PORTUGAL PRECISA DE DESENVOLVER UMA ESTRATÉGIA PARA O HIDROGÉNIO

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1 Pág: 9 Área: 22,57 x 29,17 cm² Corte: 1 de 5 PORTUGAL PRECISA DE DESENVOLVER UMA ESTRATÉGIA PARA O HIDROGÉNIO Em Portugal, os especialistas consideram que o hidrogénio poderá ser uma solução para a mobilidade e a sustentabilidade energética do país, integrado com outras fontes. Ainda há muitas condicionantes e estudos a fazer, numa altura em que alguns países europeus começam a construir as primeiras redes de abastecimento a veículos automóveis. A primeira ação urgente a realizar é conceber uma estratégia para o hidrogénio em Portugal, com metas e objetivos muito claros para o curto, médio e longo prazos Quais as principais tecnologias baseadas no hidrogénio? Adélio Mendes Professor Catedrático, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto As principais tecnologias para geração de hidrogénio são, na minha opinião, a eletrólise de baixa e alta temperatura da água, útil para as PEMFC, reformação de combustíveis de origem renovável (etanol, metanol, metano, etc.) e termólise da água. Já para uso do hidrogénio como veículo de energia, são as células de combustível, essencialmente PEMFC, HT-PEMFC, SOFC. António Costa Relações Públicas Toyota, Dep. Comunicação & Marketing da Toyota Caetano Portugal Qual a principal restrição ao uso do hidrogénio como combustível? Apesar de o hidrogénio ter várias proveniências, a sua disponibilidade através de uma rede de abastecimento é inexistente, o que poderá condicionar a proliferação desta tecnologia em países como Portugal. Atualmente, Alemanha, Inglaterra e Dinamarca, entre outros, investem numa rede de abastecimento por constatarem as vantagens de utilização deste combustível. Consequentemente, vão ser os primeiros países a receberem os Toyota FCV. Para a Toyota, uma rede razoável poderia ter postos de hidrogénio a cada 300 quilómetros, o que permitia uma mobilidade considerável. Sentimos que, à semelhança do que aconteceu com o primeiro híbrido a ser produzido no mundo, o Toyota Prius, a proliferação dos veículos movidos a célula de combustível pode demorar algumas gerações.

2 Pág: 10 Área: 22,64 x 28,32 cm² Corte: 2 de 5 Carla Silva Investigadora principal no Instituto de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico Os sistemas tecnológicos com base em hidrogénio poderão ser uma solução para a mobilidade? O sistema de transporte terrestre de pessoas tem de ser visto como um todo. A solução do problema da mobilidade mais sustentável, desejável para o futuro, não pode ser encontrada olhando só para a alteração da tecnologia no transporte individual, táxis ou autocarros. A sustentabilidade do sistema de transporte tem que ver com aspetos energéticos, ambientais, económicos e sociais. O hidrogénio pode entrar como vetor energético nestes modos de transporte através da tecnologia híbrida de pilha de combustível. De facto, de acordo com estudos que realizámos, e de acordo com o aspeto ambiental, a pegada carbónica desta tecnologia é menor do que a dos veículos tradicionais a gasolina/gasóleo, se o hidrogénio provir de reformação de gás natural. Outras vias de produção de hidrogénio, como por exemplo eletrólise usando o mix elétrico português, ou fermentação a partir de microalgas, acaba geralmente por ser pior e emitir mais gases de efeito de estufa do que o uso de gasolina/gasóleo. A grande mais-valia é em termos da qualidade do ar, dado que esta tecnologia não produz as usuais emissões de hidrocarbonetos, óxidos de nitrogénio, monóxido de carbono e partículas produzidas pelos carros atuais. João Gomes Professor no Depart. de Engenharia Química do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. O hidrogénio poderá ser uma solução mais sustentável em termos energéticos? O hidrogénio constitui uma alternativa sustentável aos combustíveis fósseis utilizados nos sistemas de transporte, pois pode ser obtido de recursos renováveis, como a água. Esta substância, tão abundante no nosso planeta, pode ser decomposta nos seus elementos constituintes (o oxigénio e o hidrogénio) pela passagem de corrente elétrica e utilizando um eletrólito que assegure condutividade (por exemplo, um sal) para o efeito. Naturalmente, convém que essa corrente elétrica seja obtida a partir de fontes renováveis ou a partir da corrente elétrica da rede em períodos em que há excesso e que seria, de outra forma, totalmente desaproveitada. Com uma boa gestão das redes de transporte e distribuição de energia elétrica é possível fazer isso. João Paulo Bento Professor no Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial De que forma é que terão de ser introduzidas as tecnologias de hidrogénio em Portugal e quais os custos da mudança? Para introduzir a tecnologia nos transportes, por exemplo, terá de se construir infraestrutura adequada. Também é necessário organizar sessões informativas e encontros temáticos junto da população, para esclarecer as vantagens e mais-valias de adquirirem essa tecnologia versus a convencional. É preciso fazer isso junto dos empresários do transporte rodoviário de passageiros, que utilizam os autocarros, e dos veículos automóveis ligeiros de passageiros, como o táxi. Estou em crer que a questão dos incentivos, tal como aconteceu nos carros elétricos, terá de ser devidamente estudada em termos de Orçamento de Estado, considerando eventuais cenários sem incentivo e cenários com incentivo para prever a procura pela tecnologia. Jorge Nabais Diretor de Inovação e Desenvolvimento da Carris Qual poderá ser o papel do hidrogénio nas soluções de mobilidade sustentável nas cidades? A célula de combustível tem sido objeto de enorme evolução tecnológica. Daí que a utilização de veículos a célula de combustível, com hidrogénio embarcado, constitua uma das mais promissoras opções futuras para a propulsão de veículos.

3 Pág: 11 Área: 18,64 x 26,39 cm² Corte: 3 de 5 A Carris tem acompanhado, há anos, os diversos projetos de desenvolvimento neste domínio, tendo, inclusive, promovido, durante a Expo 98,a primeira demonstração em Portugal de um autocarro movido a célula de combustível. Mas a tecnologia ainda não atingiu a maturidade e a fiabilidade adequadas para ser uma solução alternativa de mercado. A necessidade de criar uma nova infraestrutura constituirá, seguramente, o maior obstáculo à sua implantação. Jorge Pinto CEO da CaetanoBus Há soluções tecnológicas que envolvam o hidrogénio na Caetano- Bus? Neste momento, não. Todavia, enquanto fabricantes de autocarros, sempre assumimos o compromisso de desenvolvimento de tecnologia a longo prazo. Desde 2011 que temos experiência comprovada no desenvolvimento de soluções de mobilidade elétrica e estamos agora a ponderar soluções alternativas de energia sustentável. Estamos a desenvolver um autocarro urbano elétrico, que poderá ser alimentado por um sistema de baterias ou pilhas de hidrogénio, colocando, para o efeito, depósitos de hidrogénio no tejadilho. O protótipo 100% Caetano será apresentado em junho de 2015 e consistirá num autocarro com um comprimento de 12 metros, largura de 2,5 metros e uma lotação até 75 passageiros. Luís Mira Amaral Presidente dos Conselhos da Indústria e Energia da CIP Quais são as tecnologias com base no hidrogénio mais promissoras em termos económicos? O hidrogénio não é uma fonte de energia primária, ou seja, não existe como tal na natureza. Assim, a sua produção estará sempre dependente de fontes de energia que tornam economicamente viável a sua obtenção, designadamente através da eletrólise da água. Nos veículos, o hidrogénio, alimentado a pilhas de combustível, terá de competir com os carros elétricos. Talvez em aplicações mais ligeiras, a pilha de combustível seja uma alternativa viável às baterias. Nuno Ribeiro da Silva Presidente da Endesa Generación Portugal Qual poderá ser o papel do hidrogénio para armazenar energia elétrica em Portugal? Num país com abundantes recursos renováveis, nomeadamente as energias solar e eólica, em que estas tecnologias de produção de energia elétrica têm forte penetração, a solução hidrogénio como forma de armazenamento poderá vir a ser interessante em duas situações. Por um lado, nos centros produtores interligados às redes elétricas, desviando a energia que excede as necessidades do sistema, em particular nas centrais eólicas no período noturno, para a produção do hidrogénio que depois pode ser utilizado como fonte energética secundária. Por outro lado, viabilizando o excesso de produção de centrais renováveis, solares, eólicas, ou outras, que não estejam ligadas à rede elétrica, ou integrem sistemas isolados, acumulando energia que

4 Pág: 12 Área: 18,52 x 27,91 cm² Corte: 4 de 5 pode ser reutilizada sob a forma de hidrogénio. José Luís de Oliveira Paulo Adjunto da Direção e Coordenador da Área do Hidrogénio do EnergyIN Polo de Competitividade e Tecnologia da Energia Há financiamento disponível para transformação em negócio de inovações na área do hidrogénio? A economia do hidrogénio tem uma quota significativa das verbas do Horizonte Estas verbas são geridas por uma parceria constituída pela Comissão Europeia, indústria e grupos de investigação (FCH-JU Fuel Cells and Hydrogen Joint Undertaking). No âmbito do Horizonte 2020, a economia do hidrogénio pode também beneficiar dos financiamentos previstos para o apoio à eficiência energética e à sustentabilidade urbana. Em termos nacionais, a economia do hidrogénio poderá ainda beneficiar das medidas do novo quadro comunitário de apoio, em que se espera que a sustentabilidade energética e ambiental venha a constituir-se como um dos principais eixos. Ricardo Oliveira Diretor de Comunicação e Imagem da Renault em Portugal Qual o papel do hidrogénio numa mobilidade mais sustentável? Já existem, hoje, diversas soluções para uma mobilidade mais sustentável. Na Renault pensamos que nenhuma destas soluções se tornará hegemónica no prazo de 10 a 15 anos. Mas todas elas estarão disponíveis e caberá ao consumidor escolher entre diversos fatores: tipo de veículo, custo de aquisição, custo de utilização, adaptabilidade face ao perfil de utilização, etc. O hidrogénio é, potencialmente, mais uma solução de mobilidade sustentável que adicionará às que hoje se encontram disponíveis no mercado. Rui Costa Neto Investigador Auxiliar no Instituto de Engenharia Mecânica do Instituto Superior Técnico Qual poderá ser o impacto económico da introdução de tecnologias baseadas no hidrogénio? Existem estudos científicos com análises macroeconómicas efetuadas em diversos países (Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Itália, Holanda, Noruega, Polónia, Espanha, Reino Unido, Coreia do Sul, EUA, Canadá e Japão), em que muitas das previsões e respetivas conclusões poderão ser extrapoladas com alguma aproximação para Portugal. Os resultados sugerem que existirá um grande impacto do hidrogénio nas frotas de veículos automóveis com pilhas de combustível, que oferecerão custos mais reduzidos face aos veículos com baterias num horizonte de 40 anos. Eurico Amorim Diretor dos cursos de 1.º e 2.º ciclos de Engenharia de Energias na Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Trás-os- Montes O que é que falta fazer para a introdução das tecnologias baseadas no hidrogénio no paradigma energético nacional? A primeira ação urgente a realizar é conceber uma estratégia para o hidrogénio em Portugal, com metas e objetivos muito claros para o curto, médio e longo prazos. Terá de fazer parte das políticas públicas para o investimento na descarbonização do setor dos transportes, no desenvolvimento industrial privado e ser acompanhada da interação com o sistema científico/ tecnológico nacional e internacional. A aposta na criação de grupos industriais nacionais poderá evitar futuras importações de elementos tecnológicos essenciais. Uma das principais dificuldades na venda e circulação dos veículos a hidrogénio é a inexistência de estações de abastecimento. Se não existirem não se vendem veículos, e se não existirem veículos ninguém quer investir na instalação das estações. Este constitui o dilema que deve ser resolvido pela atuação dos países numa verdadeira política energética comum na Europa.

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