MENSURAÇÃO DO RESULTADO SOCIAL TERCEIRO SETOR TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO NO CONTEXTO DAS ORGANIZAÇÕES DO

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1 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade Departamento de Administração TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO MENSURAÇÃO DO RESULTADO SOCIAL NO CONTEXTO DAS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR Rafael Martín Delatorre Orientador: Roy Martelanc São Paulo 2002

2 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade Departamento de Administração MENSURAÇÃO DO RESULTADO SOCIAL NO CONTEXTO DAS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo Rafael Martín Delatorre Orientador: Roy Martelanc São Paulo 2002

3 Sumário SUMÁRIO... I INTRODUÇÃO... 1 SOBRE O TERCEIRO SETOR Contextualização Uma Conceituação para o Terceiro Setor Áreas de Atuação das Organizações do Terceiro Setor A Forma Jurídica das Organizações Brasileiras... 9 SOBRE A AVALIAÇÃO DE PROJETOS E PROGRAMAS Projetos, Programas e sua Administração Avaliação de Programas e Projetos Objetivos Econômicos versus Objetivos Sociais ENTIDADES SEM FINS LUCRATIVOS E AVALIAÇÃO DE PROJETOS Objetivos da Avaliação no Terceiro Setor Aprimoramento da Gestão Causas nobres versus causas econômicas Ferramenta de Captação de Recursos Compromissos das Organizações Compromisso com os Doadores de Recursos Compromisso com os Voluntários Compromisso das Organizações com a Sociedade Dificuldade de Avaliar o Desempenho Social AVALIAÇÃO SOCIAL DE PROJETOS Revisão Histórica dos Métodos de Avaliação de Impacto Orientações para a Definição do Resultado / Impacto i

4 4.3. Métodos de avaliação de impacto Oxfam Indicadores Propriedades dos Indicadores Cost Benefit Analysis Definições Possíveis objetivos a serem perseguidos Avaliação das preferências individuais Questão do Âmbito do Projeto MEDINDO O RESULTADO SOCIAL Benefícios de uma Medida de Impacto Social Características do Processo de Medida do Impacto Social Mensurando o Impacto Social Usando Indicadores para Mensurar o Impacto Social Unindo os Indicadores Através da Análise Conjunta Análise Conjunta Propriedades dos Indicadores para a Análise Conjunta Escolha do Modelo Básico de Composição Aspectos a serem considerados na Análise Conjunta Utilizando os Resultados da Análise Conjunta EXEMPLO DE APLICAÇÃO DO MÉTODO Realização da Pesquisa Resultados do Exemplo Interpretação dos Resultados Aplicação dos Resultados Escolha de Projetos Mensuração do Resultado CONCLUSÕES E PRÓXIMOS PASSOS BIBLIOGRAFIA ANEXOS ii

5 Introdução O Terceiro Setor desempenha um papel de grande relevância na sociedade brasileira. Em alguns casos, sua atuação determina o bem estar de inúmeras pessoas, pessoas que de outra forma teriam problemas sérios. Nos Estados Unidos, onde o setor sem fins lucrativos é mais desenvolvido, o Terceiro Setor é composto por cerca de 1,13 milhões de organizações de diferentes tamanhos, movimentando mais de US$ 400 bilhões e representando cerca de 7,4% do GDP do país. (Salamon in Salamon e Anheier, 1997, p. 302) No Brasil, apesar de não existirem dados confiáveis a respeito do real tamanho do Terceiro Setor no país, como mostrado na Figura 0.1, se reconhece que é um setor que vem ganhando maior expressão a cada momento. Já existem no Brasil organizações de grande porte no Terceiro Setor, atuando em mais de uma área de atuação, com diversos projetos. Em uma simples vista aos portais dessas instituições, entre as quais a Fundação Bradesco, o Instituto Ayrton Senna e a Fundação ABRINQ; é possível ver a grande relevância que o Terceiro Setor vem atingindo no Brasil. Com a crescente importância do Terceiro Setor para a sociedade, outra tendência se torna clara: a profissionalização da atuação social. Busca se cada vez mais conduzir a ação social de maneira racional, de tal forma a se conseguir o máximo de mudança social com os recursos disponíveis. Para tanto, as organizações tentam incorporar técnicas de administração empresarial em suas atividades, adaptando as conforme as peculiaridades 1

6 desse setor não lucrativo. Desse processo surge uma série de novos conceitos, expressões como marketing social, balanço social, contabilidade social, entre outros. Figura 0.1. As indefinições sobre o Terceiro Setor no Brasil (adaptado de Filinto, 2002) Fundações: Associações: Organizações Religiosas: Sindicatos: Federações: Confederações: 425 Total: Secretaria da Receita Federal in LANDIM, Leilah, instituições no Terceiro Setor Jornal O Estado de S.Paulo, julho instituições no Terceiro Setor no Estado de Pernambuco Ministério Público do Estado de Pernambuco, fundações de direito privado no Brasil Fundata/CEFEIS/FIPE, 2000 Não se sabe quantas organizações da sociedade civil existem, e nem como atuam. Não só o número de organizações é desconhecido, como também não se sabe ao certo qual o volume de recursos movimentados pelas ONGs (sua origem e destino) MEREGE, Luiz Carlos. Entrevista ao Jornal Valor, Maio, 2001 O capítulo brasileiro do trabalho realizado pelo John Hopkins Institute for Policy Studies da Universidade John Hopkins USA Estudo Comparativo Internacional sobre o setor sem fins Lucrativos -, foi dificultado pela falta de dados estatísticos e sistematização da área do Brasil. LANDIM, Leilah e BERES, Neide.1999 No decorrer da pesquisa baseada a partir das fontes estatísticas oficiais hoje existentes, evidenciou-se que estas fontes são relativamente imprecisas e limitadas. LANDIM, Leilah. BERES, Neide.1999 Atualmente, existem diversas publicações buscando exatamente atender a essa demanda das organizações por técnicas, procedimentos e orientações vindos do setor privado e aplicáveis ao Terceiro Setor. Exemplos podem ser encontrados em Bernstein (1997), Tenório (org.) (1997) e McKinsey e Ashoka (2001). Apesar dessa tendência, uma área da administração ainda possui sérias lacunas na aplicação ao Terceiro Setor: a avaliação dos projetos e a mensuração do resultado social. Na medida em que as organizações buscam desenvolver se cada vez mais, é importante conseguir obter uma medida de desempenho ou de resultado que oriente as decisões tanto dos financiadores e doadores quanto dos gestores das organizações e dos voluntários. Este trabalho se dispõe a discutir a respeito destas questões associadas à avaliação dos projetos sociais e à mensuração do resultado social e, a partir disso, propor uma forma de se medir efetivamente o resultado social de um projeto, apresentando um exemplo de 2

7 aplicação do método. O Capítulo 1 apresenta o Terceiro Setor, sua definição e abrangência. O Capítulo 2 discute a respeito de projetos e programas, suas definições e principais aspectos, além dos conceitos associados à avaliação. O Capítulo 3 traz reflexões a respeito da avaliação de projetos e programas dentro do contexto do Terceiro Setor. O Capítulo 4 apresenta a metodologia proposta para a mensuração do resultado social, assim como os conceitos associados às técnicas estatísticas utilizadas. O Capítulo 5 apresenta um exemplo prático, através de uma pequena pesquisa realizada com um caso hipotético. 3

8 Capítulo 1 Sobre o Terceiro Setor Se você não puder explicar o conceito de forma simples e clara, pare de falar e continue trabalhando até que você o consiga. Karl Popper, Filósofo 1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO Se olharmos para como se organiza a sociedade, veremos que existe uma infinidade de organizações diferentes, com diferentes objetivos e diferentes pessoas. São organizações tão diversas quanto um órgão público, uma empresa transnacional e uma pequena empresa. Apesar desta grande diversidade, podemos classificar as organizações segundo a natureza de suas atividades, em um modelo de três setores. Coelho (2000, p ) descreve os três setores da seguinte forma: Governo, ou primeiro setor As atividades têm por objetivo o atendimento universal das necessidades sociais. Ao contrário do mercado, o governo tem sua ação legitimada por poderes coercitivos, possuindo todo um arcabouço legal que limita, orienta e regula sua atuação. Mercado, ou segundo setor As atividades envolvem a troca de bens e serviços, com o objetivo de produzir lucro. O mercado atua sob o princípio da não coerção legal, ou seja, nenhuma pessoa é 4

9 obrigada a comprar, nem a vender. Os mecanismos do mercado estão ligados a preços e demanda. Terceiro Setor Seria formado por instituições cujas atividades não são coercitivas, ou seja, possuem toda liberdade de atuação, porém seu objetivo não está ligado ao lucro, mas sim ao atendimento das necessidades coletivas. Coelho (2000, 40) torna claro neste ponto a diferença entre interesse público e coletivo. Os interesses coletivos se referem a um determinado grupo, enquanto os interesses públicos necessariamente dizem respeito a toda sociedade. Esses conceitos são importantes para a compreensão da diferença de escopo entre o governo e o Terceiro Setor. Enquanto aquele necessariamente representa os interesses de toda a sociedade, uma organização do Terceiro Setor pode buscar atender às necessidades de um pequeno grupo, dentro de uma região restrita. Fernandes (1994, p. 20) define o Terceiro Setor a partir das possíveis combinações entre os agentes e os fins na sociedade, como o apresentado na Figura 1.1. Com isso a definição de Terceiro Setor seria pura e simplesmente um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e serviços públicos. Figura 1.1. Combinações entre o Público e o Privado (Fernandes, 1994, p. 21) Agentes Fins Setor privados para privados = mercado públicos para públicos = Estado privados para públicos = terceiro setor públicos para privados = (corrupção) O Terceiro Setor aparece pela primeira vez, na história brasileira, vinculado à Igreja Católica. Na época da Proclamação da República, a Igreja ainda estava muito ligada ao 5

10 Estado, porém as Confrarias, formadas por pessoas religiosas e reconhecidas pela Igreja, realizavam um importante papel filantrópico e de assistência social. Eram organizações voluntárias, que ofereciam serviços como assistência médica e financeira, organizava funerais e oferecia refúgio para mendigos. Essas organizações tinham estatutos que deveriam ser aprovadas pelo governo e pela lei eclesiástica, mantendo no entanto a independência de atuação. Exemplos dessas organizações são as Irmandades de Misericórdia, que estabeleceram no Brasil os primeiros hospitais, hospedarias e asilos. Essas organizações eram financiadas, em sua maior parte, por doações de pessoas ricas da sociedade. (Landim in Salamon e Anheier, 1997) Mais recentemente, o Terceiro Setor vem ganhando cada vez mais importância na sociedade a partir da atuação das chamadas Organizações Não Governamentais (ONG). Trata se de um conceito pouco preciso, porém amplamente usado na sociedade. Landim (1998, p. 24) afirma que a ONG situa se justamente num ponto do caminho que vai da caridade pessoalizada à ação pública governamental, não se confundindo com nenhuma das duas. As origens das ONG remontam à década de 70, quando surgem como uma forma de congregar os esforços de um grupo de pessoas com ideais comuns, notadamente movimentos sociais ou grupos buscando a transformação social. Oliveira Neto (1992) apud Landim (1998) mostra a importância dessas organizações como canais das classes média na esfera pública, exercendo formas de tradução e rearticulação dos interesses e demandas populares nas arenas institucionais de confronto e negociações sociais UMA CONCEITUAÇÃO PARA O TERCEIRO SETOR Os conceitos de Fernandes (1994) e Coelho (2000) ajudam a localizar o Terceiro Setor dentro da sociedade, porém não fornecem um parâmetro forte o suficiente para a pesquisa. Apesar da distinção entre os setores ser de simples compreensão, o resultado é um grupo nada 6

11 homogêneo de organizações com diferentes objetivos, tamanhos e escopo. Como coloca Salamon e Anheier (1997, p. 2) instituições muito diferentes, das que oferecem sopas aos pobres a orquestras sinfônicas, são normalmente colocadas em um mesmo Terceiro Setor, atrapalhando quaisquer estudos que se queira fazer sobre o tema. Salamon e Anheier (1997, p. 33) tentaram preencher esta lacuna teórica, estudando como o setor filantrópico, ou não lucrativo, funcionava em 13 países, inclusive o Brasil. Além disso, foram analisadas as diferentes abordagens que haviam sido propostas até então. A partir deste estudo, ele propõe uma definição estrutural operacional, que enfatiza a estrutura básica das organizações. Com isso, as instituições inseridas no conceito de Terceiro Setor compartilhariam as seguintes características: Organizadas institucionalizadas de alguma forma. Segundo os autores, a realidade institucional não precisa ser necessariamente formal, mas pode demonstrada por reuniões periódicas, representantes reconhecidos, regras de atuação etc. Não são consideradas parte do Terceiro Setor, portanto, iniciativas ad hoc ou grupos informais e temporários de pessoas. Privadas as instituições devem ser formalmente separadas do setor governamental, não fazendo parte nem sendo governadas ou geridas pelo governo. Isto não significa que as instituições não possam receber recursos públicos, nem que nenhum membro do governo possa fazer parte do corpo de diretores. Não distribuidoras de lucros Os eventuais superávits produzidos pela instituição não podem ser repartidos entre os diretores, devendo ser reinvestidos no cumprimento de seus objetivos estabelecidos. Com isso, se diferencia o Terceiro Setor do mercado. 7

12 Auto governadas As organizações devem ser geridas independentemente de outras organizações, com procedimentos e forma de atuação definidos internamente. Voluntárias As organizações devem envolver algum grau de participação voluntária, em funções gerenciais ou operacionais. Uma instituição com um corpo de diretores voluntário pode ser classificada como voluntária. Esta definição do que é e não é considerado organização sem fins lucrativos torna o setor um objeto de estudo passível de ser analisado, o que não acontecia quando se levava em conta apenas a definição do privado com objetivo público ÁREAS DE ATUAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR Salamon e Anheier (1997, p. 92), ainda com o objetivo de se criar uma classificação e definição comum que permitisse o estudo abrangente do Terceiro Setor, analisaram quais eram as atividades realizadas pelas organizações. A partir deste estudo, propuseram a chamada International Classification of Nonprofit Organizations ICNPO, classificando por tipo de atividade as organizações. A Figura 1.2 apresenta as 12 áreas de atuação. 8

13 Figura 1.2. International Classification of Nonprofit Organizations ICNPO (Salamon e Anheier, 1997, p.92 94) 1. Cultura e Recreação 6. Desenvolvimento e Habitação Cultura e Artes Desenvolvimento Econômico, Social e Comunitário Recreação Habitação Clubes de Serviços Emprego e Capacitação 2. Educação e Pesquisa 7. Defesa de Direitos e Atuação Política Educação de Primeiro e Segundo Graus Entidades de Defesa de Direitos Civis Educação Superior Serviços Jurídicos e de Proteção Legal Educação Alternativa e de Adultos Entidades de Atuação Política Pesquisa 3. Saúde Hospitais e Reabilitação Sanatórios e Asilos Saúde Mental e Pronto-Socorro Psiquátrico Outros Serviços de Saúde 8. Intermediários Filantrópicos e Promoção do Voluntariado 9. Atividades Internacionais 10. Religião 4. Assistência Social Assistência Social Emergências Geração e Manutenção de Renda 11. Sindicatos e Associações Profissionais de Empregadores, de Empregados e de Autônomos 12. Outros 5. Ambientalismo Ambientalismo Proteção de Animais Cada uma destas áreas possui características muito diferentes, de tal forma não pode existir forma de avaliação que não leve em conta esse fato A FORMA JURÍDICA DAS ORGANIZAÇÕES BRASILEIRAS Szazi (2000, p ), apresenta as formas jurídicas que podem tomar as organizações do Terceiro Setor no Brasil. Associação uma pessoa jurídica criada a partir da união de idéia e esforços de pessoas em torno de um propósito que não tenha finalidade lucrativa. (Szazi, 2000) 9

14 Sociedade Civil sem Fins Lucrativos Da mesma forma que as associações, são pessoas jurídicas formadas a partir da união dos esforços de pessoas em prol de algum objetivo comum. (Diniz, 2000, p. 144) Fundações é um conjunto de bens, com um fim determinado, que a lei dá a condição de pessoa. (Resende, 1997 apud Szazi, 2000) A grande diferença, portanto, entre as associações/sociedades civis e as fundações é o objeto cerca do qual elas se constituem, e quem é responsável pela elaboração dos objetivos. Para as associações/sociedades civis, trata se da conjugação de vontades autônomas para chegar ao fim, em outras palavras, o meio são as pessoas e o fim é por elas concebido. No caso das fundações, a conjugação é de bens para alcançar o fim. Nesse caso, o meio são os bens e o fim é concebido pelo instituidor. O patrimônio não é a pessoa jurídica em si, mas o objeto da organização que se instituiu e constituiu. (Diniz, 2000, p. 144) Outras denominações encontradas no Brasil, como os institutos, não possuem uma forma jurídica prevista em lei. Tratam se apenas de nomenclaturas que se utilizam sem grande diferenciação, para formas jurídicas que obrigatoriamente são associação, fundação ou sociedade civil sem fins lucrativos. A distinção entre as formas jurídicas é importante porque elas possuem obrigações diferentes perante a lei. Como será apresentado adiante, as fundações são obrigadas a prestar contas à sociedade de maneira muito mais detalhada do que as associações. Além disso, essas prestações de contas incluem verificar se os objetivos da organização estão sendo cumpridos, tarefa que exige uma avaliação do resultado social dessas organizações. 10

15 Capítulo 2 Sobre a Avaliação de Projetos e Programas 2.1. PROJETOS, PROGRAMAS E SUA ADMINISTRAÇÃO Projeto, segundo a definição do Project Management Institute, é um esforço temporário empreendido para criar um produto ou serviço único. Temporário significa que cada projeto tem um início e um final definido. Único significa que o produto ou serviço é diferente, em alguma forma de distinção, de todos os outros produtos ou serviços similares. (PMI, 1999, p. 4 5) Já um Programa pode ser considerado como um projeto de longa duração, não possuindo um final definido. Trata se de um esforço contínuo com algum objetivo definido. (Meredith e Mantel Jr., 1989 apud Durigan, 2000) Normalmente a atuação das organizações do Terceiro Setor é organizada em torno de projetos e programas. Organizações menores eventualmente não possuem projetos e programas formais, mas certamente sua atuação pode ser vista dessa forma. Com isso, torna se clara a importância dos conceitos de administração de projetos para o estudo das atividades empreendidas por essas organizações. Apesar disso, os conceitos e métodos utilizados para a avaliação de projetos e programas são relativamente semelhantes, com o que, no decorrer deste trabalho, não se faz distinção entre os dois. 11

16 Segundo o PMI (1996, p. 6), Administração de Projetos é a aplicação de conhecimento, habilidades, ferramentas e técnicas a atividades de projeto, com vistas a satisfazer ou exceder às necessidades e expectativas do stakeholder. Satisfazer ou exceder às necessidades e expectativas do stakeholder invariavelmente envolve o equilíbrio entre demandas concorrentes como: 1) escopo, tempo, custo e qualidade; 2) stakeholders com diferentes necessidades e expectativas; 3) exigências identificadas (necessidades) e não identificadas (expectativas). Um dos aspectos importantes mais importantes no contexto da administração é a limitação dos recursos e a demanda por resultados. É óbvio notar que é preferível conseguir o máximo possível de resultado por cada recurso aplicado, seja ele material, financeiro ou humano. Chianca et al (2001, p. 15) colocam, neste sentido, que a escassez de recursos obriga os gestores de organizações da sociedade civil a ter de utilizar de maneira racionalizada cada centavo de que dispõem, o que os leva com freqüência a tomar decisões difíceis, como o cancelamento total ou a eliminação de partes ou componentes de programas. Para conseguir utilizar os recursos da melhor maneira possível é essencial para as organizações contar com informações que as orientem em suas atividades. Analisando com cuidado os resultados obtidos com as atividades da organização será possível ao gestor implementar ações corretivas, ou mesmo mudar a estratégia da organização, com vistas a obter o resultado desejado. A obtenção dessas informações não é tarefa trivial, no entanto. Para isso é necessária a criação de indicadores, processos de medição do resultado etc, que juntos constituem a prática da avaliação de projetos e programas. Chianca et al (2001, p.15) completam afirmando que essas informações incluem, entre outras coisas, respostas a questões como: Que programas estão funcionando bem e quais estão mal? Quais os custos e quais os benefícios que cada programa traz para o público que atende? Há partes do programa que contribuem mais do que as outras? Que adaptações precisam ser feitas para melhorar o 12

17 programa? Buscar respostas adequadas e confiáveis para essas perguntas é a principal função da avaliação AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS E PROJETOS Chainca et al (2001, p. 16) sintetizaram uma definição do que seria avaliação, a partir das propostas de Worthen et al (1997) e Patton (1997). Segundo eles, a Avaliação de Programas seria a coleta sistemática de informações sobre as ações, as características e os resultados de um programa, e a identificação, esclarecimento e aplicação de critérios, passíveis de serem defendidos publicamente, para determinar o valor (mérito e relevância), a qualidade, utilidade, efetividade ou importância do programa sendo avaliado em relação aos critérios estabelecidos, gerando recomendações para melhorar o programa e as informações para prestar contas aos públicos interno e externo ao programa do trabalho desenvolvido. Chianca et al (2001, p.19) apresentam ainda as diferentes abordagens que podem ser utilizadas na avaliação sistemática/formal de projetos e programas: Avaliação voltada para objetivos Procura avaliar em que medida os objetivos e metas determinados previamente foram alcançados. O grande problema com essa abordagem é que não leva em conta os benefícios ou limitações que não estejam contemplados no plano traçado inicialmente. Avaliação orientada para a tomada de decisões Está voltada às necessidades que os gestores/gerentes têm de informação. Todo o processo é voltado a julgar a efetividade do tomador de decisões, influenciando diretamente a avaliação. As críticas que se faz a essa abordagem estão relacionadas 1) à dificuldade de trazer à tona questões importantes do 13

18 programa que não estão no rol de preocupações ou de alguma forma vão de encontro às posições do gestor, que controla a avaliação e 2) a preferência que é dada aos gestores que estão no topo das decisões, o que pode tornar o processo pouco democrático. Avaliação voltada para consumidores É aquela realizada junto aos consumidores ou beneficiários da ação social, principalmente através de pesquisas de opinião junto a esse público. Avaliação baseada em opiniões de especialistas É baseada na aplicação de conhecimentos técnico profissionais por especialistas no julgamento da qualidade de um projeto ou programa. Funciona como uma espécie de auditoria, onde os especialistas são convidados a opinar sobre a condução e os resultados obtidos por determinada iniciativa. Um exemplo apresentado por Chianca et al é a contratação de uma equipe de profissionais da área da saúde (médicos, psicólogos, enfermeiros), especializada no atendimento a dependentes químicos, para julgar o mérito e relevância de um programa de tratamento de drogados realizado por um hospital público. A principal limitação dessa abordagem é o grau de subjetividade envolvido na opinião, mesmo de um especialista. Com este método, as avaliações variam segundo as crenças e opiniões, o que pode gerar conflitos. Avaliação baseada em opiniões contrárias É baseada no desenvolvimento de pontos de vista opostos por diferentes avaliadores, de forma semelhante a um tribunal. Sua aplicação na área social é ainda limitada, porém trata se de uma abordagem que pode ser útil quando 1) o objeto avaliado atinge a muitas pessoas; 2) a população está mobilizada, graças a controvérsias relacionados ao objeto avaliado; 3) existe a necessidade de se decidir sobre a continuidade ou o término de um programa; 4) existem avaliadores externos disponíveis para ajudar na avaliação; 5) há clareza sobre os principais aspectos 14

19 relacionados ao objeto avaliado e 6) existem recursos disponíveis para financiar a implantação de uma abordagem como essa. A crítica que se lança sobre essa abordagem está relacionada com o fato de essa avaliação acabará só sendo realizada quando existirem problemas ou crises que precisam de solução, reforçando a prática de se avaliar os projetos somente quando existem problemas. Avaliação baseada na participação Envolve as pessoas interessadas ou influenciadas pelo programa ou projeto avaliado. Essa influência acontece na determinação das necessidades, do tipo de dados a serem coletados e dos critérios e valores a serem utilizados na formação de juízo de valor sobre o objeto avaliado. (Chianca et al, 2001, p. 23) 2.3. OBJETIVOS ECONÔMICOS VERSUS OBJETIVOS SOCIAIS O conceito de projeto e programa surgiu no mercado. Assim, toda a teoria de administração de projetos foi desenvolvida nesse contexto. É óbvio pensar que não é possível utilizar as teorias de administração de projetos da mesma forma no Terceiro Setor e no mercado. No mercado, o objetivo final está quase sempre ligado ao lucro e ao aumento de valor da empresa, de tal forma que o conceito de eficiência sempre aparece como de fundamental relevância. No Terceiro Setor, no entanto, os objetivos estão ligados ao setor público, fato que deve ser considerado ao se pensar em métodos de avaliação. Assim, nos objetivos do Terceiro Setor não aparece o lucro, nem estes estão necessariamente ligados apenas à eficiência. Fuguitt e Wilcox (1999, p ) apresentam os objetivos que um programa do setor público podem perseguir: 15

20 Eficiência No fim do século XIX, Pareto já apresentava um conceito de eficiência. Segundo este conceito, uma política qualquer será superior (ou mais eficiente) se conseguir aumentar os ganhos sociais sem prejudicar ninguém, ou compensando os prejudicados. Essa definição não era totalmente adequada, uma vez que é rara uma política que não prejudique algum grupo e as compensações que existem não são automáticas. Assim, uma nova definição foi desenvolvida e chegou se ao chamado critério de Kaldor Hicks, que diz que a eficiência está sendo atingida quando alguma política gera mais benefícios que custos, não importando quem recebe os benefícios, quem suporta os custos e se os prejudicados são recompensados. Diminuição da desigualdade (distributional equity) O critério da eficiência não diz nada a respeito da igualdade de uma sociedade. Uma política qualquer, dita eficiente, pode trazer benefícios para apenas parte da sociedade, aumentando sua desigualdade. No entanto, os efeitos distributivos de qualquer política não podem ser ignorados pelos tomadores de decisão, sendo que o objetivo de alguma política pode não ser necessariamente a eficiência no uso dos recursos, mas sim a promoção da eqüidade. Sustentabilidade O conceito de sustentabilidade não é unânime entre os estudiosos, mas é normalmente associado com os impactos de determinada política para as gerações futuras. Assim, uma política é dita sustentável quando não impacta negativamente nas gerações futuras. Um exemplo seria uma política de desenvolvimento da Amazônia que incluísse a industrialização maciça da área florestal. Essa política poderia muito bem atender aos anseios da população local, diminuindo a desigualdade. Porém não promoveria a sustentabilidade, uma vez que a destruição da reserva natural certamente prejudicaria a sociedade futura. 16

21 Direitos humanos Existem dois tipos de critérios possíveis no momento de analisar alguma política em particular. O princípio deontológico enfatiza o dever ético do administrador público de proteger os direitos humanos. Assim, uma política que possa causar qualquer malefício a algum indivíduo deve ser evitada. A ética ulititarista base do análise de custo benefício afirma ao contrário que o que é certo é o que irá maximizar o que é bom (Beatley apud Fuguitt e Wilcox, 1999, p. 41), não importando se causa algum prejuízo a alguém neste processo. A idéia é que, desde que no cômputo geral a sociedade saia ganhando, qualquer coisa é permitida. Estes dois critérios oferecem diferentes respostas para os problemas de escolha. Por exemplo, se todos os seres humanos tem direito a respirar ar puro, política de poluição zero devem ser permitidas. Uma análise segundo o critério utilitarista poderia chegar a uma conclusão diferente, priorizando investimentos em outras áreas que possam causar um impacto mais significativo na vida das pessoas. Direitos da natureza Este objetivo diz respeito a responsabilidade do ser humano em relação aos recursos naturais. Apesar de haver algum debate a respeito de se a natureza e seus componentes (animais, pedras, plantas, ecossistemas) possuem direitos, o tomador de decisão deve levar em conta os custos ambientais na sua análise, se não por uma perspectiva deontológica (onde os humanos tem o dever moral de proteger o ambiente), pelo menos pelo impacto que determinada política pode ter na sustentabilidade e nos direitos humanos. 17

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