Reflexos da História na Literatura Baiana

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1 Reflexos da História na Literatura Baiana Mileide Santos Dias 1 Manuela Santos Dias 2 Literatura A literatura permeia a existência do homem, desempenha importante papel nos atos sociais e é vista como arte, que possibilita entusiasmo e prazer à alma humana, como elucida Antonie Champangnon: Separada ou extraída das belas-letras, a literatura ocidental, na acepção moderna, aparece no século XIX, com o declínio do tradicional sistema de gêneros poéticos, perpetuando desde Aristóteles. Antonio Cândido ressalta também que A palavra literatura designa textos que buscam expressar o belo e o humano por meio da escrita 3, aclarando que literatura diz respeito aos textos que possuem uma preocupação estética, provocando prazer e conhecimento por sua forma, conteúdo e organização. Sendo expressão do homem, é um meio privilegiado de comunicação, pois explora todas as potencialidades da linguagem. Cândido explica ainda que: A literatura busca o essencial, o universal, contribuindo para a formação dos homens, indicando-lhes modos de agir, retratando-os em seus desejos, angústias e prazeres. Desse modo, faz com que o homem se conheça cada vez melhor. 4 História Assim como a literatura, a história também faz parte da existência humana. Essa área do conhecimento é importante, pois ajuda a humanidade a legar às gerações experiências, vista ou vividas. Jacques Lê Goff afirma que: A palavra história (em todas as línguas românicas e em inglês), vem do grego antigo historie, em dialeto jônico (keuck, 1934). Esta forma deriva da raiz indoeuropéia wid-, weid-, ver. Daí o sânscrito vettas testemunha, e o grego histor, testemunha no sentido de aquele que vê. Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à ideia de que histor, aquele que vê, é também aquele que sabe ; historein, em grego antigo, é procurar saber, informar-se. Historie significa, pois procurar. É este o sentido da palavra em Heródoto, no início de suas Histórias, que são investigações, procuras 1 2 Insira aqui a titulação e instituição do/a autor/a. Se desejar, inclua para contato. Insira aqui a titulação e instituição do/a co-autor/a ou orientador/a. Se desejar, inclua para contato. 3 CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira.:momentos decisivos. 6.ed. Belo Horizonte. Itatiaia, Ibidem.77. 1

2 Percebe-se que a História, enquanto ciência, possibilita a narração de fatos, testemunhos. Esses podem contextualizar ou embasar textos ficcionais. Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos Bahia, gênese cultural do Brasil Parte do legado histórico-cultural do Brasil originou-se na Bahia, como já se sabe. No entanto, houve muita resistência em deixar o povo brasileiro livre para fecundar e gerar sua própria cultura e expressão no âmbito literário, religioso, arquitetônico. A história do povo baiano- brasileiro foi marcada por lutas e massacres vivenciados pelos negros trazidos da África que foram aqui reduzidos a objetos. A Cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos foi projetada com intuito especificamente comercial de se reproduzir uma extensão da Europa, no entanto, a situação ganhou alguns tons inesperados, como afirma Antonio Risério: [...] implantou-se o projeto lusitano para os nossos trópicos. Não exatamente dentro das balizas ou dos trilhos planejados pelos portugueses, é claro. Eles pensaram em termos de transplantação cultural, de reprodução imediata do modelo metropolitano, sonhando uma Nova Lisboa em nossas Terras. Mas a mestiçagem genética e o sincretismo cultural, [...], se encarregam de tecer uma outra realidade, original, na Bahia de Todos os Santos e seu Recôncavo. Assim teve início o processo histórico-cultural que fez, de nós, o que somos. 5 Caracterizado também pela riqueza das misturas entre as culturas europeias, indígenas e principalmente africanas, nasce um povo ímpar que sintetiza todas as características de uma gente festiva e alegre, que sabe celebrar a vida, valorizar a espiritualidade e buscar em seu interior forças para superar os holocaustos aqui realizados. O Negro Negro, de objeto estético a escritor de sua história; Por meio da literatura, especificamente baiana, constata-se o negro como objeto estético principalmente nas obras de Castro Alves (o poeta dos escravos) e também nas obras de Jorge Amada, Todavia, ao contrário do que muitos acreditam, o negro, na literatura baiana, também possui uma voz própria. A tônica de alguém que além de falar pelo negro, de cantar as dores do escravo viveu na pele seus estigmas. A figura do 5 RISÉRIO,Antonio. p.19 2

3 advogado e poeta do ex-escravo Luís Gonzaga Pinto da Gama. Porém essa voz negra não obteve a mesma receptividade dos autores citados anteriormente. Trazidos da África nos porões dos navios como se fossem cargas desprezíveis, chegavam nesta terra os escravos, seres humanos que eram reduzidos a objetos de comércio, coisas que pertenciam aos seus senhores. Foram eles que contribuíram para o desenvolvimento econômico como explica Risério: Inicialmente a lavoura açucareira utilizou-se de mão-de-obra escrava nativa. À medida que o açúcar tornou-se de significativa importância para o comércio luso e, dessa forma, aumentou a demanda de braços na agricultura de exportação, buscou-se a alternativa da importação de africanos para o trabalho compulsório. 6 Os portugueses encontraram na força e resistência do negro, subsídio necessário para movimentar a economia lusitana, no entanto, Risório diz que: Por definição escravo é aquele que não possui vontade própria, totalmente sujeito à vontade de um amo. 7 Condição que marcou a história do negro e se mantém no contexto atual em diferentes configurações. A respeito da crítica situação vivenciada pelos africanos, Antonio alude um famoso sociólogo esclarecendo: Em seu estudo Classes Sociais e História: Considerações Metodológicas, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu que os escravos foram, no Brasil, testemunhas mudas de uma história para a qual não existem senão como uma espécie de instrumento passivo sobre o qual operam as forças transportadoras da história. 8 O instrumento passivo qual se refere o ilustre pesquisador é fruto da mente de uma sociedade escravocrata e preconceituosa que não deu, de forma democrática, voz e vez ao povo que tanto contribuiu para a formação da cultura brasileira. Nota-se, entretanto, que o aspecto integralmente passivo não cabe aos negros, visto que mesmo em meio à injustiça e abandono eles se manifestavam com movimentos que o próprio Estado visava debelar, como as colônias quilombolas constituídas por escravos fugitivos, a Sabinada, a Revolta dos Malês dentre outros que não foram registrados pela história. Imprescindível ressaltar ainda as pequenas manifestações como furtos aos seus senhores, abortos cometidos pelas escravas a fim de não transmitirem à futura prole o sofrimento que enfrentavam e algumas mentiras que diziam aos seus amos, com intuito de desobedecer 6 RISÉRIO, p Ibidem, p Ibidem, p

4 e realizar a vontade própria. Risério afirma que Ao furtar ele afirma sua humanidade. De fato, ele infringe as regras do patrão e cria seu próprio mundo forjando inteligência e altivez. Percebe-se que, na verdade, o negro não é o ser ignorante e sem criatividade como afirmavam algumas autoridades políticas da época e sim, o astuto e sagaz, que soube driblar a suposta superioridade branca cultuando seus deuses, manifestando sua arte e recriando nesta terra parte do que lhe fora tirado e negado ajudando a gerar uma nova cultura e ao contrário do que se acreditava, a alma africana revelou-se forte, guerreira e vigorosa mesmo quando até sua condição humana havia sido exonerada. Mesmo em uma diáspora. Quanto à produção literária afro no Brasil, não houve, como afirma Eduardo de Assis Duarte, o interesse da sociedade em estudar e divulgar essa arte. A crítica literária sugere que os textos afro-brasileiros contemplam de todas as características artísticas necessárias para receberem prestígio como tais, no entanto, não é o que se constata, como enfatiza Roger Bastide: Não existe, na aparência, diferença essencial nos trabalhos brasileiros brancos e de cor. Mas justamente não passa de aparência, que dissimula no fundo contrastes reais. Seria uma atitude hipócrita aceitar que não há distinção, ao passo que cogitar sua inexistência já é. A sociedade, por vezes, finge a fim de camuflar esse estigma na história do país, como cita Eduardo Duarte: Vinculado à mestiçagem e aos estigmas provindos da escravidão, o branqueamento, como negação da afrodescendência, tem nos legado escritores que produzem uma literatura esquecida da questão racial e das desigualdades dela decorrentes. 9 Relação entre a História e a Literatura As investigações acerca da relação entre história e literatura são recorrentes, no entanto, pode ser entendida, por alguns, como novidade em função das diversas tônicas que assume no âmbito do conhecimento. Gilberto Mendonça Teles afirma que: Discutir a primazia da História sobre a Ficção ou a desta sobre aquela ou, ainda, as íntimas relações das duas sobre formas de narrativa é retomar toda uma tradição de estudos como o realismo nominalismo verossimilhança e mimese. [...] 9 DUARTE, Eduardo. Literatura e Afrodescendência. 4

5 De Platão a Aristóteles não há quem não tenha discutido se a obra literária imita ou não a realidade, refletindo-a [...] 10 Percebe-se que a relação entre a História e a Literatura não surgiu recentemente. As duas caminham juntas ou não, há muito tempo. Cabe ressaltar que a literatura, inserida no campo artístico, não foi necessariamente criada para servir como documento, mas causar prazer e fruição ao homem, no entanto, constata-se que a produção nasce no interior humano que anseia expor sua intimidade, eis que surge o aspecto histórico. Como explica Teles: A ficção não quer ser história, mas desconfia que o eu social do homem que a produz passa, direta ou indiretamente, ao eu do narrador (o que está dentro da obra) toda uma experiência de vida e de linguagem. 11 Dessa forma, a ficção não anseia comparar-se ou ser comparada à realidade, mas sabe que em suas páginas haverá reflexos do contexto social e histórico, do ser que a produz ou/e do ser que ela retrata. Visto que é improcedente desvincular o contexto em que se vive do que se produz. Normalmente, a arte expressa de maneira mais espontânea as ideologias, do produtor, suas experiências pessoais bem como o momento em que se realiza a escrita. A narrativa ficcional recolhe assim fragmentos verbais da realidade e até, conforme a época finge copiar essa realidade. Cria, na mais pura tradição literária, um sentido de verossimilhança, aproximando-se o mais possível de uma linguagem denotativa e dando a ilusão (compartida conscientemente com o leitor) de que está mesmo refletindo a realidade. 12 A arte nutre-se de elementos e fatos marcantes da história real passando ao leitor, que passar a ser um coautor, uma sensação de realidade. Por meio da arte ressurgem questões que muitas vezes são esnobadas pela sociedade, como os desníveis sociais, as injustiças e preconceitos que marcam as épocas históricas. Como evidencia Sandra Jatahy Pesavendo: História e literatura correspondem a narrativas explicativas do real que se renovam no tempo e no espaço, mas que são dotadas de um traço de permanência ancestral: os homens, desde sempre, expressam pela linguagem o mundo do visto e do não visto, através de suas diferentes formas: a oralidade, a escrita, a imagem, a música TELES, Gilberto Mendonça. A escrituração da escrita:teoria e prática do texto literário. Vozes. Rio de Janeiro, p Ibidem, p Ibidem, p PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e literatura: uma velha nova história. 5

6 São meios de se sentir, captar e eternizar a realidade reinventada e transmutada que diz mais do que se espera ouvir e compreender. Percebe-se que a história e a literatura, de acordo com Pesavendo, querem explicar o real, ora de maneira verossímil, ora de maneira imaginária. Ainda por meio da elucidação da autora supra citada, é importante mencionar griots (griôs),responsáveis pelas narrativas orais das culturas de matrizes africanas, que se empenhavam na tarefa de reunir os grupos para narrar os fatos ancestrais, viabilizando a revivência de acontecimentos passados pertencentes à identidade africana. Nota-se características individuais que se refletem em anseio coletivo como expõe Antonio Esteves Por mais objetividade que tenha, o homem acaba sempre fazendo uma releitura dos fatos que, para serem transmitidos, sofrem uma interpretação de acordo com determinados pontos de vista, dentro de certo espaço e de acordo com o tempo em que se vive. Assim, a história e a literatura têm algo em comum: ambas são constituídas de material discursivo, permeado pela organização subjetiva da realidade feita por cada falante o que produz uma infinita proliferação de discursos. 14 Mesmo a história que tem compromisso com a realidade pode (re)configurada de acordo com o viés daquele que está contando, como ocorreu com a história do Brasil na qual o indígena e o negro não tiveram voz, tudo foi narrado com base na subjetividade do colonizador. A literatura, como reflexo da sociedade que representa, traz essas figuras que tornaram-se (ou foram tornadas?) invisíveis, as chamadas minoria que podem assumir lugar de destaque na produção literária. REFERÊNCIAS CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira.:momentos decisivos. 6.ed. Belo Horizonte. CHAMPANGNON, p.32 DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura e Afro-descendência.In Literatura, política, identidades. Belo Hozizonte: FALE-UFMG, Disponível em Acesso em 30/07/ ESTEVES, Antonio. ANTUNES, Letizia Zini. (org) Estudos de literatura e lingüística. Editora Arte e Ciência. São Paulo, 1998.p

7 ESTEVES, Antonio. ANTUNES, Letizia Zini. (org) Estudos de literatura e lingüística. Editora Arte e Ciência. São Paulo, 1998.p.125. GOMES, Dias. O pagador de promessas. 44ed. Ediouro. Rio de Janeiro, LE GOFF, Jaques. Memória e história.5ed. São Paulo, SP. Editora da Unicamp, LUCAS, Fábio.O Caráter social da literatura brasileira. 2ed. São Paulo. Quíron, PESAVENTO, Sandra Jatahy.História e literatura: uma velha nova história RISÉRIO. Antonio. Uma história da cidade da Bahia. 2ed. Rio de Janeiro. Versal, TELES, Gilberto Mendonça. A escrituração da escrita:teoria e prática do texto literário. Vozes. Rio de Janeiro,

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