CAPÍTULO 4 INTEGRAÇÃO DA REGIÃO: PARANÁ, BRASIL E MERCOSUL. Jandir Ferrera de Lima

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1 CAPÍTULO 4 INTEGRAÇÃO DA REGIÃO: PARANÁ, BRASIL E MERCOSUL Jandir Ferrera de Lima

2 INTRODUÇÃO A integração regional e seus impactos, na Região Oeste do Paraná, devem ser analisados por alguns prismas distintos. Um referente à integração local, envolvendo as áreas internacionais mais próximas da Região. No caso seria a Região frente à economia do nordeste argentino e do sudeste paraguaio, o que envolve uma discussão sobre o papel da fronteira. Um segundo elemento norteador de uma discussão a respeito da integração regional seria referente ao papel da Região, no Brasil. Neste sentido, seria cabível analisar a integração da Região com os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Neste caso, o papel da economia desta Região, em relação aos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e do centro industrial brasileiro, caracterizado pelo Estado de São Paulo. Um terceiro enfoque seria a integração da Região Oeste do Paraná no Mercosul, ou seja, na Bacia do Prata. Como tratar da Bacia do Prata envolve uma série de elementos geopolíticos, será enfocado apenas o aspecto econômico da integração. De certa forma, o segundo elemento receberá um tratamento mais apurado neste documento, no que tange a situação Paraná-Brasil. Por isso, este Capítulo concentrar-se-á apenas no primeiro e no terceiro tópicos. Evidentemente que todo e qualquer arranjo de integração passa pelo crivo do Governo Federal, já que o mesmo é o norteador e gerenciador da política econômica e, assim, dos acertos internacionais. Por isso, ao se discutir a integração do Paraná com o Mercosul, indiretamente está se relacionando acertos oriundos, muitas vezes, de articulações surgidas na esfera federal. Frente a estes aspectos, este capítulo se divide em duas seções principais. A primeira trata do Paraná no Mercosul, ou seja, na Bacia do Prata e a segunda, do Paraná junto aos seus vizinhos de fronteira. Como a Região Oeste do Paraná possui um pólo agroindustrial forte e consolidado, deter-se-á nos impactos da integração junto à agroindústria e à agropecuária.

3 A REGIÃO OESTE DO PARANÁ E O PRATA Discutir a integração regional da Região Oeste do Paraná envolve uma discussão sobre a Bacia do Prata, que é composta pelos rios que deságuam no estuário do rio do Prata, sendo que os rios Paraguai, Uruguai e Paraná, são os mais importantes. Na realidade, a Bacia do Prata, localizada no MAPA 4.1, é uma Região histórica e geograficamente definida, cujo projeto de exploração econômica data do período do descobrimento do Brasil. MAPA 4.1 BACIA DO PRATA Por isso, o Sul do Brasil, o Uruguai, o Paraguai, o Sul da Bolívia e a Argentina, até o século XIX, foram um projeto dos impérios português e espanhol, com uma raiz de exploração comum, procurando a transferência de riqueza a favor das metrópoles. No entanto, após a independência dos países do Prata e sua suposta hegemonia política e econômica, a forma de exploração mudou de feição em detrimento de interesses que estão geograficamente situados em regiões distintas destes países. Com isso, a própria ocupação da Região Oeste do Paraná e a forma como foi explorada refletem diretamente estas questões históricas. Num momento, situado na segunda metade do século XIX, houve a organização de grupos locais que exploravam a madeira, a erva-mate e a existência de supostas riquezas minerais nos leitos

4 157 dos rios. Estes grupos eram formados por argentinos e paraguaios, sendo que estes últimos, em sua maioria, constituíam a mão-de-obra ocupada na transformação dos recursos naturais. Os argentinos constituíam um grupo dominante, controlador dos capitais e das empresas que geriam as atividades econômicas na Região. A sede destes capitais se situava em Buenos Aires. Assim, se verificou uma série de interesses de grupos portenhos, ao norte da República Argentina, de certa forma drenando recursos que eram transferidos a Europa, via Buenos Aires. A forma de exploração da mão-de-obra paraguaia, por capitais argentinos, mudou de configuração no final do século XIX e no inicio do século XX, com as definições das fronteiras brasileiras, através da chancelaria do Barão de Rio Branco e da entrada de militares brasileiros nesta área. A ocupação por brasileiros e a expulsão dos grupos argentinos teve seu ponto culminante na década de 1920, através do movimento tenentista, e sua consolidação com o governo Vargas e sua política de ocupar os espaços vazios, principalmente a Oeste do Brasil, onde A questão política com a Argentina lhe colocava como um suposto inimigo no Cone Sul, a ameaçar a hegemonia brasileira na América do Sul. Este fato serviu de elemento delineador de uma política de ocupação e colonização da Região Oeste Paraná por colonos oriundos do Sul do Brasil, trazidos por empresas colonizadoras e madeireiras. A forma como estes colonos se organizaram para produzir, a estrutura de suas propriedades e as cidades que surgiram dos assentamentos, traçaram o perfil do que é a Região Oeste na atualidade e seus municípios mais dinâmicos. Conseqüentemente, traça a situação geoeconômica da Região em relação aos seus vizinhos e o seu perfil produtivo, que formou uma base de exportação assentada durante estes últimos anos na produção de trigo, milho, soja e na agroindustrialização de carnes, principalmente frangos e suínos. 4.3 A ESTRUTURA PRODUTIVA DO OESTE PARANAENSE NO PRATA O perfil competitivo da economia da Região Oeste do Paraná no Prata e, conseqüentemente, no Mercosul, deve-se a forma como foi estruturado seu aparelho produtivo e, principalmente, o perfil dos custos de produção e de transportes para colocar suas mercadorias junto aos consumidores dos outros países.

5 158 Evidentemente, esse perfil muda a cada ano, na medida em que vão se incorporando novas técnicas de produção, novas tecnologias, novos processos de diversificação e se viabilizando ramais e formas de transporte, que tornam o preço das mercadorias e sua competitividade mais em conta na Região e fora dela. No entanto, na atualidade, alguns destes elementos devem ser prioritários, já que há nos produtos mais sensíveis a competição no Cone Sul. Entre eles, pode-se destacar os cereais (milho, trigo, arroz, cevada), lácteos (leite, queijo), frutas temperadas (uva, pêssego, pêra, ameixa, maçã, entre outros), hortícolas (alho, batata, cebola), carnes (bovina e couros) e oleoginosas (soja e girassol). Essa sensibilidade fica patente ao observa-se o QUADRO 4.1, em que são apresentados os custos de alguns produtos. QUADRO CUSTO DE ALGUNS PRODUTOS NO MERCOSUL (EM US$/TONELADA) PAÍSES PRODUTO Brasil Argentina Paraguai Uruguai Soja 149,07 131,35 173,49 191,26 Trigo 169,73 71,40 198,25 84,40 Milho 113,56 75,47 99,57 82,18 Cebola 102,00 59,02 146,59 - Alho 533,39 425,18-425,12 Algodão 774,00-725,33 - Carne Bovina 882,99 417,88-811,41 Frangos 665,34 768, Suínos 739,21 733,53 771,96 - FONTE: PERONDI (1997). Pelo QUADRO 4.1, pode-se verificar diferenças exorbitantes de custos para produtos que são produzidos no Brasil. Nota-se diferenças de custos em mais de 40% para o milho brasileiro em relação aos outros países e, em mais de 50% para o trigo e a cebola. Na produção de carne bovina esta diferença fica acima de 60%. A agropecuária na Região Oeste do Paraná não possui uma estrutura de custos muito diferente da média brasileira, apesar das suas características geográficas permitirem uma mecanização mais intensiva, melhorando a sua posição relativa na produção de soja. Como a soja brasileira é um produto típico de exportação, o impacto da concorrência dos países do Cone Sul sobre a Região é mais modesto, não podendo se afirmar o mesmo do trigo, cuja estrutura produtiva vem perdendo espaço para outras culturas no decorrer do tempo.

6 159 Sendo assim, em relação à produção de alimentos in natura, a Região sente mais os efeitos da concorrência sobre a produção de cebola, batata e hortícolas, esta última com um crescimento de 70% na sua importação nos últimos anos. Sem contar no caso do leite, cujos ganhos de escala na Argentina e no Uruguai lhes possibilita vantagens absolutas e comparativas sobre a produção paranaense. Já no caso do algodão, a sua importação dos países do Mercosul, feita pelo Estado do Paraná, em especial do Paraguai e da Argentina, declinaram em torno de 35% nos três últimos anos, o que se reflete na expansão da área plantada e no incentivo concedido aos seus produtores. Por outro lado, no segmento de carnes, a Região Oeste do Paraná recebeu investimentos diretos do grupo Macri e de algumas cooperativas em joint venture com grupos estrangeiros, para exploração deste segmento, principalmente no abate de frangos. Além dos investimentos deste grupo, algumas cooperativas da Região se estruturaram para a construção de plantas industriais para exploração desta atividade, o que demonstra um melhor potencial produtivo da Região sobre os parceiros do Cone Sul neste segmento. Em todo caso, a melhoria das condições de competitividade da agropecuária da Região em muito depende dos rumos da política agrícola do Governo Federal e das possíveis salvaguardas que venham a ser firmadas junto ao Tratado de Assunção (1991), que instituiu o Mercosul. No entanto, o setor industrial da Região conseguiu encontrar mercado para boa parte de sua produção. Um exemplo é o caso das fecularias, cuja produção em grande parte é exportada para Argentina, especificamente para o pólo industrial de Córdoba. Além disso, a mudança na política cambial brasileira, em janeiro de 1999, contribuiu para a melhoria dos termos de troca dos produtos industrializados brasileiros, transformando a Região numa rota de comércio promissor para o escoamento da produção de outros centros do Brasil. Deve-se ressaltar, ainda, conforme JESUS (1999), que nesta década alguns gêneros industriais conseguiram melhorar seu posicionamento frente às exportações do Paraná para o Mercosul, entre eles estão os têxteis, cuja evolução no intercâmbio comercial foi de 43%; bebidas, com uma evolução de 0,81%. Por outro lado, até o inicio de 1999, antes da mudança na política cambial, alguns gêneros encontravam-se numa situação frágil, entre eles o de

7 160 produtos alimentares, com uma evolução negativa no intercâmbio em torno de 23%; o vestuário, com 24%, o mobiliário com 8%. Como estes gêneros possuem uma estrutura produtiva bem diversificada na Região, serve como referência sobre a concorrência que pode ser enfrentada pela Região no intercâmbio comercial. Em todo caso, a mudança no câmbio deve ter barateado em torno de 30% os produtos brasileiros, o que pode significar uma melhoria no intercâmbio comercial a favor da Região para os próximos meses, desde que suas mercadorias estejam adequadas aos padrões internacionais de qualidade e o Brasil consiga manter e melhorar sua posição frente aos diversos acordos comerciais bilaterais que vem desenvolvendo nos últimos anos, em especial com a Argentina. 4.4 O OESTE PARANAENSE E A INTEGRAÇÃO MEDITERRÂNEA A Região Oeste do Paraná está próxima a uma área sui generis no Cone Sul, que é a Região mediterrânea do rio Paraná em áreas internacionais, conforme pode se observar no MAPA 4.2. MAPA 4.2 A REGIÃO MEDITERRÂNEA DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARANÁ Oeste do Paraná Nordeste Argentino A Região Oeste e as áreas em cor amarela e laranja no MAPA 4.2 são muito similares, com exceção da língua. Isto se deve em parte a sua formação histórica e a características

8 161 geográficas. O Nordeste argentino e o Sudeste paraguaio são regiões de clima tropicais, cujo eixo produtivo em muito se aproxima das atividades agropecuárias brasileiras. Isto tem levado a uma proximidade nas relações comerciais de ambas as regiões. Isso se acentua em áreas de divisa seca, como é o caso do Sudoeste e do Oeste catarinense, facilitando a entrada e o intercâmbio de mercadorias e pessoas. Essas relações levam a se pensar a possibilidade de uma integração intra-mercosul, alavancada nos municípios da Região, principalmente pelo interesse das municipalidades de Corrientes e Posadas (Argentina), Ciudad de Leste (Paraguai), Cascavel e Foz do Iguaçu (Brasil), cujo Fórum Permanente dos Municípios do Mercosul poderá vir a tornar-se um elemento aglutinador destes interesses. As possibilidades desta integração da região mediterrânea se acentuarão com a queda total das barreiras alfandegárias, a melhoria na estrutura dos transportes, principalmente no tocante a implementação da hidrovia, aumento da capacidade de escoamento dos ramais ferroviários e rodoviários na Região e a com a defesa dos seus interesses junto aos centros de decisão do Mercosul. Para isso, faz-se necessário o desenvolvimento de um programa binacional de desenvolvimento fronteiriço, objetivando potencializar a capacidade produtiva da Região, estabelecer novas formas de complementação produtiva e elaborar estratégias conjuntas de comercialização e produção. 4.5 O OESTE DO PARANÁ E A REGIÃO SUL A história da Região Oeste do Paraná está atrelada ao dos movimentos migratórios oriundos do Sul do Brasil, em especial do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A formação cultural e a forma de exploração econômica característica desta Região é um fato marcante na organização das propriedades dos colonos de origem germânica e italiana em seus locais de origem. Por isso, a estrutura de propriedade da terra refletiu tanto os interesses das colonizadoras quanto à forma de organização dos pioneiros.

9 162 Ressalta-se, ainda, que até a década de 1980, a Região Oeste do Paraná foi fronteira de ocupação agropecuária com a incorporação de novas terras ao cultivo de grãos e a criação de animais, o que marca um fluxo migratório acentuado em períodos recentes. Sendo assim, os laços familiares e culturais fazem com que a população tenha uma certa identidade com os povos do extremo sul, guardando características muito semelhantes. Por outro lado, em termos econômicos, o parque agroindustrial de aves e suínos tornou-se um comprador de insumos, principalmente de Santa Catarina, criando um intercâmbio comercial importante com as regiões Oeste e Sudoeste catarinense. 4.6 O OESTE DO PARANÁ E O SUDESTE DO BRASIL Com o avanço do pólo automobilístico no Paraná e a nova fase de investimentos industriais que o Estado vem passando, demonstra uma nova reordenação das atividades produtivas que dantes estavam concentradas no Estado de São Paulo. Por isso, a proximidade da Região com a Argentina e o Paraguai, além de servir de caminho ao extremo Sul do País, pode abrir um leque de oportunidades capitaniada pela sua posição geográfica. No entanto, isto irá depender de uma série de fatores, entre eles: um projeto integrado de desenvolvimento fronteiriço que implique em garantias e vantagens aos novos investimentos na Região, a melhoria na infra-estrutura de transportes e possibilidades de diversificação na base produtiva que implique em melhoria no emprego e na renda. Neste aspecto se visualizariam questões ligadas a projetos de turismo, melhoria dos indicadores sociais e avanços na política agrícola de forma a beneficiar os produtores da Região. Deve-se ressaltar ainda, que outro elemento importante neste processo de integração é a própria hidrovia.

10 CARACTERIZAÇÃO DA HIDROVIA DA BACIA DO RIO PARANÁ Na estrutura hidroviária da Bacia do Prata, a hidrovia do rio Paraná assume uma importância vital, já que os principais rios do Prata deságuam nela, que encontra seu fluxo final no rio do Prata, entre os portos de Buenos Aires e Montevidéu. Os dois principais eixos hidroviários da Bacia do Rio Paraná, de vital importância para o Brasil, são os da hidrovia Paraguai - Paraná e Tietê - Paraná. Isto se apresenta pela integração da grande região industrial de São Paulo, com insumos do Paraguai e gás natural da Bolívia, que poderão favorecer um novo modelo de desenvolvimento regional concentrado numa crescente tecnologia de indústrias avançadas num conjunto de cidades que no caso da Região Oeste do Paraná poderão vir a ser, entre elas, Cascavel, Medianeira e Toledo. Essa prerrogativa, torna clara a importância geopolítica que a estrutura hidroviária do rio Paraná assume frente ao seu aproveitamento econômico. Para MINVIELLE (1994), a avaliação da hidrovia, no espaço que envolve, pode considerar três situações, sustentadas numa interpretação geopolítica argentina: 1. Com as transformações mundiais e a internacionalização constante do capital, há uma necessidade de reflexão no bloco latino-americano, com a prerrogativa de se integrar para sobreviver; 2. A integração é uma necessidade clara que se acentua no dia-a-dia; 3. A integração no mercado mundial e a política macroeconômica de estabilização dos países do Cone Sul, criam uma necessidade imanente de aumentar e melhorar as exportações, causando uma necessidade de modernização e ganhos de qualidade no parque fabril, e a expansão das fronteiras agropecuárias em direção ao interior do continente; Assim, a integração por hidrovias coloca o Brasil em posição privilegiada, já que a infra-estrutura disponível ao longo do rio Paraná, tanto em represamento de águas, quanto na implementação dos corredores de exportação possibilitou ao mesmo, ganhos em termos de custo de transporte e integração espacial. Os corredores de exportação se concentram numa estrutura rodoviária e ferroviária, que é incrementada com a hidrovia ao longo do rio Paraná. A integração ferroviária pode ser visualizada no MAPA 4.3.

11 MAPA 4.3 INTEGRAÇÃO FERROVIÁRIA MATO GROSSO - PARANÁ 164

12 165 Pelo MAPA 4.3, pode-se observar o eixo de integração que a ferrovia representa. Neste aspecto, as obras da Ferroeste em Guaíra, integrando a microrregião de Toledo via trazer novo dinamismo a Região, desde que se consiga vencer as dificuldades no escoamento a partir de Guarapuava, na Região Centro-Oeste do Estado, cuja capacidade de transporte da malha ferroviária até o porto de Paranaguá é menor em virtude dos acidentes geográficos e a infra-estrutura atual. Por isso, poderá tornar-se um gargalo na expansão da capacidade de transporte. Isto vem a confirmar a necessidade da infra-estrutura de integração que norteia o processo de crescimento e desenvolvimento regional, e sua conseqüente interação com os pólos industriais. Essa interação mantém a coesão dos agentes econômicos regionais em torno de um pólo. No caso da região norte e nordeste da Argentina, pela sua proximidade com a Região Oeste do Paraná e a Região Oeste de Santa Catarina, no Brasil, fazendo com que a mesma se acerque mais economicamente destas regiões brasileiras, um planejamento em termos de infra-estrutura específica a integração destas áreas se faz preeminente. Isto se justifica porque logo que uma região se adianta em relação à outra, há uma tendência ao incremento das suas atividades, concentrando o processo de crescimento e desenvolvimento em detrimento às outras. O que coloca o Paraná e São Paulo numa situação privilegiada, em termos de dinâmica industrial, frente os parceiros do Cone Sul. Para MYRDAL (1965), após iniciar o processo de crescimento em determinadas regiões, ocorre um movimento de fluxo de capitais, mercadorias e mão-de-obra para ampará-lo. A ocorrência deste fato, tende a minar impulsos dinâmicos nas regiões periféricas ou semi-estagnadas, em favor da região em arrancada. Isto acontece porque a Região em questão já possui uma estrutura de transportes e comunicação melhoradas, níveis mais altos de educação e uma comunhão mais dinâmica de idéias e valores - todos os quais tendem a robustecer as forças para a difusão centrífuga da expansão econômica ou remover os obstáculos ao seu funcionamento (Myrdal, 1965, p.34). Como o rio Paraná é um rio internacional, os impulsos em termos de ganhos às empresas instaladas às suas margens, o tornam um pólo de integração, cuja característica principal é estar situada em uma região - fronteira, fomentando as relações comerciais num âmbito de integração.

13 166 No momento que esta integração propicia grandes benefícios, fomentam-se os projetos de sua internalização no centro dos Estados que compõem o bloco regional. Com isto, a hidrovia Tietê - Paraná, é o grande alavancador do eixo de interiorização da dinâmica gerada pela hidrovia do Mercosul ao grande parque industrial do interior paulista, principalmente quando o Porto de Santos é o ponto de embarque para o mercado europeu. De acordo com o Departamento Hidro-Aero-Ferroviário (1985), do Governo do Estado do Paraná, desde 1865 desenvolvem-se trabalhos referentes à viabilidade da navegação no rio Paraná e afluentes, visando uma integração viária no sentido leste-oeste. As seguintes hidrovias formam a Bacia Hidrográfica do Rio Paraná, em território brasileiro (DHAF, 1985): Paraná - Desde a foz do rio Iguaçu até a confluência dos rios Grande e Paranaíba, com aproximadamente 808 km; Paranapanema - Desde sua foz até o Salto Grande, com aproximadamente 421 km. O Paranapanema abrange km 2 no Estado do Paraná, formando a fronteira com o Estado de São Paulo, numa extensão de 329 km; Tietê - Desde sua foz até Mogi das Cruzes, com aproximadamente com km; Pardo - Desde sua foz até o porto da Barra, com aproximadamente 170 km; Ivinheima - Desde sua foz até a confluência com o rio Brilhante, com aproximadamente 270 km; Brilhante - Desde sua foz até Porto Brilhante, com aproximadamente 79 km; Inhanduí - Desde sua foz até Porto Tupi, com aproximadamente 67 km; Paranaíba - Desde sua foz até Escada Grande, com aproximadamente 787 km; Iguaçu - Desde sua foz até Curitiba, com aproximadamente 1020 km. O rio Iguaçu abrange a maior bacia hidrográfica do interior do Estado do Paraná, com cerca de km 2 (MAACK,1981) Piracicaba - Desde sua foz até Paulínia, com aproximadamente 182 km. Numa boa parte destes rios, principalmente o Paraná e o Tietê, foram executadas obras de represamento de águas, formando lagos que possibilitaram a formação de excelentes vias navegáveis, se estendendo inclusive pelas vias secundárias.

14 167 As hidrovias secundárias, em muitos casos sem acréscimos de custos de construção e manutenção, proporcionam a aproximação de cidades, vilas, distritos industriais, sedes de fazendas, rodovias e ferrovias, portos fluviais e marítimos, com grandes reduções de custos operacionais no transporte de cargas (DHAF, 1985, p.02). Com isso, a importância da estrutura de navegação, como eixo de integração do espaço territorial, torna-se mais preeminente, principalmente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Apesar da importância dos rios citados anteriormente, os rios Tietê e Paraguai assumem um maior significado dentro da estrutura de navegação da Bacia Hidrográfica do Paraná. O primeiro, por estar estrategicamente situado em áreas de grande potencial industrial; o segundo, por ser um rio internacional, em cujo trajeto são escoados os minérios e produtos da República do Paraguai e da Bolívia, além de boa parte da produção mineral e agrícola dos estados do centro-oeste brasileiro.

15 168 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARROYO, M. & SCARLATO, F. C. (Org.). Globalização e espaço Latino-Americano. 2 ed. São Paulo: Hucitec-Anpur, DEPARTAMENTO HIDRO-AERO-FERROVIÁRIO(DHAF). O que há de planejamento e estudos do transporte hidroviário interior no Estado do Paraná. Curitiba: (DAHF). Mimeog., JESUS, G. E. O impacto do Mercosul na Indústria Paranaense. monografia de graduação. Toledo (PR): Depto. de Economia - UNIOESTE, MAACK, R. Geografia física do Estado do Paraná. Rio de Janeiro: J.O. Editora, MINVIELLE, S. E. Integração e hegemonia na Bacia do Prata. Novas estratégias do discurso geopolítico argentino ( ). - In: ARROYO, M. & SCARLATO, F. (org.), op.cit., MYRDAL, G. Teoria econômica e regiões subdesenvolvidas. Rio de Janeiro: Saga, PERONDI, J. A agricultura paranaense no Mercosul. monografia de graduação. Toledo (PR): Depto. de Economia - UNIOESTE, 1997.

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