas por meio de meios telemáticos 4, como a Internet, a videoconferência 5 e a teleconferência 6, destacando que a Educação a Distância é um conceito mais amplo. Por exemplo, um curso utilizando o correio tradicional para a troca de materiais entre professor e seus alunos é um curso a distância, mas não poderia ser caracterizado como um curso online. 1 Dra. em Informática na Educação (UFRGS). Professora do Instituto de Psicologia da UFRGS. 2 Dra. em Informática na Educação (UFRGS). Professora do Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática (ULBRA). 3 Dra. em Informática na Educação (UFRGS). Professora da Faculdade de Educação da UFRGS. 4 A palavra telemática teve origem da junção das palavras tele(comunicação) e (infor)mática e, segundo o Houaiss (2001) é a ciência que trata da transmissão, a longa distância, de informação computadorizada. 5 A videoconferência é um recurso para comunicação entre sistemas conectados através de uma rede, que permite a troca simultânea de áudio e vídeo entre os participantes. 6 A teleconferência envolve a transmissão (unidirecional) de áudio e vídeo, em geral por satélite, a partir de um centro produtor para vários pontos de recepção. A comunicação a partir dos pontos de recepção ocorre pode ocorrer por fax, ou telefone

2 Atualmente, observamos um movimento de consolidação e expansão da Educação a Distância, à medida que novas alternativas tecnológicas estão sendo incorporadas, viabilizando projetos educativos, tanto por parte de instituições de ensino públicas e privadas, como por parte de empresas e organizações não governamentais. Dessa forma, a EAD passa a ser difundida como uma modalidade de educação com potencialidade para ampliar o acesso à formação acadêmica e profissionalizante, colocando-se como uma alternativa séria de democratização da educação e do saber (GELLER, 2004). NOVOS ESPAÇOS, NOVOS PAPÉIS A inserção de tecnologias da informática na educação teve seu início com a instrução programada, de base comportamentalista, com software do tipo CAI (Computer Aided Instruction ou, traduzindo, Instrução Apoiada por Computador). Aos poucos, com os avanços da Inteligência Artificial, da Psicologia Cognitiva, das redes de computadores (como por exemplo, a Internet), uma mudança de paradigma do comportamentalismo para o cognitivismo e o construtivismo vem ocorrendo, não só em termos de desenvolvimento de novas tecnologias, mas principalmente em relação a paradigmas envolvendo o processo de ensino e de aprendizagem. Essas tecnologias podem implicar em novas posturas tanto dos professores quanto dos alunos, como por exemplo: a colaboração e a construção conjunta; a atividade criativa; a exploração da informação, promovendo a aprendizagem por descoberta; um novo perfil de aluno, um aluno construindo ativamente sua aprendizagem; a possibilidade de manter a individualidade, através de ferramentas que levem em conta as características individuais dos alunos. Das tecnologias da informação e da comunicação, atualmente a telemática vem se expandindo, pois permite superar as distâncias e o tempo através de suas ferramentas de comunicação e de seus sistemas de redes. E está promovendo novas diretrizes para o processo de educação a distância, mediado por ambientes virtuais, sobretudo no que se refere à apropriação de novos conhecimentos. Dessa forma, incorporar tecnologias da informação e da comunicação ao processo educativo implica, antes de tudo, compreender as formas de acesso ao conhecimento, os benefícios que advêm delas e com que objetivos utilizá-las. O PROFESSOR NO ESPAÇO VIRTUAL O professor no espaço virtual, em especial na Web, orienta a aprendizagem dos alunos, auxilia no esclarecimento de suas dúvidas, identifica dificuldades, sugere novas leituras ou atividades. Até aí nada muito diferente do que ocorre no espaço de uma sala de aula presencial. O que diferencia esses espaços é, definitivamente, a forma como o professor exercerá essas tarefas. Segundo Moran (s.d), o papel do professor como gerenciador de aprendizagem em listas de discussão, fóruns e bate-papos é fundamental, representando uma mudança em relação às atribuições que o professor estava acostumado a desempenhar em sala de aula. Neste espaço virtual, o professor passa a ser moderador e/ou mediador, encorajando o aluno a se sentir parte atuante desse universo. Isto é, o esforço do professor em um espaço virtual está não apenas no domínio de um conteúdo, mas na capacidade de incentivar a comunidade de alunos em torno da sua própria aprendizagem, fomentando o debate, mobilizando-os para o processo de cooperação.

3 E O ALUNO? Segundo Peters, os alunos que optam pela EAD dispõem, por natureza, de uma experiência de vida maior. Por isso encaram seu estudo de maneira diferente, compreendem-no de outra maneira e o avaliam de modo diferente (PETERS, 2001, p.37). Muitas questões importantes derivam-se das características dos alunos a distância, cujos anseios e objetivos podem ser completamente diferentes dos alunos tradicionais. Alunos adultos têm muitas razões para buscar a educação em um espaço virtual, como por exemplo: falta de tempo, distância, custos, a oportunidade de fazer cursos e a possibilidade de entrar em contato com outros estudantes de diferentes culturas. O aluno, ao fazer sua formação (ou parte dela) através de cursos virtuais na Web, passa a ter maior responsabilidade sobre seus estudos, pois, neste contexto, o processo de aprendizagem é redefinido e apóia-se em uma maior autonomia do aluno. Em um espaço virtual destinado à educação, o aluno não é mero receptor de informações, de mensagens; apesar da distância, busca-se estabelecer relações dialógicas, críticas e participativas entre todos os envolvidos (professor e alunos - alunos e alunos). Segundo diversos autores (BELLONI, 1999; PETERS, 2001; GARCIA ARETIO, 2001), observamos que através do processo educativo em cursos a distância via Web, os alunos adquirem habilidades mais diversificadas, sendo necessários serviços virtuais de acesso a informações administrativas, à biblioteca, matrícula em disciplinas, comunicação com o professor e com outros alunos, entre outros para possibilitar a integração do aluno que está distante fisicamente do local de seu curso. Também dentro desse enfoque, os papéis de professor e aluno se modificam profundamente. O aluno não atua mais como mero receptor de informações ou de conteúdos a serem reproduzidos. O professor passa a atuar como um mediador para a aprendizagem do aluno. Aluno e professor passam a ser parceiros em uma comunidade virtual de aprendizagem. Ser um aluno em um espaço virtual de aprendizagem é ser capaz de atender às demandas dos novos ambientes virtuais de aprendizagem, de se perceber como parte de uma comunidade virtual de aprendizagem, muitas vezes, cooperativa, e desempenhar o novo papel a ele reservado nesse espaço. DICAS PARA SUPERAR AS DIFICULDADES INICIAIS Uma das maiores dificuldades encontradas pelos alunos, ao inscreverem-se em cursos a distância via Internet, é o desconhecimento das características desta nova sala de aula. Como os recursos telemáticos são amplamente utilizados para apoiar os cursos online, o conhecimento e uso destes recursos são essenciais. Da mesma forma, a disciplina necessária, o suporte técnico, as relações que se estabelecem a partir das interações promovidas e apoiadas pelos recursos tecnológicos afetam o desempenho e podem determinar até a desistência dos alunos. Paloff e Pratt (2004) levantam uma série de questões que podem orientar os novos alunos a identificarem previamente algumas dificuldades e encontrar estratégias para superálas.

4 1. Motivação para participar do curso A primeira refere-se à necessidade do aluno realizar o curso, pois é importante saber qual o real motivo que determinou a escolha por um curso a distância. Os alunos em educação a distância, às vezes, desistem devido a circunstâncias pessoais (problemas de saúde, por ex.) ou profissionais (sobrecarga no trabalho, stress, etc.) Ter uma razão forte para fazer o curso ajuda a motivar o aluno. No caso do curso PROINESP, os alunos são professores indicados por suas instituições ou escolas para participar do curso. 2. Tempo de aprender, tempo de estudar, tempo de produzir Outro aspecto que deve ser considerado é o tempo que o aluno dispõe para participar de um curso a distância, pois este vai requer pelo menos tanto tempo quanto os cursos presenciais, senão mais. Justamente pensando neste aspecto é que o curso prevê que a instituição defina carga horária específica para o professor participar do curso. 3. Fazendo parte de um grupo Em um curso online, os alunos podem sentir-se sozinhos, por isso, é importante considerar-se como parte de um grupo (ou turma). Assim, o professor pode propor atividades que possam ser realizadas em conjunto, utilizando os vários recursos disponíveis para apoiar a comunicação e interação entre os participantes. No nosso curso, este aparentemente distanciamento também poderá ser superado com o uso intensivo dos recursos de comunicação, como o correio, bate-papo, fórum, etc. A colaboração e a interação constante com os colegas permitirão a construção de efetivas comunidades de aprendizagem. Para Paloff e Pratt (2002, p. 56), uma comunidade de aprendizagem está em formação quando: interação constante tanto com o conteúdo do curso quanto em relação à comunicação pessoal; aprendizagem colaborativa, evidenciada pelos comentários enviados pelos alunos para outros alunos em maior número do que os enviados pelos estudantes diretamente ao professor; significado construído em conjunto pelo grupo; compartilhamento de recursos entre os alunos; expressões de apoio e de estímulo trocadas entre os alunos; vontade de avaliar criticamente o trabalho dos colegas. 4. Organização e flexibilidade A aparente flexibilidade de horários e agendas que um curso a distância parece oferecer pode trazer alguns problemas. Na verdade, a experiência mostra que talvez seja necessária maior disciplina em um curso online do que nos cursos presenciais. Isto significa que se espera que o aluno ingresse com freqüência no ambiente virtual do curso, realize suas leituras e participe ativamente dos diversos espaços de comunicação (como o correio e fóruns de discussão).

5 Para orientar os alunos e auxiliá-los na organização de seu tempo, serão publicadas Agendas semanais, contendo a proposta de trabalho da semana. 5. Alunos diferentes, ritmos diferentes Ao mesmo tempo, cursos online proporcionam igualdade de condições de trabalho a alunos com ritmos diferentes. Como afirmam HARASIM et alii (1996), os alunos podem refletir sobre o que estão lendo e decidir o que perguntar ou comentar para contribuir em uma discussão, fazer as atividades, tudo em seu próprio tempo. Contudo é necessário autodisciplina, pois com tal tecnologia disponível é muito fácil deixar para amanhã o que pode e deve ser feito hoje. 6. Estilos de aprendizagem Algumas pessoas aprendem melhor pela interação com os colegas e os professores. Outras pessoas aprendem melhor ouvindo, lendo e estudando por conta própria. Em um curso onde se procura a construção conjunta do conhecimento, é muito importante compartilhar suas descobertas e dificuldades com os colegas, pois as trocas são muito ricas e oferecem novas oportunidades de aprendizagem. 7. Orientações via ambiente virtual A participação em cursos online envolve o envio de orientações por escrito pelo professor, em geral, publicadas em um ambiente virtual de aprendizagem 7. Muitos alunos preferem descobrir sozinhos o que o professor quer dizer com tais instruções; outros tentam segui-las e somente pedem ajuda quando sentem necessidade e alguns preferem logo que alguém explique o que deve fazer. A leitura atenta dos materiais disponibilizados é fundamental, assim como a busca de orientações pode ser realizada através de diversos recursos, como o correio, os fóruns de discussão e os bate-papos. Os alunos que obtêm bons resultados na educação a distância sentem-se à vontade em contatar o professor tão logo precisem de ajuda. Por isso, não hesite em expor suas dúvidas. 8. A avaliação e o retorno do professor Ao publicar seus trabalhos, o aluno espera um retorno ou comentário do seu professor. Alguns são mais pacientes, aguardando um ou dois dias pelos comentários. No entanto, os mais ansiosos chegam a enviar várias mensagens aos professores questionando sobre seus trabalhos. O ideal é que o prazo para retorno dos comentários seja combinado antecipadamente para evitar a ansiedade dos alunos. No nosso caso, a presença constante dos monitores e formador no ambiente do curso pretende também reduzir significativamente o tempo de resposta aos alunos. No entanto, precisamos diferenciar as respostas automáticas, oferecidas pelas máquinas e programas, daquela resposta refletida. Muitas vezes os monitores e/ou formador precisarão de um tempo para analisar seu trabalho e buscar subsídios para melhor lhe auxiliar. 7 Ambiente virtual de aprendizagem (ou AVA) é um termo que expressa a reunião de vários recursos telemáticos em um único local visando apoiar a organização e realização de um curso a distância. O TelEduc é um exemplo de um AVA.

6 E AGORA, VAMOS COMEÇAR? Com certeza, tanto esse novo aluno, quanto esse novo professor estão se aperfeiçoando continuamente na prática educativa dentro de um espaço virtual. Que tal agora passar o nosso Fórum e registrar suas reflexões sobre o texto e suas expectativas em relação ao curso, as dificuldades que está encontrando e como pretende superá-las? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELLONI, Maria Luiza. Educação a distância. Campinas: Autores Associados, CARNEIRO, M.L. O acoplamento tecnológico e a comunicação em rede: inventando outros domínios de aprendizagem. Porto Alegre: PGIE/UFRGS, 2003 (Tese de doutorado). CARNEIRO, M. L., MARASCHIN, C., TAROUCO, L. M. R. Interação: fator fundamental em cursos a distância. In: XXIX Congresso Brasileiro de Ensino de Engenharia, 2001, Porto Alegre. Anais do COBENGE Porto Alegre: ABENGE, 2001, p GARCÍA ARETIO, L. Educación a distancia hoy. Madrid: UNED, GELLER, Marlise. Educação a distância e estilos cognitivos: construindo um novo olhar sobre os ambientes virtuais. Porto Alegre : UFRGS, (Tese de doutorado) HARASIM, L.; HILTZ, S.R.; TELES, L e TUROFF, M. Learning Networks: a field guide to teaching and learning online. Cambridge: MIT Press, HOUAISS, A. E VILLAR, M. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, MORAN, José Manuel. Contribuições para uma pedagogia da educação online. In: SILVA, M. (org.) Educação online: teorias, práticas, legislação, formação corporativa. São Paulo, Loyola, Disponível na Internet: <http://www.eca.usp.br/prof/moran/contrib.htm>. Consultado em 01/11/04. MORAN, José Manuel. (s.d.) Educando em ambientais virtuais: gerenciamento inovador de cursos presenciais e a distância. Disponível na Internet: <http://www.usp.br/iea/cidade/textos/moran.html>. Acesso em 05 maio PALOFF, R. e PRATT, K. Construindo comunidades de aprendizagem no ciberespaço: estratégias eficientes para salas de aula on-line. Porto Alegre, ArtMed, PALOFF, R. e PRATT, K. O aluno virtual: um guia para trabalhar com estudantes on-line. Porto Alegre, ArtMed, PETERS, Otto. Didática do ensino a distância: experiência e estágio da discussão numa visão internacional. São Leopoldo: Unisinos, 2001.

7 CAPITULO 2 WEBFOLIO MEU CADERNO VIRTUAL

8 CAPITULO 3 AVALIAÇÃO EM EAD Avaliação da participação em Fóruns de Discussão Auto-avaliação o diário de bordo MEU QUERIDO DIÁRIO: desenvolvendo a reflexão e autonomia na EAD 8 O Diário de Bordo é uma ferramenta bastante usual dentro dos ambientes de educação a distância embasados numa proposta construtivista. Essas ferramentas, inspiradas nos diários de classe tradicionais dos professores e nos registros de campo dos pesquisadores etnográficos, são indispensáveis no processo de construção de conhecimento do aluno virtual 9. Seu acesso pode ser restrito apenas aos seus criadores, como também, serem compartilhados com a turma para permitir as trocas de vivências e opiniões. O nome Diário de Bordo deriva originalmente de termos náuticos (diários de bordo de navios elaborados pelo comandante do mesmo) e foi usado nos ambientes a distância como uma metáfora de navegar na Internet. O Diário de Bordo é visto como... um caderno ou pasta onde o(s) estudante(s) registra(m) as etapas que realiza(m) para desenvolver o projeto, registrando detalhada e precisamente (indicando respectivas datas e locais) todos os fatos, passos, descobertas e indagações, investigações, entrevistas, testes, resultados e respectivas análises. (FEBRACE, 2004). Penteado et alli(2004) definem diário de bordo como o espaço individual do aluno, onde este pode deixar registrado seu percurso de aprendizagem (2004, p.5). Já Zabalza (2004) considera especificamente os diários de aula como documentos em que professores e professoras anotam suas impressões sobre o que vai acontecendo nas suas aulas (p. 13). Para este autor, escrever um diário é como dialogar consigo mesmo, racionalizar uma jornada sobre todos os acontecimentos relevantes,... uma forma de descarregar tensões internas acumuladas, de reconstruir mentalmente a atividade de todo o dia, de dar sentido para mim ao que Maslow (1976) denomina de uma densa experiência (grifo do autor, p. 9) A função do diário de bordo adquire relevância num curso de capacitação de professores porque mostra a dupla dimensão da práxis educativa. Por um lado, as vivências da nossa prática e por outro, a evolução de tais vivências e da nossa atuação ao longo do processo educativo. Para Zalbalza (2004), essa dupla dimensão refere-se à dimensão sincrônica e diacrônica 10 do estilo de ensino. Nessas dimensões surgem a consciência da ação e a informação analítica sobre essa ação. Ambos elementos constituem componentes 8 Mestre em Educação (PUCRS), Doutora em Informática na Educação (PGIE/UFRGS) 9 Entendemos por aluno virtual aquele aluno que participa de um curso a distância. 10 Estes termos foram introduzidos originariamente por Saussere na lingüística e usados depois em outras áreas. Designam o eixo da simultaneidade (sincrônico) e das sucessões (diacrônico) no qual é possível considerar apenas uma coisa por vez, mas onde estão situadas todas as coisas do primeiro eixo com suas mudanças. A dimensão sincrônica constitui o sistema ou estrutura enquanto que a dimensão diacrônica é o conjunto de variações sofridas pelo sistema sob a ação de eventos externos ao mesmo (Abbagnano, 1998)

9 fundamentais na formação continuada dos professores. Logo, o diário como ferramenta para apoio à reflexão permite uma conscientização do nosso trabalho como professores e é, ao mesmo tempo, uma ferramenta de aprendizagem pela reflexão (Emig, 1977, apud Zalbalza, 2004) Os diários constituem-se ótimos recursos para a formação permanente dos docentes, ao contribuírem no desenvolvimento pessoal e profissional da prática educativa no que Zalbalza(2004) denomina de círculo de melhoria. Esse círculo começa pelo desenvolvimento da consciência, continua pela obtenção de uma informação analítica e vai se sucedendo por meio de outra série de fases, a previsão da necessidade de mudanças, a experimentação das mudanças e a consolidação de um novo estilo pessoal de atuação (ZABALZA, 2004, p. 11, grifo do autor) Segundo o Febrace (2004) um diário deve conter: registro detalhado dos fatos, passos, descobertas e indagações dos alunos; das datas e locais das investigações; dos testes e resultados alcançados; assim como, as entrevistas conduzidas, entre outros elementos que o dono do diário achar importante relatar. O que caracteriza um diário não é o registro diário, mas sua periodicidade ou sistematicidade. Um outro aspecto importante, é que os diários são narrações nas que o seu conteúdo pode ser de qualquer espécie. O importante é que esse conteúdo seja importante para o autor do diário e possua riqueza informativa (ZALBALZA, 2004). Zabalza(2004) classifica o conteúdo dos diários como sendo: jornalístico: quando é basicamente descritivo com características próprias do jornalismo; analítico: a narração é orientada para determinados itens que são destacados e servem com guia para a construção do diário; avaliativo: em geral neste tipo de conteúdo, o autor toma posicionamento nas suas colocações realizando um processo avaliativo (próprio, do processo, dos alunos, do contexto, etc.); etnográfico: o conteúdo e o sentido da narração levam em conta todos os aspectos do grupo social (contextos físico, social e cultural) em que ocorrem os fatos; terapêutico: o conteúdo serve mais como uma forma de descontrair as tensões do diaa-dia; reflexivo: neste item, o conteúdo é um dialogar-consigo-mesmo sobre os fatos e acontecimentos registrados; introspectivo: o conteúdo do diário é voltado fundamentalmente sobre o próprio sujeito (sentimentos, vivências); criativo e poético: o conteúdo não reflete apenas a realidade, pois o autor lança mão de recursos literários (com poesias, provérbios, metáforas, etc.) para se expressar.

10 Evidentemente, um diário de bordo pode ser de qualquer tipo e até misturar os estilos, pois depende da criação do sujeito e o seu processo de reflexão. Neste sentido, os diários, especialmente utilizados por professores em formação (seja esta continuada ou não) permitem o desenvolvimento de pesquisa em quatro âmbitos diferenciados: mundo pessoal dos professores; desenvolvimento profissional; explicitação dos próprios dilemas e avaliação e reajustes de processos educativos. Para Miles (1998, apud Zabalza, 2004) o comportamento auto-analítico é, acredito, um instrumento fundamental nas iniciativas de mudança escolar (p.42). Com relação à explicitação dos próprios dilemas, o uso do diário tem se mostrado muito eficaz na tomada de consciência desses dilemas e na busca concreta de soluções para os mesmos, seja pelo compartilhamento dos mesmos, seja pela auto-reflexão. Pois, como afirma Zabalza (2004), nem sempre o professor é consciente do processo de identificação ou de resolução dos dilemas (p.18) Pois, a práxis, não é um processo intervenção previamente fixada, senão que é um processo inserido num contexto flexível articulado por diversas variáveis que perfazem o fazer educativo (Zabala, 1998). A multiplicidade de dimensão dessa prática educativa é, muitas vezes, percebida pelo professor e pelo aluno de forma espontânea, sem a devida conscientização, tão necessária à práxis educativa. Dessa forma, através dos diários e da reflexão que eles promovem os professores tem a oportunidade de refletir sobre a sua prática e sobre os seus dilemas. Os professores serão melhores profissionais tanto quanto mais conscientes forem suas práticas, quanto mais refletirem sobre suas intervenções (ZABALZA, 2004, p. 23) Mas os diários não são apenas instrumentos de reflexão e de conscientização da prática, eles são excelentes ferramentas de avaliação, sejam estes de autoavaliação, como de avaliação do grupo e do processo. É um instrumento de avaliação que permite como os portfólios acompanhar o processo de construção de conhecimento do aluno. E que permitem desenvolver no aluno duas competências básicas: reflexão e escrita analítica-sintética. Entendemos esta última competência como a competência para a produção textual, tão necessária para o professor deste novo milênio, que deve passar de um professor-leitor para se tornar um professor-autor. Por último, o diário de bordo como ferramenta computacional é um ótimo espaço para feedback imediato e permanente e para compartilhamento de crenças e vivências e pode ser usado como técnica de ensino e aprendizagem em conjunto com outros instrumentos como portfólio, grupos de discussão, etc. Referências Bibliográficas ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

11 FEBRACE- Feira Brasileira de Ciências e Engenharia - Criatividade e Inovação. Diário de Bordo. Disponível em 8/11/2004. PENTEADO, F. BASSANI P. e PASSERINO, L. Aprenda a Gerenciar o seu Material através do Tutorial do Ambiente Virtual NEAD. Disponível em: Acesso em 08/11/2004. ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, ZABALZA, M. Diários de Aula: um instrumento de pesquisa e desenvolvimento profissional. Porto Alegre: ArtMed, Bibliografia Adicional ALVES, F.C. DIÁRIO - Um Contributo para o desenvolvimento profissional dos professores e estudo dos seus dilemas. Disponível na Internet em: Acesso em 8/11/2004. SILVA, M. H. e DUARTE, M. C. O diário de aula na formação de professores reflexivos: resultados de uma experiência com professores estagiários de biologia/geologia. Disponível na Internet em: Acesso em 8/11/2004

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