Resíduo Hospitalar: uma questão de saúde pública e ambiental

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1 ISSN Resíduo Hospitalar: uma questão de saúde pública e ambiental Gabriel Marreiros Ribas Fernandes (LATEC/UFF) Resumo: O trabalho vem demonstrar a importância do manuseio correto, da coleta e do descarte final dos Resíduos Hospitalares a fim de minimizar os efeitos que eles podem causar ao meio ambiente e aos pacientes envolvidos direta e/ou indiretamente a esses processos. Palavras-chaves: Meio Ambiente, Resíduos Hospitalares e Contaminação

2 1. Introdução O que é Resíduo Hospitalar (RH)? (...) resíduos resultantes de atividades médicas desenvolvidas em unidades de prestação de cuidados de saúde, em atividades de prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e investigação, relacionadas com seres humanos ou animais, em farmácia, em atividades médicolegais, de ensino e em quaisquer outras que envolvam procedimentos invasivos, tais como acupuntura, piercings e tatuagens. (Decreto-Lei nº.178/2006, 5 de Setembro, p alínea z) Situação Problema As práticas incorretas na deposição, recolha, eliminação e transporte dos resíduos sólidos hospitalares, no interior e exterior das unidades de saúde, acarretam riscos potenciais para o homem e para o meio ambiente. A poluição ambiental provocada pelos resíduos hospitalares tem sido considerada e estudada cada vez mais, uma vez que os órgãos competentes têm mostrado a sua preocupação, já que os mesmos são despejados muitas vezes de maneira incorreta se tornando um grande problema ambiental e de saúde pública. Os Resíduos Hospitalares ou como é mais comumente conhecido lixo hospitalar, sempre se constituiu um problema bastante sério para os Administradores Hospitalares, devido principalmente à falta de informações a seu respeito, gerando mitos e fantasias entre funcionários, pacientes, familiares e principalmente a comunidade vizinha às edificações hospitalares e aos aterros sanitários. A atividade hospitalar é por si só uma fantástica geradora de resíduos, inerente à diversidade de atividades que se desenvolvem dentro de outras empresas. A melhor maneira de mitigar esses problemas é sem dúvida o treinamento dentro das unidades responsáveis pela geração desses resíduos, uma vez que o treinamento é uma exigência do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). 1.2 Justificativa Quando falamos em resíduos hospitalares, não estamos tratando de alguma coisa homogênea e hermética. Acondicionamento, manuseio, transporte e tratamento são diferentes etapas que devem ser observadas com responsabilidade, uma a uma. A capacidade que uma população e seus governantes têm de assimilar o conceito de que o lixo disposto de forma inadequada, sem qualquer forma de tratamento, pode ser uma série ameaça à saúde pública, está diretamente relacionada às soluções que esta população adota como tratamento final para o seu lixo. O lixo hospitalar merece uma atenção especial em todas as etapas já relacionadas acima, em decorrência dos riscos graves e imediatos que pode oferecer. Dependendo do tipo residual hospitalar, podemos determinar diferentes maneiras de tratamento. 2

3 Quando esses resíduos são descartados de maneira inadequada no meio ambiente, provocam alterações no solo, na água e no ar, além da possibilidade de causar danos a diversas formas de vida. Se os resíduos sólidos já garantem grandes preocupações, imagina os resíduos hospitalares. 1.3-OBJETIVO O objetivo deste artigo é apresentar a importância ambiental do gerenciamento dos Resíduos Hospitalares, assim como o cuidado com a saúde dos trabalhadores da área de saúde e os pacientes envolvidos direta ou indiretamente neste processo. 2-Fundamentação Teórica 2.1 Resíduos Sólidos de Saúde Segundo as normas sanitárias, os resíduos sólidos de saúde devem ser rigorosamente separados e cada classe deve ter um tipo de coleta e destinação. Ainda de acordo com a norma, devem ser separadas conforme um sistema de classificação que inclui resíduos infectantes lixo classe A, como restos de material de laboratório, seringas, agulhas, hemoderivados, entre outros, perigosos classe B, que são os produtos quimioterápicos, radioativos e medicamentos com validade vencida e o lixo classe C, o mesmo produzido nas residências, que pode ser subdivido em lixo orgânico e reciclável. Os resíduos da classe A devem ser acondicionados em sacos plásticos grossos, brancos leitosos e resistentes com simbologia de substância infectante (Imagem 01). Os mesmo devem ser incinerados ou esterilizados. Imagem 01: saco plástico grosso e leitoso contendo resíduos infectantes 3

4 Os perfuro cortantes deverão ser acondicionados em recipientes rígidos, estanques, vedados e identificados com a simbologia de substância infectante (Imagem 02). Imagem 02: recipiente para resíduos perfuro cortantes. Os resíduos do grupo A não podem ser reciclados. Os resíduos da classe B devem seguir as normas de uma legislação própria a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) e devem proceder de acordo com essa especificação, sendo gerador do resíduo responsável pela sua destinação. Já os resíduos da classe C, devem ser acondicionados em embalagens próprias de acordo com o tipo de material, e sua destinação é a reciclagem interna ou a entrega, ou a venda como sucata Segregação O fenômeno da descartabilidade é o responsável pelo aumento cada vez maior do volume de resíduos em estabelecimentos de saúde, determinando que as ações sejam implementadas no sentido de haver uma segregação na origem da geração. Quando ocorre a mistura de resíduos, misturando perigosos e não perigosos todos se tornam perigosos. A NBR 12807/93 define a segregação como operação de separação de resíduos no momento da geração, em função de uma classificação previamente adotada para estes resíduos. A escassez de recursos humanos capacitados para gerenciar problemas ambientais decorrentes de programas inadequados ou até mesmo inexistentes quanto ao manejo de resíduos sólidos, é uma realidade nos serviços de saúde. Formaggia (1995) sugere que os profissionais de saúde deveriam 4

5 se preocupar com os resíduos gerados por suas atividades, objetivando minimizar riscos ao meio ambiente e à saúde das populações que eventualmente possam ter contato com os resíduos. Para que a segregação seja eficiente, é necessária uma classificação prévia dos resíduos a serem separados. Deve ser estabelecida uma hierarquia em função das características dos materiais, considerando as questões operacionais, ambientais e sanitárias. A segregação em várias categorias é recomendada como meio de assegurar que cada um receba apropriado e seguro manejo, tratamento e disposição final. 2.3 Armazenamento dos resíduos hospitalares De acordo com a Portaria 282 de 17 de Novembro de 1982 do Ministério da Saúde, é obrigatória a instalação de sala ou serviço destinada ao preparo da medicação e do material usado na assistência ao paciente, e prevê também a sala de utilidades ou expurgos, destinada à limpeza, desinfecção e guarda de utensílios utilizados na assistência ao paciente. 2.4 Tratamento dos resíduos hospitalares A partir de 1989 foi estabelecida uma nova filosofia na gestão de tratamento dos resíduos, na qual foram determinadas e consagradas que somente uma pequena quantidade de resíduos hospitalares deve receber tratamento específico. O objetivo de tratar resíduos infecciosos é reduzir os riscos associados com a presença de agentes patogênicos. Não há consenso sobre os métodos, e a melhor solução deverá ser resultante da combinação entre variáveis locais como condições geográficas e infraestrutura, combinadas com a disponibilidade de recursos e quantidade de resíduos. Os tratamentos existentes são:. Valas sépticas;. Incineração (Imagem 03);. Autoclavagem;. Desinfecção Química;. Microondas. 5

6 2.4 Disposição final dos resíduos hospitalares Imagem 03: Funcionamento de um incinerador A resolução CONAMA 05/93 define os sistemas de disposição final de resíduos sólidos de saúde, como o conjunto de unidades, processos e procedimentos que visam o lançamento do resíduo no solo, garantindo-se a proteção da saúde pública e conduzindo a minimização do risco ambiental. É a última etapa do Resíduo Sólido de Serviço de Saúde (RSSS). No Brasil são dispostos (1) céu aberto; (2) vazadouros; (3) alimentação de animais; (4) aterros sanitários e (5) valas sépticas. É recomendável que se tomem medidas para isolar e tornar indevassável o aterro e para proteger águas superficiais e subterrâneas, bem como o controle de gases e líquidos, e a drenagem de águas pluviais. É obrigatório que toda unidade de serviço de saúde tenha o seu Plano de Gerenciamento de Resíduo Sólido (PGRSS), conforme estabelecido pela RDC ANVISA nº 358/05. Ele é composto por etapas, elaboradas pelos geradores de resíduo, de acordo com as suas características diagnosticadas. Considera uma fase infra-estabelecimento e outra extra. A etapa de maior importância é a infra-estabelecimento. Nestas etapas estão envolvidos (1) Diagnóstico inicial; (2) Conteúdo básico do Plano de Gerenciamento e (3) Complementação e procedimentos previstos. O conteúdo básico do plano deve conter a seguinte classificação: (A1) Material biológico; (A2) Sangue e hemoderivados; (A3) Cirúrgico; (A4) Material perfuro cortante; (A5) Animais contaminados e (A6) Assistência ao paciente e sobra de alimentos. 3- Um Estudo de Caso no Hospital & Clínica São Gonçalo (HCSG) 6

7 3.1 O Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Saúde (PGRSS) O Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos do HCSG funciona seguindo todas as regras estabelecidas pelo CONAMA e pela Secretaria de Saúde do Estado. Como todo PGRSS tem como objetivo:. Criar práticas de minimização de resíduos. Substituir os materiais perigosos, sempre que possível, por outros de menor periculosidade;. Reduzir a periculosidade e a quantidade dos resíduos;. Propiciar a diminuição dos riscos à saúde pública, proteção dos trabalhadores e a preservação do meio ambiente, por meio de medidas preventivas e efetivas;. Criar coletas de materiais recicláveis;. Criar o manual de boas práticas em manejo de resíduos sólidos;. Criar procedimentos básicos e adequados para o correto gerenciamento dos resíduos sólidos;. Melhorar as medidas de segurança e higiene no trabalho;. Minimizar os riscos sanitários e ambientais derivados dos resíduos sólidos (contaminação do solo, da água, do ar...);. Desenvolver um trabalho de prevenção contra os riscos potenciais decorrentes do manuseio dos resíduos sólidos, com o pessoal da coleta. Atualmente o HCSG tem capacidade de atender por dia uma média de 250 pessoas na emergência e uma capacidade de internação de 200 pessoas. Todo o resíduo gerado é coletado e encaminhado aos expurgos local onde os resíduos devem ser armazenados até serem levados ao seu destino final, pela empresa responsável. O Hospital optou por terceirizar o serviço de recolhimento dos resíduos sólidos de saúde, por entender que dessa maneira seria mais fácil a administração e também por uma questão econômica Metodologia do Recolhimento dos resíduos hospitalares Segundo pôde ser observado, através de visitas técnicas, o recolhimentos dos resíduos sólidos no HCSG é feito por funcionários capacitados, através de reuniões e palestras ministradas pela enfermeira infectologista responsável da unidade, seguindo os padrões exigidos (uso de equipamentos de proteção individual e material de coleta necessários). Vale ressaltar que todos os funcionários recém-contratados pela unidade, passam por um treinamento específico onde é ensinado a forma correta de manuseio, coleta, armazenamento, transporte e descarte final dos resíduos. Ao final do treinamento, os funcionários assinam a ata do treinamento, onde deixam claro que estão aptos para o trabalho. Todos recebem os equipamentos de proteção individual (EPI Imagem 04), conforme exigido. Os funcionários já contratados, também passam por uma reciclagem a cada 03 (três) meses, para que todos possam estar atualizados das mudanças que podem vir a ocorrer. 7

8 Imagem 04: Equipamentos de Proteção Individual (EPI) Assim como os funcionários da limpeza responsáveis pela coleta dos resíduos, os funcionários da enfermagem, que são os responsáveis pelo manuseio dos materiais e pelo descarte nos locais corretos, também passam por treinamentos, palestras e reuniões. É a partir deles que se inicia todo o processo de coleta dos resíduos. Uma vez que eles desprezam de maneira errada o resíduo, todo o processo desde a coleta até o descarte final pode ser comprometido. Desde que o PGRSS foi implantado, os resultados começaram a aparecer. Segundo o avaliador de desempenho do HCSG, o número de acidentes de trabalho caiu consideravelmente entre os funcionários envolvidos no processo de recolhimento de resíduos sólidos hospitalares, conseguindo assim, alcançar um dos seus objetivos. 4 - Resultado Através do avaliador de desempenho e do PGRSS, podemos observar que o treinamento é de fato fundamental para todo o processo de recolhimento de resíduos sólidos de uma unidade de saúde, seja ela de pequena, médio ou grande porte. É através deles que observamos a eficiência e a importância desses treinamentos. 8

9 Profissionais bem treinamentos, bem equipados e bem amparados pela sua unidade, só tendem a trabalhar com mais segurança e mais atenção, resultando assim em menos acidentes de trabalho, menos contaminações para os mesmos, para a sociedade e também para o meio ambiente. 5-Conclusão As atividades ligadas ao setor de saúde são fundamentais no contexto de todos os aglomerados humanos e organizados. No entanto, o comprometimento ambiental gerado pela gestão inadequada dos resíduos sólidos dos serviços de saúde, é reconhecido tanto pela comunidade científica como pelas autoridades sanitárias e pela população em geral. Logo, a contribuição de alternativas tecnológicas que viabilizem menor impacto ambiental sobre os meios físico, biótico e socioeconômico que constituem o meio ambiente, é uma necessidade urgente para a melhoria de qualidade de vida no atendimento prestado pelos serviços de saúde às populações. 6- Referências: GUNTHER, Wanda (resp.). Curso de elaboração de plano de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde. São Paulo: USP/FSP, fev ODA, Leia, ÁVILA, Susana et. al. Biossegurança em laboratórios de saúde pública. Brasília: Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz, Ministério da Saúde, ZANON, U. Riscos Infecciosos imputados ao lixo hospitalar: realidade epidemiológica ouficção sanitária? Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 23, no 3, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde ambiental e gestão de resíduos de serviços de saúde. Projeto Reforsus. Brasília: Ministério da Saúde, ASSAD, Carla, COSTA, Gloria & BAHIA, Sergio Rodrigues. Manual de Higienização de Estabelecimentos de Saúde e Gestão de seus Resíduos. Rio de Janeiro: Comlurb-Ibam, BRASIL. Resolução CONAMA nº 05/1993. Define as normas mínimas para tratamento de resíduos sólidos oriundos de serviços de saúde, portos e aeroportos e terminais rodoviários e ferroviários. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, n. 166, 31 ago., Seção 1. Brasília, p ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7500: Símbolos de Riscos Manuseio para o Transporte e Armazenamento de Materiais: Simbologia. Rio de Janeiro,

10 FORMAGGIA, D. M. E. Resíduos de Serviços de Saúde. In: Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Serviço de Saúde. São Paulo: CETESB, p SANCHES, P. S. Caracterização dos Riscos nos Resíduos de Serviço de Saúde e na Comunidade. In: Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Serviço de Saúde. São Paulo: CETESB, p BIDONE, F. R. A.; POVINELLI, J. Conceitos Básicos de Resíduos Sólidos. São Carlos: EESS/USP, p. 10

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