METADADOS PARA A PRESERVAÇÃO DA INFORMAÇÃO DIGITAL

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1 354 METADADOS PARA A PRESERVAÇÃO DA INFORMAÇÃO DIGITAL José Carlos Abbud Grácio (UNESP) Bárbara Fadel (UNESP) 1. Introdução Com os avanços das tecnologias de informação e comunicação (TIC) as instituições de ensino passaram a contar com um novo patrimônio: a informação digital. E como todo patrimônio, essa informação digital necessita ser preservada diante dos problemas surgidos com a rápida obsolescência do hardware, do software e dos suportes digitais. O hardware tem evoluído muito rapidamente, seja por questões de avanço tecnológico ou por interesses comerciais. Esses avanços levam a mudanças no software utilizado, nos suportes de armazenamento e conseqüentemente na forma como a informação digital é tratada, armazenada e acessada. A evolução do software tem trazido uma descontinuidade muito rápida dos programas, gerando a necessidade da criação de mecanismos que garantam o acesso aos arquivos criados em versões anteriores. No caso dos suportes de armazenamento digital, como disquetes, CDs, DVDs, pen-drive e outros o problema é o mesmo. Muitos microcomputadores já não são produzidos com dispositivo de leitura para alguns desses suportes. Além da descontinuidade desses dispositivos de leitura, temos também o problema da deteriorização dos suportes, causados pelo tempo de vida dos mesmos (durabilidade) e por danos decorrentes de fatores externos, como temperatura, umidade, qualidade do suporte e outros. A explosão da quantidade de informação digital disponível juntamente com o surgimento da Internet gerou um grande fluxo de informações nos meios de comunicação, exigindo cada vez mais a utilização de computadores interligados em rede. Além desse fluxo, a Internet tornou-se um ambiente para o armazenamento, a busca e a recuperação de informações armazenadas em meio eletrônico. Nesse ambiente, podemos observar que um dos problemas é a carência de dados descritivos da informação armazenada em meio digital, que permita sua

2 355 busca e recuperação por parte dos usuários. Essa carência leva à necessidade do desenvolvimento de elementos de descrição que possam representar o conteúdo dos recursos armazenados em meio digital. Nesse sentido, a maioria dos profissionais, que estudam a questão da descrição, busca e recuperação da informação digital, aponta que a melhor solução para esse problema é criação de metadados. Além do problema da busca e recuperação da informação digital, surge também o desafio da preservação desse tipo de informação e com ela uma nova área de estudo, a preservação digital. 2. Objetivos Essa pesquisa tem por objetivo estudar os metadados e os aspectos que envolvem a preservação digital. Foram realizadas análises dos padrões de metadados mais citados nas publicações científicas, mapeando os principais aspectos relacionados à descrição da informação digital e à preservação digital. 3. Preservação Digital Para Ferreira (2006), a preservação digital é definida como a capacidade de garantir que a informação digital permaneça acessível e com qualidade de autenticidade para que possa, no futuro, ser interpretada numa plataforma tecnológica diferente daquela utilizada em sua criação. Arellano (2004) define preservação digital como mecanismos que permitem o armazenamento em repositórios de dados digitais que garantam a perenidade dos seus conteúdos, integrando a preservação física, lógica e intelectual dos objetos digitais. Portanto, a preservação digital tem como objetivo definir um conjunto de propriedades que garantam e permitam o acesso, no futuro, à informação digital numa plataforma tecnológica diferente daquela utilizada em sua criação. Além dos metadados, vários aspectos estão relacionados com a preservação digital: objetivos da instituição; modelo a ser utilizado e responsabilidades; necessidade de recursos financeiros e de uma política continuada de investimento;

3 356 quais informações devem ser preservadas; aspectos legais da preservação; direitos autorais; autenticidade; necessidades de infra-estrutura tecnológica; repositórios digitais; equipe multidisciplinar; estratégias de preservação; tipo do suporte adequado; controle de variáveis ambientais; aplicação e definição de legislações e leis específicas; implementação de políticas de preservação digital. 4. Metadados O termo metadados possui um significado ou um conceito de acordo com o profissional e a área em que é utilizado, mas tem sempre como objetivo principal a descrição da informação. Com relação à informação digital, metadados podem definidos como um conjunto de elementos que descrevem as informações contidas em um recurso, com o objetivo de possibilitar sua busca, recuperação e preservação. Podemos entender como recurso toda informação digital, armazenada eletronicamente, que pode ser acessada e recuperada, independente do formato, como texto, imagem, som, vídeo, uma página da Web etc. Para que tenhamos condições de acesso a esses recursos, necessitamos de sistemas de informação bem planejados, visto que o objetivo principal dessa informação armazenada é estar disponível para o usuário. Preferencialmente, esses elementos devem seguir esquemas de codificação que sejam usuais e comuns, como o uso de vocabulário controlado, esquemas de classificação e formatos de descrição formais, permitindo que esses metadados possam ser trocados entre diferentes instituições. Para Saramago (2003) os metadados para preservação são definidos como informação de apoio aos processos associados com a preservação digital de longo prazo Os metadados relacionados à preservação digital devem acompanhar todo o ciclo de vida do recurso e irão apoiar todo o processo de preservação digital ao longo do tempo, registrando todas as estratégias aplicadas e as mudanças ocorridas com esse recurso. Devem ser utilizados juntamente com os metadados descritivos, como assunto, título, autor e outras, e devem conter informações administrativas e técnicas que permitam o registro das decisões, ações e estratégias de preservação tomadas desde a criação do recurso, assegurando a autenticidade do mesmo.

4 Padrões de metadados Um padrão de metadados pode ser descrito como um conjunto de elementos descritores que segue um determinado modelo de dados com o objetivo de descrever recursos de um domínio específico. Podemos entender como um modelo de dados um conjunto de conceitos e regras (BARRETO, 1999). Podemos considerar que o primeiro padrão de metadados foi o Machine Readable Cataloging (MARC), criado na década de 60 nos Estados Unidos, com o objetivo de possibilitar a troca de registros bibliográficos e catalográficos entre bibliotecas, com o uso de computadores. Diferente do MARC, os padrões criados para a descrição de recursos digitais têm a característica de possuir um conjunto de elementos mais simples, em menor quantidade e flexíveis, o que facilita a descrição desses elementos pelo próprio autor do recurso ou pela instituição responsável em disponibilizar esse recurso. Existem vários padrões existentes, entre eles alguns mais simples e genéricos, mas também amplamente utilizados, com o Dublin Core (DC) e o Resource Description Format (RDF) e outros mais complexos e sofisticados como o Metadata Encoding and Transmission Standards (METS) e o Encoded Archival Description (EAD). 5.1 Padrão Dublin Core - DC No caso da Internet, o DC é o padrão mais citado, pois foi criado e desenvolvido com o objetivo de tratar recursos da Web, que atualmente é uma das fontes de informações mais procuradas por pessoas e instituições. O DC foi surgiu em 1995, a partir do evento denominado OCLC/NCSA Metadata Workshop, onde participaram mais de 50 pessoas com o propósito de discutirem como um conjunto semântico, para recursos baseados na Web, poderia ser extremamente útil para uma pesquisa e recuperação de recursos na Internet. O objetivo principal desse workshop era chegar a uma definição de um conjunto mínimo de elementos para recursos da Web. A esse conjunto de elementos deram o nome de padrão de metadados DC, pois o evento se dava em Dublin, Ohio.

5 358 Além do padrão DC, também foi criado o Dublin Core Metadata Iniciative (DCMI), que é uma organização dedicada a promover a difusão da adoção de padrões de metadados e o desenvolvimento de vocabulário especializado de metadados para descrever recursos que facilitem mais sistemas inteligentes de recuperação de informação. O padrão de metadados DC é um conjunto de quinze elementos que se caracteriza: pela simplicidade no entendimento semântico de seus elementos; pela interoperabilidade; por um consenso internacional, devido à participação de muitos países no projeto; pela extensibilidade, ou seja, permite que novos elementos possam ser acrescentados para atender a uma necessidade de descrição de um determinado recurso; pela sua flexibilidade, pois seus elementos são opcionais, podem ser repetidos se necessário, e modificáveis utilizando-se de qualificadores. Os elementos do padrão de metadados DC, definidas na RFC 2413 (Weibel, 1998), são os seguintes: 1. Título: um nome dado para o recurso. 2. Autor: um entidade ou pessoa responsável pelo conteúdo do recursos. 3. Assunto: o tema (objeto ou ponto principal) do conteúdo do recurso. 4. Descrição: um relato do conteúdo do recurso. 5. Editor: uma entidade responsável por tornar o recurso disponível 6. Colaborador: uma entidade responsável por fazer contribuições para o conteúdo do recurso. 7. Data: uma data associada com um evento no ciclo de vida do recurso. 8. Tipo: a natureza ou a espécie do conteúdo do recurso. 9. Formato: a manifestação física ou digital do recurso. 10. Identificador: uma referência não ambígua para o recurso dentro de um dado contexto. 11. Fonte: uma referência para o recurso do qual o presente recurso é derivado. 12. Língua: uma língua do conteúdo intelectual do recurso. 13. Relação: uma referência para o recurso relacionado, como versão de um trabalho, tradução de um trabalho ou parte de um trabalho. 14. Cobertura: o âmbito do conteúdo do recurso. 15. Direitos: informações sobre direitos do recurso.

6 359 O DCMI, pensando na questão da preservação digital, criou um comitê, composto por pessoas e organizações envolvidas na implementação de metadados de preservação, com o objetivo de promover a aplicação do DC nesse contexto. 5.2 Padrão Metadata Encoding and Transmission Standard - METS O METS surgiu a partir de uma estratégia da Library of Congress (LC) para preservar a informação digital. Através de um conselho nacional, composto por agências privadas e governamentais, a LC, através do projeto Making of America II (MOA2), desenvolveu um formato de codificação para metadados para gestão de objetos em uma biblioteca digital (Arellano, 2004). Utilizando o formato Extensible Markup Language (XML), o METS oferece um padrão para codificação de metadados descritivos, administrativos e estruturais, tanto para a gestão de objetos de bibliotecas digitais num repositório como para a troca desses objetos entre repositórios (ou entre repositórios e os seus utilizadores). Atualmente na versão 1.8, um documento METS consiste em sete seções principais: 1. Cabeçalho METS - contém metadados descrevendo o documento METS em si, como criador, editor, etc. 2. Metadados Descritivos: pode apontar para metadados descritivos externos ao documento METS ou conter metadados descritivos internos, ou ambos. 3. Metadados Administrativos: oferece informação sobre como os arquivos foram criados e armazenados, direitos de propriedade intelectual, metadados sobre o objeto original a partir do qual o objeto digital foi derivado e informação sobre a proveniência dos arquivos que compõem o objeto digital. Tal como os metadados descritivos, os metadados administrativos podem ser tanto externos ao documento METS, ou codificados internamente. 4. Secção de Arquivos - lista todos os arquivos que contêm as versões eletrônicas do objeto digital. 5. Mapa Estrutural - é o coração do documento METS. Ele esboça uma estrutura hierárquica para o objeto da biblioteca digital, e liga os elementos

7 360 dessa estrutura a arquivos com conteúdos e metadados referentes a cada elemento. 6. Ligações Estruturais - permite aos criadores METS registrar a existência de hiperligações entre nós na hierarquia esboçada no Mapa Estrutural. Esta secção tem um valor particular na utilização do METS para arquivar sites. 7. Comportamento - usada para associar comportamentos executáveis com o conteúdo no objeto METS. Dessa forma, o METS possibilita, além da descrição de um recurso em uma biblioteca digital, a troca de objetos digitais entre repositórios. 6. Considerações finais A preservação digital busca preservar a informação armazenada em meio digital tratando aspectos relacionados è essa atividade, com procedimentos específicos e técnicas apropriadas para cada tipo de informação, garantindo que essa informação permaneça acessível no futuro e também sua autenticidade. Um dos aspectos importantes da preservação digital é a utilização de metadados. As instituições devem estar atentas para a importância de se definir, em suas políticas de preservação digital, metadados que possam garantir a busca, recuperação e preservação da informação digital produzida e/ou disponibilizada. Os padrões de metadados, além de oferecerem um mecanismo para codificar metadados descritivos, administrativos e estruturais, também permitem a troca de informações entre instituições que utilizam o mesmo padrão ou até mesmo entre aquelas que utilizam padrões diferentes (interoperabilidade). Isso diminui o trabalho de descrição dos recursos, permitindo também que um usuário possa, em uma única pesquisa, buscar informações em diferentes instituições. Dos padrões de metadados analisados, verificamos que o padrão DC é o mais utilizado para a descrição de recursos disponíveis na Web, pois possui uma comunidade internacional de pesquisadores envolvidos na pesquisa contínua de soluções. Esse escopo dá ao DC um consenso internacional, uma vez que diversos países e comunidades na Internet o utilizam, possibilitando também uma contínua evolução através de estudos e comitês, acompanhando assim a constante evolução

8 361 da Web. A sua extensibilidade é uma das características importantes, pois permite que elementos possam ser acrescentados para atender a uma necessidade específica. O METS é um padrão de metadados que atende a necessidades das bibliotecas digitais para descrição de trabalhos textuais e baseados em imagens em um repositório digital, ambiente esse em constante evolução, principalmente nas instituições de ensino superior com o objetivo de disponibilizar eletronicamente sua produção acadêmica. A utilização de metadados deve ser um dos aspectos que qualquer política de preservação digital, política essa que deve estar inserida nos objetivos da instituição e nos projetos de Tecnologia da Informação (TI), como forma de garantir que o patrimônio digital dessa instituição possa ser preservado para busca e recuperação no futuro. Referências ARELLANO, Miguel Angel. Preservação de documentos digitais. Ciência da Informação, Brasília, v. 33, n. 2, Disponível em: Acesso em: 04 jan DOI: /S BARRETO, A. A. A oferta e a demanda da informação: condições técnicas, econômicas e políticas. Ciência da Informação, Brasília, v. 28, n. 2, p , DUBLIN Core Metadata Initiative. Disponível em: <http://dublincore.org>. Acesso em: 24 fev FERREIRA, M. Introdução à preservação digital: conceitos, estratégias e actuais consensos. Guimarães, Portugal: Escola de Engenharia da Universidade do Minho, Disponível em: <https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5820/1 /livro.pdf>. Acesso em: 17 jan GILLILAND-SWETLAND, A. J. La definición de los metadatos. In: BACA, M. (Ed.). Introducción a los metadatos vías a la informacíon digital. Traducido al español por Marisol Jacas-Santoll. Los Angeles, CA: J. Paul Getty Trust, p. 1-9.

9 362 MARCONDES, C. H.; SAYÃO L. F. Integração e interoperabilidade no acesso a recursos informacionais eletrônicos em C&T: a proposta da Biblioteca Digital Brasileira. Ciência da Informação on-line, Brasília, v. 30, n. 3, p , Disponível em: <http://www.ibict.br/>. Acesso em: 17 maio METS Metadata Encoding & Transmission Standard: Official Web Site. Disponível em: <http://www.loc.gov/standards/mets/>. Acesso em: 27 Jan ORGANIZATION of the Dublin Core Metadata Initiative. In: DUBLIN CORE METADATA INITIATIVE. Disponível em: <http://dublincore.org/about/organization>. Acesso em: 05 fev ROSETTO, M. Metadados: novos modelos para descrever recursos de informação digital. In: INTEGRAR: Congresso Internacional de Arquivos, Bibliotecas, Centros de Documentação e Museus, 1., São Paulo. Textos... São Paulo:Imprensa Oficial do Estado, 2002, p SARAMAGO, M. L. Metadados para preservação digital e aplicação do modelo OAIS Disponível em: <http://www.unicamp.br/siarq/doc_eletronico/metadados.pdf>. Acesso em: 22 abr SOUZA, M. I. F.; VENDRUSCULO L. G.; MELO G. C. Metadados para a descrição de recursos de informação eletrônica: utilização do padrão Dublin Core. Ciência da Informação on-line, Brasília, v. 29, n. 1, p , Disponível em: <http://www.ibict.br/cionline/artigos/ htm>. Acesso em: 13 jul THOMAZ, K. P.; SOARES, A. J. A preservação digital e o modelo de referência Open Archival Information system (OAIS). DataGramaZero, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, Disponível em: <http://datagramazero.org.br/fev04/index.htm>. Acesso em: 04 ago WEIBEL, S. et al. Dublin Core Metadata for Resource Discovery. In: INTERNET ENGINEERING TASK FORCE, Disponível em: <http://www.ietf.org/rfc/rfc2413.txt>. Acesso em: 14 fev

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