OS QUILOMBOS REMANESCENTES DO TOCANTINS: ESTUDO DOS NOMES DAS COMUNIDADES COM FOCO NOS ESTUDOS LINGUÍSTICOS E NAS PRÁTICAS CULTURAIS E HISTÓRICAS

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1 OS QUILOMBOS REMANESCENTES DO TOCANTINS: ESTUDO DOS NOMES DAS COMUNIDADES COM FOCO NOS ESTUDOS LINGUÍSTICOS E NAS PRÁTICAS CULTURAIS E HISTÓRICAS Lucília Paula de Azevedo Ferreira 1 Karylleila dos Santos Andrade 2 RESUMO: A proposta deste trabalho consiste em realizar um estudo dos nomes (topônimos) das comunidades remanescentes de quilombos do estado do Tocantins, com foco nos estudos linguísticos e nas práticas culturais e históricas. São 9 (nove) as comunidades, a saber: Malhadinha e Córrego Fundo, município de Brejinho de Nazaré; Morro de São João, município de Santa Rosa do Tocantins; Lagoa da Pedra, município de Arraias; Redenção, município de Natividade; Ambrósia, Formiga, Mumbuca e Carrapato, município de Mateiros. Esta pesquisa ainda faz parte do projeto Populações Tradicionais do Tocantins: cultura e saberes de comunidades quilombolas 3, seu objetivo consiste na compreensão dos saberes e práticas que orientam os modos e estratégias de reprodução da vida social (simbólica e material) de grupos tradicionais do Estado do Tocantins: os quilombos. Palavras-chave: Comunidades remanescentes de quilombos; ATT; Topônimos; Práticas culturais e Históricas. INTRODUÇÃO Toponímia vem do grego topos lugar e onoma nome, estuda o nome dos lugares. É uma área de investigação que se fundamenta na ideia de que a nomeação de um lugar não se dá de forma aleatória ou despropositada, mas que essa nomeação ao ser investigada como disciplina, pode revelar importantes informações referentes à língua, 1 Aluna do Curso de Letras; Campus de Porto Nacional; PIBIC/UFT. 2 Orientadora dos Cursos de Artes e Filosofia e da pós-graduação em Mestrado em Letras; Campus de Palmas e Araguaina; 3 Convênio CNPq/SECT/N /2008. As viagens de campo em 9 comunidades a saber: Malhadinha e Córrego Fundo, município de Brejinho de Nazaré; Morro de São João, município de Santa Rosa do Tocantins; Lagoa da Pedra, município de Arraias; Redenção, município de Natividade; Ambrósia, Formiga, Mumbuca e Carrapato, município de Mateiros, foram realizadas no período de agosto de 2011 a maio de 2012.

2 em uso, na região pesquisada, aos costumes e valores dominantes na conduta dos falantes, como também os acontecimentos históricos e as influências sofridas por meio dos contatos com outros grupos étnicos que ali viveram. Diferentes setores do conhecimento tem se posicionado em face das alternativas que a memória traz aos estudos. Ela tem sido considerada um espaço no qual o repertório das versões sobre o passado ainda não ganhou a dimensão escrita. A memória existe sempre a partir do conjunto social das demais memórias. Quanto às práticas culturais e históricas, a análise da toponímia merece atenção a respeito do seu significado cultural. Claval (2001, p. 189) citado por Seemann (2005, p. 209) afirma que: todos os lugares habitados e um grande número de sítios característicos na superfície da Terra têm nomes frequentemente há muito tempo. A toponímia é uma herança preciosa das culturas passadas. (CLAVAL, 2001, p. 189 citado por SEEMANN, 2005, p. 209). MATERIAL E MÉTODOS O percurso metodológico utilizado no estudo, apresentado por Dick (1990), é o plano onomasiológico de investigação. Durante o processo de análise dos topônimos, optaremos pelo método indutivo que consiste em analisar os fatos, comparados aos fenômenos, e depois são generalizadas as semelhanças encontradas entre eles, chegando a uma classificação quanto à relação observada. A análise desses fatos e fenômenos é feita em etapas divididas para evitar que se cometam equívocos, e para que, ao longo das descrições onomásticas, se construam hipóteses de trabalho. Caso sejam confirmadas, servirão de subsídios para comprovar as hipóteses levantadas acerca do objeto de estudo. Para analisar a origem/etimologia dos nomes das comunidades em estudo, quanto à sua motivação toponímica, nos pautaremos na memória oral dos moradores. A técnica de pesquisa que utilizamos é a pesquisa de campo. Para a coleta de dados, foram realizadas entrevistas que foram gravadas e, posteriormente, transcritas. Por fim, iremos classificar os nomes das comunidades, conforme a metodologia sugerida por Dick (1990). A autora divide os fatos que envolvem a cosmovisão de um dado grupo ou realidade em dois aspectos: físico e antropocultural.

3 A pesquisa tem uma abordagem qualitativa pela necessidade de compreender e interpretar fenômenos, a partir de seus significantes e contexto em que são tarefas sempre presentes na produção de conhecimento. Por meio da memória oral construiremos hipóteses de trabalho, pois todo grupo tem um saber cumulativo de si oriundo da memória, que é empregado na linguagem, uma vez que o tipo de cultura é determinado pelo uso que uma sociedade faz da memória. Para o levantamento dos topônimos das comunidades remanescentes de quilombos, utilizamos fichas classificatórias e explicativas que constituem uma análise detalhada do topônimo. RESULTADOS E DISCUSSÃO A partir da memória oral dos moradores tomamos conhecimento das vivências das comunidades quilombolas em estudo, e a história envolvida na escolha dos nomes. Sabemos que a memória vai se esvaindo no passar do tempo, e, em decorrência disso, teremos algumas informações incompletas, ou alguns moradores não saberão informar o que motivou na escolha do nome. Como exemplificação, seguem os dados analisados: Dados toponímicos Topônimo/no me atual da comunidade Morro de São João Folia do Divino Localização Origem (memória oral) Taxionomia toponímica Foto: Karylleila Andrade Município de Santa Rosa do Tocantins a) Segundo os depoimentos, nas redondezas da comunidade localiza um morro que serviu de cativeiro para esconder os negros. O nome São João foi escolhido devido ao padre Bernaldino (antigo dono das terras onde hoje localiza a comunidade) ser devoto de São João. b) O primeiro nome da comunidade foi Fazenda Roma. a) Geomorfotopônimo b) Corotopônimo

4 Classificamos o nome como Geomorfotopônimo (topônimo relativo à forma topográfica: morro ). Para Fazenda Roma, a taxionomia é Corotopônimo, dado que se relaciona ao nome da capital da Itália, Roma. A partir dos relatos dos moradores, já que não dispomos de documentos escritos sobre a origem da comunidade, podemos sugerir que esse nome esteja vinculado à história de sua formação com o padre Bernaldino Ferreira, dono das prováveis terras onde hoje a comunidade se encontra localizada. Dados toponímicos Topônimo/no me atual da comunidade Redenção Entrevista com morador Localização Origem (memória oral) Taxionomia toponímica Foto Karylleila Andrade Natividade Tocantins a) Segundo relatos, o primeiro nome dado foi Fazenda Custódio. b) Redenção é o seu nome atual. c) Conforme os depoimentos, a localidade é dividida em vários núcleos: Gameleira, Macabeira, Manoel Carvalho. Segundo os relatos, cada morador ou família tinha que nomear o seu lugar para se diferenciar das demais áreas, e assim poder trabalhar com o plantio para a subsistência e requere recursos públicos e financiamentos. a) Antropotopônimo (nome relativo a pessoas, Custódio ) b) Animatopônimo (topônimo relativo à vida psíquica, à cultura espiritual, Redenção ). c) Fitotopônimo: 1) Gameleira (topônimo relativo à índole vegetal); 2) supõe-se que o nome Macabeira seja a passagem de bacabeira para macabeira, isto é, em b > m a alteração se dá apenas pelo fato de uma ser oral e outra nasal (as duas são oclusivas e bilabiais), o que pode supor uma situação de similaridade fonética. Considerando essa hipótese, podemos classificar Macabeira como um Fitotopônimo (topônimo relativo à índole vegetal). ) Por fim, Manoel Carvalho (nome relativo a pessoas) pode ser classificado como um Antropotopônimo. Segundo o dicionário Houaiss (2001, p. 1424), gameleira significa: nome comum a árvores cuja madeira é usada para confecção de gamelas e objetos domésticos. E bacaba significa tipo de palmeira, vem do tupi iwa kawa de iwa (fruta) + kawa (gorda, graxa), cp macaba. (HOUAISS, 2001, p. 370). Para Sampaio (1987,

5 p. 203), bacaba é de origem tupi: Ybá-caba, a fruta oleosa ou gorda (Enocarpus bacaba, Mart.). Pará, Amazonas, Maranhão. E Redenção significa salvação moral ou religiosa (HOUAISS, 2001, p. 663). A escolha dos nomes, conforme relatos dos moradores, em sua maioria, foi influenciada por aspectos físicos, encontrados na região, tais como: morro, córregos, animais etc. Em seguida vêm as motivações relativas à natureza antropo-cultural: cultura espiritual, nome de santos e pessoas, etc. Os nomes de lugares não podem se restringir à função de mera referência, pois há identidades múltiplas por trás dos topônimos. Dessa maneira, como diz Bullock (2004) citado por Seemann (2005, p. 221), a análise da toponímia se aproxima dos valores humanos (ou melhor, humanísticos), porque os nomes se tornam um armazém histórico, social e cultural através das suas associações e valores variados, no contexto do seu fundo ontológico. (BULLOCK, 2004 citado por SEEMANN, 225, p. 221). LITERATURA CITADA DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A motivação toponímica e a realidade brasileira. Arquivo do Estado de São Paulo, São Paulo HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, SEEMANN, Jörn. A Toponímia como construção histórico-cultural: o exemplo dos municípios do estado do Ceará. Vivência. Nº 29, 2005, p AGRADECIMENTOS O presente trabalho foi realizado com o apoio da UFT.

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