O mundo mudou. Os currículos ficaram obsoletos. Quais habilidades os alunos devem desenvolver para enfrentar os novos tempos

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1 sociedade O que as precisam aprender O mundo mudou. Os currículos ficaram obsoletos. Quais habilidades os alunos devem desenvolver para enfrentar os novos tempos ana aranha IMAGINE QUE UM CIDADÃO TIVESSE DORMIDO UM SÉCULO E ACORDASSE AGORA. O mundo seria uma grande surpresa para ele. Aviões. Celulares. Arranha-céus. Ao entrar numa casa, ele não conseguiria entender o que é uma televisão. Ou um computador. Poderia se maravilhar com uma barra de chocolate. Escandalizar-se com os biquínis das moças. Perderse num shopping center. Mas, quando ele deparasse com uma escola, finalmente teria uma sensação de tranqüilidade. Ah, isso eu conheço!, pensaria, ao ver um professor com um giz na mão à frente de vários alunos de cadernos abertos. É igualzinho à escola que eu freqüentei. 9 0 I r e v i s ta é p o c a I 2 3 d e a b r i l d e EP466p090_096.indd 90 20/4/ :02:38

2 Essa parábola é quase tão velha quanto o personagem que dormiu cem anos. É contada em inúmeras palestras e cursos de reciclagem de professores. Ilustra como a escola se mantém fossilizada, num mundo que não pára de mudar. A escola como a conhecemos hoje é fruto de uma sociedade forjada no século XVIII, quando a Revolução Industrial e o fortalecimento dos Estados modernos criaram a necessidade de formar cidadãos qualificados para um novo mercado de trabalho. A Revolução Francesa e a independência americana também inspiraram um ideal igualitário, que disseminou a idéia da educação como um direito de todos. Era uma ruptura em relação à escola antiga, voltada para a formação de uma elite fosse a casta religiosa da Idade Média, os burocratas a serviço dos reis ou os aristocratas da Grécia clássica. Com a inclusão das massas na escola, foi preciso criar mecanismos de homogeneização. Vieram daí a divisão dos alunos em séries, a especialização dos professores em disciplinas e a sistematização de um ensino básico a ser transmitido para todos. essa escola, tão bem organizada ao longo de mais de dois séculos, já não responde às necessidades do mundo. A Revolução Industrial foi ultrapassada pela era da informação. A maior parte do trabalho para o qual a escola nos preparava é hoje feita por máquinas. Na década de 70, eram necessários 108 homens, durante cinco dias, para descarregar um navio no porto de Londres. Hoje, com os contêineres e os guindastes modernos, esse trabalho é feito por oito homens, em um dia. Na década de 80, a indústria automobilística brasileira empregava 140 mil operários para produzir 1,5 milhão de carros por ano. Hoje, pode produzir o dobro, com apenas 90 mil empregados. Há uma década, a força de trabalho era chamada de mão-de-obra. Na virada do século, essa expressão já tinha caído Há setores que pedem pessoas capazes de transitar entre áreas profissionais. Esses trabalhadores precisam da capacidade de aprender sozinhos JaIMe cordeiro, especialista em didática da USP em desuso. Não é mais a mão, e sim a cabeça dos funcionários que interessa. Por isso, o trabalhador não pode ser mais aquele que entende as ordens e consegue cumpri-las. Tem de ser alguém que saiba refletir sobre o processo produtivo. E que esteja preparado para mudanças. Isso é ainda mais verdadeiro para os empreendedores. Com a diminuição de oportunidades nas grandes empresas, as escolas têm de formar gente que saiba inventar o próprio negócio. A falta de estabilidade do mundo moderno tem outra implicação: o ensino não pode mais ser um conjunto de conhecimentos que serve para a vida inteira. As pessoas vão precisar de algo diferente: habilidade de adquirir conhecimentos novos o tempo todo. Aprender a aprender. Há setores que pedem pessoas capazes de transitar mais entre áreas profissionais. Esses trabalhadores precisam da capacidade de aprender sozinhos, afirma Jaime Cordeiro, especialista em didática da Universidade de São Paulo (USP). Nossa vida como consumidores também mudou. Um supermercado tem, hoje, cerca de 30 mil itens. Milhares de produtos nos Estados Unidos, 20 mil são lançados por ano, quase todos destinados ao fracasso. A internet já tem mais de 100 milhões de sites. Vivemos afogados em informações. A escola ensina a deglutilas. Se nossos filhos seguirem esses ensinamentos, vão se empanturrar de mensagens repetitivas, inócuas, contraditórias. Ela tem de ensinar a filtrá-las e encontrar o que interessa. Ensinar a escolher. Também já não é possível formar cida- A nova escola vem de um movimento que marcou o século XX: a idéia de que nossa história é de nossa responsabilidade luciano MeNdes, da UFMG dãos com uma base comum de conhecimentos. A própria evolução do saber humano torna defasada essa idéia. O mundo de ontem era repleto de fronteiras, estático, separado por áreas. O atual é globalizado, dinâmico e conectado. Isso faz com que seja praticamente impossível prever quais conhecimentos garantirão uma existência tranqüila. É uma época de extrema liberdade e insegurança. Por isso, os educadores de vanguarda, aqui e no mundo, apontam não para o ensino de um conteúdo salvador, e sim para a ênfase no ensino de um conjunto de habilidades. Muito mais que preparar alguém para um vestibular, essas habilidades formariam uma espécie de caixa de ferramentas básicas para enfrentar o século XXI. Parte do caminho para esse novo ensino tem sido trilhado por algumas escolas, a maioria particular. Nas páginas a seguir, há exemplos de como elas fazem isso. a nova escola vem de um movimento que marcou o século XX: a idéia de que nossa história é de nossa responsabilidade. Que só é possível construir uma sociedade igualitária se o sujeito tiver autonomia, afirma Luciano Mendes, do Grupo de Estudos e Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. O Brasil teve avanços recentes na educação, com a universalização do ensino básico. Ainda falta estabelecer níveis mínimos de qualidade na rede pública. Isso para chegar ao padrão aceitável do século XIX. Para modernizá-la de verdade, é preciso uma revolução. Um dos responsáveis por pensar essa mudança é o sociólogo espanhol Miguel Arroyo, doutor em educação pela Universidade Stanford e ex-secretário de Educação de Belo Horizonte. Ele coordena o grupo de trabalho montado pelo Ministério da Educação que busca uma revisão nacional da estrutura curricular. s 2 3 d e a b r i l d e I r e v i s ta é p o c a I 9 1 Foto: François Gervais/Corbis/Latin Stock EP466p090_096.indd 91 20/4/ :02:43

3 sociedade A idéia é acabar com a divisão por disciplinas na formação do professor Miguel Arroyo, doutor em Educação pela Universidade Stanford A idéia é acabar com a divisão por disciplinas na formação do professor e criar cursos em grandes áreas do conhecimento, diz Arroyo. Assim, os professores sairiam da faculdade formados em Ciências, e não em Física ou Química, como acontece hoje. Essa reforma seria mais que uma mudança de currículo. Já está se formando um consenso de que a educação terá de abrir mão do excesso de conteúdo das matérias lecionadas. Embora as escolas não sejam obrigadas a seguir uma cartilha, o vestibular determina uma carga para todas as disciplinas. A escola absorveu uma quantidade enorme de conhecimento. Apesar de ter muito conteúdo, ela ensina pouco, diz Mendes. Ele afirma que, quando a lição não faz sentido para a vida do aluno, ele não a absorve. Assim que entra na faculdade, boa parte dos formandos esquece lições como equações de movimento, divisão celular ou círculo trigonométrico. Para adaptar o ensino ao mundo de hoje, precisamos de uma formação mais crítica e cultural, que envolva o cinema, o teatro e a vida urbana. Uma das premissas dessa nova escola é a intimidade com a tecnologia. Saber usar computadores, lousas eletrônicas e programas educativos é, hoje, como conhecer o alfabeto. Mas isso não basta. A tecnologia é uma ferramenta inicial, serve para o aluno pesquisar, entrar em contato com aquilo de que precisa. Depois entram o professor e o trabalho em grupo para ajudá-lo a entender, afirma Vani Kenski, especialista em tecnologia educacional da USP. As nações desenvolvidas já acordaram para a necessidade de modernizar o ensino. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, implementou o programa No Child Left behind (Nenhuma criança deixada para trás), que distribui bônus a escolas que alcançam metas no ensino de 9 2 I r e v i s ta é p o c a I 2 3 d e a b r i l d e Por que é importante: nunca houve tamanha produção e facilidade de acesso a informações. Muitas são falsas ou imprecisas. Para entender o mundo moderno, é preciso ter habilidade de filtrá-las e interpretá-las. Ter pensamento crítico Como ensinar: no colégio paulistano Móbile, os alunos já receberam a reportagem com questionamentos. Mas o que você entende por espírito crítico? Aqui tem várias aulas que trabalham isso, disse Eric Curi Silveira, de 17 anos. A aula de ética relaciona as notícias com o que estamos aprendendo e faz a gente ver que não são verdades absolutas. Eric usou os ensinamentos na prática. No começo do ano, passou um abaixo-assinado entre os colegas pedindo mais horas dessa matéria por semana. Conseguiu. Mas foi o último a ficar sabendo, porque não estava na aula em que o anúncio foi feito. (O Móbile não obriga os alunos a entrar na sala.) A atitude crítica é reflexo de uma série de atividades desenvolvidas pela escola. Uma delas acontece no curso de História para o 2 o ano do ensino médio. Os alunos recebem a tarefa de descobrir tudo sobre um documento antigo que o professor entrega sem indicação de autor ou data. A pesquisa pode Fotos: Frederic Jean/ÉPOCA e Claudio Rossi/ÉPOCA EP466p090_096.indd 92 20/4/ :02:59

4 Conectar idéias debates Eric (de camiseta verde) e colegas do Móbile: Sem verdades absolutas ser feita onde eles quiserem, e o professor orienta a classe para sites e lugares, como as embaixadas dos países citados no documento. Eles têm de analisar papéis, avaliar quão confiáveis são as informações que encontram, definir sua relevância para a pesquisa que estão fazendo etc. Ao final do exercício, cada aluno tem de elaborar um artigo de divulgação científica sobre seu documento. Não me importa o que eles fazem para descobrir que documento é. Por mim, podem até buscar no Google, diz o professor de História Roberson de Oliveira. O desafio começa quando eles têm de navegar pelo universo de informações e montar o quebra-cabeça. Ligar o conteúdo do documento ao período histórico que ele representa. Esse tipo de ensino é crucial. Só é preciso moderar a ênfase no incentivo à busca solitária de informações. Não podemos confundir autonomia com individualismo, diz Luciano Mendes, educador da Universidade Federal de Minas Gerais. Autonomia é para sujeitos conscientes e responsáveis. Por que é importante: são cada vez mais raros os profissionais que ficam fechados em uma área específica. A maioria trabalha com conhecimentos de disciplinas diferentes das que teve na faculdade. O médico, por exemplo, usa estatística para avaliar tratamentos. Advogados que praticam Direito Ambiental fazem algo que nem existia quando estavam na escola. Em geral, é por meio de associações de idéias de áreas distintas que surge o pensamento inovador. Como ensinar: a escola estadual Lázaro Franco de Moraes fica em Torrinha (a 240 quilômetros de São Paulo), numa paisagem típica do interior paulista. As estradas ao redor da cidade são repletas de pequenas capelas. Em 2002, numa aula sobre imagens barrocas, os alunos disseram que já tinham visto santos parecidos na região. Então, a professora de Artes, Kátia Regina Buzato, decidiu propor à escola que investigasse a arte local. A partir daí, formou-se uma equipe interdisciplinar para o projeto. O professor de História ajudou os alunos capelas A aluna Cíntia (à frente) com as professoras Alair, Kátia e Alda a montar um questionário com perguntas para os moradores antigos do entorno das capelas. Depois que todas as 54 capelas da região foram catalogadas, a professora de Geografia, Alair Coleta, orientou a classe a localizá-las e registrá-las no mapa. A professora de Português, Alda Lobo, revisou cada história coletada pelos alunos e editou um livro. Cinqüenta cópias foram patrocinadas por um morador local. Elas circulam até hoje de mão em mão pela cidade. Os alunos acharam relatos que enriqueceram a história de Torrinha. Uma delas foi a da capela construída em um antigo cemitério, hoje abandonado, no qual apenas bebês mortos ao nascer eram enterrados. Outra história era a da capela erguida como promessa para espantar uma praga de gafanhotos que invadiu as plantações de café da região. O projeto desperta a atenção porque a gente chegava bem pertinho das histórias, diz a aluna Cíntia Serasuela, de 15 anos. E o nosso trabalho acabava servindo de material para as aulas. O professor de História vivia citando as nossas descobertas. s EP466p090_096.indd 93 20/4/ :03:11

5 sociedade A tecnologia serve para o aluno pesquisar e descobrir o que precisa. Depois entra o professor para ajudá-lo a entender as informações VaNI KeNsKI, especialista em tecnologia educacional da USP matemática e inglês. França, Alemanha e Reino Unido fizeram revisões de currículo na década de 90. As principais mudanças foram: 1) dar autonomia às escolas para adaptar os conteúdos das aulas à realidade dos alunos; 2) acabar com a repetência; e 3) investir na formação de professores em áreas mais amplas. O caso de revolução de ensino mais aplicável no Brasil é o da Espanha. Como nós, os espanhóis viveram sob um regime militar até os anos 70. Com a morte do general Francisco Franco, em 1975, em meio a uma recessão, o novo governo e a sociedade civil estabeleceram acordos conhecidos como Pactos de Moncloa. Em troca de restrições salariais, haveria investimentos em bem-estar social. Nas décadas de 70 e 80, o país expandiu sua rede de escolas e universalizou o ensino. Na década de 90, a Espanha inovou na educação. A primeira medida foi o fim do ensino por séries. O aluno mal avaliado em alguma matéria na Espanha passa de ano, mas tem de fazer aulas de reforço para acompanhar a turma. Foi criado um sistema de disciplinas optativas e aulas profissionalizantes, para atender tanto os alunos que querem ir para a faculdade como os que vão direto para o mercado de trabalho. E várias disciplinas foram unidas em grandes áreas do conhecimento. Assim, é comum que um aluno assista a aulas de História, Espanhol e Filosofia com o mesmo professor. A Espanha e a União Européia aumentaram as horas de aula não para dar mais conteúdo, e sim para levar a classe a museus, viagens e debates, afirma Arroyo. É uma aposta que o Brasil deve fazer. COM PaloMa cotes E BeaTrIZ MoNTeIro 9 4 I r e v i s ta é p o c a I 2 3 d e a b r i l d e Saber aprender sozinho Por que é importante: quem constrói seu conhecimento na escola, em vez de apenas ouvir a lição do professor, tem mais chance de continuar a evoluir e se atualizar na vida adulta. Isso é importante em um mundo em que os profissionais precisam se reciclar constantemente. É comum mudar de carreira ao longo da vida profissional. Como ensinar: no colégio Sidarta, que fica em Cotia, Grande São Paulo, as aulas são montadas a partir do interesse dos alunos. Eles pesquisam para descobrir o conteúdo. Isso vai da pré-escola ao 3 o ano do ensino médio. Antes de falar dos bandeirantes, por exemplo, a professora de 3 a série leva as crianças para uma reserva ambiental. Depois que elas sentiram as dificuldades de desbravar a mata fechada, ela diz: É isso o que faziam os bandeirantes. O que vocês gostariam de saber sobre eles?. As crianças lançam uma chuva de questões, a que elas mesmas terão de responder. A professora indica os livros, museus, sites e vídeos onde as respostas podem ser encontradas. E vai usando as descobertas dos alunos para montar o conteúdo da aula. Como os bandeirantes navegavam nesse rio sujo?, foi uma das perguntas de Carlos Pitteri, de 10 anos, quando viu de perto o Tietê. A classe teve de estudar como o rio era antes, limpo e com correnteza, para achar a resposta. A turma de Carlos também fez duas maquetes do Pátio do Colégio, então uma escola de jesuítas. Os alunos fazem ainda um balanço do próprio desempenho e estabelecem as metas para melhorar. No ano passado, Carlos escreveu que precisava prestar mais atenção em atividades que não envolvessem biologia, a matéria de que mais gosta. estabelec er donos da agenda Alunos na biblioteca da escola Lumiar. Eles fazem os próprios horários curiosidade Carlos e sua maquete do Pátio do Colégio. Ele aprende a pesquisar EP466p090_096.indd 94 20/4/ :03:29

6 Conviver com pessoas diferentes Por que é importante: aproximar crianças e adolescentes de grupos de diferentes classes sociais, etnias e opções sexuais é uma das maneiras de diminuir preconceitos. A ação prepara as crianças para um mundo mais aberto, em que entender diferenças facilita a comunicação e o trabalho em equipe. do 2 o ano do ensino médio. Aos 14 anos, em vez de passar as tardes de sexta-feira no shopping com as amigas, ela entrava na favela Americanópolis para ajudar a cuidar das 80 crianças da creche São Judas. Você entra em um lugar diferente daquele a que está acostumada, afirma. A pintura simples e as paredes enfeitadas com desenhos chamaram a atenção de Lia, habituada às paredes brancas de sua casa. A estudante diz que aprendeu a valorizar as coisas simples de seu cotidiano ao observar o cuidado com que as crianças lidavam com seus brinquedos. A gente sabe que existe essa outra realidade, mas a sensação é diferente quando você está olhando nos olhos da criança e ela diz que seu pai foi morto ou está preso, afirma. Aquelas crianças foram os maiores professores que eu poderia ter. Como ensinar: no colégio Santa Maria, em São Paulo, o contato com o mundo fora do trajeto casa escola começa na pré-escola. As professoras mostram às crianças de 4 e 5 anos a diferença entre suas casas e as de quem mora na favela. São diversas as atividades ao longo do ensino fundamental, incluindo viagens ao Vale do Ribeira. No ensino médio, os alunos podem optar entre reforçar a equipe de uma creche e animar crianças de um hospital, ambos de bairros pobres. Aqui a educação vai além dos muros. Queremos que a realidade seja mostrada pela experiência, diz o professor e coordenador do ensino médio Paulo Felipe. É o que experimentou Lia Spadini da Silva, VIsÃo social Lia e crianças da creche onde fez trabalho voluntário c er metas e fazer escolhas Por que é importante: ensinar os alunos a fazer escolhas e arcar com a responsabilidade de suas decisões é uma das tarefas mais difíceis para as escolas. É também uma das mais importantes para formar cidadãos independentes e profissionais que não precisam de chefe. Como ensinar: na escola Lumiar, em São Paulo, os alunos começam a decidir sobre o próprio destino a partir dos 6 anos. Para isso, muitos dos elementos que caracterizam uma escola tradicional foram eliminados. Ali não há grade curricular dividida por disciplinas, divisão por séries ou por professor. Os alunos montam sua grade horária. Para garantir que eles não deixem de aprender o essencial, há um tutor designado para cada aluno. O modelo é baseado em projetos. A cada bimestre, com a ajuda do tutor e dos pais, os estudantes selecionam os projetos de seu interesse. Oferecemos um cardápio variado, e os alunos constroem seu aprendizado, afirma o educador Fernando Almeida, da Lumiar. Apesar da aparente bagunça, a democracia costuma resolver os conflitos. Houve um caso em que os próprios alunos expulsaram um colega da escola por ele ter rasgado o trabalho de outros. Ele só poderia voltar quando pedisse desculpas. Fez isso três dias depois. Nosso currículo prima pela relação dos alunos com a aprendizagem do que é vida. As pessoas não são mais divididas por idade e precisam tomar decisões sobre seu destino, diz Almeida. A Lumiar foi fundada pelo empresário Ricardo Semler, hoje guru do mundo dos negócios. Em janeiro, foi premiada pela Microsoft como uma das escolas mais inovadoras do mundo. Com a ajuda da empresa, a Lumiar quer divulgar essa pedagogia nas escolas públicas. s Fotos: Claudio Rossi/ÉPOCA 2 3 d e a b r i l d e I r e v i s ta é p o c a I 9 5 EP466p090_096.indd 95 20/4/ :03:42

7 sociedade Ter visão globalizada Por que é importante: as fronteiras estão ficando mais fluidas em todo o mundo. Isso implica trabalhar ou estudar fora, lidar com estrangeiros, ter de entender culturas diferentes e, claro, saber outros idiomas. Como ensinar: na escola Suíço- Brasileira, em São Paulo, os alunos são poliglotas. As aulas de alemão começam na pré-escola. Nas salas de ensino médio, os alunos discutem filosofia em francês. O inglês faz parte do cotidiano da escola. Os alunos saem fluentes em quatro idiomas, incluindo o português, que não é a língua materna de muitos deles. Ali convivem estudantes de 42 nacionalidades. Se não forem fluentes, não se dão mal só na aula de idiomas, mas em outras matérias. Na 7 a série, eles têm Matemática, Química e Física em alemão, afirma Heitor França, coordenador de International Baccalaureate (IB), um diploma internacional que habilita os jovens a estudar em diversas universidades estrangeiras. Para consegui-lo, o estudante passa por uma série de provas na língua materna, em inglês e em um terceiro idioma. O aluno Rafael Niggli, de 18 anos, prestou o IB no fim do ano passado. Do total de 42 pontos da prova, fez 35, três pontos a mais que o exigido para estudar na Suíça, onde o ensino superior é gratuito. Em junho ele partirá para a Universidade de Saint Gallen. Sei que não fico devendo nada a nenhum aluno europeu, diz. No Brasil, apenas dez escolas estão aptas ao IB. Conheci escolas públicas na Argentina que oferecem o mesmo conteúdo. Isso faz com que os argentinos disputem em pé de igualdade com os estudantes brasileiros da escola particular, diz França. Aprender línguas não é a única forma de se preparar para a globalização. Aos 16 anos, Vinicius Melleu Cione se viu representando Moçambique no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Pnud. Na pauta de discussão com membros de outros países estavam a utilização do software livre e as alternativas mais baratas de acesso à tecnologia. Vinicius não é diplomata. Pelo menos, não ainda. Ele estuda no colégio Ítaca, de São Paulo, um dos milhares que participaram da Míni-ONU, uma simulação das reuniões das Nações Unidas. Idealizada pelos alunos do curso de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais, a Míni-ONU reúne estudantes de ensino médio de todo o país, de escolas públicas e particulares. As discussões vão desde tráfico de mulheres e refugiados até meio ambiente. Todas se encaixam no trabalho de alguma agência da ONU. Mandamos aos colégios relatórios sobre as questões e os países, diz o professor Marco Paulo Gomes, coordenador-geral. Mas ele é completamente imparcial. Os alunos pesquisam qual a política externa do país sobre aquele assunto. Feito isso, a delegação está pronta para participar do evento, em Belo Horizonte. A simulação é tão real que os alunos usam roupas típicas dos países. E as discussões não ficam restritas às salas do congresso. No hotel, a gente tenta fazer aliados, diz Vinicius, hoje aluno de Relações Internacionais da PUC e de História na USP. Quando participei, não sabia nada sobre Moçambique ou software livre. A Míni-ONU fez com que eu me apaixonasse pela história da África, diz. Fotos: João Castilho/divulgação e Claudio Rossi/ÉPOCA cidadãos do MuNdo Alunos de várias escolas participam da Míni-ONU, na PUC de Minas Gerais (acima). Rafael vai estudar na Suíça (à dir.) 9 6 I r e v i s ta é p o c a I 2 3 d e a b r i l d e EP466p090_096.indd 96 20/4/ :03:58

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