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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO LÓGICA E METAFÍSICA Gustavo Arja Castañon CONSTRUTIVISMO SOCIAL: A CIÊNCIA SEM SUJEITO E SEM MUNDO Rio de Janeiro Agosto de 2009

2 Gustavo Arja Castañon CONSTRUTIVISMO SOCIAL: A ciência sem sujeito e sem mundo Um volume Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação Lógica e Metafísica do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Filosofia (Lógica e Metafísica). Orientador: Alberto Oliva Rio de Janeiro, II

3 Gustavo Arja Castañon CONSTRUTIVISMO SOCIAL: A ciência sem sujeito e sem mundo Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação Lógica e Metafísica do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Filosofia (Lógica e Metafísica). Aprovada por: (Alberto Oliva, Doutor, Universidade Federal do Rio de Janeiro) (Antonio Augusto Passos Videira, Doutor, Universidade do Estado do Rio de Janeiro) (Marco Antonio Caron Ruffino, Doutor, Universidade Federal do Rio de Janeiro) Rio de Janeiro, 03 de agosto de III

4 Dedico esta dissertação a Nathalie, meu amor, que ao viver ao meu lado faz com que eu me sinta em casa neste mundo insano e sem valores. IV

5 Agradeço aqui, A meu orientador Alberto Oliva, amigo mais antigo do que gostaria de confessar, que nunca se furtou ao trabalho a ele confiado e me ajudou competente e generosamente na pesquisa para esta dissertação; A meu professor Marco Ruffino, que teve sobre mim influência marcante no curso que ora completo, e que por suas ótimas aulas e estilo direto me ajudou decisivamente a desembarcar na filosofia analítica; Ao professor Antonio Augusto Passos Videira, que aceitou o convite para participar desta banca sem qualquer conhecimento prévio de meu trabalho; Ao Programa de Pós graduação em Lógica e Metafísica, que me ofereceu todas as condições necessárias para a conclusão de meu curso sem abrir mão do projeto de construção de uma pós graduação com padrões de exigência muito superiores aos usualmente encontrados na filosofia brasileira; A meus pais, sem os quais não estaria aqui hoje e com os quais tenho convivido tão pouco nos últimos seis anos de estudos interruptos; E a minha esposa Nathalie, que tem enfrentado a falta de viagens e lazer que minha sucessão de empreitadas acaba também lhe impondo, sempre com compreensão, ajuda e amor. V

6 Rien n est plus dangereux qu une idée, quand on n a qu une idée. Alain VI

7 RESUMO CASTAÑON, Gustavo Arja. Construtivismo Social: A ciência sem sujeito e sem mundo. Rio de Janeiro, Dissertação (Mestrado em Filosofia: Lógica e Metafísica) Programa de Pós graduação Lógica e Metafísica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Esta dissertação avalia o construtivismo social, abordagem filosófica associada ao strong programme da sociologia da ciência. Os problemas específicos investigados são o da validade de sua classificação como forma de construtivismo e de sua pretensão de fazer da sociologia a única metaciência legítima. A investigação é filosófica e baseia se em pesquisa bibliográfica. Para a avaliação dos problemas propostos, começa por um sucinto inventário dos principais tipos de construtivismo contemporâneo (kantiano, piagetiano, radical, lógico, construcionismo social e socioconstrutivismo), concluindo por sua definição como tese epistemológica que defende a rejeição ao objetivismo, que a mente impõe formas prévias à experiência e que nossas teorias sobre o mundo são construções hipotético dedutivas. Além disso, conclui que não há implicação necessária entre o construtivismo e o idealismo. Em seguida, avalia as teses do construtivismo social começando por idéias de seus principais precursores, Wittgenstein, Kuhn e Feyerabend. Identifica suas teses ontológicas principais reconhecendo as como a maior fonte de dispersão no movimento, que se divide acerca delas em ao menos duas correntes gerais: um ʹconstrutivismo social epistêmicoʹ e um ʹconstrutivismo social ontológicoʹ, este último, uma variante de idealismo. Já suas teses epistemológicas principais são classificadas como variantes de relativismo, objetivismo sociológico e cientificismo anti positivista. Com base nesta descrição, o construtivismo social é criticado com alguns argumentos originais em duas linhas principais. Primeiro por tratar se, a despeito de seu cientificismo, simplesmente de mais uma abordagem em filosofia da ciência totalmente dependente das teses filosóficas de seus precursores, além de não usar em nenhum momento, como propugna, métodos científicos adequados para o teste de suas hipóteses. Segundo por não ser, apesar do uso do termo, um construtivismo, uma vez que defende um sujeito passivo na relação com o objeto do conhecimento, consistindo num estranho tipo de objetivismo, no qual o mundo físico não tem papel. Conclui se que esta abordagem se afastou profundamente da tradição filosófica construtivista, uma vez que renuncia à idéia de sujeito construtor de suas cognições em prol de uma sociedade que as causa. Além disso, o construtivismo social não só não tem qualquer semelhança com a investigação científica, como sequer pode ser considerado uma teoria filosófica consistente, pois reedita antigas auto refutações relativistas e cientificistas, usa de forma descuidada a linguagem e beira em alguns momentos ao irracionalismo. DESCRITORES: CONSTRUTIVISMO SOCIAL, CONSTRUTIVISMO, FILOSOFIA DA CIÊNCIA, SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA. VII

8 ABSTRACT CASTAÑON, Gustavo Arja. Construtivismo Social: A ciência sem sujeito e sem mundo. Rio de Janeiro, Dissertação (Mestrado em Filosofia: Lógica e Metafísica) Programa de Pós graduação Lógica e Metafísica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, This dissertation evaluates the social constructivism, a philosophical approach associated to the strong programme of sociology of science. The specific problems investigated are those about the validity of its classification as a kind of constructivism and of its pretension of making sociology the unique legitimate metascience. This is a philosophical investigation based on a bibliographical research. For the evaluation of the proposed problems, it begins with a succinct inventory of the contemporary constructivism main variants (kantian, piagetian, radical, logical, social constructionism and socioconstructivism), concluding by its definition as a epistemological thesis that defends the rejection to objectivism, that the mind imposes previous forms to the experience and that our theories on the world are hypothetical deductive constructions. Moreover, it concludes that there isnʹt necessary implication between constructivism and idealism. Soon after, evaluates the thesis of social constructivism begining with the ideas of its main precursors, Wittgenstein, Kuhn and Feyerabend. The dissertation identifies its main ontologicals thesis recognizing them as the greatest cause of division on the movement, which is divided in at least two general tendencies: a ʹepistemic social constructivismʹ and a ʹontological social constructivismʹ, this one, an variant of idealism. Its main epistemologicals thesis are classified as variants of relativism, sociological objectivism and anti positivist scientificism. Based on this description, social constructivism is criticized with some original arguments in two main lines. First for being itself, in spite of its scientificism, just one more approach in philosophy of science totally dependent of the philosophical thesis of its precursors, besides it doesn t use in any moment, as it proposes, adequate scientific methods for the test of its hypotheses. Second for not being, in spite of its use of the term, a constructivism, once it defends a passive subject in the relation with the object of knowledge, consisting in a strange kind of objectivism, in which the physical world doesnʹt have role. It concludes that this approach has moved itself away from constructivist philosophical tradition, once it renounces to the idea of a building subject of his cognitions in behalf of a society that causes them. Moreover, the social constructivism doesnʹt have any similarity with scientific investigation, as also it cannot be considered a consistent philosophical theory, because re edits old relativists and scientificists auto refutations, uses language in a neglected way and in some moments comes closer to irrationalism. KEY WORDS: SOCIAL CONSTRUCTIVISM, CONSTRUCTIVISM, PHILOSOPHY OF SCIENCE, SOCIOLOGY OF SCIENCE. VIII

9 SUMÁRIO 1. Introdução Construtivismo Construtivismo em Kant Construtivismo em Piaget Outros Construtivismos contemporâneos Construtivismo Radical Construcionismo Social Socioconstrutivismo Construtivismo Lógico Definição de Construtivismo Construtivismo Social Caracterização geral Idéias antecedentes em Filosofia da Ciência Wittgenstein e a dissolução linguística da epistemologia Kuhn e a sociologização da epistemologia Feyerabend e a anarquização da epistemologia Construtivismo Social e Ontologia O que existe para o construtivismo social? Construção social de quê? O Construtivismo Social Ontológico Construtivismo Social e Epistemologia É possivel conhecer algo sobre o mundo? O que é e como se legitima o conhecimento? O problema do relativismo Qual é a relação entre o sujeito e o objeto? Qual é o método científico de investigação da ciência? 154 IX

10 4. Avaliação crítica do Construtivismo Social Uma filosofia da ciência sem filosofia A circularidade da pretensão cientificista Não existe descritivismo puro Mais do mesmo: CS é a Nova Filosofia da Ciência Uma investigação sem método Um construtivismo sem sujeito Uma ciência sem mundo Um conhecimento sem verdade Conclusão 208 Referências Bibliográficas 217 X

11 Capítulo 1 Introdução O tema abordado aqui é o do construtivismo social contemporâneo, conjunto de teses filosóficas associadas ao strong programme da sociologia da ciência. Os problemas específicos investigados sobre o tema são o da validade de duas teses dessa abordagem. A primeira é sua alegação de que é uma abordagem construtivista, a segunda sua pretensão de fazer da sociologia não só uma disciplina metacientífica, como ainda a única reconstrução metacientífica legítima. Esta investigação é de natureza filosófica e se baseia em fontes primárias e secundárias selecionadas através de pesquisa bibliográfica conduzida principalmente nas bases de dados SSCI e Philosopherʹs Index. Sua necessidade se dá uma vez que nos últimos anos assistimos a uma proliferação da utilização do termo construtivismo, não somente na filosofia, mas também na psicologia, educação, neurociência, lógica, matemática e, particularmente, sociologia. Não há, até hoje, nenhuma pesquisa em larga escala de todas essas alegações de construtivismo (ROCKMORE, 2005), 1

12 portanto, nenhum consenso sobre a definição do termo pode ser alcançado de forma completa. No entanto, se o tomamos em seu significado tradicional posição que defende o papel ativo do sujeito na sua relação com o objeto do conhecimento e na construção de suas estruturas cognitivas e representações da realidade vemos que diversas posições autodenominadas construtivistas assumem teses que contrariam o espírito original dessa tradição filosófica. Assistimos hoje, sob o abrigo do termo construtivismo, uma multiplicação de posições que identificam essa tese com o antirealismo, atacando o pressuposto do realismo ontológico que está na base do pensamento científico moderno. Algumas dessas posições inclusive consideram o sujeito um elemento passivo do processo de construção do conhecimento. Esta dissertação realiza uma investigação dos pressupostos filosóficos de uma das mais influentes utilizações contemporâneas do termo, o Construtivismo Social de Barry Barnes e David Bloor, também denominado às vezes socioconstrutivismo ou tese forte da sociologia da ciência, assim como rastrear suas origens filosóficas. Atualmente, outras influentes utilizações do termo são efetuadas pela epistemologia genética de Jean Piaget (o construtivismo piagetiano), pelo construcionismo social (abordagem pós moderna da psicologia social), pelo construtivismo radical (tese filosófica que espalha sua influência por setores da educação, psicoterapia e neurociência), pelo socioconstrutivismo (abordagem da psicologia social e do desenvolvimento) e pelo construtivismo lógico. No entanto, estas utilizações só serão abordadas nesta investigação a título de delimitação do conceito geral de construtivismo e diferenciação em relação ao construtivismo social. 2

13 A visão tradicional do conhecimento científico o concebe como produto de uma atividade de investigação que só aceita dois tipos de veredicto: o da lógica e o da experiência. O construtivismo social representa uma aberta e radical oposição a essa visão, e questiona o pressuposto de que a ciência possui uma racionalidade intrínseca para atribuir lhe o estatuto de uma construção social como qualquer outra. Uma vez que esta espécie de relativismo exerce influência cada vez maior nos meios acadêmicos brasileiros, particularmente nos cursos de pedagogia, faz se necessária uma investigação pormenorizada de seus pressupostos. O sociologismo e o historicismo característicos do construtivismo social, que é uma variante da filosofia pós moderna, disseminam a idéia de que são as relações de poder e os interesses políticos que determinam a aceitação ou a rejeição de teorias científicas. A questão aqui é, portanto, definir se a análise filosófica pode determinar a racionalidade da investigação científica, reconstruindo a epistemicamente, ou se este papel caberia aos estudos voltados para a identificação dos aspectos políticos e sociais desta atividade. 1.1 Delimitação do Problema Os problemas específicos a serem objeto de investigação filosófica dentro do tema escolhido podem ser definidos através de duas perguntas: P1) O construtivismo social é construtivista? P2) O construtivismo social pode ser formulado como uma metaciência consistente? 3

14 Podem se ainda desmembrar os problemas acima com as perguntas: P1a) Como definir construtivismo? P1b) Qual o papel do sujeito no processo de construção do conhecimento para o construtivismo social? P1c) O que, para esta abordagem, se pode conhecer? Em segundo lugar temos que perguntar: P2a) A imagem de ciência oferecida pelo construtivismo social é consistente? P2b) A pretensão de independência em relação à filosofia da ciência que apresenta o construtivismo social é sustentável filosoficamente? Assim, a análise desses problemas passa por três questões intermediárias fundamentais, que determinarão a seqüência lógica do desenvolvimento da dissertação: Primeira, o que é construtivismo e quais são suas raízes filosóficas? Ou seja, qual é a história filosófica da elaboração deste conceito? Aqui, particularmente, se procurará estabelecer o conceito de construtivismo com o qual trabalharemos na dissertação e responder se há uma implicação necessária entre o construtivismo e o idealismo. Segunda, quais são as abordagens filosóficas ou teóricas contemporâneas que usam o termo construtivismo para se identificarem? Em que sentido elas se afirmam construtivistas? Que posições assumem frente ao realismo ontológico, à relação com o objeto do conhecimento e à atividade do sujeito? 4

15 Terceira, quais são as teses adotadas pelo construtivismo social? Quais são suas posições ontológicas e epistemológicas? Como se distingue de outras alegações de construtivismo contemporâneas? Assim, se estabelecerão as condições necessárias para a formulação de uma resposta aos dois problemas investigados pela dissertação, o do caráter construtivista e o da consistência do construtivismo social. 1.2 Hipóteses As hipóteses que serão investigadas aqui referentes aos problemas primários e secundários acima propostos são, começando pela hipótese geral, as seguintes: O construtivismo social é simplesmente mais uma abordagem em filosofia da ciência derivada de idéias surgidas da obra do segundo Wittgenstein e de Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. Não pode ser considerada construtivista, pois defende uma imagem de sujeito passiva na relação com o objeto do conhecimento, se constituindo num tipo de objetivismo, e em suas versões mais radicais, num estranho caso de idealismo sem sujeito. A renúncia à concepção construtivista de sujeito construtor de suas cognições em prol de uma sociedade que constrói os sistemas de crenças, caracteriza uma posição que, utilizando se do termo construtivismo, se afastou profundamente dessa tradição filosófica. Esta hipótese geral é sustentada por três hipóteses auxiliares: 5

16 Primeira: Apesar de encontrarmos traços precursores do construtivismo na filosofia socrático platônica, assim como em autores como Epicteto ou ainda Vico, o construtivismo é tese característica da filosofia contemporânea, sendo derivado da obra de Kant. É um equívoco grave a construção artificial de supostas polaridades entre realismo e construtivismo e entre objetivismo e relativismo. De fato, as polaridades existentes são as estabelecidas entre objetivismo e construtivismo (em relação à questão da origem do conhecimento), realismo e idealismo (em relação à questão da natureza do objeto), e criticismo e relativismo (em relação à questão da possibilidade do conhecimento). Com base nestas posições, devem ser avaliadas todas as reivindicações de construtivismo filosófico, que se define necessariamente pela rejeição ao objetivismo, mas pode oscilar entre o realismo e o idealismo, e entre o criticismo e o relativismo. Segunda: o construtivismo depende de uma concepção ativa de sujeito do conhecimento, como construtor primeiro de intuições sensíveis e depois de hipóteses causais. Assim, considera se o construtivismo social como não construtivista, uma vez que dissolve o conceito de sujeito ativo no processo de construção do conhecimento. Assim, tanto a primeira quanto a segunda hipótese auxiliar afirmam que não há vinculação necessária entre construtivismo e idealismo. Terceira: o construtivismo social é inconsistente por tentar colocar no âmbito da sociologia as questões epistemológicas relativas à sua própria validade. Ainda, em sua vertente mais radical que rejeita o realismo ontológico, o construtivismo social faz das concepções socialmente construídas da realidade a única e própria realidade, 6

17 afastando se assim dos limites da sociologia do conhecimento tradicional e entrando no terreno do pós modernismo. Além disso, esta corrente se sustenta flagrantemente em concepções derivadas das obras de Wittgenstein, Kuhn e Feyerabend, sendo, portanto, dependente da filosofia da ciência e incapaz de erigir se como a disciplina metacientífica auto suficiente. 1.3 Estrutura da dissertação No capítulo dois, que se segue a esta introdução, serão definidas as teses ontológicas e epistemológicas centrais do construtivismo contemporâneo. Será exposta a origem das teses construtivistas contemporâneas em Kant e na abordagem que introduziu o termo no século XX, a Epistemologia Genética de Jean Piaget. Posteriormente, serão avaliados os usos contemporâneos do termo pelo construtivismo radical, construcionismo social (que não se deve confundir com o construtivismo social), socioconstrutivismo e construtivismo lógico. Finalmente, com base nas posições investigadas, será estabelecido o que há de comum entre as correntes e que, desse modo, poderia caracterizar de um modo menos controverso o construtivismo como um todo. No capítulo três serão apresentadas as principais teses do construtivismo social, com especial ênfase nas ontológicas e epistemológicas. Começa com uma sumária contextualização e apresentação conceitual do construtivismo social, para 7

18 logo depois abordar algumas idéias de Wittgenstein, Kuhn e Feyerabend que tiveram influência fundamental na configuração filosófica da corrente. Os dois últimos itens do capítulo serão dedicados a uma avaliação cuidadosa das teses ontológicas e epistemológicas do construtivismo social, buscando estabelecer o que pode ser dito de consensual e o que há de divergência entre as correntes e principais proponentes do autodenominado strong programme. No quarto capítulo apresentarei cinco críticas gerais ao construtivismo social, das quais duas pretendem ter o caráter de críticas originais. A primeira diz respeito ao fato de que, apesar de se apresentar como ciência da ciência e crítico da filosofia, o construtivismo social nada mais é que outra filosofia da ciência; só que inconsistente e praticada sem rigor algum. A segunda diz respeito ao fato de que os métodos usados pelo construtivismo social para investigar cientificamente a ciência não são científicos e são incapazes de testar alegações acerca de relações de causa e efeito, fato este que aparentemente nunca foi abordado na literatura sobre o strong programme. A terceira é a de que o construtivismo social não é estrito senso uma variante de construtivismo, não faz parte dessa tradição do pensamento ocidental, pois não existe, para esta abordagem, um sujeito ativo. A quarta, é que ela defende uma das teses mais descabidas da história da filosofia da ciência, a de que o mundo não faz diferença na obtenção de conhecimento científico. Por fim, abordarei novamente o problema do relativismo e da definição de conhecimento adotada por essa vertente, criticando as consequências de se rejeitar a verdade como ideal normativo. 8

19 Por fim concluo a dissertação recapitulando os motivos que me levam a acreditar que as hipóteses expostas nesta introdução foram bem fundamentadas, além de chamar a atenção para os potenciais efeitos práticos danosos do construtivismo social. 9

20 Capítulo 2 Construtivismo Neste capítulo serão definidas as teses centrais do construtivismo contemporâneo, com o objetivo de estabelecer o quanto o Construtivismo Social as assume. Para tal, serão avaliados os principais usos contemporâneos do termo a fim de esclarecer como se posicionam em relação a três questões. A primeira é ontológica: Q1) Existem objetos independentes da mente humana? À posição que dá uma resposta afirmativa a esta questão chamaremos realismo ontológico, e uma resposta negativa, idealismo. A segunda e terceira a se averiguar é como as abordagens construtivistas se posicionam quanto às questões epistemológicas: Q2) É possível conhecer algo sobre os objetos que existem independentemente da mente?; Q3) Qual é a relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento? Quanto à Q2, as respostas serão classificadas em três posições: dogmatismo (é possível conhecer o objeto em si mesmo), criticismo (é possível conhecer o modo como os objetos afetam nossas representações sensíveis) e 10

21 ceticismo (não é possível conhecer nada sobre os objetos reais). As respostas à Q3 serão classificadas como objetivistas (o objeto determina em nós as representações que temos dele) ou construtivistas (nós construímos nossas representações do objeto). Será evitado durante a dissertação, na construção de argumentos próprios, o uso dos termos realismo e idealismo para quaisquer outras posições que não as ontológicas, sejam epistemológicas, semânticas ou axiológicas. Procurarei fundamentar a hipótese de que grande parte da confusão que cerca a utilização do termo construtivismo é devida a utilização dos termos realismo e idealismo em sentido epistemológico (é possível ou não o conhecimento acerca de objetos reais) e semântico (a verdade é ou não uma relação objetiva entre o mundo e a linguagem). Começaremos pela exposição da origem das teses construtivistas contemporâneas em Kant e pela abordagem que introduziu o termo no século XX, a Epistemologia Genética de Jean Piaget. Posteriormente, avaliaremos os usos contemporâneos do termo sucessivamente na abordagem do construtivismo radical, construcionismo social (que não se deve confundir com a tese forte da sociologia da ciência, o construtivismo social, objeto desta dissertação que não será abordado neste capítulo), socioconstrutivismo e construtivismo lógico. Finalmente, com base nas posições investigadas, será estabelecido o que há de comum entre as correntes e que portanto poderia caracterizar de um modo menos controverso o construtivismo como um todo. 11

22 2.1 Construtivismo em Kant O termo construtivismo tem origem no verbo latino struere, que significa organizar, dar estrutura. Assim, desde sua origem esta palavra assume implicitamente a existência de um sujeito que organiza. A diferença é clara quando a comparamos com o verbo formar, ou quando comparamos o termo construção com o termo formação. Uma estrutura que se forma, não pressupõe um sujeito que a organiza. Uma estrutura que se constrói, pressupõe a atividade de um sujeito. Ainda que muitas vezes encontremos referências ao suposto caráter precursor da filosofia de Sócrates em relação ao construtivismo, ou ainda de Epicteto, de Vico, ou até da teoria platônica da hipótese superior, para uma correta compreensão desta corrente de pensamento na filosofia contemporânea é necessário recorrer à obra de Immanuel Kant. A inversão do sentido da relação entre sujeito e objeto presente na obra de Kant é usualmente (BROUWER, 1983; HACKING, 1999; MAHONEY, 2004; PHILLIPS, 1995; RYCHLAK, 1999; ROCKMORE, 2005; VON GLASERSFELD, 1984;) considerada a raiz do construtivismo contemporâneo. Tradicionalmente, a filosofia ocidental pensava o conhecimento como uma determinação do sujeito cognoscente pelo objeto conhecido. Kant (2001) apresenta o processo de conhecimento como a organização ativa por parte do sujeito do material disperso e fragmentário que nos é fornecido pelos sentidos, impondo a este as formas da sensibilidade e as categorias do entendimento. Ou seja, para o construtivismo, o sujeito constrói suas 12

23 representações dos objetos, e não recebe passivamente impressões causadas por estes. O sujeito para o construtivismo é proativo, é foco de atividade do universo, e não um recipiente passivo de estímulos do ambiente. O construtivismo só pode ser adequadamente compreendido a partir da idéia que Kant chamou de grande luz e que de fato condicionou toda produção filosófica posterior à sua obra. Esta é a distinção entre fenômeno e númeno. Para Kant, o conhecimento sensível não nos revela as coisas como são, e sim, como aparecem para o sujeito. Por isso nos dão acesso a fenômenos. Já o conhecimento intelectivo é faculdade de representar aqueles aspectos das coisas que, por sua própria natureza, não podem ser captados por meio dos sentidos, os númenos. São conceitos do intelecto, por exemplo, os de possibilidade, existência, necessidade e semelhança, que não derivam dos sentidos. Assim, o que conhecemos do mundo são fenômenos, não númenos. Conhecemos o aparecer das coisas para nossa consciência, não a essência daquilo que acreditamos estar fora de nós: fenômeno, ordinariamente, significa aparição. Isso não implica, obviamente, que não há um mundo lá fora, mas somente que não temos acesso ao que este mundo é em si mesmo. As classificações corriqueiras de Kant como idealista são equivocadas e foram de resto contestadas pelo próprio. Nos Prolegômenos ele reapresenta sua posição sobre a questão do idealismo de forma inequívoca: O idealismo consiste na afirmação de que não existem outros seres excepto os seres pensantes; as restantes coisas, que julgamos perceber na intuição, seriam apenas representações nos seres pensantes a que não corresponderia, na realidade, nenhum objecto exterior. Eu, pelo 13

24 contrário, afirmo: são nos dadas coisas como objectos dos nossos sentidos e a nós exteriores, mas nada sabemos do que elas possam ser em si mesmas; conhecemos unicamente os seus fenômenos, isto é, as representações que em nós produzem, ao afectarem os nossos sentidos. Por conseguinte, admito que fora de nós há corpos, isto é, coisas que, embora nos sejam totalmente desconhecidas quanto ao que possam ser em si mesmas, conhecemos mediante as representações que o seu efeito sobre a nossa sensibilidade nos procura, coisas a que damos o nome de um corpo, palavra essa que indica apenas o fenômeno deste objecto que nos é desconhecido, mas nem por isso, menos real. Pode a isto chamar se idealismo? É precisamente o seu oposto. (KANT, 2003, p.58) Para Kant (2001), nossa mente tem uma estrutura dada, que enquadra os dados da experiência em suas formas e categorias a priori. Desta forma, só podemos conhecer em si mesmos aqueles conceitos que são resultado de uma especulação racional. E é na busca pela condição de possibilidade da ciência matemática que o termo construção começa a ser utilizado em Kant. Para ele, a ciência em geral se basearia num tipo de juízo que a um só tempo acrescenta algo de novo ao sujeito (sintético) e também não depende da experiência, ou seja, é universal e necessário (a priori): este é o juízo sintético a priori. Todo Prolegômenos e toda Crítica da Razão Pura gravitam em torno deste problema central. Encontrar o fundamento do conhecimento, para Kant, é explicar como são possíveis juízos sintéticos a priori. Os juízos sintéticos a priori unem a aprioridade, ou seja, universalidade e necessidade, com a fecundidade, ou seja, a sinteticidade. Exemplos seriam as operações aritméticas, os juízos da geometria (como por exemplo, todo triângulo tem sua área calculada em função de sua base multiplicada por sua altura e dividida por 14

25 dois) e os juízos da física (em todas as mudanças do mundo físico a quantidade de matéria permanece invariada). Nestes conceitos, ultrapassamos o conceito de triângulo ou de matéria para acrescentar lhes a priori algo que não pensávamos nele. Assim temos três tipos de juízos, e três fundamentos diferentes para eles. A verdade ou falsidade de um juízo analítico a priori é determinada pelo princípio da identidade e da não contradição uma vez que o sujeito e o predicado se equivalem, ou seja, pela lógica. A verdade ou falsidade de um juízo sintético a posteriori é determinada pela experiência sensível. Por fim, temos que responder qual é o fundamento do juízo sintético a priori. Para Kant (2003), é a capacidade de construção que torna possível o juízo sintético a priori, e portanto, a matemática. Esta precisa ter como fundamento uma intuição pura, na qual ela possa representar todos os seus conceitos in concreto e, no entanto, a priori, ou, como se diz, construí los (KANT, 2003, p. 48). Quando demonstramos um teorema em geometria, compreendemos que não devemos seguir passo a passo aquilo que se vê na figura nem nos apegarmos ao simples conceito desta para apreender suas propriedades. O que devemos fazer é pensar e representar, por nossos próprios conceitos, o objeto geométrico em questão, ou seja, construí lo. Construindo este objeto, podemos saber com segurança alguma coisa a priori (independentemente da experiência), pois sabemos não atribuir a este objeto senão aquilo que nós próprios colocamos nele: 15

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